Fabinho foi à casa de Bárbara Ellen, para colocá-la a par do resultado do plano.

— É impressionante, eu falei pro Natan que você ia fazer o filme do André e ele mordeu a isca na hora.

Bárbara riu.

— Agora ele vai querer você no filme dele de qualquer jeito! Parabéns! — disse Fabinho, batendo sua taça de champanhe na de Bárbara. — Parabéns! Sacada de mestre!

— Eu só fiz uso da minha sagacidade. — disse Bárbara. — E você tem me saído um grandíssimo aliado.

Fabinho sorriu.

— Eu que agradeço a confiança! — disse o rapaz.

— Escuta, eu vou pedir umas pizzas porque a casa está uma bagunça com a saída da Emília. — disse Bárbara. — Senta, fica à vontade!

Emília era a governanta. Havia acabado de ser demitida. Fabinho tinha certeza de que Emília fora mandada embora por saber demais, e por dizer umas verdades para os filhos da Bárbara. Emília certamente dissera para o Kevin que ele não era negro, por exemplo. Bárbara jamais permitiria que uma empregada a desacreditasse.

Bárbara tinha Emília atravessada na garganta fazia tempo. Ela via Emília como uma pedra em seu sapato. Então a demitiu, pagando uma boa indenização para que ela ficasse calada. Bárbara espalhou a história de que Emília havia pedido para ser demitida, pois estava cansada, tinha idade avançada e queria se aposentar. Emília só não contou para a mídia tudo o que sabia sobre Bárbara para não expor as crianças. Emília fazia de tudo para proteger as crianças das maluquices de Bárbara.

— Claro! Licença. — disse Fabinho.

Fabinho ficou observando a sala ao lado, onde Madá estava jogando pôquer com os filhos adotivos de Bárbara, Kevin e Dorothy.

— Pô, vó, como você sabia que eu tava blefando? — disse Kevin.

— Porque você estava seguro demais! — disse Madá. — Uma pessoa só fica 100% segura quando ela tá mentindo!

— Kevin, pro seu blefe colar, você teria que aparentar uns 3% de insegurança. — disse Dorothy, colocando as cartas sobre a mesa.

— Mas o quê que é isso? — disse Bárbara, indignada, ao ver a mãe ensinar os netos a jogar pôquer. Dirigiu-se à mãe. — Você está instaurando a jogatina aqui, na minha casa? Eu não acredito, ainda mais pôquer, um jogo que valoriza a mentira! Ah, não! É o fim da picada!

— Ah, garota, até parece que você é um poço de honestidade. — disse Madá. — Se as crianças gostam de uma jogatina, é meu dever, como avó, ensinar meus netos a jogar e a mentir direitinho, pronto!

— Escuta! — disse Bárbara aos filhos. — Esqueçam tudo que vocês ouviram dessa velha maluca, hein? E não deixem ela roubar a inocência de vocês!

— Mãe, a inocência, você já roubou há muito tempo! — disse Dorothy.

— Isso é obra tua, hein! — disse Bárbara, apontando para Madá. — Seu ser maléfico! Desde que você entrou nessa casa que você instaurou a desunião aqui! Por isso que até a pobre da Emília teve que ir embora por causa das suas mentiras!

Kevin levantou-se da mesa.

— Mas foi você que demitiu ela, mãe! — disse o garoto, indignado, e saiu andando.

— Ô Kevin, Kevin, volta aqui! — chamou Bárbara. — Kevin, volta aqui, que eu vou pedir as pizzas!

— Pizza, não! — disse Dorothy, levantando-se da mesa. — Quero comida tailandesa! — passou por Fabinho e foi subindo as escadas.

Fabinho resolveu falar com Madá. Quem sabe ela lhe dava algumas informações sobre o passado da Bárbara, e também sobre seu pai e sua mãe.

— É, parece que rolou uma confusão aí, né? — perguntou Fabinho.

— Ah, não liga não, meu filho, isso é missa, perto do que ela vai aprontar! — disse Madá, embaralhando as cartas.

— A Bárbara tem muita história mesmo, né? — disse Fabinho. — Nunca ninguém te ofereceu dinheiro pra fazer uma biografia dela?

Madá riu.

— Se eu fosse botar no papel a história de Bárbara Ellen, ia ser tanta sujeira, mas tanta sujeira, que quem fosse ler ia ter que botar luva cirúrgica e máscara de gás — levantou as mãos nos dois lados da cabeça — pra poder não pegar vírus.

Fabinho riu. Achou Madá muito divertida, falando da filha daquele jeito.

— A senhora é muito engraçada, né?

— É, sou mesmo, sou mesmo! — disse Madá.

— Um dia desses, eu encontrei o Plínio Campana. — disse Fabinho. — Ele é o pai da Malu, né?

— Plínio Campana, príncipe, olhos verdes, educado. — disse Madá. — Eu não entendi até hoje, como ele conseguiu aguentar a minha filha.

— Pois é. E a Irene Fiori, a senhora conheceu? — perguntou Fabinho. — Parece que ela era uma atriz que o Plínio namorou antes de casar com a Bárbara.

— Eu conheci, sim. — disse Madá, balançando a cabeça positivamente. — Eu conheci a Irene Fiori.

Madá nunca se esqueceu de Irene. Irene foi amiga de sua filha, e sumiu misteriosamente, há muitos anos. Madá suspeitava de que Bárbara havia aprontado para separar Plínio de Irene. Até porque conhecia a filha como a palma de sua mão. Bárbara nunca foi flor que se cheire, desde criança ela não prestava. Bárbara tinha vergonha dela. Dizia para as coleguinhas da escola que ela era sua empregada. Mas Bárbara sempre negava ter alguma coisa a ver com o sumiço de Irene. Na opinião de Madá, Fabinho parecia interessado demais nos podres da Bárbara. E qual seria o interesse dele em Plínio, ou na Irene? Madá logo desconfiou do rapaz.

A campanha tocou. Luz foi atender. Era o Bento.

— Oi, Luz! — disse Bento, entrando. — Eu vim falar com a Amora, ela tá aqui?

Bento precisava falar com Amora. Pensava que, depois de ele ter se declarado para ela e tê-la beijado, ela romperia com Maurício. Mas não foi o que aconteceu. Amora continuava noiva de Maurício, até apareceu na televisão ao lado do noivo, mostrando o apartamento onde iriam morar. Bento estava chateado, decepcionado. Amora se comportou como se nada tivesse acontecido entre eles. Amora lhe devia explicações. Ele tinha certeza de que Amora o amava. Ele sentia isso. Como ela podia continuar posando de noiva feliz para a mídia, depois do que aconteceu entre eles?

Fabinho ficou furioso. Como Bento se atrevia a entrar naquela casa? Bento não tinha nada que aparecer ali. Que ficasse lá naquele “buraco” onde vivia. O que ele queria com a Amora? Fabinho faria tudo para afastar Bento de Amora, e principalmente, de sua família, inclusive de si mesmo. Ele queria Bento longe. Pretendia levar vida nova, e não queria ficar se deparando com gente do seu passado. Fabinho queria esquecer que algum dia conheceu Bento. Bento lhe fazia lembrar de coisas que queria esquecer. Além do mais, ele tinha ódio de Bento, e não o deixaria ficar com Amora. No ponto de vista de Fabinho, Bento não estava à altura de Amora.

— O que você tá fazendo aqui, Bento? É muita cara de pau sua voltar nessa casa!

Bárbara também não gostou nada de ver Bento ali.

— Mas o quê que você está fazendo na minha casa?

— Eu vim falar com a Amora! — disse Bento.

— A Amora não está! — mentiu Bárbara.

— Tá, sim! Vem comigo. — disse Luz, puxando Bento em direção às escadas.

Fabinho jamais permitiria que Bento se aproximasse de Amora novamente. Estava decidido a tomar Amora de Bento.

— Não, não, não! Luz, não faz isso, Luz! Luz! — disse Fabinho, correndo para impedir Luz de levar Bento para dentro. — Não faz isso, que eu conheço esse cara! Ele não presta!

— Quê que é, Fabinho, você tá querendo que eu arrebente a tua cara de novo? — disse Bento, furioso. Ele não estava entendendo qual era a do Fabinho. Bento não compreendia por que Fabinho tinha tanto ódio dele, e por que queria afastá-lo de Malu e de Amora. Ele se questionava qual seria o interesse de Fabinho naquela família.

— Olha aqui, eu não quero violência na minha casa! — disse Bárbara. — Vou chamar a polícia!

— Calma, tá? — disse Luz, procurando apaziguar. — Tá tudo bem! Ninguém vai brigar aqui! Bento, vem comigo.

Luz subiu as escadas com Bento. Ela estava fazendo de tudo para juntar Amora e Bento. Isso ajudaria Malu a ficar com Maurício. Se Amora rompesse o noivado para ficar com Bento, Maurício ficaria livre e Malu teria uma chance de conquistá-lo. Malu resolveu até transformar Bento em uma celebridade instantânea, para chamar atenção de Amora. Por isso Bento e Malu deram uma entrevista para Lara Keller no Luxury. Fabinho não gostou nada de ver que Luz estava bancando o cupido. Fabinho disse:

— Olha aqui, gente, vocês têm que tomar cuidado com o Bento. O Bento é um marginal e tá querendo dar um golpe na Amora.

Fabinho sabia que Bárbara acreditaria nele. Todos sabiam que ele conhecia Bento desde criança. Ele já havia percebido que Bárbara não gostava de Bento. Ela tinha horror a ele. Bento era pobre, Amora era rica e famosa, logo, claro que Bárbara acreditaria que Bento pretendia dar um golpe. Ela também acreditaria que Bento se mordia de inveja dele, Fabinho, e de Amora, porque não foi adotado por uma família rica e continuava vivendo na Casa Verde. Assim, Bárbara o ajudaria a afastar Bento de Amora. Fabinho estava disposto a fazer de tudo para afastar Bento de Amora. Bento não tinha nada a ver com Amora. Eram de mundos completamente diferentes. Amora tinha horror a pobreza. Fabinho acreditava que ele, sim, era o homem certo para Amora. Afinal, ele iria ficar rico. Ainda faria Amora ver que ela tinha muito mais coisas em comum com ele do que com Bento. Amora gostava de luxo, de conforto, e ele também.

— Não se preocupe. A Amora não vai se deixar enganar. — disse Bárbara.

Bárbara subiu para o andar de cima. Fabinho imaginou que a perua foi tentar ouvir a conversa entre Amora e Bento. Bárbara caíra na conversa dele e acreditava que Bento era um marginal. Ela estava querendo proteger a filha. Fabinho ficou conversando com Madá, no sofá da sala.

— Ah, então, quer dizer que você, a Amora e o Bento moraram na mesma casa de adoção? — perguntou Madá. — Não era uma agência de modelos?

Madá riu.

— Só que eu e a Amora tivemos a sorte de ser adotados, e o Bento não. — disse Fabinho. — Por isso que ele tem inveja da gente. É por isso que ele tá querendo dar o golpe agora na Amora.

Madá percebeu que Fabinho implicava com Bento, e estava tentando colocar todo mundo contra o Bento. Bárbara já caíra na conversa dele. Só que Bento não parecia um golpista. Madá sabia que Bento havia ficado amigo de suas netas. Malu já havia falado com ela sobre Bento. Malu falava tanto de Bento que era como se Madá já o conhecesse. Malu admirava Bento, pois tinham os mesmos princípios. Malu tinha falado sobre Fabinho também. Madá confiava na inteligência e na intuição da neta. Malu era sensível e logo sacava quem prestava ou não. Malu conhecia Bento há pouco tempo, mas já percebera que Bento era uma pessoa bacana. Malu adorava Bento e detestava Fabinho. Na opinião de Malu, Fabinho não era flor que se cheire. Malu havia informado que Fabinho era um invejoso e que tinha uma rixa com Bento, desde pequeno. Madá percebeu que Fabinho era especialista em bajulação. Ele se fazia de amiguinho de Bárbara, mas estava interessado demais nos podres dela. Além do mais, Madá achava Fabinho forçado. No ponto de vista de Madá, Fabinho era simpático demais, gentil demais, se esforçava demais para ser agradável às pessoas. Madá não sabia qual era a do Fabinho, mas boa coisa não podia ser.

— Não, peraí. — disse Madá. — Mas ele ficou amigo da Luz e da Malu.

— Claro, ele tá se garantindo. — disse Fabinho. — Se a Amora não cair na conversa dele, entendeu?

— Mas ele é mais inteligente que você. — disse Madá.

— Como assim? — perguntou Fabinho, sem entender nada.

— Porque ele paquera as meninas da casa e você fica aqui, bajulando as coroas. — disse Madá.

— Bajulando, dona Madá? — Fabinho se fez de desentendido.

Ele chegou à conclusão de que Madá já tinha percebido qual era o jogo dele. A velha era esperta, pois percebeu que ele tinha conseguido ficar amiguinho da Bárbara. E ainda tentou extrair dela, Madá, informações sobre Plínio e Irene. E ele se mostrou muito interessado na história de Bárbara, nos podres dela. Madá podia não saber o que ele pretendia, mas desconfiava que ele estivesse aprontando alguma. Afinal, ele estava cercando a família. Fabinho esperava que Madá não se tornasse uma pedra no seu sapato. Ele não queria ninguém atrapalhando seus planos.

— Claro. — disse dona Madá. — Meu bem, eu sou muito vivida. Não tem nada mais parecido com a vida do que uma mesa de pôquer. E quando o jogador é muito certinho, é muito corretinho, você pode apostar dez por um que ele é vigarista. — chegou mais perto, e aproximou o rosto do dele. — E você, bombom, é muito simpatiquinho, é muito bonitinho.

Fabinho achou que Madá devia mesmo ter experiência com malandragem, afinal, tinha uma filha pilantra.

— Não tô entendendo é nada. — disse Fabinho, se fazendo de sonso.

Luz e Bárbara desceram as escadas. Bárbara disse à Luz:

— Meu Deus do céu! Para de ficar me dando conselho! Cuida da sua vida!

Bárbara dirigiu-se a Fabinho e Madá.

— Bom, finalmente, eu vou pedir as pizzas. Tem alguma favorita sua, Fabinho?

— Ah, não precisa, né Fabinho? — provocou Madá. Dirigiu-se à Bárbara. — O sabor que você escolher é o sabor favorito do Fabinho, né, Fabinho?

Foi Dorothy quem acabou pedindo as pizzas. Kevin reclamou:

— Mas por quê que você não pediu muçarela de búfala? Você sabe que eu adoro.

— Então, da próxima vez, liga você e pede as pizzas. — disse Dorothy.

— Ah, menino, frescura! — disse dona Madá. — Come a de calabresa, vai estar ótima, tá?

Bento desceu as escadas depressa. Ele não estava com uma cara muito boa. Estava chateado com Amora. Amora afirmou que pretendia falar com Maurício, romper o noivado, porém, quando chegou ao apartamento onde ela e Maurício iriam morar, encontrou Lara Keller, querendo entrevistá-la. A sala estava cheia de fotógrafos, de jornalistas, para cobrir a matéria. Amora argumentou que não iria pegar bem se ela se recusasse a dar a entrevista. Se ela se recusasse, Lara iria acabar com ela na frente da mídia. A mídia iria espalhar por aí que ela brigou com Maurício e com Lara, que ela foi hostil com uma colega de trabalho. Não seria bom para a imagem dela. Ela e Lara agora estavam dividindo o programa. Amora prometeu que iria falar com Maurício, pediu para Bento dar alguns dias para ela.

Bento estava decepcionado. Estava na cara que para Amora a prioridade era o status, as aparências, a reputação. Amora estava dando desculpas para não romper com Maurício e ficar com ele. Bento até acreditava que Amora o amava, mas o amor parecia não ser a prioridade dela. Bento duvidava de que Amora terminaria com Maurício. Até porque o casamento de Amora com Maurício iria ser o maior sucesso. Amora e Maurício iriam sair em tudo quanto era capa de revista, coluna social, em todos os blogs e programas de celebridades. Com isso, Amora iria ganhar cada vez mais dinheiro e iriam surgir cada vez mais convites de trabalho para ela. Para Amora, dinheiro e fama pareciam estar em primeiro lugar.

— O quê que você fez com a minha filhinha? — perguntou Bárbara, acusadora. Fabinho dissera que Bento era perigoso, e ela acreditou.

— A sua filha está ótima! — disse Bento. — E fique tranquila, que eu não vou mais perturbar a senhora. Com licença.

Bento foi embora.

— Meu Deus do céu! — disse Bárbara.

Fabinho levantou-se. Pelo visto, Bento e Amora brigaram.

— Pelo menos, a Amora não caiu no golpe dele. — disse Fabinho.

Luz não gostou de ver Fabinho falar mal de Bento. Na opinião dela, Bento era um cara muito bacana, inteligente, sensível. Não levava jeito de pilantra. Pelo contrário, era uma pessoa honesta e confiável. Luz conhecia Bento há pouco tempo, mas já gostava dele e o considerava amigo. Bento era amigo de Malu também, estavam trabalhando juntos na Toca, desenvolvendo projetos. Para Luz, já deu para ver que ele e Malu eram bem parecidos, tinham a mesma visão de mundo. Malu havia dito que Fabinho não valia nada, que tinha inveja de Bento. Malu era inteligente, sensível, e Luz confiava no julgamento da irmã. Bento era completamente diferente de Fabinho. A princípio, Luz achou Fabinho simpático, mas ela não gostou nada de ver que ele havia ficado amiguinho de Bárbara do dia para a noite. Fabinho vivia puxando o saco de sua mãe. Dorothy dissera que ele era especialista em bajular todo mundo, e agora Luz dava razão à irmã.

— O Bento não é golpista! — defendeu Luz, furiosa. — Não fala assim dele, que ele é meu amigo!

Fabinho concluiu que Luz era mais uma a fazer parte do fã-clube do Bento. Ele não conseguia entender o que as mulheres viam naquele florista. Para Fabinho, era realmente impressionante como Bento conquistava as pessoas sem fazer esforço algum. Luz conheceu Bento outro dia, e já o adorava, a ponto de sair em defesa dele. E pelo visto, Madá já foi com a cara dele. Já ele, Fabinho, tinha de esforçar para conquistar as pessoas, e mesmo bajulando, não conseguia fazer todo mundo gostar dele. Aliás, ninguém gostava dele.

Já o Bento era daquelas pessoas que todo mundo queria ter por perto. Todo mundo adorava o Bento e vivia jogando confete nele. Bento nem precisava usar de nenhum artifício para conquistar o afeto das pessoas, o que causava raiva em Fabinho. Na opinião de Fabinho, era óbvio que o idiota do Bento adorava ver não somente a mulherada, como todo aquele povo da Casa Verde jogando uma chuva de confete nele o tempo todo. Bento realmente tinha algo que cativava, atraía e encantava as pessoas à sua volta. Todo mundo dizia que Bento tinha uma luz, uma energia positiva que fazia as pessoas se sentirem bem. Já ele, Fabinho, não conseguia atrair nem encantar ninguém. Pelo contrário, repelia. Ninguém queria ser amigo dele. Fabinho tinha ódio de Bento por causa disso.

Era assim desde a infância. Fabinho se mordia de inveja, porque ele nunca teve o carisma de Bento, nem a mesma facilidade para conquistar as pessoas e fazer amizades. Bento era o líder, o popular, querido por todos, enquanto Fabinho se sentia ofuscado, preterido, rejeitado. Na infância, ele percebia o favoritismo dos donos do lar de adoção e dos vizinhos por Bento, enquanto ele era apenas mais um entre tantos órfãos e não recebia o mesmo carinho e atenção, nem mesmo das outras crianças, que o achavam antipático e preferiam a companhia de Bento.

A imensa carência e a inveja que sentia o levavam a fazer de tudo para chamar atenção, mesmo sendo de uma maneira negativa. A inveja que sentia o levava a mentir, fazer intrigas para minar as relações de Bento com outras pessoas, para manchar a reputação de Bento e atrair mais atenção para si, na tentativa de nivelar o jogo e compensar a desvantagem que sentia ter. Porém, seu comportamento fazia com que ele sofresse forte rejeição pelas crianças e pelos adultos, o levavam ao isolamento, o que aumentava ainda mais sua inveja e ressentimento. Agora, Fabinho não gostava nada de ver que até pessoas ricas admiravam Bento. Ele pensava que a elite jamais veria nada de especial num reles florista. Mas Bento conseguiu ter ligação com aquela família sem fazer grande esforço.

— E olha, forte, viril e sensível. — elogiou Madá, levantando-se do sofá. — Pacote completo, hein?

— Pelo menos, agora, o jardineiro sabe onde é seu lugar. — disse Bárbara.

Fabinho acabou jantando na casa de Bárbara. No dia seguinte, Fabinho resolveu procurar Plínio. Ele faria de tudo para afastar Bento de Plínio e de Malu, pois não queria Bento perto da sua família, de jeito nenhum. Primeiro que Fabinho não queria Bento perto dele, pois Bento fazia parte de um passado que o assombrava. Na opinião de Fabinho, Bento estava invadindo seu espaço e no que dependesse dele, Bento não teria lugar no mesmo mundo que ele. Além do mais, Bento era uma pedra no seu sapato, faria de tudo para atrapalhar seus planos. Naquele dia da briga, Bento o ameaçara. Bento não gostava dele, não confiava nele, e com certeza devia estar fazendo a caveira dele para Plínio e para Malu. Ainda mais depois da história da invasão, da destruição da estufa. Por isso Fabinho resolveu jogar Plínio contra Bento. Fabinho resolveu dizer a Plínio que Bento queria dar um golpe em Malu. Achou que Plínio acreditaria nele. Afinal, Plínio não conhecia Bento. Ele, Fabinho, conhecia Bento desde criança. E que interesse um pobretão tinha em se aproximar de uma garota rica, filha de um cineasta famoso? Claro que Plínio ia pensar que Bento era um interesseiro. Fabinho achou que seu plano tinha tudo para dar certo.

Para Fabinho, tentar minar a relação de Bento com outras pessoas, jogando as pessoas contra ele, especialmente se tratando de membros da sua família, não era apenas uma forma de afastá-lo, mas também de se vingar. Fabinho queria se vingar de Bento, fazê-lo sofrer o que ele havia sofrido no lar. Bento iria saber exatamente como era ser julgado como malvado. O que Fabinho queria era que Bento sofresse a rejeição que ele sofreu. Além do mais, no ponto de vista de Fabinho, Bento já tinha amor suficiente, que recebia das pessoas lá daquele “buraco” onde vivia. Fabinho acreditava que tinha mais direito ao amor de sua família biológica do que Bento, porque ele sim pertencia à família, e não Bento.

Porém, quando Plínio atendeu, não fez uma cara muito boa. Estava na cara que Plínio não gostou da presença dele no apartamento. Plínio tentou expulsá-lo:

— Você de novo, rapaz?

Plínio não entendia por que Fabinho estava sempre atrás dele. Ele não conseguia compreender qual era o interesse do rapaz nele. Plínio teve uma péssima impressão do garoto, desde o início. Estava na cara que Fabinho era um interesseiro, pois sempre bajulava pessoas ricas e influentes, ou famosas. Para Plínio, tudo em Fabinho soava falso. Ele achava Fabinho forçado. Fabinho tentara se aproximar dele só por ser rico e famoso.

Fabinho havia percebido que Plínio não ia com a cara dele. Mas Plínio ainda não sabia quem ele era. Tudo mudaria de figura quando Plínio ficasse sabendo quem ele era, quando tivesse conhecimento de toda a história. Plínio acabaria entendendo tudo. Nada faria Fabinho desistir de seus pla-nos. Fabinho ainda achava que iria conseguir fazer Plínio gostar dele. Plínio iria gostar de saber que teve um filho com a mulher que sempre amou.

— Tudo bem, Plínio? Eu posso entrar?

— O que você quer? — perguntou Plínio, sem deixá-lo entrar.

Plínio se perguntou se o rapaz ia tentar de novo bajulá-lo, impressioná-lo, sondá-lo. Plínio não queria conversa com o rapaz. Até porque não tinha tempo para isso, precisava trabalhar, tinha coisas a fazer. Além do mais, a companhia de Fabinho não era agradável para ele.

— Bom, eu vou ser claro e direto, então. — disse Fabinho. — Até porque a gente não pode perder tempo quando o assunto é filha, né? A Malu tá correndo perigo.

— A Malu, correndo perigo? — Plínio não estava entendendo nada.

— Não só a Malu. A Amora e a Luz também. — disse Fabinho. — Plínio, esse Bento é um marginal. Eu conheço esse cara desde criança. Ele tá querendo desesperadamente dar o golpe na sua família. Você tem que fazer alguma coisa pra defender as suas filhas.

Fabinho não se importava de mentir. Jamais diria a Plínio os motivos pelos quais queria Bento bem longe. Ele não engolia Bento, além do mais, sentia-se mal perto dele. Se ele dissesse a verdade a Plínio, que tinha von-tade de sair correndo quando Bento chegava perto, Plínio acharia que ele estava louco. Fabinho queria afastar Bento, não importava o que tivesse que fazer. Bento também era uma pedra em seu sapato, estava atrapa-lhando seus planos. Fabinho acreditava que não teria chance de conquistar o afeto de Plínio e de Malu com Bento por perto.

Perplexo, Plínio acabou deixando Fabinho entrar. O rapaz continuou:

— Plínio, eu conheço esse marginal do Bento desde que eu sou criança. Eu, ele e a Amora crescemos juntos no lar do tio Gilson. — disse Fabinho. — Acontece que eu tive a sorte de ser adotado por uma família bacana, estudei. E hoje, sou publicitário. A Amora também se deu bem. Mas o Bento... O Bento...

— Você acha que a Amora se deu bem? — perguntou Plínio, interrompendo-o.

Para Plínio estava na cara que o rapaz achava que ser rico era se dar bem. Ele parecia dar importância demais ao dinheiro. Além do mais, ele havia conversado com Bento e Malu e sabia que Fabinho desprezava as pessoas humildes que o criaram e a vida simples. Isso confirmava o que Plínio pensava: Fabinho andava atrás dele porque era rico e famoso. Plínio só não sabia qual era o interesse de Fabinho nele. Ele se perguntava o que Fabinho esperava conseguir dele, se pretendia ficar famoso. Plínio acre-ditava que Fabinho não devia estar atrás do dinheiro dele, pois era rico. Plínio se perguntou se Fabinho seria do tipo que queria cada vez mais dinheiro. Para muitas pessoas, dinheiro era como um vício, nunca era o suficiente. Fabinho parecia ser do tipo que tinha uma ambição desmedida.

— Acho. — disse Fabinho.

Plínio balançou a cabeça positivamente. Fabinho disse:

— E é por isso que o Bento morre de inveja da gente. E desde que eu me aproximei da Bárbara, ele começou a cercar a Amora e a Luz. E o pior é que agora a Malu também está deixando se envolver por esse dissi-mulado.

— Escuta aqui! Você não está sendo um tanto paranoico, não, hein? — perguntou Plínio. Ele achou que Fabinho estava exagerando.

— Não, Plínio. O Bento é perigoso. — disse Fabinho.

Plínio não podia acreditar. Ele conheceu Bento, e ele não pareceu ser nem um pouco perigoso. Pelo contrário, parecia ser um bom rapaz, inte-ligente, sensível, honesto, trabalhador, idealista. Plínio simpatizou com Bento logo de cara. Ao contrário de Fabinho, Bento jamais o seguiu, baju-lou, nem tentou impressioná-lo. Bento tratava-o de igual para igual, sem ligar se ele era rico e famoso. Bento não parecia ser um marginal. Ele era amigo da Malu, estavam trabalhando juntos na Toca. Os dois se conheceram quando Malu foi fazer uma pesquisa sobre lares adotivos. Bento se aproximou de Malu de maneira natural, sem se importar se ela era ou não herdeira de uma fortuna. Plínio acreditava que Bento não seria capaz de dar golpes. Ou seria? Plínio sentiu que precisaria tirar essa história a limpo. Falaria com Emília. Até pouco tempo, Emília trabalhava na casa da Bárbara, e Plínio concluiu que ela devia saber de tudo. Certamente, Emília conhecia Bento e Fabinho. Alguma coisa lhe dizia que havia algo errado com Fabinho, por isso Plínio não acreditava nele. Fabinho continuava:

— Tanto que ontem, ele foi na agência do Natan pra me agredir. Ele inventou uma história maluca de que eu quebrei a casa dele, não sei. Plínio, você tem que abrir o olho. As meninas precisam ficar longe desse cara.

Plínio não acreditou. Bento não parecia ser um rapaz violento. Bento era uma pessoa gentil e alto-astral, ao contrário de Fabinho, que era rude e arrogante. Para Plínio era mais fácil Fabinho ser violento do que Bento.

— Eu agradeço a sua preocupação. — disse Plínio. — Agora, se era só isso, me dê licença porque eu tenho que terminar o artigo do jornal.

Fabinho ficou perplexo. Achou que Plínio acreditaria nele, mas o pai não deu a menor bola.

— Não, Plínio, eu queria falar mais...

Ele não veio apenas para fazer a caveira do Bento. Pretendia passar mais tempo com o pai, conversar mais com o pai. Mas Plínio nem deu chance.

— Passar bem. — disse Plínio, indo para o escritório. Ele tinha mais o que fazer, não tinha tempo a perder com o rapaz.

— Até mais. — disse Fabinho, despedindo-se, com a cara no chão.

Ao caminhar em direção à saída, Fabinho olhou para uma mesa, cheia de porta-retratos. Olhou uma fotografia de Plínio com Irene. Isso só vinha confirmar o que ele já sabia: Plínio ainda amava Irene. Ainda pensava nela. Devia estar procurando por ela até hoje. Fabinho concluiu que se Plínio ainda amava Irene, não podia ter traído ela com a Bárbara. Fabinho tinha certeza de que o pai era inocente. A megera da Bárbara devia ter aprontado alguma para separar seus pais. Mas ele ainda se vingaria da Bárbara e juntaria os pais. Resolveu levar a fotografia. Enfiou a fotografia dentro da jaqueta. Fabinho queria ter sempre uma foto dos pais consigo.

A secretária de Plínio, Celinha, apareceu.

— Oi. — disse Fabinho.

— Oi. Está... Está precisando de alguma coisa?

— Não, querida, estou de saída. Obrigado! — disse Fabinho.

Fabinho abriu a porta e fechou-a atrás de si.