Um amor improvável

63 Atentado contra Giane


Um pouco mais tarde, Giane foi à casa de Fabinho. Ela viu Amora sair da casa dele e quis saber o que Amora queria com ele. Ele contou que Amora veio pedir perdão para ele. Pela expressão do rosto de Giane, era óbvio que ela achava que Amora havia tentado seduzi-lo. Giane não conseguia ter nenhuma confiança em Amora. Não acreditava no arrependimento dela. Certamente, Giane achava que Amora só podia estar querendo se aproximar dele de olho no dinheiro. Afinal, Amora estava na pior, não conseguia emprego e as economias dela não iriam durar para sempre.

— Você não caiu nessa da Amora te pedir perdão não, né? — disse Giane.

Fabinho resolveu fazer ciúmes em Giane.

— Você acha que eu resisti? — disse Fabinho, sorrindo. — Você sabe qual foi a última pergunta que ela me fez? Se na época que eu pedi ela em casamento tinha sido por amor.

— Tá adorando, né? — disse Giane, enciumada. — Tá adorando o assédio dessazinha aí. — virou-se e afastou-se dele. — Se na época ela... Ela tivesse topado, você teria casado?

Ele estava era adorando ver que Giane morria de ciúmes dele. Fabinho pensou em como o mundo dava voltas. Até poucos meses atrás, Giane o detestava. Ela era louca pelo Bento e certamente achava que ele, Fabinho, faria um favor a ela se casasse com Amora.

— Ué, você não era louca pelo Bento? — disse Fabinho, aproximando-se. — Você não vivia sonhando com ele? Então, eu sonhava com a Amora.

Ele até sonhava com Amora, mas não do jeito que Giane pensava. Amora para ele não era uma mulher, e sim um símbolo de riqueza e status. Havia sim uma mulher que mexia com ele, que o atraía, e não era Amora.

— Você ainda gosta dela? — perguntou Giane, com ciúmes.

— Tanto quanto você gosta do Bento. — disse Fabinho. Nunca gostou de Amora, mas deixava Giane pensar que sim, que já gostou, só para fazer ciúmes nela.

Giane deu um tapa em Fabinho, que riu. A garota correu para a calçada. Fabinho resolveu ir atrás dela. O que será que ela iria fazer?

— Giane! Giane! — Fabinho chamou, porém, Giane não deu ouvidos. — Onde ela vai, hein? — perguntou para Odila, que varria a calçada.

Odila não sabia muito bem. Giane não disse aonde iria, nem o que faria. Só perguntou qual era o ponto onde Bento foi levar Amora. Na certa, foi pegar ônibus.

— Não sei, mas deixa ela ir, vai. Tá de cabeça quente. — disse Odila.

— Ela vive de cabeça quente. Garota esquentada. — disse Fabinho.

— Hum. O roto falando do esfarrapado. É ruim, hein? — disse Odila, continuando a varrer a calçada.

Mais tarde, na hora do almoço, Fabinho ficou sabendo que Giane havia dado a maior surra na Amora, em um ponto de ônibus da Zona Norte. Um cinegrafista amador filmou a briga e enviou o vídeo para Sueli Pedrosa. Fabinho não entendia por que Giane havia feito aquilo. Foi para a casa de Giane.

— Giane, por que você fez isso? Você tá louca? — perguntou Fabinho.

No ponto de vista de Fabinho, Giane não precisava ter batido na Amora. Giane estava cansada de saber que era dela que ele gostava, e que ele jamais a trocaria por nenhuma mulher na face da terra, muito menos por Amora. Há alguns meses atrás, ele era obcecado pela Amora, até a pediu em casamento. Mas isso ficou no passado. Na época, Amora ainda não tinha armado para cima dele, e ele não imaginava que ela pudesse tão maquiavélica. Mas agora ele não queria mais nada com Amora, não depois de tudo o que ela fez. Além do mais, era Giane que ele amava. E Giane agora era uma pessoa pública, tinha uma imagem a zelar. Não era legal o país todo ficar vendo Giane ameaçar e agredir outra mulher. As pessoas iriam achar que Giane era uma pessoa agressiva, violenta. Fabinho não queria que Giane se queimasse no mercado por causa da Amora. Uma coisa era Giane contar todos os podres da Amora, outra coisa era agredi-la. Ele esperava que a mídia não a massacrasse por isso.

— Tá com pena? — disse Giane, com ciúmes. Levantou um ombro. — Leva a cocotinha pra casa.

— Giane, você fez isso por ciúmes? — perguntou Fabinho.

— Bati mesmo pra ela não tentar pegar de novo o que é meu. — disse Giane.

Fabinho não gostou. Será que ela estava falando do Bento?

— Como assim de novo? Tá falando do Zé Florzinha, teu primeiro grande amor? Palhaçada! — disse Fabinho, enciumado, e tratou de ir embora.

— Que isso? Ô Fabinho! — disse Giane, indo atrás dele. — Para com isso.

Ao saírem na rua, encontraram Bento, que estava saindo da casa de Gilson.

— Ó o seu príncipe encantado aí. — disse Fabinho, irônico. — Aproveita e se declara pra ele.

Giane bateu nele com o braço.

— Larga de ser idiota, Fabinho. — disse Giane.

— Giane, você quer me dizer por que você bateu na Amora? — perguntou Bento, aproximando-se.

— Pra ela aprender a não dar em cima do namorado dos outros. — disse Giane.

Fabinho sorriu. Mais uma vez, ficou contente ao ver que ela tinha ciúmes dele. Só não imaginava que ela chegaria ao ponto de dar uma surra na Amora. Giane devia gostar muito dele, para se dar ao trabalho de ir até aquele ponto de ônibus, que era um pouco longe, só para bater na Amora e ameaçá-la.

No ponto de vista de Bento, Amora não teria nem cabeça para dar em cima de alguém. Amora tinha acabado de perder a irmã, tinha os sobrinhos para cuidar. A maior preocupação dela eram as crianças. Na última vez em que ele falou com Amora, ela disse estar sofrendo por ainda gostar dele, e que decidiu se afastar, dar um tempo, porque ele insistia em tratá-la como amiga. Amora aprontou muito, armou horrores, mas Bento tinha certeza absoluta de que Amora gostava dele. De um jeito errado, torto, mas gostava. A última coisa que Amora pensaria era em tomar o namorado de Giane. Amora foi na casa de Fabinho pedir desculpas, e aproveitou para pegar o celular dele, pois suspeitava que ele podia estar mandando aquelas mensagens ameaçadoras. Amora andava uma pilha de nervos por causa das mensagens que recebia. De qualquer maneira, Giane não precisava ter batido na Amora. Bento duvidava que Amora tivesse dado em cima de Fabinho. E mesmo que Amora realmente tivesse se insinuado para o Fabinho, não adiantaria nada. Era de Giane que Fabinho gostava.

— Pelo amor de Deus, ela acabou de enterrar a irmã! — disse Bento.

— Sabe o que você tá merecendo? — perguntou Fabinho para Giane.

— Hum. — disse Giane.

— Um beijinho. Um beijinho, que você é muito ciumentinha. — disse Fabinho, e beijou-a nos lábios. Dirigiu-se a Bento. — Ciumenta ela.

— Ciumenta é a mãe! — disse Giane, dando socos no ombro dele.

Na opinião de Fabinho, Giane era um poço de ciúmes. Quando ela era apaixonada pelo Bento, morria de ciúmes da sombra de toda mulher que se aproximava dele. Bateu na Mel por ciúmes. E deu uma surra na Amora.

Bento tirou um celular do bolso e entregou para Fabinho.

— Bom, a Amora mandou entregar isso aqui pra você. — disse Bento.

— Meu celular? O que meu celular tava fazendo com a Amora? — perguntou Fabinho. Achou estranho Amora ter levado seu celular. Havia dado por falta dele ao chegar na Crash Mídia, mas achava que o celular estava em casa. Achava que havia esquecido o celular.

— Ela tá recebendo umas mensagens anônimas de ameaça e resolveu checar se era você. — disse Bento.

No pondo de vista de Fabinho, Amora já deveria ter sacado que ele estava em outra e não teria por que ficar perseguindo-a. Se alguém andou ameaçando-a, só podia ser outra pessoa. Se tinha uma coisa que Amora colecionava era inimigos. O que não faltava era gente querendo prejudicá-la. Embora ele continuasse achando que podia ter sido mesmo a Amora quem sabotou o bufê e empurrou a Malu da escada. Ela só podia estar mentindo, inventando que estava recebendo mensagens, para se safar. E agora ela resolveu inventar que ele poderia estar tocando o terror nela.

Lara Keller se aproximou e ouviu parte da conversa.

— Gente, que bafo! Então, a Amora tá sendo ameaçada, é isso?

— Bom, Giane, você não tinha nada que ter agredido a Amora, tá? — disse Bento, retirando-se.

— Sério? Giane, eu já te falei que eu sou sua fã? — perguntou Lara.

— Fica na sua, que senão você é a próxima. — disse Giane.

Fabinho riu.

— Vambora, Fabinho. — disse Giane.

Um pouco mais tarde, Amora ligou para Giane. Estava furiosa, porque alguém havia filmado a briga e mandado o vídeo para Sueli Pedrosa. Agora, o país inteiro estava achando que ela tentou dar o golpe no Fabinho. As pessoas já tinham raiva dela, agora iriam ficar com mais ódio. Depois disso, seria muito difícil ela conseguir se reerguer, conseguir algum emprego. No ponto de vista de Amora, Giane só podia ter armado para cima dela.

— Giane, qual que é a sua, hein? Você deu agora pra armar pra cima dos outros? Tá na cara que você chamou alguém pra gravar a gente enquanto você me batia. Você não tem compaixão? Eu acabei de enterrar minha irmã. Quer saber? Eu não vou te perdoar por isso. Você vai me pagar e vai ser muito caro.

— Você tá me ameaçando, é, Amora? — disse Giane.

— Não, dá aqui, dá aqui, dá aqui. Deixa eu falar com ela. — disse Fabinho, aproximando-se. Ele havia ouvido Giane falar ao celular com Amora.

Fabinho pegou o celular. Não gostou de saber que Amora ameaçou Giane.

— O que você tá falando, Amora? Amora! Desligou. Ela tá pensando que vai ficar assim? Não vai ficar assim não. — disse Fabinho, indignado, tentando ligar para Amora. Ela iria ter de ouvi-lo.

— Fabinho, deixa quieto. — disse Giane. — Deixa quieto. Peguei pesado mesmo. Não devia ter feito isso. Amora acabou de perder a irmã.

— Calma aí. Se ela estivesse tão mal assim, ela não tinha vindo aqui me procurar. — disse Fabinho.

— Quer dizer que ela veio mesmo dar em cima de você? — perguntou Giane.

— Sutilmente. Depois a gente conversa sobre isso, tá? Vou pra agência. — disse Fabinho, e deu um beijo nos lábios dela. — Fica bem.

Fabinho foi trabalhar na Crash Mídia. Até foi ao desfile com Sílvia para ver Giane desfilar. Ela iria desfilar usando roupas de um cliente da Crash Mídia, junto com outras modelos da agência Karmita.

Mais tarde, Giane foi à casa de Fabinho. Namoraram um pouco, fizeram amor. Giane tomou banho e se arrumou para ir ao aniversário de Nestor. A festa seria realizada no Cantaí. Porém, Fabinho ainda não estava pronto. Tinha acabado de sair do banho e ainda estava enrolado na toalha. Fabinho estava preocupado, pois ela havia sido ameaçada por Amora. Morria de medo de que Amora fizesse alguma maldade com ela.

— Não, a Amora não foi atrás de mim no desfile pra me esquartejar. Relaxa. — disse Giane. — Agora, anda. Para de enrolar pra gente ir pro aniversário do Nestor.

— É, engraçadinha, você se prepara porque ela vai querer te dar o troco. Você sabe, né? — disse Fabinho. — Ainda mais agora com seu vídeo dando uma surra nela bombando na internet.

A princípio, Fabinho ficou preocupado, pois não queria que Giane fosse prejudicada, se queimasse no mercado por causa da Amora. Mas Giane ficou com imagem de justiceira e Amora saiu como golpista. Além do mais, Fabinho adorou ver que Giane tinha ciúmes dele.

— Ah... — disse Giane, e Fabinho beijou-a.

— Eu não sabia que você me amava tanto. — disse Fabinho, pegando nos cabelos dela.

— Hum. Quem disse que eu te amo? Tá se achando, hein!

— Eu não tô me achando não. Eu vi ali o vídeo, você morrendo de medo de me perder. — disse Fabinho.

Giane achou que Fabinho era mesmo um convencido. Mas ele estava coberto de razão. Ela ficou morrendo de medo de perdê-lo. Afinal, Amora armou um monte para tirar Bento de Malu, até fez os dois pensarem que eram irmãos. O que Amora não seria capaz de fazer para tomar Fabinho dela, Giane? Amora já havia mostrado ser capaz de qualquer coisa para se dar bem. Se bem que Fabinho não era otário como o Bento, e era esperto. Mas Amora era ainda mais inteligente do que ele. Ele já se ferrou por cair nas armações dela. Ela, Giane, teve medo sim, e ficou morrendo de ciúmes, mas ela é que não iria dar o braço a torcer:

— Ah, que te perder? Tô nem aí pra você, seu babaca. — disse Giane, brincando, mexendo no cabelo.

— “Tô nem aí pra você!” — disse Fabinho, mexendo no cabelo, imitando-a. — Eu vou te ensinar modos, que você tá muito rebelde.

Agarrou-a e beijou-a. Estavam se beijando, quando ouviram a notificação do celular. Giane interrompeu o beijo imediatamente.

— Peraí. — disse a garota, tirando o celular do bolso.

— O que foi? — perguntou Fabinho.

— Mensagem do Bento. — disse Giane, fuçando no seu celular.

Olhou a mensagem: “Fogo na Acácia! Traz a van! Corre!”.

— Acácia tá pegando fogo! — disse Giane, alarmada. — Meu Deus do Céu! — começou a correr. — Ele tá pedindo pra eu levar a van lá! Peraí!

Fabinho achou estranho Bento mandar mensagem em vez de ligar. Além do mais, o conteúdo da mensagem também era estranho.

— Mensagem estranha. Se ele tá na loja, por quê que a van não tá lá?

O celular tocou e Fabinho atendeu. Era Malu.

— Oi, Malu. Não, não. Eu não posso falar agora. Não, tá. Não posso falar com a Irene agora. Sei que ela tá grávida. Eu sei... Eu sei que ela tá sensível. Eu não posso falar agora.

Encerrou rapidamente a conversa com Malu, desligou o celular e foi se arrumar. Saiu de casa e foi atrás de Giane. Acabou encontrando Amora na rua. Ela estava saindo da casa do Bento.

— Amora! O que você tá fazendo aqui?

No ponto de vista de Fabinho, Amora só podia ter vindo para aprontar, fazer alguma maldade com Giane. Porém, Amora veio atrás de Bento. Recebeu uma mensagem do celular do Bento, pedindo para se encontrarem na casa dele. Porém, quando ela foi à casa dele, ele não estava.

— Sai fora, Fabinho. Meu assunto é com o Bento. — disse Amora.

— Não, com Bento coisa nenhuma. Você veio aprontar alguma pra cima da Giane que eu sei. Fala! — disse Fabinho. Afinal, Amora ameaçou Giane. Amora não iria deixar barato a surra que levou. Alguma ela veio aprontar.

— Não tô nem aí pra você e pra favelada! — disse Amora.

— Então o que você veio aprontar aqui? Fala! — disse Fabinho.

— Ei! — gritou Giane, ao ver Amora e Fabinho em frente à casa do Bento. Ela estava dentro da van, do lado da casa do Bento, a pouca distância de onde Fabinho e Amora estavam. E de onde estavam, só dava para ver a cabine da van. Só que não estavam olhando na direção dela.

Amora ficou com a impressão de ter ouvido um barulho, e gritos.

— Você ouviu esse barulho? — perguntou Amora.

— Alguém me ajuda! — gritava Giane, batendo no para-brisa da van. — Por favor!

— Fala o que você veio aprontar! — disse Fabinho para Amora.

— Giane! — gritou Socorro, saindo da casa de Odila. — Alguém ajuda, por favor!

— Socorro! — gritava Giane.

— Isso você ouviu? — perguntou Amora para Fabinho.

— O quê que foi? — perguntou Fabinho.

— A Giane tá presa na van! Parece que tá sufocando ali! — disse Socorro.

Fabinho e Amora correram em direção à van. Fabinho estava desesperado. A van estava cheia de fumaça e Giane estava sufocando lá dentro.

— Giane! Giane! Giane! — disse Fabinho, desesperado, batendo no para-brisa. — Meu amor! Giane! Giane!

— Gente, a Giane tá la dentro! Tira ela daí! Rápido! — gritou Amora, apavorada. Para ela era difícil acreditar no que estava acontecendo diante de seus olhos. Não parecia real. Parecia uma cena de filme de terror. O que estava havendo? Por que Giane não conseguia sair?

Fabinho saiu correndo. Amora foi tentar abrir a porta, sem sucesso.

— Ai, meu Deus! Tá travado isso aqui! Meu Deus! — gritou Amora. Fabinho pegou uma barra de ferro e correu em direção à van.

— Vai, vai, vai, vai, vai! Ai, meu Deus! Quebra! — gritou Amora.

Fabinho bateu com a barra de ferro no para-brisa.

— Ai, meu Deus! — gritou Socorro.

Fabinho bateu novamente com a barra de ferro no para-brisa. Não estava dando certo. Só conseguiu fazer com que o para-brisa trincasse.

— Não tá funcionando! — gritou Amora.

— Giane! Giane! Giane, vai lá pra trás! — disse Fabinho.

Giane foi para a parte de trás da van.

— Tá travado isso aqui, gente! — disse Amora, tentando abrir a porta lateral mais uma vez.

Fabinho correu até a parte de trás da van, bateu com a barra na maçaneta da porta traseira. Quebrou a maçaneta.

— Vai, Fabinho! Rápido! Ai, meu Deus! — disse Amora.

Fabinho abriu as portas e entrou na van. Pegou Giane no colo. Ela estava desmaiada.

— Giane tá aí? — disse Amora. — Vai rápido! Vem, vem, vem, vem! Vem aqui!

Fabinho começou a andar, carregando Giane no colo.

— Respira! — disse Fabinho, desesperado.

Amora, Socorro e Fabinho foram para a frente da van.

— Ela tá desmaiada? O que foi que aconteceu, gente? — perguntou Amora, nervosa. — Bota ela aqui, rápido!

Fabinho deitou Giane no chão, com a cabeça no colo de Amora.

— Respira, amor! Respira! — disse Fabinho.

— Tentaram acabar com ela! Você não tá vendo, não? — disse Socorro.

— Chama a ambulância! Eu vou desligar o carro! — disse Fabinho, le-vantando-se e entrando na van pela porta traseira.

Amora permaneceu ao lado de Giane. Giane continuava desmaiada.

— Ai, meu Deus, gente! Mas ela vai morrer? — disse Socorro.

Aproveitando um momento de distração de Amora, Socorro enfiou o celular do Bento na bolsa dela. O celular estava envolvido em um pano, para não deixar impressões digitais. Socorro havia passado na Acácia Amarela horas mais cedo, e pegou o celular do Bento sem que ele percebesse. Entregou ao misterioso sabotador, que depois lhe devolveu. Amora tinha realmente um inimigo oculto, do qual Socorro era cúmplice. E foi ele que sabotou a van. A admiração que Socorro tinha por Amora se transformou em ódio, depois de tantas humilhações sofridas. Socorro estava fazendo de tudo para destruir Amora, e abriu mão de qualquer escrúpulo, pois não se importou de colocar a vida de Giane em risco. No ponto de vista de Socorro, foi apenas um susto e ela não deixaria Giane morrer. Apenas teve de prejudicar Giane um pouco para dar porrada em quem merecia.

Fabinho já havia puxado os fios de painel e desligado o motor. Saiu da van e ficou do lado de Giane, esperando pela ambulância. Deu um beijo na testa dela. Giane acordou.

— O quê que aconteceu? — perguntou Giane.

— Nada, amor. Nada. Respira, respira. — disse Fabinho, preocupado e ao mesmo tempo aliviado, ao ver que ela havia acordado.

— Giane, o Fabinho teve que arrombar a van praticamente pra te tirar de dentro. — disse Socorro.

Giane tossiu.

— Tinha um gás no escapamento... — disse Giane.

O escapamento havia sido desviado para dentro da van.

— Tinha, tinha, tinha. — disse Fabinho, e deu um beijo na testa dela.

— Eu não consegui... — disse Giane.

— Não fala, não fala. Descansa, amor, descansa. — disse Fabinho.

Socorro resolveu que era a hora de dar o seu show.

— Gente, sabotaram a van. — disse Socorro. Dirigiu-se à Amora. — Foi você! Bem que eu te vi rondando hoje cedo. Dona Odila também te viu.

— Você tá louca? — perguntou Amora. Dirigiu-se a Fabinho. — Eu tava em casa, eu tava com a Irene. Você pode perguntar pra Irene!

Para Fabinho, Amora tinha culpa no cartório. Ela ameaçou Giane.

— Vou chamar a polícia. — disse Fabinho, pegando o celular.

Giane desmaiou novamente.

— Amor, amor! — disse Fabinho, tentando acordá-la.

— Foi você sim! Sua criminosa, sua assassina! — Socorro acusou Amora.

— Deixa de ser louca! Eu tava ajudando aqui. — disse Amora. — Por quê que eu faria isso?

— Você tá fazendo isso só pra pagar de boazinha pra ninguém desconfiar de você. Ai, Amora, você é tão óbvia. — disse Socorro.

— Óbvia é você! Fabinho, você não acredita que essa garota tá querendo me incriminar! — disse Amora.

No ponto de vista de Fabinho, não era a primeira vez que Amora posava de heroína. Ela havia feito a mesma coisa no caso do incêndio da Toca. Ela tacou fogo para pagar de boazinha, salvadora do Bento.

— Vou chamar a polícia. — disse Fabinho, digitando o número no celular.

— Não faz isso, Fabinho! Eu já tô respondendo processo. — disse Amora.

Ela estava respondendo a processo por ter mandado trocar os exames. Fabinho já havia ligado para a polícia.

— Oi, meu nome é Fábio Campana, tentaram matar minha namorada!

Não precisaria falar sobrenome nenhum, e continuava assinando Fábio Queiroz. Mas resolveu dizer que era um Campana, pois era um sobrenome famoso. Todo mundo sabia quem era Plínio Campana, e que ele tinha um filho. Fabinho acreditava que assim seria atendido com mais rapidez.

Amora, nervosa, colocou as mãos na cabeça. Socorro disse:

— Tá tensinha, é, Amora? Tá praticamente assumindo.

— Cala a boca, sua desgraçada! — disse Amora.

Para Amora era óbvio que Socorro era cúmplice do sabotador e estava querendo incriminá-la. Socorro estava mentindo. Odila não a viu, pois ela não esteve mais na Casa Verde desde de manhã, quando saiu da casa de Fabinho. Era impossível que alguém tivesse a visto rondando por ali. Na verdade, Amora foi para o seu apartamento. Levou os sobrinhos para a escola, depois havia ido para a mansão de Malu nos Jardins, pois quis ver o closet uma última vez, antes de ser transformado no quarto do bebê de Irene. Ela esteve com a Irene, e com Luz, Kevin e Dorothy. Agora percebia que havia caído em uma armadilha. Alguém mandou uma mensagem pelo celular do Bento, para ela ir até a casa dele. Bem que Amora achou estranho ao receber a mensagem. Bento não era de ficar enviando mensagem. Se ele quisesse falar com ela, teria ligado. Alguém sabotou a van e Socorro estava botando a culpa nela.

— Casa Verde. Tá. — disse Fabinho, ao celular. — Caiu.

Dirigiu-se à Amora:

— Você não vai pensar em fugir não, senão eu te busco no inferno! Capeta.

Fabinho começou a digitar no celular o número da polícia novamente. Giane tossiu.

— Eu não fiz nada. Eu não fiz nada... — disse Amora.

— Oi. Oi, eu já liguei. — disse Fabinho, ao celular. — Meu nome é Fábio Campana, tentaram matar minha namorada.

Depois de ligar para a polícia, Fabinho ligou para Silvério, que estava no Cantaí, ajudando a organizar tudo para a festa de Nestor.

— Alô? Oi, Fabinho. Como é que é? Eu tô indo praí.

Fabinho, Giane, Amora e Socorro continuavam no mesmo lugar. A polícia já havia chegado. Giane já estava de pé, e tossia bastante. Fabinho estava abraçado à Giane. Estavam contando aos policiais tudo o que havia acontecido.

— Não dava. Não dava pra abrir nada! Tava tudo... — disse Giane.

Ela mal conseguia falar, e tossia bastante.

— Foi sabotada, com certeza. Alguém desviou o gás do escapamento pra dentro do carro e trancou as portas. — disse Fabinho.

Os vizinhos foram chegando, todos ao mesmo tempo. Silvério chegou neste momento, preocupado, e aproximou-se da filha.

— Filha, o que aconteceu? Como é que você tá?

— Tentaram matar a Giane, seu Silvério. — disse Socorro.

— O quê? — disse Silvério, espantado.

Margot também ficou perplexa.

— Como assim tentaram matar a Giane? Que história é essa? — disse Bento, não conseguindo acreditar.

— O que você tá fazendo aqui, Bento? A loja não tá pegando fogo, né? — disse Fabinho.

— Acácia Amarela pegando fogo? Claro que não. — disse Bento.

— Bento, recebi uma mensagem sua pra... Pra levar a van lá na loja! — disse Giane, pegando o celular do bolso e fuçando à procura da mensagem.

— Mostra pra ele. — disse Fabinho.

Giane entregou o celular para Fabinho, que entregou para Bento. Bento olhou para a mensagem no celular da amiga.

— Gente, eu não escrevi isso. — disse Bento.

Amora já havia pegado seu celular para mostrar para Bento e para o policial a mensagem que havia recebido.

— Eu também recebi uma mensagem sua, Bento, tá aqui, ó. — disse Amora, mostrando a mensagem. — “Eu te espero na minha casa no início da noite”. Ó. Tá vendo? — entregou o celular para o policial.

— Eu não mandei essas mensagens. Peraí, gente. — disse Bento, apalpando os bolsos, à procura do celular. — Cadê meu telefone? Eu tô sem o meu telefone.

— Aonde você viu seu celular pela última vez? — perguntou um dos policiais.

Bento não conseguia se lembrar onde havia deixado o celular. Jurava que havia colocado o celular no bolso, mas os bolsos estavam vazios. Ele realmente era muito distraído.

— Eu me lembro de ter saído de casa com ele, depois eu não me lembro mais. — disse Bento.

— Aposto que foi a Amora que pegou, mostra a tua bolsa. — disse Socorro.

— Cala a boca, sua cretina! — disse Amora.

— Mostra a tua bolsa! — disse Socorro.

— O que é isso, gente? Que loucura! — disse Amora.

— Amora, deixa eu ver sua bolsa. — pediu Bento. Amora esteve com ele mais cedo. Ele a levou até o ponto de ônibus.

— Deixo. Pode ver. — disse Amora, estendendo a bolsa para ele. Afinal, não tinha nada a esconder. Bento procurou, e tirou seu celular de dentro da bolsa.

Todos ficaram perplexos. Bento ficou decepcionado.

— O que o meu celular tá fazendo aí? — perguntou Bento.

— Mas eu... Eu não peguei o seu celular, Bento. — disse Amora.

— Foi a Amora. Foi a Amora, óbvio. — disse Fabinho. — Ela mandou uma mensagem pra si mesma pra ter um álibi, depois mandou mensagem pra Giane, pra pegar a van.

— Pelos meus sobrinhos, não fui eu, juro. — disse Amora. Ela havia pegado apenas o celular de Fabinho, não o do Bento. E pediu para Bento devolver o celular para Fabinho.

— Vamos esclarecer isso na delegacia. — disse um dos policiais.

— Já falei, não fui eu que peguei o seu celular, Bento. — disse Amora. — Alguém deve ter colocado na minha bolsa pra me incriminar. Só pode ser isso.

— Ih Amora, ninguém aqui acredita mais nas suas mentiras, não. — disse Socorro.

Amora achou que Socorro parecia muito interessada em acusá-la, o que só confirmava suas suspeitas de que Socorro estava querendo incriminá-la.

— Por que você tá me acusando desse jeito? Por que você tá fazendo isso comigo? Socorro, foi você, né? — disse Amora, e apontou para Socorro. — Foi ela que colocou o celular do Bento na minha bolsa, não é? — deu um tapa no braço de Socorro. — Fala, Socorro!

— Não tenta inverter o jogo não, que eu te vi rondando hoje de tarde, hein? — disse Socorro.

— Que é isso? — disse Amora, perplexa.

— O senhor Bento estacionou a van que horas? — perguntou o policial.

— Era umas quatro da tarde, mais ou menos. — disse Bento.

— Onde é que você estava nesse momento? — perguntou o policial para Amora.

— Foi nessa hora que eu recebi a mensagem no meu celular. — disse Amora. — A Irene viu, eu mostrei a mensagem pra ela, depois eu peguei o metrô até Santana e de lá eu vinha andando pela Alfredo Pujol.

— Contra outra Amora, você nunca viria andando da Alfredo Pujol até aqui. — disse Socorro.

— Mas porque eu tinha tempo, só tinha que chegar aqui no início da noite. — disse Amora.

— Mas é uma bela caminhada. Por que você não pegou um ônibus? — perguntou o policial.

— O que está acontecendo, Bento? — perguntou Odila, que havia acabado de chegar.

— Sabotaram a van. Quase mataram a Giane asfixiada. — disse Bento.

— Eu perdi a minha irmã há pouco tempo. — disse Amora para o policial. — Eu precisava fazer uma caminhada. Minha cabeça tá muito cheia. Preciso espairecer e hoje é o dia do meu rodízio. Não daria tempo pra eu chegar com o carro até o anoitecer.

— Mentira, que eu te vi rondando hoje cedo. — disse Socorro. — Eu te mostrei até pra dona Odila. Não era ela, dona Odila?

— Não, não vi nada, não. Eu vi uma sombra. Não vi a Amora. — disse Odila.

— Tá vendo? Tá vendo? É mentira! É mentira dela! — disse Amora.

— O que é isso, Amora? O que é que tá acontecendo? Polícia? — perguntou Bárbara, que se aproximou de Amora. Bárbara estava agora morando na Casa Verde, junto com Tina, na casa que pertencia à Madá.

— Estão me acusando de ter tentado matar a Giane. — disse Amora.

— A Giane? Essa trombadinha? — disse Bárbara.

— Mãe! — recriminou Amora.

— Isso é o que nós vamos averiguar na delegacia. — disse o policial.

— Não, pelo amor de Deus, os meus sobrinhos, não fui eu! — disse Amora, desesperada.

— Pode deixar, Amora. Eu cuido deles... — disse Bento.

— Bento, acredita em mim. Eu não fiz isso, não fiz isso. — disse Amora. — Como é que eu ia sabotar a van se não entendo nada de carro?

— Vamos, vamos. — disse o policial, levando-a.

— Não, por favor! — disse Amora.

— Amora! Amora! — disse Bárbara.

— Bento, acredita em mim! Me ajuda, por favor! — implorava Amora.

— Bento, faz alguma coisa! — pediu Bárbara. — Você não pode deixar eles levarem a Amora!

Bento resolveu ligar para Malu, para ela ficar com as crianças. Ele teria de ir até a delegacia. Digitou o número do celular da Malu e esperou ela atender.

— Malu, você não sabe o que aconteceu!

— O que é isso? — disse Bárbara, nervosa.

Fabinho dirigiu-se à Giane.

— Amor, quando a ambulância chegar, o seu pai vai com você pro pronto-socorro, tá? Eu vou pra delegacia. — disse Fabinho.

Silvério deu uns tapinhas no braço de Fabinho.

— Fabinho! — disse Bárbara, correndo em direção a ele. — Fabinho, não foi a Amora! Eu tenho certeza!

— Ah, é? Pra tudo o que ela aprontou, isso não é nada. — disse Fabinho. — E você se prepara porque os podres da mamãezinha também vão aparecer.

Fabinho estava cansado de saber que não era nenhum santo. Havia aprontado muito. Mas o problema é que tinha certeza absoluta que Amora havia mexido com Giane. Amora havia ameaçado Giane, e não era a primeira vez que o fazia. Tudo indicava que foi Amora quem tentou matar Giane. O celular do Bento foi encontrado na bolsa da Amora. Amora podia não ter sabotado a van, mas certamente pagou alguém para fazer o serviço. Ela mandava fazer as coisas. Fabinho estava revoltado, e queria fazer justiça por Giane. No que dependesse dele, Amora não iria escapar, não iria sair impune deste crime.

— Quem sai aos seus não degenera. — disse Odila.

— E nem regenera. — disse Fabinho. No ponto de vista dele, se Amora continuava aprontando e tentou matar Giane, ela não tinha mais jeito.

— Vocês é que são um bando de degenerados e suburbanos que conspurcaram a minha pobre filha. — disse Bárbara, e ficou pensativa. — Ou será que ela é realmente uma psicopata? Será que eu serei a próxima vítima?