DORMI POR CERCA DE QUATRO HORAS, e fui cruelmente acordado por uma criança pulando em cima de mim. Sohrab estava de pé, ainda de pijamas, sacudindo meus ombros para que eu acordasse. Ele estava o cúmulo da ansiedade. Não parava quieto um minuto. Eu ainda estava sonhando quando fui acordado pelos seus chamados e pelas risadas de Soraya:

— Vamos Amir! Vamos! Temos que chegar lá ainda hoje! Hoje mesmo!

— Levante Amir! — disse Soraya batendo em mim com o travesseiro — Ninguém mandou você ir dormir tarde! Acho melhor irmos logo, antes que Sohrab fique sem unhas!

Dei um sorriso para eles e atendendo a seus milhares de pedidos levantei. Fui até a janela e pude ver o Sol lá no fundo, subindo atrás das montanhas. Montanha estas que me separavam na minha cidade natal. Respirei fundo aquele ar matutino e deixei que ele invadisse cada espaço livre em meus pulmões. Naquele dia eu me sentia totalmente afegão. Uma sensação parecida me ocorreu na casa de Waldi, o irmão de Farid, quando estivera no Afeganistão. Dessa vez, se juntou a mim um menino, que encostou o rosto na janela, e olhando para paisagem lá fora, mas falando comigo, disse:

— Nem acredito que estamos aqui. Nem acredito que vamos lá.

Também olhei pela janela e ficamos em silêncio por um momento. Coloquei a mão em seu ombro esquerdo e apertei:

— Também não consigo acreditar que estamos aqui.

Ele virou o rosto para mim e sorriu. Abriu a boca como se fosse dizer algo, mas as palavras não chegaram a sair. Ele sorriu de novo e foi se arrumar. Soraya e eu levamos as malas até o carro que alugamos no dia anterior e todos nos vestimos. Sohrab colocou aquela roupa estilo afegã que eu comprei para ele. Em quatro anos, era a primeira vez que ele parecia com o menino da foto Polaroid. Só faltava Hassan do seu lado. Soraya e eu nos abraçamos e ela me encorajou a ir. Entrei no carro peguei o volante e fomos.

Já estávamos perto do meu bairro.

— Tem certeza que é por aqui? — perguntou Soraya — Não seria por aquela rua na direita? Ah esqueça! — disse ela colocando o guia no canto — Minha ajuda está sendo inútil. Quase metade das ruas no guia já não existe mais!

— Tudo bem, eu sei para onde estou indo. — eu disse. E de fato sabia. Eu poderia ficar longos quarenta ou cinquenta anos sem visitar aquela cidade. Poderia ficar longe até o fim da minha vida, mas se me colocassem num carro e me trouxessem para o Afeganistão, eu ainda saberia como chegar na casa de baba.

Virei a última esquina e entrei em Wazir Akbar Khan. O bairro em que todos invejavam a linda casa marmorizada agora não passava de casebres abandonados. Farid tinha razão, a maioria das casas estava inteira, sem nenhum pedaço desabado. Lembrei do que Rahim Khan disse, sobre Hassan ter consertado o muro do pé de milho. A casa antes conhecida como a mais bonita, agora era apenas a menos destruída do bairro. Todas as garagens tinham marcas de pneus de jipes ou picapes, que deveriam pertencer aos talibs. Me ocorreu que os talibs que ficaram na casa de baba poderiam ter levado consigo alguma coisa quando foram embora. As palavras de baba sobre roubo me vieram a mente. Se um daqueles talibs estivesse agora em sua frente, que Deus o ajudasse!

Dobrei umas duas vezes à esquerda e passei pela casa onde Assef morava com seus pais, até uns quinze anos atrás. Era muito diferente passar por aquele lugar no banco do motorista, em vez de no banco do passageiro. Eu poderia demorar o tempo que quisesse para chegar lá, e se no último segundo me desse vontade, poderia dar ré e ir embora. Mas continuei em frente. Fechei os olhos. Me concentrei nas imagens que minha mente gravara de cada lugar. Quando olhei de novo para a casa de Assef, conseguia enxergar sua mãe ali na garagem, cuidando das plantas, enquanto seu pai chegava de carro do trabalho. Ao passarmos pela casa de amigos de meu pai, eu quase conseguia vê-los ali, saindo de suas casas para festejar na minha. E foi assim que segui até chegar na minha rua: deixei que meus olhos me pregassem peças e enxergassem apenas o que eu queria. Imaginar as coisas como elas já foram era menos doloroso do que vê-las como realmente estão.

Então, avistei a casa rosa da esquina. Sabia que aquela era a minha casa-referência e que fazendo a curva naquela esquina, seria uma questão de segundos até chegar ao meu destino. Reduzi a velocidade e acabei deixando o carro morrer. Olhei para o teto. Apertei o volante com força e soltei. Apertava e soltava, abrindo e fechando os olhos. Soltei todo o ar dos meus pulmões de uma vez só e liguei o carro de novo. Fiz a curva. Soraya segurou meu braço e me lançou um olhar de compreensão. Ah, ela não poderia compreender, mas seu amor que reconfortava. Passei da casa rosa e segui em frente. Mantive meus olhos no asfalto, que na verdade era areia, pedras e muito pó, que subia a medida que o carro avançava. Minha respiração travou quando avistei os portões brancos enferrujados. Minhas pernas gelaram e meus pés não queriam me obedecer. Não conseguia pisar nem no freio nem no acelerador. Usando todas as minhas forças, pisei no acelerador e parei exatamente em frente ao portão. Desliguei a chave e tirei o cinto.

Encostei a cabeça no banco e abri os primeiros botões da blusa. Eu estava sufocando. Pânico. Aquela velha sensação de que a morte está te espreitando e que seus pulmões vão murchar como uma bexiga, mas você não vai ter forças para puxar o ar de volta. Apoiei a testa no volante e respirei fundo. Lágrimas queriam rolar, porém eu mandei a elas que voltassem para meus olhos. Esfreguei o rosto e olhei para Soraya. Ela segurou meu rosto com as mãos e me beijou. Sorri para ela, mas meus lábios tremiam, transformando meu sorriso numa expressão estranha. Segurei na maçaneta e lentamente abri a porta. Coloquei um pé por vez para fora do carro. Um vento gelado me atingiu, e lembrei que precisava respirar. Eu estava tonto, mas consegui me colocar de pé. Fechei a porta e olhei diretamente para a casa. Dei dois, três, seis passos e parei na frente do portão. Soraya colocou as chaves na palma da minha mão e a fechou com sua mão. Ela pegou a chave do carro comigo e foi até ele. Pretendia coloca-lo na garagem. Então uma mãozinha segurou na minha mão direita. Baixei os olhos e lá estava Sohrab. Ele me olhava e percebi que estava tão tenso quanto eu.

— Não sei se consigo entrar lá de novo. — disse ele, com a voz entalada na garganta.

— Também acho que não consigo... — a voz minha estava embargada — Mas... Chegamos até aqui não foi? Acho que devemos entrar...

— Sim devemos. — ele disse, e apertei sua mão e depois de soltá-la comecei a abrir as trancas e os cadeados.