Um coração perdido no espaço
2 Capítulo 1 – ano 2.042 d.C.
His Pov
“Estar em dúvida é um perigo, pois as escolhas que fazemos decidem nossa vida.”
O céu visto do espaço era uma visão que não me cansava nunca, não importava há quanto tempo convivesse com ela. Eu sabia bem disso, pois vivia em uma base lunar há exatos cinco anos. Era incrível como o tempo passara rápido e eu mal tinha percebido, mas também com toda a agitação decorrente da guerra intergaláctica, não era de se estranhar que o tempo houvesse passado despercebido.
Desde o dia em que decidira fazer parte desta missão, minha vida havia se tornado combater as espaçonaves que queriam a todo custo invadir o planeta Terra, com o propósito de destruí-lo. Confesso que não foi uma incumbência fácil de ser realizada, mas tinha valido à pena cada minuto, pois enfim havíamos conseguido vencer essa guerra.
Mesmo com todo esse tempo em que estava aqui, eu ainda conseguia me lembrar com clareza do dia em que resolvi me alistar.
Era tarde da noite, mas eu não estava com sono, pressentia que devia ficar acordado, mesmo não imaginando por que, por isso liguei a televisão e fiquei mudando de canal até encontrar algo que fosse bom o suficiente para me entreter. Quando parei em um canal de notícias, foi como se o destino estivesse me chamando, pois o noticiário anunciava o que todos temiam que acontecesse; a Terra estava sendo ameaçada de invasão por um exército de seres intergalácticos.
Em uma tentativa de conter a situação, vários homens estavam sendo enviados para o espaço para operarem as naves contra os invasores. A partir daquele momento eu sabia que não poderia ficar parado. E foi por isso que decidi que no dia seguinte iria me candidatar para ser enviado no próximo foguete que partisse.
Entretanto, eu havia me esquecido de um detalhe, e que por sinal era muito importante em minha vida, minha noiva Rafaela. Nós estávamos noivos há dois anos – sendo que namorávamos há mais de oito –, e planejávamos nos casar dentro de alguns meses. Mas com tudo o que estava acontecendo, isto seria impossível, pois eu não podia ignorar a chance de servir pelo bem da humanidade. Ela teria que entender.
Fechei os olhos com força ao lembrar-me dela, as coisas não haviam sido nada amigáveis quando eu lhe contara o que pretendia fazer. Rafaela podia ser o amor da minha vida, mas eu não podia colocá-la em primeiro lugar daquela vez, não quando o futuro do mundo estava em jogo; seria egoísmo de minha parte pensar primeiro na minha felicidade quando o planeta precisava de toda a ajuda possível, e eu estava disposto a ajudar.
Coloquei o capacete e resolvi sair um pouco, caminhar em meio às rochas lunares me faria bem, depois de ter relembrado sobre ela. Eu tentava ao máximo não pensar no que havia deixado para trás, porque tinha medo de ser corroído pelo remorso, uma vez que percebesse o que eu havia abdicado para poder estar ali.
Saí para o ar rarefeito, e pus-me a perambular sem rumo, apenas apreciando o silêncio que a paz pós-guerra trazia, e o ritmo plácido de meus pensamentos. No entanto, minha mente não me deixou em paz por muito tempo, e logo me vi pensando novamente nela.
Não consegui dormir depois que tomei minha decisão, e passei o resto da noite imaginando formas de contar para Rafaela, de um modo que ela conseguisse compreender a importância do meu ato.
Quando o dia amanheceu, me preparei para enfrentar sua reação, mas esperava que apesar de tudo, nosso amor fosse forte o suficiente para resistir a esse percalço, já que eu não tinha ideia de quando iria voltar para casa, uma vez que partisse.
Estacionei meu carro na vaga de sempre em sua garagem e após tocar a campainha, esperei que a porta fosse aberta.
– BOM DIA, SR. MONROE – Saudou-me MS-505 – o robô que era como uma governanta naquela casa – após fazer meu reconhecimento facial.
– A Srta. McBride se encontra?
– SIM – e conferindo em sua programação, passou-me a localização de minha noiva, que se encontrava em seu quarto.
Antes de entrar em seu quarto, porém, foi preciso fazer a leitura da minha digital, para que eu tivesse acesso ao cômodo. A tecnologia havia avançado muito na época em que estávamos vivendo, pois nossos pais diziam a todo o momento como as coisas no tempo deles eram menos complicadas; já que eu não havia vivido em outro período, se não este, não podia opinar se estavam certos ou errados.
– Rafa amor estou entrando no seu quarto, portanto não se assuste – avisei antes que a pegasse trocando de roupa, como da última vez, o que me rendeu um belo sermão por não anunciar minha chegada.
– JOSH! – ela praticamente atirou-se em meus braços, e por pouco não caímos os dois no chão, já que havia sido pego de surpresa.
– Vejo que estava com saudades, hein? – falei enquanto a colocava no chão.
Esse comentário a fez corar e ficar envergonhada instantaneamente. Apesar de todo o tempo em que estávamos juntos, e de tudo que havíamos passado, eu ainda era capaz de fazê-la ficar envergonhada com um simples comentário. Isso era tão ilógico, que a tornava ainda mais especial para mim.
– Exagerei na recepção, não é? Prometo me controlar mais da próxima vez.
– Por mim você pode me recepcionar do jeito que quiser, sempre irei adorar. Mas o motivo que me trouxe aqui hoje é algo sério, que tenho que tratar com você.
Isso a fez ficar em alerta instantemente.
– E sobre o que é? É algo relacionado ao nosso casamento?
Suspirando, peguei-a pela mão e a fiz sentar-se na cama ao meu lado. Seria melhor para ela ouvir a notícia estando sentada.
– De certo modo, sim, pois isso mudará todos os nossos planos.
– Como assim? – ela olhou-me assustada. Eu odiava que Rafaela ficasse assim, e eu não pudesse fazer nada para acalmá-la.
– Rafa você já viu algum noticiário hoje?
Ela negou veemente.
–Pois bem, deixe-me informá-la da situação atual de nosso planeta. Uma guerra espacial foi iniciada, e as naves extraterrestres querem ultrapassar nossa barreira e adentrar a Terra, mas o pior é que eles vêm a com missão de destruir nosso planeta.
– O QUÊ?! – gritou ela aterrorizada.
– E para contê-los, estão enviando homens para o espaço para operar as espaçonaves.
– E o que isso exatamente tem a ver conosco?
Isso iria ser mais difícil do que eu pensava, mas era necessário, portanto, busquei forças dentro de mim e tentei explicar minha, ou nesse caso, nossa situação.
– Estou querendo lhe dizer que eu vou me alistar para essa missão.
– Você não pode estar falando sério?! – ela disse, já começando a se exaltar. Eu conhecia bem o gênio da minha noiva, e quando isso acontecia, todos que estavam por perto eram atingidos pela sua explosão.
– É claro que estou falando sério. Você sabe que sempre quis fazer algo memorável pelo mundo; algo para saber que fui útil, de algum modo, para o planeta; e essa é a oportunidade que eu estava esperando para fazer meu sonho tornar-se realidade.
– E como nós ficamos nessa história?
– Bem, sobre isso...
– Deixe-me ver se entendi direito – Rafaela falou enquanto levantava-se da cama. Isto não era um bom sinal; significava que eu já a havia irritado a um ponto irremediável. – Você veio aqui hoje para terminar comigo? É isso mesmo?!
– Rafa não é bem assim...– Agora que eu estava ali, olhando-a, vi que não poderia pedir para que esperasse meu retorno; eu poderia demorar anos para voltar, ou talvez nunca regressasse, se algo me acontecesse enquanto estivesse lá. – Eu posso demorar anos para voltar, dependendo de quanto tempo isso irá se estender. E pelo modo como eles parecem estar preparados, isto certamente demorará. Seria injusto pedir-lhe para me esperar. Não sabemos o que pode acontecer enquanto estivermos separados...
– Não diga mais nem UMA palavra! Eu quero você fora da minha casa AGORA! – ela disse apontando para a porta, sem me encarar, mas eu sabia que seus olhos estavam marejados, porque os meus próprios estavam.
– Eu não queria que as coisas terminassem desse modo, não queria mesmo.
– SAIA!
Dirigindo-lhe ainda um último olhar, saí do daquele quarto, deixando o amor da minha vida para trás. Aquela era uma imagem que permaneceria em minha memória para sempre. Eu só esperava não me arrepender desta decisão depois.
Meu coração apertou-se com as imagens vívidas, que minha mente acabara de me fazer reviver. Cinco anos haviam se passado, e mesmo que houvesse me desligado disso enquanto a guerra reinava, os sentimentos haviam retornado com força total, agora que não existia outra coisa com que ocupar minha cabeça. Eu ainda amava Rafaela; com a mesma intensidade, se não mais do que antes.
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