Um amor improvável

38 O faxineiro da Toca do Saci


Fabinho estava cansando, e com sono também. Resolveu dormir no banco de uma praça. Deixou a mala e a mochila no chão e sentou-se no banco. Retirou o que restava do dinheiro do bolso e contou.

— Daqui a pouco tô sem dinheiro. — murmurou.

Enfiou as notas no bolso e deitou-se no banco.

— Ai, meu Deus! Amanhã eu penso em alguma coisa.

Ao acordar de manhã, porém, viu que seus pertences haviam sumido.

— Cadê minha mala? Cadê minhas malas?

Andou ao longo da praça, e perguntou para as pessoas que passavam por ali se elas haviam visto suas malas, ou se haviam visto alguém levar. Ninguém viu. Fabinho acabou sentando-se no chão, e apalpou os bolsos, à procura do dinheiro. Pelo visto, roubaram o que restou do dinheiro também. E o celular. Fabinho ficou desesperado. O que faria agora?

— Não acredito. — murmurou.

Ele resolveu procurar Malu. Pediu dinheiro a algumas pessoas, o suficiente para um ônibus, e foi até a mansão. Ele sabia que Malu não gostava dele. Ela não ia com a cara dele nem quando achavam que eram irmãos. Ainda mais agora, que o exame de DNA deu negativo. Ela devia desprezá-lo, afinal, achava que ele tentou dar o golpe em Plínio. Mas ainda assim, Fabinho tinha certeza de que Malu não se recusaria ajudá-lo de alguma forma, nem que fosse por pena da Margot. Afinal, Malu foi legal. Ela o ajudou antes, a desmascarar a Bárbara, e mais tarde, ela o ajudou a sair da prisão. Malu atendeu ao pedido da Margot e da Irene e ligou para aquele juiz, tio do Plínio, e o juiz providenciou o habeas corpus. Se não fosse isso, ele não teria sido solto. Talvez ela não se negasse a ajudá-lo desta vez. Não era certeza que ela iria ajudá-lo, mas era sua última esperança. Não havia mais ninguém. Imploraria ajuda, se fosse preciso. Faria tudo para convencê-la. O Serjão, ou Mulher Pau de Jacu, não estava querendo deixá-lo entrar. Porém, Fabinho insistiu. Serjão então foi falar com a Bárbara.

— Bárbara! Tem uma pessoa insistindo pra entrar, mas eu acho que você não vai querer receber.

— Vai sim. — disse Fabinho, que entrou atrás de Serjão.

— Fabinho? — disse Malu, surpresa, levantando-se da mesa e andando em direção a ele.

Todos estavam tomando café. Madá, Emília e os outros filhos da Bárbara estavam sentados à mesa. Pelo visto, Amora não estava.

— O quê que esse facínora está fazendo aqui? — perguntou Bárbara.

— Eu não vim atrás de confusão. Eu só vim falar com a Malu. — disse Fabinho.

— E você acha que alguém dessa família vai te receber depois de todo o mal que você nos fez? — disse Bárbara. — Bolívar, Serjão!

— Não! Não! Ele veio falar comigo! — disse Malu. — Eu quero saber o que ele tem pra me falar.

— Eu não acredito! — disse Bárbara. — Você vai dar corda pra esse monstro, pra ele nos enforcar? Olha só essa criatura! Não tem mais nada a perder! Ele veio aqui pra nos chacinar, pra botar fogo nessa casa! Crianças, fujam! Tina, chama o bope!

— O bope é no Rio. — disse Tina.

— Ah, então chama a Rota, qualquer coisa! — disse Bárbara.

— Fabinho, vem comigo? — disse Malu.

Fabinho acompanhou-a até a sala de estar. Sentaram-se. O rapaz explicou à Malu o que queria dela.

— Você veio aqui pedir a minha ajuda? — perguntou Malu.

— Eu não tenho lugar pra dormir e também não tenho dinheiro pra comer. — disse Fabinho.

— Você tá morando aonde? — perguntou Malu.

Malu não entendia como ele podia não ter lugar para dormir. Até onde ela sabia, a Irene havia deixado algum dinheiro com ele, Salma e Gilson também. Margot não era rica, mas também devia ter deixado algum dinheiro com ele. Era mãe dele, afinal de contas. Uma mãe daria um jeito, mas não deixaria um filho à míngua. Fabinho devia ter o suficiente para estar se hospedando em algum hotel barato, até conseguir um emprego, porque o dinheiro não iria durar muito. Será que ele já havia gastado todo o dinheiro? Provavelmente sim. Era óbvio que Fabinho não sabia lidar com dinheiro. O dinheiro voava nas mãos dele. E ele não conseguiu emprego.

Fabinho não respondeu. Malu entendeu que ele estava na rua. Também, ele estava com a roupa toda esfarrapada.

— Fabinho, você precisa de um lugar pra morar. É exigência da justiça, um endereço fixo. — disse Malu.

— Sim. Eu consigo isso como? — disse Fabinho. — Ontem eu dormi na rua e, quando eu acordei, tinham levado tudo o que eu tinha. Malu, até pouco tempo atrás a gente achava que era irmão, né? E você era tão legal comigo...

— Idiota, você quis dizer. — disse Malu.

— Se eu te achasse idiota eu não tinha me associado a você pra desmascarar a tua mãe. — disse Fabinho.

— E se arrependimento matasse, eu tava morta. — disse Malu.

Ela sempre se sentiu culpada por ter ajudado Fabinho a desmascarar a mãe. Por mais sórdida que fosse Bárbara Ellen, era sua mãe. Todo o mal que a mãe fez devia vir à tona pelas mãos de outra pessoa, não dela. Além do mais, Fabinho expôs sua família. Fabinho usou o vídeo para ameaçar e chantagear Amora, depois difamou Amora em um blog, e Malu ficou com imagem de namorada traída. Malu não sabia quem detonou sua mãe naquele blog, mas sempre suspeitou de Fabinho. Quem mais tinha interesse em destruir a imagem de sua mãe, contar que foi vítima dela, e que era filho do Plínio, era ele. Sua mãe foi massacrada pela mídia, seus irmãos também foram expostos. Se soubesse de antemão o que Fabinho iria aprontar, Malu jamais teria ajudado ele.

— Tudo bem, Malu, mas se a gente não tivesse feito isso, até hoje a Irene tava fazendo estátua viva. — disse Fabinho.

— Os meios que você usou pra isso, foram os mais sórdidos, Fabinho.

— Malu, muito na boa, eu não vim aqui ouvir sermão. — disse Fabinho. — Eu vim pedir ajuda.

Malu costumava ter muita raiva de Fabinho, por conta de tudo o que ele fez. Mas agora ficou com pena e resolveu ajudá-lo. Fabinho era mau-caráter, havia aprontado para caramba, fez muita gente sofrer. Mas até pouco tempo atrás, ele era seu irmão. Deixá-lo à míngua não ajudaria em nada a torná-lo uma pessoa melhor. Malu não se sentiria bem se negando a estender a mão a uma pessoa que pediu sua ajuda em um momento de maior vulnerabilidade, mesmo que fosse um canalha como Fabinho.

Malu faria isso por Irene, e por Margot também. Elas amavam Fabinho e sofriam muito por ele. Malu pensou em oferecer um emprego para ele, na Toca do Saci. Até porque certamente não havia mais ninguém que estivesse disposto a ajudá-lo, e pensando bem, Fabinho não conseguiria trabalho facilmente. Sem ajuda dela, ele continuaria na rua. A sociedade não costuma dar chance para criminosos. Pelo menos ela estaria fazendo sua parte. Malu não sabia se Fabinho tomaria jeito, mas pelo menos, ela tentaria. E é claro que ela teria que passar no shopping, na horado almoço, para comprar umas mudas de roupas para ele, pois ele só tinha a roupa do corpo. Ele precisaria de roupas decentes para trabalhar. Precisaria estar apresentável. Ela poderia falar com as mães das crianças da ONG também, ver se tinham roupas para doar.

— Eu tenho um emprego de faxineiro na Toca do Saci. — disse Malu. — Tem um quartinho lá no fundo, que se você der um trato, pode ficar com ele. E aí?

O último faxineiro havia pedido as contas há algum tempo.

Não era bem o que Fabinho queria. Ele não podia imaginar nada pior do que trabalhar de faxineiro, e morar em um quartinho minúsculo. Além do mais, estaria em contato direto com crianças o tempo todo. Isso o angustiava. Não se sentia bem perto de crianças. Isso lhe trazia lembranças ruins. O passado o assombrava o tempo inteiro.

— Pra ganhar quanto? — perguntou Fabinho.

— Um salário. Mais não dá pra mim. — disse Malu. — Eu tô indo pra lá. Se você quiser ir, dar uma olhada... Experimenta. Depois você me responde.

Fabinho viu que não havia saída. Era aceitar trabalhar de faxineiro, ou viver na rua. Ele não suportaria viver mais um dia na rua, dormir em banco de praça, sem ter dinheiro para comer, não ter nem como tomar banho. Podia não ganhar muito, mas pelo menos teria um teto, comida todo dia. Resolveu aceitar.

— Tá bom, eu aceito. — disse Fabinho.

— Mas eu não. — disse Bárbara, entrando na sala. Com certeza, ouviu parte da conversa, se é que não ouviu tudo.

Malu disse à mãe que iria levar Fabinho na Toca do Saci, que ele iria trabalhar lá e morar no quartinho dos fundos. Bárbara protestou:

— Eu não acredito que você vai dar guarida a esse verme que me caluniou!

— O Fabinho nunca inventou mentira nenhuma ao seu respeito! — disse Malu, levantando-se.

— Ah, é? Só que ele destruiu a Amora naquele blog infame!

— Malu, eu vou te esperar lá fora. — disse Fabinho, levantando-se. Ele não queria ficar escutando as ladainhas de Bárbara.

— Não, eu também vou. — disse Malu.

Fabinho e Malu passaram pela sala de jantar, onde estavam Madá, Emília e os irmãos adotivos de Malu.

— Vó, Emília, vamos pra Toca? — perguntou Malu.

— Malu, olha lá o que você vai fazer, Malu. — disse Madá.

Madá não confiava em Fabinho. Ela achava que ele iria aprontar, que ele prejudicaria Malu de alguma forma. Fabinho tinha o péssimo hábito de prejudicar quem o ajudava. Ele prejudicou a mãe adotiva, que lutou tanto para criá-lo, e também fez mal às pessoas que o acolheram e cuidaram dele na infância. Fabinho não prestava, não tinha gratidão nem consideração por ninguém, e Madá não gostava da ideia de Malu colocá-lo para trabalhar na Toca do Saci, perto das crianças. Fabinho era perigoso.

— Eu sei o que eu tô fazendo. — disse Malu. — Tchau, Tina.

— Tchau. — disse Tina.

Malu não acreditava que Fabinho aprontaria alguma. Ele estava no fundo do poço, não tinha mais nada a perder e sabia que aquela era sua última chance. Ela deixaria claro para ele que ele teria de se comportar, ou seria mandado embora. Fabinho não iria querer voltar para a rua. Além do mais, ela acreditava que Fabinho podia se tornar uma pessoa melhor, se quisesse. Se ele veio até ali pedir ajuda, era porque reconhecia que ela foi legal com ele. E ele aceitou o que ela tinha para oferecer. Aceitou o emprego de faxineiro sem reclamar. E isso era um bom começo, porque antes ele não aceitava ajuda e não reconhecia a bondade e a generosidade das pessoas. Fabinho só teria de se esforçar para melhorar, porque não seria nada fácil conquistar a confiança das pessoas.

Malu e Fabinho foram para a Toca do Saci, junto com Madá e Emília. Assim que chegaram, Malu mostrou todo o local para Fabinho, explicou como era a rotina. Fabinho olhava tudo calado, de cara amarrada. Cuidar de crianças não era bem a sua praia. Ele nem tinha paciência o suficiente para isso. Não levava o menor jeito. Além do mais, ele não suportava olhar para as crianças, pois elas lhe lembravam de sua infância no lar, da pior época de sua vida. Só de olhar para aquelas crianças, ele se sentia de novo aquele menino solitário, que ninguém queria por perto. Ele esperava que cuidar de crianças não estivesse entre as atribuições do cargo. Fabinho e Malu foram em uma das salas, onde estavam Emília e Madá, tomando conta da criançada, que estavam fazendo atividades com pintura.

— Pessoal! Pessoal! Esse aqui é o Fabinho. — apresentou Emília. — E a partir de hoje, ele vai trabalhar aqui com a gente.

A criançada o cumprimentou.

— E aí, cara? — disse um garotinho, aproximando-se e batendo com a mão aberta na de Fabinho. — Você vai jogar bola com a gente?

Fabinho estava sem jeito, sem saber como se comportar na frente daquela criançada. E não levava o menor jeito para jogar bola. Não se sentia confortável, e com certeza, estava dando a impressão de ser antipático. Não tinha mesmo vocação para babá. Além do mais, Fabinho não queria nem lembrar que existia bola. Isso o fazia lembrar de uma certa garota que destruiu seu único brinquedo, e de uma infância difícil, sofrida, que lutava noite e dia para esquecer. Sem saber, o garotinho tocou num tema delicado para ele. Fabinho deu uns tapinhas no ombro do garoto, sem jeito:

— E aí, moleque? E aí?

Malu mostrou o quarto onde ele ficaria. Era um quarto pequeno e estava cheio de tralhas.

— Esse é o teu quarto, ó. Está um pouco entulhado. — disse Malu. — Mas acho que se você der um jeito, fica bom. Ah! Aqui ó nesse armário, ficam os produtos de limpeza. — aproximou-se do armário e abriu as portas. — Eu coloco sempre lá em cima, porque eu acho perigoso, tá? E não mistura com os brinquedos não, também. — fechou as portas do armário. — É mais seguro pras crianças, né? É isso.

Fabinho, Malu e Madá andaram pelos corredores da ONG.

— Ah, o que é muito importante, é que se alguma criança te chamar, você para o que você tiver fazendo e atende, porque elas são prioridade. — disse Malu.

— Mas eu vim ajudar a cuidar da casa, né? Não limpar fralda de criança. — disse Fabinho. Não queria lembrar que existia criança no mundo. Isso o fazia se lembrar de um certo lugar que ele lutava para esquecer.

O rapaz não estava gostando nada da ideia de ter de atender criança. Pelo visto, na prática, ele seria uma espécie de faz-tudo e não estava gostando disso.

— Não, mas aqui a gente joga nas onze. — disse Madá, e Fabinho foi se afastando. — É bom você ir se acostumando, né?

Fabinho abanou a cabeça positivamente.

— Esse garoto é muito antipático, viu? — disse Madá para Malu.

— Malu! — chamou Artur Bicalho, entrando na Toca.

— Artur! — disse Malu.

— E aí, tudo bem? Tem cinco minutinhos pra mim? — perguntou Artur.

— Claro! Vamos conversar na minha sala, vem. — disse Malu.

Artur e Malu foram conversar na sala dela. Madá pediu para Fabinho trazer café para Malu e Artur. Então o rapaz preparou duas xícaras de café e foi levar em uma bandeja. Bateu na porta da sala, antes de entrar.

— Licença, Madá pediu pra trazer café pra vocês aqui.

Fabinho conhecia Artur Bicalho. Era um ambientalista que volta e meia aparecia na mídia. Fabinho até representou a Class Mídia em um evento da ONG Salve a Cantareira, mas não havia nem conversado com Artur. Ele achava que Artur provavelmente nem se lembrava dele.

Ao olhar no notebook uma foto de Bento ao lado da Malu, na campanha em defesa da Selva da Cantareira, Fabinho acabou derrubando a bandeja com os cafés, lambuzando o chão. Fabinho continuava não suportando olhar para Bento, nem por fotografia. Artur até se levantou da mesa.

— Ô Fabinho! — resmungou Malu. O rapaz começou mal.

— Perdão, gente. Perdão. Foi sem querer. Eu vou pegar um pano. — disse Fabinho.

— Não, beleza, então. Molhou, Artur? — perguntou Malu.

— Não, não. — disse Artur.

— Desculpa. Então, senta, depois a gente resolve isso. — disse Malu.

Fabinho saiu da sala para buscar um pano. Artur sentou-se.

— Uau, quem é ele? — perguntou Artur, referindo-se a Fabinho.

— O Fabinho? É um que achava que era meu irmão e acabou que o meu irmão é o Bento. — disse Malu.

Artur se lembrou de que Malu já havia conversado com ele a respeito de um irmão de quem ela soubera a existência há pouco tempo. Lembrou-se de que Malu mencionou Fabinho, e que ela e Plínio haviam dito que o rapaz era um mau-caráter. Mas Artur nunca havia conhecido Fabinho pessoalmente. Nunca haviam sido apresentados. Artur não se lembrava de ter visto Fabinho. Já o Bento, Artur conhecia. Bento havia ido ao lançamento de seu livro, e Bento e Malu fizeram a campanha da ONG Salve a Cantareira. Então o irmão de Malu era o Bento. Artur achou que Malu devia estar feliz, Plínio também.

— Mas que boa notícia! Eu queria falar com o seu pai, dar parabéns pra ele! — disse Artur. — O Bento é um ótimo rapaz. — viu que Malu não parecia nada contente. — O quê que foi, Malu?

Fabinho estava ouvindo a conversa. Ele viu que Malu estava triste.

— Desculpa, Artur. Eu tava feliz. — disse Malu. — A gente achou que fosse casar, eu tava tão apaixonada. Ai, Artur, desculpa.

Malu estava sofrendo muito. Levaria tempo até ela se acostumar com a ideia de Bento ser seu irmão. Estava sendo difícil. Durante anos, amou Maurício sem que ele percebesse. Ele não a correspondia, pois gostava da Amora. Depois, ela se apaixonou por Bento e foi correspondida. Mas a felicidade durou pouco, porque logo descobriu que Bento era seu irmão. Malu ficou horrorizada ao saber que estava namorando o próprio irmão. Ao mesmo tempo, ela estava tendo dificuldade para enxergar Bento como irmão. Até pouco tempo atrás, estavam apaixonados, faziam planos para o futuro, falavam em casamento, filhos. Malu achava que Bento era seu grande amor, o homem com quem iria dividir sua vida. Ela quebrou a cara. Era como se um deus perverso tivesse pregado uma peça nela.

E como se não bastasse tudo o que estava passando, ela ainda tinha de aturar a mãe e a irmã. Malu não suportava mais a crueldade da mãe, nem o fingimento de Amora, que agora ficava se fazendo de boazinha, de santa. A história do exame de DNA mexeu com Malu. Era como se toda a raiva que ela vinha segurando a vida inteira viesse à tona. Malu tinha raiva de si mesma por tudo o que havia engolido, por sua incompetência para lidar com gente como Bárbara e Amora. Malu tinha raiva de Amora e de Bárbara, e de homens que se apaixonam por mulheres como elas. Por isso ela já havia colocado Bárbara e Amora em seus devidos lugares. Malu cansou de se fazer de cega, surda e muda enquanto Bárbara e Amora se espalhavam na sua casa, às suas custas. Por isso Malu decidiu se impor, não deixar mais a mãe expor e constranger seus irmãos, e até chamou Emília de volta. Agora, quem dava as ordens na casa era ela. E Amora que não se metesse com ela, senão iria ver uma coisa.

Malu nutria um profundo ressentimento de Amora. Depois que Amora veio morar em sua casa, sua mãe, que já não lhe dava muita atenção, esqueceu-se completamente dela e passou a tratar Amora como princesa, como única filha. Mesmo depois de ter adotado Luz, Kevin e Dorothy, Bárbara se comportava como se só tivesse Amora de filha. Os outros filhos só serviam para ela se exibir, se fazer de boazinha. E Amora adorava ter toda a atenção de Bárbara para ela, sem se importar com os irmãos. Amora só tinha olhos para si mesma. Amora se comportava como se fosse filha única e nunca tratou Malu bem. Malu perdeu a conta de quantas vezes tentou se aproximar de Amora, mas Amora só dava patada. Amora ocupou todo o espaço, todo o ambiente, e o coração de sua mãe. Malu tinha inveja do jeito egoísta e frívolo de Amora, e também tinha ciúmes da admiração e do amor que a mãe tinha pela Amora. Além disso, Amora estava sempre tomando os homens dela. Amora sempre soube que ela era completamente apaixonada por Maurício, desde menina, e não teve o menor pudor em roubá-lo dela. Bárbara forçou uma aproximação entre Amora e Maurício, com aquela história de que ele era um príncipe e ela uma princesa. Claro que Amora seguiu os conselhos de Bárbara e resolveu namorar Maurício, sem se importar com os sentimentos de Malu.

Quando reencontrou Bento, Amora relutou muito em romper o noivado com Maurício para ficar com o florista, por medo da opinião pública e de perder tudo o que conquistou. Quando percebeu que estava rolando um clima entre Malu e Bento, Amora finalmente decidiu ficar com ele. O romance não deu certo, pois Amora e Bento eram opostos e queriam coisas diferentes. Quando Malu estava feliz com Bento, descobriu que ele era seu irmão. Agora Amora estava fazendo de tudo para voltar com Bento, e ele estava caindo na conversa dela, mais uma vez.

Artur se lembrou de que a mídia havia falado do namoro de Malu com Bento. Mas até onde ele sabia, era namoro fake. Depois, mais tarde, estou-rou o escândalo envolvendo Bento e Amora. A mídia inteira espalhou a notícia de que Amora traiu Maurício com Bento. Pelo visto, Bento não estava mais com Amora e estava namorando Malu para valer. Aí descobriram que eram irmãos, filhos do mesmo pai. Artur ficou com pena dela.

Fabinho ficou morrendo de pena da Malu. Pelo visto, estava sendo muito difícil para Malu aceitar que era irmã do Bento. E ver o sofrimento dela deixava Fabinho chateado. Gostava dela. Até pouco tempo atrás, ele achava que era sua irmã caçula. Tinha afeto por ela, e isso não iria mudar do dia para a noite por causa de um exame. Pena que ela nunca gostou dele. Nem iria gostar. Não depois de tudo o que ele aprontou. Ela o julgava um monstro. Procurou o pano, achou, entrou na sala e limpou o chão.

Fabinho continuou trabalhando na Toca, fazendo diversos serviços. Até que precisou usar a escada, porém, não sabia onde estava. Ele ainda não conhecia direito a Toca, nem sabia onde estava cada coisa. Então foi atrás de Malu.

— Malu, aonde é que está a escada?

Acabou se deparando com Bento, que não gostou nada de vê-lo ali.

— O quê que você tá fazendo aqui? — perguntou Bento.

Fabinho sentiu-se desconfortável. Ele lutava dia e noite para esquecer o passado, mas sempre acabava se deparando com alguém desse passado. Mas era inevitável encontrar Bento ali. Bento e Malu eram muito amigos, não se desgrudavam, ainda mais agora, que eram irmãos. Faziam projetos juntos, visando o benefício das crianças. Mas Fabinho sentia que teria dificuldade de se acostumar com a presença de Bento.

— O Fabinho tá trabalhando com a gente, Bento. — disse Malu.

— Você ficou louca, Malu? Você vai deixar esse marginal perto das crianças? Sai fora daqui, Fabinho! Agora! — disse Bento.

Ele achava que Fabinho iria prejudicar Malu de alguma forma. Fabinho não prestava, era capaz até de fazer mal a alguma criança para prejudicar Malu. Fabinho era um ingrato que só ferrava quem o ajudava. Prova disso foi que Salma cuidou da ferida dele, e ele retribuiu roubando talões de cheques do Gilson.

Fabinho nem se mexeu. Bento podia até fazer projetos com Malu, mas não era dono da Toca, não mandava nada.

— Está esperando o que? Você vai sair por bem ou eu vou ter que te arrastar pra fora? — disse Bento.

Em outros tempos, Fabinho enfrentaria Bento da mesma maneira que enfrentou Maurício, naquele dia, na casa da Verônica. Debocharia do Bento, diria umas ironias. Mas precisava do emprego. Não queria ir para a rua. Ficou quieto. Fez um esforço enorme para manter-se calmo, pois olhar para o Bento continuava sendo muito difícil para ele. Mas a vontade era de mandar Bento ir para o inferno. Ele fez muita besteira sim, mas nada do que fez foi de graça. Tudo o que fez foi se defender, se vingar de pessoas que o prejudicaram, gente que não tinha noção do mal que fez a ele. Ele não tinha razões para fazer mal às crianças da Toca. Embora não se sentisse muito bem olhando para elas. Mas ele não faria nada com as crianças. Não desperdiçaria a última chance que tinha.

— Para, Bento! Calma! — disse Malu. Dirigiu-se a Fabinho. — Fabinho, eu acho que agora é uma boa hora de você ir ao mercado. Toma aqui, ó, o dinheiro. — entregou o dinheiro para ele. — Vai sem pressa.

Fabinho foi para o mercado, como Malu pediu. Trabalhou o dia todo e à noite foi dormir no quartinho dos fundos. Porém, acabou tendo um sono muito agitado. Teve pesadelos. Sonhou com tudo o que havia acontecido em sua vida nos últimos tempos. Bento tentando expulsá-lo da Toca. O breve período em que morou no apartamento de Plínio, quando saiu da prisão, logo após ser desmascarado. O dia em que fez o exame de DNA. O dia em que brigou com todo o pessoal da Casa Verde e quase esganou Odila. A vez em que foi ao laboratório atrás de Irene, para pegar o anel de volta. Sonhou também com os dias em que esteve na rua. Com a vez em que esteve dormindo na praça e foi expulso pelos moradores da Casa Verde. Acordou sobressaltado. Não sabia se conseguiria voltar a dormir.

Ultimamente, ele vinha se sentindo mal por causa de tudo o que aconteceu, e tudo o que fez. Antes, ele acreditava que tinha suas razões e tudo o que fez parecia ser a coisa certa a fazer. Agora, não tinha mais certeza. Talvez tenha exagerado, passado do ponto, e tratado mal até quem não merecia, como a mãe, por exemplo. Antes, acreditava que a mãe o havia traído, mas agora pensava que ela não teria interesse algum em prejudicá-lo, até porque não ganharia nada com isso. Ele havia ficado furioso com ela por ter devolvido o anel a Irene, mas agora não estava mais. De que adiantaria ele ficar com o anel?

Ele resolveu ligar para a mãe. Fazia algum tempo que não falava com ela. Ela sempre esperava que ele desse notícias. Bem ou mal, era a única pessoa que se interessava por ele. Os demais não ligavam para ele. Não, de verdade. Apenas viviam suas vidas e não estavam nem aí se ele estava vivo ou morto, se estava passando fome ou frio.

Pegou o celular e ligou para o número da mãe. Não tinha mais celular, pois havia sido roubado junto com suas roupas. Estava usando o celular da Toca.

— Fabinho? Ô, meu filho! — disse Margot. — Meu Deus, como é que você tá? Onde é que você tá dormindo?

— Eu tô trabalhando na ONG da Malu. — disse Fabinho. — Estou dormindo aqui, por enquanto.

— Graças a Deus! Você não sabe como eu tenho rezado! — disse Margot. — Olha, Fabinho, agradece a Malu por mim. Ela é uma menina de ouro. E aproveita essa oportunidade. Pode ser que você não tenha outra. É a sua chance, meu filho, de recomeçar.

Assim que terminou de falar com a mãe, Fabinho desligou o celular. Começou a chorar, sentido. O que fez da sua vida? Que futuro ele teria? Não tinha mais esperanças de que tudo fosse melhorar. Antes, acreditava que seria feliz, que encontrara sua família, que iria ficar rico. Agora, todos deram as costas para ele e a única coisa que ele conseguiu foi um emprego de faxineiro. Quem diria que ele, que fazia tanta questão de viver no luxo, com todo o conforto, estaria trabalhando de faxineiro e morando em um quartinho? Todos os seus sonhos haviam ido por água abaixo e não restou mais nada.