Um amor improvável

40 Depois da noite do incêndio


Fabinho voltou para a Toca do Saci e colocou os óculos nas mãos de Emília.

— Os óculos e as chaves. — disse o rapaz, colocando as chaves nas mãos dela.

— Está tudo bem, na minha casa? — perguntou Emília.

O garoto achou que Emília estava desconfiando dele.

— O que você quer saber? Se eu roubei alguma coisa? Fica tranquila, não roubei, não. — disse Fabinho, sentando-se no sofá.

— Só estou perguntando se está tudo em ordem. — disse Emília.

— Sei. Você não sabe como é duro aguentar desconfiança de todo mundo, o tempo inteiro. — disse Fabinho.

— Tá colhendo o que plantou, garoto! — disse Madá, fechando uma caixa.

— Ô, gente, vamos dar uma trégua pro Fabinho, vamos? — pediu Malu, entrando na sala.

— Obrigado, Malu! Você é a única que me dá crédito aqui. — disse Fabinho.

— Então faz por merecer! — disse Malu.

Fabinho continuou trabalhando na Toca do Saci. Horas depois, Malu recebeu a visita de Plínio, Irene e Bento. Fabinho observou-os de longe. Ainda era muito difícil para ele ver Bento com Plínio e Irene. Ele estava se esforçando para melhorar, mas ainda não superou esta história. Ainda guardava mágoa, e muita raiva. Até pouco tempo atrás, Plínio e Irene eram seus pais. E eles o rejeitaram. Para Fabinho estava sendo difícil demais ver a facilidade com que Plínio e Irene aceitaram Bento como filho. Também, Bento era o filho que qualquer mãe, qualquer pai gostaria de ter. Um rapaz que tinha bom caráter, era carismático, alto astral, afetuoso, trabalhador, e não causava nenhum tipo de problema. No pensamento de Fabinho, é claro que foi fácil para o grande Plínio Campana aceitar Bento como filho. Os dois tinham os mesmos princípios, os mesmos ideais. Bento se encaixava perfeitamente no mundo correto do Plínio. Era o filho que Plínio sempre sonhou em ter com a Irene. Claro que Plínio iria preferir Bento a ele, que era um pilantra. Bento era tudo o que ele não era, e tudo o que Plínio e Irene valorizavam. Fabinho tinha raiva de Bento por causa disso. Bento o lembrava constantemente de tudo o que ele não tinha. Bento era amado, era querido, era aceito, Bento era feliz, ele não.

— Bento, eu tenho um presente pra você. — disse Irene.

Ela tirou o anel do dedo e mostrou para Bento.

— Seu pai me deu de presente de noivado. — disse Irene. — É o mesmo anel que o Fabinho queria aquele dia no laboratório, lembra?

— Uhum. — disse Bento, pegando o anel da mão dela.

— Eu dei pra Odila quando você nasceu e ela deu pro Gilson, pra ajudar na sua criação. Por sorte, ele não vendeu. Esse anel sempre foi seu. — disse Irene.

Era demais para Fabinho ver Irene dar o anel a Bento. Ele não suportava ver Bento ali, muito menos com o anel que era dele.

— Irene, ele é lindo! Mas eu não posso aceitar. — disse Bento.

— Por favor. — disse Irene.

Para Irene era importante que Bento ficasse com o anel. O anel sempre foi parte importante de sua história, e da história de Bento também. Ela queria que Bento guardasse o anel com carinho. Ela tinha certeza de que Bento não venderia o anel, ao contrário do Fabinho.

— O Plínio deu esse anel de presente pra você. — disse Bento. — E eu já sou bem crescido. Se eu quiser fazer algum curso, eu tenho como pagar.

— Por favor, Bento. É muito importante pra mim que você aceite.

Fabinho não suportou mais. Saiu de trás das grades, onde estava e partiu para cima de Bento. Ele teria que devolver o anel e sumir dali, por bem ou por mal. Fabinho não queria ver Bento na frente.

— Me dá meu anel! Me dá o meu anel! — gritou Fabinho.

Irene procurou separá-los, sem sucesso. Malu correu em direção a Bento e Fabinho. Ela não podia deixar eles se matarem.

— Você está a fim de apanhar? — gritou Bento, empurrando Fabinho. Será possível que Fabinho não conseguia ficar um dia sem arrumar confusão? Foi uma péssima ideia a Malu ter botado Fabinho na Toca.

— Você está pegando tudo que é meu! Me dá o meu anel! — gritou Fabinho.

Plínio, Irene e Malu entraram no meio, separando Bento e Fabinho.

— Parou! Parou! — disse Plínio.

— Para! Para! Para! — gritou Malu.

— Meu Deus! — disse Irene.

Fabinho queria que Bento desaparecesse, por bem ou por mal. Que Bento sumisse da frente dele, senão Fabinho não responderia por ele.

— Eu vou te matar! — gritou Fabinho, querendo avançar para cima do Bento, sendo contido por Plínio e Malu.

— Que isso!? — disse Irene, espantada. A culpa foi dela. Não devia ter trazido o anel. Escolheu a hora e o local errados para dar o anel a Bento. Ela não imaginou que Fabinho fosse se descontrolar daquele jeito.

Malu achou que não podia deixar Fabinho arrumar confusão na frente das crianças. As crianças ficaram assustadas, vendo Fabinho partindo para cima do Bento, ameaçando-o, dizendo que ia matá-lo.

— Para! Ei! Olha aqui! — disse Malu, segurando na jaqueta de Fabinho. — Esqueceu que você precisa de um lugar pra morar e de um emprego? — segurou o rosto dele com as mãos. — Fabinho, abaixa a bola, senão é rua.

Fabinho olhou para Plínio, Irene, Bento e Malu com ódio. Ele tinha ódio daquela família toda perfeitinha, de comercial de margarina. Fabinho sentia que ele nunca teve um lugar nem naquela família, nem em lugar nenhum. Ele foi rejeitado pela comunidade da Casa Verde e também pela família rica. Bento era aceito entre os pobres e os ricos, enquanto ele era sempre descartado. Afastou-se, tinindo de raiva. Estava com raiva do mundo. Ele se perguntava o que ainda fazia neste planeta. Irene chamou:

— Fabinho! Fabinho!

Porém, o rapaz não deu ouvidos. Ignorou-a. Pensando bem, Irene podia dar o anel para o filhinho querido dela, ele não estava nem aí. Não se importaria mais. Sentiu-se humilhado. Malu só sabia chamar a atenção dele. Não fazia outra coisa além de brigar, lhe dar lições de moral. Ficou contra ele para defender o Bento, e ainda ameaçou botar ele na rua. Ele não suportava mais. Preferia viver na rua do que ficar ali, tendo de abaixar a cabeça para aquela idiota, que o humilhou na frente de todo mundo. Ela iria pagar por isso. Ele destruiria o que ela mais amava.

Ele rentou melhorar, ser bonzinho. Encontrou Pixinguinha e o devolveu para o dono. Trouxe os óculos da Emília e não saqueou a casa dela. Procurou fazer seu trabalho direito. Também procurou tratar melhor as crianças. Se esforçou para se controlar, embora não fosse carinhoso. Mas de nada valeu o esforço. Que adiantava andar na linha? Continuava sendo tratado feito lixo pelas pessoas. Fabinho se sentia como o cocô do cavalo do bandido. Ele não se esforçaria mais. Não se importaria mais com nada. O mundo que se danasse.

Ele passou o resto do dia de mau humor. Já sabia o que fazer. Esperaria todos irem embora e botaria fogo na Toca. Era até melhor, porque aí ele não teria que olhar para aquelas crianças e lembrar da sua infância miserável, de órfão abandonado. À noite, Malu despediu-se:

— Não esquece de trancar tudo antes de deitar, tá? Boa noite.

Fabinho esperou Malu, Emília e Madá irem embora. Perfeito. Era hora de colocar seu plano em prática. Entrou e apagou a luz. Observou todo o local. Lembrou-se do que Bárbara dissera, quando ele fora procurar Malu na mansão: “Olha só essa criatura! Não tem mais nada a perder! Ele veio aqui pra nos chacinar, pra botar fogo nessa casa”. Era isso mesmo que faria. Botaria fogo em tudo. Lembrou-se onde estava o álcool e o fósforo. Foi até o quartinho dos fundos, abriu o armário e pegou o que precisava. Começou a espalhar álcool por tudo: pelas paredes, cortinas, brinquedos. Riscou o fósforo. Ouviu a voz de Bento atrás de si:

— Se eu fosse você, eu pensava duas vezes antes de fazer isso.

Bento havia conversado com Odila e Giane sobre Fabinho. Contou que Fabinho partiu para cima dele, e Odila disse que Fabinho iria aprontar. Ele deu razão à Odila, por isso foi até à Toca. Felizmente, chegou a tempo de evitar que Fabinho fizesse uma besteira. Bento achava absurdo Fabinho destruir a Toca, que era a vida da Malu. Fabinho não tinha o direito de prejudicar Malu, que foi a única a estender a mão para ele. Tudo porque Malu deu uma bronca merecida nele na frente de todo mundo.

Fabinho virou-se e encarou-o. Era só o que faltava, Bento aparecer para atrapalhá-lo e atormentá-lo. O que ele veio fazer ali? Encher o saco? Não suportava olhar para o Bento. Tinha Bento atravessado na garganta.

— O quê que você está fazendo aqui? — perguntou Fabinho.

— Eu sabia que depois de hoje você não ia deixar barato, ia aprontar alguma. — disse Bento.

— Acertou. Você vai me impedir? — disse Fabinho, levantando o fósforo.

— Não faz isso, cara. Você vai se dar mal, Fabinho. — disse Bento.

No ponto de vista de Fabinho, ele já se deu mal. Estava na pior, não tinha mais nada, nem ninguém. Estava sozinho. Não restou mais nada. Tudo de ruim que tinha para acontecer na vida dele, já havia acontecido. E ele continuava doente. Não se importava com mais nada.

— Por quê? Eu não tenho nada a perder. — disse Fabinho.

— Tem sim, Fabinho. A liberdade. Pensa, cara! Essa é a tua última chance! — disse Bento. — A Malu te estendeu a mão, aproveita!

Fabinho estava revoltado. Que mané liberdade! Para que servia a liberdade agora, que ele não tinha mais nada? Era muito fácil para Bento falar. Bento tinha tudo. Tinha uma família, pai, mãe, irmã. Ficou rico. Estava cercado por gente que o amava. Assim era fácil ser bonzinho. Ele, Fabinho, não tinha nada, estava na pior e ainda era tratado como lixo. Malu o humilhou.

Agora ele percebia que ela só ofereceu o emprego de faxineiro para humilhá-lo. Malu não gostava dele. Estava cansado de ser chutado por todo mundo, de ser humilhado, de ser destratado. Não ligava para mais nada.

— A Malu não me estendeu a mão! — gritou Fabinho. — A Malu me botou aqui pra me humilhar, assim como vocês todos, que tiraram tudo de mim! Eu vou acabar... Ai! — gemeu.

A chama que queimava o fósforo na sua mão o queimou. Num reflexo, acabou deixando cair o fósforo sobre o sofá.

A chama cresceu. Bento tirou a jaqueta e foi abafar o fogo. Conseguiu apagar. Fabinho pegou outro fósforo e foi tentar acender. Estava de costas para Bento. Bento viu que Fabinho não iria desistir de atear fogo e partiu para cima dele. Ele não deixaria Fabinho incendiar a Toca.

— Desgraçado! — xingou Bento.

Começaram a lutar. Até derrubaram alguns objetos. Bento deu um soco em Fabinho, que o jogou no chão. Fabinho avançou para ele, porém, Bento desviou. Fabinho colocou o pé na frente de Bento, fazendo-o tropeçar, esbarrar em um móvel e cair no chão. Fabinho derrubou uma estante. Bento levantou-se. Fabinho o empurrou e Bento acabou batendo a cabeça em um móvel. Desmaiou.

Fabinho pegou a caixa de fósforos, e tirou um fósforo de dentro. Porém, não sabia mais se incendiaria a Toca. Ele não podia botar fogo na Toca com Bento dentro. O que ele se tornou, afinal? O que estava fazendo com sua vida? Ficou algum tempo pensando em sua vida. Lembrou-se do que Irene dissera: “Por quê que toda vez que alguém demonstra afeto por você, carinho, tenta se aproximar, você repele, você ataca? Qual é a razão de tanta raiva, meu Deus?”.

Pior que Irene tinha razão. Ele só conseguia sentir raiva das pessoas. Também, as pessoas deram mil motivos para ele sentir raiva. As pessoas só o trataram mal, a vida toda. O ódio que ele sentia das pessoas, do mundo, não era gratuito. Se bem que, pensando melhor, nem sempre o trataram mal. Nem todos eram cruéis com ele. Lembrou-se de sua infância. Nenhuma criança do lar ou da rua queria brincar com ele. As crianças sempre o deixavam de fora das brincadeiras. Lembrou-se de uma vez em que a molecada estava jogando futebol e ele estava só, em um canto, só observando. Bento resolveu aproximar-se e chamá-lo:

— E aí, Fabinho, quer jogar?

Lembrou-se de ter ficado furioso. Por que Bento não chamou antes? Fabinho achava que Bento não gostava dele, que só estava chamando-o para se fazer de bonzinho, para se mostrar superior. As outras crianças só o toleravam por causa do Bento, e Fabinho se sentia mal ao ver que não era aceito por si mesmo. Isso só fazia com que ele se sentisse inferiorizado. Ele também tinha ódio daquele jeito gentil e alegre do Bento. Ele achava o Bento um sonso. Fabinho não sabia se Bento era assim por ser da natureza dele ou se aquele otário ficava bancando o bonzinho para jogar na cara dele o quanto era legal. Fabinho sentia como se Bento jogasse sempre na cara dele o quanto era virtuoso e que ele não prestava.

— Não quer que eu jogue, né? — disse Fabinho, furioso. Ele tinha certeza de que Bento não sentia o menor prazer na companhia dele.

Bento estendeu a mão.

— Vamos lá. Para com bobeira! — disse Bento.

Fabinho pegou na mão de Bento, puxou-o até derrubá-lo no chão.

— Ai! — Bento gemeu.

— Bento! — gritou Amora, que havia visto a cena. Ela estava brincando com outras meninas.

— Agora eu que não quero mais. — disse Fabinho, afastando-se.

— Fraldinha estúpido! — xingou Amora.

Fabinho se deu conta de que realmente tinha sido estúpido. Bento o incluía nas brincadeiras por bondade. Mas o problema era que, por mais bem intencionado que Bento fosse, só fazia com que Fabinho se sentisse mal e inferior a ele. Fabinho se perguntou por que tinha tanta raiva de Bento na infância. Por que ele continuava com ódio de Bento? Por que tanta inveja? Isso estava começando a perder o sentido para ele. A bondade de Bento não era uma afronta a ele. Bento agia de acordo com seus princípios, e não buscava a aprovação de ninguém. Bento não se fazia de bonzinho e íntegro para conquistar o afeto das pessoas, para ser aceito, ele apenas era assim. Bento não competia com ele, Fabinho, nem tinha intenção de roubar nada. Mas acabava ficando com tudo. Fabinho concluiu que talvez fosse hora de ele parar de competir e de buscar aprovação alheia. Ele não sabia se isso o faria ser amado, mas de uma coisa ele sabia: de que esta disputa era inútil e ele havia sido derrotado.

De nada adiantou ele tentar destruir Bento. Isso só fez com que as pessoas se afastassem ainda mais dele. Não adiantava nada ficar disputando com Bento o amor e a atenção das pessoas, ele sempre perdia. Não era tentando destruir Bento que ele conseguia o afeto das pessoas. Se ele queria ser amado, com certeza estava usando os métodos errados, porque só fazia com que ele fosse rejeitado, desprezado por todo mundo. Mas o que restava para ele, se ele não era amado por quem era e não conseguia amor nem tentando destruir Bento? Não restava mais nada.

Ele sempre achou Bento um porre. Mas Bento nunca fez mal a ele, até tentou ficar amigo dele. Tentava incluí-lo nas brincadeiras. O problema era que Fabinho ficava irritado ao ouvir as pessoas elogiarem Bento o tempo todo, dizendo o quanto ele era especial, incrível. Mas, pensando bem, se tratava apenas da opinião delas. Ele não era obrigado a morrer de amores pelo Bento. Tinha todo o direito de achar Bento um chato. E não devia ligar para a opinião alheia, ainda mais se tratando da opinião de um bando de puxa-sacos. Por que a opinião dos outros sobre aquele otário o incomodava tanto? Por que Fabinho era tão sensível a críticas que as pessoas faziam a ele? A opinião dos outros não devia pesar tanto na sua vida.

No fundo, Fabinho sabia qual era o problema. Ele se sentia inferior a Bento e não se sentia amado por ninguém. E ficava com raiva ao ver que Bento era tão amado, tão admirado, tão querido por todos, enquanto ele era apenas tolerado. Bento era amado por Amora. Outra que morria de amores pelo Bento era a Giane. Era por amar tanto o Bento que Giane o humilhava, provocava, insultava, batia nele. Giane agia como uma leoa para defender Bento. Fabinho acreditava que nunca foi amado assim por ninguém, ninguém o defendia dessa maneira. Sempre sentia que as pessoas tratavam a ele e Bento de maneira desigual. Ele era sempre o rejeitado. Bento era amado por Plínio, por Irene, por Malu, por todos.

Todos sempre adoravam o Bento logo de cara. Ainda mais depois que Bento começou a se apresentar para a mídia como futuro genro do Plínio Campana. O país inteiro passou a adorá-lo, a admirá-lo, ainda mais ele, que defendia causas ao lado da Malu. Bento era o trabalhador, o humilde, o bom moço, que não deixava a fama subir à cabeça, e ainda defendia a natureza, e crianças carentes também. Muita gente admirava o Bento, se identificava com ele, e devia ter muita gente com inveja também. Fabinho não suportava ver a mídia e a alta sociedade bajularem um reles florista.

Por isso Fabinho perseguiu o Bento, fez intriga, fofoca, mentiu para a mídia, dizendo que Bento estava dando um golpe na Malu e na Amora. Por isso fez questão de mostrar para o Brasil inteiro que Bento não era nenhum santo. Ele queria tirar Bento do pedestal que todo mundo colocava. Fabinho sentia necessidade de equilibrar o jogo: ele não podia subir ao nível do Bento, então teria que puxar Bento para baixo para que ambos ficassem no mesmo nível. Mas ele agora percebia que não havia necessidade de provar nada para o mundo, muito menos para pessoas que botavam Bento no pedestal. Ele desistiu disso. Fabinho sabia que Bento mentiu para o país inteiro, dizendo que estava namorando Malu. Mas ele, Fabinho, não precisava contar para Sueli Pedrosa. Não precisava mentir, distorcer, dizendo que Bento era golpista. Ele não devia ter perdido tempo e energia maculando a imagem do Bento, perseguindo-o. Isso de nada adiantou, só fez com que as pessoas defendessem Bento e o rejeitassem. Além de ser errado, pois ele acusava Bento de mentir, enganar o país inteiro, enquanto ele mesmo enganava todo mundo fingindo que continuava rico.

Ele tinha de admitir que era a última pessoa com moral para julgar Bento. Mas ele, Fabinho, sabia que não valia nada e que estava longe de ser perfeito. Mas as pessoas o viam como o pior tipo de pessoa, enquanto viam Bento como pessoa a mais pura, iluminada e honesta. Mas o que não faltava no mundo eram pessoas boas. Para Fabinho Bento não era especial, era comum. Mas de nada adiantou tentar provar para todo mundo que Bento não era perfeito e também era capaz de falhar. Aos olhos das pessoas, ele sempre pareceria canalha, um monstro sem escrúpulos perto do Bento. Os erros do Bento eram perdoáveis e compreensíveis, os dele não.

Ele pensava que também não devia se importar com o pessoal da Casa Verde. Não devia ter perdido tempo com gente que não gostava dele. Se eram todos do time do Zé Florzinha, problema deles. Ele não devia se importar. Não mereciam seu amor, nem seu ódio. Que se danassem, e ficassem bem longe dele, já que o desprezavam tanto.

Desde a infância, ele tentou destruir Bento, mas isso não fez com que fosse aceito e amado. Nada do que fez havia realmente valido a pena. A inveja e a ambição desmedida não o haviam levado a lugar algum. De nada adiantou ele mentir, manipular, usar as pessoas como escadas. Isso só fez com que as pessoas se afastassem dele, e ele agora estava sozinho.

Ele acreditava que as pessoas o respeitariam e o valorizariam por ser filho do Plínio, mas havia se enganado. Nem quando todos pensavam que ele era filho do Plínio, ele foi realmente valorizado. Mesmo quando ele estava perto de conseguir a herança de Plínio, ele era rejeitado emocionalmente. Nem assim ele havia ganhado o amor ou respeito das pessoas. Continuou se sentindo um lixo. Dinheiro nenhum comprava o afeto e o respeito das pessoas. Nem todo o dinheiro do mundo iria preencher o vazio que o consumia, tampouco substituir o afeto que ele nunca teve de ninguém. De nada adiantaram suas tramoias, porque o resultado foi mais rejeição. Agora Fabinho estava se dando conta de que destruir Bento e ficar rico não o tornaria melhor e um vencedor aos olhos do mundo, nem o faria ser mais amado e admirado. Era inútil competir com Bento, porque, ele, Fabinho, jamais seria bom o suficiente para as pessoas. Ele passou a vida inteira tentando desesperadamente equilibrar o jogo, tentando ser visto, amado e aceito como era. Ele não conseguia afeto, admiração nem aprovação de ninguém de maneira orgânica, então tentava chamar a atenção pelo caos. Mas todos os seus esforços foram inúteis.

Fabinho também se lembrou de Irene dando o anel a Bento:

— Seu pai me deu de presente de noivado. Esse anel sempre foi seu.

Ele continuava chateado por conta da história do anel. Ficou olhando o Bento desmaiado no chão e se lembrando de tudo o que aconteceu em sua vida nos últimos tempos. Lembrou de quando Plínio o mandou sumir e ameaçou quebrar sua cara, no dia em que ele foi na casa de Gilson e atirou uma cadeira no Bento. Lembrou de brigar com Bento na Toca do Saci, e Malu ter dito para ele abaixar a bola para não ser mandado embora. Também lembrou de Bento tê-lo flagrado com o fósforo aceso na mão, prestes a botar fogo na Toca. Bento dissera que ele podia perder a liberdade, e que ele devia aproveitar sua última chance. Fabinho começou a chorar. Ele agora se dava conta de que desperdiçou a última chance que tinha. Ouviu uma chamada no celular do Bento. Procurou pelos bolsos dele e achou. Havia uma mensagem da Malu. Fabinho resolveu ler a mensagem:

— Confia em mim, vai dar tudo certo. O Fabinho tem jeito sim. Dorme bem. Beijos da sua irmã, Poliana Malu. P.S: Você é quem me ensinou a não perder a fé nas pessoas.

A mensagem mexeu com Fabinho. Pelo visto, Malu acreditava nele, achava que ele podia melhorar. Pelo menos alguém no mundo acreditava que ele não era tão ruim assim. Até então, as pessoas próximas a ele diziam que ele não prestava nem ia prestar, que não tinha jeito, que ele não aprendia nada nunca. Mas Malu era diferente. Fabinho desistiu de atear fogo. Já que Malu achava que ele tinha jeito, que ele podia melhorar, era isso que ele faria dali para a frente. Não iria mais brigar com o mundo. Além do mais, não queria mais botar fogo na Toca. A Toca era a coisa mais importante da vida de Malu, que foi a única a lhe estender a mão. Também não podia deixar Bento desmaiado ali. Mas também não sabia direito o que fazer. Não tinha conhecimento de como socorrer uma pessoa desmaiada. Fabinho achou melhor não jogar água no rosto do Bento. Ele tinha receio de piorar as coisas. Além do mais, continuava não suportando olhar para Bento, nem se quer tocar nele. Resolveu chamar Malu para ajudar o Bento. Ela saberia o que fazer melhor que ele. Enviou uma mensagem para o celular dela: “Malu, tô na toca, vem pra cá urgente!”.

Resolveu sair para esfriar a cabeça. Precisava pensar, refletir. Não ficaria na Toca, esperando por Malu. Bento estaria furioso quando acordasse. Fabinho não estava a fim de mais briga. Com certeza, Bento iria contar que ele tentou atear fogo na Toca. Ele seria preso. Para Fabinho estava tudo bem, não se importava mais. Já estava ferrado mesmo. Não tinha mais nada a perder. Mas precisava sair, respirar, pensar melhor no que faria dali para a frente. Esperaria a poeira abaixar, os ânimos acalmarem, só então voltaria. Fabinho sabia que teria de se entregar à polícia, cedo ou tarde, mas não queria pensar nisso. Pelo menos, por enquanto. Além do mais, não suportava ficar na Toca do Saci. Só de ficar ali, lhe despertava gatilhos. A Toca lhe trazia lembranças indesejáveis. Não suportava ficar em qualquer lugar cheio de crianças.

Andou na rua a noite toda. Acabou dormindo no banco de uma praça. Ao acordar, de manhã, ficou andando na praça, lembrando do que havia acontecido durante a noite. Lembrou que lutou com Bento, e ele bateu a cabeça e desmaiou. Passou horas e horas vagando nas ruas.

Fabinho não foi para muito longe da Toca do Saci, que ficava na Vila Guilherme, zona norte da cidade. Continuou andando pela região, sem rumo. Anoiteceu. Fabinho não tinha um centavo no bolso. Ficou muito pouco tempo trabalhando na Toca do Saci. Alguns dias apenas, não foi nem um mês. Nem recebeu salário. Estava sem dinheiro para comprar comida, e estava morrendo de fome. Não comeu o dia todo. Resolveu procurar comida nos sacos de lixo, em um beco qualquer. Achou restos de comida em um pote plástico. Devorou.

Dormiu na rua novamente. No dia seguinte, mendigou dinheiro com alguns transeuntes. Conseguiu o suficiente para tomar um café. Resolveu ir a uma padaria. Estava olhando as tortas na vitrine, quando ouviu uma voz conhecida:

— Fabinho?

Fabinho olhou e viu que era Giane. Estava acompanhada por um rapaz, o mesmo que estava com ela na balada, naquele dia. Fabinho assustou-se. Não suportava olhar para ela. Que ela ficasse bem longe das vistas dele.

— Peraí, peraí, cara, não... — disse Giane, levantando-se da mesa.

Fabinho nem quis escutar. Saiu correndo. Ele achou melhor procurar outro lugar. Giane com certeza iria chamar a polícia. À essa altura, ela já devia estar sabendo do que ocorreu na Toca do Saci. Certamente, Giane estava revoltada com ele, porque ele quase incendiou a Toca e deixou o Bento caído no chão, desmaiado. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde teria de se apresentar à polícia, prestar esclarecimentos, mas não se sentia pronto. Não queria enfrentar a polícia naquele momento. Queria esperar os ânimos esfriarem. As pessoas deviam estar muito revoltadas com ele. Ele precisava criar coragem para enfrentá-las. Mas não seria fácil.

Horas depois, depois de comer, Fabinho decidiu passar na Toca do Saci, falar com a Malu. Pensando melhor, quem sabe já era a hora de enfrentar todo mundo. Ele não suportava a Toca do Saci, mas não podia ficar vagando pelas ruas. Uma hora teria de enfrentar as pessoas. Além disso, precisava de notícias do Bento, saber como ele estava. Quando chegou à Toca, viu que Emília e Madá estavam no quintal. Elas estavam conversando, sem notarem a presença dele, que estava atrás das grades.

— A Malu cismou que não foi o Fabinho! — disse Madá. — Emília, ela tá enganada!

— Será? — perguntou Emília. — A Malu não ia tirar isso do nada, Madá.

Fabinho não estava entendendo nada. Do que elas estavam falando? Não foi ele o que? O que será que havia acontecido?

— Sim. Mas daí a culpar a Amora por causa de uma mensagem de celular? — disse Madá. — Até pra mim fica duro de engolir.

Madá não gostava de Amora. Até porque Amora era uma versão mais jovem e piorada de Bárbara. Amora a ameaçou várias vezes, dizia que iria entregá-la para Bárbara, que a internaria em um manicômio. Estava cansada de saber que Amora não era flor que se cheire. Mas também não acreditava, nem confiava em Fabinho. Ela nunca achou uma boa ideia Malu ter botado Fabinho dentro da Toca do Saci. Tinha certeza de que Fabinho iria aprontar. E o garoto se comportou como ela havia previsto.

Na opinião de Madá, só podia ter sido o Fabinho quem incendiou a Toca. Tudo indicava que foi ele. Certamente, ele resolveu se vingar, porque Malu chamou a atenção dele na frente de todo mundo. Além do mais, Fabinho tinha histórico. Era fichado na polícia. Ele destruiu a estufa do Bento, por que não tacaria fogo na Toca? Fabinho era bandido. Amora podia ter caráter duvidoso, mas ela tinha bons antecedentes. Era mimada, fútil, superficial, esnobe, passava por cima das pessoas em busca de seus interesses, jogava sujo, usava das mesmas armas que seus adversários para preservar sua imagem e se manter na mídia, impedir que a derrubassem. Amora aprendeu com Bárbara a agir desta maneira.

Mas Madá não conseguia imaginar Amora cometendo ato de vandalismo. Não combinava com ela. Isso era coisa que o Fabinho faria. Malu acreditava que Amora incendiou a Toca para atingi-la e para posar de heroína salvadora do Bento, assim conseguiria se casar com ele. Mas Madá acreditava que Amora não colocaria a vida do Bento em risco. Isso seria demais. Tudo o que Amora fez foi com o objetivo de ficar com Bento, não se arriscaria a perdê-lo. Bento podia ter morrido no incêndio. Madá suspeitava que Amora havia forjado aquele acidente para comover o Bento, fazê-lo se sentir culpado e estragar a noite dele com a Malu. Afinal, Amora nem saiu tão machucada, ganhou alta no mesmo dia. Mas era apenas uma suspeita, Madá não tinha provas, além do mais, uma coisa era Amora forjar um acidente, posar de vítima e comover o Bento, outra completamente diferente era incendiar a Toca com Bento dentro. Somente Fabinho seria capaz de botar fogo na Toca e tentar matar o Bento. Fabinho odiava Bento, tinha inveja dele. Fabinho não seria capaz de fazer alguma coisa boa para ninguém, muito menos para o Bento. Além do mais, Fabinho havia tentado matar Odila. Por que não tentaria matar Bento? Madá adorava Malu, mas desta vez discordava da neta. Ela achava que Malu estava misturando as coisas, se deixando levar pela raiva que tinha da Amora.

Fabinho continuava não compreendendo. Por que Malu culparia a Amora? Culparia de que? O que a mensagem que ele mandou no celular dela teria a ver com isso? Cada vez mais, Fabinho entendia menos. Chegou à conclusão de que aconteceu alguma coisa, mas não sabia o que. Ele não havia incendiado a Toca. O que havia acontecido?

— E se foi mesmo o Fabinho que mandou a mensagem, hein? — perguntou Emília.

— É? Mas desde quando o Fabinho faz alguma coisa boa pra alguém? — disse Madá, revoltada. — Foi ele que tocou fogo na Toca do Saci! Foi ele que quase matou o Bento. A polícia tem que prender esse marginal e jogar ele na cadeia.

— Na hora que botarem as mãos nele, é isso que vai acontecer. — disse Emília.

Fabinho entendeu que alguém botou fogo na Toca do Saci com o Bento desmaiado lá dentro. Alguém que entrou depois que ele saiu. E as pessoas estavam achando que foi ele. Ficou desesperado. Resolveu sair correndo dali, antes que o vissem. Lembrou de tudo o que fez nos últimos meses, das brigas, dos xingamentos que ouviu. Andou horas, sem destino.

Ficou pensando em quem podia ter tacado fogo na Toca. Ele não conseguia tirar da cabeça a conversa que ouviu entre Emília e Madá. Será que a Malu culpou Amora pelo incêndio? Não, ele não podia ter ouvido direito. Entendeu tudo errado. Malu não teria por que acusar Amora. Para Fabinho não fazia o menor sentido. Amora não estava lá quando ele e Bento brigaram. Ela não tinha como saber o que havia acontecido lá. Além do mais, por que Amora iria aparecer na Toca, ainda mais à noite? Ela iria fazer o que lá? O que ela iria querer com ele? Ele havia enviado mensagem para a Malu, não para Amora. Além disso, Amora não iria riscar o fósforo, ainda mais com Bento desmaiado lá dentro. Ela teria socorrido o Bento. Quando eram crianças, sempre que ele e Bento brigavam, Amora cuidava dos machucados do Bento. Amora amava Bento. Não, não podia ter sido Amora. Só podia ter sido um vândalo qualquer que invadiu a Toca, viu tudo armado e terminou o serviço. Depois de andar bastante pelas ruas, Fabinho entrou em um banheiro público. Precisava lavar o rosto.

Estava sendo acusado de um crime que não cometeu. E não havia como provar sua inocência. Se alguém invadiu a Toca e tacou fogo, o Bento não viu, porque estava desmaiado. A Toca estava sem câmeras de segurança. O sistema de segurança foi desativado porque a Malu ia trocar. Algumas câmeras estavam estragadas, outras com imagem ruim, então Malu resolveu trocar as antigas câmeras por outras melhores. Não havia como saber quem havia incendiado a ONG. Era pouco provável que algum vizinho o tivesse visto sair, e a que horas ele, Fabinho, saiu. A rua estava deserta quando ele saiu. E é claro que o Bento havia dito para todo mundo que foi ele, Fabinho, quem incendiou a Toca. Afinal, Bento o viu com o fósforo aceso na mão. Tentou impedi-lo de atear fogo. Lutaram, Bento bateu a cabeça e desmaiou. Bento não tinha como saber que ele desistiu de incendiar a Toca. E não tinha como alguém saber que foi ele que mandou a mensagem no celular da Malu. Ele havia mandado a mensagem pelo celular do Bento. Bento não lembraria de ter mandado mensagem, porque não mandou. Mas todos iriam achar que Bento não lembrava por ter batido a cabeça. Todas as evidências apontavam que era ele, Fabinho, o culpado. Melhor sumir, desaparecer. Não queria ser preso por um crime que não cometeu. Não era justo. Ele tinha de responder pelo o que fez, e não pelo o que não fez. E não era réu primário. Já estava respondendo a vários processos. Mas com certeza o Plínio estava revoltado com ele e iria cuidar para que ele ficasse preso por muito tempo.

Ficou andando nas ruas durante horas, lembrando de tudo o que aconteceu em sua vida nos últimos tempos. Fabinho não sabia o que fazer dali para a frente. Só sabia que não queria que o encontrassem. Acabou caindo na rua, de fome e cansaço. Ficou deitado de costas na calçada. Uma pessoa passou pela calçada e jogou algumas moedas. Fabinho pegou as moedas. Resolveu ligar para a mãe do orelhão. A mãe atendeu.

— Oi, mãe. — disse Fabinho.

— Fabinho, meu filho! De onde é que você tá ligando?

Margot já estava sabendo do incêndio da Toca do Saci. Santa sempre ligava para ela, para contar todas as novidades e mantê-la informada sobre os passos do filho. Estava desesperada, pois estava sem notícias de Fabinho há dias. O filho havia desaparecido. Finalmente, ele ligou.

— De um telefone público, mãe. — disse Fabinho, chorando.

— Onde é que você tá? Me fala, senão não posso te ajudar! Me diz! Me diz onde é que você tá e eu vou até você! Eu vou onde você estiver!

Fabinho achava melhor a mãe não ir atrás dele. Não adiantaria de nada mesmo. Todas as evidências apontavam que tinha sido ele o autor do incêndio da Toca. Depois de tudo o que ele aprontou, nem a mãe acre-ditaria nele. Afinal, ele já mentiu tanto, armou horrores. Com certeza, ela acreditava que ele era o culpado e iria querer que ele se entregasse à polícia. Ela seria uma aliada do Plínio nesta história. Ele, Fabinho, estava sendo acusado de tentativa de homicídio. Margot não seria cúmplice dele. Ela nunca foi cúmplice nas suas armações e não acreditaria na sua ino-cência agora. Não depois de tudo. Além do mais, mesmo se a mãe quisesse ajudar, o que ele duvidava, ela já não podia fazer muito por ele. O que a mãe poderia fazer? Dinheiro ela não poderia dar. Ela não tinha mais de onde tirar dinheiro. Vendeu a casa para pagar o advogado. Ela não o aju-daria numa fuga. Além disso, todas as vezes em que confiou nela, acabou se dando mal. Não seria diferente desta vez.

— Mentira. Você não quer me ajudar nada. Você se aliou ao Plínio, você tá querendo me entregar pra polícia que eu sei. — disse Fabinho.

— Meu filho, jamais eu faria isso! — disse Margot.

Ele desligou o telefone. Chorava, desesperado. Estava encrencado. Não tinha como sair dessa. Sua vida estava acabada. E ninguém iria ajudá-lo. Estavam todos contra ele. Andou horas na rua. Até que resolveu passar em frente ao prédio onde Plínio morava, que ficava na zona norte. Come-çou a chorar, sentido, olhando para a janela do apartamento de Plínio. Lembrava-se do período em que morou lá. Sentia falta de Plínio e de Irene, que haviam representado para ele a esperança de ter um lar de verdade, um lugar de pertencimento, além da vida que acreditava merecer. Ele sentia falta do que poderia ter sido. Até pouco tempo atrás, ele acreditava que seria feliz, que havia encontrado seus pais, que iria ficar rico. Acreditava que teria sua família toda reunida, que ficaria para sempre junto dos seus pais. Mas tudo foi ilusão. E agora ele estava vivendo na rua. Ele, que sonhou com uma vida de luxo, de conforto, havia virado um mendigo. Sabia que estava com uma aparência triste. Roupa amassada. Cabelos despenteados. Há dias não tomava banho, nem escovava os dentes.

Resolveu ir embora. À noite, andava pela rua, na região da Casa Verde, quando ouviu um barulho de moto atrás de si. Olhou para trás, viu que havia mesmo uma motocicleta atrás de si e começou a correr. Porém, viu-se encurralado contra um muro. Não conseguiu escapar. Mesmo se não houvesse um muro no meio do caminho, a moto o alcançaria. Olhou deses-perado e viu que era Caio e Giane que estavam em cima da moto.

— Fabinho, sou eu! Não precisa ter medo! — disse Giane.

Como não ter medo? Ele não suportava olhar para ela. Queria que ela sumisse da frente dele. Era óbvio que ela iria entregá-lo para a polícia. Ela devia estar revoltada com ele. Ele estava sendo acusado de tentar matar o queridinho dela. Claro que Giane estava louca para vê-lo atrás das gra-des. Não adiantava agora ela se fazer de amiguinha, que não iria enganá-lo. Ela sempre tomava partido do Bento e ficava contra ele. Sempre foi assim, ainda mais agora, que o Bento quase morreu no incêndio.

— Não chega perto, não chega perto, que eu sei o quê que você quer! Sai! — gritou Fabinho, desesperado. Ela precisava sumir, deixá-lo em paz.

Giane já havia tirado o capacete e descido da moto. Caio também tirou o capacete.

— Calma aí, cara! Ela só quer conversar com você! — disse Caio.

— Ó, você, eu não conheço direito não, mas ela eu conheço. — disse Fabinho, e dirigiu-se à Giane. — Eu sei muito bem. O quê que você quer? Você quer me ferrar?

— Fabinho, calma. A Malu sabe que não foi você que botou fogo lá na Toca! — disse Giane.

Fabinho não estava entendendo nada. Que conversa era aquela? Malu não tinha como saber que não foi ele. Ela não estava lá, não viu nada. Bento com certeza contou que o viu com o fósforo aceso na mão, pronto para tacar fogo. Malu devia estar revoltada com ele. A Toca era a vida dela. Malu iria querer entregá-lo para a polícia. Giane jamais iria ajudá-lo. Nunca gostou dele, nunca se importou com ele, estava sempre contra ele. Ela estava era querendo botá-lo na cadeia. E calma coisa nenhuma, aquela garota tinha que sumir da frente dele.

— Sei. Sei. Ela quer me entregar pra polícia que eu sei. — disse Fabinho.

— Quer deixar de paranoia e ouvir o que ela tem a dizer, moleque? — disse Caio.

— Não é paranoia, não! É porque se eu fico aqui, que nem um otário, você chama a polícia e me bota na cadeia! — gritou Fabinho, e foi embora.

— Fabinho! Quer ir embora, vai então, otário! — gritou Giane. — Mas a Malu acredita em você! E eu também!

Fabinho, porém, não deu ouvidos. Estavam querendo enganá-lo, fazê-lo de idiota para depois entregá-lo à polícia. Só que ele não era otário. Além do mais, ele não suportava olhar para Giane, nem ouvir a voz dela.

No dia seguinte, ele continuou mendigando. Com os trocados que rece-beu, ligou no celular da Irene. Ligou de um orelhão. Irene teria mais boa vontade em ouvi-lo do que o Plínio, fosse qual fosse a razão. Ainda assim, ele não diria onde estava. Fabinho não queria que fossem atrás dele, de jeito nenhum. Não sabia se Irene acreditaria nele, mas precisava tentar. Ele queria garantir para ela que não havia tentado matar o filho dela.

— Alô? — disse Irene, do outro lado da linha.

— Irene? Sou eu. — disse Fabinho.

— Fabinho! — disse Irene, feliz.

— Eu não botei fogo na Toca do Saci. Eu não tentei matar o Bento.

Porém, Irene não respondeu. Fabinho acabou ouvindo a voz de Plínio, furioso, revoltado:

— Você nunca mais telefone pra Irene! Ouviu bem, seu marginal? Se a polícia não te prender, eu te pego! E te jogo na cadeia pro resto da vida!

Ouviu Plínio desligar o celular. Colocou o telefone no gancho.

À noite, Fabinho resolveu passar pela Toca do Saci e viu que a ONG havia sido pichada. Alguém invadiu a Toca e pichou a fachada. E com certeza, a Malu, o Plínio, a Irene, todo mundo estava achando que tinha sido ele quem fez aquilo. A cidade era cheia de marginais. Mas ninguém conhecia a Toca tão bem quanto ele. Qualquer outro marginal não iria saber que na Toca não havia nenhum equipamento de segurança. Era óbvio que ele seria o principal suspeito.

Fabinho achava que não era possível que estivesse acontecendo tudo aquilo com ele. Alguém estava fazendo de tudo para incriminá-lo. Era muito estranho a Toca ter sido pichada logo após o incêndio. Não podia ser mera coincidência. Começou a suspeitar de Amora. Só podia ser ela. Ninguém mais teria interesse em prejudicá-lo, a não ser Amora. Ela certamente estava sabendo que a Toca não tinha a menor segurança. Ela andou perse-guindo-o, fazendo ameaças. Até armou para ele naquele dia na delegacia. Fazia de tudo para prejudicá-lo. Ela queria porque queria vê-lo atrás das grades. Lembrou-se da conversa que ouviu há dias atrás, entre Emília e Madá. Será que foi mesmo Amora que botou fogo na Toca? Ela seria capaz de colocar a vida do Bento em risco, só para se vingar dele, Fabinho? Só para incriminá-lo? Se bem que, pensando melhor, ela era capaz de tudo. Ela foi capaz de provocá-lo na delegacia, mesmo sabendo que ele estava surtado. Ela colocou a própria vida em risco, porque sabia qual seria a reação dele. Ele tentou esganá-la na frente do delegado. Se ela arriscava a própria vida, por que não arriscaria a vida de outra pessoa? Mas ele nunca pensou que Amora iria arriscar a vida de quem dizia amar, para botar a culpa nele. Agora ele estava se dando conta de que havia subes-timado Amora. Amora não batia bem da cabeça, não tinha escrúpulos e nem limites, e se arriscava até onde achava que podia. Era sórdida, ma-quiavélica. Nessa linha de raciocínio, ela era bem capaz de botar fogo na Toca para incriminá-lo e ainda posar de heroína para o otário do Bento.

Amora vivia se fazendo de vítima ou de santa. Amora devia ter visto a mensagem no celular da Malu, apagado e ido no lugar dela. Ao chegar na Toca, ela viu o circo armado e riscou o fósforo. E com certeza ela pagou alguém para pichar a Toca. Mas ele não tinha como provar que Amora havia armado para cima dele. E ninguém acreditaria se ele acusasse Amora. Afinal, até onde as pessoas sabiam, o bandido era ele. Era ele que tinha passagens pela polícia. Amora tinha o histórico impecável.

Ele rodou pela zona norte da cidade horas e horas. Dormiu no banco de uma praça. Passou o dia seguinte mendigando. À noite, Fabinho ligou no celular de Amora.

— Alô? — disse Amora.

— Eu sei que foi você. — disse Fabinho.

— Fabinho?

— Você vai pagar caro por tudo o que fez. — disse Fabinho, e desligou. Se Amora achava que conseguiria se safar para sempre, estava enganada. Ninguém consegue enganar todo mundo por todo o tempo. Um dia todo mundo iria descobrir suas tramoias. Assim como havia acontecido com ele.

Meses se passaram. Fabinho passou a viver na rua. Continuou na zona norte de São Paulo. Andou por vários bairros. Mas não ligou para mais ninguém. Não deu mais notícias. Até porque estavam todos contra ele. Passou dias e noites pedindo esmola, dormindo em qualquer lugar. No chão, nos bancos das praças. Só comia quando conseguia juntar dinheiro suficiente. Muitas vezes passava fome, frio. Passou por situações horríveis. Como quando foi assaltado por um bando de pivetes, que roubaram todo o dinheiro que conseguiu juntar, que não era muito. Apanhou dos pivetes. Sofreu um acidente. Caiu e se machucou. Acabou ficando com uma ferida enorme na perna, que só piorava. Sentia-se fraco, zonzo, com dores no corpo. Estava ardendo em febre. Sentia-se mal.

Um dia, andando pelas ruas da zona norte, Fabinho chegou à Casa Verde e pensava se não devia procurar ajuda de alguém, se não era preferível ir para a cadeia, ainda que fosse por um crime que não cometeu, do que continuar na rua. Ele sabia que teria ajuda. Não podia continuar na rua no estado em que estava. Acabaria morrendo. Mas, pensando bem, quem sabe estava no seu destino morrer sozinho, como um indigente. Era o que ele merecia, depois de tudo o que fez. Ao virar mendigo, ele era destratado por muita gente. Ele não esperava mais nada da vida, nem do ser humano e se sentia completamente sozinho no mundo. Estava andando na praça da Casa Verde quando viu, à distância, Amora entrar no carro e partir. De repente, ele caiu, perdendo os sentidos. Ficou tudo escuro.