Margot encontrou refúgio no topo de um arranha-céu. Ou melhor, o topo do arranha-céu que encontrou-a, pois enquanto voava descontroladamente, a parede sólida veio a seu encontro como o vidro frontal do carro vem ao de um mosquito.

Enquanto ela rodopiava pelo terraço, a fumaça negra se dissipava, e seu corpo normal ganhava forma novamente. Ela ficou lá estirada com a cara nas pedrinhas e areia, enquanto o vento uivava em seus ouvidos, no momento, extremamente sensíveis. Havia gosto de sangue em sua boca, e tudo o que conseguia pensar, era em como sua cabeça doía. Ela pôs-se sentada com imensa dificuldade, e não resistiu à tentação de vomitar um pouco, ao lado de umas folhas de papel rasgadas e molhadas que provavelmente vieram parar ali do mesmo modo que ela, embora claramente não pelas mesmas circunstâncias.

A garota olhou em volta, a só conseguiu ver o céu azul, tatuado pelas nuvens. Devia ser um prédio muito alto mesmo, pois não havia sequer sinal de nenhum outro por perto. Ela imediatamente lembrou-se do medalhão, e enfiou a mão no bolso. Para sua felicidade, sentiu o metal frio na ponta dos dedos. Ela soltou um um sorriso aliviado, e tirou a joia de lá. Ficou encarando seu reflexo de sorriso amarelado, a um passo de beija-lo.

Enquanto o encarava, ali, sentada na imundície que não diferia muito da qual estava habituada no casebre, lembrou-se da primeira vez em que pusera os olhos no objeto.

Fora uma noite muito chuvosa. Os raios iluminavam toda a casa, enquanto a água penetrava impiedosamente pelas goteiras e o vento passava pela madeira como se quisesse levar todos os poucos móveis com ele. Bennedict havia saído, provavelmente para ficar com as amantes, e Margot estava no quarto, tremendo de frio em baixo das cobertas finas e roídas por traças. Seus dentes não paravam de bater, e ela sequer tivera coragem de levantar-se para matar a enorme aranha que se aproximava, porque isso significava ter de se descobrir.

Foi quando um raio estourou ao longe, e sua luz fez algo dardejar dentro de uma das gavetas do marido. Aquilo, por alguma razão que nem mesmo ela soubera explicar, atiçara sua curiosidade a ponto de esquecer-se do frio, e levantar-se para dar uma olhada. Ao abrir a gaveta, e duas baratas saírem correndo em busca de abrigo na escuridão, ela viu, recortado na escuridão pela luz da lua que se projetava nas gotas na janela, um medalhão de ouro, com uma letra “S” gravada nele.

Margot o pegara, e, de repente, um forte calor a envolvera. O frio era agora apenas uma lembrança desagradável. O objeto a enchera de alegria, e fora o mais próximo que ela sentira de amor. Ela ficou deitada com ele até ouvir o som do marido chegando, muitas horas após o término da tempestade. Desde aquele dia, sempre que Bennedict saía, ela o pegava escondido, para admirar, cuidar, e... por mais estranho que soasse mesmo a ela própria, conversar com ele. Fora um amigo tão importante e compreensivo, que não deixaria ninguém se apoderar dele. O valor que o medalhão tinha a Margot, não era material, muito menos pelo fato de ter pertencido a Slytherin. Era um valor que ela não entendia e preferia nem tentar entender. Só sabia que aquele medalhão era a única coisa que a ajudara a se sentir bem naquela vida imprestável com Bennedict, e, portanto, seu melhor amigo.

Não tinha certeza se o Ministério tentaria encontra-la, mas daria um jeito de fugir, como dera antes. Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Aquela fumaça negra rompante e destrutiva... Entretanto, a única vez que sua raiva fora forte o bastante para que tomasse aquela forma, Bennedict dera um jeito de contê-la, e, depois, puniu-a com muito mais severidade do que nunca, portanto, Margot nunca mais ousara fazer aquilo. Ela nunca tentara entender, e jamais ousaria perguntar a Bennedict, só achava que era o fragmento de magia que havia em seu corpo, uma vez que sabia que os abortos, embora não fossem capazes de realizar feitiços, tinham algo diferente dos trouxas normais.

Mas agora não havia motivo para ter medo. Ela apertou o medalhão contra a bochecha gelada, e o vento soprou demasiado forte, fazendo areia voar em seus olhos fechados. Ela ficou pensando se o que o auror falara, era verdade. Bennedict realmente criara uma horcrux? E se criara, teria sido realmente nesse medalhão? Não, não era possível. A sensação que o medalhão lhe causava era o extremo oposto do que Bennedict lhe fazia sentir. Não conseguia acreditar que pudesse haver qualquer resquício da alma de alguém tão podre, em um objeto tão amável, que lhe fazia tão bem. Não se importava se Bennedict havia ou não criado uma, cinco, ou cem horcruxes. O importante era que não o visse nunca mais. Mas precisaria encontrar um lugar para viver; e quando esse pensamento a atingira, a vontade de chorar veio com um baque.

Confiara no Ministério, nas palavras de que iriam lhe arranjar uma moradia, mas não podia voltar lá. Mesmo que aceitasse abrir mão do medalhão pela oportunidade de uma, eles a prenderiam por tudo que havia feito para sair. Sequer sabia se Gregory ainda estava vivo, afinal. Se o tivesse matado, iria para o mesmo lugar que Bennedict: Azkaban. E a perspectiva de encontra-lo lá era tão ruim quanto morrer de fome nas ruas de Londres.

Ela levantou-se, e sentiu um formigamento nas pernas que a fez quase cair de joelhos. Olhou em volta, e pensou em como desceria dali. Tentou abrir a única porta que havia no terraço, mas a mesma estava trancada. Será que conseguiria usar a fumaça negra para escapar, novamente? Não... Não era assim que funcionava. Ela correu para a mureta que delineava o terraço, e olhou para baixo. Viu os inúmeros carros passando e as janelinhas do prédio faiscando, ao mesmo tempo em que pensava se conseguiria descer pela lateral, mas isso seria loucura.

Ela olhou para a porta por cima do ombro e lançou-lhe um olhar avaliador.

O jeito seria esperar ser resgatada. Mas a julgar pelo estado daquele terraço, ninguém devia vir ali há muito tempo.

Pensou em acenar para alguém em um prédio vizinho, mas se alguma pessoa tivesse visto a fumaça negra mergulhando no terraço, poderia suspeitar de algo, então achou melhor descartar a ideia. Ela bateu na porta com força. Bateu, e bateu, na esperança de que alguém aparecesse.

Passaram-se cerca de dez minutos, e fora o uivo do vento e das buzinas abafadas dos carros lá embaixo, não ouvira nada. Ela deitou-se em um canto sujo e saburrento, com o medalhão contra o peito, em posição fetal. A noite chegou rápido, e com ela, o frio. O corpo da garota tremia da cabeça aos pés, e, naquele momento, nem mesmo o medalhão a aquecia.

Ela acordou inopinadamente, e colocou o medalhão em frente ao rosto. Jurara tê-lo ouvido falar com ela. Em seus sonhos. Mas isso era impossível, não é? Já tivera essa sensação antes, mas o pensamento de acordar para mais um dia com Bennedict a fizera, naquela ocasião, ignorar completamente essa ideia, e tornar a embalar-se no sono.

Antes que pudesse considerar voltar a dormir, ou não. Ouviu um estalido seco, juntamente com uma forte corrente de ar que a envolvera. Quando ela levantou a cabeça para ver adiante, arregalou os olhos remelentos para a figura alta e esguia que se encontrava diante dela. Não conseguira ver direito, mas discerniu que era um homem um tanto velho, e, pelas roupas caras que cobriam seu corpo como um invólucro esmeralda, deduziu ser extremamente rico.

— Você está com algo que me pertence, aborto nojento. – cuspiu ele.

Margot sequer sentira-se ofendida. Estava ocupada demais sentindo medo. Ela se arrastou pateticamente até a mureta atrás dela, enquanto o homem avançava com a varinha em mãos.

— Q... Quem...

— Corvinus. Corvinus Gaunt. – respondeu ele, com um nítido orgulho na voz. – E esse medalhão não é seu, é? Ele foi roubado pelo meu patético sobrinho. Soube que ele foi para Azkaban, certo? – e soltou uma risada cruel. – Parece que finalmente foi feito justiça. Agora eu pude localizar o medalhão sem problemas. A punição para traição aos Gaunt, é a morte, como ele bem sabia. Infelizmente, aquele imbecil não pode ser morto. Talvez seja exatamente por isso que tenha criado uma Horcrux. Não imagino por que aquela criatura iria querer viver para sempre.

Então Bennedict realmente havia feito uma Horcrux? Mas não pode ter sido no medalhão... Não... era impossível. Devia mesmo acreditar no que esse homem dizia? Havia ouvido falar dele através de Bennedict, mas fora que ele era um bruxo muio perigoso e inteligente, não sabia nada. Devia tentar escapar? Mas como? E para onde? Quem sabe se conseguisse virar aquela fumaça novamente... Mas, se esse homem estivesse dizendo a verdade, por mais duvidosa que fosse a situação, ele poderia ter as respostas para muita coisa. Ele tinha uma certa semelhança com Bennedict, mas daí concluir que era realmente um Gaunt, seria um erro. E mesmo se fosse, poderia estar mentindo apenas para ter o medalhão de volta. Não, não haveria motivos para finger ser Corvinus Gaunt. Devia ser o verdadeiro.

Ela então apertou a joia como se fosse um filho, e perguntou ao Gaunt:

— Então, quer dizer que realmente há um pedaço da alma dele... aqui? — e indicou a joia com os olhos.

E, inesperadamente, Corvinus riu. Sua gargalhada fria ecoou pelo terraço como o lamurio de um fantasma.

— Olhe, sua criança idiota, acredito que você nunca tenha tido um só momento feliz nessa sua vida imprestável, e, como essa situação passa diretamente por você, farei-lhe o favor de te contar algumas coisas. Não pense nada errado. Não estou sendo... hum... gentil com você. Estou apenas fazendo mais por você do que qualquer um provavelmente já fez em sua vida. Se você acredita ou não, não me importa, só saiba que não ouviria nada diferente de outra pessoa, a não ser, talvez, o próprio Bennedict, uma vez que aquele egoísta só pensa em si mesmo.

“Não, criança. A Horcrux não foi feita nesse medalhão. São necessários alguns passos para a criação de uma. Você sabe quais são?", e quando Margot terminou de balançar a cabeça em negação, Corvinus assentiu, como se já esperasse essa reposta, e continuou: "O primeiro deles, é matar uma pessoa. O ato de matar cria uma ruptura em sua alma. O segundo, é apoderar-se carnalmente do cadáver. Isto é, ter relações com o morto, de modo que tanto seu corpo quanto sua alma fiquem impregnados e malditos. O terceiro, por fim, é fazer o morto beber o seu sangue. Derramá-lo garganta a baixo. Feito isso, seu corpo e o cadáver se tornam um”.

“Entenda por que estou lhe explicando isso, menina. Porque ele não criou uma horcrux nesse medalhão. Ele apenas roubou para que nós não o tivéssemos. Ele nem se importava com isso, realmente. Ele só descobriu que eu poderia localizar o medalhão, muito mais tarde. Mas não iria se livrar dele, afinal, pertencera ao maior bruxo de todos os tempos! Minha criança, ele colocou um fragmento de sua alma, em você!”.

Margot prendeu a respiração. Os dois ficaram se encarando, antagônicos, com apenas o sopro do vento ao fundo. Seu coração acelerou subitamente. Ela não sabia o que pensar, ou sequer se devia pensar em algo. Isso não fazia sentido, realmente não fazia.

— Isso não... Não é...

— É natural que pense isso, não? – disse Gaunt, revirando os olhos. – Bennedict não era burro. Ele colocou feitiços de proteção ao redor de seja lá aonde vocês se escondiam, para que eu não pudesse sentir o medalhão enquanto estivesse dentro dele. Do contrário, eu poderia aparecer a qualquer instante. Acontece que ele é mais impulsivo do que é inteligente. Ao matar aquele trouxa, ele revelou sua localização, não só a mim, mas ao Ministério. E era tudo que eu precisava.

A cabeça de Margot ainda girava. Então quer dizer que Bennedict não a deixava ficar com o medalhão, por medo de que pudesse sair da proteção e revelar a localização a Corvinus? Isso era realmente verdade? Bem... considerando que Corvinus aparecera ali só porque ela estava com o medalhão, concluiu que ele realmente poderia localiza-lo, e, já que apareceu só agora, depois de cinco anos, essa história de proteção mágica devia ser verdade. Fazia sentido. Mas se ela era de fato uma Horcrux...

— Mas então porque ele me torturava tanto? – berrou ela, com os olhos vertendo lágrimas. – E por que ele colocaria um pedaço de sua alma, a uma bruxa abortada? Alguém que ele desprezava tanto! E por que em mim? Eu entendo que ele não colocaria no medalhão porque você cosegue localiza-lo, mas...

Corvinus riu mais uma vez.

— Ah, sim, sobre você — disse Gaunt com desdém. — Bem, acontece que você é ainda mais poderosa que uma bruxa, Margot. Você é uma Obscurial.

Margot franziu o cenho.

— O que?

— Você é o primeiro caso de uma Obscurial que não se tornou uma ao reprimir os poderes mágicos. Nasceu assim. Uma anomalia dentro do grupo das anomalias. Fascinante, não é? Sim, um poder desses era motivo de muita admiração a Bennedict. Por isso ele deve ter feito de você, sua Horcrux.

“Mesmo correndo o risco de você explodir, ele queria muito ver seu poder aparecendo. Por isso os ataques constantes à sua pessoa. Bem, a verdade é que ele não podia morrer, então não se importava que o Obscurus saísse. Acredito que você deva ter muita estima por esse medalhão, não?".

Margot apenas fez que sim com a cabeça, enquanto um zumbido alto ressonava em sua cabeça, e lutava contra a vontade de vomitar.

— Isso também tem uma explicação simples. – contou Gaunt. – Salazar Slytherin colocou muito de si nesse objeto. Pelo fato de você ser uma Horcrux, há muita magia negra dentro de você. Logo, algo que pertencera a um bruxo como ele, lhe daria, no mínimo uma sensação de conforto. Também acredito que só deva ter começado a notar a existência do medalhão, depois de virar uma Horcrux.

"Ele pode, no inicio, ter feito de você sua esposa apenas porque era um maluco que sentia atração pelo seu corpo de criança, mas depois você provou-se uma joia rara". E riu, em deboche. "Pois é, minha criança. Creio já ter feito mais do que o suficiente por você. Acredito que isso já me torna melhor que Bennedict, não? Como eu disse, pouco me importa se acredita ou não. Tudo que posso fazer é afirmar que o que eu disse é verdade".

Ele então perscrutou Margot com um olhar interessado, e soltou um sorriso grácil.

— Eu entendo o sentimento dele. — confessou Gaunt, menos venenoso que antes. — Consigo sentir o poder fluindo de você. Acho que o destino não é amável com algumas pessoas. E, infelizmente, você foi uma delas. Mas, na medida do que uma pessoa pode ser infeliz, acredito que você aproveitou bem sua vida. Mesmo que eu não a matasse aqui, logo o MInistério chegaria, e você passaria o resto da vida, presa. Então, parece que estou lhe fazendo mais um favor, não acha? Depois que acabar aqui, irei matar Bennedict também, e levar o medalhão de volta, para onde ele sempre deveu estar.

Margot apertou o medalhão mais forte do que nunca quando Gaunt apontou-lhe a varinha. A última coisa que sentiu foi o vento gélido arrepiando os cabelos da nuca, e seu corpo perdendo peso e assumindo leveza. O céu estava lindo. Era como se todas as estrelas assistissem àquela cena, apenas esperando para que Margot se juntasse a elas. Devia ser assim desde o começo, não? Margot nunca se achara digna de continuar vivendo. Gaunt estava certo. Algumas pessoas não nasceram para serem felizes, tampouco para viverem o bastante para terem a chance de tentar ser. Mas estava tudo bem. Sua curta vida, pontuada por mais sofrimento do que uma pessoa normal teria mesmo em uma vida de cem anos, terminaria ali, em uma noite linda como aquela.

Fechou os olhos, aspirou o ar frio que a cercava, e, por alguma razão que nunca chegaria a descobrir, sorriu.

— Avada Kedavra. – disse Gaunt.

E a vida de Margot se extinguiu em um lampejo de luz verde.

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