Uma coragem repentina me invadiu e resolvi aproveitá-la para ao menos abrir o portão, antes que ela desvanecesse. Tirei o último cadeado e coloquei a chave no portão. Abri este e pedi a Sohrab que pegasse um dos lados. Ao meu comando empurramos juntos as duas folhas e o portão abriu. Pisei na alameda e meus pés começaram a formigar. Soraya buzinou sorridente e entrou pelo portão. Colocou o carro mais adiante e desligou. Corri os olhos em volta e lá estavam a mansão de baba, o casebre de Ali e Hassan, nosso jardim agro arruinado, mas um muro ainda estava ali. Minhas pernas ganharam vontade própria e me conduziram àquele muro. Lá estava o velho “muro do milho doente”, mesmo que agora o milho já não passasse de plantas mortas. Passei a mão pelos tijolos e um detalhe me chamou a atenção: a maioria dos tijolos era velho, mas um pequeno pedaço, num canto acima, eram tijolos mais recentes. O concerto que Hassan fizera há poucos anos.

E não foi só aquele muro que me fez pensar nele. Para cada lado que eu olhasse, para cada canto qe eu fosse e a cada metro quadrado que eu percorresse; tudo me lembrava de HASSAN, As memórias dele estavam nas árvores nas quais subíamos para atormentar os vizinhos. Estavam no jardim no qual nós brincávamos. Estavam na entrada daquele casebre, onde encontrávamos Ali, chamando Hassan para a namaz da tarde. Hassan estava por todos os lados. O vento sussurrava um nome: “Hassan”. As folhinhas secas rolando pelo chão se juntava ao coro que aclamava seu nome. Eu podia vê-lo correndo pela alameda na minha direção, trazendo algum brinquedo que ganhara de seu pai, para que nos revezássemos na brincadeira. Ele chamava por mim me pedindo para contar uma história. “Vamos na nossa colina?”, “Leia uma história para mim agha?”, eram perguntas que ecoavam eu meus ouvidos. Meu peito doía e o coração ia diminuindo a cada minuto.

Minhas pernas me levaram então até a grande porta principal da minha casa. Parei na frente dela e fiquei encarando a madeira, como se pudesse fazê-la abrir apenas com o pensamento. Coloquei a mão na maçaneta e girei. A porta abriu. Virei e lá estavam Soraya e Sohrab me encarando:

— Eu, eu gostaria de fazer isso sozinho. — disse à eles. E realmente. Eu queria entrar ali sozinho. Eles não pertenciam ao passado daquela casa, então, pensei que entrando somente eu, seria mias fácil para suportar. Mas não foi. Assim que coloquei os pés naquela sala, as lembranças me atingiram com um soco na boca do estômago. O vento se encarregou de fechar a porta atrás de mim e fiquei ali sozinho. Minhas pernas estremeceram e cai de joelhos no chão. Comecei a chorar. As lágrimas vinham atropelando umas as outras. Fechei os olhos espremendo-os com força e tapei os ouvidos. Quando abri os olhos novamente fiquei olhando em volta. Hassan estava pela casa toda. Eu podia vê-lo, ou melhor, senti-lo por onde quer que eu passasse. Juntei forças para levantar do chão, e com passos cambaleantes, em meio a um rio de lágrimas, fui avançando casa adentro.

Minha mente confusa, meu coração dolorido e meus olhos enganadores, se juntavam para me pregar peças. Hassan passava por mim com bandejas trazendo meu café da manhã. Se eu apurava mus ouvidos podia jurar que estava escutando Hassan assoviar uma de suas canções hazara. Se eu forçasse os olhos, podia vê-lo sentado no chão, em frente a cartas de baralho, com uma dama na mão. Se olhava para a esquerda, via ele subindo as escadas com as minha roupas passadas nas mãos. Eu tentava correr atrás dele, ou deles, mas ele sumia sempre que me aproximava. Outros personagens começaram a ganhar espaço: Ali tropeçando pelo salão principal enquanto varria o chão ou levava lenha até a lareira; baba entrando pela porta principal voltando do trabalho, ou Rahim Khan acompanhando-o até a “sala de fumar”. Fechei os olhos novamente e fiquei me lembrando durante todo o tempo que nada daquilo era real, que aquelas pessoas já não estavam mais ali. Abri os olhos novamente e agora não havia mais ninguém, mas as memórias de cada cômodo de atordoavam, à medida que eu os adentrava.

Passei do salão principal, onde a lareira, que há muito já não produzia fogo, jazia em meio ao pó e as cinzas que lhe ocupavam agora. Me detive na estante de porta retratos, e aquelas fotos, cujos vidros estavam quase todos trincados, me fizeram lembrar dos dois únicos quadros que baba levou consigo: a foto em que ele estava ao lado de minha mãe e a foto em que ele e Rahim Khan apareciam junto a mim na frente da casa. Depois fui até a sala de jantar, com suas lindas tapeçarias, e aquela mesa de trinta lugares, onde meu pai fazia tantos banquetes e dava suas festas, agora estava apenas com uma grossa camada de pó cobrindo-a. Pensei nas quarenta ou mais pessoas que entupiam a casa naqueles dias. A cozinha na qual Ali e Hassan preparavam nossas refeições agora era só um lugar vazio, e eu apostava que nem saia mais água daquelas torneiras. Coloquei a mão no corrimão e fui subindo lentamente cada degrau. A cada passo que eu dava em direção ao segundo andar, minhas mãos se agarravam ainda mais ao corrimão. Cheguei ao andar dos quartos e me vi diante de uma sequência de portas, que eu sabia muito bem o que escondiam atrás de si. Comecei pelo que doeria menos: o quarto de baba. A verdade é que eu não entrava muito ali, mas ver algumas de suas roupas no armário, ou porta retratos com suas fotos de juventude em cima da mesinha, doía mais do que pude imaginar.

A sala de fumar onde baba e Rahim Khan engordavam seus cigarros e conversavam sobre coisas de adulto, ou na maioria sobre mim, estava com os móveis todos nos mesmos lugares. Lá estava a escrivaninha onde ele deixava todos os documentos, planos e projetos que baba fazia. Lá estava o sofá de couro onde baba me pegou em seu colo e conversou comigo “de homem para homem”. Lá estava o bar, onde ele deixava as suas bebidas, para beber com Rahim Khan. Por fim, lá estava uma foto de baba, com sua barba e cabelo curto, com uma roupa social e estirado no sofá, sério e ao mesmo tempo alegre, me contagiando com seu carinho indireto. O cheiro de fumaça que se impregnava em cada peça naquele ambiente, quase foi perceptível ao meu nariz. Aquilo era doloroso de mais. O que tornava tudo mais macabro é que na emoção, esqueci de acender as luzes, e só alguns raios de Sol iluminavam a sala, através de fendas as venezianas quebradas. Era o cômodo em que provavelmente os talibs passavam mais tempo, porque havia manchas recentes de bebidas derramadas no chão e sobre a mesa.

Sai daquela sala, que já havia me desgastado emocionalmente e me dirigi a porta que eu tinha certeza que me quebraria: o meu quarto. Girei a maçaneta bem devagar, e o pó tornava-se visível mediante aos raios de Sol. Abri a porta de uma vez só, acreditando que assim meu sofrimento seria encurtado. Tudo estava no mesmo lugar: minha cama, minhas estantes repletas dos livros da minha mãe, que deveriam estar em sua maioria mofada; as caixas em que eu guardava os livros novos, a mesinha onde eu fazia minhas lições e uma pilha com os presentes que eu ganhei aos treze anos. Aquela festa só tinha me torturado ainda mais: vamos comemorar a Amir, essa criança que desde tão pequeno já demonstra quão horrível um ser humano pode ser. Aqueles presentes estavam ali há vinte e nove anos. Alguns não foram nem tocados. Passei a mão pelo meu cobertor e meus dedos se detiveram em alguma coisa dura em baixo das cobertas.

Lá estava o exemplar com pinturas a mão e Rostam e Sohrab, que Ali e Hassan me deram naquele aniversário. Passei delicadamente a mão sobre a capa, como se o mínimo movimento agressivo pudesse estraga-lo, e me sentei na cama com o livro nas mãos. Eu nunca cheguei a ler aquele exemplar. Tinha colocado ele no fundo da pilha de presentes e me surpreendi por encontra-lo ali. Então me lembrei de que Hassan encontrou o livro e contou suas histórias para Sohrab, que adorou descobrir de onde vinha seu nome. Abri as primeiras páginas e folheei o livro. As imagens eram realmente lindas e me senti agradecido por ter recebido aquele presente, que nunca chegou a ser estreado. Mas ele leu, e ensinou seu filho a ler também. Me senti bem por não ter levado o livro comigo, pois assim outras pessoas puderam tirar proveito dele.