Um amor improvável
5 Noivado de Amora
Fabinho chegou rapidamente à capital, já que Ribeirão Bonito não era muito distante, e a viagem de moto levou apenas algumas horas. Assim que chegou a São Paulo, ele se hospedou em um hotel barato, pois não tinha condições financeiras para um hotel de luxo, e esperou a ocasião certa para ir à residência dos Campana. Ele já sabia o endereço, pois havia se informado previamente, e decidiu ir na noite do noivado de Amora.
Dias depois, Fabinho conseguiu invadir a mansão. Ele driblou a segurança contratada para o evento, aproveitando-se de uma distração dos seguranças que, inclusive, deixaram o portão aberto. Ao parar no jardim da casa e tirar o capacete, Fabinho logo reconheceu Giane, Bento e Amora. Pelo visto, Amora também o reconheceu na hora.
— Fabinho? — surpreendeu-se Amora. Não esperava vê-lo ali, e, ao mesmo tempo, sentia-se desconfortável com a presença dele. Ele representava uma parte do seu passado da qual ela preferia não se lembrar.
— Agora o reencontro tá completo. — disse Fabinho.
Fabinho também não se sentia bem ao se deparar com seu passado.
— Que marginal é esse invadindo a minha casa? — reclamou Bárbara.
Amora aproximou-se da mãe e colocou a mão sobre o ombro dela.
— Mãe. — disse Amora.
Bárbara disse, furiosa:
— Seguranças, por favor, tirem esse sujeito e essa moto daqui já!
Bárbara ficou indignada, pois Fabinho, que era um completo estranho e nem tinha sido convidado, invadiu a casa, passando por cima de tudo e destruindo o jardim e o gramado. Na sua visão, ele agiu de forma inaceitável e só podia mesmo ser um marginal.
— Mãe, eu conheço ele. É o Fabinho. — disse Amora.
— Como assim Fabinho? — estranhou Bárbara.
— Olha, perdão pela invasão. — disse Fabinho, descendo da moto. — É que eu cheguei de Londres ontem e eu vi no jornal que ia ter o noivado. Eu não aguentei. Eu quis matar a saudade da minha amiga.
Fabinho tinha plena consciência de que estava sendo cara-de-pau. Ele e Amora se conheciam desde a infância, mas nunca foram amigos de verdade, já que ele nunca cultivou amizades no lar e as outras crianças, tanto do lar quanto da rua, o odiavam. Ao se aproximar dela, não se sentia completamente à vontade, pois ela fazia parte de seu passado. Contudo, Amora estava completamente diferente: aquela garota elegante e refinada em nada se parecia com sua antiga colega de orfanato. Parecia outra pessoa, e essa mudança o fazia se sentir um pouco mais confortável na sua presença.
— Você não vai dar um abraço no seu velho amigo?
Ao ver Fabinho, Amora hesitou e olhou para Bárbara. A reação de Amora demonstrava que ela não estava feliz em vê-lo ali. No entanto, por educação, ela acabou o abraçando.
— Você continua igual, né? — murmurou Amora.
— E você está cada vez mais linda. — elogiou ele.
— Escuta, vocês se conhecem de onde? — perguntou Bárbara.
— O Fabinho morou na mesma casa que eu. — explicou Amora, e olhou para Bento. — Ele e o Bento.
Amora não fez a menor questão de cumprimentar Giane, em parte porque Giane não estava apresentável. Amora não suportava a presença de Giane, que lhe trazia lembranças indesejáveis de sua infância na rua, quando andava descalça. A presença de Giane a incomodava profundamente. Embora se sentisse mal ao ver Fabinho também, já que a presença dele não lhe era agradável, a presença de Giane era ainda pior. Giane a lembrava de um trauma, de uma dor e de uma vergonha antigas, pois foi Giane quem lhe deu os sapatos quando chegou ao lar.
Amora não queria de forma alguma apresentar aquela molambenta como sua amiga de infância, até porque Giane nunca foi sua amiga. A relação delas na infância era distante e marcada pelas diferenças de suas personalidades. Tinham poucas coisas em comum, a não ser o fato de terem morado no mesmo bairro e na mesma rua, terem sido criadas pelas mesmas pessoas e serem amigas de Bento. Com o tempo, as diferenças entre elas só aumentaram.
Amora só cumprimentava pessoas importantes para ela, quem lhe interessava, e Giane não se encaixava nesse critério. Por outro lado, Amora foi obrigada a cumprimentar e apresentar Fabinho porque ele impôs sua presença. Além disso, Fabinho era rico e estava elegantemente vestido, o que a fazia sentir-se um pouco melhor na presença dele. Embora Fabinho fizesse parte do passado que tanto a amedrontava, ele havia deixado de representar a pobreza. Bento, por sua vez, não estava vestido de forma adequada, usando trajes mais simples, mas Amora não o destrataria. Embora ele também fizesse parte da infância que ela desejava apagar, ela ainda nutria um carinho imenso por ele, e a presença dele a fazia se sentir em paz. Já em relação a Giane, Amora não compreendia como ela não tinha vergonha de se vestir daquele jeito masculinizado.
Fabinho percebeu que Amora não cumprimentou Giane. Ele deduziu que Amora tinha aversão ou, possivelmente, sentia vergonha de Giane.
Fabinho não conseguia entender a presença de Bento e Giane na festa de noivado de Amora. Ele tinha certeza de que não eram convidados, pois suas roupas não eram elegantes. Fabinho não suportava olhar para eles, já que lhe traziam memórias dolorosas e indesejáveis. Preferia ignorá-los e fingir que não existiam, pois a simples visão deles o incomodava profundamente. A sua infância no orfanato, a pobreza, as humilhações e a dor que sentiu eram coisas que ele queria esquecer, não reviver.
— Então o florista é o... Ah, não, meu Deus! Isso não pode estar acontecendo. — disse Bárbara.
Fabinho chegou à conclusão de que Bento era o florista que havia trazido as flores.
— Olha, gente, eu sei que eu não fui oficialmente convidado, mas eu... Mas eu... Mas... — disse Fabinho, sem jeito.
— Não. Não. Imagina. Seja bem-vindo. — disse Maurício, cumprimentando-o.
— Obrigado. Prazer. — disse Fabinho, sorrindo.
— Você também. — disse Maurício, indo cumprimentar Bento. — Amigo da Amora é amigo meu também. Vocês não precisam de convite, não. Fique à vontade.
Fabinho optou por não cumprimentar Bento e Giane. Sua atitude não era motivada apenas pela pobreza deles. Ele não suportava olhar para os dois, nem queria que se aproximassem, pois a presença de ambos o remetia ao lar de adoção e a todo o sofrimento que havia passado. Sentiu uma vontade imensa de gritar e sair correndo, mas controlou-se para não ser julgado como louco.
Ele se esforçaria para disfarçar a sua dor, pois não queria que ninguém sentisse pena dele. Além disso, Fabinho acreditava que Bento e Giane nunca foram amigos de verdade, e que só brincavam com ele para parecerem pessoas boas, considerando-os hipócritas. Ele se recordava de como eles viviam zombando dele, chamando-o de Fraldinha, mesmo sabendo que odiava o apelido. A proximidade constante entre eles também o incomodava. Decidiu não cumprimentá-los, assim eles sentiriam a rejeição e a sensação de serem invisíveis. Dessa maneira, ele faria Bento e Giane sentirem o que ele sempre sentiu a vida inteira.
Para Fabinho, eles simplesmente não existiam. Ele tinha decidido apagar o passado há muito tempo, e, por isso, as pessoas que o criaram naquela rua já não faziam parte de sua vida. Ele preferia que pensassem o que quisessem, que o considerassem esnobe ou que sentisse vergonha de sua origem pobre e das pessoas que o criaram, a ter que lidar com a possibilidade de ser visto como louco.
Ele era, de fato, esnobe. Não apreciava a pobreza e não sentia o menor orgulho por ter sido criado em um orfanato. No entanto, não era apenas isso; apesar da sua arrogância, não havia esquecido a boa educação. Seria capaz de cumprimentar pessoas de qualquer classe social, mas não aquelas do lar de adoção. Não suportava olhar para ninguém que viesse daquele lugar de onde ele tinha saído. Ele agia como se não conhecesse ninguém de lá, com exceção de Amora, a única pessoa que lhe interessava.
Bento e Giane eram irrelevantes para ele. O passado não existia, e, para ele, ele não tinha passado. Além disso, na sua opinião, Giane e Bento estavam malvestidos, o que lhe causava até vergonha. Em breve, estaria rodeado por pessoas ricas e famosas, e não queria que ninguém soubesse que ele tinha saído daquele lar de adoção ou que conhecia Bento e Giane há tanto tempo. Além de querer apagar as lembranças ruins, ele não queria se misturar com aquele bando de maloqueiros da Casa Verde. Ele não queria qualquer tipo de contato com Bento e Giane. Na opinião dele, Giane e Bento deviam permanecer no passado. Aqueles dois o lembravam de quem ele foi: um órfão, um rejeitado, um indesejado. Olhar para aqueles dois era como olhar para si próprio. Ele não suportava.
— Bento, me desculpe a demora. — disse Verônica, mãe de Maurício, chegando com o cheque. — Aqui está. Não tenho como agradecer mesmo.
— Bom, precisando, a senhora já sabe. — disse Bento.
— Mãe, você viu que coincidência? — perguntou Maurício, aproximando-se da mãe. — O Bento é amigo da Amora.
— Ah, é? — disse Verônica, olhando para Amora. — Pois então, Amora, agradeça a seu amigo essas lindas flores. Ele salvou a sua festa.
— Pena que ela não possa chegar muito perto, porque ela é alérgica, ela pode espirrar, não é Verônica? — disse Bárbara. Dirigiu-se à filha. — Amora, por favor, os convidados estão chegando. Faça as honras da casa.
— Giane, você me ajuda a terminar de organizar as flores lá dentro, por favor? — pediu Verônica.
— Sim senhora. — disse Giane, entrando na mansão com Verônica.
— Bom, você me dá licença? — disse Maurício a Bento.
Aproximou-se de Fabinho. Deu uma olhada na moto.
— Maneiríssima a sua moto. — elogiou.
— É legal, né? — disse Fabinho, tratando de retirar a moto. — Mas ainda não tá do jeito que eu quero. Eu quero customizar ela.
— Se quiser, te apresento um pessoal da Califórnia pra fazer um trabalho e depois pode mandar até ali pra oficina do Gui...— disse Maurício.
Fabinho levou a moto até o estacionamento. Com a chegada dos convidados, a festa teve início. A imprensa compareceu em peso, com a presença de vários jornalistas e fotógrafos. Entre os jornalistas estava Sueli Pedrosa, famosa por fazer fofocas sobre celebridades. Amora, furiosa com o programa sensacionalista que havia explorado sua infância na Casa Verde, mandou Sueli Pedrosa ser expulsa da festa. Fabinho, que estava por perto e observava Amora o tempo todo, ouviu uma conversa entre o cabeleireiro, Lili, e a mãe do noivo:
— Olha lá. A Amora parece um amor, mas tem um gênio todo trabalhado no capeta. — disse Lili, e Verônica sorriu.
— É, mas o penteado que você fez, Lili, ficou perfeito. — ela disse.
— É, tá bonito, né? Mas eu também adorei os arranjos de flores, amei as pencas, viu? — elogiou Lili.
— Ai, um ser abençoado me salvou. Não é à toa que o nome dele é Bento.
— O Bento? — surpreendeu-se Lili. — Ué! Ele é meu vizinho lá na Casa Verde.
— Jura? — surpreendeu-se Verônica.
— Não estou te falando? A Renata não te contou sobre a nossa cooperativa de flores?
— Dei folga pra Renata. Pra ver se ela providencia de vez o vestido de casamento. — disse Verônica.
— Nunca! — disse Lili, rindo e abanando o dedo indicador.
A certa altura, Fabinho decidiu se aproximar de Bento, que estava observando Amora o tempo todo. Amora, por sua vez, estava numa sessão de fotos com Maurício e não dava a mínima atenção ao seu namorado de infância. Fabinho faria um esforço enorme para conversar com Bento, já que não suportava a ideia de ficar perto dele. Ele não queria reencontrar ninguém do seu passado, mas tentaria disfarçar o desconforto que sentia.
— Então quer dizer que aquele lance de plantar florzinha virou tua profissão? — disse Fabinho, e bebeu um gole da bebida.
Fabinho achava ridículo que o antigo colega do lar de adoção plantasse flores para ganhar a vida. Tinha certeza de que era um trabalho que rendia pouco dinheiro. Ele via Bento como alguém preso àquele mundinho pequeno e mesquinho. Fabinho considerava Bento um otário, e a prova disso, para ele era o fato de Bento ter recusado ser adotado por uma família rica no passado, preferindo continuar no lar. Além disso, Bento nunca foi ambicioso, e Fabinho considerava que ele sempre pensara de forma limitada.
Do ponto de vista de Bento, Fabinho era um babaca. Primeiro, ele o ignorou, juntamente com Giane, e agora apareceu para lançar seu veneno.
— Qual o problema de cultivar flores, Fabinho? — perguntou Bento. No ponto de vista de Bento, era um trabalho digno, como outro qualquer.
— Grande Bento! Sabe que viajei um ano, né, cara? Conheci cada coisa, cada lugar, cada país. E você na Casa Verde ainda plantando flor? Legal. Legal. Achei legal.
Fabinho sentia necessidade de esnobar Bento, diminuí-lo, fazê-lo se sentir inferior. Ele queria fazer Bento sofrer, sentir exatamente o que ele sentia quando morava no lar: alguém inferior e sempre à sombra de Bento. Na opinião dele, o lugar de Bento não era ali, entre os ricos e famosos. Ali era o mundo dele. Bento devia voltar para a Casa Verde e permanecer lá. Para Fabinho, Bento fazia parte do passado e lá devia ficar.
Para Bento, Fabinho já não era uma pessoa agradável na infância, e parecia ter piorado com o tempo. Fabinho havia decidido destratá-lo e continuava a vê-lo como um rival. Bento não entendia a raiva que Fabinho sentia por ele, nem a necessidade de competir. Há muito tempo ele havia desistido de tentar entender.
O pior, para Bento, era que ele nunca tinha tratado Fabinho mal, apesar das diferenças que sempre existiram entre eles. Bento sempre convidava Fabinho para participar das brincadeiras com as outras crianças, sempre tentava ser gentil, tolerante e paciente, e procurava incluí-lo, nunca o deixando de lado, mesmo que Fabinho o irritasse às vezes. Bento tentara se aproximar de Fabinho, ter uma relação amigável com ele, mas falhara.
Eles nunca foram amigos de verdade, em parte porque Fabinho nunca gostou dele. A relação deles sempre foi marcada pela diferença de personalidades, uma forte rivalidade e competição, principalmente pela atenção e pelo afeto de Amora. No entanto, Bento sempre fazia o possível para não deixar Fabinho à margem e agia como conciliador, pois as crianças do lar e da rua não gostavam de Fabinho, considerando-o um mau-caráter. Era apenas por sua causa que as crianças toleravam Fabinho nas brincadeiras. Agora, Fabinho se considerava superior e parecia ter se esquecido dos amigos de infância e de quem cuidou dele no lar. Bento acreditava que, para Fabinho, as aparências e a influência eram o que importavam, e não as pessoas que o criaram ou que cresceram com ele. Se Fabinho se importasse com as pessoas que o acolheram, teria feito uma visita, ligado de vez em quando ou enviado notícias. Para Bento era uma pena ver que Fabinho havia se tornado uma pessoa arrogante e deslumbrada, em vez de evoluir como ser humano.
Giane aproximou-se e ficou ao lado do Bento.
— Você deu mesmo sorte de ter sido adotado pela família rica que queria adotar o Bento, né, Fabinho? — ela disse.
Giane ficou furiosa ao ver Fabinho tratar Bento com desprezo. Ela achou que Fabinho estava precisando escutar algumas verdades para deixar de se sentir superior aos outros, já que, por ter ficado rico, ele se achava no direito de menosprezar tanto Bento quanto ela.
Fabinho sentiu uma raiva intensa. Aquela garota se metia em assuntos que não a diziam respeito e gostava de posar como defensora dos fracos e oprimidos. Ela defendia Bento, como se aquele otário não fosse capaz de se defender sozinho, mesmo já sendo um homem adulto. Giane sempre teve um instinto protetor, quase maternal, em relação a Bento.
Além disso, Giane jogava na cara de Fabinho que ele havia sido a segunda opção de seus pais adotivos, fazendo-o relembrar a pior fase de sua vida. Ele acreditava que ela fazia isso de propósito, apenas para agredi-lo. Fabinho pensava que não poderia esperar nada diferente de Giane, que não gostava dele e era completamente apaixonada por Bento. Para ele, Giane era insuportavelmente chata e puxa-saco de Bento, e parecia não ter mudado nada desde a última vez que se viram. Fabinho a via como a mesma garota que o humilhou anos atrás, que o rejeitou e o tratou como lixo.
— Ela é a famosa quem mesmo? — perguntou ao Bento.
Giane abriu um sorriso irônico.
— Ela é a Giane, Fabinho, você está cansado de conhecer. — disse Bento, impaciente.
Bento duvidava que Fabinho não tivesse reconhecido Giane. Achava impossível que ele não se lembrasse dela, já que cresceram juntos, moravam no mesmo bairro, na mesma rua e tiveram uma infância compartilhada. Giane era uma das poucas pessoas que brincavam com Fabinho. Nunca tiveram uma amizade profunda, mas Giane sempre havia sido gentil com Fabinho. Fabinho e Giane podiam não ter sido melhores amigos, mas também não eram estranhos um para o outro. E mesmo que tivessem sido, para Bento, nada justificava o comportamento de Fabinho. Bento se questionava como Fabinho podia tratar Giane com tanto desprezo.
— Ah... — Fabinho sorriu, finalmente olhando direito para Giane.
Fabinho fingiu ter acabado de reconhecê-la. Até aquele momento, ele estava evitando olhá-la. Ela não tinha mudado em nada. Continuava a se vestir como um garoto. O cabelo era curto e as roupas, despojadas e com um estilo masculinizado. Ela não tinha nenhum traço de vaidade, era desleixada e se vestia de qualquer maneira, usando roupas largas como se quisesse passar despercebida. Fabinho não gostou nada de vê-la, porque até o jeito de ela se vestir o lembrava de sua infância, o que o horrorizava. Na verdade, seus sentimentos eram ambivalentes. Ao mesmo tempo, achou-a linda. Ela havia se transformado na mulher mais atraente que já vira. Tinha o rosto incrível e uma boca maravilhosa.
Infelizmente, o tempo não o fez esquecê-la. Ela era uma das poucas crianças que brincavam com ele e lhe davam atenção. Ele gostava dela e a considerava sua amiga, e pensava que ela também gostava um pouco dele. Isso foi até o dia em que ela destruiu sua bola e o humilhou. Ele desejava esquecê-la e se esforçava ao máximo para isso. Ela trazia lembranças dolorosas e indesejáveis, sendo uma testemunha de um passado que ele queria apagar. Ele não queria se lembrar das vezes em que se sentiu triste e só, mesmo estando em meio a muita gente. Tampouco gostava de lembrar a época em que morava no lar, um lugar onde não se sentia querido.
Ao mesmo tempo, ele não conseguia suportar olhar para Giane. Era difícil, pois doía demais relembrar o passado. Teve vontade de ir embora dali, mas disfarçou. Decidiu inventar uma desculpa, pois fingiu não a ter reconhecido.
— É que a última vez que eu vi ela era um moleque. — Fabinho riu. — E, pelo visto, continua sendo, né?
Não era Giane que estava ali. Era apenas um moleque, um pivete qualquer. Fabinho preferia pensar assim. Ele escolhia fingir, agir como se não a conhecesse, como se jamais a tivesse conhecido, para não sentir a dor. Na infância, ela era tudo para ele. Como se sentia rejeitado pela maioria das outras crianças, a atenção total e exclusiva de Giane era o que mais importava para ele. A forma como essa atenção vinha – através de provocações, implicâncias, desafios e uma rivalidade acirrada no futebol – era secundária. O que valia era o tempo que passavam juntos, sozinhos, em um mundo só deles. Fabinho acreditava que ele e Giane tinham uma amizade, uma ligação próxima, ainda que peculiar. Pelo menos, ela era a criança mais próxima dele. A relação dele com outras crianças era distante e ele não deixava Bento se aproximar. Isso durou até o dia em que ela destruiu sua bola, o único presente legal que ele havia ganhado enquanto morava no lar. Foi então que ele finalmente percebeu a verdade: ela nunca havia gostado dele realmente. Ela destruiu sua bola, que era a única coisa que os aproximava e unia. A bola era a única coisa que o fazia ser visto por alguém. Assim, seu mundo desmoronou e sua única alegria acabou.
Ele nunca se esqueceu do dia em que ela chutou sua bola e um carro passou por cima. Por mais que tentasse apagar a lembrança, não conseguia. Naquela época, a bola era seu brinquedo preferido e era tudo o que ele tinha. Não ganhava muitos brinquedos quando morava no lar, até porque Gilson e Salma não tinham muitos recursos, e a bola era cara. Gilson devia ter economizado bastante para comprá-la.
Ele tinha certeza de que Giane tinha feito aquilo de propósito, por não gostar dele. Ela nem se importou com o acontecido, como se não tivesse feito nada de errado. Não pediu desculpas e ainda o chamou de fresco quando o viu chorar. Se ela realmente gostasse dele, teria se desculpado, teria se preocupado com seus sentimentos. Não o teria humilhado daquela maneira, chamando-o de fresco. A rejeição de Giane ainda doía muito, e não era apenas por causa da bola, mas pelo que o ato significava.
Só de olhar para ela, ele revivia a dor, a humilhação e a vergonha que sentira. Quando ela o chamou de fresco, ele sentiu vergonha por ter chorado. Quinze anos se passaram, mas para ele era como se tivesse sido ontem. Ele não a perdoava e jamais a perdoaria pelo que ela fez na infância. Pela provocação, pela humilhação. Ele a desprezava com todas as forças. Na verdade, seus sentimentos por ela eram uma mistura de rancor, repulsa e atração. Fabinho não gostou de estar atraído por ela. Ele não queria sentir nada de positivo por Giane. Ela o humilhou na infância, além disso, era uma garota suburbana que via virtude na pobreza, jamais se encaixaria em seus sonhos de ascender socialmente, ficar milionário.
Fabinho percebeu que Giane tinha ficado furiosíssima por ter sido chamada de moleque. Ela odiava ser chamada assim. Ele sabia que havia atingido o ponto fraco dela e não sentiu a menor culpa em ofendê-la. Afinal, ela o havia ofendido primeiro, o humilhado e destruído sua bola. Ele estava apenas devolvendo a provocação.
— É? E você continua sendo o mesmo filho de uma... — ela descontrolou-se.
— Vambora, vambora. — disse Bento, arrastando-a. Giane era muito barraqueira, e ele queria evitar confusão. Eles estavam ali a trabalho.
Fabinho gostou de ver que a garota continuava cheia de marra. Ele sabia exatamente como ela reagiria e, por isso, a havia provocado.
Fabinho resolveu se aproximar de Bárbara Ellen. Ele precisava conquistar a confiança daquela mulher e, de alguma maneira, extrair dela informações sobre Plínio e Irene. Por isso, ficou observando-a. Viu quando ela deixou a mansão, acompanhada por Natan, o pai do noivo, que havia trocado de camisa.
— Pronto, Verônica. — disse Bárbara à esposa de Natan.
— Tá dando pra ver que o defunto era menor? — Natan perguntou à esposa. Precisou trocar de camisa, pois Bárbara havia derramado vinho na camisa dele.
— Natan, eu não acredito que você teve coragem de vestir esta roupa. — riu Verônica. De fato, a camisa que ele usava era brega.
— Nem eu, mas não ia dar tempo de voltar em casa, né, meu amor? — disse Natan. Ele e Verônica saíram andando.
Fabinho aproveitou para se aproximar de Bárbara.
— Esse casamento está com os dias contados. — ouviu ela dizer.
— Você disse alguma coisa? — perguntou Fabinho.
Ela se assustou.
— Ai, que susto! — ela exclamou.
Então a perua estava dando em cima do pai do noivo. Nem bem enviuvou, já estava de olho em outro. Na opinião de Fabinho, Bárbara era mesmo uma safada, para não dizer outra coisa. Ela não valia nada mesmo. O tal do Jonathan também não valia grande coisa, mas isso não tornava as coisas melhores. Estava na cara que Bárbara não sentia nada pelo marido que havia acabado de falecer, e ficava posando de viúva solitária para a mídia. O falecido nem esfriara no caixão, e a víbora já estava pensando em tomar o marido de outra mulher, destruir outra família. Ele, Fabinho, não era santo, mas ele não estava tentando destruir a família de ninguém. Ele estava indo atrás do que era dele por direito. Tudo o que pretendia fazer era para defender sua família, para ter de volta tudo o que a vida havia tirado dele, além de dar porrada em quem merecia.
Na certa, Bárbara estava de olho na grana do pai de Maurício. Para Fabinho, uma pessoa como Bárbara era incapaz de gostar de alguém. Para ela não existia amor, existia interesse, por grana ou por fama. Fabinho já sacou qual era a da Bárbara. Ela havia dado o golpe no Plínio, agora estava planejando dar o golpe no Natan. Se estava planejando dar outro golpe, a situação dela não era das melhores. Certamente, Jonathan James a deixara com uma mão na frente e outra atrás.
Bárbara era uma atriz que estava longe de estar no melhor momento da carreira, não aparecia na TV há tempos e vivia como uma rainha graças à Malu, que não deixava a mãe à míngua, por pior que ela fosse. Certamente, Bárbara não queria mais viver da mesada da Malu, depender da filha. Para a perua, com certeza devia ser humilhante depender da filha e queria que Natan a bancasse. Com certeza, ela esperava casar em regime de comunhão de bens. Além do mais, Natan era famoso. Era um publicitário bem sucedido, reconhecido no mundo todo, tinha ganhado vários prêmios. Claro que Bárbara queria aparecer na mídia ao lado dele. Ela fazia de tudo para se manter em evidência. Parasita como era, ela queria se escorar no Natan.
Fabinho não concordava com o que Bárbara pretendia fazer, até porque ele já fora vítima de um golpe dela. Mas de alguma forma, tiraria proveito disso. Ainda não sabia o que iria fazer, mas daria um jeito de ganhar a confiança de Bárbara, para depois destruí-la, de modo que nenhum homem na face da terra iria querer saber dela. Iria se fazer de amiguinho dela, de cúmplice, para depois derrubá-la. Não a deixaria ficar com Natan. No que dependesse dele, Bárbara não iria continuar se dando bem em cima do sofrimento dos outros. Por ele, ela acabaria sozinha, na lama, abandonada por todo mundo, sem dinheiro, sem fama, sem nada. Ela iria pagar por tudo o que fez, por ter destruído sua família, por sua orfandade, por tudo.
Fabinho decidiu se mostrar o mais encantador possível, usando a bajulação como estratégia. Ele sabia que isso funcionava muito bem com pessoas vaidosas como Bárbara Ellen, e por isso fingiria ser seu fã número um.
— Desculpa, é que eu tô emocionado. Tô na casa de uma das maiores atrizes do Brasil. — disse Fabinho.
O rapaz tinha certeza de que era exatamente aquilo que ela queria ouvir. A cobra se considerava uma grande diva, mas na realidade era uma atriz em decadência. Há muito tempo ninguém a chamava para nenhum trabalho, nem mesmo para fazer um comercial de dentadura.
— Que isso? Também não é assim. — disse Bárbara.
— Licença. — disse o moço, pegando duas taças de champanhe que estavam sendo servidas por Bolívar, o mordomo. Resolveu brindar.
— À maior estrela do país. — disse, sorrindo.
— Você é muito agradável, Fabinho. — disse Bárbara, batendo sua taça na dele. Fabinho sabia que ela iria cair como uma pata.
— Bárbara, eu sei que você não gosta muito de falar sobre si mesma. Mas qual foi o seu trabalho preferido na TV? — perguntou o moço, dando um gole na bebida.
— Ah, imagina! É um enorme prazer conversar com um rapaz tão culto, tão bem informado como você. — disse Bárbara. — Você é muito simpático.
— Obrigado. — disse Fabinho.
Ele sabia ser simpático quando queria.
— Ah, o trabalho que eu gosto mais... — ia dizendo Bárbara.
Fabinho conversou um pouco mais com Bárbara. Depois, pegou algumas flores e foi atrás de Amora, que já havia entrado na mansão. Ele cobriu os olhos da garota, que pensou ser Bento e se perguntou se ele teria voltado.
— Bento? — disse Amora, virando-se.
Para Fabinho, era óbvio que Amora estava pensando em Bento e havia imaginado que ele tinha voltado. Amora se decepcionou ao ver que, em vez de Bento, era Fabinho quem estava ali.
— Errou por pouco. — disse Fabinho. — Você não vai aceitar as minhas flores?
— Eu sou alérgica. — disse Amora, afastando-se.
— Mas quando você era pequena você vivia cuidando de flor com o Bento.
— Eu desenvolvi essa alergia depois que eu saí do lar, tá bom?
— E ao Bento? Você também ficou alérgica? — perguntou Fabinho.
— Pergunta mais imbecil. — disse Amora, já indo embora.
Bento sempre foi muito importante para ela e continuava a ser. Quando crianças, eles foram grandes amigos. Bento ainda representava aquele refúgio no qual ela se sentia protegida de todo o mal. Ela ficou muito emocionada ao reencontrá-lo. Eles haviam conversado rapidamente antes de Bárbara mandá-la receber os convidados e Bento ir ajudar Giane e Verônica com a organização das flores. Amora pediu para ele esperar, pois queria conversar mais, mas ele foi embora.
Ela lamentou não ter tido a oportunidade de falar mais com Bento. Passou o tempo recebendo os convidados e tirando fotos com Maurício, o que a impediu de dar a atenção que queria a Bento. Além disso, a presença da mídia na festa tornava a situação complicada. Se ela ficasse conversando com ele, os jornalistas certamente iriam querer saber quem ele era e entrevistá-lo. A imprensa não perderia a chance de descobrir quem era o amigo de Amora Campana, ainda mais um florista de origem humilde.
Felizmente, nenhum dos jornalistas presentes na festa, que pertenciam à mídia classe A e não assistiam ao programa de baixo nível de Sueli Pedrosa, o reconheceu (Bento havia sido entrevistado por Sueli alguns dias antes). Além disso, Bento mal apareceu no programa de Sueli, trocou poucas palavras com ela e foi embora. Sueli com certeza o reconheceria, mas foi expulsa da festa e não o viu, já que ele estava dentro da casa. Assim, mais uma vez, Sueli perdeu a chance de descobrir mais sobre o passado de Amora.
Ela não estava nada interessada em conversar com a mídia sobre seu passado, sua infância. O assunto era doloroso demais, por isso ela o evitava ao máximo com qualquer pessoa. Além disso, ela sentia muita vergonha. A mídia já sabia que ela era adotada, que havia passado por um lar de adoção e que tinha sido uma menina de rua, pois o país inteiro estava ciente disso. Bárbara, inclusive, adorava se exibir como a heroína que salva crianças carentes. No entanto, Amora não dava muitos detalhes, quase nada, sobre seu passado, e ninguém sabia de qual lar adotivo ela havia saído, pois havia muitos em São Paulo. Ela não queria que a mídia fizesse sensacionalismo com uma parte tão dolorosa de sua história. Apesar de Socorro, a líder do seu fã-clube, ter escrito em seu blog que morou no mesmo lar de adoção que Amora, ninguém acreditava, achando que ela estava inventando. Afinal, Amora era famosa e muitas pessoas inventavam que a conheciam desde a infância.
Amora não tinha ideia de como Sueli havia descoberto que ela morara no lar de Gilson antes de ser adotada. Mas conseguia imaginar. Depois do escândalo que Giane causou no casamento de Vitinho Barata, diretor do programa Luxury, que a própria Amora apresentava, ficou óbvio que Lara, a antiga apresentadora que estava em licença-maternidade, teria interesse em saber quem Giane era e de onde vinha. Provavelmente, ela pesquisou na internet onde ficava a Acácia Amarela. Giane apareceu na festa e ameaçou contar para a mídia tudo o que sabia sobre Amora. Amora, por sua vez, não entendia por que Giane tinha feito aquilo, nem o que ela ganharia com isso. Depois do escândalo, o clima para ela continuar na festa da Para Sempre se tornou insustentável. Ela não permaneceu no evento e foi embora rapidamente com Maurício.
Um dia antes do escândalo que Giane causou na Para Sempre, Amora foi até a Acácia Amarela procurando por Bento, mas ele não estava lá. Ela acabou discutindo com Giane. De qualquer forma, já havia decidido não procurá-lo mais, afinal, eles pertenciam a mundos diferentes. Amora não queria mais mexer no passado, até reencontrá-lo em sua festa de noivado. No entanto, o tumulto provocado por Giane ainda trazia consequências. Lara estava desesperada para derrubá-la e tirá-la do programa Luxury. Amora supunha que Lara havia espalhado a fofoca para Sueli, e Sueli, por sua vez, decidiu explorar o passado de Amora Campana na Casa Verde. Amora sentia ódio de Sueli, de Lara e até mesmo de Giane. Ela havia se esforçado muito para chegar onde estava e não permitiria que ninguém a prejudicasse, fazendo-a perder tudo o que conquistou.
Ela havia decidido não mais procurar o Bento, pois sentia que não tinham mais nada em comum e, além disso, ele tinha falado mal dela para Sueli Pedrosa. Ela acreditava que Bento já não pensava mais nela, que não gostava mais dela e estava determinada a esquecê-lo. Isso foi até o momento em que Bento foi entregar flores em sua festa de noivado e acabou se desculpando com ela.
Amora sentia um grande carinho por Bento, mas ao mesmo tempo tinha vergonha de sua origem humilde. Por isso, não queria revelar à mídia de onde o conhecia. Ela acreditava que o que Sueli Pedrosa já havia feito era suficiente, e não queria mais sensacionalismo. Preferia conversar com Bento longe dos jornalistas e de curiosos para que ninguém os atrapalhasse. Além disso, Bento não estava acostumado a ser exposto e não fazia ideia da podridão do mundo dos famosos. Amora desejava que ele tivesse ficado mais tempo na festa. Por que ele não esperou? Ela pretendia conversar com ele assim que tivesse uma oportunidade. Sua intenção era levá-lo para um lugar mais reservado dentro da mansão, longe de jornalistas e fotógrafos. Mas ele havia ido embora sem se despedir. Amora se perguntava se Bento teria ficado chateado com ela por não ter lhe dado atenção, por tê-lo deixado esperando. Ela não tinha tido a intenção de magoá-lo. E, agora, Fabinho tinha que vir importuná-la.
— Calma aí, calma aí, Amora. — disse Fabinho, segurando-a pelo braço. — Conversa comigo. Viajei meio mundo pra te ver, sabia?
Amora achou a conversa esquisita. Fabinho, com saudades dela? Ele nunca a procurou depois que foi adotado. Por que resolveu aparecer justo em seu noivado? Alguma coisa ele estava tramando, mas ela não tinha como saber o que era. Além disso, ela e Fabinho nunca foram amigos. Ele vivia atormentando a ela e a Bento, importunando e fazendo intriga contra os dois. Fabinho nunca suportou a amizade, a união e o apego que ela tinha por Bento. Fazia de tudo para que ela e Bento se desentendessem e se separassem, mas não conseguia. Na verdade, isso só os unia ainda mais. Naquela época, ela e Bento não davam a menor importância para as intrigas de Fabinho, que, por isso, não tinha poder sobre eles. Eles não se importavam com picuinhas. Durante a infância, a relação dela com Fabinho era distante e limitada. Ela não o desprezava, mas também nunca teve grande afeto por ele. No máximo, se sentia incomodada.
— Nossa, que nostalgia é essa, Fabinho? — disse Amora. — Eu não era sua amiga, eu era amiga do Bento. E você, por sinal, só azucrinava a gente, né?
Fabinho tinha consciência de que estava forçando uma intimidade que, na verdade, nunca existiu entre ele e Amora. Na infância, ele implicava com ela e com Bento, e não tolerava a proximidade entre os dois. Ele não suportava o casal de pombinhos exibicionistas admirado e querido por todos, e não compreendia o que Amora e Giane viam em Bento. Fabinho sentia muita inveja do amor e da atenção que Bento recebia de Amora e de Giane. Bento tinha quem o amasse, tinha até uma namoradinha na infância, Fabinho não. As provocações e intrigas que ele criava contra Bento e Amora também eram uma maneira de chamar a atenção deles. Na infância, Bento e Amora eram um casal popular, e Fabinho queria tomar Amora de Bento para mostrar que tinha algum valor, mas não conseguia.
— Eu era criança, tinha ciúme da amizade de vocês. — disse Fabinho. — Mas eu tenho muita saudade. Tenho ótimas lembranças também, suas e do Bento. Você lembra dessa foto aqui? — pegou a fotografia que ele havia tirado ao lado de Amora e Bento. — O tio Gilson deu uma pra você, uma pra mim e uma pro Bento quando fui adotado. Lembra?
— Nem lembrava mais disso. — disse Amora.
Ela guardava na memória apenas as lembranças que considerava importantes. Não queria de forma alguma recordar o passado em que fora menina de rua ou como havia chegado àquele lar, especialmente o motivo que a levara até lá. A única recordação positiva de sua infância era Bento, com quem viveu momentos felizes. O restante ela preferia esquecer. Na verdade, a relação que mantinha com o lugar onde morou por um ano era bastante peculiar e complexa. Embora fosse o local onde conheceu Bento e que a fazia se sentir em paz, também a remetia a coisas ruins, que a deixavam angustiada. No entanto, ela ainda se lembrava da foto e a guardava. Era uma lembrança de Bento. Às vezes, ela gostava de olhar a fotografia, de olhar para Bento. Já para Fabinho, ela não dava a menor atenção. A foto, porém, trazia tanto as boas lembranças ao lado de Bento quanto as ruins, que a faziam reviver a pior fase de sua vida. Por isso, ela preferia não olhar muito para a fotografia, deixando-a guardada na gaveta. Bárbara chegou a ordenar que a jogasse fora, mas ela se recusou.
Fabinho notou que Amora não gostava de recordar a época em que morou no lar adotivo, assim como ele. Ela preferia esquecer e fingir que o passado não existia, o que era um ponto em comum entre os dois. Além disso, ela era tão ambiciosa quanto ele, e desejou ser adotada por uma família rica. Ambos vieram de um lar de adoção, tiveram uma infância miserável e hoje pertenciam à elite. Por isso Fabinho acreditava que ele sim era o homem certo para Amora, e não Maurício.
— Que pena! Foi um belo momento. Mas claro, hoje você tem riqueza. Você tem glamour, luxo. Você prefere isso, né? — ironizou Fabinho.
Amora riu. Sem dúvida, ela preferia a vida que levava agora, com todo o luxo e conforto que o dinheiro podia proporcionar. Desde o tempo em que morava no orfanato, ela já sonhava com uma vida diferente, onde a riqueza seria a solução para todos os seus problemas e para a dor do abandono. Desde muito cedo, quis fugir da pobreza e da dura realidade em que vivia. Naquela época, a oportunidade de ser adotada por Bárbara Ellen pareceu ser o caminho para realizar seu sonho. Ela adorava ser uma celebridade e valorizava tudo o que tinha conquistado. Sua vida mudou muito depois que foi adotada, e ela mesma mudou. Já não era a mesma pessoa de quase quinze anos atrás. Mas, pelo visto, Fabinho não mudou tanto e continuava com suas ironias.
— O seu humorzinho cínico pelo visto continua igual, né?
— E é mentira? Você vivia dizendo que queria ser adotada por uma família rica. Aconteceu. Aliás, aconteceu pra mim também. — disse Fabinho. — Hoje nós pertencemos à mais alta classe do país, né? Está vendo, Amora, com a quantidade de diferença que a gente tinha quando criança, a quantidade de coisa que a gente tem em comum hoje? Amigos?
Amora continuava achando estranho Fabinho querer ficar tão amigo dela, depois de tantos anos sem aparecer nem dar notícias.
— Amora, os Ventura chegaram, vamos dar um oi pra eles. — disse Maurício, entrando na sala.
— Amor, desculpa, eu estou com uma dor de cabeça muito forte. — disse Amora. Dirigiu-se a Fabinho. — Fabinho, vai lá fora. Vai se divertir, pode ir.
Amora não suportava olhar para Fabinho, principalmente depois que ele lhe mostrou a fotografia. Ela não aguentava encarar seu passado e as pessoas que fizeram parte dele, exceto Bento. Este, por outro lado, a fazia se sentir segura e protegida. A infância nas ruas, na extrema pobreza, e em seguida no lar, era algo que ela preferia esquecer completamente.
— Tá. Tá bom. — Fabinho sorriu.
— Desculpa. — disse Amora a Maurício. — Você me dá cinco minutos?
— Claro. — disse Maurício, e ganhou um selinho da noiva. Amora afastou-se.
— Se precisar de alguma coisa, avisa. — disse Maurício.
— Maurício! Maurício, isso aí é coisa de menina. Sempre teve isso aí, esse geniozinho dela. — disse Fabinho, tentando parecer íntimo de Amora.
— Vocês eram bem ligados, Fabinho? — perguntou Maurício.
— O quê? Eu, Amora e Bento, a gente falava que era os três cavaleiros do Apocalipse. — Fabinho riu. — Nessa época ninguém achava que a Amora fosse virar essa it-girl. O Bento, esse grande florista que ele é. E eu, publicitário.
Fabinho não podia desperdiçar a oportunidade de conseguir um emprego na agência de publicidade do pai de Maurício. Como era de se esperar, Maurício foi facilmente convencido pelo seu papo.
— Publicitário? Trabalha em qual agência? — perguntou Maurício.
— Não, não estou trabalhando agora porque assim que eu me formei, eu tirei um ano sabático pra curtir, pra estudar. E agora tô querendo emprego em São Paulo. — disse Fabinho.
— Olha só, Fabinho, meu pai é dono da Class Mídia, irmão.
— Da Class Mídia? — Fabinho se fez de surpreendido.
— É. E se você quiser eu posso falar com o seu Natan e você já começa a trabalhar amanhã. — disse Maurício.
— Claro, seria incrível. Eu só não quero que pareça que...
— Olha só, Fabinho, eu vou te abrir uma porta. O resto tá com você.
— Caramba! Incrível! — disse Fabinho.
— Tá bom? — disse Maurício, estendendo a mão.
— Obrigado, obrigado mesmo. Não sei nem como agradecer. — disse Fabinho, apertando a mão de Maurício.
— Não, imagina. — disse Maurício.
O celular de Fabinho tocou dentro do bolso.
— Pode atender aí. Não tem problema. Fica à vontade, tá? Vou ver a Amora. — disse Maurício, indo atrás da noiva.
— Obrigada, Maurício. — disse Fabinho.
Fabinho olhou para o celular e viu que era a mãe ligando. Decidiu não atender, pois tinha certeza de que ela só o incomodaria. Faria drama por ele tê-la deixado sozinha. Sua mãe não entendia que ele precisava investigar sua própria história. Ele não estava com vontade de ouvir sermão, nem de dar satisfações. A mãe andava muito irritante ultimamente e, além disso, o fazia lembrar-se de sua infância desamparada, de tudo o que ele havia resolvido deixar para trás. Minutos depois, ele já estava de volta à conversa com Bárbara, com o objetivo de descobrir mais sobre Plínio.
— Champanhe? — ofereceu Bárbara.
— Mais champanhe. — disse Fabinho. — E o Plínio Campana, não vem? Ele é pai adotivo da Amora, né?
Fabinho acreditava que encontraria Plínio na festa, e essa era uma das razões de sua presença no noivado de Amora. Ele sabia que, embora Plínio estivesse separado de Bárbara e não tivesse adotado Amora, nada o impedia de comparecer. O fato de Plínio não ter aparecido só reforçava a ideia de que ele não gostava de Amora, nem de Bárbara. Contudo, Fabinho ainda não revelaria a Bárbara qual era seu verdadeiro interesse em Plínio. Para que Bárbara não suspeitasse de nada, ele fingia total desconhecimento. Por isso, perguntou a ela se Plínio era o pai de Amora, para que a mulher acreditasse que o interesse dele era devido à amizade de infância com Amora. Por enquanto, ninguém podia saber sua verdadeira identidade.
Para Bárbara, Plínio não era o pai adotivo de Amora no sentido legal. "Amora Campana" era um nome artístico, pois "Mayara da Silva" não era glamouroso o suficiente. Bárbara e Plínio já estavam separados quando ela adotou Amora. Mesmo assim, Plínio era como um pai para a garota, já que a viu crescer. Ele e Bárbara foram casados por dez anos, tiveram Malu juntos, e Amora era, por consequência, a irmã de Malu. No entanto, Plínio não demonstrava consideração por Amora ou por Bárbara, e as desprezava. Bárbara se sentia incomodada com Plínio, que a criticava constantemente por gastar demais, por buscar atenção da mídia a qualquer custo e por expor as crianças. Para ele, o noivado de Amora era apenas mais um espetáculo onde Bárbara tentaria aparecer mais do que a própria filha. Plínio detestava os holofotes e por isso não quis ir à festa.
— É. Imagina que aquele desnaturado vem abençoar a filha. Ele não tem a menor consideração pela Amora, nem por essa família. — disse Bárbara. — O Plínio só pensa nele, nos documentários horríveis que ele faz pra agradar os críticos, porque o público mesmo odeia aquela chatice. — riu. — Mas vamos falar de coisas mais amenas. Você sabia que o Gilberto Braga se inspirou na minha vida pra escrever aquela novela Celebridade?
— Eu não acredito! — Fabinho se fez de incrédulo.
— Uhum! — disse Bárbara, bebericando o champanhe. — Inclusive, ele insistiu muito pra eu ser a protagonista.
— E você não topou por quê? — perguntou o moço.
— Naquela época, todos os autores me queriam como protagonista. — disse Bárbara. — Brigavam tanto entre si, era tão cansativo. Aí eu desisti dessa coisa de fazer novela e fui pra África fazer o bem.
Neste momento, Kevin, um dos filhos adotivos de Bárbara, aproximou-se.
— Ah! Foi quando eu adotei o Kevin. — disse Bárbara. — Eu o resgatei de uma mina de carvão no Zimbábue e o adotei. Aliás, você era mais escurinho quando eu adotei, não, Kevin?
Fabinho ficou perplexo. Era óbvio que o menino não era da África, e, mais especificamente, não vinha do Zimbábue. Aquela mulher estava mentindo sem o menor pudor. Fabinho havia coletado informações sobre a família, mas não conseguia se lembrar exatamente da origem de cada um dos filhos de Bárbara. Contudo, a ascendência europeia do garoto era evidente. Soaria muito mais convincente se Bárbara tivesse inventado a história de que o havia trazido da África do Sul. Kevin disse:
— Ela insiste que eu sou afrodescendente.
— Mas é claro que você é, meu querido. — insistiu Bárbara. — Qualquer um pode ver, não é?
Mais tarde, Bárbara começou a bater com a colher na taça, para chamar a atenção de todos:
— Atenção! Atenção! Ladies and gentleman, eu... Eu gostaria de fazer um brinde em memória ao nosso tão amado Jonathan James, que tão prematuramente nos deixou, e que apesar de ser muito mais jovem do que Amora, tinha por ela um amor de pai!
De repente, todos ouviram um grito. Bárbara disse:
— Um urso polar está aqui em minha casa?
Mel correu em direção ao irmão, Tito, que acabou de chegar:
— Por que você demorou tanto? Mamãe tá passando mal!
— Ah, Damáris! — disse Bárbara, contrariada, ao ver Damáris.
— Graças a Deus você tá aqui. — disse Damáris, aproximando-se de Tito. — Ajuda a sua mãe. Sua mãe vai explodir.
Maurício e Tito ampararam Damáris. Ela estava passando mal por ter se empanturrado de quitutes.
— Mas o quê que é isso, agora? — perguntou Bárbara.
— Me leva pro hospital! Leva! — pediu Damáris para Tito.
— Levo. — disse Tito.
— Chama seu pai! — disse Damáris.
Maurício, Tito e Mel foram saindo com Damáris.
— Dá licença, dá licença! Dá licença aqui! — dizia Maurício para as pessoas que foi encontrando pelo caminho.
— Que hospital o quê? Ela precisa de um sal de fruta. — disse Kevin para Dorothy, sua irmã.
— Como eu ia dizendo... — disse Bárbara.
— Mamãe! — disse Amora, aproximando-se da mãe e segurando no braço dela. — Mãe, encerra porque não tem mais clima, por favor.
Amora estava morrendo de vergonha de Damáris.
— Ao Jonathan James! — disse Bárbara, levantando a taça. — Que só espalhou beleza em sua passagem pela Terra!
A festa se estendeu até altas horas. Quando chegou ao fim, Fabinho se retirou. Algum tempo depois, encontrava-se em seu quarto de hotel, diante do notebook ligado. Passou cerca de meia hora examinando as fotos da festa que haviam sido divulgadas na internet. Ele tinha sido fotografado junto a Bárbara, Amora e Maurício. Tudo estava correndo conforme o planejado, até melhor do que ele imaginara.
— Comecei bem. — disse Fabinho. — A vadia já confia em mim, o playboy tá meu amiguinho. Vai ser mais fácil do que eu pensava.
Ele observou uma foto de Amora tirada durante a festa de noivado. Decidiu que ficaria com Amora a qualquer preço. Seria extremamente proveitoso ter seu nome nas colunas sociais ao lado dela. A essa altura, ele se considerava um dos melhores partidos da cidade, superior àquele florista. Fabinho se via como o homem ideal para Amora, o que mais tinha em comum com ela. Ambos gostavam de luxo e de conforto. Amora era para ele um passaporte para entrar no mundo dos ricos e famosos.
— Depois que eu conseguir tudo que é meu por direito, você vai ser a cereja do bolo, Amora Campana.
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