Um amor inesperado
18 Aniversário de Salma
Giane e Bento começaram a pegar bem cedo no batente. Toda a vizinhança estava colhendo as flores da rua, como sempre. Rosemere veio falar com Giane e Bento. Ela e Filipinho haviam resolvido se mudar do Imirim para a casa do pai dele, no Pacamembu. Depois de muitos anos, Filipinho finalmente conhecera o pai e se aproximaram. Rosemere queria que Bento a ajudasse a levar os móveis.
— Gente, eu estou de mudança e o carreto que eu contratei não vai dar conta de levar tudo meu, não. Será que vocês podiam me dar uma força aí com a van? — perguntou Rosemere.
— Lógico, Mere! — disse Bento. — Só que pode ser depois? Que agora a gente está indo pro Ceasa, mas depois eu te dou uma mão.
Rosemere não estava animada com a ideia de se mudar.
— Mas por que você está assim, desanimada, pô? — perguntou Giane. — Pode ser até legal essa mudança.
— Deus te ouça, é que eu estou com tanto medo. — disse Rosemere. — Mas é muito bom saber que eu posso contar com amigos tão legais.
— Toca aí! — Giane sorriu e bateu com a palma da mão na mão de Rosemere. Em seguida, apertou-lhe a mão. — Fechou!
— Vai dar tudo certo. — disse Bento, apertando a mão de Rosemere.
Bento e Giane foram para o Ceasa. Depois, Bento foi ajudar Rosemere com a mudança, e Giane foi trabalhar na loja. Wesley ficou ajudando-a na loja.
— Então, Dani, sucesso com o seu presente. — disse Wesley, entregando a flor para a cliente. — Não tenho dúvida que a gente vai acertar.
— Obrigada. — disse a cliente.
— De nada. — disse Wesley, sorrindo.
Giane estava distraída, lembrando da noite anterior, quando encontrou Bento e Malu dentro do carro, aproximando os rostos. Giane lembrou também que ela e Bento discutiram. Bento garantiu que ele e Malu não estavam namorando, que apenas inventaram a história do namoro para provocar Amora. Mas para Giane era evidente que iam acabar namorando. Ela acreditava que Bento e Malu teriam se beijado, se ela não tivesse chegado na hora. Bento negou, alegou que ela estava viajando. Mas ela bem que havia notado o interesse da Malu no Bento. Havia um clima entre Bento e Malu, alguma coisa no ar. Giane não gostava nada disso.
— Ô Giane, o Bento saiu hoje de novo, é? — perguntou Wesley, desviando-a dos pensamentos e fazendo-a voltar ao mundo real.
— Saiu. Mas pelo menos, hoje ele foi ajudar a Rosemere, né? — respondeu a garota. — Porque se ele fosse atrás daquela entojada da Amora, eu ia... — ouviu o toque do telefone e resolveu atender. — Acácia Amarela, bom dia! Girassol. Temos sim.
Bento passou horas ajudando Rosemere na mudança. Depois voltou para a loja, e contou tudo o que havia acontecido na casa onde Rosemere foi morar. Rosemere iria morar com o pai do Filipinho, Perácio, a esposa dele, Brenda, os enteados Xande e Tábata e a mãe dele, Glória. Ainda havia o agregado, Eliseu, antigo estilista de Glória.
— Tomara que a Rosemere seja feliz naquela casa. — disse Bento, em frente ao balcão, colocando um ramalhete de flores em um vaso. — Gente mais esquisita. A vó dele quase me expulsou, porque eu me ofereci pra cultivar flores no jardim dela.
Bento estava se referindo à avó paterna de Filipinho.
— Ah, a Rose enquadra aquela gente rapidinho, quer apostar? — disse Giane, ajeitando um arranjo de flores.
Gertrudes apareceu, carregando um vaso de flores, dizendo:
— Oi, Bento!
— Oi! — disse Bento.
— Te vi na tv ontem! E parabéns pela namorada! — disse Gertrudes.
— Ela não é a namorada dele. — disse Giane, enciumada.
Bento não deu a menor bola para a crise de ciúmes da amiga.
— Obrigada, dona Gertrudes. São 50 reais. — disse Bento.
— Obrigada. — disse Gertrudes, entregando o dinheiro a Bento. — Parabéns!
— Obrigado. — disse Bento, sorridente.
— Tchau, tchau.
— Volte sempre! — disse Giane.
Gertrudes foi embora. Giane perguntou:
— Por que você não falou a verdade, Bento?
Giane não estava entendendo nada. Até quando o Bento ia manter a farsa de que estava namorando Malu? Não era ele quem criticava a mídia por mentir, distorcer a realidade? Giane não estava reconhecendo-o.
— Porque eu não preciso ficar falando da minha vida pra ninguém! — disse Bento. — Deixa ela pensar o que ela quiser!
No ponto de vista de Bento, agora que ele assumiu o namoro com Malu para a imprensa, não ficaria desmentindo, nem inventaria que terminaram. Se o namoro era fake ou não, não era da conta de ninguém.
— Aliás, você acabou de me dar uma ideia. — disse Bento, e pegou o celular do bolso do avental. — Convidar a Malu pro aniversário da tia Salma.
O aniversário de Salma seria à noite, no Cantaí. Bento resolveu convidar Malu. Afinal, eram amigos. Ele não convidaria Amora porque estavam brigados. Amora continuava noiva de Maurício, não pegaria bem ela sair com o namoradinho de infância. Amora morria de medo que alguém tirasse uma foto dela e postasse na internet. Além do mais, Bento achava que, de qualquer maneira, Amora não iria ao aniversário da Salma, mesmo se ele convidasse. Amora tinha horror à Casa Verde. Ela só gostava de frequentar eventos de pessoas ricas e famosas, lugares chiques e badalados. Não iria a um barzinho de pagode, e ele podia apostar que ela nem se lembrava do aniversário da Salma. Amora não ligava a mínima para Salma, nem para Gilson. Amora nem apareceu no aniversário dele.
— Aproveita e chama a Amora também. — disse Giane, enciumada.
— Quer deixar de ser mala, ô garota? — disse Bento.
— Hum. — disse Giane, com a cara amarrada, cuidando dos seus afa-zeres.
Bento acabou ligando para Malu.
— Ô Malu! O quê que você vai fazer hoje à noite?
À noite, comemoraram o aniversário de Salma no Cantaí. Todos os vizinhos, amigos mais próximos estavam presentes, com exceção de Nestor e Odila. Odila e Salma continuavam brigadas, não se falavam.
— Parabéns, tia Salma! — disse Giane, alegre, dando um abraço em Salma. Ela tinha um carinho muito grande por Salma. Era como uma mãe para ela.
— Você vai viver pra sempre, mãe! — disse Jonas, abraçando Salma. Era um dos filhos do coração de Salma.
— Mas que isso, meu filho? Deus me livre! — disse Salma.
— É, mas sempre será essa pessoa toda trabalhada no alto astral, né? — disse Lili, abraçando-a.
— Ê! — disse Giane, batendo palmas.
Silvério também bateu palmas.
— Obrigado por sua amizade, Salma. — disse Silvério, dando um beijo e um abraço em Salma. Eram amigos há muitos anos.
— Ai! E pelo carinho e comida que dá pra gente também, né? — disse Socorro, indo dar um abraço em Salma.
Gilson e Bento apareceram e caminharam em direção a Salma. Gilson trazia um buquê de flores para a esposa.
— Flores! — disse Gilson.
— Ê! — disse Bento, aproximando-se.
— Flores! Flores pra flor mais linda da casa verde! — disse Gilson, entregando as flores para a esposa. Todos bateram palmas, e Gilson deu uma bitoca na Salma.
— Se eu derreter de tanto chorar, a culpa é de vocês. — disse Salma, emocionada, apontando para todos os que estavam ali presentes.
— Foram colhidas uma a uma pra mãe mais amada do mundo. — disse Bento. Ele considerava Salma como uma mãe, pois ela o criou, educou, lhe deu amor e carinho. Era a única mãe que ele conhecia.
— Você que é uma joia de filho, Bento. — disse Salma. — Aliás, três filhos de ouro que eu ganhei de presente, que são os irmãos que o Érico pediu a Deus.
— Ué, mas você gosta mais do Érico ou da gente? — perguntou Socorro.
— E precisa perguntar, Socorro? Tá na cara que o favorito dela é o Bento! — brincou Érico, apontando para o Bento.
Érico sabia que Gilson e Salma sempre tiveram um carinho especial por Bento. Não que não gostassem dele, ou dos demais órfãos, mas amavam demais o Bento. Tanto que ele, Érico, até sentia um pouco de ciúmes.
Todos riram. Foi quando Malu chegou, trazendo um presente para Salma. Bento foi cumprimentá-la:
— Malu!
— Oi! — disse Malu, sorridente.
Bento abraçou-a.
— E aí? — disse Malu. Dirigiu-se à aniversariante. — Ô Salma, uma lembrancinha. — entregou a sacola para Salma.
— Meu presente é a sua presença, meu bem. — disse Salma. — É meu!
— Parabéns! — disse Malu, abraçando-a.
— Obrigada! — disse Salma.
A festa estava animada. Um monte de gente veio ao aniversário. Havia vários casais dançando. Giane não conseguia tirar os olhos de Malu e Bento, que não se desgrudavam e conversavam na maior animação. Até que Bento tirou Malu para dançar. Giane não gostou nada disso. Estava morrendo de ciúmes. Douglas se aproximou:
— E aí Giane, tá a fim de dançar?
Ela não estava com bom humor para dançar. Ainda mais com um pirralho. Giane não entendia por que Douglas andava atrás dela. Além do mais, ela não levava o menor jeito para dançar mesmo.
— Claro que não! Ainda mais com um prego feito você! Se liga, meu! Sai! Xô! — disse Giane, sem a menor paciência.
— Então, fica aí sozinha, sua grossa! — disse Douglas.
Giane fez um gesto com a mão, deixando claro que não estava nem aí para ele. Douglas afastou-se, chateado. Giane continuou observando Malu e Bento, que estavam dançando. Até que Malu e Bento começaram a se beijar. Todos na festa ficaram olhando o casal se beijando. Até que o casal parou de se beijar. Giane não aguentou olhar e resolveu sair da festa. Acabou trombando em Caio. Caio achou-a linda.
— Ô! — disse o rapaz. — Não quer me levar junto, não?
Giane nem deu ouvidos. Continuou correndo em direção à saída. Foi andando em direção à praça. Ela não entendia nada. Bento havia dito que não estava namorando a Malu de verdade, mas acabou de beijá-la na frente de todo mundo. Ela se perguntou por que ele fez isso. Para provocar Amora não podia ser, porque Amora não estava presente na festa.
— Como é... Como é que o Bento me disse que ele não estava com aquela patricinha? — disse Giane, sentando-se em um banco da praça, chorando, com raiva de Bento. — Que cretino!
Charlene aproximou-se por trás e sentou-se atrás de Giane. Ela percebeu que Giane ficou chateada ao ver Bento beijar Malu e foi atrás dela. Estava morrendo depena da garota. Ela sabia que Giane gostava do Bento, e não aguentava mais vê-la sofrer por causa dele. O pior era que Bento não percebia. Giane viu que Charlene estava atrás dela.
— Você gosta demais do Bento, né? — perguntou Charlene.
Giane achava que gostar era pouco. Ela adorava o Bento.
— Eu sou louca por ele, Charlene. — disse Giane, e fungou. — Sempre fui. Mas eu sei que nunca vou ter a menor chance.
Ela acreditava que não tinha a menor chance contra Amora ou Malu. Amora era bonita, feminina, sofisticada, uma referência em moda para várias garotas. Giane não gostava de Amora, achava-a uma entojada, um poço de arrogância, mas uma coisa tinha de admitir: Amora era linda, tinha estilo, elegância, charme, e fazia sucesso com os homens. Muitas meninas se inspiravam na Amora para se arrumarem, se maquiarem. Amora sabia ser simpática e amável quando queria. Malu era bem diferente da Amora. Era mais básica e despojada, não ligava para moda, porém, era bonita e feminina, e ainda tinha um jeito doce, delicado, alto-astral. Diferente dela, Giane, que era masculinizada, não tinha vaidade, era grosseira. Ela usava cabelos curtos e bagunçados, roupas largas e nenhuma maquiagem. Era mais fácil Bento se interessar por garotas como Amora ou Malu. Ao comparar-se com elas, Giane se sentia menos mulher.
No ponto de vista de Giane, Bento podia até não julgá-la por ser menos feminina ou não se encaixar nos padrões de beleza impostos pela mídia. Mas ele também não a enxergava da maneira como ela gostaria. Ele a enxergava como amiga, parceira, sócia, não como mulher. Ele a respeitava como pessoa e tratava com dignidade e gentileza, e isso era maravilhoso. Mas Bento não a via como mulher atraente e desejável e isso era o que mais a machucava. Além disso, Bento era o suprassumo da doçura, da gentileza, da educação e da civilidade. Giane, com seu jeito marrento, sem modos, se sentia muitas vezes inadequada perto dele. Ela sentia que precisava se polir, se conter, se tornar mais civilizada para que Bento pudesse, quem sabe um dia, vê-la do mesmo jeito que via Amora ou Malu. Bento não exigia que ela fosse como as outras mulheres, mas Giane sentia que precisava mudar para ser notada por ele como mulher.
— Por que não? — perguntou Charlene. — Se você mostrar o seu lado mais feminino, eu tenho certeza que o Bento vai perceber a mulher linda que você é!
Giane não estava entendendo. Como assim lado mais feminino? Ela era do jeito que era, e só sabia ser assim. Além do mais, ela era grossa, desbocada, falava muito palavrão. Não adiantaria mudar o visual. Além do mais, ela queria que Bento gostasse dela do jeito que era, sem tirar nem por. Giane não queria ter de se transformar para Bento notá-la.
— O que adianta eu me embonecar toda, se é só abrir a boca pra estragar tudo? Eu sou muito grossa, né, Charlene? Também, eu não vou mudar quem eu sou só.... Só pra agradar o Bento.
— Você não precisa mudar, Giane. — disse Charlene. — É só você se olhar com mais carinho, se cuidar, se gostar mais. — passou a mão na cabeça da garota. — Você já pensou que esse teu jeito pode ser um escudo de proteção contra as pessoas?
Charlene achava que o jeito rude e pouco feminino de Giane era um mecanismo de defesa, uma maneira que ela encontrou de se defender do mundo e esconder dos homens a mulher incrível que era, o quanto ela podia ser bonita, atraente, amorosa e sensível.
— Proteção? Não sei de quê, né? Não está me protegendo de nada. Eu só quebro a cara. — disse Giane.
— Mas é isso que acontece com quem se defende o tempo inteiro. — disse Charlene. — Ô, meu amor! Eu só estou pedindo pra você ser mais vaidosa pra você se sentir mais forte, mais confiante. Porque quando você estiver bonita e bem, o Bento vai te ver de outra maneira. Ele e outros rapazes. — colocou o braço sobre o ombro dela. Passou a mão no ombro dela. — Aí, você para de ficar se lamentando pelos cantos por causa do Bento e faz alguma coisa pela tua vida. Se você quiser, eu te ajudo, tá?
Charlene deu um beijo na testa de Giane e abraçou-a. Ficou com Giane até ela ficar mais calma. Até que Giane resolveu ir para casa. Ela não quis voltar para a festa, não estava com ânimo para festejar o aniversário da Salma. Foi embora mais cedo. A aniversariante iria entender. Ainda assim, Giane passou o resto da noite chorando, agarrada à sua bola.
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