Um anjo em minha vida
2 Meu carro não.
Notas iniciais
Sou arrancada da cama pelo despertador, que mostra que já estou atrasada vinte minutos, como não ouvi tocar antes?
Me arrumo em tempo recorde, e desço as escadas passando pela mesa do café da manha e pego uma maçã.
–Bom dia pai, bom dia Marta, bom dia Alec, bom dia Scarlet... Scarlet?
Ela cora, tenho que sorrir pra ela.
–Bom dia Florence, dormiu bem minha filha? -Meu pai perguntou.
–Sim pai, e o senhor?
–Otimamente bem. -Olhou pra Scarlet.
–Não preciso de detalhes, Sr° Charles Mayer. -Meu irmão gargalhou. -Estou indo, tenho um trabalho pra apresentar, e estou atrasada. Beijos...
Saio de casa, praticamente voo pra chegar a tempo, estaciono e corro pra minha apresentação.
–...Então com a morte de Julieta e Romeu as famílias, Montecchio e Capuleto, decidiram se unir.
–Você escolheu essa história de amor por quê exatamente, Srta. Mayer?
Uau, não esperava por essa pergunta.
–Bom, eu gosto dela por sem um amor impossível e mesmo assim os dois conseguem superar as diferenças e ficam juntos, mesmo no final, tendo que morrer um pelo outro.
–Ótimo argumento, A+ pelo seu trabalho e apresentação. Está dispensada. -Agradeço e saio da classe, vou em direção á lanchonete.
Disco o número da Lola, que atende no terceiro toque.
–Oi amiga! -O entusiasmo dela me alegra.
–Oi Lô, você está na faculdade? -Pergunto.
–Sim, estou saindo da sala do Syfrield.
–Eu tô na lanchonete, vem pra cá?
–Claro, cinco minutos eu estou aí.
Desligo e continuo caminhando, não sei quando eu tropecei, mas, noto que estou sendo segurada por braços fortes, e sinto o cheiro que meu olfato aprendeu a decifrar tão rápido, madeira e grama molhada, olho pra cima e lá está ele, Samuel me encara com um sorriso torto nos lábios.
–Temos que para de nos encontrar assim. -Eu digo, tentando me soltar do seu aperto, ele me solta. -Desculpe. -Sua expressão fica fria.
–Não, eu que tenho que me desculpar, sempre estou no seu caminho. -O sorriso volta para o rosto, lindo por sinal, meu subconsciente me lembra. -Mas, eu não sei se gosto da ideia de não nos encontrarmos.
–Ah. -É tudo que consigo arrancar da minha voz. Faço um esforço. -Eu senti esse cheiro ontem, pra falar a verdade, tenho sentido muito esse cheiro. -Chego o rosto até o peito dele e inspiro, sim é o mesmo perfume.
–E você gosta? -Ele me manda um sorriso sedutor, por uma fração de segundos minhas pernas falham e meu coração da um batida em falso.
Há, ele te pegou de jeito fofa, fala que gosta. Meu subconsciente ralha pra mim. Percebo que ainda estou no caminho da lanchonete.
–Não é ruim. Quer comer alguma coisa? Estou indo pra lanchonete. -Mudo de assunto.
–Claro, alem do quê, no caminho você pode quebrar uma perna ou algo pior. -Ele zomba.
–Você é bem chato não é?
–Florence! -Escuto Lola me chamar. -Oi, amiga. -Ela me abraça, e olha para o Samuel e depois pra mim.
–Ah, claro, Samuel, Lola, Lola, Samuel. -Disse apontando pra um e depois pro outro.
–É um prazer conhecê-la. -Ele beija as costas da mão dela.
–Uau, o prazer é todo meu.
Revirei os olhos pra cena.
–Cuidado amiga, não se engane, ele é do tipo que parece, mas não é.
Ela o avaliou de cima a baixo.
–É? Não parece.
–Viu eu disse, parece, mas não é.
Ele pigarreia -Você me ofende desse jeito, Flor.
Minha boca cai com o apelido, tento dizer algo, mas é em vão, sento em uma das quatro cadeiras ao redor da mesa, ele senta do meu lado direito e ela no esquerdo.
Nós fazemos os pedidos e conversamos sobre tudo, acabei descobrindo que ele faz faculdade de Filosofia, tem vinte anos, é sozinho no mundo, não tem muitos amigos e não gosta de falar sobre a vida dele.
Refleti sobre o perfume dele, como eu pude sentir na minha casa, se ele nunca esteve lá? Esse cheiro não é tão distante, desde de pequena eu sentia sempre, o mesmo cheiro de grama molhada e madeira, sempre a minha volta, mas nunca havia ninguém.
Sou tirada dos meus devaneios pela voz esganiçada da Lola:
–Ai meu Deus, eu não acredito, Florence, estão te guinchando. -Ela diz apontando pro meu carro.
–O quê? -Olho e meu carro está realmente sendo guinchado. -Não, não, não, mas que droga.
Levanto e pego minha bolsa, corro em direção do meu carro.
–Moço, moço, por que está fazendo isso? -Perguntei batendo no vidro do caminhão.
–Você parou em vaga exclusiva, sinto muito.
–Não, olha eu pago a multa, agora, mas por favor, não leva a minha neném, por favor!
–Desculpe moça, regras são regras, tenho que levá-la, mas pode me seguir, e é só pagar e dar baixa, no depósito.
Olho pro Samuel e ele entende o que eu quero.
–Vamos eu dou uma carona pra você. -Ele diz revirando os olhos e eu o sigo.
–Amiga, eu te ligo assim que eu tirar minha neném de lá. -Digo pra Lola.
Entramos em um estacionamento e seguimos até uma Ranger preta.
–Esse é seu carro? -Perguntei boquiaberta.
–Sim. -Ele dá um sorrisinho de lado. — Por quê?
–Nada, eu só... Nada, vamos logo. -Como alguém que não tem ninguém, pode ter uma carro desses?
Ele deu partida e nós seguimos o guincho pelas ruas de Londres, em algum momento ele quebrou o silêncio:
–Eu tenho medo por você, seu carro é rápido demais, e você é a personificação do desastre. -Passa a mão nos cabelos sedosos, eu queria poder fazer isso.
–Eu me dou bem melhor com os pedais da minha Ferrari, do que com os meus pés sobre o chão. -Respondo secamente. -Além do mais, você não tem que se preocupar comigo.
Ele não responde, apenas me olha sério e volta a olhar a rua, em menos de dez minutos estamos no depósito.
Entro em uma porta e vou até uma moça morena e gorducha, que está atrás de um balcão:
–Com licença, meu carro acabou de chegar aqui, eu vim dar baixa.
–Qual o carro e a placa? -Ela pergunta mal humorada.
–17-HG-2365, Londres, é uma Ferrari. -Digo e ela levanta um olhar pra mim e sorri docemente.
Ah o humor está aí. Meu subconsciente diz.
–Claro, siga-me. -Ela para. -Se quiser, pode vir bonitão. -Ela diz pro Samuel. Mando minha melhor feição séria, mas estava me segurando pra não rir.
–É, vem bonitão. -Eu falo, ele chega perto do meu ouvido e sussurra:
–Você me paga.
Seguimos a mulher até o depósito, ela pega um papel e me entrega:
–Assine isto, e depois pague, o valor está na última linha. -Disse sorrindo.
–Ah, sim.
Assino e dou o dinheiro a mulher, -que se chama Katrina- ela o olha, devo ter dado alguns números á mais de notas.
–Aqui tem dinheiro de mais. -Ela disse mexendo na caixa registradora.
–Fique com o troco. -Pisco pra ela.
–Mas... São trezentos Euros de troco. -Ela me olha.
Vou até ela e cochicho no ouvido para que o Samuel não ouça:
–Assim que eu me afastar você pega um papel e anota um número qualquer, depois entrega pra ele e diz: me liga bonitão. Aí estaremos quites.
Ela sorri e faz o que eu pedi, quando estamos saindo ela chega perto, entrega o papel para o Samuel, quase me desmancho em risadas pela cara de assustado dele.
–Vai ter volta. -Ele passa por mim batendo os pés.
–Tchau, bonitão.
Ele da meia volta e para na minha frente.
–Flor, sobre eu não ter que me preocupar com você, bem, é verdade, mas eu quero me preocupar. Você é tão frágil. -Coloca uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. -Não suportaria ter ver machucada.
–Obrigado por isso e por me ajudar também. -Eu digo, dou um beijo em sua bochecha e saio dali. Constrangida pelo que acabou de acontecer.
Entrei no meu carro e segui pra minha casa.
São quase meia-noite e o sono começa a aparecer, me deito na cama e fecho os olhos o sono me atinge como um trem bala.
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