Um lugar parecido com o lar
2 Contagem regressiva.
Na manhã seguinte, acordei sobressaltado. Uma batida de leve na porta me fez perder o sono. Logo uma voz chamou do lado de fora:
– Mestre? Sua nave está pronta.
– Sim, obrigado.
Levantei e olhei para a grande mala que havia preparado na noite anterior. Será que havia pego tudo o que precisava? Não tinha tempo para conferir, de modo que fui tomar um banho e escovar o cabelo.
Quando saí, minha cama já estava arrumada, com os lençóis estendidos. Em cima dela, alguém deixara alguma roupa limpa para eu vestir. Vesti-me e fui ao encontro de meu parceiro de viagem, que por acaso estava na cozinha preparando algo para comer.
– Por que não usa a telecinese? – Perguntei – Em vez de ficar indo de um lado a outro para pegar a mistura, o suco, o pão.
– Olá, Richard, parece bem. – Disse ele, esticando um braço para pegar o suco e o outro para pegar o sanduíche – Prefiro fazer manualmente, sabe. Assim me sinto menos uma aberração.
Fiz uma careta.
– Nenhum de nós é uma aberração. – Adverti – Somos apenas seres mais evoluídos, graças ao nosso sol.
Ele me encarou, pensativo.
– E somos pálidos como papeis por não termos ele.
– É verdade.
Ele estava certo, mas não ia admitir isso. Nós realmente éramos aberrações e, além disso, por termos ficado expostos a muita radiação solar no passado, nossos olhos trocam de cor. Hora azul, hora verde, castanhos, vermelhos, laranjas. Nunca tínhamos uma cor nos olhos, apenas. E isso os humanos não aceitariam. Iriam nos considerar anormais.
– Bem, não acho que sejamos aberrações. – Disse eu.
Ele suspirou.
– Tudo bem. Vá comer algo, senhor. Nós vamos sair às onze.
Assenti com a cabeça e usei a intercinese para preparar algo para comer. Os alimentos vieram flutuando e pousaram na minha frente.
– Viu como foi mais fácil? – Provoquei.
Ele me olhou de cara feia e voltou a comer.
Dei algumas mordidas no sanduíche e bebi o suco, depois fui dar uma olhada na nossa nave.
Ela era enorme, feita de metal estelar, vermelha e prateada. Pelo que notei, haviam feito-lhe algumas modificações. O que antes era a lateral, agora tinha enormes asas curvadas para baixo, e o que antes era seu pico, agora se encontrava em vidro, que imaginei ser o local da sala de comando. Duas novas turbinas foram adicionadas, fazendo com que o total delas fosse quatro.
Fiquei a admirando, durante o que para mim pareceram minutos, porém, logo vi Renco aparecendo com nossas malas. Ele parou ao meu lado, pôs a mão em meu ombro em sinal de amizade e suspirou.
– Vamos? – Disse ele – Já são onze horas, temos que partir agora.
Olhei para ele, confuso.
– São nove e meia, agora.
Ele sorriu como se eu tivesse contado uma piada.
– Não, senhor. São cinco para as onze. Você ficou aí quase duas horas, parado.
Fiquei confuso por um tempo, entretanto, fiz o que ele pediu e entrei na nave. Já havia entrado em várias, mas essa era a mais bonita. Havia uma sala na entrada, o que parecia ser uma sala de estar, possuía jogos de fliperama, de mesa e computadores. Os nossos eram mais avançados, não continham mouse e teclado, era tudo falado ou a movimentos e direcionamento de retinas.
Mais à frente havia uma televisão que cobria toda a parede e, atrás dela, um reprodutor em terceira dimensão. Ao seu lado, uma porta levava à cozinha, com equipamentos automatizados. Geladeira e fogão, ao lado deles, uma pia onde os restos eram descartados.
Me encaminhei para um outro cômodo. Lá era uma biblioteca com todos os livros que se podia imaginar, desde digitalizados a físicos, documentos e fontes de pesquisas diversas.
Duas portas levavam aos nossos quartos. Adiante delas, havia um painel liso, sem nenhum botão. Aproximei-me dele e passei a mão a centímetros de sua superfície. A parede se abriu, revelando a sala de comando.
O lugar era impressionante. Havia duas cadeiras macias e estufadas diante de um grande painel com apenas dois botões e alguns controles manuais. A tela, em vidro, mostrava nosso céu, e mais tarde mostraria toda a galáxia. À direita da porta de entrada havia um banheiro e, à esquerda, outra geladeira, que desta vez não continha nada para comer, mas sim nossas amostras pegas em outros planetas. Ao lado dela, jazia uma bancada com nossas ferramentas de trabalho.
– Maravilhoso, não é? – Perguntou Renco – Eu sabia que o senhor iria gostar e há um compartimento para alimentos ao lado da cadeira direita. Sei que o senhor iria querer ficar lá a maior parte do tempo então mandei instalá-lo.
Olhei-o, atordoado.
– Você pensou em tudo.
Ele sorriu.
– Quase tudo. – Ele replicou – Vamos decolar em trinta segundos. Eu colocaria o cinto se fosse o senhor.
Ele caminhou até a cadeira da esquerda e o cinto fechou-se em volta dele. Então piscou para mim e apontou para seu relógio de pulso. Rapidamente fui até a outra e me sentei, o cinto se fechou e eu escutei os dez últimos segundos, em contagem regressiva.
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