— Quem é essa, Gregory? – perguntou um homem em um terno rosa berrante quando o auror levara Margot até uma sala pequena e iluminada apenas por algumas velas que flutuavam junto ao teto, ao final de um longo corredor de paredes revestidas.

— Essa é Margot Gaunt. – contou o auror ao homem, que fitava Margot com receio. – Era esposa do Bennedict Gaunt. A trouxe para o Ministério no intuito de fazer-lhe algumas perguntas.

O homem de rosa riu pelo nariz, e tornou a rascunhar algo em um pergaminho, com sua pena de pavão.

— O sujeito usou uma Maldição da Morte, Gregory. Não haverá julgamento. — disse ele, fazendo pouco caso da presença dos dois. — Ele será mandado direto para Azkaban, logo, não será necessário interrogatório. – e sublinhou essa última frase enquanto perfurava Margot com os olhinhos.

— Eu não pretendo interroga-la sobre o ato com o Avada Kedavra, Kent. – explicou Gregory. O auror puxou Margot para junto de si, pela cintura, e continuou: — Apenas – e agitou a mão com displicência para Kent – registre que ela está no Ministério. Não vai demorar nada.

Kent deu um longo suspiro e fez que sim.

Ele começou a escrever algo em um novo pergaminho, e esticou a mão para Margot, que recuou alguns passos, assustada.

— Sua varinha. – explicou Kent a Margot, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Eu...

— Ela é abortada. – contou Gregory, abafando a voz, próximo a Kent, para que a dupla que acabara de entrar na sala, não ouvisse.

Kent arregalou os olhos para Gregory, e depois deslizou-os para a Gaunt, que sentiu-se como se o homem pudesse ver através de suas roupas.

— Entendo... – disse ele. Sacudiu a cabeça e terminou de preencher o pergaminho. – Pois bem. Então seja rápido. – E limpou o suor da testa, como se estivesse preocupado com algo.

Gregory levou Margot dali apressadamente, e o jeito com o qual ele segurava seu braço, daria a impressão de que a estava levando para uma cela.

Margot sabia que havia muitas pessoas preconceituosas que abominavam os abortos — principalmente porque convivera com uma durante muito tempo – então perguntava-se se mesmo ali no Ministério da Magia, haveriam pessoas assim. Mas não achava que aquele homem se espantara somente pelo fato de ela ser um aborto. Pensara, enquanto subiam uma longa escadaria dourada em caracol, que talvez fosse porque a ideia de um Gaunt, como seu marido, casar-se com um aborto, era tão absurdo quando ter trouxas estudando na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts

Enquanto seguiam por um longo corredor torto, que parecia manipular a gravidade para que pudessem andar no chão, que foi subindo até tornar-se a parede, teve vontade de indagar Gregory sobre o que ele iria lhe perguntar, mas as palavras simplesmente não lhe chegavam à garganta. E se fosse algo que não saberia responder? E se ele a achasse burra, e resolvesse abandona-la como seus pais haviam feito? Sabia que devia confiar nos aurores, pois Bennedict sempre falara mal deles, ou seja, significava que eram homens bons, mas aquilo tudo estava sendo demasiado novo para ela. Ver tantas coisas mágicas, tantas pessoas bem vestidas. Soltou um silvo de espanto quando uma coruja acizentada passou pelos seus cabelos com um memorando no bico.

Sabia também que o natural era estar extremamente confusa, ou, ao menos, assustada com tantas coisas acontecendo uma atrás da outra. Mas a cada segundo que parava para pensar, sentia-se mais aliviada por não ter mais de conviver com Bennedict, e quando esse fato lenitivo se apoderava dela, não se importava com mais nada. Só não sorria porque sabia que seus dentes amarelos e tortos poderiam enojar Gregory. Ele ficaria mesmo preso em Azkaban para sempre? Será que não tentaria fugir e vir atrás dela onde quer que estivesse? Ela apertou o medalhão no bolso, e respirou fundo. Não tinha motivos para se preocupar tanto. No momento, só responderia algumas perguntas, e mesmo nas que não soubesse a resposta, iria tentar dar uma resposta inteligente. Apesar de ter vivido em uma casa pobre em meio à sujeira e abusos, não era burra. Pelo menos se considerava, e nunca ousaria dizer isso em voz alta — na verdade, até temia pensar nisso demasiado alto -, que era mais inteligente que Bennedict.

— Alohomora. – murmurou Gregory para a maçaneta de um outro corredor.

A porta se abriu sem ruído, e o auror fez um gesto para que ela entrasse.

O lado de dentro era um pouco maior do que a sala de antes. Vários abajures espalhados pelos cantos iluminavam o lugar, e havia algumas pequenas vassouras varrendo o chão, sozinhas. Margot apertou o medalhão novamente, enquanto desviava a perna do caminho de uma pequena vassoura.

— Colloportus. – disse Gregory, e Margot ouviu a porta se trancar às suas costas.

O auror passou por ela, e fez um gesto com a varinha, e duas cadeiras foram puxadas para o centro da sala. Ele atirou-se sobre uma, e indicou a outra para a garota, que levou alguns segundos para sentar-se, pois era a primeira vez que alguém a convidava a sentar, de fato.

Eles se encararam por um tempo, com um silêncio modorrento arranhado pelo som das vassouras. Ela evitava olhar diretamente para ele. Tentou usar os cortinados de cabelo para bloquear parcialmente — mesmo que seu intuito fosse completamente -, seu rosto.

Ela conseguiu ver, de viés, o auror dar aquele mesmo sorriso lhano de antes, e institivamente, ela o retribuiu.

— Estão casados há quanto tempo? – perguntou ele, com os braços cruzados em frente ao peito, ao notar o sorriso da menina.

Margot engoliu em seco. Na verdade, nem tão em seco, pois o sorriso desceu-lhe a garganta. Realmente não esperava essa pergunta, pelo menos não tão abruptamente.

— Cinco anos. – contou ela, forçando para a voz sair alta.

Gregory assentiu, como quem confirma uma teoria.

— E imagino que ele já tenha contado sobre a família dele.

— Só me disse que eram descendentes de Slytherin.

— Mais nada?

Margot tentou puxar pela memória, mas nada lhe ocorrera, portanto, ela apenas balançou a cabeça em negação.

— Os Gaunt costumam casar-se apenas entre eles mesmos, você sabia?

Margot arregalou os olhos e sentiu o sangue subir para suas bochechas.

— Mas... Eu não sou...

— Exatamente. – disse Gregory, em um suspiro.

Margot encolheu os ombros, e muitas perguntas vieram-lhe à mente. Ela apertou fortemente o medalhão no seu bolso, ao mesmo tempo em que Gregory parecia pensar em algo distante, como respostas.

— Sabe – começou ele, roubando a atenção da garota. – seu marido... Bem, ele deserdou os Gaunt há cinco anos. Deve ter te encontrado nesse tempo. Fizemos investigações, e parece que ele roubara um artefato importante dos Gaunt antes de ir...

Margot conseguiu evitar olhar na direção do medalhão, mas o apertou novamente, ainda mais forte que antes. Não sabia se devia contar a alguém sobre ele, mesmo que soubesse que nada teria a fazer com ele, não podia se dar ao luxo de correr o risco de ser roubado. Era demasiado importante.

— O objeto que pegou no quarto antes de irmos – continuou o auror, com um tom de voz um pouco mais duro que antes. -, o que era?

Margot sentiu sua respiração vacilar. Ela tinha plena certeza de que seus olhos estavam arregalados, mas não conseguia normaliza-los. O que diria a Gregory? Com certeza ele pediria para ver o objeto, não teria como mentir... Mas... Ele a ajudara, e parecia tão confiável, será que seria sensato duvidar dele? NÃO! Qualquer um ficaria feliz em se adonar de um objeto como aquele... Ela não podia deixar... Foi quando sentiu aquilo subindo-lhe... Como da outra vez.

— Veja bem – disse Gregory -, precisamos saber com o que estamos lidando. Bennedict está sendo investigado. Investigado sob suspeita de ter criado uma Horcrux.

“Horcrux”. Margot já ouvira falar desse termo em um dos livros que havia espalhados pelo casebre, com as páginas cobertas de fungo. Ela não conseguira ler o bastante, pois Bennedict o tirara dela assim que a pegou lendo, mas sabia que era uma magia dificílima, e extremamente das trevas, que tornava quem a fizesse, imortal.

— Por acaso, seu marido não demonstrou cuidado excessivo com nenhum item de sua casa? Ou pelo menos, um apego material estranho?

Novamente Margot apertou o medalhão.

— S... Sim. – respondeu ela, o que arrancou um sorriso satisfeito do auror.

— E foi justamente o objeto que você pegou, não foi, Margot?

— Sim. Mas ele só era tão cuidadoso com o medalhão, porque dizia que ele pertencera a Salazar Slytherin. — as palavras simplesmente saltaram da boca da garota. Não em seu tom tacanho habitual, mas agressivamente, cortante, como a voz de um juíz.

O sorriso de antes, de Gregory, fora encoberto por uma máscara de espanto. Margot imediatamente se encolheu, e sentiu como se não devesse ter dito nada sobre o medalhão.

— Eu sabia que devia ser algo assim. – disse Gregory, em tom macio, como se estivesse feliz consigo mesmo. – Se Bennedict criou uma Horcrux, com certeza foi esse medalhão! Ele pode ter deixado os Gaunt, mas ainda continuava com o orgulho de ter o sangue de Slytherin nas veias. Só iria confiar um fragmento de sua alma, a um objeto desse nível. Finalmente posso provar para todos que eu estava certo. O infeliz realmente fizera uma Horcrux! Sim... É um pouco cedo para afirmar de certeza, mas tudo bate!

— Então você vai...

— Vou ter que ficar com o medalhão, Margot. — ele parecia tão feliz que sequer demonstrou cuidado em não soar rude.

Margot saltou da cadeira sem pensar duas vezes, a respiração pesada e os olhos tremendo. Lançou em volta, um olhar rápido, procurando algo que pudesse usar para se defender caso ele partisse para cima dela, e correu para a porta, onde tentou girar a maçaneta com toda sua força, mas ela sequer se mexera.

— Margot. – disse Gregory, calmamente, ainda sentado. – Eu só vou estudar o medalhão. Fique tranquila. Além do mais, nem sei por que ele significa tanto assim pra você, afinal, você não é uma Gaunt legítima, só se casou com um.

Margot então parou de tentar inutilmente abrir a porta.

Ela virou-se devagar para o auror, ainda tremendo. Todo o conforto e confiança que sentira outrora, derretera. Ela agora só pensava em como queria se livrar dele. Sua súbita mudança de pensamento, assustara até ela própria, mas não gastou nem um segundo tentando entender, pois estava gostando. Ao que parecia, a raiva lhe dava uma deliciosa sensação de poder. Uma sensação que só tivera uma vez antes.

— Você quer rouba-lo de mim! – sibilou ela. – Quer roubar o meu amigo!

Gregory franziu o cenho, e levantou-se, com a varinha em mãos. Se aproximou de Margot lentamente, como quem se aproxima de uma fera selvagem, a passos suaves.

— Margot, escute. Eu só estou cumprindo ordens. Ei, eu te salvei, não salvei? — seu tom mudou de cuidadoso para amigável nessa última frase. — Bennedict iria te fazer mal se eu não tivesse chegado. – e esticou a mão para a instável Margot. – Me dê o medalhão... por favor. Você não fez nada de errado...

Mas Margot não disse nada. Não precisou. Não iria deixar ninguém tirar o medalhão dela. NINGUÉM! No instante seguinte, viu-se flutuando sobre um estupefato... ou melhor, horrorizado Gregory. Ela mergulhou em direção a ele, e depois em direção à parede, que conseguiu destruir facilmente. Agora pairava sobre o salão tumultuado de antes, arrancando gritos lancinantes das pessoas lá em baixo, e antes que qualquer um tentasse detê-la, voou para o teto, perfurando-o. Foi subindo até irromper no meio de uma rua de Londres. A buzina dos carros e os gritos das pessoas ficaram impressos em sua memória quando ela voou para o alto dos prédios, espiralando. A fumaça negra que ela era, mais se assemelhava a uma estranha areia.