Um amor improvável

13 Destruição da estufa


Fabinho já estava de saída, a caminho de sua moto, mas mudou de ideia e resolveu procurar Amora. Embora soubesse que ela estava em casa, ele ainda não tinha falado com ela e acreditava que não podia perder a oportunidade. Ele ainda ia conseguir conquistá-la, custe o que custar. Seu objetivo era entrar para o mundo dos ricos e famosos e tirar Amora de Bento, pois ele se considerava o par ideal para ela, superior a Maurício e ao florista. Fabinho queria provar a Amora que era mais esperto e inteligente que Bento, especialmente agora que sabia que ficaria rico. Em sua visão, não havia pretendente melhor para ela, e ao seu lado, Amora teria uma vida de rainha.

Ele foi verificar se Amora ainda estava na varanda. Mais cedo, enquanto andava pela casa, tinha a visto ali. Encontrou-a deitada em uma espreguiçadeira, usando fones de ouvido, provavelmente ouvindo música. Ele se aproximou de mansinho e quase beijou o braço dela, assustando-a.

— Oi, Amorinha! — cumprimentou.

— Ai, que susto! — disse Amora, tirando os fones de ouvido.

— E aí? — perguntou Fabinho, pegando amendoim de um pote, que estava em uma mesa ao lado da espreguiçadeira. — Está pensando em quê?

Amora levantou-se.

— Na melhor maneira de me livrar de você. — ela disse. — Aliás, o quê que você está fazendo na minha casa, hein?

Fabinho enfiou os amendoins na boca e começou a mastigá-los.

— Essa casa não é só sua, não. Mamãe me chamou.

— Olha, se você está pensando que pode existir qualquer tipo de proximidade entre a gente, perca as esperanças. — disse Amora.

— Amorinha — disse Fabinho, levantando a mão e quase tocando no rosto dela. — A gente já é muito mais próximo do que você imagina. — passou a mão no rosto dela. — E a gente vai ficar ainda mais.

Ele enfiou mais um amendoim na boca e mastigou.

— Ah, é? Como? — perguntou Amora.

Amora não estava entendendo do que ele estava falando.

— Eu acho que você tem que sentar na sua cadeirinha confortável, ouvir a sua musiquinha e pensar na nossa infância. — disse Fabinho, mastigando. — Logo, logo, você vai saber porquê. — deu um beijo no rosto dela. — Tchau, cocotinha!

Fabinho saiu andando.

— Idiota! — xingou Amora.

Fabinho andou até a frente da mansão e viu Malu se despedindo de Bento.

— Entra lá. Eu fico esperando. — disse Bento.

— Hum, que cavalheiro! — disse Malu, abraçando-o, feliz, encantada.

— Tchau, durma bem, Malu! — disse Bento.

— Adorei! Tchau, tchau! — disse Malu, e caminhou em direção à casa.

— Oi, Malu! — cumprimentou Fabinho.

— Oi! Boa noite! — disse Malu, entrando. Ela nem deu muita atenção para ele. Aos olhos dela, Fabinho não valia grande coisa. Bento havia lhe dito que Fabinho foi um garoto problemático na infância e que era um oportunista, pois fez de tudo para ser adotado por uma família rica. Ela também ficou sabendo que Bento e Fabinho tinham uma rixa desde pequenos, o que só confirmava a má impressão que ela tinha de Fabinho.

Assim que viu Bento, Fabinho ficou morrendo de raiva. Bento agora não saía de perto de sua irmã, andava com ela para cima e para baixo. Bento insistia em disputar o afeto das pessoas com ele. Até sua irmã Bento queria tirar dele. Fabinho tinha tanta raiva que não suportava nem olhar para as fuças daquele otário, que vivia se metendo em seu caminho.

— O quê que você está fazendo aqui? — Fabinho perguntou.

Bento não estava entendendo a reação de Fabinho, e não entendia qual era o problema de Fabinho com ele. Desde a infância, Fabinho o perseguia, o azucrinava, o agredia, até fazia intrigas contra ele. Bento não conseguia entender por que Fabinho o odiava tanto. Até onde se lembrava, nunca tinha feito nenhum mal ao Fabinho, pelo contrário, até tentara ficar amigo dele na infância. Chamava-o para brincar. Mas Fabinho tratava-o com desprezo. Giane dizia que Fabinho morria de inveja dele, mas Bento não conseguia entender. Por que alguém teria inveja dele? Fabinho era rico, fora adotado por uma família importante. Para Bento, não era possível que Fabinho sentisse inveja dele, que era um simples florista. Agora Fabinho resolveu agir como se fosse o dono da casa e expulsá-lo.

— Ah! Bom, até onde eu sei, não te devo satisfações. — disse Bento.

— Bento, eu já te falei, para de rondar essa casa! — disse Fabinho, e pegou no braço de Bento, que puxou. — Deixa elas em paz! — referia-se a Malu e Amora. Fabinho queria Bento longe de Amora, de Malu e daquela casa. No ponto de vista de Fabinho, aquela era sua família, aquela casa era sua por direito. Ele não deixaria Bento invadir seu espaço.

— Quem são elas, Fabinho? — perguntou Bento, que continuava não conseguindo entender nada. — Qual é o teu problema, cara? Ah, já sei! Você está de olho na mamãezinha pra dar o golpe, não é?

No ponto de vista de Bento, para Fabinho ter se aproximado de Bárbara, só podia ser por interesse. Bárbara parecia gostar de garotões. Ela foi casada com Jonathan James. No raciocínio de Bento, talvez Fabinho tivesse interesse em dar o golpe nela, esperando que ela o transformasse em uma celebridade. Bárbara podia não estar no melhor momento da carreira, nem ter muito dinheiro, pois vivia da mesada da Malu. Mas Bárbara ainda tinha uma certa influência no meio midiático, podia apresentar Fabinho a pessoas importantes. Bento achava que Fabinho só podia estar querendo ficar famoso e enriquecer ainda mais às custas de Bárbara. Afinal, Fabinho estava sempre perto de pessoas ricas e famosas agora.

Fabinho ficou furioso. Bento não fazia ideia de quão errado estava. Ele, Fabinho, não precisava dar o golpe na Bárbara, porque era filho de pai rico. Em breve iria receber sua parte da herança, porque iria convencer Plínio a liberar a grana. Além do mais, aquela perua nada tinha a oferecer. Ela vivia da pensão da Malu. Ou seja, do dinheiro do pai dele. Ninguém chamava Bárbara para trabalhar há séculos, por conta dos ataques de estrelismo dela. Ela não fazia novela, minissérie, seriado, teatro, filme, nada. Não fazia nenhum comercial. O máximo que ela fazia era dar uma ou outra entrevista para exibir os filhos adotivos e posar de boazinha. Nem um imóvel ela tinha no nome dela. Se alguma vez tivera, vendera. A mansão onde Bárbara morava pertencia à Malu. O dinheiro, tudo, era da Malu. Era Malu quem bancava tudo, até a escola dos irmãos. Bárbara não tinha absolutamente nada de dela. Até para bancar os luxos dela, ela dependia da filha. Na opinião de Fabinho, Bento era um idiota, um moralista, que achava que todo mundo tinha de fazer voto de pobreza, que nem ele. Se Bento não queria sumir da frente dele por bem, iria sumir por mal. Bento tinha de sair de perto dele, da família dele. Fabinho simplesmente não engolia Bento.

Furioso, Fabinho tentou bater em Bento, mas ele lhe deu um soco e o jogou no chão. Fabinho levantou-se.

— Vou acabar com você! — Fabinho disse, dando um soco no rosto de Bento.

Trocaram socos. Fabinho tentou ir para cima de Bento, que ficou segurando-o. Neste momento, atraída pelo barulho, Amora apareceu:

— Bento! Fabinho! Para! Para! — gritou ela.

Bento empurrou Fabinho.

— Cai fora, Fabinho! E pensa duas vezes, antes de se meter com alguém dessa casa! Escutou, seu imbecil?

Na opinião de Bento, Fabinho não prestava e devia ficar longe de Amora e Malu, e até mesmo dos outros filhos adotivos da Bárbara. Bento não confiava nas intenções de Fabinho. Fabinho era um oportunista, e Bento não queria que ele se aproveitasse de pessoas inocentes.

Fabinho ficou morrendo de raiva. O babaca ainda por cima o ameaçou. Fabinho se perguntou se Bento achava que ele iria fazer mal à família dele. Quem Bento pensava que era, o defensor dos fracos e oprimidos? Ou o paladino da moral? Depois o sacana, o arrogante era ele, Fabinho. No ponto de vista de Fabinho, Bento não tinha nada que se meter, porque não era da conta dele. Não era problema de Bento. Era sua vida, sua família. Fabinho achava absurdo Bento se intrometer nos seus assuntos.

— Eu vou acabar com tua vida! — Fabinho ameaçou.

— Vem, irmão! — disse Bento.

Fabinho caminhou até a moto, subiu e partiu. Sentiu-se humilhado. Saiu perdendo na briga, ainda por cima, na frente da Amora. Mas Bento ia ver só uma coisa. Ele iria destruir o que Bento mais amava, aquelas flores medíocres.

Ao chegar à Casa Verde, Fabinho ficou observando Jonas e Douglas, que estavam jogando bolas cheias de tinta no muro de uma das casas.

— Aí! Aí! Joga mais vermelho aí, que o seu Nestor gosta. — disse Douglas.

Assim que terminaram o que estava fazendo, Jonas disse:

— É, mano, a gente está ficando bom nisso.

— É, velho. — disse Douglas.

— Vambora? Vamos indo. — disse Jonas.

Douglas e Jonas começaram a juntar todo o material. Jonas disse:

— Tem que arrumar essas paradas aí, senão fica tudo sujo.

— Amanhã, a gente faz isso. — disse Douglas.

Os dois garotos saíram andando, carregando o material.

— Pô, tu quase jogou em cima de mim, no meu casaco. — disse Jonas.

— Ah, pede pra Socorro lavar lá. — disse Douglas.

Fabinho esperou os garotos irem embora para agir, pois não podia ser visto. A rua agora estava deserta. Fabinho enfiou na cabeça uma espécie de gorro, deixando apenas os olhos de fora. Ajeitou bem o gorro na cabeça. Entrou na casa do Bento e foi direto para a estufa. Começou a jogar vasos no chão, a chutar as plantas, a derrubar uma placa e a derrubar as portas da estufa, fazendo um verdadeiro estrago. Até que ouviu uma voz:

— O quê que está acontecendo aqui? — gritou Giane. — Mostra a cara, manezão! Não tenho medo não!

Fabinho ficou furioso. Ele se perguntou o que Giane estava fazendo na casa do Bento. No ponto de vista dele, era impressionante como ela estava sempre cuidando da vida do Bento. Agora ela apareceu no lugar errado, na hora errada. Fabinho sentiu que precisava se esconder.

— Aparece, bundão! Quem tá aí? — gritou Giane, andando até a estufa.

Ao perceber que a garota estava se aproximando, Fabinho correu se esconder atrás de uns vasos de plantas, organizados em mesas. Agachou-se.

Giane continuou andando, com o ancinho nas mãos, procurando-o. Cada vez que ela chegava perto, Fabinho dava um jeito de se esconder. Andava, agachado, até que tropeçou em uns vasos que estavam caídos no chão. Assim que o viu, Giane correu em sua direção com o ancinho:

— Agora eu te peguei, vacilão.

Fabinho levantou-se. Giane caiu em cima, e acabou acertando em cheio a mão dele. Fabinho gritou e a empurrou. Saiu correndo. Ele sabia que não tinha chance alguma contra aquela doida de ancinho, pois não trouxe nenhuma arma. A coragem que ela tinha de enfrentar o invasor era realmente impressionante. A sorte dela era que o invasor era ele, e ele não trouxe arma porque não tinha nenhuma. Além do mais, não achou necessário. Ele achou que encontraria a casa vazia. Bento estava na casa da Amora. Ele não pretendia machucar ninguém, só destruir a estufa. Mas se fosse outra pessoa no lugar dele, a imbecil da Giane teria se dado mal. Se fosse outro marginal qualquer, certamente estaria armado.

— Volta aqui. — gritou Giane. — Seu safado!

Fabinho correu, atravessou a rua e escondeu-se ao lado de um muro, de uma casa que ficava quase em frente à casa de Gilson, à direita. Era a casa de Odila. Ele deu uma olhada na mão machucada. A mão sangrava e doía muito. Giane continuava atrás dele:

— Cadê você, babaca? — ela gritou para a rua deserta. — Tá com medo de mim, é? Vem encarar!

Havia uma escada do lado da casa. Fabinho começou a subir as escadas correndo. Giane correu atrás dele, gritando:

— Pega ladrão! Pega ladrão!

Fabinho correu e escondeu-se atrás de uma árvore da praça. Giane continuava atrás dele, desta vez acompanhada de Jonas e Douglas.

— Peraí, Giane, peraí! Calma, Giane, peraí. — disse Jonas.

Giane olhou e percebeu que Douglas e Jonas estavam atrás dela.

— Vem, vem, então, pô! Vem atrás.

Fabinho arrumou uma maneira de despistá-los. Se ele saísse de trás da árvore e pulasse o muro da casa mais próxima, seria visto por eles. Pegou uma pedra do chão. Jonas, Douglas e Giane estavam tão distraídos, olhando em outra direção, procurando por ele, que não veriam a pedra, nem de onde vinha. A pedra não era grande, nem pequena demais. Fabinho jogou a pedra, no lado oposto de onde se encontrava. Tinha ótima pontaria. Se ouvissem barulho do outro lado, achariam que ele estava lá.

— Acho que ele tá pra lá, vem. — Douglas apontou para o lugar de onde ouvira o barulho da pedra caindo.

Fabinho esperou Douglas, Jonas e Giane se afastarem e pulou os muros das casas. Correu até o lugar onde havia deixado a moto. Tirou o gorro da cabeça. Olhou a mão ensanguentada.

— Pivete desgraçada! Ai!

Enrolou o gorro na mão, subiu na moto e partiu. Mais tarde, no hotel, Fabinho procurou desinfetar o machucado com uma bebida alcoólica. O ferimento ardia, doía muito. Fabinho ficou com ódio de Giane, por ter machucado sua mão. Mas ela iria ver com quantos paus se fazia uma canoa. Ele não sabia ainda o que faria, mas não deixaria barato.

— Ai! — gemeu. — Você me paga, trombadinha. Você e aquele florista.

No dia seguinte, Fabinho foi trabalhar na agência, como sempre. Ele tratou de colocar o plano de Bárbara em prática. Foi logo falar com Natan.

— O André na casa da Bárbara? Fazendo o quê, lá? — perguntou Natan.

— Ele está com o projeto de uma produção internacional, uma comédia romântica. Ele quer a Bárbara no filme. — disse Fabinho.

— Mas logo a Bárbara? — disse Natan. — Será que ninguém avisou pro André que a Bárbara Ellen já quebrou uma garrafa de uísque na cabeça do Dênis Carvalho?

— Pois é. Pelo que entendi, ele é tão louco pelo trabalho dela que esse personagem que ele chamou, é esposa do Tom Hanks.

Natan riu.

— E a Bárbara lá tem cacife pra contracenar com o Tom Hanks? E pensar que o André começou na publicidade como eu e olha só onde ele chegou. É, ele é muito bom, mas tão genial quanto eu, ele nunca foi.

Fabinho sorriu. Natan realmente se achava o maioral, mas não tinha um pingo de talento. Fabinho sabia que Natan sugava as ideias da ex-esposa. Verônica era mais genial do que Natan.

— Agora, a Bárbara, hein? Quem diria que ela tivesse com essa bola toda ainda. — disse Natan, sentando-se na cadeira, atrás de sua mesa.

— Pois é. Parece que ela ainda não aceitou. — disse Fabinho, levantando-se do sofá onde estava sentado. — Ela preferia o Brad Pitt no papel. Mas claro, ela ficou lisonjeada com o convite.

— É, apesar de doida, ela tem faro pra saber o que é bom e o que não é.

— Natan. — disse Fabinho, sentando-se na cadeira em frente à mesa do chefe. — Por que você não chama a Bárbara para fazer o teu filme?

— O quê? — riu Natan. — Imagina, Fabinho! Isso ia acabar em homicídio ou em suicídio! Não. Nem pensar.

— Eu entendo que a Bárbara seja uma pessoa difícil de lidar, mas ela é uma estrela. — disse Fabinho, procurando convencê-lo. — E você imagina a cara do André se ele soubesse que a Bárbara recusou o filme dele pra fazer o teu. Imagina!

— É. Ia ser engraçado. — disse Natan. — Mas eu nem tenho o roteiro ainda.

— Dá licença, mas, gênio precisa de roteiro? — disse Fabinho. — É uma ideia na cabeça, uma câmera na mão e pronto! Sucesso nos cinemas! Depois é Hollywood, Natan!

Fabinho viu que conseguiu convencer o chefe, pela expressão no rosto dele. Ao sair da sala de Natan, Fabinho foi logo passando o recado de Natan à equipe:

— Queridos, a campanha da Petrolat não ficou boa não, tá? Tem que refazer tudo. O Natan odiou.

— Ô Fabinho, peraí! Quem você pensa que é? — disse Júlia, indignada.

— Quem você pensa que é pra falar assim com a gente, cara? Tá maluco? — disse Edu, furioso. Fabinho não tinha o direito de humilhá-los.

— Ué, gente, eu estou repassando um recado, só. — disse Fabinho, sorrindo. — Se a campanha ficou ruim, a culpa é minha? Eu sou estagiário.

Para Fabinho, ele não tinha culpa se Natan se cercava de pessoas incompetentes, medíocres, sem o menor talento, para poder se sobressair.

Edu e Júlia ficaram furiosos e resmungaram entre si. Fabinho foi direto para sua mesa. Érico chegou e o chamou:

— Fabinho?

— Oi! — disse Fabinho, olhando para ele.

— Tem um pessoal ali fora que quer falar com você. — disse Érico.

Fabinho ficou surpreso ao ver Bento e Giane entrarem logo atrás de Érico. O que eles queriam? Não tinham como saber que ele, Fabinho, destruíra a estufa. Ele fora esperto. Havia usado um gorro para esconder o rosto. Impossível alguém reconhecê-lo. E o machucado na mão não provava nada. Ele podia ter se machucado com qualquer objeto perfuro-cortante.

— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou Fabinho, ao ver Giane e Bento entrarem. Não suportava olhar para eles.

Giane e Bento olharam a mão enfaixada de Fabinho.

— Ah! — disse Giane, apontando para a mão de Fabinho. — Eu sabia! Foi você mermo que entrou na casa do Bento!

— Confessa, covarde! — disse Bento. — Foi você quem invadiu minha casa ontem!

Bento estava possesso, fora de si. A estufa era sagrada para ele. Era a materialização de seus ideais de sustentabilidade, trabalho comunitário e respeito pela natureza. Era o coração de seu projeto e ajudava no sustento de muitas pessoas da comunidade. No ponto de vista de Bento, Fabinho destruiu a estufa por pura maldade, sem se importar com anos de esforço e dedicação dele, Giane e demais membros da cooperativa.

— Fala! Fala! — disse Giane.

— Não tenho nenhuma ideia do que vocês estão falando. — disse Fabinho, fazendo-se de desentendido.

Fabinho escondeu as mãos atrás das costas.

— Ah, é? Então tira essa faixa da mão! — disse Giane. — Eu quero ver! Eu quero ver se não tem a marca do ancinho. Ué, se não tiver, a gente pede desculpa e vai embora!

Fabinho não fez nenhum movimento para tirar a faixa da mão. Para Giane e Bento, esta era a prova de que o rapaz havia destruído mesmo a estufa.

— Já que você não tira, tiro eu! — disse Bento, puxando o braço de Fabinho, tirando-o de trás das costas.

Bento tentou tirar a faixa da mão de Fabinho à força, sem conseguir.

— Bento, Bento! — disse Érico, segurando Bento por trás.

— Bento, calma! — disse Giane.

— Tira a mão de mim, seu animal! — disse Fabinho, furioso, puxando a mão enfaixada e empurrando Bento. Ele não suportava nem o toque do Bento, e não queria que Bento encostasse nele.

— Palhaço! — xingou Giane.

— Foi você quem machucou minha mão ontem, não lembra não, imbecil? — disse Fabinho, olhando para Bento.

— Eu lembro muito bem do que eu fiz, e não encostei na tua mão! — disse Bento, furioso, puxando Fabinho pela gola da camisa. — Foi a Giane que te machucou, quando você invadiu a minha casa!

— Tira a mão de mim, tira a mão! — gritou Fabinho, em pânico. — Karol! Karol, chama a polícia, Karol!

Érico segurou Bento, separando-o de Fabinho.

— Ei, ei, ei, o que está acontecendo aqui? — berrou Natan, que havia percebido a confusão e foi ver o que estava acontecendo.

— Esse delinquente entrou na agência pra me agredir. — disse Fabinho, referindo-se a Bento.

— Quê que isso? — disse Natan. — Chama o segurança, Karol!

— Não, não, não precisa, não. — disse Érico. — Eles vieram comigo e já estão de saída.

— Eu já descobri o que eu precisava. — disse Bento. — Toma cuidado, viu, Fabinho? Se você cruzar meu caminho outra vez, não vai sobrar um osso teu pra contar história!

No ponto de vista de Bento, ele não costumava ser violento. Raramente usava de agressividade. No entanto, Fabinho havia passado dos limites ao destruir a estufa. Fabinho havia feito de propósito para atingi-lo, porque sabia que a estufa era importante para ele.

— E eu ajudo a quebrar tua cara! Bundão! — disse Giane.

Ela olhou para todas as pessoas que se encontravam no local, toda a equipe da agência.

— Sabe qual era o apelido dele de criança, gente? Fraldinha!

Fabinho sentiu-se humilhado e teve mais raiva ainda de Giane. O pessoal na agência já não gostava dele, agora Giane deu motivo para caçoarem dele. Ela o humilhou de propósito. Ela o fez reviver a humilhação e a vergonha da infância. Se ela e Bento queriam ver se tinha sido ele quem destruiu a estufa, até dava para entender. Ele, como não era otário nem nada, não deixaria olharem sua mão de jeito nenhum, mas dava para entender. Mas não, ao invés de resolverem a questão lá fora, entraram na agência para agredi-lo, humilhá-lo. Fabinho ficou com muita raiva de Érico também, pois foi Érico quem trouxe Bento e Giane e fez com que ele fosse humilhado na frente de toda a equipe. Érico o expôs, e Fabinho não ia deixar barato. Na opinião dele, Érico era um babaca. Sempre tomava partido do Bento. Mas Fabinho não deixaria ninguém derrubá-lo.

Cléo, Júlia e Edu conheciam Bento. Ele aparecera muitas vezes na agência, pare entregar flores para Tina. Adoraram ver Bento tocar o terror em Fabinho. Detestavam Fabinho e gostaram de vê-lo humilhado.

— Vambora, Bento! — disse Giane, puxando-o pela mão.

Bento e Giane foram embora.

— Como é que você coloca esse tipo de gente aqui dentro, Érico? — disse Natan. — Você e o Fabinho na minha sala, agora.

Fabinho olhou feio para Érico, com ódio, antes de ir para a sala de Natan. Érico também foi à sala do chefe.

Érico contou a Natan sobre a invasão à casa de Bento. Natan não acreditou que Fabinho fosse o invasor.

— Você não vê que isso não faz o menor sentido? — disse Natan para o Érico. — Por quê que um rapaz fino e educado como Fabinho invadiria a casa de um florista? Pra roubar uma dúzia de rosas ou um maço de margaridas?

De fato, Natan não acreditava que Fabinho pudesse ser um bandido. Tanto que nem pedira antecedentes criminais na hora de contratá-lo. Afinal, para Natan, Fabinho era um garoto rico, da alta sociedade, bem relacionado. Havia sido adotado por uma família rica, influente. Era amigo de Maurício e de Amora. Na cabeça de Natan, Fabinho seria incapaz de cometer um crime, ainda mais contra um florista pobretão. Fabinho não tinha por que fazer isso. Para Natan, era impossível alguém como Fabinho ter ficha suja na polícia. Fabinho sabia que Natan comia na sua mão, logo, não acreditaria no Érico. Além do mais, Fabinho havia percebido que Natan não gostava de Érico. A relação de Érico com Natan era tensa.

— Natan, o Fabinho e o Bento, eles foram criados no lar de adoção dos meus pais, tá? Eles têm uma rixa desde meninos! — explicou Érico.

— Não, não, calma aí! — disse Fabinho. — O Bento tem uma rixa comigo! Ontem, na casa da Bárbara, ele me agrediu! Aqui, ó, minha mão!

Fabinho sabia que Natan ia acreditar que Bento, um pobretão, teria inveja dele, Fabinho, um garoto rico. Logo, Bento teria motivos para agredi-lo. Era mais fácil Natan acreditar na versão dele do que na de Érico.

— E por quê que você não deu queixa desse troglodita? — perguntou Natan.

Fabinho suspirou.

— Eu não queria, Natan, eu não queria! Mas eu tô vendo que eu não tenho alternativa! Se ele foi capaz de invadir a tua agência, imagina... — disse Fabinho, suspirando. — Não quero nem falar!

Érico se espantou ao ver o quanto Fabinho era dissimulado. O garoto representava muito bem. Para Érico, era a impressionante a capacidade que Fabinho tinha de distorcer os fatos a seu favor. Fabinho era o invejoso, mas ele fizera Natan acreditar que o invejoso e o bandido era o Bento.

— Fabinho, você fez mesmo publicidade ou foi artes cênicas?

— Chega, Érico! — disse Natan, furioso. — Chega, que o que você fez foi uma tremenda de uma irresponsabilidade! Quer dizer, eu pago um segurança e você abre a porta pra um bando de delinquentes agredirem um funcionário da minha agência? Se isso acontecer de novo, você tá na rua, entendeu? Agora some daqui! Vai, vai, vai, vai!

Érico saiu da sala. Natan dirigiu-se a Fabinho, e disse:

— E quanto a você, tome mais cuidado! Pessoas diferenciadas como nós, costumam atrair a inveja dos medíocres!

— Obrigado, Natan! — disse Fabinho, levantando-se da cadeira. — Eu sabia que você ia ver a situação com imparcialidade, lucidez e bom senso! Obrigado!

Natan não percebeu a ironia do rapaz.

— Falando nisso, eu li sua pesquisa. Adorei! — disse Natan. — Eu não sabia que o povão gostava tanto das nossas campanhas! Posso te encarregar oficialmente das próximas pesquisas?

— Claro! — disse Fabinho. — Você é meu mestre em todos os sentidos!

Natan riu. Ficou completamente sem jeito. Fabinho sabia que o Natan ia cair como um patinho. Natan era vaidoso, adorava ser bajulado.

— Que é isso, garoto? Imagina! Vai lá, volta pro trabalho!

Fabinho ia saindo, quando Natan disse:

— Ah, mais uma coisa, já que você vive na casa da Bárbara Ellen, se por acaso você a encontrar, diga que eu tenho falado nela com muito afeto e admiração. Você me faz este favor?

— Com o maior prazer! — disse Fabinho, sorrindo.

Ao sair da sala de Natan, Fabinho encontrou com Érico. Fabinho olhou para Érico com ódio. Ele não sabia ainda o que iria fazer, mas mostraria a Érico que ele havia mexido com a pessoa errada. Érico iria se arrepender de ter feito o que fizera, de ter tomado partido do Bento.

— Mandou mal, cara. Escolheu o lado errado. — disse Fabinho.

Érico percebeu que Fabinho estava com ódio dele. Era sempre assim: desde pequeno, Fabinho aprontava com o Bento, depois ficava ressentido quando alguém tomava partido do Bento. Mas o máximo que Fabinho fazia era intriga, ou agressões contra Bento, não passando disso. Contudo, ago-ra ele havia ido longe demais, destruindo a estufa do Bento. Agora Fabinho vinha ameaçá-lo. Érico chegou à conclusão de que Fabinho só podia ter culpa no cartório. Fora ele quem destruíra a estufa do Bento.

— Isso é alguma ameaça? — perguntou Érico. — Então, a Giane estava certa? Foi você que aprontou aquela sacanagem com o Bento, não foi?

Fabinho não seria idiota o bastante para confessar o que fizera. Mas a Giane, o Bento e o Érico iriam pagar por isso, nem que fosse a última coisa que ele faria na vida. Eles não perdiam por esperar.

— Vocês não vão me derrubar. — disse Fabinho. — Fique esperto. Agora você também tá na minha mira. Licença.