Um amor improvável

6 Sumiço de Amora


No dia seguinte ao noivado de Amora, Fabinho foi à Class Mídia. Assim que chegou, cumprimentou toda a equipe:

— Tudo bem? Tudo bom?

Dirigiu-se à secretária do chefe, Karol:

— Tudo bem? — disse o rapaz.

— Tudo bem? Posso ajudar? — perguntou Karol.

— Pode sim, querida. Meu nome é Fábio Queiroz. Eu vim aqui conversar com o Maurício. — disse Fabinho. — Ou melhor, o Natan está me aguardando para me entrevistar.

Fabinho e Karol ouviram a gritaria de Natan, que estava na sala dele:

— Como sumiu? Tem que achar ela agora!

— Olha, eu acho que você chegou num péssimo momento. — disse Karol.

Fabinho permaneceu na agência por algum tempo. Ficou esperando. Natan saiu de sua sala e chamou Sílvia, a diretora de mídia:

— Sílvia! Liga pro Gambini agora e inventa uma história. Vai enrolando ele até a gente descobrir o que é que aconteceu com Amora.

— Da próxima vez, chame uma profissional. — disse Sílvia. — Não uma diletante que não precisa trabalhar pra pagar as contas. — dirigiu-se à Karol. — Karol, me liga no Gambini, por favor.

Natan saiu andando. Fabinho aproximou-se e perguntou:

— Desculpa-me a intromissão. O quê que aconteceu com a Amora?

— Sumiu. E deixou o fotógrafo plantado no estúdio esperando. — disse Natan.

— Ô Fabinho, acho melhor você voltar outra hora, pode ser? — disse Maurício.

— Claro. Mas avisa quando tiver notícia. Fiquei preocupado. — disse Fabinho.

— Tá bom. — disse Maurício.

— Tá. Valeu, valeu. — disse Fabinho.

Fabinho pegou a mochila, e se perguntava onde Amora poderia ter ido e o que a teria feito desaparecer, deixando o fotógrafo esperando. Ele também cogitava a possibilidade de ela ter ido atrás de Bento.

— Será que aquela louca teve coragem? Teve. — concluiu.

Ao se recordar da expressão no rosto de Amora quando Bento foi embora da festa, Fabinho concluiu que a jovem havia passado a noite toda pensando no namoradinho de infância. A única explicação para o seu sumiço seria ela ter ido para a Casa Verde, atrás de Bento. Fabinho, então, decidiu ir procurá-la, pois sabia que Natan e Maurício ficariam gratos e o contratariam na hora se ele a encontrasse.

Fabinho detestava a ideia de ir para a parte mais pobre da Casa Verde e não voltaria lá por vontade própria. Sentia um profundo horror pelo lugar, um bairro que considerava pobre, habitado por pessoas rudes e ignorantes, e que trazia lembranças terríveis. A mera ideia de retornar o fazia sentir-se mal, pois o bairro constantemente o lembrava do abandono que sofreu.

Aquele lugar, com suas ruas e habitantes, evocava sentimentos de solidão, rejeição e abandono. Para Fabinho, a Casa Verde não era um lar, uma família ou uma comunidade, mas sim a representação de sua infância desamparada. Sempre carregou um vazio, e nunca se sentiu verdadeiramente feliz lá, nem na casa de Gilson. Quando morava na Casa Verde, sentia-se como um peixe fora d’água, convencido de que seu lugar era em outro recinto. Para ele, a casa de Gilson não era nem jamais foi um ambiente acolhedor, era um ambiente hostil e rejeitador.

Ele não considerava aquelas pessoas sua família e não se sentia conectado a elas de forma alguma. Além de detestar o ambiente, ele se lembrava de como as crianças do lar e da rua o rejeitavam, apelidando-o de Fraldinha e zombando dele constantemente. Os adultos, por sua vez, apenas o toleravam, e ninguém parecia querer sua companhia. A tristeza por não ter um amigo ou uma família era profunda. Todos o viam como uma peste que perturbava a vida de todos. Todos pensavam que ele era invejoso, fofoqueiro e mentiroso e tomavam partido do Bento.

Fabinho se ressentia a cada vez que era excluído das brincadeiras e, apesar de admitir que não tinha sido um anjo na infância, sabia que as outras crianças também podiam ser cruéis. Recordava-se de como elas sabiam machucar alguém e, em particular, de uma garota que destruiu sua bola. Ele não tinha nenhuma saudade daquele lugar e quando foi adotado, jurou jamais pisar naquela rua novamente. Com planos de se vingar, ele desejava que toda aquela gente fosse embora, queria expulsá-los dali. Agora estava pensando em uma maneira de destruir tudo o que lembrava sua infância assim que herdasse a fortuna, e começaria por aquela rua. Ele almejava ficar rico para ter poder e fazer o que quisesse, garantindo que, assim que recebesse a herança, todos veriam do que era capaz. O desejo de Fabinho era fazer com que se arrependessem de não tê-lo tratado bem. Com uma fortuna nas mãos, ele imporia respeito e medo.

Ao chegar à Casa Verde, Fabinho rapidamente avistou Giane e parou para perguntar se ela havia visto Amora. A garota se assustou com a alta velocidade com que ele se aproximou, mas ele estava com pressa e pretendia ficar ali apenas o tempo necessário. Ela disse:

— Ei, cara! Tá maluco? É assim que você passa na rua? Pirou?

Ela só o reconheceu quando ele tirou o capacete.

— Cadê Amora? — perguntou o rapaz. Nem olhou direito para ela.

— Fabinho?! — surpreendeu-se a garota.

— Vamos, moleque, fala, cadê Amora? — perguntou Fabinho, impaciente.

Ele desejava que ela respondesse rapidamente, pois não queria gastar tempo com ela e só falaria o estritamente necessário. Fabinho não suportava olhar para Giane e sentia vontade de gritar e fugir sempre que o fazia, pois sentia um horror profundo por ela. Basta olhá-la para a lembrança de sua bola destruída voltar à tona. Além da bola, ela o havia humilhado, fazendo-o sentir-se a pior das criaturas, indigno de ser amado. Ele jamais esqueceu a dor, a vergonha e a humilhação que ela lhe causou. Ao mesmo tempo, a atração que sentia por ela era real.

— Eu sei lá onde está Amora. — Giane deu de ombros. Pelo visto, ela não facilitaria as coisas para ele. — Quem disse que ela tá aqui?

— O carro dela ali. — disse ele, apontando para o carro do outro lado da rua.

Giane deu uma olhada atrás de si, e disse:

— Uia! Já sabe até o carro dela. Tá fazendo bem o serviço, hein?

— “Fazendo bem o serviço”. Cadê a Amora? — explodiu Fabinho.

Ele precisava se afastar dela, pois se sentia mal na sua presença. Inquieto, questionava por que ela demorava tanto a responder.

— O nome Gilson Rabelo te diz alguma coisa? Ou você já esqueceu?

Fabinho, apesar de não ter esquecido de Gilson, não queria se lembrar de sua existência. Ele só cultivava as memórias que considerava importantes, ligadas a fatos e pessoas que lhe interessavam. Existiam sentimentos, fatos e pessoas que ele lutava dia e noite para apagar de sua mente para sempre, e ele vivia como se nunca tivesse passado a infância naquela rua ou conhecido aquela gente. A única pessoa dali que lhe importava era Amora.

Ele não dirigiu a palavra a Giane, mantendo-se em silêncio, pois não se importava com ela ou com o que ela pensava. Em seu íntimo, desejou que Giane fosse para o inferno. Ele acreditava que era fácil para ela amar aquele lugar e as pessoas, ao contrário dele. Giane, que era querida por todos na Casa Verde, representava tudo o que ele nunca foi. Fabinho não demonstraria gratidão por aquela gente que o apenas suportou. Recordava-se de como, na infância, era tratado como um peso, não sendo valorizado ou apreciado por ninguém. Enquanto morava no lar, sentia-se sempre marginalizado, como um intruso.

O rapaz foi direto para a casa de Gilson.

— Licença! — disse Fabinho, ao abrir a porta.

Viu que todos estavam comendo pasteizinhos feitos por Salma.

— Pastel da tia Salma, né? — disse, apontando para o pastel que Gilson estava comendo. — Eu não acredito que eu cheguei nessa hora. Isso é sorte, hein, gente.

Amora não gostou de ver Fabinho ali. Para ela, já era claro que ele nunca mais tinha voltado àquela rua depois de ser adotado, o que não a surpreendia. Era evidente que, ao ser adotado por uma família rica, Fabinho faria o possível para esquecer sua infância, já que, assim como ela, sentia vergonha de suas origens humildes. No entanto, sua presença a incomodava profundamente. Primeiro, ele havia aparecido, sem ser convidado, em sua festa de noivado, e agora, surgia na Casa Verde exatamente no dia e horário em que ela estava visitando Bento. Ela se perguntava o que ele pretendia com aquela aparição. Será que ele não estava ali apenas para visitar Gilson e Salma? Será que ele a estava procurando? E, se sim, como ele sabia que ela estaria ali? O que Fabinho realmente queria com ela? Amora sentiu que estava sendo perseguida.

Amora foi à Casa Verde apenas para rever Bento e matar a saudade. Ela lamentava a perda de contato com ele e, apesar de não ter voltado à Casa Verde porque sua mãe não permitia e porque o local e as pessoas lhe recordavam a pior fase de sua vida, sentia-se constrangida em reaparecer após cerca de quinze anos. No início, eles se comunicavam por e-mail, mas Bento parou de responder, o que ela atribuiu a uma possível avaria no computador dele, e com o tempo, acabaram perdendo o contato. Ela não tinha mais o e-mail de Bento. Contudo, Amora nunca o esqueceu e, ocasionalmente, pensava nele. Ao reencontrá-lo no flash mob da inauguração do Las Blumas, sentiu-se emocionada e feliz.

No entanto, ela nutria sentimentos ambivalentes, pois Bento também a fazia lembrar de um passado que a aterrorizava, causando-lhe angústia. Apesar disso, percebeu que o carinho imenso que sentia por ele permanecia, e ele era a pessoa de quem ela mais sentira falta e com quem mais se importava. Na infância, eles eram inseparáveis, adorando-se desde o primeiro encontro, e Bento sempre a protegia e defendia. Após passar a noite em claro, com o coração apertado por pensar nele, Amora decidiu ir vê-lo. A aparição de Fabinho, porém, estragou tudo. Ela se recordou de como ele vivia azucrinando a ela e a Bento, e infernizando a vida de todos na infância, e constatou que ele, pelo visto, não havia mudado. Fabinho era sempre o encrenqueiro, desde pequeno tinha o péssimo hábito de criar brigas, confusões, discussões ou tumultos por onde passava.

Fabinho notou que todos estavam olhando para ele com cara de espanto.

— Viu fantasma, tio Gilson? O que é isso? — perguntou Fabinho.

Gilson e Salma estavam surpresos com a aparição de Fabinho, já que, desde que ele foi adotado, nunca mais havia retornado ou dado notícias. Para eles, já foi uma surpresa a aparição de Amora, Fabinho aparecer ali também foi surpreendente. Eles sabiam que Fabinho tinha aparecido no noivado de Amora, mas que, na ocasião, havia ignorado Bento e Giane e, posteriormente, brigado com eles. Para Salma e Gilson, era a confirmação de que Fabinho não valia nada. Desde pequeno, Fabinho não era flor que se cheire. Mas acabaram de mudar de ideia.

O casal, que antes acreditava que Fabinho tinha vergonha dele e só se interessava por pessoas ricas e famosas, pessoas que tinham algo a oferecer em troca, agora pensava que estava enganado. Salma e Gilson consideraram a possibilidade de que tivesse ocorrido algum mal-entendido entre Fabinho, Bento e Giane, e que talvez o rapaz não os tivesse reconhecido de imediato. O casal chegou à conclusão de que a adoção fez bem a Fabinho. Ele parecia ter virado gente. Fabinho estava demonstrando gratidão e afeto pelas pessoas que cuidaram dele e o viram crescer.

— Mas Fabinho, é você mesmo meu filho? — disse Salma, contente.

Fabinho a abraçou, tentando disfarçar o pânico que sentia. Aquele lugar, as pessoas, tudo o que o remetia à sua infância, o aterrorizava profundamente.

— Também não mudei tanto assim. — disse Fabinho.

Em seguida, abraçou Gilson.

— E aí, tio Gilson, está bonitão, tá inteirão, tá jovem. — disse Fabinho, sorrindo.

Giane tinha entrado e ficou ao lado do Bento. Na sala, além de Amora, Gilson e Salma, estavam Nestor e Odila.

— Opa! Hum! Tudo bem, Amora? — Giane cumprimentou, sarcástica.

— Oi, Giane! — disse Amora, mexendo em seu celular.

Ela cumprimentava Giane na frente de todos para não levantar suspeitas de que tinha algum problema. Amora não queria que a chamassem de louca, nem ser alvo de pena ou de chacotas. Apesar disso, mal suportava olhar para Giane, sentindo uma vontade intensa de gritar. A presença de Giane a fazia lembrar constantemente de sua infância desamparada, lembranças que ela detestava. Para Amora, Giane não existia, assim como sua infância nas ruas.

Fabinho percebeu que Giane estava tomada pelo ciúme por causa de Bento e Amora. Quando eram crianças, ela já sentia ciúmes de Bento, mas de forma disfarçada, enquanto agora o ciúme de Giane se mostrava mais evidente.

Bento ficou bastante incomodado com a presença de Fabinho ali. Ele se questionava qual seria a intenção de Fabinho. Seria apenas uma visita? Era muito estranho que ele aparecesse na Casa Verde após tanto tempo sem dar sinal de vida. E ainda mais estranho era ele ter aparecido justamente no momento em que Amora estava lá para visitá-lo. Isso levou Bento a suspeitar que Fabinho pudesse estar atrás de Amora. Bento se perguntou como ele sabia que ela estava ali e se ele a estaria seguindo. Ele se lembrou que, quando criança, Fabinho vivia importunando e perturbando a ele e a Amora.

— Quê que foi, Fabinho, você também resolveu fazer uma surpresa pra gente? — disse Bento.

Fabinho se deu conta de que Bento também devia achar estranho o seu aparecimento depois de tantos anos sem dar notícias. Também devia estar incomodado com sua presença. Afinal, quando eram crianças, ele vivia importunando Bento e Amora. Fabinho tinha certeza de que Bento acreditava que ele nunca mais voltaria a pôr os pés na Casa Verde.

— Ué Bento, não te falei que eu queria matar a saudade do passado? Ontem na casa da Amora, e hoje no bairro do meu coração. — disse Fabinho. Dirigiu-se à Amora. — Aliás, Amora, estranho, eu senti que você ia estar aqui também.

Bento considerou o quão dissimulado Fabinho era. Para ele era óbvio que Fabinho não sentia nenhuma saudade do passado; do contrário, teria dado notícias. No ponto de vista de Bento, Amora não deu mais notícias porque ela não tinha mais o seu e-mail, além do mais, Bárbara não permitia que a filha botasse os pés na Casa Verde.

— É! Que beleza! De repente, todo mundo resolveu ficar com saudade dos pobres, né não? — disse Giane, rindo, irônica. Deu um tapinha em Bento. — Deve ser por isso, né, que eles vivem mandando notícia.

Fabinho entendeu que Amora não aparecia na Casa Verde havia anos, desde que foi adotada, nem dera notícias, e suspeitava que Bárbara Ellen, sua mãe adotiva, era a culpada. Contudo, achava estranho que, mesmo assim, Amora não tivesse dado notícias, telefonado ou se comunicado pela internet. Ele achava particularmente estranho que Amora não tivesse mantido contato com Bento, a quem ela parecia gostar tanto, depois de tê-lo deixado no lar.

Do seu ponto de vista, Fabinho não via razão para Giane reclamar ou criticar, pois nunca se importou com ele, nem com Amora. Ele duvidava que Giane ou qualquer outra pessoa ali sentisse saudade dele. Fabinho tinha certeza de que ninguém na Casa Verde gostava dele e que a cordialidade que demonstravam era apenas educação. Ele apostava que, assim que virasse as costas, todos falariam mal dele, julgando-o mau-caráter por ter tratado Bento e Giane com desprezo. A opinião daquelas pessoas, que ele sentia que nunca tiveram afeto por ele, não o afetava. Ele estava convencido de que todos deram graças a Deus, e talvez até comemoraram, quando ele partiu, porque se sentiram livres dele.

— Mas é muito bom ver vocês de novo reunidos nessa casa. — disse Salma, contente, referindo-se a Amora e Fabinho. — Não é Gilson?

— Tá decidido. — disse Gilson, abraçado a Fabinho, contente. — Fabinho vai almoçar com a gente também, a gente vai botar a vida em dia. Quero saber de você.

— É, tá tudo certo. Família que me adotou é ótima. Gente fina, educada. Tudo certo. — disse Fabinho.

— E ô Salma, olha como ele tá bonitão, tá elegante. — Odila elogiou Fabinho. — E essa jaqueta nos trinques, hein?

— Gostou? Essa jaqueta aqui é de Milão, comprei em Milão, sapato também, bonito, né? — disse Fabinho, exibindo a jaqueta e os sapatos que usava.

— Milão? — disse Salma, impressionada.

— Tinha que ir pra Milão. Milão. — disse Fabinho. Dirigiu-se a Bento. — Você gosta de flor, Bento? Milão, o que não falta é flor.

Pouco tempo depois, o almoço ficou pronto e quase todos se serviram, exceto Amora e Giane. Socorro estava na sala, ao lado de Amora, e as duas apenas tomavam um suco.

— Hummm. Eu adoro picadinho! — gritou Nestor, ex-marido de Odila.

— Receita do caderninho da Salma. — disse Gilson.

Fabinho estava sentado no sofá, ao lado de Odila e Nestor.

— Tem que vender essa receita. — disse Fabinho. — Isso aqui é uma maravilha. Vai ficar rica, tia!

Ele tinha aversão à comida de Salma e não suportava nem o cheiro. Aquele ambiente, junto com o odor de fritura, trazia-lhe más recordações.

— Posso perguntar uma coisa? Quem é que vai servir a nossa cocotinha? — perguntou Nestor.

Nestor, Odila e Fabinho riram. Giane pegou uma tigela de linguiça calabresa com cebola e ofereceu à Amora:

— Vai uma linguicinha aí, Amora?

— Oi, desculpa, eu não como embutidos. — disse Amora, empurrando a tigela.

Amora recusou a comida de Salma por considerá-la muito calórica e pouco sofisticada. Acostumada com pratos mais refinados, ela não aceitaria comer picadinho e jamais provaria linguiça, ingredientes que não se encaixavam em sua dieta. Ela era muito vaidosa com seu corpo magro e fazia de tudo para evitar ganhar peso, celulite ou estrias, o que poderia prejudicar sua carreira. Para se safar da situação, inventou a desculpa de que estava fazendo a dieta da luz.

— Ah! Você não vai fazer essa desfeita, né? — insistiu Giane.

Socorro não podia deixar de defender o ídolo dela:

— Ô Giane, você não sabe que a Amora tá fazendo a dieta da luz não? Não insiste. Eu, hein! — disse Socorro, tomando a tigela de linguiça da mão de Giane e afastando-se.

— Há! — disse Giane, afastando-se de Amora.

Fabinho se aproximou de Amora. Ele precisava levá-la imediatamente para a Class Mídia e sentia que o tempo estava correndo contra eles. Era crucial que saíssem dali sem mais demora.

— Amora, disfarce e vem comigo.

— Hã? — disse Amora, estranhando.

— Vem. Não discute, vem. — disse Fabinho.

Amora largou o copo de suco sobre um móvel e seguiu Fabinho. Ele, com pressa, a agarrou pelo braço e a puxou para fora do portão.

— O quê que você veio fazer nesse buraco, Amora? Passei na agência do teu sogro e tá todo mundo louco atrás de você. — disse Fabinho.

— E você veio atrás de mim. — disse Amora. — Como é que você sabia que eu tava aqui?

— Eu vi a sua cara ontem quando o Bento foi embora. — ele disse. — E eu me lembro que quando ele ficava triste, você ia atrás dele sempre. Vambora.

Amora inferiu que o objetivo de Fabinho era se passar por herói na agência. A lógica por trás disso era simples: se ela não comparecesse ao estúdio para a sessão de fotos, a agência correria o risco de perder a conta. Ao "salvar" a situação, Fabinho esperava impressionar Natan, garantindo sua contratação imediata.

— Ah, já sei. Tá tentando fazer uma média com Natan né, seu oportunista barato? — disse Amora, cruzando os braços. — E se eu não for?

Amora não deixaria Fabinho se dar bem às custas dela.

Já que Amora estava decidida a criar obstáculos, Fabinho resolveu usar de ameaças contra ela. Não importava qual método precisasse empregar, ele conquistaria a vaga.

— Amora, use a cabeça. Se você voltar agora eu falo que você passou mal, que foi pro hospital. Livro tua cara. Mas você imagina se o teu noivo e o teu sogro descobrem que você largou tudo pra encontrar o namoradinho de infância? Ia pegar mal pra você, não ia? Qual vai ser?

— Vou te mostrar qual vai ser. — disse Amora. Pensou logo em uma maneira de Fabinho não poder cumprir a ameaça.

Amora deu as costas para Fabinho, pegou o celular na bolsa e ligou para o noivo. Maurício não se oporia a ela visitar a casa onde morou e as pessoas que a criaram, mas não ficaria nada satisfeito em saber que ela estava encontrando um namoradinho de infância. Ela contaria apenas meia verdade para ele. O cliente, no entanto, não aprovaria que ela tivesse se atrasado para a sessão de fotos para visitar seus antigos cuidadores, já que ela tinha um compromisso agendado e ele poderia considerá-la irresponsável. Por isso, Amora decidiu inventar uma desculpa. Seria melhor que o cliente pensasse que o atraso foi por ela ter passado mal e ido para o hospital. Assim, ela pediria a Maurício para informar Natan que ela esteve internada.

— Alô, Maurício? Calma, meu amor, calma, calma que está tudo bem comigo. Eu estou na Casa Verde. Eu vim visitar o lar onde morei, as pessoas da rua. Eu sei, eu sei que foi uma loucura meu amor, mas eu acordei com o coração apertado e fiz o que tinha que fazer, pronto. Meu amor, calma. Eu já estou indo pro estúdio. Eu te liguei pra te pedir um favor. Tem como falar com seu pai que eu passei mal e que eu fui parar no hospital? Desculpa Maurício, desculpa te pedir isso, mas eu preciso desse favor. — virou-se e olhou para Fabinho. — Obrigada, Maurício. Beijo. Tchau.

Amora desligou o celular.

— Pronto. Agora o Maurício sabe a verdade. E se você falar a verdade pro Natan, você se queima com o Maurício. E aí, qual vai ser você? — disse ela.

Fabinho se impressionou com a esperteza de Amora, apreciando sua inteligência. Embora a tivesse ameaçado, ele acabou levando um revés. Ele percebeu que tinha muito a aprender com a moça.

— Sabe que é por isso que eu gosto de você? Sabe jogar, né? Mas eu não quero jogar com você, Amora, eu quero compor com você.

— Compor comigo? — disse Amora.

— Compor. — disse Fabinho.

— Como compor se você estava me ameaçando até agora? — ela disse, furiosa.

— Não tava te ameaçando. Eu não falei pra você que ia entregar você pro Natan. Eu falei que ia ser ruim pra você se ele soubesse. É diferente. — disse Fabinho.

Amora moveu a cabeça, demonstrando ironia, pois Fabinho não a convencia com suas palavras.

— Amora, eu sou teu aliado. Eu vim aqui pra te ajudar a encobrir a burrada que você fez. Só isso. Vambora. Fala que vai embora, você não quer comer essa comida mesmo. Vambora. — insistiu Fabinho.

Amora não conseguia entender por que Fabinho tinha aparecido em São Paulo depois de quase quinze anos, nem o motivo que o levara a se aproximar dela e se tornar amigo de Maurício. Ela se questionava sobre as intenções dele ao se aproximar: será que ele queria ficar famoso?. A família adotiva dele, pelo que ela sabia, era rica, então ele não precisava de dinheiro. No entanto, Amora estava convicta de que a aproximação de Fabinho era movida por interesse, já que ele era interesseiro desde pequeno e fez de tudo para ser adotado por uma família de posses.

— Eu não sei qual é a sua. — disse Amora. — Mas não tenho a menor confiança em você.

Pouco tempo depois, Amora já estava indo embora. Gilson, Salma, Odila, Nestor, Silvério, Socorro, Giane, Bento, Fabinho, todos a acompanharam até o carro.

— Ah, jura que você tem que ir, filha? — lamentava-se Salma. — Agora o almoço já está servido.

Embora sentisse fome, Amora recusou-se a comer a comida de Salma de qualquer maneira. A comida, por si só, trazia à tona as lembranças da pior fase de sua vida. Além disso, ela já estava atrasada e precisava chegar ao estúdio. Comer algo leve depois resolveria.

— Ai, eu adoraria, tia, mas eu estou muito atrasada para um trabalho e tem várias pessoas me esperando, mas eu adorei rever vocês. — disse Amora. — Eu vou ser eternamente grata por tudo que vocês fizeram por mim.

Exceto pelo fato de as pessoas daquele lugar pertencerem a um passado que ela lutava para esquecer, dia e noite, e por serem de um nível inferior ao dela, Amora não tinha nada contra os moradores da Casa Verde. Contudo, também não tinha nada a favor. Ela reconhecia que aquelas pessoas a acolheram no momento mais difícil de sua vida e que a Casa Verde tinha sido o primeiro lugar onde ela havia tido momentos felizes. Ao chegar na rua, ela se emocionou ao recordar-se de tudo que vivera com Bento. Ela sempre se sentia feliz perto dele, e isso não havia mudado com o tempo. Amora tinha ótimas lembranças com ele. No entanto, ao contrário de Bento, ela não era apegada a Gilson e Salma, nem aos vizinhos, com exceção de Bento. Ela viveu pouco tempo no lar e, enquanto morava lá, evitava se apegar ao lugar e às pessoas, pois não pretendia ficar por muito tempo. Além de não suportar aquele ambiente, ela queria encontrar a irmã.

Naquela época, acreditava que sua irmã Simone havia partido para tentar a sorte em outro lugar e que voltaria para buscá-la. Na rua, mendigando, elas não teriam futuro. Simone era sua única família após a morte da mãe, pois não tinham outros parentes, apenas uma à outra. Logo que chegou ao lar, Amora ainda esperava encontrar a irmã, mas, com o tempo, percebeu que Simone tinha ido embora e sumido no mundo, sem nunca mais a procurar. Foi no lar que conheceu Bento e logo se afeiçoou a ele, tornando-se amigos. Sentindo-se sozinha e sem mais ninguém, ela acabou se apoiando no afeto de Bento, sentindo-se segura ao seu lado.

Apesar de ter sido bem cuidada por Gilson e Salma, ela não se sentia bem ali. A questão não era que a tivessem tratado mal, mas sim que o lar de Gilson a fazia lembrar constantemente de que havia passado a infância inteira na rua. Ela não gostava de recordar como chegou ali. Esse era um dos motivos para ter querido ser adotada. Ainda era difícil para ela estar lá, e não apenas porque aquelas pessoas eram de um nível inferior. Ela sentia horror por aquele lugar e por aquelas pessoas, pois eles lhe traziam lembranças indesejadas. Bastava olhar para aquelas pessoas para a lembrança de sua infância como menina de rua ressurgir, de quando chegou ali, desnutrida, esfarrapada e usando as sandálias enormes da irmã. Quanto menos fosse lá, melhor. Mas, apesar de tudo, foi bom reencontrar Bento e ela não queria mais perdê-lo de vista. Ela e Bento poderiam se encontrar em qualquer outro lugar, sem ser na Casa Verde.

— Não precisa agradecer nada, basta você dar notícia de vez em quando que está de bom tamanho. — disse Gilson.

— Eu dou, tio. Pode deixar. — disse Amora, abraçando Gilson e Salma. — Tchau! Tchau!

— Volta, hein! — disse Salma.

— Tchau seu Nestor, seu Silvério, dona Otília. — disse Amora. Nestor e Silvério acenaram para ela.

Amora acabou errando o nome da vizinha. Para ela, Odila não existia. Era outra pessoa, alguém sem importância. Por isso, ela não se preocupou em pronunciar o nome corretamente. Agindo assim, ela não dava valor à pessoa e, consequentemente, não se lembrava do passado, o que a poupava do sofrimento.

— Odila! — disse Odila.

— Liga não, liga não, tia, liga não. É que ela deve ter muita coisa na cabeça, entendeu? — disse Giane, sarcástica, e Silvério cutucou em seu ombro. Giane tinha de parar de implicar com Amora.

— Espero que um dia possamos ser amigas, Jane. — disse Amora, disfarçando o horror que sentia.

Amora nunca seria amiga daquela mocoronga, não tinha qualquer interesse em se aproximar dela. A presença de Giane a fazia se sentir mal, lembrando da sua infância descalça, o que ela não suportava. Amora preferia fingir que Giane não existia. Ela fazia questão de chamá-la de "Jane" em vez de Giane, tanto para se proteger quanto para provocá-la.

— Mal posso esperar. — disse Giane, irônica, e grunhiu.

— Ai, Amora, eu nunca vou esquecer esse dia. — disse Socorro, emocionada, dando um abraço em Amora.

— Obrigada pelo carinho, Socorro! — disse Amora. Na opinião de Amora, Socorro era uma pessoa chata e devia se afastar dela. Amora não gostava que nem Socorro nem qualquer outra pessoa dali a tocasse, com a única exceção sendo Bento, pois com ele ela se sentia segura.

— Tchau, cocotinha! Juízo. A gente se vê. — Fabinho despediu-se.

Amora lhe lançou um olhar de desaprovação. Despediu-se de Bento e partiu, após prometer que compareceria ao aniversário dele. Fabinho retornou à agência sem se despedir de Giane e Bento. Não trocou uma palavra com eles nem olhou para o rosto de Giane, pois sentia-se mal perto dela. Doía demais olhar para ela. Ele falou rapidamente com os outros presentes e foi embora. Ao chegar à Class Mídia, deu de cara com Bárbara.

— Oi! Tudo bem? — cumprimentou.

— Fabinho! — Bárbara sorriu.

— Amora deu notícia? — perguntou o moço.

— Ai, graças a Deus! Graças a Deus. — disse Bárbara, unindo as mãos em oração, e indo embora.

— Amora não passou bem. Ela foi pro hospital. Mas tá tudo tranquilo agora, tá Fabinho? — disse Maurício.

Fabinho não perdeu a chance de bancar o herói.

— Maurício, eu estou sabendo de tudo. Eu estava com Amora na Casa Verde quando ela te ligou.

— Como assim, Fabinho? — perguntou Maurício.

— Maurício, ontem a gente conversou e aí a gente lembrou do passado, bateu saudade e quando você me disse que ela tinha desaparecido, eu deduzi que ela tinha ido visitar as pessoas que criaram a gente. Eu cheguei lá e falei Amora, vai fazer essas fotos. Está todo mundo louco atrás de você, inventa que... Não sei, que estava no hospital. Limpa tua barra. — disse Fabinho.

— Sério isso, Fabinho? — disse Maurício.

— Sério. — disse Fabinho.

— Então tu é o salvador da pátria. — disse Maurício, dando-lhe uns tapinhas no ombro.

— Imagina!

— Olha só, o seu estágio começa amanhã, tá?

— Mas eu não falei com seu pai ainda. — disse Fabinho.

— Tá contratado e ponto final. Beleza? — disse Maurício, apertando-lhe a mão.

— Obrigado, cara. Obrigada mesmo. — disse Fabinho, abraçando-o. — Às nove aqui?

— Às nove. Valeu!

— Valeu. — disse Maurício.

Fabinho sorriu. Conseguiu o que queria.