Fabinho estava sozinho no apartamento. Celinha estava de folga, e Plínio foi dar uma palestra na Unicamp. Plínio sempre dava um jeito de se ausentar, ficar o máximo de tempo possível fora, pois não suportava ficar com Fabinho. Nem Irene parecia suportar ficar no mesmo ambiente que o rapaz, pelo o que ele havia percebido. Irene apareceu apenas uma vez para visitá-lo, mas para Fabinho, era óbvio que ela não se sentia bem perto dele. Ela parecia desconfortável.

De qualquer maneira, Irene não apareceu mais, não ligou. Além de Irene e Plínio estarem brigados, Fabinho tinha certeza de que Irene também não queria vê-lo, não queria conversa com ele. Estava na cara que ela não gostava muito da companhia dele, nem se sentia feliz por tê-lo como filho. Do contrário, ela teria procurado ele mais vezes. Também, depois de tudo, de todas as mentiras, tramoias, Irene não iria querer saber dele mesmo. Não era de se surpreender. Certamente, Irene o via como um poço de problemas, uma cruz a ser carregada. Por isso Fabinho não ligava para ela, nem ia visitá-la, porque ela certamente não iria querer recebê-lo. Ela o desprezava, disso ele tinha certeza absoluta. Fabinho pensava que as pessoas só queriam ficar longe dele.

Fabinho estava chateado. Nada estava saindo como ele imaginou. Era para ele estar feliz. Iria ficar rico, havia encontrado os pais, tinha se vingado da Bárbara. Mas não se sentia feliz. Havia sempre um clima de briga, de desconfiança. E isso desde o início, muito antes de descobrirem tudo o que ele havia aprontado. Aliás, não se lembrava de alguma vez ter se sentido realmente feliz na vida. A vida inteira correu atrás da tal felicidade que parecia ser inalcançável para ele. Fabinho resolveu então escutar um pouco de música para esquecer dos problemas.

Além do mais, ele preferia ficar sozinho mesmo. Sentia-se desconfortável na presença de outras pessoas. As pessoas não se sentiam bem perto dele, e ele percebia. Ninguém nunca gostava da presença dele.

Estava na sala, ouvindo música, usando fones de ouvido, quando teve a impressão de estar ouvindo a campainha. Fabinho tirou os fones do ouvido. Continuaram tocando a campainha. Quem será que era àquela hora? Fabinho deixou o fone de ouvido sobre o sofá. Detestava interromper o que fazia para atender à porta. Por que Plínio, sendo tão rico, não pagava empregados para servi-lo? Fabinho não conseguia entender.

— O quê que adianta? É rico, mas não tem empregada. — reclamou o rapaz, levantando-se do sofá para ir atender. — Desgraçado, pão-duro!

Abriu a porta e viu que era Amora. Fabinho ficou furioso. Como ela se atrevia a aparecer ali, depois de tudo? Depois de ter aparecido com Maurício e Margot ali, para humilhá-lo e desmoralizá-lo na frente de Irene, Plínio e Malu? Ele não queria mais ver Amora na frente, não queria conversa com ela. Queria que ela sumisse. Não suportava olhá-la. Ele não queria mais nada com Amora, só queria se vingar dela.

Ele só se aproximou dela porque havia botado na cabeça que ela era a mulher ideal para ele, por ser rica e famosa. Fabinho pensava que, se ele aparecesse na mídia ao lado de Amora, as pessoas gostariam mais dele, ou ao menos teriam mais respeito por ele. Ele também queria tentar tirá-la do Bento. Mas se controlava, fazia um esforço enorme para não gritar e sair correndo quando chegava perto de Amora. Sempre teve sentimentos contraditórios quando estava perto dela. Ele sempre esteve mais interessado no que ela tinha a oferecer, do que na pessoa dela. Agora, Amora não o interessava mais, então podia descarregar nela todo seu desprezo e horror. Amora fazia parte de seu passado, era outra que o chamava de Fraldinha, quando eram crianças. Fabinho não suportava olhar para ninguém que tenha passado por aquele lar.

— Ah, não, não, não, vai embora, vai embora vadia, vai embora, vai embora! — Fabinho enxotou-a aos berros.

— Calma aí, Fabinho, eu preciso muito falar com você. — disse Amora, entrando. Ela estava colocando em prática seu plano. Já havia pensado em uma maneira de virar o jogo e pegar de volta tudo o que era dela.

Amora ficou sabendo que Fabinho e Plínio fariam o exame no laboratório onde Socorro trabalhava. Socorro havia contado. Amora pediu para Socorro adulterar o exame de DNA de Fabinho, e depois o de Bento. Prometeu a Socorro que ela teria não apenas dinheiro, como também sua gratidão eterna. Faria Plínio pensar que o Bento, e não o Fabinho, era filho dele. Amora teve a ideia ao ouvir uma conversa entre Irene, Madá e Emília. Madá dissera que Bento e Fabinho chegaram ao lar no mesmo dia. Amora pediu para Socorro trocar o material de Fabinho pelo de outro cliente. Com o exame do Fabinho dando negativo, ela plantaria uma dúvida, lançaria a suspeita de que os bebês foram trocados. Bento faria o exame. Socorro trocaria o material de Bento pelo material de Fabinho. Assim, Amora transformaria Bento em um cara rico, separaria Bento de Malu e ainda reduziria Fabinho a pó. Depois ela só teria de pensar em reatar com Bento e reconstruir a carreira. Todos os seus problemas estariam resolvidos. Era uma jogada de mestre. Ela teria tudo de volta: se casaria com Bento, voltaria a apresentar o Luxury e a fazer campanhas publicitárias. A mídia e o público não iriam mais massacrá-la por conta da relação com Bento, porque ele seria o herdeiro de um cineasta rico e famoso. Ela não estava mais com Maurício, nem Bento estaria mais com a Malu. Ela e Bento seriam muito felizes, teriam uma vida maravilhosa.

Só que ninguém podia saber, nem desconfiar de que ela estava dando o golpe. Por isso todos, principalmente o Bento, que era quem interessava, teriam de acreditar que ela mudou, que não ligava mais para dinheiro e que virou uma pessoa simples. Amora estava dizendo a todos que iria largar a vida de celebridade, o luxo para viver na Casa Verde. Fingiria aceitar viver no mundo do Bento, como ele queria, para depois dar um jeito de tirá-lo da Casa Verde e trazê-lo para o mundo dos ricos e famosos. Ela estava se antecipando e fingindo que mudou muito antes do exame de Bento dar positivo. E ela ainda tinha umas economias, um milhão de reais investidos. Ninguém iria desconfiar que ela estava de olho na grana do Plínio. Para ela, quanto mais dinheiro, melhor. Um milhão não era o suficiente. Amora tinha certeza de que tudo daria certo para ela.

— O que você quer, Amora? Fala. Quer me encher o saco? — perguntou Fabinho.

— Não. Eu vim zerar nossa história. — disse Amora.

— Do que você está falando? — perguntou Fabinho.

— Eu não sei como começou essa agressividade entre a gente... — disse Amora, largando a bolsa que trazia consigo. — Com um provocando e caluniando o outro, mas eu queria muito colocar um ponto final nesse clima ruim, até porque agora, tanto você quanto eu vamos começar uma vida nova. Você vai ser rico, como você sempre quis, e eu vou abrir mão de tudo pra viver com Bento na Casa Verde.

Fabinho não estava entendendo nada. Que conversa era aquela? Não parecia a Amora falando. Parecia outra pessoa. No ponto de vista de Fabinho, Amora era rancorosa, jamais perdoaria ou esqueceria facilmente tudo o que ele havia aprontado, as calúnias contra ela. Por isso ela tratou de fazer a caveira dele para Plínio. Ela havia perdido muitos trabalhos, a carreira dela de apresentadora e modelo estava arruinada. Ela jamais aceitaria perder tudo o que tinha, e jamais abriria mão do luxo, da fama e do glamour para viver na Casa Verde. Ela e Bento viviam discutindo por causa disso. Ela não queria mudar de vida de jeito nenhum, e Fabinho estava cansado de saber disso. Agora Amora vinha com aquele papo para cima dele? Fabinho estava achando aquela conversa muito esquisita. Qual era a dela? A Amora que ele conhecia jamais apareceria ali, jamais tentaria se entender com ele, não iria tentar ficar amiguinha dele depois de tudo.

Como Fabinho não era bobo, jamais cairia nessa conversa. Riu.

— Vai. Vai sim. — disse Fabinho, irônico, sentando-se no sofá e abraçando a almofada. — Você vai se enfiar naquele buraco, tá bom, tô acreditando, Amora.

Para Amora, não era nenhuma surpresa Fabinho não acreditar nela. Era de se esperar. A princípio, as pessoas não acreditariam que ela estivesse realmente querendo mudar de vida, largar a fama e a riqueza para

levar uma vida simples e anônima, longe dos holofotes. Mas com o tempo, as pessoas acreditariam nela, a maioria delas, pelo menos.

— Mas já tá decidido, até já abandonei a minha carreira. — disse Amora. — Fabinho, eu entendi que essa vida de glamour, de fama, de luxo, a verdade é que isso nunca me fez feliz. Então, no final das contas, acabou fazendo um grande bem, né? Porque a verdadeira felicidade é amar e ser amado, mas eu só consegui entender isso quando você tirou a Bárbara da minha vida. Longe da influência nefasta dela, eu consegui ficar livre pra ser feliz do lado do Bento.

Fabinho estava estranhando. Mas que texto era aquele? Parecia até decorado. Amora era mesmo uma pilantra. Havia aprendido bastante com a mãe adotiva. Ela na verdade era uma versão piorada da Bárbara. Porque a Bárbara era uma canastrona, e Amora era melhor atriz do que ela. Amora podia convencer qualquer pessoa, qualquer otário com aquele discurso, menos ele. Amora viveu a vida toda no luxo e no glamour, estava acostumada demais a viver com todo o conforto e não iria abrir mão disso do dia para a noite, ainda mais para viver na zona mais pobre da Casa Verde, lugar que ela desprezava. E ela jamais o agradeceria por ter acabado com a imagem dela. E Amora sempre foi unha e carne com a Bárbara, as duas eram cúmplices. Agora ela vinha com aquele papo de que Bárbara era uma influência nefasta? Estava na cara que isso era armação.

— Amora, então você veio aqui agradecer por eu ter acabado com a sua carreira, porque assim você encontrou a felicidade verdadeira?

— É, é isso mesmo. — disse Amora, sorridente.

— Parabéns, Amora, você quase me enganou, você é melhor atriz do que sua mãe, inclusive. Mas você não me engana. — disse Fabinho, levantando-se do sofá. — Eu sei muito bem que você tá armando alguma coisa. Qual é o seu jogo?

— Não tem jogo nenhum, Fabinho. — disse Amora. — Eu tô fora, você venceu. Você conseguiu tudo o que você queria. Você se vingou da Bárbara, a volta da tua mãe, a herança do teu pai. Se eu não tivesse tão em paz, eu até podia ficar ressentida, dizer que o dinheiro do Plínio não vai te fazer feliz. Mas isso você vai acabar entendendo sozinho, por conta própria, assim como aconteceu comigo. E quem sabe nesse dia, você sinta falta de um afeto verdadeiro e a gente possa realmente ser amigo.

No ponto de vista de Fabinho, Amora era uma dissimulada. Ele não sabia o que ela pretendia, mas não acreditava na sinceridade dela. Ele não acreditava que ela tivesse afeto verdadeiro por ele.

— Eu não acredito em você. — disse Fabinho. — Vadia.

— Eu entendo que você não acredite em mim. — disse Amora. — Mas um dia você vai perceber que eu tô realmente sendo sincera. Você vai se tocar disso.

Amora aproximou-se e beijou o rosto dele.

— Boa sorte, Fabinho. Espero que você... — disse Amora, pegando a bolsa. — Encontre alguém que te ame e seja tão feliz como eu tô sendo agora.

— Mas eu não dou uma semana pra você se cansar daquele otário e comprar sapato que nem louca. — disse Fabinho.

Fabinho não acreditava em nada do que Amora disse. Ela não iria suportar viver na pobreza ao lado do Bento.

— Ai, Fabinho! — disse Amora.

— É, Fabinho. — disse o rapaz.

— Vai acabar. — disse Amora, balançando a cabeça positivamente. — Vai acabar entendendo. Fica bem. Tchau.

Amora pensou consigo mesma que Fabinho iria ter uma bela de uma surpresa. Ele não perdia por esperar. Ela o deixaria pensar que venceu, que ela estava fora da jogada. Ela ainda iria virar esse jogo e acabar com ele. Fabinho se achava esperto, mas ela era bem mais esperta e inteligente.

Fabinho ficou perturbado. Amora tinha feito alguma espécie de ameaça ou era apenas impressão? Alguma coisa Amora estava aprontando. Ele só não sabia o que. Não era possível que ela estivesse pensando seriamente em largar tudo, desistir da carreira, da fama, do luxo, do conforto para ir viver na Casa Verde com Bento. Essa não era a Amora que ele conhecia. Ela não iria do dia para a noite abrir mão de tudo, até da coleção de sapatos, que era o que ela mais amava. Bento não teria dinheiro para comprar centenas de sapatos de grife, nem ela teria onde enfiar os sapatos dela naquela edícula, naquele espaço minúsculo. Amora desprezava a Casa Verde tanto quanto ele. Amora não nasceu para ser pobre.

— Ficar bem por que, se você não tá bem? — disse Fabinho, enquanto Amora lhe dava às costas e saía. — Você tá achando que você tá bem?

No ponto de vista de Fabinho, Amora não estava bem. Só podia estar louca, se estava pensando em trocar os Jardins pela Casa Verde. Ou ela estava de brincadeira. Amora também não suportava aquele lugar, não suportava olhar para aquela gentinha. Ela passou anos sem visitar aquele lugar, não queria pisar lá. Ela tinha certeza mesmo que queria viver na Casa Verde, naquele ambiente insalubre, no meio daquela gente rude, mal-educada? Amora não iria se sentir bem naquele lugar, disso Fabinho tinha certeza. Amora não suportaria viver uma semana naquele “buraco”.

Amora fechou a porta, porém Fabinho abriu e gritou atrás dela:

— Com aquele otário? Você tá achando? Sua coitada, sua vaca! — fechou a porta. — Feliz! Feliz na Casa Verde? Eu tenho pena de vocês. Feliz aqui sou eu, que sou rico. Feliz na Casa Verde?

Fabinho sentou-se no sofá, e ia colocar novamente o fone de ouvido, mas acabou atirando-o. Desistiu de ouvir música.

Para Fabinho, não era possível ser feliz vivendo na Casa Verde, na pobreza, naquele mundinho pequeno e mesquinho. Além do mais, ele não queria nem lembrar que existia aquele bairro, aquela rua, que lhe despertavam lembranças dolorosas. Para ele, aquilo era um buraco. Nunca mais ele queria ver aquela gente na frente. Ainda iria expulsar aquelas pessoas de lá. Fabinho queria que sumissem para sempre. Desaparecessem. Ele desejava deletar as lembranças ruins. Do seu passado, a única coisa que lhe interessava era encontrar seus pais de sangue, que era o que sempre quis. Já encontrou os pais. E iria ficar rico. O resto não existia para ele. Ele queria esquecer para sempre que viveu naquele lar, que conheceu aquela gente.

Fabinho só não se vingou antes daquele pessoal porque até pouco tempo atrás, ele era pobre e fazia de conta que nunca conheceu ninguém daquela rua. Além do mais, mesmo que ele tivesse pensado em vingança antes, não estava em condições de fazer nada contra aquela gente. Ele não tinha nenhuma fortuna em mãos. Mesmo quando o pai adotivo ainda era vivo, não havia como fazer nada. Quem administrava o patrimônio eram os pais adotivos. Ele não podia, porque era menor e os pais eram vivos. Ele recebia apenas uma mesada, que estava longe de ser uma fortuna. Somente com grana alta ele poderia agir. Só com muito dinheiro ele teria poder para destruir aquela gentinha. Sem dinheiro, ele não teria nem como sair de Ribeirão Bonito. Quando o pai adotivo era vivo, nem pensava em adiantar a fortuna para ele. E o pai adotivo acabou morrendo e deixando ele e a mãe adotiva sem nada, nem um vintém.

Fabinho passou o resto do dia de mau humor. Não conseguiu mais se divertir. Certamente, Amora resolveu aparecer para infernizá-lo, para tirar sua paz. Era provocação. Só podia ser. À noite, Fabinho ficou sabendo, pelo site da Sueli Pedrosa, que Amora havia sido atropelada na Casa Verde.

Plínio já estava em casa, e viu que o rapaz estava abalado.

— Amora tinha que ter morrido, isso sim. — disse Fabinho, referindo-se ao acidente de Amora.

— Ei, ei, ei, ei, ei, ei, que é isso? — disse Plínio, chocado por ter ouvido do rapaz tamanha barbaridade. — Como é que você pode dizer uma besteira dessas? Qual é o teu problema, afinal?

Plínio se perguntou como Fabinho podia ser tão cruel e insensível. Como ele se tornou esse monstro, incapaz de ter empatia por uma pessoa que se acidentou? Ainda se tivesse sido maltratado, sofrido algum tipo de abuso, tivesse recebido péssimas influências. Mas não, até onde ele sabia, Fabinho foi muito bem tratado no lar, passou a infância inteira aos cuidados de pessoas bondosas, íntegras e depois foi adotado, criado com todo o amor e carinho pela Margot, que era uma boa mãe e certamente ensinou bons princípios. Se Fabinho se tornou um mau-caráter, não foi por falta de cuidado e afeto. Não havia razão nem justificativa para tanta maldade. No ponto de vista de Plínio, Amora ainda tinha razões para ser o que era, embora ele não simpatizasse com ela. Amora viveu nas ruas, passou fome, frio, certamente sofreu todo tipo de abuso, viveu pouco tempo no lar e depois foi adotada pela Bárbara, que era uma influência nefasta. Para Plínio, Amora era uma vítima da criação de Bárbara e do mundo da fama. Não era o caso de Fabinho. Plínio não conseguia entender.

— Meu problema é Amora. — disse Fabinho. — Essa vadia teve a coragem de vir aqui pra me dizer um bando de besteira.

— A Amora esteve aqui? — perguntou Plínio.

— Teve aqui. Teve aqui com um cinismo. — disse Fabinho, furioso, sentando-se no sofá. — Dizendo que... Que ia ser feliz, que ia mudar de vida, pois bem, que fique bem torta, pra ver o quê que é vida diferente.

Plínio não entendeu nada. Fabinho ficou daquele jeito só porque Amora disse que seria feliz e que mudaria de vida? Que tipo de pessoa era Fabinho, capaz de ficar desestruturado com a felicidade de outra pessoa? Mais tarde Plínio conversou ao telefone com Irene sobre isso, e ela achou que Amora só podia ter provocado Fabinho, dito alguma coisa a mais para deixá-lo tão perturbado.

Horas mais tarde, Plínio telefonou novamente para Irene, para saber se ela tinha notícias de Amora.

— Alô! Oi, Plínio. Não, a Amora já está bem, ela teve alta, acabou de chegar em casa.

— Bom, se ela já tá em casa, então não foi nada grave. — disse Plínio.

Fabinho acabou de entrar na sala e ouviu o pai falando ao celular.

— Quem? Amora? Que bom. — disse o rapaz.

Ele decidiu dar uma festa para comemorar o fato de ter encontrado sua família e também para se apresentar para a alta sociedade paulistana como novo milionário. Seria uma grande festa. E resolveu convidar Amora, só para provocá-la. Mostraria a ela que ele havia de fato vencido, que estava por cima, iria ficar rico e se ela pretendia mesmo viver na Casa Verde com Bento, problema dela. Fabinho tinha certeza de que em pouco tempo Amora iria estar de saco cheio do jardineiro e da vida simples. Mas aí já seria tarde demais. Ela veria que perdeu o melhor partido da cidade. Ele estava em outra agora. Amora ainda iria se arrepender amargamente de tê-lo rejeitado. Ele decidiu que faria uma visitinha de cortesia a ela naquela mesma noite. Fingiria que voltou a ser amiguinho dela e a convidaria para a festa. Convidaria Bento também. Queria matar aquele otário de inveja. Fabinho desejava mostrar para seu rival que era um vencedor.

— Pera, peraí, peraí, depois a gente se fala. — disse Plínio, desligando o celular. — Fabinho, me explica uma coisa: o que foi que você e a Amora conversaram...

O celular de Fabinho tocou.

— Um minutinho, querido. — disse Fabinho, e atendeu ao celular. — Oi, Melzinha! Deixei recado, sim. Exatamente, vamos fazer essa festa aí, hein? Tem que comemorar meu aniversário em grande estilo.

Para Fabinho, o aniversário dele passaria a ser no dia em que descobriu a família.

— Aniversário? — estranhou Plínio. Sabia perfeitamente que o aniversário de Fabinho já havia passado. Fabinho levantou a mão, pedindo calma.

— Não, fica tranquila. — disse Fabinho, ao celular. — Pode gastar o que quiser, sem miséria. É. Não, quero que chame aquela galera de... Que aparece em coluna social. Quantos convidados você quiser. Tá bom, tá bom...

— Eeeei! — disse Plínio, tomando o celular do rapaz. — Que isso, que história é essa? Vai dar uma festa dessa proporção por que?

— Pra... Pra comemorar que eu descobri minha família, só isso. — disse Fabinho, coçando a cabeça.

— E você vai comemorar isso junto com um bando de subcelebridades que você nem conhece? E vai dizer que é seu aniversário, ainda por cima? — disse Plínio.

Para Plínio era evidente que o rapaz só queria aparecer, ser apresentado à alta sociedade paulistana como novo milionário, e não comemorar o encontro com a família. Do contrário, ele teria feito uma festa íntima, só para familiares e amigos e não chamaria subcelebridades, nem a mídia. Para Plínio, só faria sentido comemorar com pessoas próximas.

— Plínio, fica tranquilo, a festa não vai ser aqui, você não precisa ir. Não vou te convidar pra uma festa de um filho que você não queria nem que tivesse nascido. Por favor, o celular. — disse Fabinho, tomando o celular da mão do pai.

— Fabinho, espera... — disse Plínio.

Fabinho nem deu ouvidos. Foi direto para a porta de saída, falando ao celular.

— Mel! Desligou agora. — disse o rapaz, abrindo a porta e saindo.

Foi direto para a mansão de Bárbara. Tocou a campainha e Tina atendeu.

— O quê que você quer, garoto? — perguntou Tina, mal-humorada. Com certeza, era por causa da hora. Já estava muito tarde.

— Eu vim fazer uma visitinha pra Amora. — disse Fabinho.

Fabinho subiu para o quarto de Amora, e ouviu parte do que ela estava dizendo:

— Só quero viver em paz, ter a consciência tranquila e parar de brigar por... Bobagem.

— É isso que eu quero também. — disse Fabinho, entrando no quarto. Amora estava deitada em sua cama, e Irene estava de pé.

— Filho! — surpreendeu-se Irene. — O quê que você está fazendo aqui?

Irene estava hospedada na mansão. Mesmo porque Irene não tinha aonde ficar. Irene não podia ficar no apartamento de Plínio porque, até pouco tempo atrás, ela e Plínio estavam brigados. Então Malu havia oferecido hospedagem a Irene. Ultimamente, Irene e Plínio estavam se entendendo. Plínio estava tratando-a de um jeito diferente. Não estava mais com raiva, nem mágoa dela. No entanto, por enquanto, Irene continuava na mansão. Ela e Plínio ainda não haviam reatado, não estavam juntos.

Irene achou estranho o filho aparecer assim, para visitar Amora, depois da briga feia que haviam tido. Depois de Amora aparentemente ter perturbado o rapaz. Irene até perguntou a Amora o que ela havia feito para deixar Fabinho tão abalado. Amora disse que foi fazer as pazes com Fabinho.

Mas Irene ainda não conseguia confiar na Amora, e achava estranha aquela mudança súbita. Amora não a convencia no papel de boazinha. Já ouviu Amora falar que iria acabar com Fabinho. Quando ela questionou Amora, a patricinha tratou de desconversar. Irene não simpatizava com Amora desde quando a conheceu. Foi bater os olhos nela para perceber que ela não valia grande coisa. Irene achava Amora dissimulada. Não que achasse Fabinho um santo, mas na opinião de Irene, foi o abandono dela que fez dele um jovem problemático, infeliz e revoltado.

Irene sentia-se confusa. Amou Fabinho à distância durante anos, quando ele era criança. Ela vinha sempre vê-lo brincar com outras crianças do lar do Gilson. Passou mais de vinte anos usando uma medalha com a foto dele, recém-nascido. Rezava por ele todas as noites, beijava a foto. Foi um choque para ela descobrir que aquela criança por quem ela tinha tanto carinho e afeto havia se transformado em um monstro sem caráter, capaz de ser cruel e sem escrúpulos, passar por cima dela para obter o que desejava, entregá-la para Sueli Pedrosa, e de maltratar a mãe adotiva, deixá-la pagar por um crime que ele cometeu. Para Irene era difícil de entender e de aceitar que o filho dela não tinha boa índole.

Irene queria continuar amando Fabinho, mas não tinha mais certeza do que sentia, depois de tudo o que descobriu. Ela amou aquele garotinho. Só que aquele menininho não existia mais. Ela pensava agora que talvez tivesse idealizado o filho. Seria ela capaz de amar a pessoa que ele se tornou? Uma pessoa má e dissimulada? Será que o que ela sentia não passava de uma ilusão, gerada pela culpa, como Plínio dissera?

Irene havia se dado conta de que não conhecia Fabinho. Ela não sabia nada sobre ele: o tipo de música que ele gostava de ouvir, o tipo de filme que ele gostava de assistir, o prato predileto, nada. Ela não sabia até que ponto podia amar uma pessoa que não conhecia. Ao mesmo tempo, como não amar alguém que nasceu dela? Como não amar um filho que foi concebido com tanto amor, no momento mais feliz de sua vida? Ela era feliz, antes de Bárbara armar para separá-la de Plínio. Se Margot era capaz de amar Fabinho do jeito que ele era, mesmo sendo ele um mau-caráter, por que ela, Irene, não seria tão generosa? Se tratava do filho dela. Irene acreditava que Margot não amaria Fabinho com tanta devoção se ele fosse tão ruim. E Irene se consumia de culpa por ter abandonado Fabinho, não ter se sentido bem quando ele nasceu, não ter criado ele, não ter amamentado, não ter educado nem dado amor a ele. Mas não teve um só dia nas últimas duas décadas que não tenha pensado nele.

Porém, apesar de tudo o que o rapaz fez, Irene não tinha raiva dele. Estava longe de desprezar o garoto. Até porque se Fabinho se tornou um canalha, a culpa era dela. No ponto de vista de Irene, Fabinho era um garoto imaturo, revoltado, inconsequente. Talvez ele não tivesse noção do mal que fazia e não fosse de todo ruim.

Ela queria tanto ajudá-lo, se aproximar dele. Até foi ao apartamento de Plínio, quando Plínio ainda estava zangado com ela e não queria vê-la nem pintada de ouro. Mas o problema era que ela não se sentia bem perto de Fabinho. Ao olhar para ele, tudo o que conseguia sentir era tristeza e culpa pela pessoa infeliz que ele era. Além do mais, Fabinho não era uma pessoa fácil de se conviver. Irene não sentia prazer em estar com Fabinho. E se sentia ainda mais culpada, pois uma mãe devia gostar da companhia do filho.

Irene não foi visitá-lo mais vezes porque, além de não se sentir bem na presença dele, Fabinho não parava em casa, saía sem dizer aonde ia ou quando voltava. Além disso, era evidente que Fabinho só estava interessado no dinheiro do pai. Se Fabinho realmente gostasse dela, ou se ele tivesse um mínimo de interesse por ela, teria tentado se aproximar, teria ido visitá-la, ligado para ela. Mas Fabinho parecia não querer saber dela. Parecia não sentir nada nem por ela, nem por Plínio. No ponto de vista de Irene, seria natural se Fabinho tivesse mágoa e raiva por ter sido abandonado. Era disso que ela tinha medo, que Fabinho tivesse ódio dela. Mas se Fabinho tivesse alguma mágoa, não teria ido atrás do Plínio, nem dela. Não iria querer saber deles. Ou, no mínimo, teria acusado os pais de tê-lo abandonado, teria cobrado, mas não. Fabinho não tinha mágoa, raiva, nem afeto por ela e Plínio, pois só pensava na herança.

Porém, de uma coisa Irene tinha certeza: Amora não era boazinha. Amora não tinha compaixão nem empatia por ninguém, só pensando em si mesma. Irene lembrava muito bem daquele dia em que Amora apareceu com Maurício no apartamento de Plínio. Amora fez questão de dizer que Irene e Plínio haviam botado um monstro no mundo, e ainda disse que queria que Fabinho morresse. Irene não esperava que Amora tivesse pena de Fabinho, depois de ele tê-la prejudicado. Mas Amora podia ter ficado quieta, guardado para si o que pensava. No entanto, Amora não se importou em dizer barbaridades na frente dela e de Margot, e Irene não gostou nada disso. Amora não se importou em ferir os sentimentos dela e de Margot. Malu, mesmo não simpatizando com Fabinho, tinha mais humanidade, se preocupava com os sentimentos dos outros, tanto que repreendeu Amora por dizer aqueles absurdos.

No ponto de vista de Irene, Amora não havia desmascarado Fabinho por justiça ou amor à verdade. Amora odiava Fabinho, porque Fabinho arruinou a imagem de mocinha perfeita que Amora construiu para si, e em consequência disso, Amora perdeu todos os trabalhos, todos os eventos e campanhas publicitárias. O interesse dela era se vingar e limpar sua imagem. Amora só pensava nos próprios interesses, e vivia em função da imagem e da fama. Irene tinha a sensação de que ela seria capaz de tudo pela fama e pelo dinheiro, e era evidente que Amora não estava satisfeita, ela iria tramar algo contra Fabinho. Irene via em Amora os mesmos traços de falsidade e oportunismo que via em Bárbara.

Na opinião de Irene, Amora era esnobe, fútil, superficial, arrogante, prepotente, destratava todo mundo. E oque era ainda pior, Amora passava por cima das pessoas para conseguir o que queria. Colecionava vítimas pelo caminho sem o menor remorso. Era inescrupulosa, igualzinha à Bárbara Ellen. Bárbara fez de Amora sua discípula. Na visão de Irene, Amora se achava melhor que Fabinho, mas não era, porque usava das mesmas armas que ele. Irene tinha mais simpatia por Fabinho porque era seu filho, e se sentia culpada por ele ser do jeito que era. Mas não conseguia sim-patizar com Amora, pois Amora estava muito interessada em acabar com Fabinho. Sem falar que ela era bem filha da Bárbara. Irene não estava conseguindo engolir a Amora meiga, gentil, que de uma hora para outra resolveu fazer as pazes com Fabinho e ficar amiga dele.

— Eu fiquei sabendo do acidente da Amora e fiquei preocupado. — disse Fabinho. — E agora a gente voltou a ser amigo, né? Quis fazer uma visita. — cruzou os braços. — Mas que coisa esse teu acidente, né, Amora?

— Pois é. — disse Amora, sentando-se na cama. — Sinto algumas dores, mas foi só um susto.

Amora também estava surpresa com a visita de Fabinho. Ele não havia caído na conversa dela, até ficou com ódio, surtou completamente. Amora não entendia o que Fabinho veio fazer ali. Ele só podia estar aprontando alguma.

Irene não estava entendendo o comportamento do rapaz.

— Filho, o seu pai disse que você ficou transtornado depois da visita da Amora, que história agora de vocês serem amigos? — perguntou Irene.

— É, eu fui ríspido com Amora quando ela foi me pedir perdão. — disse Fabinho. Dirigiu-se à Amora. — Aliás, esse é outro motivo para eu estar aqui. Eu quero pedir desculpas e dizer que eu quero muito ser seu amigo. E quero te convidar pra minha festa também. — colocou a mão sobre as pernas dela.

— Que festa? — perguntou Amora.

— Eu vou dar uma festa pra comemorar o meu encontro com meus pais. A Mel tá organizando pra mim. — disse Fabinho. — Vai ser uma festa de parar a cidade, gente rica, gente famosa, gente bonita. Tudo o que você gosta. Quer dizer, gostava, né, porque agora você não liga mais pra isso. — fez um carinho na perna dela.

— Meu filho, você vai dar uma festa pra um bando de gente que você não conhece? Qual o sentido disso? — perguntou Irene.

O que Fabinho queria era mostrar para o mundo, sobretudo para aquela gentinha da Casa Verde, que nunca gostou dele, que ele venceu.

Aquele povo iria aprender a respeitá-lo. Ele não seria mais o Fraldinha, o garoto problemático, a ovelha negra do lar de adoção, a chacota da rua.

— Ué, o motivo é mostrar pro mundo todo como eu tô feliz. — disse Fabinho. — E ser apresentado também pra mais alta sociedade paulistana. — Dirigiu-se à Amora. — Olha, você e o Bento são meus convidados VIPS. São meus amigos de infância, é o casal mais bonito que eu conheço. — fez um carinho na perna dela. — Legal, né, Amora? Os três tão bem, tão felizes.

Ele percebeu que Amora não parecia nada animada.

— O quê que foi, falei alguma coisa de errado? — perguntou Fabinho.

— É que... Eu e o Bento, nós não estamos mais juntos. — disse Amora. — Ele... Ele tá com a Malu.

Fabinho surpreendeu-se. Ele achou bem feito. Naquele mesmo dia, Amora apareceu no apartamento de Plínio para provocá-lo, dizendo que iria ficar com Bento para sempre, e quem acabou ficando com Bento foi Malu.

— Desculpa, querida, eu não entendi, você pode repetir, por favor? — pediu Fabinho, sentando-se na cama.

— O Bento tá namorando a Malu, Fabinho. — disse Irene.

— Sério? — perguntou Fabinho. Dirigiu-se à Amora. — Caramba, Amora, que doideira, né? Você tava tão bem, achando que ia casar com Bento, que ia ser feliz pra sempre, meu Deus... O que o destino faz com a gente, né? Acidentada ainda por cima, tadinha! Olha, tô com você, tá? — beijou a mão dela.

— Pois é. — disse Amora. — Muito obrigada pela amizade, pela visita, agora vocês podem me dar uma licença? Eu preciso descansar, tô com muita dor de cabeça.

— Claro, claro, vamos filho, vamos. — disse Irene.

— Logo. — disse Fabinho, e dirigiu-se à Amora. Debruçou-se sobre ela. — Olha Amorinha, vou te ligar para saber como é que você tá. Tá bom?

Amora deu uns tapinhas na mão dele, com cara de poucos amigos. Ela sabia que Fabinho estava fingindo. Ele veio provocá-la. Ela pensou que se ele pensava que tinha vencido, que estava por cima, iria quebrar a cara.

— E não vai fugir de mim, vou ser o amigo mais grudento que você já teve. — disse Fabinho, dando um beijo no rosto de Amora. — Coisa linda.

Fabinho colocou a mão no ombro da mãe e foi saindo do quarto com ela.

— Tadinha. Vamos. — disse Fabinho, e ainda deu uma última olhada para Amora. — Se cuida.

Irene e Fabinho desceram as escadas, que levavam ao andar de baixo.

— Então Amora foi mesmo se entender com você, meu filho? — perguntou Irene. — Você acreditou na sinceridade dela?

— A princípio não, mas depois decidi dar uma chance. — disse Fabinho. — Porque eu não quero mais ficar defendido, desconfiado. Quero acreditar nas pessoas, quero ser feliz com todo mundo.

Malu e Madá entraram na sala neste momento.

— Minha irmãzinha querida, tudo bem? — disse Fabinho, abraçando Malu. — Tô sabendo que tá com Bento, hein? Parabéns, legal.

Na verdade, Fabinho jamais iria torcer pela felicidade do novo casal, até porque não engolia Bento. Se dependesse dele, Malu nem olharia na cara do Bento. Por ele, Malu não teria nem amizade com Bento, quanto mais namoro. Fabinho se ressentia, porque Malu adorou Bento desde quando o conheceu, e ficou logo amiguinha do jardineiro. Malu tinha por Bento um carinho e uma admiração que nunca teve por ele. Malu nunca simpatizou com ele. O fato de ele ser irmão dela não fazia a menor diferença para Malu, porque os sentimentos dela não mudaram em nada. Fabinho queria o amor de uma irmã que nunca teve, e só teve desprezo. Para Fabinho, era incrível como Bento era aceito facilmente, e ele não. Bento conseguia facilmente uma felicidade que parecia inalcançável para ele. Isso impedia Fabinho de torcer por Bento.

Malu não achava que Fabinho estava sendo sincero ao dar os parabéns. Fabinho nunca gostou do Bento. Sempre se incomodou com a amizade entre ela e Bento. Até fez intriga, tentou afastá-la do Bento. Mas Malu não estava nem aí para Fabinho. Ela estava feliz demais, e nada nem ninguém iria acabar com sua felicidade. Amora até tentou separá-los. Malu tinha quase certeza de que Amora forjou o acidente para fazer com que ela e Bento se sentissem mal por estarem juntos, e para estragar a noite deles.

Bento a havia convidado para passar a noite na casa dele, e Amora apareceu por lá. Estragou o encontro. Amora fez a maior cena, um dramalhão de novela mexicana, chamou Bento de volúvel por esquecê-la tão depressa e acusou Malu de destruí-la, de ter conseguido roubar o que ela tinha de mais precioso. Amora foi embora e logo Socorro apareceu, pedindo para Bento e Malu irem atrás da Amora, pois ela ia fazer besteira. Amora se atirou na frente do táxi.

Malu não se sentiu nem um pouco culpada, afinal, ela e Bento não estavam fazendo nada de errado. Malu achou estranho Amora ir para a Casa Verde sem o Evandro ou sem dirigir o próprio carro. E Amora nem saiu tão machucada do acidente. Logo teve alta. Era horrível pensar assim, mas para Malu parecia uma armação da Amora, para comover o Bento e ainda estragar o encontro. Além de fazer com que Malu e Bento se sentissem culpados e se separassem. Malu foi com Bento até o hospital para ver Amora. Malu jurava que Amora iria fazer uma chantagem emocional para Bento voltar para ela. Mas ao contrário do que Malu e Bento esperavam, Amora desejou felicidade a eles. Malu ainda não conseguia engolir a Amora boazinha. Mas achava que cedo ou tarde Amora iria acabar aceitando o namoro deles, por não haver outra saída. Bento garantiu que nada nem ninguém abalaria o namoro deles. Nem mesmo a Amora. Amora logo iria se tocar de que não adiantaria armar para separá-los. Até porque ela havia tentado e não conseguido. Só serviu para uni-los ainda mais.

Mas Malu ainda não havia entendido o que Fabinho veio fazer ali.

— O que você tá fazendo aqui a essa hora? — perguntou Malu.

— Eu vim visitar Amora. — disse Fabinho. — Tadinha, aconteceu tudo ao mesmo tempo, né? O acidente, você namorando com a pessoa que ela mais ama. Mas tudo bem, ela é nossa “it” fênix, né? — riu.

Para Malu, Fabinho não ficou com pena da Amora. Era tudo fingimento. Amora foi provocá-lo na casa do Plínio, agora ele veio provocá-la.

— Olha, gente, tô indo embora, depois eu mando convite da minha festa pra vocês, hein? — disse Fabinho, e levantou os polegares das mãos.

— Ah, pra mim também? — perguntou Tina.

— Claro, quero todo mundo na minha festa. — disse Fabinho.

— Ótimo. — disse Tina.

Fabinho foi dar um abraço em Irene.

— Tchau, meu filho. — disse Irene.

O rapaz deu um beijo no rosto dela.

— Tchau, mãe.

— Se cuida, tá? — disse Irene.

— Tá bom. Tchau, tchau. — disse Fabinho, indo em direção à saída. — Tchau!

— Tchau! — disse Malu. Ela achou esquisito Fabinho ter aparecido tão tarde da noite para visitar Amora. Para ela, era muito estranho Fabinho ter virado amigo da Amora de uma hora para a outra. Só podia ser fingimento.

Assim que Fabinho foi embora, Malu aproximou-se de Irene.

— Irene, que festa é essa? — perguntou Malu.

— Ah... Ele... Ele quer dar uma festa pra comemorar o reencontro com a família. — disse Irene.

Para Malu e Madá, estava na cara que o que Fabinho queria era mostrar para o mundo que ficou milionário, e não comemorar o reencontro com a família. E ele não estava nem aí para Amora, estava era fingindo estar preocupado com ela. Na opinião de Madá e Malu, Fabinho era um falso.

— É, é... E tudo às custas do Plínio, né? — disse Madá. — Esse aí consegue ser mais falso que a Amora. É, é impressionante! Aliás, perfeita a amizade dos dois.

Irene não gostava de ouvir Madá falar de Fabinho desta maneira. Para ela não era nada fácil ouvir as pessoas falarem mal de Fabinho, chamá-lo de mau-caráter e canalha o tempo todo. Afinal, se tratava do filho dela.

— Ai, coitado, dona Madá. — disse Tina, que estava ao lado de Madá. — Coitada da Amora. Ela quase morreu.

— Ai, Tina, você podia ser um pouquinho menos sonsa. — disse Madá, impaciente. — Porque você tá se lixando pra Amora! Você sabe a boa bisca que ela é, tanto quanto a gente!