Um amor improvável
30 Chamando atenção de Plínio
Fabinho resolveu visitar Bárbara no manicômio onde ela estava internada para fugir da mídia. Bárbara, depois de sair da casa da Mel, havia se escondido na Casa Verde, na casa de Madá, porém a imprensa a encontrou e ela fingiu um surto. Madá havia internado a filha no manicômio. Assim, Bárbara acabou pagando na mesma moeda pelo o que fez com a mãe. Fabinho pensou que o mundo dava voltas mesmo.
Fabinho sabia onde ficava o manicômio, havia se informado. Ele não pretendia demorar, até porque só iria visitá-la para tripudiar em cima dela. Afinal, a imagem dela estava arruinada. O Brasil inteiro sabia que Bárbara não prestava. Ela se escondia para não ter de dar explicações por ter separado Plínio de Irene e condenado o filho do casal à orfandade. Primeiro, Fabinho passou no apartamento de Plínio, para deixar as coisas que havia comprado, mas logo saiu sem dizer aonde ia. Ao chegar ao manicômio, Fabinho perguntou por Bárbara Ellen, e a enfermeira foi chamá-la. Fabinho ficou esperando, sentado no gramado, debaixo de uma árvore. Quando Bárbara apareceu, ele disse:
— A minha visita vai ser muito rápida. Eu só vim pra dizer que venci.
— Venceu por quê? Porque me internaram? — disse Bárbara, furiosa.
— Eu só estou tomando um fôlego. Aguarde o meu retorno triunfante!
— Não delira, Bárbara Ellen. — disse Fabinho, levantando-se. — Não delira. — pulou na calçada. — Ai, Bárbara! Você já era, Bárbara. Ainda mais agora que a minha mãe voltou.
— A Irene? — perguntou Bárbara, rindo.
— Uhum.
— Essa já está morta e enterrada. — disse Bárbara. Bárbara ainda não sabia que Irene havia reaparecido.
— Não, isso é o que você queria. A minha mãe está viva. — disse Fabinho. — Tá do lado do meu pai que, inclusive, vai me assumir e vai me dar a minha parte da herança.
— Ah, o Plínio nunca seria tão idiota. — disse Bárbara. — Você só pode estar blefando.
— Você acha? Você quer pagar pra ver? — disse Fabinho. — Bárbara, quando você sair daqui, quer dizer, se você sair daqui, você vai me encontrar rico. Vamos lá, mais o quê? Rico, poderoso, com cacife pra detonar você e a Amora. Eu vou destruir vocês. Você entendeu?
— Foi você, não foi? Quem me detonou naquele blog? — perguntou Bárbara.
— Não. Eu detonei a Amora. — disse Fabinho, andando ao lado dela. — Você, não fui eu. Você, foi alguém. Não sei. — aproximou-se por trás de Bárbara e colocou as mãos sobre os ombros dela. — Inimigo não deve faltar, né, Bárbara?
— Eu vou falar pra todo mundo que foi você quem falou aquilo tudo sobre a Amora! — disse Bárbara.
Contudo, Fabinho acreditava que dificilmente Bárbara conseguiria limpar a imagem da filhinha dela, até porque, a imagem dela própria também estava arruinada. Ninguém acreditaria numa palavra do que ela dissesse. Além do mais, todo mundo achava que ela havia enlouquecido.
— Conta! Conta pra todo mundo! — disse Fabinho, debochado. — Eu quero ver se eles vão acreditar numa louca que está aqui dentro ou se vão acreditar num pobre garoto que cresceu longe dos pais por sua culpa. Bárbara, você já era.
— Não cante vitória ainda. — disse Bárbara. — Eu sou uma jogadora surpreendente.
— Não, você é canastra. — disse Fabinho. — Você é canastra, você é ruim. Ninguém acredita em você. Você quer ver? Olha aqui, ó.
Fabinho começou a rasgar a blusa a partir da gola. Faria cena para parecer que Bárbara estava atacando-o.
— O que é isso? Para! — disse Bárbara, e tentou impedi-lo de rasgar a roupa. Fabinho segurou seu braço. Ele sabia que ela cairia como uma pata.
— Que isso, Bárbara? Que isso, Bárbara? — gritou Fabinho. — Que isso, Bárbara? Amigo, pelo amor de Deus!
Um enfermeiro chegou neste momento.
— Que isso? Me solta! Me larga! — disse Bárbara. Dirigiu-se ao enfermeiro. — Eu não fiz nada! Eu não fiz nada!
Outro enfermeiro chegou e os dois agarraram Bárbara, separando-a de Fabinho.
— Que isso, Bárbara? — gritou Fabinho. — Quê que é isso?
— Me solta! Me solta! — protestou Bárbara, sendo arrastada pelos enfermeiros. Dirigiu-se a Fabinho, furiosa. — Você é cretino! Um mentiroso! Seu nojento!
— Não, não, cuidado! — disse Fabinho aos enfermeiros. — Cuidado! Ela não sabe o que faz!
Bárbara desmaiou e foi carregada pelos enfermeiros. Fabinho saiu do manicômio, satisfeito. Não sentia nenhuma culpa por ter feito o que fez. Bárbara usava das mesmas armas, dos mesmos truques que ele. Ele apenas era mais esperto e fez Bárbara provar do próprio veneno.
À noite, Fabinho foi se encontrar com Mel em um bar.
— Mas a troco de que o Plínio vai te adiantar essa herança? — perguntou Mel.
Claro que Fabinho não diria o verdadeiro motivo. Como contar que o pai estava subornando-o, que o pai o odiava? Ele não tinha coragem de dizer que o pai estava oferecendo uma fortuna para se livrar dele. Além do mais, doía. Espalhar por aí que o pai o desprezava a esse ponto, não fazia bem para o seu ego. Se tratava de um assunto delicado. Quando Fabinho veio para São Paulo, esperava que o pai adiantasse a herança, lhe desse a vida que merecia, com todo o conforto, todos os luxos ao qual estava acostumado, por gostar dele, e não que o pai o odiasse a ponto de suborná-lo para que fosse embora, desaparecesse da vida de todo mundo. O que Fabinho queria realmente era fazer parte da família, ser amado e aceito. A herança seria um bônus. Mas nada aconteceu como ele esperava.
— Papaizinho tá comendo na minha mão, né? — disse Fabinho, e lhe deu um selinho. — Você vai ver, eu vou fazer o exame de DNA e ele vai depositar minha grana.
— E se der negativo? Você tem certeza que é filho do cara?
— Absoluta. Tanto que eu tô pensando até em mudar meu nome pra Plínio Campana Júnior. — Fabinho gabou-se.
Ele estava brincando. Não seria possível mudar o nome. Plínio andou consultando o advogado. Fabinho ficou sabendo que nem teria como Plínio registrá-lo como filho, pois ele foi adotado pela Margot e pelo marido. Seria impossível revogar a adoção. Para Fabinho tanto fazia, desde que recebesse o dinheiro. Ele nunca se importou com a lei. Ele teria ido atrás de Plínio e da grana de qualquer maneira, e não descansaria enquanto não alcançasse seu objetivo. Ainda assim, Plínio registrando-o ou não, receberia a herança. Fabinho estava prestes a conseguir o que queria. Até porque havia uma parte da herança da qual Plínio podia dispor livremente, ou seja, Plínio podia fazer o que quisesse com metade de seus bens, doar para quem bem entendesse, só não podia mexer na parte da Malu e da Irene. Plínio estava disposto a pagar uma fortuna para se ver livre dele.
— Uau! Já pensou? — disse Mel, alegre. — Aí eu mudava o meu pra Mel Campana e ficava igual à Amora. Imagina, que luxo! Que tudo que eu ia ser!
— Demais! — disse Fabinho, pegando no rosto dela. — Eu boto a mão na minha grana...
— Hum. — disse Mel.
Fabinho lhe deu um rápido beijo na boca.
— Você bota a mão na sua, e aí vai ser vidão! Iate, Ibiza — disse Fabinho, e beijou-a. — Aspen, hotel 6 estrelas, caviar em colher de sopa, o que você acha? — beijou-a longamente nos lábios.
— Fá! — disse Mel.
— Hum.
— Você me deixa...
Ele sabia que a deixava doidinha. Sabia como enlouquecer uma mulher. Isso quando as mulheres permitiam que ele se aproximasse, porque não era qualquer mulher que caía em sua lábia.
— Hum. Fala!
— Vem cá, me confessa uma coisa. — pediu Mel.
— Hum.
— Foi você que escreveu aquele blog detonando a Amora e a mãe, não foi?
— Melzinha! Não, eu sou um anjo!
— É?
— É. E vou te levar pro paraíso. — disse Fabinho, antes de beijá-la longamente.
Fabinho passou a noite com Mel, e chegou tarde ao apartamento de Plínio. No dia seguinte, acordou cedo e foi logo dando ordens para Celinha:
— Celinha! Você pode trazer o café aqui na sala pra mim, por favor, querida?
O rapaz deitou-se no sofá. Plínio estava em seu escritório, e de onde estava, dava para observar Fabinho. Ele não gostou nada de ver o rapaz dando ordens para sua secretária. Era impressionante, o garoto achava que o mundo todo devia servi-lo.
— Não é função da minha secretária te servir. — disse Plínio, deixando o livro sobre a mesa ao seu lado. — Onde passou a noite, que só chegou em casa de madrugada?
— Ih! Da onde vem o súbito interesse na minha vida? — perguntou Fabinho. Afinal, desde quando Plínio se importava com ele?
Plínio levantou-se da cadeira onde estava sentado. Ele só não queria que Fabinho aprontasse e lhe desse mais problemas.
— O habeas corpus livrou você da cadeia, mas não da acusação de roubo e suborno. — disse Plínio, andando até a sala. — Enquanto estiver sob o meu teto, vai ter que me dar satisfações da sua vida. Se não gostar das minhas condições, pode pegar suas coisas e sumir daqui.
Fabinho sentou-se no sofá. No ponto de vista dele, não adiantava agora Plínio querer estabelecer regras ou impor limites. Era tarde demais. Primeiro que ele já era bem grandinho, maior de idade, podia fazer o que lhe desse na telha. Segundo, ele não ficaria muito tempo ali, logo iria embora, como Plínio queria. Era evidente que Plínio estava louco para vê-lo pelas costas, e viver sob o mesmo teto que Plínio estava sendo um inferno. E em terceiro lugar, depois de tê-lo subornado, oferecido uma fortuna para que ele sumisse da vida de todo mundo, Plínio perdeu o direito de ditar regras ou ensinar o que quer que fosse. Ele jamais daria ouvidos ou obedeceria a um pai que queria se ver livre dele. Antes Fabinho queria ficar amigo de Plínio, aprender com ele, mas agora não queria mais. Logo, não daria satisfações de sua vida nem a Plínio, nem a ninguém.
— Tô vendo que você quer me ver pelas suas costas, né? Mas eu só saio dessa casa depois que eu botar a mão no que é meu.
Plínio balançou a cabeça positivamente.
— O exame de DNA já foi agendado. Logo, logo a gente vai tá livre um do outro. Fique tranquilo.
Fabinho passou o dia todo em casa, fazendo o que lhe desse na telha. E fazia de tudo para provocar Plínio. Plínio podia não gostar dele, mas teria de aturá-lo. Até resolveu escutar música. Quanto mais alta, melhor. Estava ouvindo o som na sala, e dançando, quando Plínio apareceu na sala:
— Ei, ei, quê que é isso? — disse Plínio, desligando o aparelho. — O que é isso? Você é surdo, por acaso?
— Hã? — disse Fabinho, se fazendo de surdo. Riu. — Eu tô brincando. É que eu gosto de ouvir música alta.
— Eu tô trabalhando, você não percebeu não?
— Ah, então você compra um aparelho de som decente e bota no meu quarto. — disse Fabinho.
— Aquele quarto não é seu, é da Malu. — disse Plínio.
— Não, aquele quarto também é meu. Porque agora, eu também sou teu filho. Quer você queira, quer não. — disse Fabinho, sentando-se no sofá e ligando o aparelho. Passou horas ouvindo som alto.
Plínio já não suportava mais. Não conseguia trabalhar. O rapaz não respeitava o seu espaço. Plínio resolveu sair do apartamento por algumas horas. Precisava esfriar a cabeça. Reclamou com Celinha:
— É muita falta de sorte a essa altura da minha vida ser contemplado com um castigo desse.
— Será que ele não tá te provocando só pra chamar sua atenção, Plínio? — perguntou Celinha. — Vai ver que ele é apenas um menino carente, né?
— Carente coisa nenhuma. Ele quer me infernizar. — disse Plínio.
— E aí, papai? — disse Fabinho, entrando na sala. — Tá de saída já? Não ia trabalhar?
— Eu vou. — disse Plínio, balançando a cabeça positivamente. — Eu vou pra bem longe daqui. Longe de você.
— Mas se você quer distância de mim, não se dê ao trabalho de ir embora. Me dá uma grana e eu saio. Tudo pra ver papai feliz e contente. — provocou Fabinho.
Plínio abanou a cabeça, furioso. Impressionante, Fabinho mobilizava o que havia de pior nele. Geralmente ele era uma pessoa calma, mas o rapaz lhe dava nos nervos. A quem será que o moleque havia puxado? Ele era desagradável. O garoto se espalhou pela casa, destratava o tempo todo a Celinha, não respeitava nada. Plínio tentou impor limites, mas de nada adiantou. Plínio não via a hora de tudo acabar e Fabinho desaparecer de vez da sua vida. Além do mais, o garoto o fazia lembrar o tempo todo que ele podia ser mesquinho, agressivo e falho. E ele odiava ainda mais o garoto por causa disso, por fazê-lo se lembrar de seu lado obscuro.
— Por que você não cala essa boca, hein, moleque? — disse Plínio, furioso, antes de sair.
— Você tá vendo, Celinha? — disse Fabinho, irônico. — Isso é... Isso é jeito de falar com o filho? Depois eu saio por aí dando cabeçada na vida, Fabinho é problemático, ninguém sabe por que. — sentou-se no sofá. — Sabe fazer misto-quente, Celinha?
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