Um amor improvável
53 Confusão na padaria
No dia seguinte, Fabinho acordou bem cedo e foi trabalhar na padaria. Começou a atender as pessoas. Entregou uma bandeja com queijo a um cliente:
— Aqui, amigo. Valeu! — disse Fabinho, ao cliente.
Infelizmente para Fabinho, a próxima da fila era Amora.
Amora resolveu aproveitar mais uma oportunidade de se vingar de Fabinho. Faria ele ser demitido. Veio ali para provocá-lo até fazê-lo perder a cabeça. Afinal, Fabinho era estourado. E ela faria de maneira que todos pensassem que ele a agrediu. Não sentia nenhuma culpa em fazer isso. Afinal, ele a prejudicou. Ela perdeu trabalhos por causa dele. Fabinho a caluniou. E ele sempre perseguiu o Bento, desde criança, por inveja. Além do mais, queria que todos na vizinhança pensassem que Fabinho a perseguia, a aterrorizava, fazia tortura psicológica com ela. Por isso decidiu fazer cena, cada vez que Fabinho se aproximasse dela.
As pessoas acreditariam nela, afinal, todos achavam que Fabinho era perigoso, por conta do histórico dele. Assim, falariam para o Bento. Amora queria que todos pensassem que Fabinho era uma ameaça para ela e o Bento. Assim ela convenceria o Bento a se mudar dali, da Casa Verde. Ela não suportava viver ali. Aquela rua, os vizinhos, a faziam lembrar da infância descalça. Também não suportava mais ter de tomar antialérgico todo dia, por causa das flores. Além do mais, ela estava retomando a carreira. Amora Campana não podia morar naquele “buraco”, na visão dela. Ela e Bento mereciam morar em um lugar melhor.
— Fabinho Queiroz, quem diria, você num balcão da padaria?
— Amora Campana na fila do pão francês. — disse Fabinho.
— E olha que eu sou uma cliente bem exigente. — disse Amora. — Será que você vai conseguir me atender bem? Eu estava querendo comprar um vinho. Tem vinho nessa padaria?
Fabinho subiu na cadeira e foi pegar um vinho do alto da estante.
— Não, não, não, não, eu vou querer o da direita. — disse Amora. — Mais à direita, em cima. Na outra fileira!
Quando o rapaz ia pegar o vinho, Amora disse:
— Não! Eu mudei de ideia! Eu não vou querer mais o branco, não. Pega aquele tinto, da esquerda, lá atrás. Isso. Não esse, o outro. Não, não, não! Esse não!
Fabinho já estava perdendo a paciência:
— Amora, vamos decidir, por favor?
— Você tá de má vontade, é? Eu não vou querer mais vinho nenhum, não. Agora você vai lá no balcão e corta um quilo de presunto pra mim, por favor.
O rapaz cortou um quilo de presunto na máquina, como ela pediu.
— Amora, tem um quilo de presunto. Você quer isso mesmo?
— Agora eu te devo explicação de quanto presunto eu quero? — disse Amora. — Deixa eu ver essa fatia.
Amora deu uma olhada na fatia de presunto.
— Nossa! Tá muito grossa! Eu te pedi uma fatia fininha. O Bento não vai comer assim. Você corta tudo de novo pra mim, por favor?
Fabinho não emitiu um som, e não fez um movimento. Amora só podia estar de brincadeira. Estava fazendo de tudo para provocá-lo, humilhá-lo. Amora disse:
— O que foi? Você tá de má vontade? Você não quer mais me atender, é isso?
— O que tá acontecendo, hein? — perguntou Leal.
— O seu funcionário aqui, ele cortou o presunto muito grosso. — disse Amora. — Eu pedi pra ele cortar mais fininho, mas ele não quer me atender.
— Fábio, faça o que a freguesa falou, hein! — disse Leal.
— Vai lá, vai! — disse Amora, assim que Leal se afastou.
Fabinho cortou novamente o presunto e pesou na balança.
— Um quilo.
— Quer saber? Você demorou muito. — disse Amora. — Eu desisti. Não vou levar mais nada. — virou-se para ir embora.
— Amora, você me fez cortar um quilo de presunto. Se você não levar, meu patrão me manda embora. Por favor, leva. — disse Fabinho.
— Hã? — disse Amora.
— Amora, eu pago. Por favor, leva.
Amora passou a mão nos cabelos e disse:
— Se é assim, tudo bem. Eu também vou querer um sonho. Também, na verdade, eu vou querer esses três aqui. Esses aqui. — Amora apontou para os sonhos na vitrine.
— Esses aqui? — disse Fabinho, apontando para os sonhos.
— Ahã. — disse Amora.
— Tá. Você vai querer levar pra casa? — disse Fabinho, pegando o sonho. — Ou você quer comer agora? — enfiou o sonho na boca da garota.
— Ai! Socorro! — gritou Amora.
Fabinho reagiu exatamente da maneira que ela esperava.
— Quer comer agora? — disse Fabinho, possesso.
— O que é isso? Ficou louco? — disse Leal, aproximando-se de Amora.
— Quer sonho? — perguntou Fabinho, furioso, para Amora.
— O seu funcionário espirrou no presunto que eu ia comprar, aí eu desisti e agora ele fez isso comigo! Seu louco! — gritou Amora, de boca cheia.
Fabinho ficou furioso. Amora era mesmo uma víbora, uma dissimulada.
— Isso é mentira! Isso é mentira dessa desgraçada! Ela me fez cortar um quilo de presunto e depois falou que não queria de propósito! — disse Fabinho.
— Saia já daqui, senão eu chamo a polícia! — disse Leal.
— Isso, seu Leal! Chama a polícia! Chama a polícia porque eu tô com medo de sair dessa padaria e esse louco querer me matar! Esse louco! Psicopata! — gritou Amora.
Fabinho jogou a touca no chão.
— Vai pro inferno, todo mundo aqui! Essa padaria, essa pobreza toda! — esbravejou Fabinho, indo embora.
— Não me apareça nunca mais aqui, hein! — gritou Leal.
Fabinho foi direto para casa e contou para a mãe o que havia acontecido.
— Não consigo, mãe. Aturar humilhação e engolir desaforo de cabeça baixa, eu não consigo. — disse Fabinho.
— Você não aprende? — disse Margot. — Toda vez que você bate de frente com a Amora, você perde. Está aí, agora, desempregado e desacreditado.
—Sim, mas você queria que eu fizesse o quê? Que eu ficasse de cabeça baixa ouvindo ela me humilhar? — perguntou o rapaz.
— Todo mundo engole sapo nessa vida. — disse Margot. — Ela sabia que você ia reagir. Provocou, óbvio!
Fabinho tinha de reconhecer que a mãe tinha razão. Amora sabia como ele iria reagir, que não conseguiria se controlar.
— Não, dessa vez não vai ficar assim, não. Eu vou acabar com a vida dela.
A mãe saiu, e Fabinho ficou em casa. Tentou ligar para Giane, porém, ela não atendeu. Caiu a ligação. Fabinho achou melhor não ligar de volta. Era melhor falar pessoalmente. Esperou Giane voltar do estúdio. Assim que Caio a deixou em frente à Acácia Amarela, Fabinho aproximou-se.
— E aí? — cumprimentou Fabinho, e Giane surpreendeu-se.
— O que você tá fazendo aqui? Você não devia estar trabalhando?
— Eu perdi o emprego por causa da Amora. — disse Fabinho.
— É o quê? — perguntou Giane, sem conseguir acreditar.
Foram conversar no Cantaí. Sentaram-se em uma das mesas e pediram sucos. Fabinho contou que Amora foi até a padaria provocá-lo. Fez pedidos absurdos, e provocou, infernizou tanto que ele acabou perdendo a cabeça e esfregando os sonhos na cara dela. Por conta disto, foi demitido.
— Eu não acredito que ela foi te provocar lá na padaria! — disse Giane, furiosa. — Mas você fez muito bem em esfregar aqueles sonhos na cara dela. Eu queria dar uma surra naquela nojenta. Eu vou falar com o Bento.
— Pra quê? Ela vai se fazer de coitadinha, é sempre assim. — disse Fabinho. — Não perde teu tempo, não.
Não adiantaria falar com Bento, pois ele sempre caía na conversa da Amora.
— Como é que pode o tempo passar e o Bento não perceber a cobra que ele tem dentro de casa? — disse Giane.
Fabinho achava que Bento era mesmo um burro, um otário. E não adiantaria de nada argumentar com Bento. Bento não ouvia ninguém. Para aquele idiota, só a palavra da Amora valia. Bento jamais acreditaria na ino- cência dele. Aquele otário era bem capaz de achar que ele havia agredido a pobre mocinha indefesa. Bento achava que Amora era uma coitada.
— E o problema é que o seu Leal foi o único que topou me dar trabalho, né? Depois disso vai todo mundo achar que eu sou bandido mesmo. — disse Fabinho. — Cara, eu estou cansado de tomar porrada de tudo que é lado.
— O Gilson tá precisando de garçom aqui no Cantaí. — disse Giane.
— Aqui? Duvido que ele tope depois do que rolou com o Érico.
— Eu vou falar com ele, deixa comigo. — disse Giane, mexendo o canudo no copo e em seguida bebendo o que restava do suco.
Fabinho foi para casa, e Giane foi junto.
Mais tarde, Malu veio visitá-lo. Já estava sabendo que ele havia sido demitido da padaria por causa da Amora. Soube por Margot. Malu estava na casa de Maurício quando soube. Margot foi até à casa de Verônica pedir um emprego para Fabinho na Para Sempre. Verônica disse para ela falar com Charlene, que era quem dirigia a empresa agora. Malu levou Margot até em casa e conversou com ela. Pensou em ajudar Fabinho. Mas ele disse que pretendia falar com Gilson, sobre o emprego de garçom no Cantaí.
— Que bom, que você vai trabalhar com o seu Gilson, Fabinho! — disse Malu. — Eu ia te oferecer um emprego na Toca do Saci, mas...
— Caramba, Malu, sério? — disse Fabinho, emocionado. — Valeu, valeu mesmo. Isso pra você pode não ser nada, mas pra mim significa muito, de verdade.
— Eu sei! — disse Malu, abraçando-o apertadamente.
— Valeu! — disse Fabinho.
— Eu sei! — disse Malu, e afastou-se. — Ó, conta comigo sempre, viu? Sempre! — dirigiu-se à Giane e abraçou-a. — Tchau, Giane.
Malu realmente se importava com Fabinho. Ele não era tão ruim assim. Pior do que Amora, ele não era. E ela reconhecia que ele estava se esfor-çando para mudar, para melhorar, ao contrário da Amora.
— Tchau. Obrigada. — disse Giane.
— Imagina, tchau, tchau. — disse Malu, despedindo-se.
— Tchau, obrigado, hein! — disse Fabinho.
— Que isso! — disse Malu, antes de ir embora.
— Viu como você não tá sozinho? — disse Giane, dando um tapa no braço dele, abraçando-o, e afastando-se. — Olha só, eu vou ter que fazer umas fotos lá na agência. Aí, qualquer coisa que você precisar, eu tô lá na Karmita.
— Tá bom, valeu. — disse Fabinho.
— Tchau. — disse Giane, e foi embora.
Mais tarde, Fabinho resolveu ir até à Para Sempre, onde funcionava a agência Karmita. Queria ver Giane. Ainda tinha um dinheiro guardado. Foi até o ponto de ônibus. Quando estava esperando o ônibus, Amora apareceu, segurando um buquê de flores na mão. Era a segunda vez naquele dia que ele cruzava com a víbora. E ela não perdia a oportunidade de provocá-lo:
— Olha só! Fabinho Queiroz esperando o busão. Acho que eu vou tirar uma foto e enquadrar. — disse Amora.
— Tira. Tira sim, débil mental. — disse Fabinho.
— Sabe? Eu voltei pro Luxury, eu posso até tentar conseguir uma vaga pra você. Eles sempre estão precisando de faxineiro, de boy. — disse Amora.
Amora viu que o carro de Renata chegou e parou no sinal vermelho. Resolveu aproveitar para fazer cena, mais uma vez. Renata acreditaria nela, cairia na armação, pois Renata tinha raiva de Fabinho, por ter ameaçado a mãe dela.
— Para de me ameaçar, para! — gritou Amora. — Eu não aguento mais. Quer me deixar louca, é isso?
Fabinho não estava entendendo nada. Amora ficou louca?
— Que isso, você tá maluca, Amora?
— O quê que eu te fiz? Pelo amor de Deus, me deixa em paz, eu não aguento mais. — gritou Amora.
— Amora, o quê que aconteceu? Ele te ofendeu, foi isso? — perguntou Renata, que tinha acabado de sair do carro.
Fabinho achou que Renata era uma otária mesmo. Caiu como uma pata.
— Tá tudo bem, Renata. Obrigada! — disse Amora, e dirigiu-se a Fabinho. — Vê se me esquece! Inferno!
Amora sorriu. Seu plano estava dando certo. Estava firme na decisão de fazer todos pensarem que Fabinho estava ameaçando-a, fazendo tortura psicológica com ela. Assim, ela convenceria Bento a comprar uma casa nos Jardins, se mudar dali. Ela não suportava mais ficar na Casa Verde. Não apenas por ser um bairro pobre, apesar de ela detestar pobreza. Mas por conta de seu trauma. Aquela rua a lembrava da infância descalça. Ela tinha vontade de berrar e sair correndo dali, todo dia. Fazia o máximo para disfarçar. Bento insistia em viver ali. Ele era teimoso, cabeça dura, insistia em viver naquele barracão reformado, pois tinha pudor em pedir dinheiro ao Plínio. Ela tentou convencê-lo a botar a mão na herança e comprar uma casa, mas ele não quis. Mas abrir outra Toca do Saci ele queria. Bento só não queria dinheiro para ele, mas para financiar projeto social, o dinheiro servia. Ela tinha um milhão de reais investidos, mas para ela eram ninharia. Mal daria para comprarem a casa mais cara e luxuosa. Ela ganhou metade disso com a campanha da Cosy Bed. Ela tinha bem mais que isso e perdeu, por culpa do Fabinho. Teve de pagar multas astronômicas ao rescindir os contratos. Era fácil perder dinheiro. Queria se garantir, por isso ainda convenceria Bento a botar mão na herança. Só assim teriam um futuro próspero. Usaria o dinheiro que tinha guardado para outra coisa.
— Eu estava sentado aqui! Quieto, na minha! — defendeu-se Fabinho para Renata.
Porém, Renata não acreditou nele.
— Pelo amor de Deus, deixa o Bento e a Amora em paz. É tão difícil? — disse Renata, antes de entrar no carro.
Renata foi embora, e Fabinho ficou esperando o ônibus. Estava furioso. Era óbvio que Renata não acreditaria nele. Não depois do que ele fez à mãe dela, à Amora e ao Bento no passado. Por um lado, Fabinho sabia que não podia culpar Renata por não confiar e não acreditar nele, mas por outro, Renata não deixava de ser uma otária e uma ressentida e Amora se valia disso. Renata achava que, por ele ter ameaçado a mãe dela, iria ameaçar todo mundo. Amora estava se valendo da má fama dele para prejudicá-lo. E Renata acreditaria facilmente em qualquer ceninha, em qualquer mentira que Amora inventasse contra ele. Também, a Renata que se danasse. Não se importava com a opinião dela.
Estava desanimado. Que adiantava andar na linha? Às vezes dava vontade de voltar a aprontar, quem sabe assim as pessoas se davam por satisfeitas de ver que ele não prestava mesmo. Se bem que as pessoas nunca estavam satisfeitas. Era impressionante, ele mauzinho todo mundo detestava, ele bonzinho ninguém engolia. Estava mesmo difícil de agradar as pessoas. Ainda bem que ele não se sentia na obrigação de agradar a todo mundo, senão acabaria enlouquecendo. Além do mais, ele havia deixado de se importar com a opinião daquele povo. Ele só se importava com Margot, com Silvério e com Giane. O resto era apenas o resto. Podiam pensar o que quisessem, para ele era indiferente. Só queria que Amora o deixasse em paz, parasse de persegui-lo e cuidasse da vida dela.
Pegou o ônibus para a Para Sempre. Quando chegou ao endereço, resolveu passar primeiro em uma barraca de flores perto da empresa. Quando entrou no estúdio, Caio estava fotografando Giane.
— Fabinho? — disse Camilinha, surpresa.
— O que você tá fazendo aqui, cara? — perguntou Caio, irritado, ao vê-lo com um buquê de flores.
Fabinho não estava entendendo. Caio precisava reagir desta maneira? Tudo porque ele apareceu ali com flores para Giane? Mas não era o dia dele mesmo. Primeiro a Amora, depois a Renata, agora o Caio. Impressionante, ele estava levando porrada de todo mundo. Estava muito na cara que Caio estava era morrendo de ciúmes. Caio que se danasse. Caio tinha de entender que Giane não era mais namorada dele, portanto, ela podia receber flores sim, e Caio não tinha nada com isso.
— Eu vim falar com a Giane. — disse Fabinho.
— É, mas agora eu tô trabalhando. — disse Giane.
— É. Você não ouviu, não? Vaza! — disse Caio.
— Calma aí, cara, eu não vim brigar não, eu só vim falar... — disse Fabinho, porém, Camilinha o interrompeu.
— Deixa esses dois pra lá que eu quero falar com você. — disse Camilinha, tomando as flores das mãos dele. — E obrigada pelas flores, eu adorei. Vem!
Camilinha arrastou Fabinho para fora do estúdio. Acabou levando-o até a lanchonete da empresa. Fabinho reclamou da maneira como as pessoas o tratavam, inclusive o idiota do Caio. Todos sempre o tratavam feito lixo.
— Não tenho onde cair morto, sou tratado desse jeito, né? Queria ver se fosse rico. Ninguém ia me tratar assim, não. — disse Fabinho. Afinal, todo mundo adorava puxar o saco de gente rica. Só porque ele estava na pior, era tratado pior que cão sarnento.
Fabinho até aprendeu que seu valor, ou o valor das pessoas não estava na conta bancária. Ele não precisou ser milionário nem ter um sobrenome ilustre para ter o amor de Margot, de Irene, de Giane. Mas que adiantava? Ele podia ter valor para algumas pessoas, mas não para o resto do mundo. Para a sociedade ele continuava sendo escória, mesmo se esforçando para melhorar. Fabinho acreditava que as pessoas em geral eram mais duras com os pobres do que com os ricos. Se ele fosse rico, não seria julgado de maneira tão severa e não seria visto com tanta desconfiança.
— O problema é seu passado, Fabinho. — disse Camilinha. — Sua reputação não podia ser pior, né?
— Sim, mas e agora que eu tô fazendo tudo certo? O quê que eu ganho? Porrada. Esse negócio de andar na linha, não, eu tinha que ficar sendo o maluco que eu era mesmo. Você é pobre, é humilde: porrada na cabeça! — disse Fabinho, batendo as costas de uma mão na outra.
— Que tal se eu te desse uma chance de você se reerguer?
— Uma chance como? — perguntou Fabinho.
— Quê que você acha da gente encenar um namorinho? Fake! — disse Camilinha. — Assim você voltava à ativa, refazia os seus contados e você se dava bem. Que tal?
Fabinho não conseguia acreditar que Camilinha estivesse falando sério ao fazer esta proposta.
— Você quer que eu finja que sou seu namorado? Por quê que você quer um pé-rapado que está respondendo a um bando de processos?
— Porque eu não aguento mais a minha mãe se metendo na minha vida, em todos os meus relacionamentos. — disse Camilinha. — Pra ela, ninguém é bom o suficiente pra entrar na nossa família. — pegou na mão dele. — E eu quero muito ver a cara da dona Bluma a hora que souber que eu tô com o bad boy número um do país.
— Você quer me usar pra agredir a sua mãe? — perguntou Fabinho.
— É. Mas não é de graça. Você vai se dar bem também. — disse Camilinha. — Ou pensa que eu não sei que você gosta de coisas boas? Tô te dando a chance de você se reerguer e entrar num mundo do qual você sempre quis fazer parte. É pegar ou largar.
Fabinho ficou chocado. Nunca imaginou que Camilinha faria uma pro-posta dessas. O mundo dava voltas mesmo. Meses atrás, ele tentou se aproximar dela, mas ela o tratou como lixo e o expulsou da festa de divórcio da avó. Até ameaçou denunciá-lo à polícia. Agora ela queria usá-lo para provocar a mãe, e estava oferecendo dinheiro em troca. Bastante dinheiro. Meses atrás, ele aceitaria a proposta sem pensar duas vezes. E não era apenas por se tratar de dinheiro fácil. Não era apenas porque era uma chance de ele ter a vida que sempre sonhou. Ele estava na rua. Não tinha emprego, nem lugar para morar. Todos haviam virado as costas para ele. Na época, achou que Camilinha era sua tábua de salvação. Agora, Fabinho achava que a proposta era tentadora. Sempre quis fazer parte do mundo dos ricos. Não teria que se preocupar em arrumar emprego. Sem dúvida, teria muitas vantagens. Mas ele não era um objeto para ser com-prado. Se ele aceitasse, Camilinha iria querer mandar nele, se acharia dona dele. Iria querer controlá-lo. E ele não estava disposto a pagar este preço, só para fazer parte do mundo dos ricos. Ele continuava querendo ficar rico, mas tudo tinha um limite. Ele podia estar na pior, mas não estava na rua, sem ninguém. Tinha a mãe, e Gilson ofereceria um emprego de garçom no Cantaí. E tinha a Giane também. Giane era uma pessoa íntegra. Ele não queria decepcioná-la, e se ele aceitasse a oferta, Giane o julgaria a pior das criaturas na face da terra. De qualquer maneira, ele não podia aceitar a oferta de Camilinha, pois estava apaixonado por Giane. Completamente apaixonado, como nunca esteve por nenhuma outra mulher.
— E aí, topa namorar comigo ou não? — perguntou Camilinha.
Fabinho tirou a mão de Camilinha da dele e disse:
— Você tá achando que eu sou o quê? Um bibelozinho de grã-fina?
— Não. Tô achando que você é um idiota que está prestes a jogar no lixo a última chance de ter a vida que sempre sonhou. — disse Camilinha.
— Eu quero ter essa vida sim, mas não a esse preço. — disse Fabinho.
— Você acha que pode se dar ao luxo de ser orgulhoso agora?
— Orgulho é a última coisa que me restou. — disse Fabinho, levantando-se da mesa e indo embora, levando as flores.
Voltou para a Casa Verde. Pouco tempo depois, Giane voltou do estúdio e apareceu na praça, onde ele estava. Sentou-se ao lado dele e perguntou:
— O que você tinha de tão importante pra me dizer?
— Nada, eu só queria te entregar isso. — disse Fabinho, entregando as flores. — Mas elas já murcharam com o calor.
— Valeu a intenção. Foi só pra isso que você foi lá? — perguntou Giane.
— Giane, eu já tomei muita porrada hoje. Eu tô me guardando pra porrada final. Eu vou pedir emprego pro tio Gilson. — disse Fabinho.
Giane pretendia falar com Gilson, mas ainda não teve tempo.
— Você quer que eu fale com ele? Eu posso... — disse a garota.
— Não precisa. Não precisa. — interrompeu Fabinho. — Eu vou lá. Tchau.
— Tchau. — disse Giane, e Fabinho foi embora.
Fabinho foi até à casa do Gilson e conversou com ele.
— É isso, tio, tô te pedindo uma chance. — disse Fabinho.
— Eu vou te dar, apesar de ser contra a vontade do meu filho.
— Você não vai se arrepender, tio. — disse Giane, aproximando-se. Ela esteve na casa do Bento. Acabou de chegar e ouviu parte da conversa. Além do mais, Fabinho havia dito a ela que pediria emprego a Gilson, então ela sabia que ele estava na casa de Gilson.
Gilson assentiu.
— Tomara! É um mês de experiência, um salário e caixinha. — disse Gilson para Fabinho. — Não é grande coisa, mas é o que eu posso te oferecer. Se quiser, você começa hoje no Cantaí.
— Valeu. — disse Fabinho.
Gilson retirou-se, deixando Fabinho e Giane a sós.
— É isso aí, né? Vamos que vamos. — disse Fabinho.
— Você podia ter ganhado muito mais se tivesse aceitado aquela oferta da Camilinha. — disse Giane.
Fabinho sorriu. Então ela ouviu a conversa dele com a Camilinha.
— Gostei desse negócio aí de orgulho. — disse Giane.
— É uma música do Lupicínio Rodrigues que a minha mãe adora: vingança. A vergonha é a herança maior que meu pai me deixou. Eu não tenho pai, né? Mas tenho orgulho. Eu acho que é a única coisa que eu tenho ainda.
— É, não é a única. — disse a garota, antes de beijá-lo com sofreguidão.
Não se largaram mais. Foram até a casa dela, e não pararam um minuto de se agarrarem e se beijarem. Foram se agarrando até o quarto dela. Ele empurrou a porta, ainda com a garota em seus braços, sem soltá-la, e sem desgrudar seus lábios dos dela. O fôlego dele se tornava cada vez mais forte. Ele pressionava-a contra a parede, em seguida contra o guarda-roupa, beijando-a com voracidade. Passou a mão na coxa esquerda dela. Giane pulou no colo dele. Suas pernas rodearam a cintura dele.
Sem parar de beijá-la, ele rodou com ela os braços, até caírem na cama. Ele viu que a garota ficou ofegante ao sentir a pressão de seu corpo excitado contra o dela. Ela o desejava tanto quanto ele a desejava. Colou seus lábios nos dela. Beijaram-se. Ele se afastou e deitou de costas no chão. Ela foi ao encontro dele. Foi em cima dele e beijou-o. Em seguida, ela subiu na cama, porém, ele puxou-a pela coxa, trazendo-a para perto de si. Ela o beijou novamente. Ele acariciou o cabelo dela. Ela esfregou o rosto no dele, e ele fez o mesmo. Em seguida, ele deitou-a delicadamente na cama e beijou seu lábio inferior. Ele passou as mãos nos cabelos dela, carinhoso. Ela passou a mão nas costas dele. Dava para ver a paixão nos olhos dela. Ele beijou o queixo dela, os lábios e lentamente, começou a despi-la. Acabaram fazendo amor loucamente. Ele procurou ser carinhoso, delicado, pois sabia que era a primeira vez dela. Ela havia dito que nunca fora para a cama com ninguém. Momentos depois, os dois estavam deitados lado a lado, novamente vestidos. Fabinho pegou na mão dela, e a encheu de beijos e carinhos.
— Chega, vai embora. — disse Giane, feliz.
— Não vou embora, não vou embora. — disse Fabinho, sem querer largá-la, e beijou o pescoço dela. — É assim que você faz, é? Você me seduz, você me leva pra cama, você faz milhares de promessas, depois você me manda embora? — Giane pegou no rosto dele e lhe deu mais beijos nos lábios. — É?
— Meu pai deve estar chegando. Vai. — disse Giane, dando um tapinha na perna dele.
— Não, e daí? Por favor, posso voltar à noite? — perguntou Fabinho, abraçando-a.
— Só se você for embora antes do dia amanhecer. — disse Giane.
— E por quê que eu tenho que fazer isso? — perguntou Fabinho, continuando a abraçá-la, carinhoso, beijando-a no rosto.
— Eu não tô acostumada a acordar com ninguém do meu lado. Mesmo quando eu dormia lá no Bento...
Fabinho não podia acreditar. Justo naquele momento, ela tinha de tocar no nome do Bento. Será que ela ainda dormia na casa dele?
— O quê? — disse Fabinho, afastando-se. — Você dormia com o Bento?
Será que ela ainda pensava no Bento? Pelo visto, enquanto faziam amor, ela estava pensando no Bento. Ela ainda não esqueceu o Bento. E nunca iria esquecer. Sempre foi apaixonada por aquele otário, desde me-nina. Tinha verdadeira obsessão. Viveu a vida toda em função dele, cui-dando dele, brigando com o mundo por causa dele. Giane vivia brigando com Amora e com qualquer outra mulher que se aproximasse do Bento, e brigava com ele, Fabinho, para defender aquele paspalho. Agora, mesmo Bento estando casado com Amora, Giane não o esquecia. Ela terminou com o Caio por causa do Bento. Até tentou impedir que o Bento se casasse com a Amora. Giane não gostava dele, Fabinho. Continuava suspirando pelo Bento. Pelo visto, agora ela resolveu usá-lo para fazer ciúmes no Bento. Como se ela tivesse alguma chance com o Zé Florzinha. Não tinha, nem nunca teve, porque Bento sempre gostou da Amora a vida inteira e tratava Giane como irmãzinha. Quando ela iria se tocar?
Fabinho ficou revoltado. Levantou-se da cama. Não queria olhar para a cara dela. Quem ela pensava que ele era? Tudo bem ela gostar do Bento. Ele, Fabinho, não podia forçá-la a gostar dele. Mas nunca pensou que Giane fosse capaz de fazer uma coisa dessas, ir para a cama com ele para provocar outro. E se ela ainda gostava do Bento, que não o procurasse mais. Achava que Giane estava gostando dele, mas foi tudo ilusão. Ele não era mais do que um estepe. Detestava ser feito de idiota. Ele devia ter aprendido que não tinha a menor chance contra Bento.
— Calma aí, não entendi, você dormia com o Bento? — disse Fabinho, e pegou a jaqueta que estava sobre a poltrona, ao lado da cama. — Você ainda gosta desse cara, né? — começou a vestir a jaqueta. — Me diz uma coisa, eu sou o que pra você, eu sou... Sou um estepe?
— Tá louco, Fabinho? Se eu quisesse um estepe, eu tinha ficado com o Caio. — brincou Giane, e Fabinho riu de nervoso. — Que é muito mais bonito, inteligente, e muito mais legal do que você.
— Bacana, então, tá. — disse Fabinho, calçando as botas. — Está tudo errado mesmo. Eu vou embora.
— Fabinho... — disse Giane, levantando-se da cama. — Você só pode estar me zoando, né, cara?
— Não, não tô te zoando, não. Não é isso que você queria? Fazer ciúmes no Bento? Parabéns, conseguiu. — disse Fabinho, revoltado.
— Como você é tapado! Idiota, cretino! — disse Giane.
— Cretina é você! — disse Fabinho levantando-se. — Eu achando aqui que você gostava de mim, não. Você liga pro Bento, né? Eu sou um imbecil.
Estava triste e com raiva ao mesmo tempo. Achava que ela gostava dele. Como podia ter se enganado tanto? Era louco por ela, e doía-lhe saber que ele não significava nada para ela. Era duro não ser correspondido. O que acabou de acontecer entre eles foi tão especial. Pelo menos, para ele, foi. Claro que já levou outras mulheres para a cama. Nunca foi adepto do celibato. Mas nada se comparava a fazer amor com a mulher amada.
— E bota imbecil nisso. — disse Giane, irritada.
— É, eu sou imbecil mesmo. — disse Fabinho, irritado.
— Muito imbecil. — disse Giane, sentando-se na cama.
— É. — disse Fabinho.
— Sai daqui! Babaca! — disse Giane, atirando um travesseiro nele. — Sai!
Fabinho saiu batendo a porta.
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