Um amor improvável

37 Expulso da festa


Fabinho acabou decidindo ir para um bar. Continuava na Casa Verde. Não tinha para onde ir, nem o que fazer. Precisava pensar. Por coincidência, acabou encontrando Natan no local. Fabinho surpreendeu-se ao ver Natan ali. Natan não tinha o costume de frequentar aquele tipo de ambiente. O que Natan fazia ali, naquele boteco?

Ele resolveu falar com Natan, para ver se conseguia voltar a trabalhar na Class Mídia. Era uma alternativa. Ele não podia continuar na rua, sem um tostão, sem lugar para dormir. Talvez Natan o aceitasse de volta. Afinal, ele havia dado boas ideias, havia criado bons slogans, e faria questão de lembrar Natan disso.

Natan estava indo atrás de uma mulher.

— Palmira, Palmira! — disse Natan, passando pela mesa onde Fabinho estava sentado, sem vê-lo.

Fabinho pôs o pé na frente de Natan e ele tropeçou.

— Que isso? — disse Natan, virando-se, assustado.

— Quem diria? — disse Fabinho, irônico, dando um gole na bebida. — Natan Vasquez frequentando bar de sétima categoria. Eu acho que a Class Mídia não tá indo muito bem, né? Talvez essa seja a horada gente repensar a nossa sociedade.

Natan pensou que era incrível como, depois de tudo o que aprontou, Fabinho ainda tinha a cara de pau de lhe dirigir a palavra e pedir o emprego de volta. Quando ofereceu sociedade a Fabinho, achava que ele era um garoto talentoso, rico, fino, pertencente à alta sociedade. Natan achava que Fabinho tinha ótimas ideias, que saberia criar bons slogans, atender bem os clientes. Mas mudou de ideia quando Fabinho fez pouco dele. O garoto o ridicularizou, ofendeu, e agora vinha pedir emprego? Além do mais, Natan agora sabia que Fabinho não passava de um bandidinho que tentou dar o golpe no Plínio. Tinha até ficha na polícia. Não era alguém confiável, porque até mentiu sobre o endereço. Natan agora sabia que o rapaz deu uma declaração de endereço falsa, para ninguém descobrir onde ele estava hospedado. Na certa, não queria que ninguém soubesse que ele estava hospedado em um muquifo. O garoto queria que todos pensassem que ele era rico, que os pais adotivos mandavam dinheiro para ele se hospedar em hotel luxuoso, ou alugar uma casa. Amora dissera que no endereço que Fabinho dera funcionava uma sapataria. E Fabinho não tinha mesmo noção de nada. Para entrar de sócio, ele precisaria ter dinheiro. E o garoto não tinha onde cair morto, nada a oferecer. E ele mesmo se queimou. Natan não queria ver Fabinho nem coberto de ouro.

Natan não queria alguém como Fabinho em sua agência, e o garoto devia se dar por satisfeito de não levar mais um processo nas costas, pois mentir sobre o endereço em documento é uma coisa muito séria. Se bem que talvez não fosse o caso de processar. Para ser configurado crime, o garoto teria que ter tido a intenção de prejudicar direito ou criar alguma obrigação. Mas Fabinho não mentiu sobre o endereço para obter benefício, como ganhar vale transporte, pois tinha uma moto, ainda que roubada. E era irrelevante se ele morava no Brooklin ou não. De qualquer maneira, Natan não processaria, porque Fabinho não estava mais trabalhando na Class Mídia, nem voltaria lá, no que dependesse dele. Além do mais, o garoto estava acabado. Estava na pior, sem emprego, sem dinheiro, respondendo a vários processos. Seria como chutar cachorro morto.

— Ficou maluco, garoto? — disse Natan. — Eu não te quero lá, de jeito nenhum!

— Você não falou que eu era talentoso, que eu sou bom?

— Tá cheio de garoto talentoso por aí. — disse Natan. — E eu prefiro um carinha medíocre, mas confiável do que um cocozinho traiçoeiro feito você.

Fabinho levantou-se, furioso. Natan não podia falar com ele daquele jeito.

— Olha como fala comigo, seu babaca. — disse Fabinho.

— Babaca é você! — disse Natan. — Você tá pensando que é alguma coisa? Você não é nada, garoto! Nem filho do Plínio você é. Sabia que tua herança já tá na mão de outro? Um tal de Bento, conhece?

Natan passou no Cantaí, atrás da Palmira Valente. Sabia que ela costumava frequentar aquele pé-sujo. Ele ficou sabendo que Bento era filho do Plínio. Natan acabou tocando no ponto fraco do garoto.

Fabinho odiou a notícia. Não podia ser. Tudo para aquele otário e para ele, nada? Ainda acabaria com a vida daquele desgraçado.

— O Bento? Quem te falou isso? Não, o Bento... O Bento não pode ser. Não, o Bento não pode ser filho do Plínio. — disse Fabinho, descontrolando-se e puxando a camisa e o paletó de Natan. — Quem te falou isso? Tá querendo me provocar? O Bento não é filho do Plínio! — começou a derrubar a garrafa em cima da mesa, e tudo o que havia na frente. — Ele não vai pegar o meu dinheiro!

— Segurança! — chamou Natan, assustado com a reação do rapaz.

Como Fabinho o havia humilhado, esculachado, Natan fez questão de jogar na cara do rapaz que o herdeiro do Plínio era o tal Bento. Fabinho vivia se gabando por ser filho do Plínio, e Natan sabia que Fabinho e Bento eram rivais. Ainda assim, Natan não achava que Fabinho fosse reagir desta maneira. Ele nunca tinha visto o garoto tão descontrolado.

— Esse dinheiro é meu! — berrava Fabinho, derrubando tudo.

Os seguranças vieram segurá-lo.

— Calma aí! Calma aí! Eu vou acabar com ele! — gritava Fabinho.

— Segurança! Isso! — disse Natan.

— Eu vou acabar com você! — ameaçou Fabinho.

Os seguranças arrastaram-no para fora. Porém, Fabinho lembrou da mochila.

— Minha mochila! — gritou o rapaz.

— Era só o que faltava! — gritou Natan.

Os seguranças expulsaram Fabinho do local, e trouxeram também a mochila dele. Fabinho ficou horas andando nas ruas da Casa Verde. Precisava pensar em um jeito de arrumar dinheiro. Sabia o que fazer. Pediria dinheiro a alguém. Estava em frente ao Cantaí, quando acabou vendo um carro luxuoso, e Camilinha Lancaster ao volante. Quando Camilinha parou o carro, Fabinho aproximou-se e deu umas batidas no vidro.

— Você tem grana?

Camilinha abaixou o vidro do carro.

— Não é assalto, não. É só um empréstimo, gata. — disse Fabinho.

— Nossa! Pra quem tinha um pai fazendeiro, você baixou bem o nível, né, Fabinho? — disse Camilinha, retirando dinheiro da carteira e entregando a ele.

Fabinho pegou o dinheiro, e viu que ainda restavam algumas notas na mão dela.

— Opa! — disse o rapaz, e pegou o restante do dinheiro. — Mas eu vou subir que nem um rojão. Pode esperar, grã-fininha.

— Uhum. Tá bom. — disse Camilinha, antes de dar partida no carro.

No dia seguinte, Fabinho decidiu tentar, mais uma vez, conseguir um emprego na Class Mídia. Precisava trabalhar para se sustentar, e não tinha mais onde conseguir trabalho. Natan estava furioso com ele. Mas ainda assim, Fabinho faria o papel do bom menino arrependido. Natan sempre caiu na conversa dele. Ele achou que não seria diferente desta vez. Natan estava desesperado para salvar a agência, e sabia que ele era talentoso. Certamente, iria querer sugar o talento dele. Assim que o viu, Natan disse:

— Rapaz, tua coragem é admirável, porque vir aqui depois de ontem, é preciso ter muito peito!

Na verdade, Fabinho agiu movido pelo desespero.

— Ué, Natan, você nunca foi injustiçado? — disse Fabinho.

— O quê que você quer? — perguntou Natan, sem paciência.

— Natan, eu tenho certeza que você não chegou aonde chegou levando as coisas pro lado pessoal. — disse Fabinho. — Tudo bem, eu sei que errei, mas já passou. E você também sabe que eu sou bom, senão não teria me oferecido sociedade.

— Ah, agora você quer ser meu sócio? — disse Natan, irônico.

— Eu acho que você é um cara esperto, visionário e vai me dar outra chance. — disse Fabinho. — Até porque, Natan, não sou só eu que preciso de você. Você também precisa de mim! Você deve lembrar que quando o Érico e a Sílvia saíram dessa agência, quem segurou tudo fui eu. Então... Tô dentro?

— Claro que está. — disse Natan.

Natan viu logo uma chance de humilhar Fabinho, dar o troco.

— Obrigado, Natan. — disse Fabinho, juntando suas coisas do chão.

— Dentro do lixo, seu coco! — disse Natan. — Karol, chama a segurança!

— Não, não precisa, não. Eu sei onde é o caminho. — disse Fabinho, indo embora, porém, Natan o deteve.

— Ah, espere! Espere! Espere! Tem um negócio aqui pra você. — disse Natan, tirando do bolso uma nota de dez reais. — Pra você pegar um busão direto pro inferno! — amassou a nota e jogou no rapaz.

— Obrigado. — disse Fabinho, sem graça.

Os seguranças chegaram, e Natan disse, apontando para Fabinho:

— Jogue esse verme na primeira caçamba de lixo que vocês encontrarem! Tá?

— Só cuidado pra não jogar na reciclável, que esse aí não tem jeito, não! — gritou Cléo.

— Eu já estou com pena dos ratos, na verdade. — disse Júlia.

Os seguranças foram arrastando Fabinho para fora. Fabinho resmungava.

— Peraí. Vou lá ver isso, gente! — disse Edu, com o celular filmando tudo.

— Ah, eu também vou! — disse Karol.

— Sério? — disse Cléo.

— Vamos! — disse Júlia.

— Vambora? — disse Cléo.

— Vem! — disse Karol.

Cléo, Júlia, Karol e Edu correram atrás dos seguranças. Estavam todos com raiva de Fabinho, por terem sido humilhados por ele. Fabinho foi le-vado pelos seguranças até a saída, porém, não o soltavam.

— Ok. Saí. Saí. — protestou Fabinho.

Os seguranças continuavam arrastando-o.

— Já tô aqui fora! — gritou Fabinho.

— Maravilha, hein! Que momento mágico! — disse Edu, filmando. — Fabinho de volta às origens!

Fabinho estava revoltado. O imbecil do Edu ainda estava filmando, certamente para botar na internet, para humilhá-lo ainda mais. Jogou a mala em Edu, e tentou dar uns chutes nele, porém não conseguia, pois os seguranças o seguravam.

— Gente, vocês lembram que tinha uma novela de uma menina que vinha do lixão, era supervingativa? — disse Júlia.

Os seguranças carregavam Fabinho, sob os protestos do rapaz. Em seguida, jogaram-no em uma caçamba de lixo que havia na frente da empresa.

— A Nina. Mas a Nina teve um final feliz. — disse Cléo. — Agora, o Fabinho só resta contracenar com privada suja, velha e melancólica!

— Tchau, Fabinho! — disse Edu.

— Tchau, Fabinho! — disseram Cléo, Júlia e Karol, em uníssono.

— Eu vou acabar com vocês! — berrou Fabinho.

— Vai tarde! — disse Júlia.

— Tchau, Fabinho!

— Beijo! — disse Karol, jogando um beijo.

Karol, Edu, Júlia e Cléo entraram na empresa, junto com os seguranças. Fabinho ficou revoltado. Oque aquela gentinha de quinta pensava que era? Sempre o trataram como se ele fosse nada, nunca o trataram bem, e agora, o jogaram na caçamba de lixo. Isso fez com que ele revivesse a humilhação da infância. Mas isso iria ter volta. Ele estava na pior, mas um dia se levantaria e se vingaria de todo mundo. Compraria aquela agência e mandaria a Karol, o Edu, a Júlia e a Cléo embora.

Ele ainda ficou com um machucado no braço. Resolveu ir até a casa de Gilson e Salma. Fabinho tinha certeza de que Salma não se recusaria a cuidar de seu ferimento. E ele ainda aproveitaria para ver se eles tinham algum objeto de valor. Ele não sentiria a menor culpa por roubar. Mesmo porque para ele não havia saída. Ele não tinha a quem recorrer. As pessoas que podiam ajudá-lo se recusaram a fazê-lo. Viraram as costas para ele. Ele estava vivendo na rua, sem emprego, sem dinheiro. Só restava roubar.

Quando Fabinho chegou na casa de Gilson e Salma, porém, encontrou Bento, Plínio e Irene reunidos à mesa, à espera de serem servidos. A mesa já estava posta, com pratos e talheres. Só faltava a comida. Certamente, era a hora do almoço. Fabinho não gostou nada de ver Bento com Irene e Plínio. Era demais para ele. Sentia-se como se a vida o estivesse castigando e premiando o idiota do Bento. Aquele otário estava tomando tudo o que era dele: o pai, a mãe, a irmã, o anel, a herança, tudo. No ponto de vista de Fabinho, Bento roubava todo o afeto das pessoas, não dando a chance de ele ser aceito e amado. Para Fabinho, Bento havia roubado até o amor de Giane, ou a única chance de ele ter uma amiga de verdade na infância. Bento sempre tomava tudo dele. Mas ele ainda iria pagar por isso.

— Eu acho que eu cheguei numa boa hora, né? — disse Fabinho.

— Fabinho? — surpreendeu-se Irene, levantando-se.

Bento levantou-se da mesa. O que aquele bandido veio fazer ali?

Fabinho pensou logo em uma maneira de se vingar. Mas não iria ser idiota de matar aquele imbecil na frente de Plínio, Irene, Gilson e Salma. Até porque ele podia não valer nada, mas matar não era sua praia. Além disso, ele não sujaria suas mãos com tão pouca coisa. Se fosse para cometer um crime, não iria querer testemunhas. Iria apenas dar um bom susto naquele otário, para Bento ver o que era bom para a tosse. Calcularia bem, e jogaria a cadeira alto o suficiente para que não acertasse o Bento. Pensariam que ele era maluco, mas não estava nem aí. Ele era mesmo.

— Licença. — disse Fabinho, pegando uma cadeira grande, pesada e jogou-a. A cadeira voou por cima da cabeça de Bento, que se encolheu, e acertou a parede.

— Você achou que ia tomar tudo que é meu e ia ficar assim mesmo? — disse Fabinho.

Para Gilson, Salma, Plínio e Irene, era óbvio que o rapaz não estava nada bem. Ninguém em seu estado normal agiria daquela maneira. Só podia mesmo estar surtado para atirar uma cadeira no Bento na frente de todo mundo. Ou então, era muito burro, além de mau-caráter.

— Eu vou te matar, Fabinho! — gritou Bento, possesso, partindo para cima dele. Afinal, Fabinho quase acertou a cadeira na cabeça dele.

Gilson tratou de se colocar entre Fabinho e Bento, para evitar que brigassem:

— Ficou louco? Ficou louco? — disse Gilson, e tratou de separá-los.

— Eu vou chamar a polícia antes que esse moleque faça alguma besteira. — disse Plínio, tirando o celular do bolso. Ele achou que o rapaz estava muito descontrolado, era bem capaz de quebrar tudo, se machucar e machucar seriamente alguém.

— Chama quem você quiser que eu não estou nem aí pra você! — gritou Fabinho. À essa altura, ele não se importava com mais nada. Plínio e os demais podiam chamar a polícia, o presidente da república, o papa, que ele não estava nem aí. Ele queria mais era que todos se danassem.

Irene, porém, tomou o celular da mão de Plínio.

— Plínio, ele precisa de tratamento e não de cadeia! — disse Irene.

— Que boazinha! Que boazinha! A sua mamãe é boazinha! — ironizou Fabinho, dirigindo-se a Bento.

— Some daqui antes que eu quebre a sua cara! — gritou Plínio, furioso.

— É? É? — disse Fabinho.

— É. — disse Plínio.

— Você está muito feliz de ter se livrado de mim, né? — disse Fabinho.

— Ah, mas você não imagina como eu estou aliviado. — provocou Plínio.

— Tenha um pouco de dignidade! Vai embora daqui! — gritou Gilson. — Some, velho!

— Eu vou. É, eu vou embora. — disse Fabinho, juntando suas coisas. — Eu sou um cachorro, né? A vida inteira sendo chutado, eu vou!

Para Salma, Fabinho não foi chutado do lar e ela tinha certeza de que ele não foi chutado por Margot. Ele estava era se fazendo de coitado para as pessoas ficarem com pena dele. No ponto de vista de Salma, ela e Gilson sempre cuidaram bem de todos os órfãos, da mesma maneira. Nenhuma criança que morou no lar podia se queixar de maus-tratos ou negligência. Ela e Gilson se esforçaram para oferecer um ambiente seguro e amoroso para crianças que não tinham para onde ir. Eles se esforçaram para prover comida, teto e educação. Eles tiveram muita paciência com Fabinho, muita tolerância, apesar de ele ter sido uma criança difícil e na opinião dela, esta era uma forma de amor. Ela e Gilson não tinham por Fabinho o mesmo carinho e orgulho que tinham por Bento. Até porque Bento era especial, era impossível não amar. Bento era uma pessoa incrível, que trazia luz e paz para todo mundo. Ele exalava uma energia leve e resolvida, e iluminava o ambiente por onde passava. Parecia ter uma luz própria, que ofuscava tudo. Bento transbordava afeto e calor humano. Além disso, ela e Gilson tinham mais afinidades com Bento. Com Fabinho era diferente. Contudo, para ela, amar também era não querer o mal, cuidar bem, educar, além do mais, Fabinho não era fácil. Fabinho era uma criança reativa, revoltada e que testava os limites o tempo todo. Se fossem outras pessoas no lugar deles, teriam expulsado o garoto. Eles nunca trataram Fabinho com menos cuidado que os outros órfãos. Na visão de Salma, ela e Gilson cumpriram seu papel de cuidadores e na ausência dos pais biológicos, eles eram a família disponível das crianças. A grande frustração de Salma era o fato de Fabinho não reconhecer ou valorizar todo o esforço deles.

— Não é verdade! — disse Salma. — Você foi muito bem tratado nessa casa! Depois foi criado com todo amor pela dona Margot!

Fabinho não pensava assim. Ele não acreditava que ser excluído pelas outras crianças, ser alvo de chacota, fosse ser bem tratado. Ser cuidado por pessoas que não gostavam dele, apenas o suportavam e que deixa-vam isso bem claro, não era ser bem tratado. E o que Salma sabia sobre Margot? Nada. Salma não conhecia Margot. Margot só o adotou para fazer caridade, se fazer de boazinha. Era outra que não gostava dele. Não de verdade. Apenas o suportava. Margot vivia reclamando dele, o via como um poço de problemas, como uma cruz a ser carregada. Desde quando isso era gostar de alguém? Fabinho sentia que sempre foi tratado como lixo por todo mundo. Por causa dessa gentinha do lar adotivo, ele ficou maluco. Ele não era assim, esse garoto violento, desequilibrado, que estava sempre tenso e não conseguia olhar na cara das pessoas sem se sentir mal. Eles iriam pagar por isso. E Salma era falsa, dissimulada. Nunca de-monstrou um pingo de afeto por ele, só sabia falar mal dele, que ele dava problemas. Tudo o que Salma deu a ele a vida toda foram críticas, broncas, lições de moral. Ela nunca o elogiou, nunca reconheceu nada do que ele fez de bom, nunca disse que gostava dele, que se importava com ele. Ela estava era se fazendo de boazinha na frente de Plínio e Irene.

Fabinho se ressentia de Salma e Gilson. Eles agiam como se tivessem feito um grande ato heroico por terem suportado por anos um garoto problemático sob o mesmo teto, e esperavam gratidão eterna por isso. Só que Fabinho se recusava a ter gratidão por uma infância miserável. Ele não queria a tolerância e a paciência de Gilson e Salma, tampouco a escassez, a miséria. Ele não queria cuidadores. Ele não queria ser um projeto de caridade de segunda classe nem ser condenado a viver de restos em um abrigo onde todos o detestavam. Tampouco viver eternamente na sombra do Bento. Ele queria sua família de verdade, queria a vida que era para ter sido dele, e por muito tempo acreditou que só encontraria pertencimento e o amor verdadeiro quando encontrasse a família biológica. Mas ele se enganou e estava longe de encontrar seus pais de verdade.

— E você estava lá? Você viu isso? Ninguém nunca gostou de mim, não!

— Sai daqui, Fabinho! — gritou Bento.

Irene sofria por ver Fabinho tão revoltado, tão perdido. Podia não ser seu filho, mas até pouco tempo atrás, ela achava que era. Passou a vida inteira achando que aquele menino era seu filho. Ela ia sempre vê-lo brincar, amou-o a distância por tanto tempo. Ela queria ajudá-lo. Irene não suportava vê-lo daquele jeito. Estava feliz por ter Bento como filho. Era um rapaz maravilhoso, o filho que qualquer mãe pediria a Deus. Mas ela não deixou de gostar de Fabinho, de se importar com ele.

— Fabinho, Plínio, Fabinho, eu queria tanto poder te ajudar. — disse Irene. — Plínio, será que a gente não consegue arrumar um trabalho pra ele?

Fabinho não queria trabalhar, nem receber migalhas de ninguém. Ele dispensaria qualquer ajuda de Irene, que para ele era uma fingida.

— Que trabalho? Que trabalho? Você acha que eu quero trabalho? É só isso que vocês têm pra me oferecer? Trabalho? — gritou Fabinho.

— Chega! Ninguém aguenta mais o seu papo! — gritou Bento, posses-so, partindo para cima de Fabinho. — Sai daqui, Fabinho, antes que eu te mate, cara!

Na opinião de Bento, Fabinho não tinha razões para ser tão revoltado. Para Bento, o argumento de problema de infância não colava, porque na opinião dele, avida tinha sido muito generosa com Fabinho. Ele foi adotado por uma família rica, teve tudo, todas as chances. Fabinho foi criado por pais maravilhosos. Foi muito amado. Na visão de Bento, se tinha uma coisa que Fabinho não podia se queixar era de falta de cuidado e afeto. Bento tinha certeza de que os pais adotivos de Fabinho sempre o trataram como príncipe, ainda mais sendo ele filho único. De onde Fabinho tirava que ninguém gostava dele? Ele que nunca gostou de ninguém, nem do casal que o adotou. Mesmo quando morava no lar, Fabinho não podia se queixar de negligência e maus-tratos. Gilson e Salma nunca o trataram mal, e sempre tiveram muita paciência com ele. Do contrário, teriam mandado Fabinho para outro lugar. Fabinho que era um ingrato. Não reconhecia o que as pessoas fizeram por ele. No ponto de vista de Bento, não havia justificativa para Fabinho ter se tornado um monstro. Ele não entendia porque Fabinho tinha tanta raiva das pessoas.

Gilson se colocou entre Fabinho e Bento, separando-os.

— Sai! Sai! — gritou Gilson.

— Vocês todos falam em compaixão! O tempo inteiro, falando em compaixão! — gritou Fabinho. — Mas quem é que vai ter dó de mim, agora, ó? Aqui, ó. — mostrou o machucado no antebraço. — Quem é que vai limpar o meu machucado? Alguém pode me ajudar?

— Vai indo pro banheiro, que eu já vou cuidar disso. — disse Salma.

— Você está ficando louca, tia Salma? — disse Bento, fazendo sinais de que ela estava ficando lelé, e apontou para Fabinho. — Você vai receber esse cara aqui dentro?

No ponto de vista de Bento, Fabinho iria aprontar alguma, porque só ferrava quem o ajudava. Salma iria se arrepender de ajudar o marginal.

— Bento! Eu sei o que eu tô fazendo! — disse Salma.

Fabinho foi direto para o banheiro. Salma foi limpar a ferida do rapaz e fazer o curativo. Havia uma farpa de madeira na ferida, e deu um trabalhão para tirar. Depois Salma foi para a sala, dar atenção para as visitas. Fabinho aproveitou para entrar no quarto de Gilson, para procurar, ver se havia alguma coisa de valor que ele pudesse levar para vender. Olhou tudo. Pegou uma das joias e enfiou nos dentes, para ver se eram valiosas. Pelo visto, era bijuteria.

— Que pobreza! — Fabinho murmurou, para si mesmo. Olhou para o conteúdo de outra caixinha, e era tudo bijuteria. — Nossa!

Fabinho foi vasculhando nas prateleiras, até encontrar um talão de cheques. Destacou algumas folhas do meio e do fim e guardou de volta no lugar. Enfiou no bolso as folhas que arrancou. Recolheu seus pertences e pulou a janela.

Entrou no quintal do Bento, aquele lugar horroroso, na opinião dele. Ele não sabia como alguém podia gostar de morar em um antigo barracão velho e reformado. Vasculhou tudo, revirou as gavetas, à procura de algo de valor. Achou apenas alguns trocados, mas enfiou-os no bolso mesmo assim. Resolveu ir embora, porém se deparou com a amoreira, que Bento e Amora haviam plantado juntos quando eram crianças. Aquela árvore era um símbolo do amor deles. Cheio de raiva, Fabinho aproximou-se e deu um chute na amoreira, quebrando um galho. Não pensou duas vezes, e pegou uma enxada. Ele queria derrubar aquela árvore maldita, que o lembrava do que ele não tinha, do que ele nunca viveria, um amor, uma conexão como a que Amora e Bento tinham. Pensando bem, ele não iria querer saber de pieguice mesmo. Não acreditava em romance. Começou a dar golpes com a enxada na árvore, porém, Irene chegou bem na hora.

— Fabinho?

O rapaz parou. O que ela queria com ele, afinal? Ele não conseguia entender. Irene já havia encontrado o filho. Por que não o deixava em paz?

— Não faça isso, meu filho. — disse Irene, aproximando-se. — Isso é uma agressão à natureza, meu filho.

Fabinho não entendia por que Irene insistia em tratá-lo como filho. O exame deu negativo. Ele não era filho dela. Ela era mãe do Bento. Será que isso não entrava na cabeça dela? Além do mais, como Irene podia estar sendo tão carinhosa com um vigarista que tentou dar um golpe no marido dela? Era isso que ela devia pensar, não era? Ela devia desprezá-lo. Aliás, mesmo quando ela achava que era mãe dele, nunca ligou a mínima para ele. Estava doida para vê-lo pelas costas. Bem que ele havia percebido que Irene não estava feliz por tê-lo como filho. Devia ter ficado aliviada ao saber que o filho dela era o Bento. Agora Irene vinha com essa?

Fabinho achava que todo aquele carinho que ela demonstrava era falso. Longe de sensibilizá-lo, causava-lhe repulsa. Largou a enxada.

— Não me chame de filho, cínica. — disse Fabinho, furioso.

— Por quê que toda vez que alguém demonstra afeto por você, carinho, tenta se aproximar, você repele, você ataca? Qual é a razão de tanta raiva, meu Deus? — disse Irene. Não entendia por que o garoto parecia ter ódio do mundo. Por que tratava mal pessoas que queriam bem a ele?

No ponto de vista de Fabinho, ele tinha raiva porque as pessoas só o trataram como lixo, a vida toda. Ou como um fardo, uma cruz a ser carregada. Ele era sempre chutado por todo mundo. As pessoas o rejeitavam, riam dele, zombavam, provocavam, humilhavam, escondiam coisas dele, falavam mal dele, destruíam os brinquedos dele e quando ele resolvia revidar, dar o troco, era chamado de mau-caráter. Ninguém gostava dele. Ele estava perdendo tudo para o mala do Bento. E ele também detestava gente falsa, que fingia gostar dele. Que história era essa de afeto? Ele nunca teve afeto de ninguém. Tudo o que as pessoas faziam era pisar nele, humilhá-lo, rir dele. Isso quando não viviam reclamando dele, dizendo que ele era um poço de problemas, que ele infernizava, que ele era imprestável. Raramente ouvia uma palavra de amor, de carinho de alguém, e quando ouvia, não acreditava, achava que era falsidade. Geralmente não acreditava na sinceridade das pessoas que diziam gostar dele, e nem eram muitas. Afinal, todo mundo dizia que ele não prestava. No raciocínio de Fabinho, se ele não prestava nem nunca iria prestar, não era possível que alguém gostasse dele. Ele só despertava repulsa nas pessoas, ou pena, na melhor das hipóteses. Irene não sabia do que estava falando. Será que ela gostava mesmo dele? Ele duvidava. Ela não iria gostar de um calhorda. Não queria saber dela, não queria mais nada dela. Só o anel.

— Você gosta de mim, assim? — perguntou Fabinho. — Então, me ajuda.

Irene abanou a cabeça e disse:

— No que você quiser. Qualquer coisa, menos dinheiro, que eu não tenho.

— Você tem o meu anel. Me devolve? — disse Fabinho.

— Eu juro que se ele tivesse algum significado pra você, eu te dava.

Irene achava que Fabinho só queria o anel para vender por uns troca-dos.

— Como é que não tem significado? — disse Fabinho, sentido, com lágrimas nos olhos. — Eu passei a minha infância inteira olhando pra aquele anel. Imaginando o futuro que ele ia me trazer.

Por muito tempo, o anel foi importante para ele. Ele achava que o anel o ajudaria a encontrar sua família, o lugar ao qual pertencia, e lhe daria a vida que merecia. Ele acreditava que o anel era a única coisa real em sua vida, pois não se sentia amado e aceito pelas pessoas do lar. Nem pelas crianças, nem pelos adultos. Mas foi tudo um engano. Nem o anel era dele.

— Meu filho, você tá chorando? — disse Irene, fazendo um carinho no rosto dele. Ela não suportava ver o garoto sofrer daquele jeito.

Fabinho não queria chorar na frente dela. Mas não conseguiu segurar as lágrimas. Jamais chorava na frente de alguém. Quando criança, ele foi chamado de fresco quando chorou pela bola perdida. Então, nunca mais chorou. Não na frente dos outros. Evitava ao máximo demonstrar fraqueza. Ele nunca mais conseguiu confiar e acreditar no ser humano desde o dia em que uma garota chutou sua bola e o carro passou por cima, porque ele se sentiu enganado por ela. Naquele dia, ele aprendeu que o amor não existia. Era uma farsa, uma mentira. Ele preferia atacar a se apegar a alguém e ser rejeitado novamente. Tinha medo de se machucar.

— Você quer saber? Você faz o que quiser com esse anel. — disse Fabinho, irritado, revoltado. — Entrega pro seu filho querido.

Ele foi juntar sua mochila do chão, quando se deparou com Plínio.

— Você, Plínio Campana, vai pro inferno com todo o teu dinheiro. — disse o rapaz, antes de ir embora. Irene o chamou, porém, ele não deu ouvidos.

Horas depois, Fabinho pegou um ônibus. Pagou ao motorista e foi sentar-se em um banco. Detestava andar de transporte público. A estrutura era péssima.

— Brincadeira, botaram rodinha na favela! — murmurou.

Um senhor idoso apareceu. Fabinho, porém, não quis saber de dar o lugar para ele sentar. Apontou para trás:

— Lugar lá atrás, querido, vai lá. Tá inteiraço aí, vai lá.

Ele viu que a mulher ao seu lado estava dormindo. Pegou a revista que ela segurava. Na capa da revista estava a foto de Bluma, Karmita e Camilinha Lancaster. Fabinho pensou logo em uma maneira de se aproximar de Camilinha. Era a última chance de ficar rico, de ter a vida que sempre quis. Isso se conseguisse fazer a garota se interessar por ele. Fabinho não tinha nada, nem ninguém, então se agarraria a Camilinha como uma tábua de salvação. À essa altura, ele não queria mais saber de Amora Campana. Ela armou para ele. Mas o que era dela estava guardado. Ele ainda daria o troco nela.

— Hoje, tem festa da Karmita Lancaster! É, bonitinha, você vai me botar na festa da vovó, e eu vou dar um pulo do gato. — ele murmurou.

Fabinho desceu no centro da cidade, em um hotel. Usaria as folhas de cheques para pagar a hospedagem. Dirigiu-se à recepção.

— Oi, querido! Será que você pode me ajudar? Eu acabei de sofrer um assalto, um arrastão, levaram os meus cartões de crédito. — disse Fabi-nho ao recepcionista. — Uma coisa horrível! Tô até meio... Queria saber se você pode quebrar um galho pra mim. — mostrou o cheque para ele. — Só sobrou esse cheque aqui. Quebra esse galho pra mim?

— Só um momento, por favor. — disse o recepcionista, entregando o cheque para outro rapaz que trabalhava na recepção.

— Não, acabei de chegar em São Paulo, já fui assaltado, ainda vai desconfiar de mim, cara? — disse Fabinho, fazendo drama.

— O senhor me desculpe, mas esse é um procedimento usual quando recebemos cheques. — disse o recepcionista.

— Eu sei. Mas está tudo certo com o cheque. — disse Fabinho. — Estou cansado. Queria ir pro quarto logo, amigo.

O outro rapaz voltou com o cheque.

— Desculpe, senhor, mas parece haver um problema com o seu cheque.

— Não, mas não é possível. — disse Fabinho. — Esse cheque é do meu padrinho, Gilson Rabelo. Mais de 450 mil de cabeças de gado em Mato Grosso, Goiás...

— Infelizmente, o banco acusou como sustado. — disse o rapaz. — O senhor teria outra maneira de fazer o pagamento?

Fabinho logo imaginou que Salma e Gilson deviam ter dado por falta das folhas de cheques e resolveram fazer a sustação. Só podia ser isso. Fabinho achava que demorariam a descobrir. Mas não iriam denunciá-lo. Certamente suspeitavam dele, mas não tinham como acusar sem provas. Um monte de gente entra na casa do Gilson sem bater na porta. Qualquer pessoa podia ter roubado, até mesmo um encanador. Ninguém o viu roubar nada de lá. Tudo o que sabiam era que algumas folhas do talão de cheques haviam sumido. Mas e agora, como faria para pagar o hotel? Fabinho tirou de dentro da mochila um par de sapatos.

— Eu tenho esse sapato aqui. — disse Fabinho. — Conhece essa marca? Comprei na Itália, é de grife.

Acabou sendo arrastado para fora pelo segurança do hotel.

— Você não faz ideia de quem eu sou! Do meu poder, da minha fortuna! Eu vou comprar esse hotel de brincadeira aqui pra te botar na rua! — disse Fabinho.

O segurança o largou-o e empurrou-o.

— Qual é, seu palhaço? — xingou Fabinho, juntando as coisas.

O segurança ainda tentou avançar nele.

— Ih, tá maluco, rapaz?

Na rua, Fabinho ficou olhando a capa da revista que trouxe consigo.

— Camilinha, você é minha última esperança. Até porque, toda patricinha adora um amor bandido.

Era noite quando chegou à Para sempre, onde estava ocorrendo a festa da Karmita Lancaster. Dirigiu-se ao segurança, que estava na entrada.

— Boa noite. Seu nome, por favor. — disse o segurança.

— Não, querido. Meu nome não tá na lista, não, mas é porque não precisa. — disse Fabinho. — Eu sou namorado da Camilinha, neta da dona Karmita.

— Nesse caso, por favor, peça pra ela liberar a sua entrada.

— Sim, mas tá uma barulheira aí dentro. Como é que ela vai ouvir?

— Ela ainda não chegou. — disse o segurança. — Ela vai ouvir, pode ligar.

— Não tô entendendo esse abuso. — disse Fabinho. — Acabei de chegar de uma viagem, do aeroporto. Acabei de chegar de Punta del Este, sabe onde é? Não deve saber, né? Acabei de chegar de lá pra ficar ouvindo desaforo de funcionariozinho arrogante, é isso?

— São ordens, senhor. Eu não posso fazer nada. — disse o segurança.

— Bom, você não sabe com quem você tá falando, né? — disse Fabinho. — Eu sou filho do Plínio Campana! Você lê jornal? Não lê. Bom, eu vou falar com a Camilinha. — pegou a mochila. — Ela vai ficar muito feliz em saber que você me barrou. Você vai perder seu emprego. Você sabe, né, querido? Obrigado.

Fabinho virou-se e estava indo embora, quando o segurança o chamou.

— Senhor!

— Oi! — disse Fabinho.

— Eu acabei de achar o seu nome aqui na lista.

O segurança acreditou na história. Afinal, Fabinho não havia dito seu nome. Mas se o segurança lia jornais, certamente sabia que Plínio tinha um filho. Só não sabia quem era. Nenhum jornal ou revista tinha ainda a foto nem o nome do filho do Plínio Campana. A mídia ainda não estava sabendo que Bento era o verdadeiro herdeiro do Plínio. Até porque aquele otário não fazia nenhuma questão de aparecer na mídia como novo milionário, nem o Plínio teria interesse em expor o filho. Fabinho não chegou a se apresentar como herdeiro do Plínio, e não ficava aparecendo direto na televisão. À essa altura, ninguém se lembrava mais que ele foi ao noivado de Amora, que tirou fotos ao lado dos noivos, e quanto ao casamento da Karmita ou ao almoço do Artur Bicalho, ninguém se lembrava de tê-lo visto nesses eventos, até porque ele não foi entrevistado e era só mais um rosto na multidão. O segurança podia até achar seu rosto familiar, achar que o conhecia de algum lugar, mas ele não disse o nome.

— Pode entrar. — disse o segurança.

— Garoto esperto, muito bom. — disse Fabinho, dando uns tapinhas amigáveis no ombro do segurança. — Assim, você vai longe, viu? Você guarda pra mim, por favor, a mala? Obrigado, garoto!

Deixou seus pertences com o segurança e entrou.

— Como é que tá? Tudo bem? Opa! — Fabinho cumprimentou uma pessoa.

Fabinho entrou na festa, que estava bem animada. Havia muita gente. Encontrou Cléo sentada no sofá e aproximou-se.

— Oi, minha massagista! — Fabinho cumprimentou, passando os dedos no rosto dela e lhe dando um beijo na bochecha. — Tudo bem?

— Olha, se não é o grande Fábio Queiroz, o não filho do Plínio Campana! — disse Cléo. — Tá fazendo o que aqui, meu amor?

— Não soube, neném? — perguntou Fabinho.

— Não sei. — disse Cléo.

— Tô namorando a Camilinha. — disse Fabinho.

— Isso é mentira! Prendam esse ladrão! — disse Camilinha, que acabou de chegar na festa e ouviu parte da conversa.

— Meu amor, eu vim atrás de você. — disse Fabinho, passando a mão no rosto dela. — Me dá outra chance, o que a gente teve foi tão forte!

— Como você se atreve a dizer isso depois de ter me roubado?

Fabinho não estava entendendo. Como assim? Ele pediu a grana e ela deu. Ele não a forçou a nada.

— Não, não te roubei. Eu te pedi uma graninha e você me emprestou, simples.

— Você me assaltou, seu bandidinho! — disse Camilinha.

— Ai, meu Deus do céu! — disse Fabinho.

Que mané assalto? Ele nem armado estava. Não a ameaçou, nem nada. Ele pediu dinheiro e ela deu. Que história é essa? Ela só podia estar tratando-o desta maneira por ele ter virado mendigo. Era uma patricinha esnobe. Se ele fosse realmente filho do Plínio, ela não o trataria dessa forma.

Lili logo apareceu, acompanhado dos seguranças, para expulsar o rapaz. Afinal, Fabinho entrou na festa sem ser convidado e estava causando a maior confusão. Tudo o que não precisavam era de problemas.

— Por favor, mostrem a esse rapaz o caminho da saída? — disse Lili, apontando para Fabinho.

Um dos seguranças se aproximou de Fabinho.

— Não encosta em mim! Não encosta! — disse Fabinho, e dirigiu-se à Camilinha. — Eu vou te processar por calúnia e difamação!

— E eu vou te colocar na cadeia por extorsão, seu moleque! — disse Camilinha. — Pode levar!

Fabinho foi arrastado pelos seguranças, e passaram por Lili.

— Aliás, lugar de onde esse bandidinho não devia ter saído. — disse Lili.

— Bibona! — xingou Fabinho.

— Que bibona, o quê? Vai embora! — gritou Lili. Ainda por cima, o rapaz era homofóbico.

Os seguranças continuaram arrastando Fabinho, e passaram por Charlene.

— Lugar de favelado, olha a favelada aí também ó! — gritou Fabinho, referindo-se a Charlene. Sempre se recusava a chamar qualquer pessoa da Casa Verde pelo nome, e não se importava de xingar.