Um minuto para o fim do mundo

5 5 - 11 de Junho de 2010


Notas iniciais
Vamos saber o que a Paty tem a dizer para a Lola: https://ataquesartisticosdamary.blogspot.com/2018/07/de-paty-para-lola.html Por mim eu postava as cartas como capítulos, mas aí poderia receber uma advertência ou algo do tipo mesmo as cartas fazendo parte da fic, então se você estiver acompanhando com o coração aberto, também te convido a conhecer meu blog...

— Com certeza deve ser algum macho que está bancando a estadia dela lá na Europa... — desabafou mamãe, ainda discutindo com papai a respeito das desconfianças dela com relação à índole de Patrícia. — Não é normal uma moça dessa idade que nem formação tem ir para a Europa sem eira nem beira.

Apenas a voz de mamãe reverberava na sala enquanto eu, com a porta do quarto entreaberta, segurava a carta por entre as mãos e lágrimas corriam pelo rosto. Aquela discussão havia me desgastado de tal modo que eu me surpreendia por ainda estar de pé.

Patrícia teve dois namorados e alguns relacionamentos menos sérios ao longo daqueles cinco anos de amizade, todavia antes de viajar estava solteira e nós passávamos bastante tempo juntas quando o trabalho e os estudos não nos ocupavam e impediam o contato físico. Embora mamãe não se dispusesse a saber, minha melhor amiga foi para a Europa por conta própria porque desde que saiu da escola e começou a trabalhar, jurou a si mesma e a quem a conhecesse que iria passar uma temporada no velho continente a fim de terminar o curso de inglês que precisou abandonar na época em que os pais se separaram, quando ela tinha treze anos.

O montante que Patrícia angariou foi a custo de muito esforço, de muitos dias inteiros forjando sorrisos que nem sempre queria dar, resistindo a dores nas costas e desaforos porque ela sabia que para realizar um grande sonho teria de se sacrificar porque ninguém faria nada por ela senão criticar e desencorajar.

E mesmo que Patrícia estivesse curtindo a Europa sendo bancada por um homem, isso lá era motivo de escárnio e desprezo? Caía pedaço reconhecer que uma moça poderia ir longe pelos seus próprios méritos? Por que a mania de desmerecer, de atacar a honra? Por quê?

— Nossa filha está apaixonada por outra mulher e você age como se eu tivesse dito que o café está pronto! — estrilou mamãe que esperava uma reação inflamada de papai, um barraco em família, uma lavação de roupa suja que chamaria a atenção do prédio inteiro.

— Eu sempre desconfiei de que nossa filha não fosse muito chegada em homem mesmo... — confessou papai, despreocupado, chacoteando mamãe.

— Você é um pateta, Amílcar! Um pateta!

— Deixa a menina em paz, Sueli.

— Com que cara a gente vai ficar diante dos parentes quando essa maluca aparecer aqui em casa com uma mulher?

— Com a mesma cara de sempre, ué. — retrucou papai. — Na sua família tem gente de sobra dentro do armário.

— Quem? — desafiou mamãe que desconfiava de um monte de gente, mas naquela hora queria tirar o dela da reta. — Quero os nomes, por gentileza.

Papai riu:

— O tempo dirá!

— Nossa filha, não! — Protestou Sueli, que até era simpatizante da causa LGBT desde que sua filha não fosse uma.

— Nossa filha, sim! E qual é o problema?

— Você me pergunta qual é o problema? Você ainda me pergunta?

— Deixa a Lola ser feliz, para de bancar a cafetina querendo empurrá-la pra cima daquele maluco do Iago. Susu, pode não ser o meu sonho nem o seu, mas a gente criou a Lola para o mundo, não para a gente. Se ela gosta de mulheres, o que é que a gente pode fazer? Acorrentar a menina na cama? Bater, xingar, chorar à toa? Não, né? Bater de frente não adianta. Você se lembra de quando o Júnior desistiu da faculdade? Não adiantava bater de frente, ele sabia o que queria. Eu como pai não vou colocar filha minha pra fora, já adianto minha posição e a minha palavra ainda tem poder nessa casa. Se ela sair, eu saio também.

— Você só pode ter ficado maluco, Amílcar!

— A Lola tem de quem herdar a natureza dramática! — acrescentou papai que apesar de ser desligado com datas, desatento a detalhes e nunca entender o porquê de as mulheres passarem longos minutos analisando todas as tonalidades de vermelho de uma linha de esmaltes, adotava uma postura lúcida num instante determinante. — O que é que faz de diferença se a Lola namora homem ou mulher? Ela já tem 21 anos de idade, é uma moça feita, esclarecida e, cá entre nós, ninguém merece ficar dentro do armário por tanto tempo!

— Eu não entendo. Sempre fui uma ótima mãe.

— Foi, sim. Mas nossa filha nasceu assim, Susu.

— Não nasceu assim coisa nenhuma. Foi tudo culpa dessa Patrícia.

— A Patrícia é uma boa moça. Se elas se gostam, o que a gente pode fazer?

— Nossa filha está obcecada por essa moça. Ela não é lésbica, só quer me irritar vindo com essa conversinha.

— Aceite a realidade, Susu.

— Queria saber onde foi que eu errei.

— Você está errando em falar todas aquelas coisas horríveis à sua própria filha.

— Eu criei a Lola muito bem e não vou deixar que essa Patrícia a corrompa. Eu bem que deveria ter desconfiado de que aquela moça não era boa coisa. Filha largada dá nisso! Não tem limite! Fica aí desencaminhando gente de bem.

Papai começou a assobiar uma música irritante até mamãe, por fim, se render.

— Com certeza você foi uma péssima influência para a Lola.

Para Sueli, a discussão ainda não estava encerrada.

— Não me surpreende que a Lola não consiga conversar com você, quem é que consegue? Você já se ouviu uma vez na vida? Você só grita, grita e grita com a Lola? Até eu no lugar dela preferiria estar com a Patrícia e mesmo que minha opinião não seja sequer ouvida, essa moça é de boa índole e se nossa filha nasceu assim, não foi obra da Patrícia — reagiu papai, irritado. — Meu pai saiu de casa pra viver com outra mulher, criou a mim e aos meus irmãos sem a ajuda de ninguém e eu não sou gay porque não tive pai presente, uma coisa não tem nada a ver com a outra, Sueli, vamos encarar os fatos. Nossa filha é o que é e isso não nos torna bons ou maus pais, apenas pais de uma pessoa que precisa, mais do que nunca, do nosso apoio, da nossa proteção. Pudera eu também passar um tempo longe desse hospício que é essa casa. Todo dia uma rusga, uma picuinha, não tem quem suporte...

— Quero saber onde foi que eu errei! — Murmurou Sueli, ainda querendo um pretexto para detonar Patrícia. — Queria saber onde é que eu estava com a cabeça quando me casei com você... — suspirou mamãe, rendida.

— Você era grandinha e sabia muito bem com quem estava se casando e eu não tenho mais paciência para aguentar seus dramalhões.

Quando papai deixava mamãe falando sozinha na sala, a atitude mais prudente era o recolhimento. Eles se entenderiam na parte da manhã, aquela não era a primeira discussão que eu presenciava na vida, no entanto era difícil de imaginar como seria acordar no dia seguinte e encarar a realidade.

Logo que terminei a escola, meu irmão Júnior invitou Amílcar e Sueli para comunicar que trancou a matrícula no curso de Direito (no quarto ano de graduação) para cursar Ciência da Computação. Mamãe quase teve uma síncope e passou semanas sem dirigir a palavra com o primogênito. Papai se portava como o pacificador.

Sueli aceitou a decisão do filho mais velho e se empolgava com a ideia de um futuro promissor em relação ao mercado de trabalho, havia alterado o discurso, dizia que “a vida era curta demais para passar quatro ou cinco anos cursando algo de que não gostava”, entretanto, a regra valia apenas para ele. Quanto a mim, se não fosse Administração, ou Medicina ou Direito. E nenhuma das alternativas me animava.

Na manhã do sábado, após a discussão, mamãe dormiu até mais tarde, disse papai, quando nos encontramos na cozinha, porém eu conhecia Sueli o bastante para saber que ela estava enfurnada no quarto para não ter que dirigir a palavra a mim.

Amílcar me chamou para sentar ao lado dele no sofá de três lugares que ficava de frente para a televisão:

— Filha...

— Pai, eu não quero falar sobre isso!

— A gente precisa falar sobre isso!

— Eu não quero mais briga.

— Eu nem posso dizer que não estou chocado, mas...

— Por favor, pai.

— Até quando você pretendia mentir a si mesma, filha?

Meus ombros se retesaram e eu desabei.

— Se eu tivesse para onde ir, eu iria...

— Ninguém vai embora!

— Não tem condição de eu ficar aqui...

— Se você for embora, eu vou também. — Argumentou papai. — Que raio de família é essa em que as pessoas não se apoiam, não se amam, não dialogam?

— A Patrícia não é minha namorada! Nunca rolou nada entre a gente, eu juro! É só amizade!

— Mas mesmo assim, você é. Se não for a Patrícia, vai ser outra. Da minha parte, tudo bem, eu quero que você seja feliz. Aproveite que o mundo está mudando e mude a sua história, faça alguma coisa por você mesma, filha. Se esconder isso fez você sofrer por tanto tempo, então abra a porta desse maldito armário e saia, não tem nada que prenda lá.

— A mamãe disse que...

— Você e sua mãe têm mais em comum do que pensam, apenas dê-lhe um tempo. Ela precisa digerir isso.

— Ela tem nojo de mim e vai deixar de me amar.

— Ela não tem nojo de você e nunca vai deixar de te amar, tá?

Papai segurou o meu rosto.

— Eu não quero que você pense assim, está bem?

Com certeza não foi à maneira mais apropriada e criativa, mas eu saí do armário de uma vez por todas e ainda sem entender na prática o que significava colocar o pé direito para fora (admito ser um bocadinho supersticiosa) e ser uma Lola sem máscaras, todo aquele choro que molhava meu travesseiro não era de tristeza e sim alívio.

Mamãe passou dias fazendo de conta que eu não existia, como se pudesse dessa forma se esquivar do que considerava ser o fim dos tempos. Evitava me olhar nos olhos, não conseguia permanecer por muito tempo no mesmo ambiente que eu, até, por fim, se dar por vencida.

Eu estava na sala vendo televisão quando mamãe me perguntou se “incomodava” e simplesmente me deu um abraço bem apertado. O ímpeto de corresponder foi muito maior do que a chateação de ter ouvido impropérios na semana anterior. Estávamos com tanta saudade uma da outra que não queríamos nos desgrudar daquele abraço com gosto de lágrimas.

— Eu não sei lidar com isso, filhota... — chorou Sueli.

— Eu também não sei...

— Eu... eu sempre achei que você gostasse de garotos, nunca entendi como uma moça tão linda que nem você nunca teve um namorado, mas eu gosto da Patrícia, eu gosto muito dela, é uma boa moça, trabalhadora, direita, só tenho medo de que você se machuque se o sentimento não for correspondido.

— Não se lembra da música do Lulu Santos, mãe? É isso. É o meu sentimento. O meu amor. A Paty não tem obrigação nenhuma de me corresponder. Tudo que eu quero é que a Paty seja feliz com alguém, mesmo que esse alguém não seja eu...

— Confessa: você queria ser esse alguém.

Suspirei alto.

— Eu não sei, estive muito reflexiva nesses últimos dias, pensei muito sobre tudo e queria te pedir desculpas.

— Não, mãe, sou eu quem tenho que te pedir desculpas, mas não pelo que eu sou e sim porque me exaltei, eu não posso falar daquele jeito com você.

— E nem eu com você, mas, sabe, filhota, as pessoas não escolhem de quem irão gostar, muito menos sofrer preconceito, então acho que o teimoso do seu pai tem razão: você nasceu assim. Você nasceu assim e eu não consegui enxergar, não consegui aceitar, quando eu fui mãe não me disseram que isso iria acontecer. Se você nasceu assim, a Patrícia não foi a única pessoa de quem você gostou na vida. Não sei se era por isso que você queria tanto mudar por fora, para tentar enterrar o que crescia dentro de você, mas não adianta mais fingir para si mesma, fugir. Se Deus me deu você como filha é porque acredita que eu tenho muito a aprender com você. Se eu desistisse de você, te colocasse na rua, que tipo de mãe eu seria? Eu não mereceria nem ser chamada de gente. Se tudo é novo para você, para mim também, então, por favor, vamos nos ajudar. Eu não quero ser como a minha mãe, que nunca falou sobre nada comigo sem gritar e descer a porrada.

Naquela sexta-feira fria e chuvosa, mamãe se confidenciou comigo sobre sua adolescência e foi inevitável não chorar junto com ela. Gerações diferentes, dilemas parecidos. Enquanto eu iniciava a luta pela minha visibilidade na sociedade, minha progenitora se casou virgem em razão dos tantos moralismos insuflados por uma criação altamente castradora.

Nós duas, que sempre tivemos dificuldades de estabelecer uma ponte segura de diálogo, demos as mãos para quebrar um ciclo nefasto de mágoas, ressentimentos, traumas e arrependimentos.

E, não, não tem bolinho de chuva mais gostoso no mundo do que aquele preparado pelas habilidosas mãos de Sueli, nem colo mais quente, nem drama mais convincente. Tudo que sou, devo a ela. Éramos mãe e filha, sob o mesmo teto por duas décadas, olhávamo-nos, mas não nos enxergávamos de verdade. Minha melhor e mais fiel amiga era a pessoa a quem eu mais temia.