Um minuto para o fim do mundo

4 4 - 14 de Setembro de 2005


— É sério que você nunca beijou na boca? — quis saber Patrícia, em um dos muitos intervalos que passamos juntas naquele semestre.

Fiz que não com a cabeça.

— Nem um selinho?

— Nada, ué.

— Sério mesmo que nenhum menino nunca pediu para ficar com você?

— Parece tão improvável assim?

— A mim, sim. — disparou Patrícia que mesmo não sendo tão mais velha do que eu parecia ter vivido mais e poderia escrever um livro contendo todas as histórias que seus dezessete anos permitiriam e sua narrativa fluente e espontânea conquistaria os leitores num estalo. — Não, não me leve a mal. Já conheci gente que deu o primeiro beijo depois dos vinte e super valeu a pena a espera.

— Isso não é uma tentativa de me consolar, é?

— Consolar pelo quê? Quem morreu? — Ela olhou em volta pelo corredor onde se situavam as turmas de terceiros anos e ninguém do corpo estudantil estava agonizando, estirado no piso de cimento polido enquanto tocava a versão remixada de La Tortura da Shakira. — Não pense que estou te pressionando a sair beijando qualquer um aí só pra se livrar de um rótulo que inventam pra deixar a gente se sentindo mal por não ser igual aos outros. É que você é uma menina bonita, meiga, inteligente, simpática, tem um papo bacana, tem tudo pra ser uma ótima namorada. Fico pensando qual é o problema desses meninos que não são capazes de enxergar isso.

✉✉✉

Ingressei naquele colégio por intermédio de um teste seletivo e estudava com a mesma turma desde o primeiro ano. Com exceção de uma pessoa ou outra que reprovou ou se transferiu, eram sempre as mesmas caras, então aquela animação de me produzir toda para o primeiro dia de aula não tinha o menor fundamento. A mobilidade social era quase nula.

Eu andava no grupo das "bonitas" porque lhes convinha ter um relacionamento amistoso com quem poderia ajuda-las na hora dos trabalhos (leia-se Lola fazer toda a pesquisa, passar a noite em claro escrevendo e as outras apenas levarem a nota por terem os nomes colocados nas capas) e fornecer cola quando alguma delas estava de recuperação porque afora isso eu era sempre café-com-leite, aquela que era interrompida quando tentava falar e para quem os meninos nunca olhavam.

Pior do que isso.

Eu não ouvi assim tão diretamente dos meninos que era "sem sal", não foi como naquelas eleições patéticas promovidas no Ensino Fundamental. Eles nunca souberam que eu ouvi tudo aquilo, mas doeu do mesmo jeito, não porque eu tivesse esperanças de encontrar meu par e ser igual às outras, e sim porque eles deram uma opinião que não foi solicitada.

No primeiro ano, estavam todos os meninos reunidos próximos à escadaria enquanto eu subia devagarinho com a maquete que a professora de geografia nos pediu para fazer para ser entregue naquele dia.

— A Dani é gostosa, cara. Aquele olho dela é fora de sério — comentou um deles. E a Dani, que era a líder do grupo que eu andava, não só tinha namorado fixo fora da escola como não estava nem aí para os meninos da nossa turma, ainda que estivesse em alta conta com eles que adoravam os olhos azuis dela.

— Pegava? — insistiu o outro.

— Pegava e pegava com gosto. Mó gostosa ela. Pena que namora! — murmurou o garoto, dando um soquinho no ar, em sinal de decepção.

— E a Lola?

— A Lola? — estrilou ele. — Caralho, não brinca! Cê tá de brincadeira, né brow?

— Não rola?

— Nem que ela fosse à última menina do mundo.

O outro menino riu alto e os outros o acompanharam.

— Não rola mesmo — opinou outro. — Muito comum, sem graça, não faz meu tipo.

— Ficando com ela você pelo menos passaria em matemática, brow — zoou mais um moleque do grupo que namorava uma menina que estava na sexta série.

— Sem sal, cara. — pronunciou-se ele, em retaliação. — Sou mais a Mariana.

— Ah, a Mariana sim!

Não posso mentir que não me senti um verme repulsivo, que não chorei rios de lágrimas depois que voltei para casa e me tranquei no quarto, porque olhei para o espelho e tentei entender o que havia de tão anormal em mim para ser classificada como "sem sal". Eu atribuiria essa designação a um alimento sem sabor, não a uma pessoa.

Enquanto Dani, Mariana, Jana e Tati eram as gatas, viviam recebendo assobios e elogios, eu era só a estabanada Lola, a "sem sal", a desengonçada, a esquisita, a bobalhona que vivia à sombra delas. As solteiras sempre estavam de rolo com alguém e as que namoravam recebiam aqueles buquês enormes de flores no meio da aula ou então ursinhos de pelúcia.

A realidade que viviam as outras integrantes do grupo era tão distante da minha e no primeiro ano eu costumava sentir inveja de ver todas elas sendo pedidas em namoro, cortejadas pelos meninos e não existir um único menino capaz de me achar bonita e interessante.

No início do segundo ano eu passei o verão inteiro convencendo mamãe de que eu já tinha idade para clarear os cabelos. Sueli relutou um pouco, mas me ajudou no processo todo, finalmente liberou o uso da maquiagem e tudo o mais, porque um dia também teve quinze e sabia como essa fase era problemática.

— Lente de contato, filha?

— Meu olho é tão sem graça, mãe.

— Larga de bobagem, menina. Que lente de contato o quê. Seu pai tem olho escuro, eu tenho olho escuro, ninguém na minha família tem olho azul. Todo mundo vai saber que você não tem olho azul de verdade e quem tiver que gostar de você, tem que aceitar que você tem olho escuro.

— Mas eu quero ter olho azul, então vou usar lente...

— Tenho um pé atrás com essas lentes.

— Ah mãe, vai, deixa! Eu não posso aparecer feia lá no colégio.

— Você sabe que não é feia, Lorena, mas quando dá pra ser teimosa... — Sueli abanou as mãos: — É essa tal aborrescência...

Penei para me acostumar com as lentes de contato, mas a verdade é que mesmo me produzindo para o primeiro dia de aula, não surtiu efeito algum, continuei sendo a mesma "sem sal" de sempre, não recebi nenhum elogio pela mudança de visual, Sueli tinha toda a razão, eu só estava tentando maquiar a verdade e mentir para mim mesma. A raiz escura começou a crescer, as pontas a secarem, retocar dava um trabalho imenso, todavia segui clareando os fios até que num dado momento em que passar o pente era doloroso.

— Ih filha, para arrumar esse estrago, só cortando! — contou-me mamãe que pintava os cabelos de acaju e por ter sofrido muitos desastres em cadeiras de cabeleireiros, desconfiava de profissionais inescrupulosos que prometiam resultados improváveis dentro de um prazo pequeno de tempo.

— Eu já sou um bagulho, se cortar o cabelo vou ficar mais horrorosa ainda.

— Não quero magoar você, filha, mas esse cabelo está horrível, seco, sem vida. Eu gostava muito mais da Lola de cabelo escuro.

— Eu odeio meu cabelo escuro.

— Não tem nada de errado com o seu cabelo, Lorena! — bronqueou mamãe. — Ou é isso ou você vai ficar careca!

Com o consentimento de Sueli, fui até a cabeleireira que tratava das madeixas de minha mãe e não só tosei o cabelo como o escureci também. A cada tesourada, uma lágrima.

✉✉✉

— Eu acho que cabelo Chanel é muito estiloso porque ele reflete a personalidade da pessoa, a versatilidade dela... — comentou Patrícia, comendo pipoca doce comigo naquele mesmo intervalo em que eu decidi de uma vez por toda abolir as lentes de contato da minha vida.

— Eu não vejo a hora que meu cabelo cresça.

— Você quer que ele cresça pra agradar aos outros ou porque curte cabelo comprido?

— Eu gosto de cabelo comprido.

— Eu sempre desconfiei de que esse olho azul aí era lente, mas tinha medo de perguntar e parecer mal educada...

— Pensei que colocar as lentes resolveria o problema.

— Ah Lola! Como você é ingênua!

— Como é que eu iria saber?

— Eles não são os únicos meninos do mundo, não são os donos da verdade e nem são lá grande merda para saírem dizendo quem é bonita ou não segundo o critério de punheteiros idiotas...

Patrícia era tão hilária por ser espontânea e não ter papas na língua. Justamente por não ser nada boba e saber que as outras meninas falavam mal dela, caminhava com a cabeça bem erguida, as encarava sem nenhum temor porque a pronúncia dos impropérios dizia mais respeito ao caráter de quem os propagava do que definia o dela. Quisera eu ter aquela percepção das coisas antes de ferrar com o meu cabelo e passar quase dois anos usando lentes de contato falsas para ser notada sendo que a pessoa mais interessante que conheci naquela escola entrou na reta final do terceiro ano e tinha nome de menina. E era ela.

O sinal soou, Patrícia e eu nos levantamos do nosso cantinho e ela se dirigiu até o cesto de lixo para jogar fora o pacote de pipoca-doce. Feito isso, a caminho da sala me abraçou pelas costas e sussurrou:

— Se eu fosse menino, já teria ficado com você faz tempo.

Estremeci.

Era comum Patrícia e eu nos abraçar apertado quando nos cumprimentávamos, quando comemorávamos algo, quando chorávamos e quando nos despedíamos, entretanto daquela vez foi diferente de todas as outras, me deixou sem palavras.

— Qual é o espanto? — riu ela, em tom inquisitivo. — Em minha opinião você é uma das meninas mais bonitas, senão a mais bonita dessa escola.

Empurrei-a de leve.

— Deixe de ser mentirosa!

— Mentirosa, eu? E o que falar de quem usa lentes de contato, hem?

Na hora da saída, quando Patrícia e eu nos despedimos uma da outra, ocorreu uma situação bastante curiosa: quando fomos trocar um beijinho na bochecha, o meu caiu bem nos lábios dela. Senti uma cosquinha no estômago, abaixei a cabeça e ri, esperando alguma reação da parte dela. Havendo serenidade ali, não senti culpa.

De frente para o espelho do quarto, olhei bem para a minha boca, toquei-a com as pontas dos dedos, parecia aquela menina de anos antes que se preparava para um beijo espetacular. Aquilo era impossível sabendo eu que minha melhor amiga gostava de rapazes, todavia tomei uma importante decisão: honestidade não se dá só através das palavras, mas por atitudes.

Adeus, lentes de contato.

Adormeci pensando naquela confissão de Patrícia de que se fosse um menino ficaria comigo. Havia uma enorme probabilidade de ela ter dito aquilo apenas por compaixão, por ter se comovido com meus dramas de caloura deslocada, como havia também uma hipótese que eu não poderia cogitar nem em mil anos: será que eu também ficaria com ela se fosse um garoto? Ou então: precisava de fato ser um para beijá-la?

Naquela época a ideia de beijar minha melhor amiga me soava tão absurda que eu me repreendia por pensar em tal conjectura, no entanto quando mamãe me prensou e me tirou do armário, entendi que desde que minha melhor amiga fez aquele comentário um tanto quanto provocativo, algo dentro de mim mudou e eu esperava, no mínimo, que todos os rapazes com quem Patrícia se relacionava soubessem valorizá-la porque eu adoraria estar no lugar deles.

Notas finais
"ain, se eu fosse um menino te pegava..." "ué, não precisa ser menino... tá com vontade? me beija!"