Um jeito de ser bom de novo
11 Capítulo 8
Mais tarde, quando o céu já estava escurecendo e o frio chegando, Soraya alugou um carro e foi até o posto comunitário, para levar as escrituras da casa. Ela queria que eu fosse com ela, foi estava receosa, mas conclui que seria mais seguro se fosse apenas ela. Pode parecer estranho manda-la sozinha, mas fazia sentido, já que estavam procurando por um americano e um garoto, não por uma americana. Além disso, eu precisava conversar com Sohrab, mas ele só fazia dormir. Tomei o cuidado de não acordá-lo, o que foi necessário porque ele tinha que tomar banho. Procurei um hotel que não tivesse banheiras nos banheiros, levando em conta meu trauma da última vez. Fiquei imaginando se ele pensou na mesma coisa que eu, porque quando entrou no banheiro sorriu e apontou para o chuveiro. Também não levei giletes nem nada cortante. Seus pulsos já não tinham marcas, mas as marcas na alma ficariam por muito tempo.
Ele tomou seu banho e nós dois nos arrumamos para esperar por Soraya. Ela chegou empolgada e deu as notícias:
— Amir, quando eu cheguei ao posto fiquei com medo de que o atendente não acreditasse que os documentos eram autênticos. Mas quem me atendeu foi um antigo oficial do meu pai, com o qual ele já participou de algumas guerras. Ele ficou feliz em me rever e disse que queria ver as escrituras. Eu entreguei o pacote e ele ficou olhando hora para os papéis hora para mim. Ele colocou tudo na mesa e perguntou se eles pertenciam realmente ao meu marido. Depois perguntou quem era. Acredite, eu não sabia se contava ou não, mas senti que podia confiar nele. Disse que era o americano que estavam procurando. Então ele disse que ficou sabendo da verdadeira história sobre o americano, que na verdade ele era filho de um poderoso afegão, e que fez o que fez para poder ajudar um menino. Disse que colocaria a nossa disposição dois guardas, que nos acompanhariam até a casa. Ishalland, essa viagem continuará rendendo apenas boas lembranças Amir!
Abracei-a e respirei fundo:
— Obrigado Soraya jan. Não sabe o quanto isso significa para mim. Agora vá se arrumar, vou leva-los a um lugar.
O lugar em questão era um restaurante que descobri na lista telefônica do hotel. Foi a única distração que encontrei a tarde toda, enquanto Sohrab se lavava. No restaurante, pedi pratos que eu comia na minha infância, e que acreditava que Sohrab e até mesmo Soraya também já haviam comido. O garçom trouxe os pratos e os servi para nós. Soraya estava animada, falando o tempo todo sobre as pessoas que ele achou ter reconhecido no posto, sobre uma amiga de sua mãe que estava morando numa casa perto, e sobre como o dia seguinte seria emocionante. Sim, seria emocionante, mas eu não sabia quais seriam os resultados de toda essa emoção. Meu medo era de literalmente não sobreviver a tantas emoções. Apesar de tudo eu também estava animado e conversava alegremente com um casal que estava na mesa ao lado. O garçom pôs os pratos a nossa frente e começamos a comer. Sohrab, no entanto, apoiou a cabeça na mão esquerda e com o garfo n outra mão ficou brincando com a comida.
— Você está bem Sohrab? — perguntei. Ele largou o garfo no prato e ergueu os olhos para mim. Depois se endireito na cadeira e me fez a pergunta:
— Estão atrás de nós não estão? Eu ouvi você falando com ela, e ouvi quando o frentista conversava com aqueles caras. Estão nos procurando não é?
Olhei para Soraya e ela sorriu e disse que precisava ir ao banheiro. Ela se levantou e antes de ir tocou a mão de Sohrab, e disse que tudo ficaria bem. Ele deu um sorriso murcho e ela se foi. Depois ele virou para mim e me olhou com uma expressão séria. Ele sabia que eu não era capaz de mentir para ele, e aquele seu olhar apreensivo me desarmava. Ele repetiu:
— Agora que ela foi você pode me dizer... — ele baixou a cabeça e quando tornou a olhar para mim seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Estão atrás de nós? — eu baixei a cabeça e ele próprio respondeu a pergunta — Estão atrás de nós. — fiquei com raiva. Eu não ia deixar que o medo de ser apanhado por pessoas ruins estragasse a viajem daquela criança que, mais do que qualquer outra, merecia ao menos uma boa recordação de sua infância:
— Sim, estão atrás de nós. — segurei seus ombros — Não sei quantas vezes ou ter que repetir isso, mas vou falar ao menos mais essa vez: Eu estou aqui Sohrab, eu estou aqui e enquanto eu estiver vivo não vou deixar que nada nem ninguém machuque você. — minha voz soou firme, mesmo que eu também estivesse preocupado. Ele sorriu e enxugou o rosto. Soraya voltou do banheiro e terminamos de jantar. Voltamos para o hotel e fomos dormir. A insônia adquirida aos doze anos me atacou violentamente nessa noite. Me revirei a noite toda e não conseguia dormir. Desistindo das minhas tentativas inúteis de descansar, sentei na cama, acendi um abajur e comecei a ler um livro. Antes que me desse conta minas pálpebras pesaram e peguei no sono. Eu precisava dormir. O dia seguinte seria totalmente exaustivo.
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