Um amor improvável
62 Show da Palmira Valente
Bento continuou a fazer campanha para a doação de medula. Muita gente foi ao hemocentro para doar a medula. E todos os conhecidos visitaram a Simone. Porém, apesar dos esforços, não foi possível encontrar um doador que fosse compatível com Simone, que acabou não resistindo e morreu em poucos dias. Todos compareceram ao velório, pois Simone era querida por muita gente. Era muito triste ver alguém partir tão jovem, deixando dois filhos pequenos. Deu para ver que Amora estava realmente sofrendo pela perda, as crianças também. Bento permaneceu o tempo todo ao lado da Amora e das crianças no enterro. Deu para ver que os dois ainda tinham um laço forte, apesar de tudo o que aconteceu.
Apesar de estarem todos devastados com a morte de Simone, Verônica resolveu fazer o show e dedicá-lo à falecida. Pensou em adiar, mas acabou não fazendo isso. Também estava marcada a festa da Dancing’ Days, que seria realizada na Para Sempre, mais ou menos na mesma hora do show da Palmira Valente. Era Maurício quem estava dando a festa, mas ele decidiu ir ao show da mãe e o evento ficou nas mãos da Renata, que cui-daria de tudo, e também da Charlene, que iria para a Para Sempre assim que o show terminasse.
Érico, Fabinho, Sílvia e toda a equipe da Crash Mídia foram trabalhar, como sempre. Apresentaram para Nelson a campanha da You. Nelson compareceu à reunião junto com Brunettý, que seria a garota-propaganda.
— Olha, eu adorei. — disse Nelson, olhando o material. — E com a Brunettý fazendo o sabor mangaba, não tem erro. Aprovadíssimo!
— Que ótimo. — disse Sílvia.
— Ai, gente, até que enfim eu fui convidada pra fazer uma campanha classuda. — disse Brunettý, sorrindo, contente.
— Que é isso? Mas você tem muito mais classe do que muita modelo por aí. — disse Érico.
— Obrigada, Érico! — disse Brunettý. — Ai, gente, olha, eu nem sei como agradecer!
— Você não precisa, querida. — disse Sílvia. — Você já é uma verdadeira “Gradisca”!
— Gradisca é uma personagem do filme do Fellini, o “Amarcord”, tá? — explicou Nelson.
— Eu sei, a cabeleireira. — disse Brunettý. — Gente, eu vi “Amarcord”. Eu não sou tão ignorante assim, né?
— O mundo tem salvação. Vamos brindar a isso. — disse Sílvia, batendo o copo na caneca de Fabinho, que estava sentado ao lado dela.
— Por quê que a gente não comemora no show da Verônica? — perguntou Fabinho.
— Olha, desculpa, mas eu não vou, não. — disse Nelson, dando um gole na sua caneca.
— Mas tem que ir todo mundo, senão não vale. — disse Fabinho.
— É que eu e a Verônica estamos meio afastados, pelo menos por enquanto. — disse Nelson. Ele andou jogando charme para Verônica, saiu com ela algumas vezes, mas ela nunca demonstrou interesse nele.
— Quer dizer que eu posso ter esperança? — perguntou Brunettý.
— Sempre, Brunettý. — disse Nelson, e deu um beijo no rosto dela. — Olha só. — levantou-se da mesa. —Deixa eu ir agora, que eu tenho certeza que o show vai ser um sucesso. — apertou a mão de Érico.
— Tchau! — disse Érico.
— Tchau, gente! — disse Nelson, acenando e indo embora.
— Tchau. — disse Sílvia.
— Gente, ele disse que eu posso ter esperança ou foi só eu que ouvi? — perguntou Brunettý.
— Todo mundo ouviu. — disse Érico. — Vem cá, não deixa esse cara escapar, não, Brunettý. Vai lá.
Brunettý levantou-se da mesa.
— Gradisca, gente! — disse Brunettý, despedindo-se e indo embora. Sílvia riu, e Érico sorriu. Sílvia disse:
— Eu nunca pensei que eu fosse dizer isso, mas eu adoro a Brunettý!
— Eu também. Eu também. — disse Érico. — Vem cá, vamos voltar pro trabalho?
— Vambora. — disse Sílvia.
Continuaram trabalhando. No final do expediente, Sílvia disse:
— Bom, gente, acho que por hoje já deu, né? — Sílvia levantou-se da mesa. — Eu vou pra casa me arrumar pra ver o show da Verônica. Vejo vocês lá?
— Até mais. — disse Fabinho.
— Até logo, Sílvia. Tchau, tchau! — disse Érico.
Assim que Sílvia saiu, Fabinho perguntou:
— E aí, tá com medo de ir e descobrir que ainda é a fim da tua ex?
— Não sei, cara. — disse Érico. — Na verdade eu não sei mais o quê que eu sinto. Eu tô muito confuso.
— É? Ou você sabe o que sente e tá com medo de magoar a Renata?
— De qualquer maneira, a Verônica não vai voltar mais comigo. — disse Érico. — Se tem uma mulher que eu magoei, foi ela.
Érico sabia que foi um babaca, só tratou mal a Verônica depois que sofreu o acidente.
— É, cara, mulher, quando gosta da gente, perdoa, né? — disse Fabinho. — Ainda mais se ela percebe que o nosso arrependimento é sincero. Você não vê a Giane, que voltou comigo? — ajeitou a pasta com alguns papéis. — Bom, o que você não pode é ficar esperando que a vida decida pra você. — levantou-se. — Vai lá hoje, cara. Resolve isso. Vai na minha.
Horas mais tarde, todos na Casa Verde foram ao show da Palmira Valente. Fabinho arrumou-se e foi com Giane ao show. Chegando ao local, sentaram-se em uma das mesas e ficaram esperando o show começar. Giane e Fabinho conversaram com Malu, que contou que Amora apareceu na mansão para pedir perdão. Fabinho não conseguia acreditar. Duvidava da sinceridade de Amora. Agora ela resolveu dar uma de Madalena arrependida? Amora só podia estar aprontando, e boa coisa não era. Será que Amora fez ceninha para fazer Plínio e Malu desistirem de processá-la?
— Quer dizer que a Amora foi te pedir perdão? — perguntou Giane.
— Ela citou a irmã. — disse Malu. — Ela tava bem emocionada. Foi... Foi bonito o que ela falou. — levantou-se da mesa.
— E o Bento tava junto com ela, aposto. — disse Giane.
Malu assentiu. Então o Bento estava junto com Amora. Para Fabinho, Amora não estava realmente arrependida, só queria impressionar o otário do Bento, para ver se conseguia voltar com ele. Amora ainda queria Bento à sua disposição. Se bem que não havia mais uma fortuna em jogo. Wilson estava falido. Ainda assim, Amora estava na pior, sem emprego. Ela não tinha mais nada a perder. Devia estar desesperada. Não estava conseguindo arrumar trabalho, porque o país inteiro estava com ódio dela. Ela tinha uma reserva, mas o dinheiro que tinha guardado iria acabar um dia. Já devia ter gastado bastante com o tratamento do câncer da irmã, com o funeral, com os sobrinhos e todas as despesas que tinha. Cedo ou tarde ela iria atrás de alguém que a banque e a ajude com as crianças. Estava se antecipando. Bento podia não ser milionário, mas até que ganhava bem, o suficiente para sustentar Amora e os sobrinhos. Assim, Amora uniria o útil ao agradável, porque ela ainda gostava do Bento. Se bem que antes Bento era pobre, e ainda assim Amora deu o golpe, usou de meios ilícitos para enriquecê-lo. Quem garantia que ela não tentaria aplicar outro golpe? Além do mais, não faltavam razões para Fabinho desconfiar de Amora. Amora já mentiu tanto. Fabinho acreditava que Amora só se arrependia de ter deixado rastro, de ter sido pega e por estar na pior. Era sempre assim: Amora aprontava e depois se fazia de santa, ou de coitada, não apenas para o Bento, como para todo mundo. Fabinho não sabia o que Amora pretendia, mas acreditava que ela não estava sendo sincera ao pedir per-dão. Alguma ela estava aprontando. Remorso não era a praia dela. Amora era muito malandra, não era de confiança.
— Você não acreditou nisso, né, Malu? — perguntou Giane.
— Giane, ela foi bem convincente. — disse Malu. — Sério, e meu pai deixou claro que... Que mesmo que a gente aceitasse o perdão, isso não ia absolver ela de tudo o que ela fez. E se ela tiver se arrependido de verdade?
Malu ainda tinha dúvidas, mas havia uma parte dela que queria acreditar que Amora estava sendo sincera, que estava arrependida de verdade. Quando Amora apareceu na mansão e pediu perdão a todos, Malu desconfiou. Achou que Amora estava fingindo, fazendo teatro para comover a todos e fazer Plínio desistir do processo pela troca dos exames, ou fazer ela, Malu, desistir de denunciá-la pelo incêndio e pela pichação na Toca (ela não iria registrar queixa contra Amora para não prejudicar as crianças. Se Amora fosse presa, André e Mayara iriam para um abrigo. Mas Amora não sabia que ela não pretendia denunciar). Ou então, Amora estava tentando impressionar o Bento. Mas Plínio fez questão de dizer que o arrependimento da Amora, se realmente era sincero, não a absolveria e que ela teria de arcar com as consequências de seus atos. Uma coisa era bondade, outra era justiça e desta Amora não escaparia. Amora disse não querer absolvição, que só tinha vindo pedir perdão. E Amora poderia até querer voltar com Bento, mas Bento garantiu que nunca mais teria nada com ela. Bento disse que tinha boas razões para acreditar que Amora estava arrependida de verdade, e que resolveu dar um crédito a ela em nome da Simone, que pediu isso a ele um pouco antes de morrer. Malu agora achava que talvez Amora tivesse sido sincera. Amora estava emocionada, certamente a morte da irmã mexeu com ela. Além do mais, ela percebeu que Amora estava diferente nos últimos dias.
— Ah, Malu, só um trouxa pra acreditar nisso, né? — disse Giane. — Vou ali rapidinho falar com a Rosemere. — levantou-se da mesa.
— Essa é a minha garota. — disse Fabinho.
— Grande garota. — disse Malu.
Giane foi dar uma palavrinha com Rosemere e Perácio. Depois voltou a sentar-se à mesa com Fabinho, Malu e Luz. Verônica estava demorando a aparecer.
— Será que a Verônica desistiu? — perguntou Malu.
— Acho que não. — disse Giane. — Ela nunca teve medo de palco lá no Cantaí, né?
— Será que ela não vai cantar porque o Érico não tá aqui? — perguntou Fabinho.
Malu avistou Maurício e chamou:
— Mau! Cadê sua mãe?
Maurício se aproximou da mesa.
— Essa noite minha mãe é Palmira Valente. — disse Maurício, e apontou para o palco.
Malu estava morrendo de vontade de dar um beijo em Maurício. Só de vê-lo, seu coração batia mais forte. Mas também ficava balançada ao ver Bento. Malu sentia-se confusa. Ela gostava de cada um de um jeito. Ela amou Maurício durante anos. Depois se apaixonou pelo Bento, e a história foi interrompida bruscamente quando ela e Bento descobriram que eram irmãos. Mas isso não impediu de ela voltar a gostar do Maurício, de se envolver com ele de novo. Ainda assim, ela tinha de reconhecer que estava dividida. Às vezes, ela se perguntava como teria sido se ela e Bento tivessem ficado juntos, se Amora não tivesse armado para separá-los. Ao mesmo tempo, não podia negar para si mesma que amava Maurício. Porém, adorava Bento e lhe doía ver que Bento continuava ligado à Amora, mesmo depois de ter se separado dela. Mesmo depois de tudo o que Amora fez, Bento ainda continuava se preocupando com ela. Ele parecia ter uma ligação forte com a mulher que o destruiu, o fez sofrer. E Malu sabia que Bento gostava dela, mas também gostava da Amora. Para Malu, estava na cara que Bento gostava dela de um jeito, e da Amora de outro.
A relação de Bento com Amora era baseada na memória afetiva da infância e em uma paixão visceral. Havia entre eles uma tensão, um magnetismo animal. Bento nunca esquecia a menina que conheceu no lar de adoção, o que gerava um desejo de salvá-la misturado com atração forte. Já com Malu, o sentimento era de admiração, paz e afinidade. Malu percebia que, embora Bento gostasse de sua companhia, a respeitasse e quisesse estar ao lado dela, o olhar dele para Amora tinha uma eletricidade e uma urgência que ela nunca conseguiu despertar. Malu sentia que não estava competindo apenas com uma mulher, mas com uma lembrança idealizada que Bento se recusava a abandonar, por mais que Amora errasse. Malu sentia também que Bento nunca teve por ela o mesmo desejo incontrolável que tinha por Amora. Embora Bento a admirasse, ele não a desejava com a mesma intensidade. Prova disso era que nunca foram para a cama. Amora armou para estragar a noite deles, mas ainda assim, Malu achava que se Bento realmente quisesse transar com ela, podiam ter tentado de novo e nada nem ninguém impediria de ficarem juntos. Malu não queria ser a escolha segura, que Bento a escolhesse por achar que era o certo, tampouco queria ser prêmio de consolação.
Malu não duvidava de que Bento e Amora voltassem, por mais que Bento dissesse que não iria voltar para ela. Bento e Amora tinham uma história forte e antiga. Tinham uma atração um pelo outro, uma química poderosa. E Bento caiu nas armações da Amora porque quis. Ele se deixou enganar, porque era Amora quem ele amava. No fundo, Bento sempre alimentava uma esperança de que iria conseguir salvar Amora, ter de volta aquela garotinha por quem ele se apaixonou aos dez anos de idade. Malu tinha a sensação de que, se decidisse ficar com Bento, haveria sempre a sombra da Amora pairando entre eles. Era mais que sensação. Era fato.
Verônica apareceu, e todos bateram palmas. O show começou. Érico logo apareceu, trazendo flores. Todos ficaram observando Verônica cantar. No final do show, todos bateram palmas e Érico entregou as flores para Verônica.
Sílvia aproximou-se de Giane e Fabinho.
— Acho que o nosso sócio vai resolver a vida amorosa dele hoje. — disse Sílvia, sorrindo, contente, passando a mão no ombro de Fabinho.
— Tava na hora, né? — disse Fabinho, sorrindo.
— Tomara. — disse Giane.
Verônica foi direto para o camarim. Érico e Natan ficaram esperando do lado de fora. Fabinho e Giane aproximaram-se. Fabinho disse:
— O que você tá fazendo aqui, meu sócio, vai pro camarim dar um beijo na tua estrela.
— Ah, Fabinho, deve estar cheio de gente lá. — disse Érico. — Deixa pra lá.
— Mas você sabe que é você que ela tá esperando. — disse Giane.
— Coitada da Rê. — disse Tina, aproximando-se. — Ela tava tão triste. Ainda bem que ela foi embora.
— A Renata tava aqui? — perguntou Érico.
— Tava. — disse Tina. — Ela pediu pra eu não contar, mas eu vou contar. Ela saiu daqui chorando. Quer dizer, chorando assim, chorando pra caramba, não. Mas sabe quando a pessoa tá com o olhinho assim, marejado? Olha, eu queria pedir pra você não trair ela. Vou te explicar o porquê. Por-que apesar de você ter uma relação aberta, eu acho...
Deu para ver que Érico estava se sentindo mal, pois não queria magoar a Renata. Giane achou que Tina estava sendo muito inconveniente.
— Tina, Tina, pelo amor de Deus, tá louca? — disse Giane, puxando-a e arrastando-a para longe de Érico.
— Bom, eu acho que a minha hora já deu. — disse Érico. — Eu tô indo nessa, Fabinho.
— Com licença. — disse Natan, aproximando-se e impedindo Érico de ir embora. — Posso dar uma palavrinha com você?
Fabinho afastou-se e deixou Érico e Natan conversando. Um pouco mais tarde, Malu e Maurício resolveram ir embora. Giane e Fabinho também.
— Vamos que amanhã você trabalha cedo. — disse Fabinho, levantando-se da mesa com Giane.
— E daí? Eu também. — disse Camilinha, de mãos dadas com Caio.
— É, só que você não tem namorado. — disse Giane.
— Agora eu tenho. — disse Camilinha, abraçando Caio.
— A gente não pergunta nada e ela responde tudo. Vamos. — disse Fabinho.
Foram embora. Namoraram um pouco, antes de ir cada um para sua casa. No dia seguinte, Fabinho acordou cedo. Assim que terminaram de tomar café, Margot o chamou para ajudar a colher as flores da rua.
— Filho, vem comigo. É lindo. — disse Margot, levantando-se da mesa e começando a recolher a louça do café. — Os vizinhos cuidando das flores na rua...
— Tá querendo me chamar pra regrar flor, mãe? Fala sério! — disse Fabinho, deitado no sofá. — Eu mudei, mas não tanto assim, né?
Fabinho até achava as flores lindas, mas regar e colher flores não estava entre os seus passatempos prediletos.
Margot riu, enquanto recolhia a louça.
— Vem cá, falando em mudança, tô vendo uma casa bem grande pra gente, hein? — disse Fabinho.
— Ah, é? Que bom! Tomara que seja por aqui. Tô adorando isso aqui, viu? — disse Margot, levando a louça para a pia.
— Tá adorando isso aqui. Tá adorando seu Silvério, pensa que eu não sei? Vem cá, por que você não se casa de novo, hein? A gente podia morar todo mundo numa casa bem grande. — disse Fabinho.
— Imagina, eu casar de novo? — disse Margot. Mas deu para ver que ela estava gostando da ideia.
— Olha que cara de pau! Adorou a ideia. — brincou Fabinho. — Tá se fazendo. Ah, mãe!
— Ah, não quero conversa. Ih... — disse Margot, sem jeito, saindo da sala.
— Olha isso! — disse Fabinho, rindo.
Ouviu batidas na porta. Fabinho achou que só podia ser Silvério.
— Aí o namorado trazendo as primeiras flores do dia. — disse Fabinho, levantando-se do sofá. — Esse seu Silvério...
Ao abrir aporta, surpreendeu-se ao dar de cara com Amora.
— Será que eu posso entrar? — perguntou Amora.
Amora resolveu seguir o conselho da mãe adotiva e ir atrás de Fabi-nho. Amora pediu ajuda à Bárbara. Não que precisasse de dinheiro. Ainda tinha suas economias. Mas não tinha experiência com crianças e não sabia o que fazer com elas. Resolveu pedir ajuda à Bárbara porque acreditava não ter mais ninguém e que Bárbara gostava um pouco dela. Bento ainda não se separou legalmente dela e se ofereceu para cuidar das crianças, mas para ela era muito sofrimento ficar perto dele. Malu não era nada das crianças. E nem Malu, nem ninguém tinha obrigação de cuidar das crian-ças. Bárbara se recusou a ajudar com as crianças, até porque também não tinha experiência, e lhe disse que sua última chance era casar com Fabinho. Ainda mais agora que ele havia ficado bonzinho e estava rico. Do contrário, Amora iria ficar contando centavos o resto da vida, pois não conseguiria um emprego decente, depois de tudo o que fez.
Fabinho a ajudaria a cuidar dos sobrinhos. Bárbara achava que não seria difícil, afinal, Fabinho já foi obcecado por Amora. Amora até argu-mentou com a mãe, dizendo que Fabinho estava com a Giane e que ele a odiava, mas Bárbara disse que ódio e paixão eram dois lados da mesma moeda e que Amora era mais articulada que Giane. Que era só Amora querer que Fabinho voltaria a comer na mão dela.
Mas agora que chegou na casa de Fabinho, Amora tinha dúvidas. Até ficou tentada com a ideia de casar com Fabinho, não podia negar. Teria muitas vantagens. Seria rica novamente. E Fabinho a ajudaria a esquecer Bento. Ela continuava amando Bento, mas não tinha mais chance alguma com ele. E ela tinha certeza de que Bento acabaria voltando com Malu. Ela passou a noite toda pensando no que Bárbara lhe disse. Seria bom para ela e os sobrinhos se ficassem ricos. Porém, não sabia se teria coragem de dar em cima de Fabinho. Ficou até constrangida. O que ela tinha na cabeça, para seguir um conselho da Bárbara, que a abandonou no momento em que ela mais precisava? Que exemplo daria para seus sobrinhos? Ela não precisava dar um golpe. Tinha suas economias e lutaria para conseguir um emprego. Mas já que chegou ali, teria que falar com Fabinho.
— O quê que você quer, Amora? — perguntou Fabinho.
Fabinho não conseguia entender o que Amora veio fazer ali.
— Vim pedir perdão por tudo o que eu te fiz. — disse Amora, entrando.
Fabinho fechou a porta, sem conseguir acreditar no que Amora dizia.
— Será que você consegue me perdoar? — perguntou Amora.
Estava realmente sendo sincera. Ultimamente, ela andou repensando suas atitudes. A irmã, antes departir, havia lhe ensinado muita coisa. Simo-ne pediu para não guardar mais tanto rancor, tanta mágoa, para aprender a perdoar. Foi difícil, mas Amora conseguiu perdoar Simone. Por muito tempo, guardou muita mágoa, muita raiva da irmã por tê-la abandonado. Não suportava nem olhar para Simone, pois a irmã lhe trazia lembranças dolorosas da infância nas ruas. Também não suportava olhar para os sobri-nhos, muito menos para Mayara, que era muito parecida com ela. Olhar para os sobrinhos era como olhar para si mesma. Por isso até ofereceu dinheiro para a irmã e os sobrinhos desaparecerem. Quando Simone reapa-receu, Amora achou que a irmã só se reaproximou dela por ser famosa. Mas estava enganada. Foi difícil aceitar, compreender e perdoar a Simo-ne. Simone dizia que ela devia agradecer a sorte que teve, em vez de ficar com raiva dela. Mas Amora não conseguia e nem queria agradecer por ter sido abandonada nas ruas. Achava que nada no mundo pagava seu sofri-mento. O fato de ter sido adotada por uma atriz rica e famosa não anulava a dor que sentiu. Foi difícil para Amora aceitar seu passado sem mágoa, sem rancor e sem se sentir envergonhada e inferiorizada. Mas ela, aos poucos, acabou aceitando e ela e Simone acabaram se entendendo.
Amora agora sentia-se mal por feito tanta gente sofrer. Antes, acredi-tava que tinha suas razões e tudo o que fez parecia ser a coisa certa a fazer. Acreditava que estava fazendo tudo por amor ao Bento. Achava que Bento merecia mais do que ser um simples florista e morar na zona mais pobre da Casa Verde. Acreditava que Bento devia estar em um lugar melhor, que merecia mais do que uma vida classe média. Bento merecia ser rico e bem-sucedido. Queria o melhor para Bento, que ele fosse poderoso. E é claro que pensou em si mesma em primeiro lugar. Afinal, era uma sobrevivente. Desde cedo, aprendeu que podia contar apenas consigo mesma, com mais ninguém. O mundo era muito cruel. Ela passou por tanta coisa. Foi abandonada na rua pela irmã, deixada com uma mulher que a explorava. Sofreu até abuso sexual. Desde cedo, teve de aprender a se virar. Se ela jogava de modo agressivo, era para sobreviver, para se defender. Por isso, não sentia nenhuma culpa em se colocar em primeiro lugar. E ela queria reconstruir a carreira de modelo e apresentadora e ser feliz ao lado do homem que amava. Ela queria recuperar tudo o que havia perdido: a carreira, a fama, o dinheiro e o Bento. Achava que merecia ser feliz e acreditava que os fins justificavam os meios. Pelo menos, foi isso que Bárbara havia lhe ensinado, que no amor e na guerra valia tudo. Não acreditava que seria feliz na pobreza, pois em seu raciocínio, seria o mesmo que voltar a ficar descalça. Sem dinheiro, não poderia comprar sapatos, e precisava deles para se sentir segura. Tudo bem, ela tinha um bom dinheiro investido, mas achava que o dinheiro não iria durar. Achava que precisava de mais, que o que tinha não era suficiente. Não era de se contentar com pouco. Quanto mais dinheiro tivesse, melhor. Era preciso sempre mais dinheiro para aplacar o vazio que a consumia. Estava acostumada a preencher o vazio com compras e mais compras. Além disso, o que tinha não daria nem para comprar uma casa das mais caras e luxuosas dos Jardins, em localização privilegiada. Queria continuar vivendo no luxo e eliminar as diferenças sociais que haviam entre ela e Bento, pois isso dificultava a relação deles. Queria se vingar de Fabinho também, porque ele a caluniou, destruiu sua imagem, a fez perder trabalhos. Também acreditava que estava se defendendo, pois Fabinho jurou que iria destruí-la. Não podia deixar Fabinho ficar rico e acabar com ela. Acreditava que estava casti-gando Fabinho e premiando Bento, que era uma pessoa incrível e merecia tudo de bom. Achava que Bento faria bom uso do dinheiro. Por isso instruiu Socorro para que fizesse a troca dos exames. Não se importou em passar por cima das outras pessoas.
Na época, achou necessário prejudicar um monte de gente para dar porrada em quem merecia. Achava que Fabinho não valia nada, que não se importava com ninguém, só gostava dele mesmo e só pensava em se dar bem, em arrancar dinheiro do Plínio. Fabinho não merecia se dar bem. Estava merecendo levar uma rasteira. Amora queria mais era que Fabinho se ferrasse. Também acreditava que Malu era uma invejosa, que não gos-tava do Bento de verdade, só queria tirá-lo dela, Amora. Sabia que Plínio desprezava Fabinho e iria adorar ter um filho como Bento. E era óbvio que Irene não se sentia feliz por ter Fabinho como filho, pois o rapaz era um poço de problemas e ela se enchia de culpa. Bento era o filho que qualquer pai, qualquer mãe gostaria de ter. Quanto a Bento, Amora acreditava que ele não gostava da Malu de verdade. Bento gostava dela, Amora. Só estava confuso. Bento estava era usando a Malu para esquecê-la. Bento certa-mente sofreria por achar que estava namorando a irmã, mas isso iria passar. Além do mais, Bento ficaria feliz tendo como pais o Plínio e a Irene, e ainda ficaria rico. E Amora sabia que muita gente, incluindo o povo da Casa Verde, cairia facilmente na armação. Mesmo as pessoas que trou-xeram os bebês para o lar. Uma ou outra pessoa podia até questionar os resultados dos exames, mas acabaria confiando no laboratório. Aquela gente não era muito inteligente, e todos odiavam Fabinho. Todos sempre acharam Fabinho um mau-caráter, desde quando ele era pequeno, e iriam preferir que Bento herdasse a fortuna. Todos iriam torcer para Bento ser filho do Plínio. Ninguém iria achar que dois exames estariam errados. No raciocínio do pessoal, o laboratório não cometeria dois erros tão crassos. E foi muito fácil enganar e manipular aquele povo, porque Fabinho aprontou e deixou aquela gente com mais raiva ainda. Fabinho era tão óbvio e previsível que acabou até ajudando nos planos dela, Amora. Sempre foi problemático, encrenqueiro, vivia infernizando todo mundo. Além do mais, Bento e Malu eram até parecidos fisicamente, e também no caráter. Todos iriam acreditar que eram irmãos de fato.
Amora achava que estava fazendo o melhor para ela e para Bento. Mas não podia contar a Bento seus planos, nem dizer suas reais intenções, pois Bento jamais concordaria. Bento era uma pessoa íntegra. Nem ele, nem ninguém podia desconfiar que ela estava dando um golpe. Por isso ela fingiu ceder, que iria fazer o que Bento queria. Tudo o que Bento queria era que ela construísse uma vida que ele considerasse mais digna, longe da ostentação e da futilidade. Então ela fingiu querer mudar de vida, largar a vida de celebridade, o luxo para viver na Casa Verde. Fingiu aceitar viver no mundo dele, como ele queria, para depois dar um jeito de trazê-lo para o mundo dos ricos e famosos, ao qual ela estava acostumada. Procurou agir de maneira que Bento nem desconfiasse de que ela estava de olho no
dinheiro do Plínio. Fingiu ter mudado muito antes do exame de Bento dar positivo. Bento tinha de acreditar na sua bondade, no seu desinteresse. Tinha de acreditar que ela estava voltando a ser a garota doce e simples que ele conheceu na infância. Ela achava que, ficando rico, Bento acabaria cedendo. Achava que conseguiria, aos poucos, convencer Bento a mudar de vida. Fez de tudo para separar Bento de Malu e casar com ele, até posou de heroína. Se mentiu, armou, foi para ficar com Bento e levar a vida que merecia, que havia nascido para ter. Mas tudo deu errado. Não imaginou que Bento fosse tão orgulhoso, tão cabeça-dura, nem que teria tanto pudor em aceitar a ajuda de Plínio. Por isso armou mais ainda para forçá-lo a botar a mão na grana. E antes que pudesse aproveitar, foi desmascarada. Acabou perdendo o Bento e também a chance de reconstruir sua carreira. Amora agora sabia que não precisava ter feito tudo o que fez. Não precisava ter feito tanta gente sofrer, ter passado por cima das pessoas para botar a mão na grana do Plínio. Não precisava ter feito Bento ocupar o lugar que era do Fabinho. Afinal, Bento já tinha um pai rico, que era Wilson Rabelo. Amora agora entendia que foi muito egoísta, cruel, ines-crupulosa, que só pensou em si mesma, e não se importou com os senti-mentos dos outros. Agora se deu conta de que o que fez foi horrível. Lamentava ter prejudicado, causado sofrimento nas pessoas, ter feito o Bento de idiota. Ela fez o Bento viver uma mentira. Não somente ele, como um monte de gente. Lamentava ter mentido tanto para o Bento, fingido que estava grávida. Ela o fez sofrer pela morte de um filho que nem existia. Também lamentava ter feito mal à Malu, apesar de sempre ter tido uma relação áspera com a irmã adotiva. Ela e Malu nunca se deram bem, e tudo piorou depois que Malu se meteu com Bento. Amora nunca enxergou Malu como irmã. Nem ela, nem Luz, Kevin e Dorothy. Para Amora, irmãos eram os de sangue e ela só tinha uma irmã, Simone. Além disso, ela sofreu tanto com o abandono de Simone que evitou se apegar aos irmãos adotivos, para não sofrer novamente. Bárbara podia não ser sua mãe de verdade, mas era sua cúmplice e lhe ensinou tudo. Achava que sua única família era a mãe adotiva e que o resto era tudo gente falsa. Como havia perdido a mãe muito cedo, acabou se apegando a Bárbara e buscado sempre a aprovação dela, porque sentia que só seria aceita agradando Bárbara. Ela nem se lembrava direito da mãe biológica, apenas que era alcoólatra. Amora agora se arrependia do que fez com Malu, com todo mundo.
Amora ficou com muito ódio da Malu. Malu vivia atrás do Bento. Malu dava em cima do Bento mesmo enquanto ele estava com ela, Amora. Malu a provocava o tempo todo. Ficava se fazendo de amiguinha do Bento, se insinuando, como quem não queria nada, se aproveitando de brigas e desentendimentos entre ela, Amora, e Bento para dar o bote. Amora ficou com tanto ódio de Malu que quase fez uma besteira. E num impulso, quase matou Malu sufocada com um travesseiro. A sorte foi que Emília chegou na hora e a viu com um travesseiro na mão. Então Amora inventou uma desculpa, disse que tinha vindo pegar um travesseiro que Malu tomou dela. Obviamente, Emília não acreditou, mas também não tinha certeza do que Amora iria fazer com o travesseiro. Mas agora Amora entendia que não precisava ter quase matado a Malu. Não precisava ter feito Malu acreditar que Bento era irmão dela. Não precisava ter colocado a vida do Bento em risco, posar de heroína. Agora sabia que foi longe demais.
Amora sabia que Bento podia ter se machucado gravemente e até morrido naquele incêndio. De fato, ao decidir riscar o fósforo, ela sabia que estava assumindo o risco. Mas ainda assim, ela foi em frente, pois a inten-ção não era matar o Bento. Sabia que estava arriscando a própria vida e a do Bento, mas não se importou, pois acreditava estar no controle e que nada de mal aconteceria ao Bento, no que dependesse dela. Quando riscou o fósforo, acreditava que nada daria errado. Achava que daria certo, que nem ela nem Bento sairiam machucados do incêndio. No raciocínio dela, só estava prejudicando Bento um pouco para sair como heroína e ainda dar porrada em quem merecia. Entrou em desespero quando se viu em dificuldade para tirar Bento do local. Gritou por socorro, até chamar a atenção dos vizinhos. Para apagar o fogo, foi necessária a ajuda da vizi-nhança. Mas na época, o que importava para ela era posar de heroína para o Bento, atingir a Malu e incriminar o Fabinho.
Agora lamentava ter feito tudo o que fez. Fez coisas horríveis, usou de métodos ilícitos para se vingar das pessoas, e para obter vantagens para si própria. Não havia justificativa para suas armações. Aprendeu que a maldade não compensava. De nada valeram suas mentiras, suas arma-ções, seus crimes. Acabou sem nada e quase sem ninguém, com exceção dos sobrinhos. Por isso pediu perdão para Malu, para Plínio, Irene. Agora faltava pedir perdão para Fabinho. Ele foi a pessoa que ela mais preju-dicou. Quase morreu por causa dela.
— Você veio aqui me pedir perdão? — perguntou Fabinho, sem acreditar.
— É que aconteceu muita coisa ruim. — disse Amora. — Eu tive que repensar minha vida e eu percebi que você foi uma das pessoas que mais sofreram por minha causa.
Para Fabinho, era difícil acreditar na sinceridade de Amora. Remorso não era a praia dela. Ela jamais se importou com ele. Só queria se dar bem. Aliás, exatamente como ele havia sido um dia. Ele sempre se colocava em primeiro lugar e não se importava em se dar bem às custas dos outros. Mas não era mais assim. Ele até acreditava que as pessoas podiam mudar. Ele mudou. Mas se tratando de Amora, duvidava que ela estivesse realmente arrependida de ter quase acabado com a vida dele. Ela o desprezava. Se ela pudesse, faria tudo de novo. Ela não o enganava.
— Hum. O que é que você quer com esse papo todo?
— É que agora, te vendo aí feliz e vitorioso, eu... Eu me sinto mais aliviada, porque mesmo pelos caminhos tortos, você, no fim das contas, acabou dando tudo certo pra você, né? — disse Amora. Estava sendo since-ra. Ela se sentia mal pelo o que fez, e se sentiria ainda pior se Fabinho tivesse morrido. Por isso estava aliviada ao ver ele estava bem, que estava feliz e que tudo deu certo para ele, apesar de tudo o que ela fez.
Fabinho começou a coçar a orelha, ao mesmo tempo em que esboçava um sorriso irônico. Não conseguia entender o que Amora pretendia com essa conversa. Agora que ele estava rico e ela estava na pior, ela vinha pedir perdão. Será que ela estava sendo sincera, ou tentando dar um golpe nele? Amora era pilantra, era bom sempre ficar com o pé atrás.
— Fala, o que você quer comigo? — perguntou Fabinho.
— Eu resolvi pedir perdão pra todas as pessoas que eu prejudiquei na minha vida. — disse Amora, e suspirou. — Ontem eu falei com a Malu e com os seus pais e...
— Ah, é, com meus pais? Ah, é? — disse Fabinho, irônico. — Eles abriram uma garrafa de champanhe e comemoraram, como é que foi?
— Sem ironia, Fabinho. — disse Amora. — Eu tô sinceramente arrependida.
— Por quê que está arrependida? Você acabou de dizer que, mesmo por caminhos tortos, acabou tudo dando certo pra mim. — disse Fabinho, irônico. — Então quer dizer que eu fui parar na rua, eu sofri que nem um cão porque você sabia que pessoas boas iam me dar uma segunda chance? Amora, onde é que você viu isso tudo? Uma bola de cristal?
Amora até entendia que para Fabinho era difícil de acreditar na sinceridade dela. Afinal, ela mentiu tanto, armou, fez de tudo para destruí-lo e ainda se dar bem em cima do sofrimento dele. Até colocou a vizinhança contra ele. Ele quase foi linchado por conta daquela história do falso aborto, e tudo para Malu não abrir a boca, para se livrar da mentira e porque ela queria forçar Bento a se mudar da Casa Verde e comprar uma casa nos Jardins. Ela tinha um trauma e não suportava viver na Casa Verde, também morria de medo de perder o Bento, mas não justificava. Ela entendia que não seria fácil para Fabinho perdoá-la. Ela foi muito cruel, fez muito mal a ele. Não podia culpar Fabinho por não acreditar nela, por ter raiva dela. Ainda assim, sentia necessidade de pedir perdão.
— Você tem todo direito de sentir raiva. — disse Amora. — Mas eu queria te pedir. Por favor, me perdoa. A sua compaixão é mais importante do que a de todas as outras pessoas que eu prejudiquei. Me perdoa, Fabinho.
Fabinho não sabia se conseguiria perdoá-la algum dia. Tudo bem, ele não agiu de modo correto com Amora. Ele a ameaçou, chantageou para que se casasse com ele, e como ela se recusou, ele a caluniou. Amora perdeu trabalhos por causa dele, a imagem dela diante da mídia ficou arruinada. Fabinho reconhecia que não era nenhum santo. Errou feio e não havia justificativa para o que ele fez com Amora. Mas ainda assim, também não havia justificativa para tudo o que Amora fez contra ele. Havia várias maneiras de dar o troco, e Amora escolheu a maneira mais sórdida, mais cruel. Por causa dela, ele passou fome, frio, apanhou, ficou doente e quase morreu. Ela enganou todo mundo, manipulou a vida de muita gente e fez o Bento ocupar o lugar que era dele, tudo para botar a mão na grana do Plínio. Ela o afastou da família biológica. Nunca imaginou que um dia Amora apareceria em sua casa pedindo perdão. Ele perdoou as pessoas ali da rua por terem escondido sua origem, desistiu de se vingar, para não guardar mais rancor e poder seguir em frente. Mas não era tão evoluído. Só o tempo iria dizer se ele conseguiria perdoar Amora. Por enquanto, tudo era ainda muito recente e ele não acreditava na sinceridade dela.
— Amora, eu tô muito surpreso com a sua humildade. — disse Fabinho. — Agora, a minha compaixão? Você viveu todo esse tempo muito bem sem ela. Por quê que você quer agora?
— É que eu não sei se eu consigo continuar com a minha vida sem esse perdão. — disse Amora.
Fabinho, porém, continuava desconfiando de Amora. No pondo de vista de Fabinho, Amora não estava arrependida. Só lamentava ter sido desmascarada e ter perdido tudo, não poder mais viver no luxo e no glamour. Amora devia estar odiando viver na pobreza e morrendo de saudades da vida de antes, quando ainda vivia na casa da Bárbara e era a it girl número um do país. Agora, quem estava morando na mansão que era da Bárbara eram Plínio e Irene, junto com Malu, Madá, Emília e os outros filhos adotivos da Bárbara. Plínio e Irene agora estavam lutando pela guarda de Luz, Kevin e Dorothy. Pela guarda, não pela adoção, pois os irmãos de Malu já haviam sido adotados pela Bárbara e não havia como revogar.
— É? E você já se conformou de ter perdido aquele vidão que você tinha na casa da Bárbara? — disse Fabinho, irônico. — Falando nisso, você sabe quem vai ficar no seu quarto? Papai e mamãe. E aquele seu closet cheio de sapatos? Sabe quem vai ficar lá? Meu irmãozinho. Eu tô pensando em ir pra lá também. Não sei. O quarto da Bárbara tá vazio e de repente eu e Giane. Não sei ainda. Bom, eu tenho que trabalhar, tá? Tchau.
Ele não pensava seriamente em se mudar para a mansão e viver com Plínio e Irene. Estava só querendo pisar em Amora. Ele estava procurando uma casa enorme para morar com Giane, Margot e Silvério. Se Margot, Giane e Silvério não quisessem ir para os Jardins, uma alternativa seria se mudarem para o Jardim São Bento, bairro nobre que não ficava longe dali e pertencia ao distrito da Casa Verde. Mas ele iria pensar ainda.
Amora realmente sentia falta da vida de antes, mas tinha consciência de que foi ela quem colocou tudo a perder, quando decidiu mandar Socorro adulterar os exames de DNA. Tudo bem, ela tinha perdido trabalhos, e perdido muito dinheiro. Sua imagem estava arruinada, o país inteiro achava que ela era uma vagabunda. Mas com o tempo, o povo iria esquecer os escândalos e ela poderia ter começado tudo de novo. Ela poderia ter reconstruído a carreira do zero. Aliás, ela estava até tentando fazer isso.
Mas na época, achou que a troca dos exames resolveria todos os seus problemas: se vingaria do Fabinho, reduzindo-o a pó, ele não poderia fazer mais nada contra ela; separaria Bento de Malu e ainda transformaria Bento em um milionário, eliminando assim as diferenças sociais entre eles. Agora se deu conta de que errou, que não precisava ter feito nada do que fez. Ela teria conseguido reconstruir a carreira, era questão de tempo, e Bento era filho do Wilson. Se na época ela ficasse sabendo que Bento era filho do Wilson, dono do Kim Park, ela não teria mandado trocar os exames. Na época Wilson era rico, não tinha falido. Ela estragou tudo, e agora não adiantava chorar pelo leite derramado.
Mas ainda precisava fazer uma última pergunta para Fabinho. Precisava saber se Fabinho gostou dela de verdade, ou estava só querendo disputá-la com Bento. Ela sempre achou que Fabinho havia se aproximado dela porque era rica e famosa, e para tirá-la do Bento.
— Só mais uma coisa. — disse Amora. — Quando você me pediu em casamento... Naquela vez... Você... Você gostava de mim de verdade?
Fabinho não estava entendendo. Por que Amora queria saber? O que Amora pretendia com essa conversa? Será que ela estava tentando seduzi-lo?
— Nossa, que pergunta instigante, né?
— Pra mim é importante saber a verdade. — disse Amora.
Na verdade, Fabinho se aproximou de Amora porque era rica e famo-sa. Nunca gostou de Amora de verdade. Nunca nutriu uma paixão intensa por ela. Só botou na cabeça que iria conquistá-la e ficar com ela a qualquer preço. Na época ele julgava que, por ser filho do Plínio Campana, um dos mais importantes cineastas do país, merecia estar ao lado de Amora Campana, mais do que o Bento. Pretendia casar com ela e unir as fortunas. Havia cismado com ela. Amora para ele era um troféu, estar com ela significava estar no topo. Ele só amou de verdade uma única mulher em toda sua vida, e não era Amora. Só achava que teria muitas vantagens em ficar com Amora. Mas o que ele sentia por Giane, nunca sentiu por ninguém. Nunca teve por Amora um sentimento tão forte, intenso, nem tão profundo, e foi por orgulho ferido que se vingou dela.
— Amora, você tinha dinheiro. Você tinha status. Que era tudo o que eu sonhava. Amor mesmo, só fui sentir pela Giane. Você acha que eu sou o que, otário que nem o Bento e o Maurício? — disse Fabinho.
Amora suspirou.
— Se enxerga. Vai embora, por favor. — disse Fabinho, indo para o quarto.
Amora viu que Fabinho havia deixado o celular sobre a mesinha. Resolveu levar o celular. Precisava descobrir se era ele quem estava mandando aquelas mensagens ameaçadoras. Fabinho já foi obcecado por ela, e ela já aprontou muito com ele. Ele continuava com raiva dela, não a perdoou.
Podia ser ele seu inimigo oculto. Não custava nada verificar. Pegou o celular de Fabinho e foi embora.
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