Um amor improvável
59 O namoro acabou
Passaram-se umas duas semanas. Giane continuava trabalhando como modelo, estagiando na agência Karmita e ajudando Bento com as flores. Fazia de tudo para animar o amigo. Bento continuava arrasado, por conta da história com Amora, mas estava tentando seguir em frente. Aos poucos, com ajuda dos amigos, estava voltando a ser o rapaz alto astral de antes. Continuava trabalhando na Acácia Amarela e também trabalhava no projeto da Toca do Saci com a Malu, dando aula de horticultura para as crianças.
Bento ainda não se entendeu com Wilson, nem com Glória. Bento gostava de Glória. Para ele, Glória era como se fosse sua avó. Até descobrir que ela o abandonou. Bento ficou magoado. Não queria olhar para Glória, nem para Wilson. Wilson agora sabia que Bento nada tinha a ver com a sabotagem do bufê do Kim Park, e Bento sabia que não foi Wilson quem empurrou a Malu da escada. Bento ficou sabendo de toda a história. Foi Damáris quem separou Wilson de Lívia. Quando Lívia engravidou, Damáris a procurou e disse que estava com Wilson. Glória, que nunca aprovou o romance da filha com Wilson, por ele ser motorista na época, ficou com ódio de Wilson. Acreditou que ele estava tendo um caso com Damáris, e levou Lívia para o interior. No ponto de vista de Glória, Wilson era um golpista. A família de Glória já não era rica na época. Mal tinham dinheiro para pagar os empregados e manter o casarão onde moravam. Porém, Glória nunca acreditou que na sinceridade do amor de Wilson por Lívia, e não aprovava o romance da filha com um serviçal. Lívia ficou muito magoada com Wilson, pois achou que foi traída. Jurou nunca perdoar Wilson. Como Wilson se casou com Damáris logo depois, Glória devia ter pensado que ele havia mesmo traído Lívia e que ele era realmente um golpista, pois a família de Damáris era rica. Lívia, que tinha sérios problemas de saúde, acabou morrendo no parto. Glória ficou tão abalada com a morte de Lívia, que acabou entregando o neto nas mãos do Silvério, e disse a todos que o neto havia morrido. Não informou a ninguém onde Lívia havia sido enterrada. Só mais tarde Wilson soube que Lívia havia sido enterrada em uma fazenda perto de Mococa, no interior de São Paulo. Porém, Wilson descobrira que a fazenda havia sido desapropriada e no lugar tinha uma usina de açúcar. O cemitério não existia mais. Assim, ele não pôde visitar o túmulo de Lívia, e achava que o filho estava morto. Ele e Lívia pretendiam dar ao filho o nome de Kim. Ele construiu o parque em homenagem ao filho, e pôs o nome que seria do filho.
Por muito tempo, Wilson não soubera da armação de Damáris. Não entendia por que Lívia rompeu com ele e foi embora com a mãe. Wilson só entendeu o ódio da Glória no dia em que Damáris confessou tudo o que fez, no dia do casamento dele com Charlene. Ainda assim, mesmo com tudo esclarecido, pai e filho não conseguiram se entender, pois eram dois turrões. Para Bento estava sendo difícil aceitar Wilson como pai, depois de tê-lo odiado uma vida inteira. Também não estava sendo fácil para Wilson aceitar que o filho que ele tanto amou, mesmo achando que estava morto, e para quem havia construído o parque, era o mesmo rapaz que ele sempre detestou e que também o detestava. Os dois nunca se deram bem, viviam batendo de frente. Wilson achava que não conseguiria perdoar Glória por ter escondido dele que o filho estava vivo, e por ela ter abandonado o neto. Mas Gilson, Salma e Charlene estavam fazendo de tudo para que pai e filho se entendessem, se perdoassem e se reaproximassem.
Wilson acabou falindo. Depois da sabotagem, teve de vender o Kim Park para os estrangeiros, por um preço menor do que valia. Com o dinheiro, Wilson se livrou das dívidas e das indenizações que teve de pagar aos clientes por conta do acidente. Agora, Wilson teria de arrumar um emprego.
Malu continuava triste pelo término do namoro com Maurício, que continuava inseguro, por conta da história de Bento e Malu não serem mais irmãos. Maurício viajou, foi para um evento no interior e já estava de volta. Estava investindo em um novo negócio. Nem bem Maurício voltou, Malu já mandou flores com cartão para ele. Malu queria muito voltar com Maurício. Porém, Maurício achava melhor dar um tempo, pois precisava ter certeza de que Malu gostava mesmo dele. Afinal, Malu tinha uma história mal resolvida com Bento e Maurício não queria ser uma segunda opção. Queria Malu inteira para ele. E o problema era que Malu não desgrudava do Bento. Mas no ponto de vista de Malu, Bento era seu amigo. Era seu parceiro nos projetos. O que ela queria mesmo era ficar com Maurício.
Depois que Amora se mudou com a irmã e os sobrinhos da Casa Verde, e principalmente, depois do escândalo na Para Sempre, na frente da Sueli Pedrosa, ninguém mais teve notícias dela. Amora agora estava vivendo com Simone, André e Mayara, e até havia arrumado um emprego. E cortou relações com Bárbara, que a abandonou no momento em que ela mais precisava. Bárbara agora só ligava para ela para pedir dinheiro. Estava cheia de dívidas, ainda mais depois que Malu deixou de bancá-la (ela e Malu tiveram uma briga feia por conta da história dos sapatos de Amora, que Malu, Madá e Giane levaram para a casa do Bento). Só que Amora não daria um tostão para Bárbara, ainda mais com a irmã doente.
Irene e Plínio continuavam felizes, ainda mais com o bebê a caminho. Estavam trabalhando no filme que pretendiam fazer sobre Isaurinha Garcia. As filmagens do filme começariam depois de o bebê nascer. Ainda demoraria bastante, o que era normal para uma pré-produção de um filme. Irene estava quase entrando no quarto mês de gestação.
Fabinho e Plínio fizeram um novo exame de DNA e deu positivo. Como das outras vezes, Plínio pediu urgência e o resultado do exame chegou rápido. Plínio conversou com o advogado para doar parte de seus bens para Fabinho. Mas mexeu na parte disponível da herança, a que podia ser livremente disposta. Não mexeu na parte da Malu, da Irene e do bebê que estava para nascer. E Plínio não registrou Fabinho como filho, pois o rapaz já foi adotado por Margot, e a adoção é irrevogável. Plínio e Irene não iriam querer tirar os direitos de Margot, de qualquer maneira. Ela criou Fabinho com todo o amor e carinho e, legalmente, Fabinho continuaria sendo filho dela. Fabinho decidiu continuar morando com Margot.
E com o dinheiro que herdou, Fabinho se tornou sócio da Crash Mídia junto com Érico e Sílvia. Até compraram o prédio da Class Mídia. Natan agora estava falido, depois de ter confessado ao cliente ter roubado a campanha da Crash Mídia. Só restou a Natan mudar de ramo.
Érico, Sílvia e Fabinho foram à nova sede da Crash Mídia, que agora passaria a funcionar no prédio que antes pertencia a Natan. Haviam contratado até mesmo novos funcionários, como a Karol, que antes era secretária de Natan. Érico entrou no prédio junto com Sílvia e surpreendeu-se ao ver Natan.
— Natan, pensei que você já tivesse ido. — disse Érico.
— Pois é, eu fiquei pra dar as boas-vindas. Aqui. — disse Natan, entregando a chave a Érico.
— Valeu. — disse Érico. Dirigiu-se a Karol. — Karol, bem-vinda à Crash Mídia. Onde você não vai ter nem capuccino e nem lanchinho na sala do chefe. — estalou os dedos. — Olha que slogan bom.
Érico foi para a sala que seria sua. Sílvia aproximou-se de Natan.
— E você, Natan? Quê que você vai fazer da sua vida agora?
— Mudar de ramo, né, Sílvia? Não dá pra continuar em publicidade depois da péssima reputação que eu tô no mercado. — disse Natan.
Fabinho entrou na agência neste momento.
— E aí, Natan? Olha, agradeça à Sílvia por não ter sido processado. — disse Fabinho. — Porque se dependesse do Érico, você tava ferrado. E aí? — deu uns tapinhas no ombro de Natan. — Tá arrependido por não ter me contratado quando eu tava na pior?
Fabinho não podia deixar de pensar que se Natan o tivesse contratado, ele não teria ido parar nas ruas, não teria virado mendigo.
— E você? Tá arrependido por não ter aceitado a sociedade comigo quando ainda achava que era filho do Plínio Campana? — perguntou Natan.
Fabinho riu. Reconheceu que também errou ao não aceitar a sociedade com Natan. Se ele não tivesse debochado de Natan, talvez Natan o tivesse ajudado.
— Não, tudo bem, sem ressentimentos. Agora eu sou o Fabinho paz e amor. Olha, Natan, eu tenho que reconhecer, dentro da sua canalhice, você foi muito legal comigo. Obrigado. — disse Fabinho.
— Eu sei que você fez por merecer, mas não pense que eu tô contente. — disse Sílvia, estendendo a mão para Natan, que apertou-a.
— Você é uma alma gentil, Sílvia. — disse Natan, e beijou a mão de Sílvia. Colocou a mão sobre a dela. — Pena eu não ter ouvido os seus conselhos.
Natan soltou a mão de Sílvia para pegar a caixa com seus materiais.
— Bom, eu não vou desejar boa sorte, porque eu não sou hipócrita. — disse Natan. — De qualquer forma, vocês não vão precisar dela. Vocês têm talento.
Natan foi embora.
— Tchau. — disse Fabinho.
— Ai, meu Deus! — disse Sílvia, suspirando.
— É... — disse Fabinho.
— Sabe, que apesar de tudo, eu fico com pena. — disse Sílvia.
— Sílvia. — disse Érico, descendo as escadas. — Vem cá me ajudar a pensar na nossa nova sala.
— Quer uma ajuda? Compra 2 quilos de sal grosso, tem que espalhar. — disse Fabinho.
Sílvia e Érico riram.
— Ah. — disse Sílvia, colocando a mão no braço de Fabinho. — Cadê o papel que eu te mandei pra gente mandar pro banco?
— Só falta a assinatura do Plínio. — disse Fabinho, pegando o celular do bolso. — Eu vou pedir pra Giane passar na casa dele agora.
— Vamos lá. — disse Sílvia, batendo com a mão aberta na de Érico.
Fabinho ligou para Giane, e pediu para ela passar no apartamento de Plínio. Giane foi até o apartamento de Plínio, porém, encontrou apenas Celinha, a secretária dele, lá. Resolveu ligar para Fabinho.
— Fabinho, eu vim aqui trazer o papel pro Plínio assinar, mas a Celinha me disse que ele não tá aqui. Ele tá lá na casa da Bárbara.
— Avisa pra ele que eu não sei que horas que ele vai chegar porque tá o maior bafafá por lá. — disse Celinha.
— Você ouviu o que ela disse? — perguntou Giane, ao celular. Fabinho ouviu o que Celinha disse.
— Então, me encontra na casa da Bárbara que a gente pega a assinatura do meu pai lá. — disse Fabinho.
Giane e Fabinho foram até a casa de Bárbara. Quando chegaram, quem atendeu foi a Luz.
— Oi! Oi! Tudo bom? — disse Luz, cumprimentando-os. — Tudo bem? — disse Fabinho.
— Tudo bem? — disse Giane. — Entrem. — disse Luz.
— O Plínio tá aí? — perguntou Giane, entrando junto com Fabinho.
— Tá. Tá sim. — disse Luz, fechando a porta. — Tá lá em cima. Nossa, vocês não sabem a confusão que tá essa casa, hoje.
— Só hoje? — perguntou Fabinho. Não havia um só dia que não tivesse confusão na casa de Bárbara Ellen.
— Sabe o Bolívar? — perguntou Luz.
— O criado mudo? — perguntou Fabinho, sorrindo. Afinal, Bolívar não abria a boca por nada. Fabinho nunca ouviu o som da voz do sujeito.
— É. Só que ele não é mudo e é o pai da Dorothy. — disse Luz. Todos haviam acabado de descobrir que Bolívar era clandestino e deu
Dorothy em adoção por não ter condições de sustentá-la. E ficou trabalhando na casa para ficar perto da filha, com a condição de permanecer em silêncio. Porém, em todos os anos em que trabalhou na casa, não recebeu um centavo.
— Gente, caramba! Emoção é o que não falta aqui, né? — disse Fabinho.
— Pois é. — disse Luz.
— Falando nisso, a doce mamãezinha tá aí? — perguntou Fabinho, referindo-se à Bárbara.
— Infelizmente. — disse Luz.
Logo Plínio e Irene desceram. Plínio, Irene, Giane e Fabinho sentaram-se no sofá. Plínio assinou o papel e entregou para Fabinho.
— Maravilha! Obrigado, hein! Valeu. — disse Fabinho, e começou a enfiar o papel no envelope. — Bom, vou embora agora, antes que a bruxa desça aí, daqui a pouco.
— O quê que é isso? — disse Bárbara, descendo as escadas. — Ai, meu Deus do céu! — murmurou Fabinho.
A última coisa que queria era cruzar com a megera.
— O que essa gente tá fazendo aqui? Por acaso, isso virou a sucursal da Casa Verde? — perguntou Bárbara, aproximando-se.
— Como é que tá, Bárbara? Tudo bem, querida? — perguntou Fabinho, irônico.
— Giane! — disse Dorothy, alegre, correndo em direção à Giane.
— Oi, amor! Tudo bom? — disse Giane, abraçando-a. — Tô sabendo que é o seu aniversário hoje, hein, garota!
— É. Olha o que eu ganhei! — disse Dorothy, aproximando-se de Bolívar e abraçando-o. — Um pai! Você vai ficar pra cortar o bolo! Ah, fica, vai?
— Mas o que é isso, Dorothy? Você tá querendo me afrontar, não é? — disse Bárbara. — Que importância essa gente tem pra você? — apontou para Giane e Fabinho.
— A partir de agora, eu só quero me cercar das pessoas que eu possa confiar. — disse Dorothy. Afinal, Bárbara sempre escondeu a verdadeira origem dela. Não apenas dela, como também dos irmãos. Bárbara vivia inventando histórias. Dizia que Luz viera da selva amazônica, que Kevin viera da África e que Dorothy viera da Tailândia. Em todos aqueles anos, Bárbara dissera que salvara Dorothy do tsunami na Tailândia. Fez a menina acreditar que perdeu a família biológica na catástrofe. Mas na verdade o pai dela era Bolívar. Ela tinha os olhos puxados porque tinha ascendência japonesa. Mas sua família era de Cochabamba, na Bolívia.
— E o Fabinho é uma pessoa da sua confiança? — perguntou Bárbara. — Como é ingrata! — abanou a cabeça. — Bolívar, fala pra ela, o bem que eu fiz pra essa menina, pra você, pra sua família! Fala, homem!
Bolívar ficou calado, não emitiu um som. Olhou feio para Bárbara. — O que foi? Voltou a ficar mudo, é isso? — perguntou Bárbara. — Bruja asquerosa! — xingou Bolívar, e retirou-se.
Fabinho gargalhou, e levantou-se do sofá. Achou graça.
— Bruja! Espanhol até. — disse Fabinho, e aproximou-se de Dorothy. — Esse aí é dos meus, hein! — passou a mão no cabelo da garota, bagunçando-o. — Gostei do seu pai. Agora, vou ficar pra cortar o bolo, também. Faço questão.
Dorothy riu. Um pouco mais tarde, começaram a arrumar a mesa. A casa estava toda enfeitada com balões, e a mesa estava cheia de doces. Madá e Emília trouxeram brigadeiros para a mesa.
— Ah, não, mas esse é do coloridinho? Ah, não, esse é bom. — disse Fabinho, pegando o brigadeiro do porta-doces que Madá segurava.
— Ah, o outro! — disse Madá, levantando a mão, querendo dar um tapa na mão dele. Fabinho era um folgado mesmo.
— Ah, para! — disse Fabinho.
— Fabinho! — recriminou Dorothy. — Um só! Ô! — disse Fabinho.
Emília riu. Fabinho saiu da sala de jantar, sendo seguido por Giane.
— Aqui ó. — disse Fabinho, entregando o doce para Giane.
— Obrigada. — disse Giane.
Ao entrarem na sala de estar, encontraram Bárbara sentada no sofá.
— Bárbara Ellen, você vê, esse mundo é muito louco, né? — disse Fabinho, sentando-se no braço do sofá e fazendo movimento giratório com o dedo. — As voltas que esse mundo dá. Você fez de tudo pra ferrar os meus pais e agora, tá aqui, né? Quem nem aquela música do Cazuza: “dependendo da caridade de quem” — começou a cantarolar. — “a tua piscina tá cheia de ratos”, “tuas ideias não correspondem aos...” — riu. — Essa podia ser a tua música-tema, né?
Giane estava adorando as ironias de Fabinho. Ria, achando graça.
— Pode debochar, pode tripudiar, mas eu sei o bem que eu fiz. — disse Bárbara. — E é a Deus... — apontou para cima. — Que eu prestarei as minhas derradeiras contas.
Fabinho achava impressionante. Bárbara fazia uma maldade atrás da outra e dizia que estava fazendo um bem. Ainda tinha a cara de pau de se fazer de santa.
— Hum, santa! — disse Fabinho, rindo. Dirigiu-se à Giane. — Convenceu, não?
— Daria uns 6,5 assim, porque ela sempre foi canastrona, né? — disse Giane.
— É, muito. — disse Fabinho. — Vem cá, Bárbara, ninguém gosta de você, né? Por quê que você não vai morar com o Natan? — sentou-se no sofá. — Será que não é o melhor?
— Você tá louco, moleque? Eu jamais abandonaria os meus filhos! Você tá pensando que eu sou o quê, hein? — disse Bárbara.
— Legenda: eu sei que o Natan faliu. — disse Fabinho, irônico. Giane riu.
— O quê?! O Natan faliu? — Bárbara se fez de surpresa.
— Você não sabe, Bárbara? Novidade pra você. O Natan faliu. Fechou a agência. — disse Fabinho, sarcástico. — Aliás, a Class Mídia, nesse momento, já é nossa.
— Como assim? Vocês compraram o imóvel da Class Mídia?! — disse Bárbara.
— Eu e papai refizemos o exame que a sua filha adulterou. Claro, deu tudo certo. Ele adiantou a minha parte na herança. E eu junto com os meus sócios, Érico Rabelo e Sílvia Laport, compramos a casa. — disse Fabinho.
— Eu não acredito! — disse Bárbara. — Quer dizer então, que agora vocês são os novos bambambãs da publicidade no Brasil?
— É, mais ou menos por aí. Ainda não, mas daqui a pouco seremos. — disse Fabinho.
Bárbara fingiu desmaio. Só que Fabinho não se convenceu.
— Que isso? Isso é um número, uma performance? Ou ela é canastra, assim também? Que isso? — disse Fabinho.
Giane riu e chamou Bolívar:
— Ô da Bolívia, dá um jeitinho aqui ó, dá uma olhadinha nela aí.
Bolívar aproximou-se, deu uma olhada na Bárbara, mas não deu a menor importância. Logo voltou para a sala de jantar.
— Gente, isso é ridículo, né? — disse Fabinho.
Logo todos foram para a mesa.
— Tá linda a mesa, Dorothy! —elogiou Irene, ajeitando os porta-doces.
— Ah, obrigada! — disse Dorothy.
— Vocês que fizeram os docinhos? — perguntou Irene. — Foi! Foi! — disse dona Madá.
— Eu não acredito que eu desmaiei e ninguém me socorreu! — disse Bárbara, entrando na sala de jantar, furiosa.
— Ai, ai. — disse Giane, sem paciência, abraçada a Fabinho.
— Vem cá, falando em socorro, onde é que tá a cocotinha, sua filha? — perguntou Fabinho para Bárbara.
— Eu é que sei? Essa é outra que me renegou! — disse Bárbara.
Fabinho duvidava de que Amora havia renegado Bárbara. Amora gostava dela, sempre buscava a aprovação dela. Certamente, foi Bárbara que resolveu abandonar Amora, depois que todas as tramoias dela foram descobertas. Bárbara não iria querer associar a imagem dela a Amora. Para Fabinho, estava na cara que Bárbara não tinha um pingo de afeto por ninguém. Nem pela mãe, nem pela Malu, que era filha de sangue, nem pelos filhos adotivos. Bárbara não amava ninguém, a não ser a si mesma. Bárbara agora fingia não saber de nada, que não tinha nada a ver com as armações de Amora.
— Gente, a conversa tá muito boa, mas eu tenho que ir pra sessão de fotos, meninos. — disse Giane.
— Vamos. — disse Fabinho.
— Ah! Eu então vou pegar o bolo! — disse Madá. — Bolívar, comigo. Vamos?
— Ah, eu vou junto! — disse Dorothy. — Epa, opa! — disse Madá.
Madá, Bolívar e Dorothy foram buscar o bolo de aniversário.
— Giane, o Bento já se entendeu com o Wilson? — perguntou Plínio. — Não, né? E eu acho que isso vai demorar. Porque do jeito que os dois são cabeçudos. — disse Giane.
— É, e pensar que a dona Glória contou pro Bento que era avó dele no dia dos exames de DNA, e no fim era verdade! — comentou Plínio.
— A velha já sabia que o Bento era neto dela? — perguntou Bárbara.
— Naquela época algumas pessoas já sabiam. — disse Giane. — Tia Salma, tio Gilson, meu pai. E eles iam contar, mas aí teve o exame de DNA, aí eles... Eles acharam que tinham trocado os bebês mesmo.
— Mas se eles sabiam que um dos bebês era filho do Wilson e depois deduziram que não era o Bento, claro que daí eles concluíram que o outro bebê... — disse Bárbara. Pensou logo em uma maneira de se vingar de Fabinho, por ter debochado dela. Ela o atingiria em seu ponto fraco. Era óbvio que ninguém havia contado para Fabinho que ele podia ser filho do Wilson. Todos achavam que ele iria aprontar se ele soubesse que era filho de um homem rico.
— Que podia ser o Fabinho. E daí? — perguntou Giane.
— E daí? E daí que foi uma maldade não ter contado isso pro Fabinho. Afinal de contas, na época, o Wilson era um homem rico e o Fabinho, interesseiro do jeito que é, ia deitar e rolar, não é? — disse Bárbara.
Bárbara sabia que esse era o ponto fraco do Fabinho. As pessoas viviam escondendo coisas importantes sobre o passado dele. Foi assim a vida inteira do garoto, desde quando ele era criança. Por isso ele era tão revoltado. Por isso brigou com o mundo. Foi impedido a vida inteira de encontrar a família de sangue e de desfrutar de tudo que era dele. Primeiro esconderam dele que foi Odila quem o deixou no lar do Gilson. E quando os exames foram adulterados, esconderam que ele podia ser neto da Glória Pais e filho do Wilson Rabelo. As pessoas sempre arrumavam razões para esconder de Fabinho sua verdadeira origem, sua identidade. Sempre o impediam de herdar a fortuna.
— Mãe! Grande coisa, né? Isso não tem mais importância. — disse Luz.
— É verdade, essa história tá resolvida então não tem por quê... — disse Plínio.
Fabinho, porém, ficou chateado. Até então, ele não estava sabendo de quase nada desta história. Tudo o que sabia era que uma mulher desconhecida tinha deixado um recém-nascido nas mãos do Silvério. Uma mulher que tinha uma idade avançada, logo, não podia ser a mãe da criança. Ele, Fabinho, nem sabia quem era a tal da Glória. Nunca se quer ouviu falar dela. Quando ficou sabendo que Wilson era o verdadeiro pai do Bento, ele não ligou os fatos. Na hora, ele não parou para pensar que, se ele era filho do Plínio, foi mesmo Odila, e não Silvério quem o trouxe ao lar. Que se não era ele, o bebê que foi entregue ao Silvério na rodoviária só podia ser o Bento. Afinal, ele e Bento chegaram ao lar no mesmo dia. Fabinho não pensou em nada disso. Também, era muita informação para a cabeça dele. Era uma história tão complexa, era tudo tão confuso que chegava a dar um nó na cabeça. Além disso, ele tinha acabado de saber que os exames haviam sido adulterados, que ele era mesmo filho do Plínio. A última coisa com que ele se preocuparia era em saber da vida do Bento. Por isso acabou nem perguntando nada. Para Fabinho, importava saber da história de sua vida. Não estava interessado na vida alheia. Sabia apenas quem era o pai do Bento. Não se interessou em saber quem era a mãe, nem a avó dele. Não sabia da ligação de Wilson com Glória.
Agora se dava conta. Gilson, Salma e Silvério sabiam há muito tempo que um dos bebês era filho do Wilson. Se deduziram que o filho do Wilson não era o Bento, então haviam concluído que só podia ser ele, Fabinho. Então Gilson, Salma e Silvério sabiam e não falaram nada. Certamente, Giane devia saber também, desde o início. Era possível que ela soubesse disso há muito tempo. Fabinho lembrou-se de que Giane tentou convencê-lo a ouvir o tal do Perácio, e ela deu a entender que sabia de alguma coisa. Será que o tal do Perácio era parente da Glória? Por que Giane não falou nada? Na época ele não quis saber, mas ainda assim, ela podia ter falado. Mas ela nem tocou mais no assunto com ele. Não insistiu. Será possível que logo a Giane, que dizia acreditar nele, foi capaz de esconder coisas tão importantes do seu passado? Por que ela escondeu dele que ele podia ser filho do Wilson? Será que ela não confiava nele? Será que mentiu para ele desde o início do namoro, quando disse que acreditava nele? Será que ela achou que ele daria um golpe no Wilson?
— Calma aí! Calma aí! — disse Fabinho, interrompendo. Dirigiu-se à Giane. — Não entendi. O que aconteceu? Vocês acharam que eu podia ser filho do Wilson Rabelo e não me contaram com medo que eu desse um golpe nele?
Giane ficou por um momento sem silêncio. Para Fabinho, era óbvio que as pessoas não confiavam no caráter dele e achavam que ele iria aprontar.
— Por que vocês não me contaram nada? — perguntou Fabinho.
— Fabinho, você não quis saber! O filho da dona Glória, o Perácio, foi atrás de você pra te contar... — explicou Giane.
Então o tal do Perácio era filho da Glória. Mas Fabinho achava que Perácio estava mentindo, inventando, que estava armando para cima dele, e que não estava procurando sobrinho nenhum. Não de verdade. Ele não conhecia Perácio, e a Giane dissera que Perácio era um picareta.
— Sim, mas eu nem conhecia esse cara! Não podia nem desconfiar que era verdade, mas vocês não! Vocês tinham que ter me convencido! — disse Fabinho.
— Ué, mas eu também só soube depois, a Rosemere só me contou depois... — Giane tentou se explicar, porém, Fabinho interrompeu.
— A Rosemere sabia ou não sabia? — perguntou Fabinho, nervoso. Então a Rosemere sabia. Fabinho lembrou-se de que Rosemere havia tentado convencê-lo a falar com Perácio. Lembrou-se de que Perácio era pai de Filipinho, filho da Rosemere. Todo mundo sabia da história. E todos o fizeram de idiota, incluindo a Giane. E o que mais lhe doía era que Giane dissera que acreditava nele, que confiava no caráter dele. Pelo visto, ela o enganou todo esse tempo.
— Fabinho, meu filho, isso não vem ao caso agora. Não é importante. — disse Irene.
— Isso é só pra você ver como as pessoas próximas a você acreditavam no seu caráter e no seu poder de redenção. Ninguém abriu a boca! Ah! — disse Bárbara. Não podia deixar de botar mais lenha na fogueira. Estava satisfeita. Conseguiu fazer Fabinho brigar com a namorada. Giane sabia que Fabinho podia ser filho de um homem rico e não falou nada. Ficou parecendo que ela não falou nada por não confiar nele.
— É melhor você fechar a sua, Bárbara! — disse Plínio. Achava incrível como Bárbara tinha a capacidade de desagregar e atingir as pessoas em seus pontos mais sensíveis. Ele sabia agora que um dos motivos da revolta de Fabinho era o fato das pessoas esconderem coisas importantes do passado dele. E para Fabinho, era importante que as pessoas acreditassem nele. Principalmente a namorada. Agora Bárbara estava fazendo intriga, tudo para fazer o garoto se revoltar e brigar com a namorada.
— Ui, a verdade incomoda, não é? — disse Bárbara.
— Vocês achavam o quê? Que eu ia dar um golpe nele? — perguntou Fabinho para Giane.
— Não, não é isso! É que você tava indo tão bem, você tava começando a trabalhar, você tava mudando! A gente achou que se... — disse Giane.
— A gente, Giane? A gente? Se fosse a minha mãe a ficar descon-fiando de mim, tudo bem. Mas você? — disse Fabinho, indignado.
Fabinho suspeitava que Margot já devia estar sabendo de tudo. Com certeza, Silvério devia ter contado para ela. E ela não disse nada a ele. Que Margot desconfiasse dele, vá lá. Era compreensível que Margot tivesse escondido a verdade, ou o que ela pensava ser verdade, por medo de ele surtar, voltar a aprontar e deixá-la sozinha outra vez. Margot tinha era medo de sofrer novamente. Ela não queria viver aquele inferno de novo. Até dava para entender, mas ainda assim, não justificava. Margot só pensou nela e ainda não havia entendido que o dinheiro sozinho não teria poder de fazê-lo surtar. Ele ficou deslumbrado. Mas ele surtou não apenas porque iria herdar uma fortuna, mas sobretudo porque estava doente. Porque era maluco. Também porque estava revoltado, cheio de mágoa e rancor. Iria usar o dinheiro para fazer as pessoas que ele julgava o terem prejudicado sumirem de sua vida, para dar o troco no mundo, para preencher um vazio e mostrar que tinha vencido. E para não precisar trabalhar. Mas ele melhorou. Não estava mais doente, tinha parado de aprontar. Estava trabalhando. Havia deixado a revolta para trás. Não iria usar o dinheiro para prejudicar os outros. Ele não era mais aquele tresloucado. Por isso ele agora estava com raiva. Ele havia dado provas de ter mudado, e ainda assim, as pessoas próximas a ele decidiram não contar nada a ele. Que Gilson, Salma, Silvério e demais vizinhos desconfiassem dele, não era nenhuma surpresa. Mas com Giane era diferente. Giane era a namorada dele. Se ela não confiava no caráter dele, se não acreditava na mudança dele, por que diabos ela estava namorando com ele?
— Fabinho! Você tinha aprontado pra caramba, você não lembra? — disse Giane.
— Eu tinha aprontado! E a gente tava namorando já depois disso. Eu já tinha dado duzentas mil provas de que eu tinha mudado! Por quê que não me falaram nada? — perguntou Fabinho, furioso.
— Fabinho, olha só... — disse Giane.
— Pô, Giane, você não acredita em mim, cara? — disse Fabinho.
— Meu Deus do céu! Fabinho, supera isso! Você agora... Você já sabe que você é filho do Plínio, a gente tá junto, você tá com a carreira ótima!
No ponto de vista de Fabinho, não dava para simplesmente esquecer que as pessoas próximas a ele o fizeram de idiota a vida inteira. Primeiro esconderam dele que foi a Odila quem o trouxe ao lar do Gilson. Odila sempre soube quem era a mãe dele, e nunca falou nada. Depois, Gilson, Salma e Silvério esconderam que ele podia ser filho do Wilson e neto da Glória. Mesmo depois de ele ter dado provas de que havia mudado, ninguém abriu a boca. As pessoas sempre arrumavam diferentes razões, diversos pretextos para esconder dele detalhes importantes do seu passado. Não dava para superar. O esforço que ele fez para melhorar, para mudar, de nada valeu, porque as pessoas iriam sempre desconfiar dele, sempre achariam que ele iria dar um golpe. Se era para ser assim, que adiantou ser bonzinho? Era melhor ter continuado a ser o malvado mesmo.
Fabinho não quis mais ouvir nada. Resolveu ir embora. A mulher que ele mais amou na vida não confiou nele, o fez de idiota.
— Fabinho! — disse Giane, indo atrás dele.
— Não, vou embora! Vou embora! Depois a gente conversa! — disse Fabinho, furioso.
— Fabinho, para com isso! — disse Giane.
— Sai! Sai! Não vem! — disse Fabinho, e foi embora.
Fabinho ficou um bom tempo andando nas ruas. Precisava esfriar a cabeça. Giane ligou para ele várias vezes, mas ele não atendeu. Estava chateado, decepcionado com ela. Não queria falar com ela, não queria vê-la nem pintada.
Passou em casa, e contou para a mãe que havia brigado com Giane. Confirmou sua suspeita. Ficou sabendo que, realmente, até Margot tinha conhecimento da história, de que ele podia ser filho do Wilson. Ela ficou sabendo pelo Perácio e pela Rosemere. E ela decidiu não contar nada para ele. Alegou que quis protegê-lo. Mas para Fabinho, ela não queria proteger coisa nenhuma. De que maneira ela achava que estava protegendo, escondendo coisas dele? Para ele, estava na cara que a mãe não contou porque ficou com medo que ele voltasse a aprontar. Ou seja, mesmo depois de ele ter dado provas de ter mudado, a mãe não confiou nele. Fabinho estava revoltado com Margot, Silvério, Giane, todo mundo.
Acabou indo para a antiga sede da Crash Mídia na Casa Verde. Precisava pegar algumas coisas e levar para a nova sede. Érico e Renata estavam lá, e Fabinho acabou desabafando com eles.
— O seu Silvério e a minha mãe me fizeram de idiota. Agora a Giane compactuar com isso, cara? Isso é o que me machuca.
Para Érico, Fabinho estava fazendo tempestade em um copo d’água. As pessoas não contaram porque não queriam que ele sofresse. Glória o rejeitava, nunca quis conhecê-lo, se recusava a considerá-lo neto. As pessoas estavam apenas esperando o momento oportuno para contar. Primeiro, Fabinho precisava mostrar que realmente mudara, e isso levava tempo. Até porque confiança não se conquista de um dia para o outro. As pessoas achavam que só com o tempo Glória aceitaria Fabinho como neto, e só se ele criasse juízo. Além do mais, era natural, depois de tudo o que Fabinho aprontou, que as pessoas tivessem medo de contar a ele. Fabinho podia surtar, deixar o dinheiro subir à cabeça, ficar deslumbrado. Podia também se revoltar contra Glória, querer se vingar. Porque foi Glória quem abandonou o filho do Wilson na rodoviária. Se ele havia se vingado de Odila, por que não se vingaria de Glória? Mas isso não tinha mais importância. Todos sabiam agora que Fabinho não era filho do Wilson, nem neto da Glória. No ponto de vista de Érico, Fabinho estava no melhor momento da vida dele e não devia surtar por conta de uma bobagem.
— Fabinho, vem cá. Você não tá fazendo uma tempestade, não, cara? Olha pra você, tá aí, apaixonado, sócio da agência de publicidade mais promissora desse país. Acabou de descobrir que os seus pais são gente boníssima. Pô, você tá por cima, cara. Tem mais oque comemorar. — disse Érico.
— Tô por cima por um golpe de sorte. — disse Fabinho. — Porque se dependesse da minha mãe e da Giane, eu tava de garçom no Cantaí até agora. Isso porque elas me amam. Por cima, por cima?!
— O Wilson faliu. A sua vida não ia mudar em nada se você fosse filho dele. — disse Érico. — E vem cá, você não tava feliz trabalhando como garçom? Me diz, qual é o drama?
— O drama?! O drama é que elas não confiaram em mim. — disse Fabinho.
— Mas você não era de confiança. — disse Renata. — Você ameaçou a minha mãe.
Fabinho não suportava mais. Até quando Renata iria ficar lembrando-o disso? O que ela queria, que ele se sentisse mal o resto da vida?
— Não, pelo amor de Deus. — disse Fabinho, descontrolando-se. — Eu não vou passar a minha vida inteira pedindo desculpas por causa de meia dúzia de cabeçada que eu dei.
Renata riu de nervoso e disse:
— Meia dúzia? Olha, acho bom você não bancar a vítima. Para Renata, o que Fabinho fez não foi pouco.
Fabinho reconhecia que errara, mas do jeito que a Renata falava, parecia que ele era responsável por todos os crimes do mundo. Até parecia que ele havia lançado bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki.
— Olha aqui, relaxa, viu? Você não vai ficar surtando agora por conta de um ressentimento sem sentido, vai? — disse Érico.
Fabinho abanou a cabeça. Para o Érico podia não fazer sentido, mas para ele fazia todo o sentido. Estava cansando de ser feito de idiota. Era de se esperar que o Érico, a Renata, a Odila, o Nestor, a Salma, o Gilson, o Silvério, enfim, todo o pessoal da Casa Verde desconfiasse dele. Mas ele jamais esperaria isso de Giane, nem de Margot. Giane era a namorada dele, Margot era a mãe. E era duro saber que a mãe e a namorada não acreditavam nele. E isso porque diziam gostar dele. Era isso que o Érico e a Renata estavam tendo dificuldade em entender. Qualquer pessoa podia desconfiar dele, a namorada não. Para namorar, era preciso confiança. E por mais que Margot tivesse as razões dela, ainda assim, era o fim da picada ela não confiar nele, pois ele mostrou que tinha mudado.
Neste momento, Giane entrou na agência.
— Fabinho. Pelo amor de Deus, eu tava louca atrás de você. — disse Giane, sentando-se no sofá ao lado dele. — Custava atender o telefone?
— Não tô legal pra conversar agora. — disse Fabinho, nervoso.
— Fabinho, pega leve. — disse Érico. — Vem, Renata.
— Vamos. Tchau. — disse Renata, pegando a bolsa e indo atrás do Érico, que estava saindo da agência.
— Tchau. — disse Giane.
Assim que ficaram a sós, Giane disse:
— Fabinho, você acha mesmo que eu ia namorar um cara em que eu não confiasse? E ia me entregar pra ele pela primeira vez?
— Então, por quê que você não me contou? — perguntou Fabinho.
— Você não quis saber. Você me disse que não queria mais mexer nessa história, que o passado tava morto e enterrado, lembra?
— Ah, você aceitou e pronto, não falou nada. — disse Fabinho. Achava que ainda assim, ela podia ter contado para ele. Ele não quis saber, ir atrás desta história porque tinha medo de se machucar. Medo de ser rejeitado novamente. Além disso, a família de sangue havia deixado de ter importância para ele. Mas se ela confiasse nele, teria contado mesmo assim. Ela sabia que ele era filho de pai rico e não havia falado nada para ele. Certamente, porque achava que ele iria aprontar.
— Queria que eu fizesse o quê? — perguntou Giane.
— Que você falasse a verdade. Que você olhasse na minha cara e falasse a verdade porque isso era o certo. — disse Fabinho, revoltado. — Porque senão, Giane, fica parecendo que você fez que nem Amora fez com o Bento. Você me fisgou... — bateu as mãos. — Antes de eu saber que era rico.
Giane levantou-se do sofá, magoada.
— Você tá... Você tá dizendo que eu te dei o golpe? Então, por quê que eu continuei com você depois que o Wilson faliu, me diz?
— Não, não, não, não. Não quis dizer isso. — disse Fabinho, arrependido.
Falou sem pensar, de cabeça quente. Não teve a intenção de ofendê-la, magoá-la. Mas não conseguia entender o que levou Giane a esconder dele que ele podia ser filho do Wilson. No entender de Fabinho, uma mulher não podia jamais esconder as coisas do namorado.
— Você quis dizer exatamente isso. — disse Giane, magoada. — Eu sou uma idiota de estar com você. Você não mudou nada, né? Não fala mais comigo. Eu não quero mais olhar na sua cara.
Giane saiu andando, e Fabinho foi atrás dela:
— Calma aí, Giane. Giane, calma aí, não foi isso que eu falei, calma aí. Giane, Giane, calma, Giane. Giane, eu mandei mal! Eu perdi a cabeça! Giane, por favor, olha pra mim!
Giane parou de andar e virou-se. Olhou para ele.
— Eu falei que era melhor a gente conversar depois. Você não confiou em mim, cara, eu fiquei magoado. — disse Fabinho.
— E como é que você acha que eu me sinto quando você me acusa de estar de olho na sua grana, hein?
— Eu disse aquilo porque eu tava com raiva. Você, não. Você fez de propósito. Você achava que eu era filho do Wilson e não me contou porque achou que eu podia voltar a aprontar. — disse Fabinho.
— Quer saber? Fiquei com medo mesmo. Desconfiei de você, sim! — disse Giane.
Foi como se ela tivesse enfiado uma faca no coração dele. Então Giane não confiava no caráter dele?
— Ah, é? Por que você tá namorando comigo, então?
— Não sei. Eu devo estar louca. Você só liga pra grana, né? E acha que todo mundo é assim. Ai, quer saber? Nem sei por quê que eu tô aqui. — disse Giane, virando-se, prestes a ir embora.
Fabinho estava magoado, ferido. Então, ela não confiava no caráter dele. Ela achava que ele era mau-caráter, interesseiro, que só pensava em dinheiro. Se era isso mesmo que ela pensava, que fosse embora. Ele é que não iria ficar correndo atrás de uma garota que pensava mal dele.
— Vai embora, então. Vai embora mesmo, porque eu não preciso ficar rastejando atrás de você, não. Eu não preciso disso. Tá cheio de mulher atrás de mim. — disse Fabinho.
— Ah, é? — disse Giane. — É.
— Então, fica aí com essas cachorras, idiota. — disse Giane, indo embora.
— Vai pro inferno, maloqueira. — disse Fabinho, atrás dela. Giane foi embora. O namoro estava terminado.
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