Um espinheiro em meio a tempestade
9 Males que vem para o bem
Notas iniciais
Os dias na casa de Takane passavam de maneira lenta e vazia, embora fizesse tempo que Yuna não via a tia, e que as vezes ambas conversavam animadamente, ela ainda se sentia incomodada, se perguntava o que acontecia com Atsu.
Ele podia estar vivo e bem. Podia estar morto e apodrecendo. Poderia estar quieto e calmo ou até mesmo envolvido em uma guerra pela vida contra os soldados. Yuna recebia constantes sermões de Yuri sempre que estavam sozinhas por conta desses pensamentos.
— É triste? É!! A vida dele foi uma bosta? Foi! Mas nem por isso você tem que ficar de luto como se ele fosse alguém da família! Ele era calminho comparado aos outros mutantes e tudo mais, mas de qualquer forma você jamais poderia ser a salvadora da pátria, defensora dos mutantes, então apenas esqueça isso! Somos jovens e temos mais o que fazer do que se preocupar com a vida de todos uh? Vamos ser um pouco egoístas por favor? – Era o que Yuri dizia várias vezes.
A mãe de Yuna nem desconfiava de nada, Shin havia dito sim que a filha dela havia sido envenenada, mas encobriu toda a história envolvendo o espinheiro e Nanami não sabia de nada sobre Atsu. Passado– se três dias chegou a notícia de que todos que moravam em Son já podiam voltar para suas casas e foi aquele corre– corre.
Depois de feito todos os preparativos e das despedidas colocaram o pé na estrada, no meio do caminho aconteceu algo que ninguém podia imaginar... Ladrões! Surgiram do nada em uma rua deserta, montados em cavalos e apontando espadas para o pescoço de todos, levaram a carroça com todas as coisas. Yuna e Yuri consolavam suas mães depois do susto, Zarina, que havia perdido o marido nas mãos de um desses ladrões de rua, estava em choque, já Yuuto tentava se manter calmo e pensar em uma maneira de voltarem pra casa.
Son não estava muito longe mas levaria muito tempo para irem andando apenas com as roupas do corpo e sem nenhum alimento, ficaram sentados a beira da estrada por várias horas, inconformados, Yuri estava morta de fome, pensava a todo momento: "Em um momento sua melhor amiga está dando comida à um mutante sangue frio e no outro estamos todos passando fome! Depois a vida dele é que foi medíocre!"
Até que finalmente apareceu uma carroça, guiada por um bom velhinho e seu burrico, iam para Son! Foram todos de carona graças a boa vontade do senhorzinho e conseguiram chegar em casa de madrugada. Yuri e Zarina jantaram na casa de Yuna e depois foram para casa, tudo estava em ordem e em paz de novo, Nanami já havia dado a volta por cima da situação e agora falava animadamente sobre ir comprar roupas novas com a filha de manhã, parecia realmente feliz em estar de volta ao lar.
— Acho que há males que vem pra bem! – Dizia ela.
— Eu já acho é que você vai nos jogar na miséria com essa história de fazer compras! Lembre– se que sou um lenhador e compre somente o necessário! – Respondeu o cansado Yuuto a caminho do quarto.
— Bobagem homem! Nunca passamos fome!
Ele ainda comentou do quarto que o motivo era porque ele sabia administrar muito bem o dinheiro mas ela somente o ignorou e deu boa noite filha antes de entrar no banheiro.
Depois de um tempinho, quando Yuna estava quase dormindo, ouviu um barulho do lado de fora, teve medo e não fez coisa alguma, de novo o barulho soou com alguns gemidos estranhos e ela abriu a janela do quarto que ficava no segundo andar da casa. Tamanha foi a surpresa de se deparar com Atsu ali que ela quase gritou.
— Você está vivo!!! – Disse, um tanto baixo, com um sorriso.
Ele estava ensanguentado, ferido, machucado, acabado, com as roupas despedaçadas, muito pálido, fraco e sujo...Mas estava vivo!
— C– Consegue dar a volta? – Ela perguntou fazendo um gesto com a mão para facilitar a compreensão e fechou a janela antes de ouvir a resposta dele.
Animada, desceu as escadas rapidamente, tentando não fazer barulho e destrancou a porta, olhou para os dois lados e a rua estava deserta, ela deu a volta na casa e lá estava ele, cambaleando, ofegante.
Yuna arrastou Atsu pra dentro de casa, ele gemia de dor e respirava com dificuldade, na cozinha acabou por esbarrar em algumas coisas fazendo barulho, ela agradeceu por seus pais estarem terrivelmente cansados da viagem e no mais profundo sono. Na escada já encontraram um pouco mais de dificuldade e ele tropeçou algumas vezes de maneira que quase ambos despencaram escada à baixo, mas com mais esforço finalmente chegaram ao quarto dela.
— Ai meu deus, o que eu faço? – Ela disse baixinho tentando manter a seriedade diante da cena cômica enquanto encostava a porta atrás de si.
Ele tombou sobre a cama fazendo barulho e o coração dela quase parou.
— SSHHHHHH!!!
Yuna voltou a abrir a janela e a luz da lua cheia iluminou todo o quarto, incluindo o corpo debilitado dele, era uma das poucas noites em Son que o céu estava limpo, ela se aproximou encostando os dedos finos em seu rosto.
— Está com febre... – Atrapalhada olhou em volta sem necessidade alguma lembrando que precisaria de água e panos limpos.
— Yuna... – Atsu chamou, sussurrando fracamente, tinha a visão turva e pendia a cabeça para um lado e outro, ela o observou. – Eles vão vir atrás de mim?
— Não, todos pensam que você morreu.
Ele deu um pequeno sorriso e fechou os olhos, seu peito subia e descia vagarosamente com a respiração pesada.
Yuna saiu e voltou com uma bacia cheia de água e panos úmidos, ele já havia dormido e ela agradeceu por isso quando o despiu e vergonhosamente começou a limpar o corpo dele, se sentia patética.
Atsu era cheio de cicatrizes apesar de ter um físico bonito, a que se destacava de todas era a que tinha nas costas, grande e meio avermelhada, ficava no exato lugar onde, normalmente, saíam os galhos espinhosos, Yuna se perguntava o que tinha acontecido com eles.
Feita a limpeza ela improvisou alguns curativos para as feridas exportas, que não eram poucas aliás, e depois o cobriu, o observou por alguns minutos e deu um longo suspiro, passou a mão no rosto e voltou a fechar a janela.
— Mas o que é que estou fazendo? – Disse mordendo o lábio inferior.
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