Um amor improvável
39 Devolvendo o Pixinguinha
No dia seguinte, Fabinho estava varrendo uma das salas da Toca do Saci quando Amora apareceu.
— Olha só! Quem diria? Fábio Queiroz pegando no pesado!
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Fabinho.
— Ai, Fabinho, eu te avisei pra você ficar longe de mim, mas você não consegue, né? Olha aí o resultado. — disse Amora. Ela sabia que para Fabinho, trabalhar como faxineiro era uma humilhação e ela estava adorando vê-lo humilhado, no fundo do poço.
Amora achava um absurdo Malu levar Fabinho para a Toca do Saci. Malu só podia ter feito isso para provocá-la, como da vez em que ela tirou Fabinho da cadeia. Malu estava sempre procurando um modo de atingi-la. Não somente ela, como a mãe também. Malu dizia que estava ajudando Fabinho porque acreditava que ele podia se tornar uma pessoa melhor. Porém, Amora acreditava que Fabinho não tinha jeito. Desde pequeno, Fabinho era invejoso, ressentido, vivia azucrinando a ela e o Bento. E isso não iria mudar. Fabinho não mudou nada desde que saiu do lar para viver com a família adotiva. No pensamento de Amora, se Malu resolveu abrigá-lo, só podia estar usando-o para atingi-la. Malu nunca foi com a cara do Fabinho.
Como Fabinho imaginava, Amora veio tripudiar em cima dele.
— Amora, você está adorando me ver na pior, né? — disse Fabinho. — Mas você se prepara, porque você é a próxima. Assim que o Bento souber que você está querendo a grana dele, a sua festa vai acabar.
— Eu amo o Bento desde criança e ele sabe disso. — disse Amora.
No ponto de vista de Fabinho, Amora podia até gostar do Bento. Mas ela jamais iria se conformar em levar uma vida simples e anônima na Casa Verde. Amora não admitiria ser pobre de jeito nenhum. Não era ela quem estava dizendo outro dia que ela e o Bento iriam usufruir do dinheiro que ele, Fabinho, achava que ia ser dele? Estava na cara que Amora estava era de olho na grana do Plínio. Aquela conversa da Amora, de mudança de vida, de levar vida simples longe da mídia, era da boca para fora. Ela deixou bem claro para ele, naquele dia, na delegacia, que ela pretendia se valer do fato do Bento ser herdeiro do Plínio. Amora podia enganar todo mundo, incluindo o otário do Bento, mas a ele, Fabinho, ela não enganava.
— A gente vai voltar. Você vai ver. É só uma questão de tempo. — disse Amora. Até porque ela estava fazendo de tudo para Bento acreditar que ela mudou, que ela estava voltando a ser aquela menina simples e doce que ele conheceu no lar do Gilson.
— Sonhar não custa nada, né? — disse Fabinho, e deu de ombros. — Mas tudo bem, se vocês ficarem juntos, também não vai dar certo mesmo. Vocês não têm nada a ver. Então, você baixa a tua bola, porque o teu futuro é tão negro quanto o meu.
Fabinho achava que, se o Bento resolvesse voltar com Amora, só se ele fosse muito idiota. Só sendo mesmo muito otário para cair na conversa da Amora. Será mesmo que o Bento acreditou no papo da Amora de levar vida simples na Casa Verde? E será mesmo que a Amora acreditava que o Bento nunca iria descobrir suas tramoias? Ela realmente achava que iria se dar bem? Que o Bento iria ficar satisfazendo todos os caprichos dela? Fabinho duvidava. Bento nunca ligou para luxo. Vivia fazendo discurso contra ganância. Era tão orgulhoso que era capaz de não querer um centavo da grana do Plínio. Bento era daquelas pessoas que romantizavam a pobreza. Aquele otário era bem capaz de recusar a herança, porque na cabeça dele, era um dinheiro dado de mão beijada, apenas por ser filho do Plínio. Era uma grana que ele não batalhou para conseguir. Fabinho achava que podia demorar, mas cedo ou tarde Bento iria se dar conta de que Amora não valia nada e daria um pé na bunda dela. Um dia, ele iria descobrir todas as armações da Amora. Até porque ela não conseguiria esconder por muito tempo. Ninguém consegue enganar as pessoas para sempre. Um dia a casa cai. Amora podia até achar que ia se dar bem e ser feliz com Bento, mas acabaria se dando mal. Assim como aconteceu com ele, Fabinho.
Se tem uma coisa que ele estava aprendendo a duras penas era que o crime não compensava. Suas armações de nada adiantaram. Acabou sozinho, sem nada e nem ninguém. A vida estava ensinando a lição direitinho.
Amora riu. Achou que Fabinho estava era morrendo de inveja. Fabinho sempre se mordeu de inveja do Bento, desde pequeno. Ainda mais agora, que ele estava na pior, que tudo que ele achava que era para ser dele, era do Bento. Na opinião de Amora, ela e Bento tinham tudo para serem felizes. O amor deles era especial, porque sobreviveu à distância e ao tempo. Tudo daria certo para eles, porque ela e Bento mereciam. Amora tinha certeza de que ela e Bento ficariam para sempre juntos. Fabinho era um invejoso, porque nunca chegou aos pés da pessoa incrível que Bento era. Fabinho nunca encontrou nem encontraria uma mulher que o amasse como ela amava o Bento. Fabinho estava era morrendo de dor de cotovelo e o pior castigo para ele era ver a felicidade dela e do Bento.
Amora tinha a mais absoluta certeza de que ela e Bento estavam destinados à grandeza. Eles eram o casal mais popular do lar do Gilson, e agora seriam conhecidos e admirados no Brasil inteiro. Ainda mais agora que ela havia conseguido transformar Bento num milionário.
— Você está se roendo de ódio, né? Porque eu e o Bento, nós nascemos um para o outro. Todo mundo sabe disso desde que eu cheguei no lar do tio Gilson. Quando ele se machucava, eu ia correndo pra ajudar ele, e ele também vinha correndo pra mim.
Fabinho pensou que se Amora ainda achava que ele estava morrendo de inveja, estava redondamente enganada. Ele não queria mais nada com ela. Ele nunca gostou de Amora de verdade. Se tratava de um capricho. Ele não sentia amor ou atração genuína pela pessoa dela. Ele gostava do que ela representava: o glamour, a fama, a entrada na elite. Ele não aceitava o fato da maior it-girl do país ainda ter sentimentos por um florista pobretão, e não aceitava que ela o preterisse em favor de Bento.
Ele simplesmente botou na cabeça que Amora era a mulher ideal para ele, que era filho do Plínio Campana. Ele achava que era um herdeiro rico, e via vantagem em estar ao lado de uma mulher rica e famosa. Por trás da cisma com Amora havia desejo por dinheiro, status, rivalidade, competição. Ele queria tomar Amora do Bento, levar a melhor sobre aquele otário.
Fabinho implicava com o apego entre Bento e Amora. Fabinho morria de inveja da relação de Bento com Amora, não porque a amasse, mas porque via que eles tinham uma ligação forte, uma conexão que ele não tinha com ninguém. Ninguém o amava como Amora amava Bento, nem a Giane. Amora também representava para Fabinho um troféu, um prêmio que confirmaria sua superioridade sobre Bento. Além do mais, Fabinho se identificava com Amora na falta de ética. Afinal, ambos eram ambiciosos e sem escrúpulos, gostavam de dinheiro, de conforto, e jogavam pesado para obter o que desejavam, não importava o preço a pagar. Agora, Fabinho não queria saber da Amora. O que ele sentia por Amora era desprezo, ainda mais depois do que ela aprontou com ele. Mas Fabinho deixaria Amora pensar o que quisesse. Ela se achava o máximo e que todos os homens caíam aos pés dela. Igualzinha à mamãezinha adotiva. Mas Amora estava enganada. Nem todos os homens do mundo eram otários como Bento e Maurício. E Amora ainda iria quebrar a cara.
— É? — disse Fabinho.
— É. — disse Amora.
Mas Fabinho achava que de nada adiantava Amora idealizar um amor de infância que não existia mais. Uma hora Amora iria acordar para a realidade e se dar conta disso. Ela e Bento não eram mais aquelas crianças.
— E você é aquela menina, ainda? Não, né?
— Olha só, eu não vim pra bater boca com você. — disse Amora. — Eu só vou te dizer uma coisa: você fica bem longe quando eu me casar com o Bento! Porque senão eu te esmago, como eu esmago uma pulga, tá? E não tenta aprontar mais nada, não, porque eu estou de olho em você, tá? — passou a mão no rosto dele e jogou um beijo, antes de ir embora. O recado estava dado. Amora não deixaria Fabinho atrapalhar sua vida, de jeito nenhum. Se Fabinho resolvesse se meter com ela e com Bento novamente, ele iria ver o que era bom para a tosse. O que ela queria era que Fabinho sumisse, fosse para bem longe e nunca mais aparecesse.
Fabinho jogou a vassoura no chão, furioso. Como se não bastasse Amora ter vindo tripudiar, ainda por cima o ameaçava. Se ela achava que iria se dar bem, estava enganada. Amora estava era se iludindo, achando que podia aprontar, passar por cima de todos como um trator e ser feliz para sempre, como em um conto de fadas. Mas quando ela se desse conta, talvez fosse tarde demais e ela já teria perdido o otário do Bento. Porque não era possível alguém ser tão burro para não enxergar a pilantra que Amora era. Ele cantou esta pedra fazia tempo. Ele era pilantra e sabia reconhecer gente pilantra de longe. O problema era que Amora enganava mais. Ele tinha pinta de malandro, tinha ficha na polícia, e era pobre. Naturalmente, todos desconfiariam dele. Mas ninguém desconfiaria de uma patricinha fútil e mimada, filha de uma atriz famosa e futura nora do Plínio Campana. Ninguém imaginaria que por trás daquela celebridade tão admirada, tão amada pelo país inteiro, daquela que era fonte de inspiração para muitas garotas brasileiras, da it-girl, havia uma vigarista. Se bem que agora ela era uma celebridade polêmica. Amora agora se fazia de boazinha, de santa ou de vítima para a mídia, para limpar sua imagem depois dos escândalos. Só que de nada iria adiantar tanto esforço para limpar a imagem e continuar na mídia. Um dia todos descobririam as tramoias dela, todos saberiam quem era realmente Amora Campana e ela iria dar com os burros n’água. Assim como ele, ela também iria se dar mal.
Ele resolveu falar com Malu. Assim que Malu chegou, Fabinho pediu para Madá chamá-la. Ficou esperando Malu na sala dela. Amora só podia estar armando alguma coisa contra ele. Ultimamente, Amora não fazia outra coisa que não armar para prejudicá-lo. Ela já foi na prisão para provocá-lo, fazê-lo perder a cabeça, agora resolveu aparecer na Toca para ameaçá-lo. Estava muito na cara que ela queria era tirá-lo de circulação. Ele não conseguia entender por que Amora o perseguia. Ela já não se vingou? Ele já estava na pior, acabado. O que mais ela queria? Será que não se dava por satisfeita? Certamente, ela o via como uma pedra no sapato.
— A Amora veio aqui só pra te ameaçar, foi isso mesmo? — perguntou Malu.
Malu não conseguia entender. O que Amora pretendia com isso?
— É. Ela quer que eu suma, por bem ou por mal. — disse Fabinho. — Eu nem ia te falar nada, mas depois eu achei melhor te avisar. Não sei, eu acho que você tem que ficar ligada. Não sei o quê que ela pode fazer pra tentar me derrubar.
Malu acreditou nele. Fabinho não teria por que inventar uma história dessas. Amora odiava Fabinho, não o perdoava por tê-la caluniado e destruído a imagem dela. Malu conhecia bem a Amora, e ela só podia ter vindo para tripudiar, humilhar Fabinho, e com certeza ela o ameaçou para que ele não se metesse com ela novamente. Era óbvio que ela faria de tudo para prejudicá-lo, para se vingar. Para Malu era evidente que Amora via Fabinho como uma pedra no sapato.
— Lógico, não. Ela não pode entrar na minha ONG, ameaçar um funcionário meu. Que isso? — disse Malu. — Pode deixar que eu vou ter uma conversa com ela. Pode ir lá trabalhar. Obrigada, viu, Fabinho?
Fabinho levantou-se da cadeira onde esteve sentado.
— Valeu, Malu, imagina. — disse Fabinho, e ia sair da sala, porém, voltou. — Ô Malu!
— Hum! — disse Malu.
— Você nunca foi muito com a minha cara, né? Nem quando a gente achava que era irmão. — disse Fabinho.
Malu não simpatizava com Fabinho. Mas se fosse para ter o Bento de volta, ela seria capaz de aturar Fabinho como irmão. Continuava apaixonada por Bento, e não iria esquecer esse sentimento de um dia para o outro, só porque um exame dizia que Bento era seu irmão. Até porque não havia nenhum botão de liga e desliga em seu coração. Mas ela sabia que precisava esquecer esta paixão que não a levaria a lugar algum. Para ela era difícil acreditar no exame. Mas também não havia como contestar. As chances de o exame estar errado eram praticamente nulas. Quando o exame de Fabinho deu negativo, ela ficou aliviada, pois Fabinho estaria longe da vida dela, da vida de seu pai, de todo mundo. Até lembrar que Bento e Fabinho haviam chegado ao lar no mesmo dia e concluir que Bento podia ser seu irmão. Quando o exame de Bento deu positivo, doeu muito. Ao mesmo tempo, ela ficou horrorizada por, sem saber, ter cometido um incesto. Ela nunca foi para a cama com Bento, mas estavam namorando, se beijaram várias vezes, faziam planos para um futuro juntos, como casal.
— Eu ia adorar que você fosse meu irmão. — disse Malu. — Ia ter o Bento de volta, e ia aceitar de bom grado essa provação.
— Eu não acredito, por causa do Bento, você ia me aguentar como irmão?
Fabinho não conseguia entender. O que será que todas as mulheres viam no Bento? Que Amora gostasse dele, tudo bem. Bem ou mal, eles tinham uma história desde crianças. Dava para entender. Mas Fabinho se questionava o que Bento tinha que encantava tanto as mulheres. Bento sempre tinha uma legião de fãs. Era Amora, Malu, Giane e não se sabia mais quem. Malu gostou do Bento logo de cara. Fabinho até entendia que as mulheres podiam achar Bento atraente. Mas o Bento era o cara mais chato que ele conhecia. Um porre. Na opinião de Fabinho, Bento era certinho demais, legalzinho demais, galera demais, e ainda romantizava a pobreza, com aquele discurso de que dinheiro não trazia felicidade. E era cheio de discursos moralistas também. Chato demais, na visão de Fabinho. Ele se perguntava o que Bento tinha de tão extraordinário, para ter três mulheres apaixonadas por ele. Ele, Fabinho, não conseguia despertar paixões em ninguém. Era impressionante como ele era ímã de rejeição, até no terreno amoroso. As mulheres ou tinham horror a ele, ou se aproximavam dele por interesse, como foi o caso da Mel.
Ele até entendia que Malu se encantou por Bento porque eles tinham os mesmos princípios, os mesmos interesses, a mesma visão de mundo. Mas a Malu não era tão politicamente correta como Fabinho pensava. Ela o ajudou a desmascarar a Bárbara. Mesmo sendo mãe dela. E Malu não era tão otária quanto o Bento. Era bem mais esperta e inteligente que ele, e bem menos chata também. Malu não se deixava enganar facilmente. Malu nunca caiu na conversa dele, Fabinho. Malu não era trouxa. Já o Bento era uma toupeira, principalmente quando se tratava de Amora.
— Mas você não tá na vida pra aliviar pra ninguém, né, Fabinho? — disse Malu, cruzando os braços. Malu achava impressionante a inveja e o ciúme que ele tinha do Bento.
— Você não sabe a infância que eu tive, né? — disse Fabinho.
— Eu sei que você foi muito amado na casa do tio Gilson, pela dona Margot, mais do que eu fui pela minha mãe. — disse Malu.
Fabinho não concordava com Malu. Malu não fazia a menor ideia do que ele passou, e de como ele se sentia. Ela não saiba o que era crescer sem família, sem lugar de pertencimento, sem amor. Que papo era aquele, de que ele tinha sido muito amado na casa do Gilson? Ele não era amado, era apenas suportado. Ninguém gostava dele. Quase nenhuma criança do lar ou da rua queria brincar com ele. As crianças o excluíam, zombavam dele, o humilhavam, e se às vezes o toleravam, era por causa do Bento. Ele era o Fraldinha, a chacota do bairro. Ele era solitário, não tinha amigos. Bento e Giane não contavam. Bento o chamava para participar das brincadeiras para posar de bonzinho, Giane destruiu a bola dele e o humilhou. As pessoas no lar do Gilson não viam a hora de vê-lo pelas costas.
Ele era tratado como um fardo a ser carregado. Era alguém que ninguém queria por perto. Ele era sempre visto como problemático. Por isso ele agarrou a primeira oportunidade de dar o fora de lá. O único jeito de sair daquele lugar era ser adotado. Ele fugiu, porque não suportava mais aquele lugar, olhar para aquelas pessoas. Não foi apenas por causa da grana que ele fez de tudo para ser adotado, embora isso tenha pesado na decisão. Margot e o marido tinham sido as primeiras pessoas a se interessarem por ele. Nenhuma outra família demonstrou interesse em adotá-lo e ele não iria esperar por muito tempo. Não suportaria ficar naquele lar. Odiava aquele ambiente, aquelas pessoas. Tinha horror. Já que o Bento não quis ser adotado, ele resolveu aproveitar a chance.
Na opinião de Fabinho, Malu não tinha muito do que reclamar. Ela foi rejeitada pela víbora da mãe, mas em compensação, era muito amada pelo pai, pelos irmãos adotivos, pela Madá, por Emília. Fabinho tinha certeza de que Malu não foi rejeitada na escola. Malu era o tipo de pessoa que muita gente gostava. Malu não era rejeitada pelo povo da Casa Verde, pelo contrário, era muito querida pelos moradores de lá, muito admirada, elogiada. A rejeição que Malu sofreu da mãe não se comparava à rejeição que ele sofreu da mãe biológica, das crianças do lar e de todo o povo da Casa Verde, até mesmo de Plínio e Irene. Malu jamais foi tão rejeitada quanto ele. Malu podia não ser amada pela mãe, mas era amada por muita gente. Já ele não era amado por ninguém.
— Ah, é? E quem te falou isso? Como é que você sabe da minha vida?
No ponto de vista de Malu, Fabinho foi adotado por uma família rica, estudou nas melhores escolas, teve oportunidades, teve pais maravilhosos que lhe deram amor e carinho e não fez nada de positivo com isso. Em vez de virar gente, se tornou um canalha. Ao contrário do Bento, que viveu a vida inteira no lar do Gilson, não teve pais ricos, nem as mesmas chances que Fabinho e ainda assim era uma pessoa maravilhosa. Para Malu, de nada adiantava usava o passado de abandono como desculpa, pois traumas e sofrimento não davam o direito de cometer crimes ou pisar nas pessoas. Todos tinham seus problemas. Ela tinha seus problemas com a mãe, nem por isso saía por aí descontando nos outros, tratando os outros com desprezo e arrogância como Amora e Fabinho faziam. Para ela, trauma se resolvia na terapia e não querendo dar o troco no mundo, como Fabinho fazia.
— Eu sei que, por exemplo, o Bento não teve tanta sorte como você e você não fez nada com isso. — disse Malu.
Fabinho riu de nervoso. O Bento só não foi adotado pela Margot porque não quis, e o povo vinha com esse papo de que ele não teve sorte? Bento teve a chance e a desperdiçou. Era um otário. A Malu chamava de sorte ter sido adotado por uma família que faliu? E que mania o pessoal tinha de compará-lo com o Bento! Na verdade não devia haver comparação, porque ele e Bento eram pessoas completamente diferentes. A vida, a história dele era completamente diferente da do Bento. Bento era muito amado por Salma e Gilson e por todo o pessoal da Casa Verde. Era natural que Bento se apegasse a um casal que puxava o saco dele o tempo inteiro. Claro que Bento, acomodado do jeito que era, não iria querer ser adotado, arriscar ir viver com gente estranha, preferindo ficar com quem ele conhecia. Para Bento, sempre foi tudo muito fácil e cômodo, porque o que não faltava para ele era gente que o amava e o defendia com unhas e dentes. Era tão paparicado que não sentiu necessidade de procurar os pais biológicos, nem de ser adotado por uma família. Rede de apoio e segurança, o Bento sempre teve. Além disso, ele sempre se contentou em viver na pobreza. Já com Fabinho a situação era outra, completamente diferente. Ele precisou se arriscar, ir viver com outra família, porque não encontrara os pais biológicos e não iria querer continuar passando privações nem vivendo entre pessoas que não gostavam dele. Por isso ele deu o fora sem olhar para trás e decidiu apagar aquela gentinha da memória. Fabinho abanou a cabeça. Malu não entendia nada mesmo. Era sempre assim, sua dor não era validada, as pessoas sempre achavam que era bobagem, que ele reclamava de barriga cheia. Era muito fácil para quem estava de fora julgar.
— Sei também que você é um poço de problema pras pessoas que te amam. Sei de tudo isso! — disse Malu.
O rapaz não podia acreditar no que acabou de ouvir. Malu só podia estar de brincadeira. Pessoas que o amavam? Ninguém gostava dele. Ela não fazia a menor ideia de como ele se sentia, nem de tudo o que ele passou. Era muito fácil para ela subir em cima do pedestal e dar sermão, lições de vida. Malu não estava na pele dele. Fabinho gostava de Malu. Até porque ele via qualidades nela. Era inteligente, não tinha nada de boba, não se deixava enganar facilmente, tinha bons sentimentos. Mas ela tinha o péssimo hábito de julgar os outros e isso o cansava. Era muito fácil para Malu falar. Ela teve uma vida maravilhosa, um pai sempre presente e ainda por cima rico, que a bancava. Ela não cresceu em um lar de adoção e não sabia o que era ser pobre. Ela sempre teve tudo, ao contrário dele.
Fabinho duvidava que Malu enxergaria a vida com tanta bondade se estivesse no lugar dele. Era impressionante, as pessoas, incluindo Malu, esperavam que ele fosse grato por ter sido largado no orfanato como se fosse bicho. Queriam que ele agradecesse por ter vivido da caridade de gente que o detestava. Queriam que ele achasse lindo crescer em um lar de adoção, sem família, sem ninguém que o amasse de verdade. As pessoas achavam que ele devia se conformar com a droga de vida que tinha. Todo mundo achava que ele devia ser grato às pessoas que só atrapalharam a vida dele, que trocaram os bebês, esconderam quem podia ser a mãe dele, o impedindo de ir atrás dos pais. Só que ele não era otário e jamais se conformaria. Ele não prejudicaria mais ninguém, não iria fazer nada, até porque reconhecia que tinha vacilado e não queria mais problemas. Ele ainda tinha razões para sentir rancor, mágoa, revolta, mas destruir as pessoas não o faria se sentir melhor, só destruiria a si mesmo. Já bastava ele estar na pior, estar respondendo a um bando de processos. Ele odiava trabalhar de faxineiro, mas aquela era sua última chance e ele não queria desperdiçar. Ele daria um jeito de se reerguer, e não queria desperdiçar seu tempo com quem não merecia. A vingança estava perdendo o sentido para ele. Mas também não olharia na cara daquela gente. Fabinho não queria saber do povo da Casa Verde. Ele sentia uma mistura de sentimentos: remorso por conta dos erros que cometeu, e também continuava com muita mágoa e raiva. Foi uma vida inteira de rejeição. Ele não sabia se conseguiria perdoar aquele povo algum dia.
— Não, isso não é verdade. Ninguém me ama. — disse Fabinho.
Malu achava que era incrível como Fabinho não percebia a sorte que teve em ter caído nas mãos de pessoas boas como Salma e Gilson, e depois ter sido adotado por uma pessoa boa como Margot. Uma mãe carinhosa, dedicada, que fazia tudo por ele e o defendia com unhas e dentes. Que estava sempre pronta para livrá-lo de qualquer encrenca que ele se metesse. Diferente da mãe dela, que a rejeitava e a desprezava, tratava-a como um mal desnecessário. Não foi nada fácil para ela lidar com a rejeição da mãe. Ela teve até de fazer terapia. Bárbara só dava atenção para Amora, mais ninguém. Malu reconhecia que crescer em um lar de adoção não era o ideal. Isso ela podia entender. E é claro que, menino mimado como era, acostumado a ter tudo na mão sem batalhar por nada, a ter todas as vontades satisfeitas, Fabinho se revoltou quando a família adotiva faliu.
Mas a situação dele podia ter sido pior, na opinião de Malu. Em vez de ter sido cuidado por pessoas como Gilson e Salma, ele podia ter caído nas mãos de gente ruim. Podia ter sofrido maus tratos ou qualquer tipo de abuso. Podia também ter sido adotado por pessoas como Bárbara Ellen, que sempre influenciou negativamente a Amora. Ou podia nunca ter sido adotado, como o Bento. Muitos órfãos não eram adotados. Fabinho não percebia a sorte de ter sido criado em um ambiente saudável e acolhedor. No ponto de vista de Malu, Gilson e Salma eram pessoas maravilhosas e cuidaram de crianças órfãs por bondade genuína, e não para aparecer na mídia e vender uma falsa imagem de bons samaritanos, como Bárbara Ellen fazia com os filhos adotivos. Malu realmente admirava o casal.
Malu tinha certeza de que Salma e Gilson havia criado todos os órfãos da mesma maneira, com amor, carinho, tratavam a todos como filhos. Ela entrevistou o casal, e na opinião dela, Salma e Gilson tinham feito um trabalho extraordinário com os órfãos, e a maior prova era o amor que a maioria das crianças tinham por eles. Amora e Fabinho eram exceções. Gilson e Salma certamente ensinaram bons princípios. Porém, apesar de tudo o que fizeram, de todo o esforço deles, Fabinho se tornou um mau-caráter. E Fabinho não reconhecia nada do que fizeram por ele, só desmerecia quem o ajudou. Para Malu, nada justificava as maldades de Fabinho, nem o fato de ter sido abandonado. Sofrimento nenhum era justificativa para ser cruel. Bento foi abandonado também, e ainda assim se tornou uma pessoa do bem. Malu admirava Bento, justamente por ver a vida com leveza, dar valor a tudo o que tinha, tirar algo bom mesmo das coisas ruins que aconteciam na vida dele. Bento era gente boa de verdade. Estava sempre de bem com a vida, em paz consigo mesmo, e sabia que não precisava pisar em ninguém para ser alguém. Diferente de Amora e Fabinho.
No ponto de vista de Malu, era este o problema de Fabinho: não dar valor ao que tinha. Ele só conseguia olhar para o que não tinha, ou para o que perdeu. Ele foi abandonado, mas foi adotado por uma boa família, foi muito amado, era tratado como príncipe e não deu o menor valor.
Ele também não percebia que Margot e Irene queriam bem a ele. Fabinho não enxergava nada além do próprio umbigo. Certamente, não dava valor à Margot por não ter nascido dela, por se sentir a segunda opção, também por ela ter querido adotar o Bento. E porque ela ficou pobre. Ele não dava valor à Irene porque descobriu que ela não era mãe dele, e sim do Bento. Fabinho tratava Margot e Irene como se fossem nada, tudo por inveja e ressentimento. Era como se Fabinho achasse que o afeto que as pessoas tinham pelo Bento fosse roubado dele. Era uma pena. Malu só podia lamentar por Fabinho. Ele não devia ser tão amargurado. Pelo contrário, ele devia dar valor às coisas boas que a vida deu. Se Fabinho não fosse tão ressentido, tão invejoso, se desarmasse um pouco, tratasse as pessoas melhor, talvez elas gostassem mais dele. Ele reclamava que ninguém o amava, mas ele não deixava as pessoas se aproximarem, só dava patada. Como as pessoas podiam gostar dele, desse jeito? Já o Bento era gentil com todos, só fazia bem às pessoas.
— Ô Fabinho! A Margot daria a vida por você! A Irene te ama muito também! Sabe o que eu lamento? A tua inteligência emocional, ela é tão baixa, que você não consegue perceber o que você perde, o que você joga fora, por ser tão invejoso. Você é ressentido! — disse Malu.
As palavras de Malu entraram por um ouvido e saíram por outro. Na opinião de Fabinho, Malu não podia falar nada dele, pois ela não era nenhuma santa também, por mais que fosse cheia de bons sentimentos e princípios. Ela era ressentida também. Tinha raiva da Amora e da Bárbara. A vida inteira ela disputou homens com a irmã. Tanto que Amora e Bárbara achavam Malu uma invejosa. Bárbara era uma víbora, e ele não dava crédito a ela, nem para Amora. Mas que Malu e Amora disputavam homens, era fato.
Além disso, ele percebeu o quanto Malu era insegura e cheia de complexos. O curioso era que ela defendia seus ideais com convicção, mas era completamente insegura no amor. Malu não se achava páreo para Amora e sofria com o desprezo de Bárbara. Malu e Amora tinham uma relação áspera. Não podia ser diferente, pois Bárbara rejeitava Malu e tinha Amora como filha predileta. Para Fabinho era natural que Malu tivesse ciúmes e ficasse ressentida. Bárbara não valia nada, mas era a mãe dela, e Bárbara tinha mais amor por Amora. Amora também namorou Maurício, e depois Bento, homens que Malu desejou.
No ponto de vista de Fabinho, Malu era uma boba, pois não percebia que ela era muita areia para Bento e Maurício. Ela ficava se rastejando atrás de homens que não estavam à altura dela. Eles ficavam que nem cachorrinhos atrás da Amora porque eram dois otários. Na opinião de Fabinho, Malu merecia homens melhores que Bento e Maurício. Malu merecia um homem que a valorizasse. E ele tinha certeza de que na escola ou na faculdade haviam muitos garotos que queriam namorá-la. Malu que não percebia e insistia em sofrer pelo otário do Bento.
Além do mais, Fabinho não acreditava que Margot o amasse de verdade. Ela apenas o suportava. Margot só o adotou porque Bento não quis ser adotado. Porque ela quis fazer caridade, e também porque não pôde ter filhos dela de verdade. Só não se livrava dele porque não era mais possível devolvê-lo. Ela vivia jogando na cara dele os transtornos que ele causava na vida dela. Na opinião de Fabinho, Irene também não o amava coisíssima nenhuma. Ela achava que ele era um marginal que tentou dar um golpe no marido dela, e que prejudicou o filho dela. Mas Fabinho ficou quieto, apenas balançou a cabeça, irônico. Não adiantava argumentar com a Malu. Ela jamais compreenderia.
Ele continuou trabalhando na Toca. Resolveu limpar uma das salas, onde as crianças estavam sentadas no chão, em círculo, desenhando, pintando.
— Criançada, vamos vazar que eu vou limpar o chão! Vamos nessa!
— Ah, limpa depois! Agora a gente está desenhando! — disse uma loirinha.
Fabinho não queria esperar elas terminarem de desenhar. Não apenas porque queria limpar, mas porque não suportava olhar para elas. Que elas fossem para o pátio.
— Não, queridinha, você não entendeu. Vou limpar agora. — disse Fabinho, batendo palmas. — Vamos, todo mundo! Vocês também! Bora!
— Eu, quer dizer, nós, a gente só vai sair daqui, quando a Madá pedir. — disse uma garotinha negra. Então a pivetinha resolveu desafiá-lo.
— Ah, é?
— É. — disse a menina.
— Quando a Madá pedir? — disse Fabinho.
— É. — disse a garota.
— Tá certo, então! — disse Fabinho.
Fabinho pegou um balde d’água e derramou sobre as crianças e os desenhos delas. Não tinha a menor paciência com aquela criançada chata, insuportável. Ele pediu com educação e elas não quiseram arredar os pés dali. Só por pirraça. Elas tinham de sumir da frente dele. Senão por bem, por mal. Custava colaborarem com ele?
— Água! Água! Ah, ê! Ah, ê! Aguinha! — ele gritava.
— O que é isso? O que está acontecendo aqui? — perguntou Madá, entrando na sala.
— Ele molhou a gente de propósito, Madá. — disse uma garota gordinha.
— Você está falando sério? Eu não avisei que ia tacar água aqui? — disse Fabinho. — Brincadeira! Essa criancinha dessa idade e já assim? Tá certo!
Para Madá, era impressionante como Fabinho não dava uma dentro.
— E desde quando você dá ordens aqui? — perguntou Madá, furiosa.
— Ô Fabinho, você ficou maluco? Olha essas crianças! Estão todas molhadas! O quê que eu vou dizer pra mãe delas quando elas vierem pegar elas aqui? Hein? Que a Malu acolheu um psicopata dentro da Toca do Saci? Hein?
Fabinho não gostou. Estava ficando cansado de ouvir sermão. Era só o que faltava, a Madá chamá-lo de psicopata só porque ele jogou água na criançada. Agora, para ser considerado bonzinho, ele tinha de levar jeito com criança? Tinha de ser a pessoa mais paciente do universo? Madá era uma chata, nem disfarçava o ranço que tinha dele.
— Eu não sou psicopata. — disse Fabinho.
— Ah, não? Então o quê que é um sujeitinho ruim, sádico, que odeia crianças? Fala pra mim! — disse Madá. No ponto de vista de Madá, alguém que maltratava as crianças daquele jeito, jogando água nelas, não podia valer nada. Custava ele ter um pouco de afeto, paciência? Pelo visto, seria pedir muito para Fabinho. Impressionante, ele só dava problemas.
Fabinho, por sua vez, não odiava crianças nem tinha nada de pessoal contra as crianças da Toca. Só não tinha saco para aturar criança respondona e atrevida que não o deixava fazer o trabalho dele. E não suportava olhar para elas também. Era muito difícil para ele. Tinha vontade de sair correndo cada vez que via uma criança. Elas lhe despertavam lembranças indesejáveis. Onde havia sadismo nisso? Madá devia era poupá-lo de seus sermões e lições de moral. Que chata! Tudo porque ele jogou água nas crianças. Ainda se fosse água quente, mas não era. Quanto drama!
No dia seguinte, Fabinho foi ajudar Emília a servir as crianças. Emília servia o suco, enquanto ele servia o bolo, dizendo:
— Já pegaram bolinho todo mundo? Ê, legal! Acabou o bolinho.
Ele não via a hora de sair dali, daquela sala, com aquelas crianças.
— Vou buscar mais suco. — disse Emília, saindo.
— Fabinho, me dá mais um bolo? — pediu uma garotinha.
Fabinho, porém, achou que ela já havia comido demais. Além do mais, estava acima do peso. Não podia ficar se entupindo de bolo. Ele também não queria continuar ali, atendendo crianças, servindo bolo para elas. Não suportava olhar para elas.
— Você é filha da dona redonda, menina? Não, porque assim você vai acabar explodindo. Tem que dar uma maneirada aí, né? Porque senão...
Bento chegou neste momento e achou um absurdo Fabinho humilhar a garota daquele jeito. Não era assim que se tratava uma criança.
— Que isso, Fabinho? Você tá ficando louco? Isso é jeito de falar com a menina, cara?
Fabinho suspirou. Passou as mãos no rosto. Era só o que faltava. Ben-to era mesmo um mala. O que ele veio fazer ali? Com certeza veio para controlá-lo, vigiá-lo. Bento queria era vê-lo longe dali, por considerá-lo um perigo para as crianças. Era um idiota. Além do mais, ele não suportava ver o Bento. Será que teria que ficar vendo o Bento todo santo dia?
— Não liga pra ele, não, viu? — disse Bento, dando um beijo na garotinha.
— Vem cá, Flor, você vai vir aqui me encher o saco todo dia?
Ele continuava não chamando Bento pelo nome.
— É. Pelo visto é isso que eu vou ter que fazer mesmo. — disse Bento. Ele achava incrível como Fabinho não era capaz de ter um pingo de afeto por ninguém, nem por uma criança.
Malu entrou na sala neste momento e sorriu ao ver o irmão.
— Bento.
— Oi, Malu. — disse Bento.
— Tá tudo bem aqui? — perguntou Malu. Sentiu o clima de tensão.
— Será que a gente pode conversar? — perguntou Bento.
Fabinho não gostou. Lá ia o Bento fazer a caveira dele para a Malu. Era um imbecil. Ele reconhecia seu erro. Não devia ter falado com a criança daquele jeito. Mas na hora ele não pensou. Apenas reagiu. Era muito difícil para ele estar ali, no meio daquela criançada. Aquilo o lembrava do lar. Ele não suportava. Era isso que dava não medir as consequências do que dizia. Ele não parou para pensar em como a garotinha iria se sentir, como ela iria receber o que ele disse. Pelo visto, ele teria de pisar em ovos para lidar com as crianças, se quisesse continuar ali. Ele só estava trabalhando na Toca porque não havia outra saída. Malu foi a única a lhe estender a mão. Ele teria que se esforçar para disfarçar o desconforto que sentia. Não havia outro jeito.
Mais tarde, Malu o chamou para uma conversa. Deu a maior bronca.
— Sabe o que está provando agindo desse jeito? — disse Malu. — Que eu sou uma irresponsável, que todo mundo tem razão, começando pela Amora. Você me pediu ajuda, Fabinho, e eu te dei, agora não ferra com tudo, não. A Toca do Saci é a coisa mais importante que eu tenho na vida.
Malu estava furiosa. Bento contou para ela que Fabinho havia tratado mal uma garotinha. Ela não queria nem pensar na possibilidade de a menina contar para a mãe que um funcionário da Toca a chamou de filha da Dona Redonda. Ela não queria problemas com as mães. Ela resolveu ajudar Fabinho, contra a vontade de Bárbara, da Amora, de Bento, de Madá, até do Plínio. Todos achavam que Fabinho não era confiável, que era perigoso, não devia ficar perto das crianças e que só dava problemas. Ainda assim, ela havia estendido a mão. Mas Fabinho tinha de colaborar.
— Pelo menos você tem alguma coisa, né, Malu? Eu não tenho nada.
— Não. Não vem com essa, não, porque você podia ser um publicitário muito bem-sucedido. Porque o próprio Natan admitiu que você é brilhante!
— É, e depois saiu me queimando na praça. — disse Fabinho.
Malu achava incrível como Fabinho não percebia que era ele mesmo quem se prejudicava. Ele só estava na pior porque mentiu, manipulou, armou horrores, fez intriga, brigou com todo mundo. Ele estava sempre em guerra. Não media as consequências dos seus atos. Tratou mal pessoas que podiam ajudá-lo. Ele precisava se desarmar, parar de ser tão defendido, de se sentir um eterno injustiçado, uma eterna vítima. Desse jeito, a vida dele não iria para a frente mesmo. No ponto de vista de Malu, Fabinho podia não gostar de pegar no pesado, mas precisava se esforçar se quisesse continuar ali. Ele teria de tratar bem as crianças.
— Coloca uma coisa na sua cabeça: quem se queima é você. — disse Malu. — Você se queimou na Class Mídia, você se queimou com o meu pai, com a Irene, agora aqui na Toca do Saci? Como que a gente pode ajudar uma pessoa que não quer ser ajudada? Me explica!
— Tá bom, Malu. Eu vou... Eu vou melhorar. Eu prometo. — disse Fabinho.
Malu queria ver se Fabinho realmente se esforçaria para melhorar. Era incrível como ele só dava problemas, só prejudicava quem o ajudava. Ela já estava tendo problemas com os pais das crianças. Os pais reclamaram por Fabinho ter molhado as crianças. Malu não sabia o que era maior, se era a raiva ou a pena que sentia dele. Mas ainda assim, ela acreditava que ele tinha jeito. Era preciso dar tempo ao tempo. Porém, se Fabinho qui-sesse continuar ali, não podia mais lhe causar problemas.
Emília estava na porta da sala e ouviu parte da conversa.
— Então você podia começar indo lá na Casa Verde buscar meus óculos. — disse Emília. — Você lembra onde é minha casa?
— Mais ou menos. — disse Fabinho.
Fabinho não queria nem se lembrar de que existia a Casa Verde.
— Bom, se não lembra, pergunta, né? Quem tem boca vai à Roma. — disse Malu.
Emília mostrou as chaves para Fabinho.
— Está ao lado da televisão. — ela disse.
Fabinho pegou as chaves, acenou com a cabeça para Malu e saiu da sala. Foi direto para a Casa Verde. Lembrava-se onde era a casa de Emília. Ao chegar ao bairro, viu pregado em um poste um cartaz com a foto do Pixinguinha, o cachorro do Nestor, ex-marido da Odila. O cartaz oferecia recompensa para quem encontrasse o cão. Não informava o endereço, apenas o número dos telefones, celular e fixo.
Ele prometeu à Malu que iria melhorar. Achou que seria um bom começo encontrar o Pixinguinha e devolver à família. O cachorro não devia ter ido muito longe. Devia estar a algumas quadras, ou em algum bairro próximo, ali pela zona norte mesmo. Não ligaria para Nestor, nem pediria recompensa nenhuma. Encontraria o cachorro e deixaria na porta da casa sem que ninguém visse. Ninguém saberia.
O bichinho devia estar com fome e frio. Fabinho bem sabia como era viver na rua e ninguém trataria do cachorrinho tão bem quanto Nestor. Pixinguinha era o xodó do Nestor. Além do mais, ultimamente, Fabinho vinha se sentindo mal pelo o que fez à Odila. Ele podia ter tido suas razões. Mas não devia tê-la ameaçado para arrancar informações. Não devia ter se descontrolado e atacado ela. Ele continuava não morrendo de amores por Odila, mas sabia que o que fez era errado. Exagerou, ultrapassou todos os limites. Ofendeu não apenas Odila, como também Renata, filha dela, e Nestor. Devolver o Pixinguinha seria uma forma de se desculpar, de pedir perdão, de compensá-los pelo que fez, mesmo que ninguém soubesse. Até porque ele não pediria desculpas. Morria de vergonha, não saberia como olhar para eles e ainda assim, pensariam que ele estaria devolvendo o cachorro por interesse. Além do mais, no ponto de vista dele, mais importante que pedir desculpas era compensar o mal com o bem.
Mas primeiro passaria na casa da Emília para pegar os óculos. Ao chegar na casa da Emília, acabou se deparando com Douglas.
— Ei! O que você está fazendo aqui? — perguntou Douglas.
Fabinho não suportava olhar para Douglas.
— Eu vim buscar os óculos da Emília, por quê? — disse Fabinho, irritado. — Você está achando que eu vou roubar alguma coisa, moleque?
— De você, eu não duvido nada, cara. — disse Douglas.
— Vai te catar! — disse Fabinho, antes de entrar na casa de Emília.
Ele pegou os óculos de Emília que estavam ao lado da televisão, como ela dissera. Em seguida, trancou a casa. Começou a procurar o Pixinguinha por todos os lugares em que imaginou que ele pudesse estar. Não importava quanto tempo levaria. Fabinho não descansaria enquanto não encontrasse o cachorro. Até que encontrou Pixinguinha a várias quadras da casa do Nestor. Fabinho atravessou a rua e andou em direção ao cão.
— Oi, garoto. — Fabinho chamou, estalando os dedos. Pixinguinha levantou-se e começou a abanar o rabo. — Tudo bem, Pixinguinha? — fez um carinho na cabeça do cachorro. — Ô, tá perdido? — pegou-o no colo. — Vem comigo, que eu vou te levar pra casa.
Levou Pixinguinha até a casa de Nestor. Não havia ninguém na frente.
— Pixinguinha, vai pra casa, garoto. — murmurou.
Fale com o autor