Fabinho saiu dirigindo a moto em alta velocidade. Não sabia onde iria. Só sabia que não queria mais ver as fuças daqueles otários. Estava com raiva de todo mundo. As pessoas só sabiam julgar, dar lições de moral. Foi andando pelas ruas, até passar por uma blitz. Porém, ele não parou. Não deixaria que descobrissem que era uma moto roubada. Um dos policiais, ao ver que o rapaz não parou e andava em alta velocidade, gritou:

— Esse é o camarada! Segue ele! Atividade! Vai!

O rapaz seguiu em frente, sendo seguido por viaturas de policiais. Porém, logo teve de parar, pois um policial foi na frente dele e parou, em uma moto. E outro policial logo veio atrás, dizendo:

— Parado aí! Parado aí!

Fabinho olhou para trás e viu que o policial apontava a arma para ele:

— Desliga a moto e desce bem devagar. — ordenou o policial.

Não teve saída, a não ser fazer o que o policial mandou. Desceu da moto. Um dos policiais começou a apalpá-lo, à procura de entorpecentes. Um outro policial disse:

— Soldado, algema o cidadão! O senhor está preso! Além de trafegar em excesso de velocidade, essa moto é roubada.

Fabinho ficou nervoso. Não podia ser preso de novo. Resolveu tentar subornar o policial.

— Não. Calma, amigo, vamos conversar. Meu pai é rico. Vamos conversar.

O outro policial começou a algemá-lo.

— Calma aí, cara. — disse Fabinho.

Não teve jeito. Levaram-no direto para a delegacia. Plínio foi chamado. Plínio teve de falar com um tio dele, Clóvis, que era juiz, para providenciar o habeas corpus. Fabinho responderia o processo em liberdade. Ainda assim, Fabinho teve de passar a noite na prisão. Demorou horas para ser liberado. Para Fabinho, foi horrível passar a noite em uma cela imunda, junto com outros presos.

Plínio o levou para o apartamento de manhã cedo. Quando chegaram, Irene, Margot e Malu esperavam na sala. Elas não haviam dormido nada.

Plínio estava exausto. A noite não havia sido nada fácil. Foi difícil para ele pedir um favor ao tio Clóvis, e ainda explicar tudo, dizer que o favor era para um filho que havia aparecido recentemente. Ele pretendia ter uma conversa muito séria com o rapaz. Pensou em uma maneira de resolver todos os problemas. Estava na cara que Fabinho estava interessado apenas na herança, e não em criar vínculos com a família biológica. O garoto não tinha um pingo de afeto, respeito e consideração por ninguém. Prova disso foi o que ele fez com a mãe adotiva, e a maneira como a tratou. Fabinho não tinha gratidão nem pelos donos do lar em que foi criado. Não os visitou, nem deu notícias. Pelo o que disseram, desde pequeno Fabinho era assim, uma pessoa sem caráter. Sem falar no histórico dele. Era um bandido, alguém capaz de cometer crimes. O rapaz se aproximou dele por interesse. Era um oportunista. Se era dinheiro o que Fabinho queria, ele daria. Em troca, ele queria que o rapaz deixasse as pessoas em paz, que parasse de atormentar, infernizar todo mundo. O garoto era um poço de problemas, e Plínio não queria lidar com aquilo àquela altura da vida. Não simpatizou com o rapaz desde o início, não conseguiu gostar dele, e não se sentia obrigado a gostar de um filho que não gostava dele. Além do mais, no raciocínio de Plínio, o rapaz não iria gostar dele do dia para a noite só por ele ser o pai. Até pouco tempo atrás, nem se conheciam. Na opinião de Plínio, ele tinha todo o direito de afastar uma pessoa tóxica da família.

Nem bem viu o filho entrar no apartamento, Margot largou a xícara sobre a mesa de cabeceira. Irene levantou-se do sofá.

— Filho! — disse Margot, levantando-se e aproximando-se dele. — Filho, como é que você está?

Margot continuava amando o filho, apesar de tudo. Ainda tinha esperanças de que o garoto se arrependesse, e se tornasse uma pessoa melhor. Para Margot, Fabinho não era tão ruim. Só estava muito revoltado, perdido. Ela conhecia o filho muito bem, ele tinha qualidades, e um dia o garoto iria mostrar seu lado bom. Ele voltaria a ser o seu menino.

Fabinho não respondeu. Margot foi abraçá-lo, porém o rapaz nem olhava na cara dela. Continuava furioso com a mãe. Ela não tinha nada que ter aparecido ali com Amora e Maurício, e desmoralizá-lo na frente de Plínio e Irene. Além do mais, Fabinho não entendia como ela ainda o tratava com carinho depois de ele tê-la ofendido, maltratado, chamado de criminosa, dito que ela era um demônio na frente de todo mundo. Na opinião dele, ela só podia estar querendo se fazer de santa na frente de Plínio e Irene. Porque assim ela saía de vítima, de pobre coitada, da grande mártir, e ele de vilão. Fabinho queria que Margot fosse embora de uma vez.

Plínio não gostou nada de ver Fabinho tratar Margot com frieza.

— A sua mãe adotiva lhe fez uma pergunta. Você não vai responder?

Fabinho respondeu, contrariado, que estava bem. Plínio contou:

— Demorou um pouco, mas o tio Clóvis emitiu o habeas corpus e o Fabinho vai responder o processo em liberdade.

— Você não falou que tinha comprado a moto de um amigo? — perguntou Margot.

— Eu não sabia que era roubada. — disse Fabinho. — Bom, eu vou tomar um banho que eu estou nojento.

— Ah, não, filho. Filho, espera. — disse Margot. — Eu estou indo pra Ribeirão Bonito, eu tenho que responder na justiça. Assim que puder, eu volto. — abraçou-o, carinhosa, e Fabinho lhe deu uns tapinhas nas costas. — Juízo, hein?

— Juízo, juízo, juízo. — disse Fabinho, irritado, enquanto a mãe segurava a mão dele. — Sabe que às vezes, me dá vontade de virar marginal, pra ver se vocês param de me encher o saco. Tem algum banheiro que eu possa usar?

— Tem o meu banheiro. — disse Malu. — Mas eu acho que, ao invés de você virar marginal, por quê que você não tenta uma profissão? Pessoal da Class Mídia falou que você tem talento.

Na opinião de Malu, Fabinho devia batalhar por uma profissão honesta, em vez de desperdiçar sua inteligência e talento através de golpes.

Fabinho não respondeu, mas não pretendia voltar para a Class Mídia. Além de não gostar de trabalhar, não queria ter de aturar aquela gente. Eram umas pessoas medíocres. Ninguém prestava naquela agência, não se salvava uma só pessoa. Lá ninguém era amigo de ninguém. Além disso, o pessoal ficava zombando dele o tempo inteiro, chamando-o de Fraldinha. Fabinho foi direto para o banheiro, tomar banho. Malu resolveu levar Irene para a Toca do Saci, e Margot para a rodoviária. Margot pediu a Plínio para não ser muito duro com Fabinho, e Plínio prometeu que cuidaria do rapaz, embora não com a mesma devoção que ela, e prometeu apenas ser justo. Plínio não disse nada a Margot, mas pretendia apenas dar ao rapaz o que era de direito, com a condição que ele fosse embora para sempre. O garoto não tinha o direito de atormentar todo mundo como fazia. Quem sabe, estando sozinho, sem ninguém, ele não aprendia alguma coisa. Embora Plínio duvidasse, porque acreditava que a vida havia dado todas as chances para Fabinho: ele foi adotado por uma boa família, teve amor, carinho, educação, ensinamentos de bons valores e princípios e não aprendeu nada. Para ele, Fabinho era incorrigível. Plínio e Fabinho ficaram a sós no apartamento. Plínio chamou o rapaz para conversar. Ficaram os dois na sala, e havia tensão no ar. Fabinho não estava nem um pouco a fim de ouvir sermão. Também estava cansado e com sono.

— Será que a gente pode conversar depois? Eu tô morrendo de sono.

— Não. Não dá pra adiar o que eu tenho pra dizer. — disse Plínio, levantando-se. — Você tem ideia do que aprontou? Das coisas que eu tive que mobilizar pra você não ficar na cadeia?

Fabinho ainda tentou convencer Plínio da sua inocência.

— Plínio, eu não roubei aquela moto. Eu comprei. — disse Fabinho.

Plínio estava furioso. O rapaz não se cansava de mentir? O garoto achava mesmo que ele iria cair nessa conversa, depois de tudo o que aprontou? Se ao menos Fabinho se mostrasse arrependido de verdade, confessasse, assumisse seus atos e pedisse perdão a todos que prejudicou, talvez ele, Plínio, desse uma chance ao rapaz. Mas ao invés de se arrepender e implorar perdão principalmente para Margot, que tanto sofreu por ele, Fabinho continuava mentindo e fingindo ser bonzinho e íntegro. Não, pelo visto, Fabinho era do tipo que não se arrependia. Só lamentava ter deixado rastros, ter sido pego. Plínio acreditava que Fabinho não prestava e nunca iria prestar.

— Eu não te chamei aqui pra dar um sermão! — disse Plínio. — Até porque, as palavras só funcionam quando o outro quer ouvir. Mas como a gente sabe muito bem, a ética não é o seu tema preferido. Então, eu pensei em estabelecer um acordo com você.

— Como assim? — perguntou Fabinho.

— Nós vamos fazer um exame de DNA. — disse Plínio. — Apenas pra provar de modo cabal e científico o que já sabemos. E de posse desse exame, eu vou conversar com o meu advogado. E vou passar pra você, em vida, ¼ dos meus bens.

Fabinho ficou feliz, porém disfarçou. Iria ficar rico. Tudo iria dar certo para ele, finalmente.

— Assim, você vai ter o que tanto deseja, sem precisar esperar pela minha morte. — disse Plínio. — Mas você vai prometer que vai sumir da nossa vida. E isso inclui a minha, a da Irene, a da Margot e até a da Amora.

Fabinho ficou chocado. Jamais esperou ouvir isso de Plínio. Ele sabia que Plínio não ia com a cara dele, mas ainda assim, não tinha noção, não achava que Plínio o desprezasse tanto assim. Ele ainda tinha esperanças de conquistar o afeto do pai, de virar o jogo a seu favor.

Quando Fabinho foi para São Paulo, não estava pensando apenas no dinheiro. Ele também queria fazer parte da família. Ele não pretendia apenas arrancar dinheiro de Plínio e dar o fora. O que ele queria era que o pai adiantasse sua parte da herança e lhe desse afeto. Ele conheceu Plínio outro dia. Mas Plínio era seu pai. Fabinho estava gostando da ideia de ter um pai. O pai adotivo havia morrido. Fabinho sempre quis saber quem era seu pai de verdade, e queria construir uma relação de afeto com esse pai. Porém, pelo visto, Plínio não gostava nem um pouco dele e queria vê-lo pelas costas. Seu próprio pai o rejeitou, e da pior maneira possível. Fabinho se sentiu como se estivesse sendo abandonado de novo. Será que ele era assim tão ruim, tão horrível, tão intragável, tão repulsivo, para as pessoas não conseguirem amá-lo, nem mesmo seu próprio pai?

O rapaz levantou-se do sofá.

— Plínio, você tá achando que eu tô interessado na sua herança, né?

— É evidente que está. — disse Plínio. — Mas o que você vai fazer com esse dinheiro, e é muito dinheiro, não interessa. Eu só quero que você nos deixe em paz, e pare de atormentar a sua mãe adotiva e a sua mãe verdadeira. Então, aproveita a chance de botar a mão agora na parte da herança que lhe cabe e suma da nossa vista para sempre.

Fabinho ficou magoado, ferido, revoltado. O pai não tinha um pingo de afeto por ele, e ainda queria afastá-lo das pessoas. Nunca pensou que Plínio pudesse ser tão frio, tão cruel, tão mesquinho. Não era ele mesmo que se dizia um homem ético, justo? Fabinho sabia que não valia nada. Ele armou, mentiu, intrigou, difamou Amora e Maurício, maltratou a mãe adotiva na frente de todo mundo. Mas Plínio era seu pai. Como um pai podia querer se livrar de um filho assim? Plínio não sentia um pingo de remorso, de culpa por não tê-lo criado. Ele era o filho do Plínio com a Irene, a mulher que Plínio dizia amar, e era dessa maneira que Plínio o tratava, oferecendo fortuna para que sumisse. Dinheiro esse que devia ser proporcional ao ódio que Plínio sentia dele, porque só tendo muito ódio, muito horror para não se incomodar em doar tanto dinheiro. Pelo visto, para Plínio, não fazia diferença se ele tinha o sangue da família. Fabinho nunca se sentiu tão rejeitado. Nem Gilson e Salma, que não eram seus pais e não escondiam que não iam com a cara dele, o rejeitavam tanto assim. Ele viveu anos no lar, sem que Gilson e Salma tentassem se livrar dele. Bem ou mal, Gilson e Salma pelo menos o toleravam, Plínio nem isso. Nem a criançada do lar de adoção e da rua onde foi criado o rejeitava tanto.

— Você acha que pode me comprar, né?

— O que eu estou oferecendo é uma oportunidade única de você ter a vida que tem direito e que merece. — disse Plínio. — Afinal, não foi pra isso que você veio pra São Paulo?

— Eu não entendo como é que uma pessoa tão ética pode tentar me subornar. — disse Fabinho.

Plínio não levou a sério o que o rapaz dizia. Fabinho não tinha escrúpulos, não se importava com a ética, logo, não adiantava vir com discurso hipócrita.

— Você é meu pai, Plínio. — disse Fabinho. — Eu sei que você não queria nem que eu tivesse nascido, mas você não pode simplesmente me deletar da sua vida.

Plínio achou que o rapaz era mesmo um fingido.

— Não seja por isso. — disse Plínio. — Se você não quer tomar posse da parte que te cabe, prefere esperar que eu morra...

Fabinho estava revoltado. Plínio não entendeu nada. Ele queria a grana, mas também queria fazer parte da família. Ele desejava uma família de verdade, um lugar de pertencimento. E como ele poderia chegar e dizer que queria o dinheiro? Plínio não o veria com bons olhos. Ou veria? E por acaso Plínio o deixaria se aproximar, se soubesse que sua família adotiva era pobre, e que ele tinha passagens pela polícia? Claro que não. Porque ele não se encaixava no mundo correto do grande Plínio Campana. Plínio o julgaria um interesseiro. Fabinho bem que gostaria de não precisar mentir, de dizer a verdade, mas de que jeito, se o seu histórico não ajudava?

— Plínio, Plínio, quando eu vim pra São Paulo, eu não queria o seu dinheiro. — disse Fabinho. — Eu queria ter uma família.

Plínio não acreditou. Fabinho viu que não estava funcionando. O pai não acreditaria nele e não estava se deixando comover por seu drama.

— Se você quisesse uma família, a primeira coisa que teria feito seria vir aqui e se apresentar como meu filho. — disse Plínio. — E não fazer aquele assédio insidioso, desagradável.

Para Plínio, Fabinho devia ter sido honesto e dito a verdade desde o princípio, em vez de ficar seguindo-o, sondando-o ou tentando impressioná-lo com assuntos que não dominava. Na opinião de Plínio, se Fabinho realmente quisesse uma família, e não dar um golpe, não teria mentido, nem fingido ser quem não era. Teria sido claro, verdadeiro, transparente desde o princípio. Não ficaria se fazendo de bonzinho e de coitadinho.

Fabinho achava que Plínio era um idiota. Não entendia nada mesmo. Como ele podia chegar e dizer para o Plínio que era seu filho, sem antes investigar a história? Só porque ele não se comportou como o esperado, Plínio se achava no direito de julgá-lo, de tirar conclusões erradas.

Ele reconhecia que havia mentido, armado. No entanto, ele o fez porque não havia alternativa. Mas custava Plínio botar a cabeça para funcionar? Se o interesse dele fosse apenas o dinheiro, ele teria pedido logo o exame, entrado em um acordo para tomar posse da sua parte da herança e dado o fora. Não iria nem se dar ao trabalho de tentar se aproximar e conquistar o afeto do pai. Não iria nem querer conhecer a mãe, nem querer nenhum contato com a irmã. Não iria querer aproximação com nenhum deles. Não iria nem se dar ao trabalho de se vingar da Bárbara, de desmascará-la e humilhá-la. Não seria necessário nada disso, um exame bastaria e depois era só exigir a grana. Plínio acabaria liberando a grana, nem que fosse para se livrar da amolação. Se Plínio se recusasse, era só arrumar uma maneira de forçá-lo a liberar a grana, apontando uma arma na cabeça dele, ou sequestrando a Malu. Ele não precisaria fazer o pai gostar dele para conseguir sua parte da herança. Havia várias maneiras de arrancar dinheiro do Plínio sem conquistar o afeto dele. Mas não, ele queria o afeto do pai. Começou a chorar de raiva. Tudo o que queria era o pai dele de verdade, a sua mãe verdadeira, sua irmã, enfim, sua família, e voltar a ter boa vida. Se mentiu, se armou, foi para ficar com sua família e para levar a vida que merecia. Mas a vida era uma droga mesmo.

Mentiu e armou para ser aceito na família. Não era apenas pela grana. Achava que, se falasse a verdade, fosse honesto e transparente, o pai não o aceitaria como ele era. Mas agora estava vendo que de nada adiantou suas mentiras, suas armações, se fazer de bonzinho. Plínio o desprezou do mesmo jeito. Jamais iria aceitá-lo. Plínio queria se ver livre dele. Se ele não aceitasse as condições, não veria a cor do dinheiro. E, de qualquer maneira, ele não teria o amor dos pais e da irmã, mesmo se recusasse a herança. Jamais seria incluído na família. Naquela família, ele não tinha nem teria lugar, jamais. As pessoas o julgavam um mau caráter. Ficaria sempre aquele clima de desconfiança, de briga, ele seria sempre visto como um peso, como um poço de problemas. Se era para ser assim, era melhor mesmo pegar sua parte na herança e dar o fora.

Há tempos que Fabinho chegou à conclusão de que o amor era algo inalcançável para ele. O fato de Plínio rejeitá-lo e oferecer dinheiro para afastá-lo só confirmava sua crença, deque ele era indigno de afeto. Parecia que seu destino era ser eternamente rejeitado pelo mundo, que ele só conseguia despertar sentimentos ruins nas pessoas. Tudo o que ele queria era ser amado e aceito, mas não conseguia.

— Não, Plínio. — disse Fabinho, fervendo de raiva por dentro. — Eu queria que você gostasse de mim antes de saber quem eu era. Eu queria que você me amasse. Que você me levasse pro futebol, que você me levasse pro cinema, que nem o meu pai adotivo fazia. Era isso que eu queria, que você agisse como pai. Mas é muita ilusão, né, Plínio? — enxugou as lágrimas com as mãos. — Primeiro, eu fui abandonado pela louca da minha mãe. E agora, eu tô sendo rejeitado por você.

Plínio não se comoveu com a ceninha de drama que Fabinho fazia. Jamais se deixaria enganar. Era mais uma armação. Para ele, Fabinho estava fingindo, mentindo. O rapaz mentiu tanto que era impossível agora acreditar nele.

— Olha, pode parar com esse seu melodrama de quinta categoria, porque você não convence nem um pouco no papel de vítima.

Fabinho resolveu aceitar o que Plínio oferecia. Já que não conseguiu o afeto do pai, pelo menos, teria a grana. Assim, não sentiria como se tivesse perdido tempo ao ir a São Paulo atrás do pai. Ele merecia uma compensação por ter crescido órfão, longe dos pais, por ter sido chutado que nem cachorro a vida inteira. Depois de uma vida inteira de humilhações, de rejeição, ele merecia. A vida lhe devia isso. Não iria ficar implorando o amor de um pai que não estava nem aí para ele, que tinha horror a ele.

E, pensando bem, ele seria livre para fazer o que quisesse, sem ninguém para encher o saco, dar sermão, controlá-lo, vigiá-lo. Fabinho estava mesmo de saco cheio das pessoas ficarem falando nos seus ouvidos. Pelo menos seria rico, poderoso. Mas se Plínio achava que, liberando a grana, ele cumpriria a palavra, estava redondamente enganado. Fabinho não iria desistir de destruir a Bárbara e não deixaria Amora em paz. Por causa da armação da Bárbara, ele cresceu órfão, longe da família e foi parar naquele lugar horrível, cheio de crianças que zombavam dele, não o deixavam participar das brincadeiras. E Amora iria pagar pelo que fez, por tê-lo rejeitado e depois desmascarado. No que dependesse dele, Bárbara e Amora não conseguiriam se levantar. Elas não iriam mais conseguir trabalho decente em nenhum lugar do país, porque ele não deixaria.

Se ele contasse, ninguém acreditaria que o Plínio seria capaz de fazer uma coisa dessas, pagar um filho para ele sumir da vida de todos. Afinal, todo mundo acreditava que Plínio era uma pessoa boa e justa e que seria incapaz disso. Todos sabiam que Plínio não ia com a cara dele, até porque Plínio não escondia isso de ninguém. E é claro que logo todos saberiam que Plínio pretendia adiantar a parte cabia a ele na herança, até porque seria impossível esconder isso de todo mundo. Mas ainda assim, jamais iriam imaginar que Plínio ofereceria uma fortuna para ele sumir. Mas a verdade era que Plínio queria que ele sumisse da vida de todo mundo, e sem falar nada para ninguém. Fabinho não podia espalhar por aí que Plínio estava na verdade subornando-o, senão não receberia um tostão furado. Teria que esperar Plínio morrer. Até porque se ele botasse a boca no trombone, espalhasse por aí, inclusive na mídia, que Plínio estava doando uma fortuna para ele sumir, a família iria ficar ainda mais exposta, e esta era a última coisa que Plínio queria. Ele não podia expor a família, do contrário, não receberia a herança. Além do mais, Fabinho não iria deixar ninguém, nem a mídia, saber que ele era rejeitado a esse ponto.

Fabinho pensou que era melhor deixar quieto. Deixaria todo mundo pensar que Plínio estaria sendo generoso, premiando o filho com uma fortuna, apesar de ser óbvio que Plínio não simpatizava com esse filho. Além disso, Fabinho podia apostar como Irene também queria se ver livre dele. Ainda mais agora que ela sabia que tipo de pessoa ele era. Irene certamente não iria querer um mau-caráter, um bandido como filho. E é claro que Plínio não diria nada a ninguém sobre a condição que impôs. Não iria arruinar a imagem dele de bonzinho. Plínio não iria querer ser julgado, apedrejado pela sociedade por querer se livrar do filho. Mesmo o filho não prestando, muita gente não concordaria com a atitude de Plínio. Plínio deixaria todo mundo pensar que ele estava apenas sendo justo, ao dar ao filho aquilo que era de direito.

— Então, tá certo. — disse Fabinho. — Então, já que você me odeia tanto, eu vou embora como você quer.

Plínio balançou a cabeça positivamente.

— Mas Plínio, fique sabendo que eu vou querer, sim, tudo que é meu por direito, até o último centavo. Mas não pense que esse dinheiro vai compensar tudo que eu sofri e tudo que eu tô sofrendo. Nem todo o seu dinheiro ia conseguir cicatrizar a ferida que a sua rejeição fez aqui.

Plínio nem se abalou.

— Então, eu vou marcar o exame de DNA e te aviso. — disse Plínio. — Você pode ficar num flat, se quiser.

— Não, tá tranquilo. Eu sei me virar. — disse Fabinho.

Fabinho andou até a porta. Olhou para Plínio.

— O mundo dá volta, pai. Você vai se arrepender de me tratar assim.

Plínio ficou perturbado. Será que era uma ameaça? Que tipo de rapaz era Fabinho, capaz de ameaçar o próprio pai?

Ao sair do apartamento, Fabinho enxugou as lágrimas dos olhos. Ele tinha um motivo para comemorar: iria herdar sua parte na fortuna e se vingar de todos os seus inimigos. Iria destruir um por um. Eram todos uns otários, na opinião dele.

— Eu vou ficar rico e ainda vou me livrar desses otários. — disse para si mesmo, antes de enxugar outra lágrima. — E esse idiota ainda pensa que tá me castigando.

Foi embora, rindo. Não choraria mais. Não daria esse gostinho a Plínio, de ver o quanto o tinha afetado. Seria rico. Iria sair da vida de todo mundo. Porque estava na cara que ninguém gostava dele, ninguém o queria por perto. Irene também devia estar achando que ele era um interesseiro, e devia estar achando que ele era um monstro por ter deixado a mãe adotiva pagar por um roubo em seu lugar. Ela também certamente não ia com a cara dele, se decepcionou com ele. Percebeu que Irene não estava feliz por reencontrá-lo. E Malu também nunca gostou dele. Elas também queriam vê-lo pelas costas. Estavam contando os dias para ele ir embora.

Fabinho pensava que era melhor ficar longe da família mesmo, já que o odiavam tanto. E seria melhor se afastar de Margot também, assim não daria mais desgosto a ela. Além do mais, Margot era outra que não gostava dele. Se ela gostasse dele realmente, não teria ajudado Maurício e Amora a desmascará-lo. Não tentaria ferrá-lo o tempo todo, não o amolaria, não o atrapalharia.

No ponto de vista de Fabinho, ele podia nunca ter o afeto nem de Plínio, nem de ninguém. Mas pelo menos teria uma vida confortável. Poderia comprar uma mansão, um iate. Poderia viajar, se hospedar em hotel cinco estrelas, ir ao cinema. Ele sendo rico e poderoso, iria impor respeito. Além do mais, era melhor chorar montado na grana do que na pobreza. Se ninguém gostava dele, o mundo que se danasse. Ele havia aprendido cedo demais que dinheiro era a única coisa real na vida dele. A família biológica o descartou no passado, a única coisa real era o anel. A família adotiva não o amava, a única coisa real era o dinheiro, mas a família faliu. Agora a família biológica não queria saber dele, a única coisa real era a herança.

Ao sair do prédio, Fabinho foi direto para o shopping. Ele resolveu preencher o vazio com compras e mais compras. Nada lhe dava mais ânimo do que fazer compras. Fabinho telefonou para Mel.

— Deu tudo certo, gata. Pode escolher o teu presente que eu banco. Vou botar a mão na herança. Como é que você fala? Do papis. — Fabinho gargalhou.

— O presente que eu quiser? — perguntou Mel. — Então, acho que eu vou escolher... Uma joia.

Mel desligou. Fabinho fez compras no shopping. Depois voltou para o apartamento de Plínio, trazendo sacolas. Resolveu ficar no apartamento do pai, até fazer o exame. Fabinho não facilitaria as coisas para Plínio. Plínio teria de engoli-lo, pelo menos por mais algum tempo. Foi Celinha quem abriu a porta para ele. Plínio estava na sala, lendo um livro.

— Oi. — Fabinho cumprimentou.

Plínio bebeu um gole d’água e deixou o copo sobre a mesa.

— Veio buscar suas coisas? — Plínio perguntou.

— Não, mudei de ideia. Vou ficar na casa do papai. — disse Fabinho. — Mas é só até sair o resultado do exame e eu pegar minha parte na herança. Eu acho que não vai ser tão fácil assim se livrar de mim.

Plínio pensou que Fabinho finalmente estava se revelando, depois de ter conseguido o que queria. Não estava mais fazendo o bom moço, o coitadinho, o garoto abandonado pela mãe, que cresceu órfão e é rejeitado pelo pai. Isso não o surpreendia nem um pouco.

— E aquele texto de telenovela, as suas lágrimas de crocodilo? — perguntou Plínio, irônico, levantando-se da cadeira.

Fabinho riu. Ele não faria mais o papel do bom menino. Não adiantou nada mesmo. Não importava o que ele fizesse ou dissesse, não conseguiria o afeto de Plínio. A essa altura, já não se importava mais. Não estava nem aí. Pegaria o que era dele por direito e daria o fora.

— Secaram já. — disse Fabinho, irônico. — Não sei, foi tanta rejeição assim. Acho que esvaziei.

— Ah, tá bom. — disse Celinha. — Então, já que você vai ficar, você, por favor, me faz um favorzinho? Enxuga o banheiro e arruma a bagunça que você deixou no quarto.

Fabinho não se importava com Celinha. Ele percebeu que ela também não gostava dele, e de graça, pois ele nunca fez nada para ela. Era incrível como ele nem precisava fazer nada para as pessoas antipatizarem com ele. Ainda por cima, ela achava que podia mandar nele. Só por isso, Fabinho já não foi com a cara dela também. Além do mais, Fabinho achava Celinha uma folgada. O que ela queria era menos trabalho. Mas ele não daria moleza para ela, arranjaria coisas para ela fazer.

— Ué, mas e o seu trabalho? Você vai fazer o que aqui? — Fabinho ironizou, e riu. — Fica tranquila. Só vim deixar isso aqui, tô indo embora já.

Celinha não gostava de Fabinho. Antipatizou com o rapaz desde a primeira vez em que o viu, e ouviu várias pessoas falarem coisas horríveis a respeito dele: Plínio, Malu, Madá, Emília. Plínio e Malu não gostavam do garoto, e com razão. O rapaz era mentiroso, cínico, interesseiro, um crápula. Fabinho podia não ter feito nada com ela. Ainda, porque pelo visto, estava começando a colocar as manguinhas de fora. Era evidente que o garoto esperava que ela o servisse. Estava tratando-a como empregada. Mas ela era a secretária do Plínio, não estava ali para servir ao moleque. Celinha achava que o rapaz daria muitos problemas a Plínio ainda.

O rapaz foi levar as sacolas para o quarto.

— Olha só, eu não sou sua empregada, não. — reclamou Celinha, indignada. — Sou secretária do seu pai, viu?

— Tá bom. — disse Fabinho.

Fabinho não ficou muito tempo em casa. Logo voltou para o shopping. Havia ligado para Mel novamente, e combinado de se encontrarem. Mel ligou para ele quando chegou no shopping:

— E aí, Fá, já chegou no shopping? Que loja você tá? Ai, que top! Peraí. Eu tô indo te encontrar, tá? Não sai daí, não. Peraí.

O rapaz estava em uma loja de joias.

— Tá bom, coisa linda. Tô te esperando. — disse Fabinho.

— Senhor? — disse o vendedor.

Fabinho desligou o celular.

— Senhor, desculpa, mas o seu cartão foi recusado. — disse o vendedor.

Fabinho riu.

— Não. Não foi não, amigo. Pode tentar de novo. Isso é algum engano.

— Mas eu já tentei três vezes, mas parece que o seu crédito estourou, entendeu? — disse o vendedor.

O rapaz riu e deu um tapinha no ombro do vendedor.

— Isso é um absurdo, rapaz. Você tá doido. Eu sou... Eu sou Fábio Campana, sou filho de pai rico. Pode tentar, querido. — disse Fabinho.

— Mas o valor é alto. O senhor não quer dividir com outro cartão?

— Que dividir com outro cartão? Você tá maluco? Que absurdo isso! — disse Fabinho, indignado. — Me dá aqui! — tomou o cartão de volta. — Escândalo! Eu quero que essa loja se exploda! Eu não volto mais aqui, meu amigo! Não volto!

— Oi, meu amor! Quê que... Aconteceu alguma coisa? — perguntou Mel, que chegou na loja naquele momento.

— Não aconteceu nada. — disse Fabinho, beijando-a nos lábios. — Esse atendimento aqui é... Vambora, vambora, vambora.

— Também não gosto desta loja. Loja cafona. — disse Mel.

— Ia comprar um presente pra você, mas também desisti. — disse Fabinho, saindo da loja junto com Mel.

— Não, mas tem outra joalheria bem ali na frente. — disse Mel, apontando.

Fabinho não quis arriscar estourar o limite do cartão de crédito.

— Não, não, não. Vambora, vambora, vambora. — disse Fabinho, puxando-a. — Vamos comer, depois a gente volta.

— Ah, não! — disse Mel.

— Vamos, vamos! — disse Fabinho, beijando-a.

— Eu não tô com fome. — disse Mel.

— Tá sim. Tá, sim. Dá aqui. — disse Fabinho, pegando o celular de Mel.

— Guarda pra mim, por favor? — pediu Mel.

— Guardo, coisa linda. — disse Fabinho.

Acabaram dando de cara com Amora, que olhou para eles de cara amarrada. Atrás dela estava o motorista, Evandro.

— Amora Campana? — disse Mel.

— Eu não acredito. Era só o que me faltava. — disse Amora.

A última coisa que ela queria era encontrar Mel e Fabinho. Ela tinha vindo ali para espairecer, fazer umas compras. Estava triste e precisava se distrair. Tudo estava dando errado para ela. Não estava sendo nada fácil retomar a carreira, mesmo com o apoio e ajuda de Maurício. Ela pensava que depois de ter destruído Fabinho, desmascarado ele na frente do Plínio, tudo daria certo para ela. Achava que ela conseguiria limpar a imagem e que Plínio não daria um tostão furado para Fabinho, depois de tudo o que descobriu. Mas ela ficou sabendo que Plínio pretendia antecipar a parte do Fabinho na herança.

Amora achou um absurdo. Fabinho roubava, mentia, traía, intrigava e Plínio ainda iria premiá-lo com uma fortuna. E com certeza ela sofreria as consequências. Se sem dinheiro Fabinho a perseguia, fazia intriga, fazia de tudo para destruir sua imagem, seria ainda pior se ele ficasse rico. E como se não bastasse, sua mãe estava internada em um manicômio, e ela tinha acabado de descobrir que Bento estava namorando a sonsa da Malu. Malu tanto fez que conseguiu o que queria, tomar o Bento dela. E agora Mel e Fabinho apareceram. No pensamento de Amora, era incrível como ela não tinha um minuto de sossego.

— Amorinha, veio comprar sapato pra esquecer dos problemas? — perguntou Fabinho, irônico.

— Haja sapato, né? — Mel riu. — Vem cá, você vai abrir uma sapataria?

— Mas é muito ordinária mesmo. — disse Amora. — Até ontem, você lambia o chão onde eu pisava. E agora você acha que tá por cima só porque tá com esse psicopata?

Fabinho fez cara de deboche. Se Amora pretendia fazer a caveira dele para Mel, dizer que ele era um bandido e que iria dar um golpe nela, podia desistir. Ele era esperto e saberia como se safar. Inverteria o jogo e diria que Amora estava inventando, porque era uma despeitada e invejosa que havia sido rejeitada por ele. Mel era fácil de se enganar e manipular e acreditaria nele, não levaria a sério nada do que Amora dissesse.

— Ah, coitada, querida. Não se iluda, tá? — disse Amora. — Porque depois que ele te depenar todinha, vai te dar um belo pé na bunda. E aí, queridinha, não vai ter quem te levante.

No ponto de vista de Amora, se Fabinho estava tentando arrancar dinheiro de Plínio, era bem capaz de arrancar dinheiro de Mel.

— Amorinha, você gosta tanto assim de mim ainda? — ironizou Fabinho. — Já falei que eu não quero... — dirigiu-se a Mel. — Essa aqui gosta de um jeito de mim. Ela me ama.

Amora riu.

— Ai, não inverte o jogo, Fabinho. — disse Amora, e dirigiu-se a Mel. — Ele te contou por que ele fica me perseguindo e tentando destruir minha imagem? Porque eu não quis me casar com ele.

— Isso é verdade, Fá? Você pediu a Amora em casamento? — perguntou Mel.

— Claro que não. Não vou casar com ela nem em festa junina. — disse Fabinho. — Isso aí é vagabunda. Olha a cara dela. Olha a cara de pobre.

Fabinho riu, olhando para Mel.

— Pobre. — disse Fabinho.

— Pobres são vocês. — disse Amora. — Pobres de cultura, pobres de espírito, pobres de classe, pobres de sentimento, pobres de tudo. Vocês são duas criaturas ridículas e insignificantes que eu vou esmagar com a ponta do meu salto. Ai, falei. Vamos, Evandro?

Amora deu as costas para eles, juntamente com Evandro. Eles iriam ver só. Amora Campana iria dar a volta por cima e iria acabar com eles. Ela ainda viraria o jogo e pegaria de volta tudo o que era dela. Podia demorar um pouco, mas ela recuperaria tudo o que havia perdido.

— Que meda! Ai, coitada! Olha lá, tá se achando ainda, a louca! Fim de carreira! — disse Mel.

Fabinho e Mel continuaram andando pelo corredor, abraçados.

— Ah, deixa estar que a gente vai passar nosso dia feliz, curtindo. — disse Fabinho. — Eu tenho que fazer uma visitinha hoje.

— Visitinha, Fá? Pra quem? Assim eu fico com ciúmes. Fabinho deu um selinho nela.

— Visitinha familiar, fica tranquila.