Um amor improvável
34 Confusão no quarto de hotel
Fabinho saiu correndo do laboratório, sem destino. Não sabia ainda o que fazer, para onde ir. Estava transtornado. Para ele, estava tudo acabado. Voltou a ser órfão de pai e mãe, e continuava na pobreza. Não tinha nada, nem ninguém. Estava sozinho. Era assim que Fabinho se sentia, sozinho. Quando ele achava que havia encontrado sua família, e que ficaria rico, tudo havia sido um engano. Ele havia perdido tudo e voltado a ser um zé ninguém. Voltou à estaca zero, não sabendo absolutamente nada sobre sua origem. A vida era mesmo uma droga. Fabinho andou quase uma hora, e foi parar no alto de um edifício. Ficou sentado por alguns minutos, que lhe pareceram horas.
Ele pensava em se jogar lá de cima. Ninguém iria se importar. Ninguém ligava a mínima para ele. As pessoas só queriam vê-lo pelas costas. Sempre foi chutado por todo mundo, a vida inteira. Ninguém se importaria se ele morresse. Além do mais, Fabinho queria mesmo era dar adeus ao mundo. Odiava a vida que levava. Jamais aceitou seu destino. Era para tudo ter sido diferente. Ele não queria ter sido abandonado ao nascer, ter crescido no lar do Gilson, com aquela gentalha, ter sofrido traumas, ter sido adotado por dois incompetentes que não souberam cuidar do patrimônio. Não queria saber de mais nada. Odiava todo mundo, odiava tudo, até mesmo a si próprio. Ao mesmo tempo, hesitava em se jogar do prédio. Ele era tão azarado que era capaz de nem morrer, e ainda ficar tetraplégico.
Fabinho chorava, arrasado. Ficou andando em cima do prédio, lembrando de tudo o que havia acontecido até então. Lembrou-se das vezes em que foi atrás de Plínio, e de quando revelou a Plínio que era filho dele e de Irene. Lembrou-se também do que aconteceu há pouco no laboratório, de Plínio gritando para ele sumir, que nunca mais queria ver sua cara, que ficou aliviado em não ser pai dele. Foi chutado, mais uma vez. Jogado no lixo. Gritou a plenos pulmões para o vazio. Queria morrer. O que ele mais queria era ser amado e aceito, encontrar seu lugar no mundo, mas tudo o que ele conseguiu foi mais rejeição e desprezo. Até a família rica o rejeitou. Ele se sentia sozinho e abandonado.
Ficou horas andando pela cidade, sem ver nem falar com ninguém. Nem apareceu na festa que organizou para comemorar o encontro com a família. No ponto de vista de Fabinho, não havia mais o que comemorar. A mãe adotiva ligou várias vezes, deixou recado, porém, Fabinho não atendeu a nenhuma ligação. Ele não queria falar com ninguém. Acabou decidindo dão dar cabo de sua vida. Decidiu viver, nem que fosse para se vingar de seus inimigos. Suas coisas estavam no apartamento de Plínio, mas não quis passar lá. Não queria olhar na cara de Plínio, nem de Irene, depois de ter sido tão humilhado. Não queria vê-los nunca mais na vida.
Além do mais, alguém teria de lhe explicar essa história toda. Como ele podia não ser filho de Plínio? Ele tinha o anel. Sabia exatamente com quem falar. Odila. Foi ela quem fez o parto de Irene Fiori, e levou o filho do Plínio para o lar do Gilson. Mas Fabinho acreditava que Odila não lhe daria informações de livre e espontânea vontade. A vida inteira, ela lhe negou informações a respeito da mulher que achava ser a mãe dele. Naquele mesmo dia, ela deixou bem claro que, no que dependesse dela, ele jamais saberia de nada. Mas ela teria de lhe dar informações, por bem ou por mal. Fabinho sabia como arrancar dela as informações de que precisava. Todos achavam que ele não prestava, que ele era perigoso. Pois muito bem, ele iria se valer da má fama. Iria ameaçá-la, aterrorizá-la, até conseguir arrancar dela as informações. Também seria uma forma de se vingar por ela saber quem era sua mãe e não ter dito nada por tanto tempo. Se não fosse Odila, ele não teria crescido no lar. Ela o separou da mãe. Se não fosse por ela, sua vida teria sido outra. Ele não teria ficado tão doente da cabeça, se não fosse aquela desgraçada. Para Fabinho, o exame só podia estar errado.
Ainda era difícil de acreditar. Não era possível que ele não fosse filho de Irene. Se não era Irene, quem seria a mãe dele? Ele resolveu ligar para Odila, dar um nome falso, disfarçar a voz e pedir uma drenagem linfática. Marcaria em um hotel. Não pretendia matá-la. Apenas ameaçá-la. O objetivo era apenas arrancar informações dela. Podia não valer nada, mas não era assassino, nem idiota. Matar era demais para ele. Além disso, se ele jogasse Odila do alto do prédio, todos na rua iriam ver, chamar a polícia. Se ela aparecesse morta, todos suspeitariam dele. Ele quase esganou Odila naquele mesmo dia, mas havia surtado, perdido completamente a cabeça. Do contrário, não teria feito aquilo, ainda mais na frente de todo mundo. Não era idiota a esse ponto. Então ligou para Odila. Sabia qual era o número dela. Não sabia se ela atendia em hotéis, mas ele ofereceria uma boa quantia em dinheiro. Odila atendeu:
— Alô? Eu. Faço. Massagem ayurvédica, inclusive. Hum. Ah, não, desculpe. Eu só atendo no meu... Quanto? Bom, nesse caso, eu acho que posso abrir uma exceção pro senhor, né? Tá. Eu vou anotar o endereço. O senhor pode passar, por gentileza?
O rapaz deu o endereço para Odila. Ela foi ao hotel onde ele estava hospedado. Foi ao quarto e começou a arrumar tudo.
— Olha, querida, você pode avisar o cliente, viu? — disse Odila para a camareira. — Que eu já tô prontinha aqui.
A camareira bateu na porta do banheiro, e Fabinho saiu. Odila estava de costas para ele. A camareira saiu do quarto. Fabinho fechou a porta do banheiro e Odila diminuiu as luzes. Odila estava passando óleo nas mãos.
— O senhor prefere com baixa iluminação? — perguntou Odila.
— Prefiro. — disse Fabinho.
Odila reconheceu a voz, na hora.
— O que é isso? — perguntou Odila, surpresa ao vê-lo ali.
— Qual o espanto? Eu tive um péssimo dia. Nada melhor do que uma boa massagem pra tirar o meu estresse. — disse Fabinho.
— Você pensa que eu sou palhaça, moleque? — disse Odila, tratando de pegar suas coisas. Estava na cara que ele iria aprontar alguma. Ela sabia que Fabinho estava revoltado com ela, por ela ter deixado o filho da Irene no lar e nunca ter falado nada para ele. Ele jurou se vingar. Além do mais, se ele deu um nome falso ao ligar para ela, boa coisa não pretendia fazer. Porém, antes que ela pudesse escapar, Fabinho a puxou pelos cabelos.
— Aonde você vai, hein, sua velha desgraçada? Fala! — gritou o rapaz, empurrando-a em direção à janela, que estava fechada. — Não foi você quem levou o filho da Irene pro larzinho adotivo? Então me fala, como é que eu posso não ser filho dela? Fala! Fala, senão é voo livre! 21 andares! O quê que você prefere?
Odila nada dizia. Estava assustada, e ele continuava atrás dela, colado a ela, pressionando-a contra a janela.
— Fala! Eu quero saber tudo, tintim por tintim, tudo que aconteceu naquele dia. Fala! — disse Fabinho, possesso, no ouvido dela.
— Eu falo! Eu falo! Me solta! Me solta! — disse Odila, nervosa.
— Vamos lá. — disse Fabinho, atravessando o quarto em direção à porta. — Você me pegou no hospital, junto com o anel que minha mãe me deu. Mais o quê? — trancou a porta do quarto para ela não fugir.
— Bom, eu levei você pro lar e, chegando lá, a Salma estava entrando na van pra levar as crianças pra vacinar. — disse Odila. — Aí, eu entreguei você pro Gilson com o anel.
— Fala! — gritou Fabinho, impaciente, desequilibrado.
— Eu deixei você com a Zezé! — disse Odila, nervosa. — Ele deixou você com a Zezé e guardou a joia no quarto. Aí, eu e ele, a gente foi pro posto de vacinação pra ajudar a Salma e as crianças. É tudo isso que eu sei, eu não sei de mais nada!
— Mas por que, ao invés de ele deixar o anel comigo, ele guardou o anel?
Para Odila, o rapaz fez uma pergunta idiota. Como é que Gilson iria deixar o anel com um recém-nascido? É claro que iria guardar!
— Como assim? — disse Odila. — Você queria que ele pegasse o anel e costurasse no teu umbigo?
— Você tá debochando? — gritou Fabinho, fora de si, chacoalhando-a. — Você quer cair? Você quer cair 21 andares?
— Para! — gritou Odila, empurrando-o. — Você pensa que tá falando com quem? Seu fedelho! Hein?
— Com uma imbecil! — disse Fabinho, pegando-a no braço. — Com uma idiota! — empurrou-a em direção à cama, e gritou. — Que vai me pagar caro por ter me deixado lá!
Se ele estava doente, se tinha traumas, era culpa dela.
Odila, pressionada por Fabinho, acabou dando mais informações. Ela contou que enquanto ela foi ajudar Gilson e Salma no posto com as crianças, Silvério havia chegado no lar com outro recém-nascido. Na época, ele era faxineiro da rodoviária e uma senhora havia, naquele mesmo dia, deixado um outro bebê com ele e desaparecido. Silvério deixou a criança com a falecida Zezé, uma enfermeira aposentada que ajudava Gilson e Salma com os bebês. Até pouco tempo atrás, todos pensavam que Bento era o recém-nascido que Silvério trouxe ao lar do Gilson. Agora, todos achavam que a Zezé só podia ter confundido os bebês, pois tinha a idade avançada e era muito atrapalhada. Ou seja, se Fabinho não era filho do Plínio, só podia ser Bento. Os dois chegaram ao lar no mesmo dia. Havia a possibilidade de os bebês terem sido trocados. Se isso às vezes acontecia em hospitais, não era impossível ter ocorrido em um lar de adoção.
Fabinho ficou ainda mais revoltado. Ele sempre soube que ele e Bento haviam chegado ao lar no mesmo dia, mas nem havia parado para pensar nisso. Ele não pensou na possibilidade de alguém ter trocado os bebês, e não lembrava bem da história de Bento. Já fazia tanto tempo que ouviu. Fabinho concluiu que nem adiantaria pressionar Silvério. Silvério nunca mais viu a mulher, não sabia o nome dela, nem fazia ideia de quem era. Fabinho se perguntou como era possível alguém confundi-lo com o Bento. Odila explicou que recém-nascido era tudo igual, que nos primeiros dias de vida, ele e Bento tinham características parecidas (mesmo peso, mesma estatura, a mesma cor da pele e a cor do cabelo era parecida), e que foram mudando e ficando diferentes com o passar do tempo.
Fabinho estava furioso. Mas as pessoas que trabalharam naquele lar eram umas irresponsáveis mesmo. Odila não tinha nada que ter deixado o filho da Irene com a Zezé. A Zezé confundiu os bebês e foi ele quem pagou o pato, no fim. Por causa disso, ele passou a vida inteira guardando um anel que não era dele, e foi atrás de uma história que não era a dele. Odila acabou com sua vida. Não apenas Odila, como também Gilson, Salma, todo mundo. Mas para Fabinho ainda estava sendo difícil de aceitar que o verdadeiro filho do Plínio era o Bento.
— O Bento, não! O Bento, não pode ser!
Era para ele ser o filho do Plínio, não o Bento. Fabinho se sentia injustiçado. Era como se a vida estivesse punindo-o e premiando Bento. Se tratava de uma confirmação de que Bento era superior e tinha mais sorte do que ele. Era como se Bento estivesse vencendo-o, mais uma vez.
— Olha, moleque, eu já falei tudo que eu sabia. — disse Odila, segurando o travesseiro e levantando-se da cama. — Agora, se realmente, quer ter certeza se a Zezé trocou as bolas ou não, sabe o que você faz? Vai pra um centro espírita!
Fabinho ficou ainda mais furioso. Ela ainda por cima debochava dele.
— Cala essa tua boca! — disse Fabinho, partindo para cima dela, descontrolado, empurrando-a em cima da cama e chacoalhando-a. — Cala essa tua boca!
O rapaz estava tão fora de si que Odila ficou com medo que ele tentasse qualquer coisa contra ela. Ele já a ameaçou de morte, e naquele mesmo dia, quase a esganou. Ela deu uma joelhada entre as coxas dele.
— Ai! — Fabinho gemeu, morrendo de dor e saindo de cima dela.
Odila levantou-se da cama.
— Cocozinho! — xingou Odila. — Você não passa de um pirralhozinho nojento! Tô muito feliz que você não é filho da Irene, viu? Muito!
Odila achava que Irene merecia um filho melhor do que o canalha do Fabinho, e Bento era o filho que toda mulher gostaria de ter. Bento era uma pessoa maravilhosa. Um encanto de rapaz: gentil, amoroso, íntegro, honesto, trabalhador, cheio de bons princípios, só fazia bem às pessoas ao redor dele. Bento era uma criatura abençoada, que só trazia luz para todos. Apesar de ter sido abandonado, ter crescido órfão, Bento não tinha mágoa nem raiva de ninguém, nem pensava em se vingar, em destruir as pessoas. Bento não descontava suas frustrações nos outros. Bento não permitiu que a orfandade o amargurasse. Ele tinha vocação para a felicidade. Ao contrário de Fabinho, Bento não usava o passado como desculpa para ser cruel nem para ser um criminoso. Bento tinha a consciência limpa, podia deitar a cabeça no travesseiro em paz, pois não passava por cima de ninguém. Bento não queria nada além de levar uma vida digna e feliz.
Odila gostava de Irene, e nunca aceitou o fato de o filho dela não valer nada. Na opinião de Odila, ninguém merecia ter Fabinho como filho, muito menos uma pessoa tão doce como Irene. Odila não gostava de Fabinho. Ele era cínico, debochado, insolente, agressivo. Desde pequeno, Fabinho era um poço de problemas. Fabinho se mordia de inveja do Bento, vivia perseguindo-o, azucrinando-o, agredindo-o, mentindo, fazendo intrigas contra ele, inventando histórias. Tudo para fazer a caveira do Bento, colocar todo mundo contra o Bento, para separar Bento de Amora, e muitas vezes acabava sobrando para as outras crianças também. Se alguma criança tomava partido do Bento, ou se alguém, de alguma forma, fazia Fabinho se sentir humilhado, Fabinho se ressentia e se vingava. Fabinho acabava infernizando todo mundo com a inveja que sentia.
Na visão de Odila, Fabinho nunca prestou. Ele sempre gostou de ver o circo pegar fogo. O negócio dele era jogar uns contra os outros, e principalmente, minar as relações de Bento com os demais. Bento era o alvo principal de Fabinho. Ninguém gostava dele, e com razão. Na opinião de Odila, a rejeição que Fabinho sofria das outras crianças era uma reação justificada ao comportamento dele. Além disso, Fabinho já não era uma criança agradável. Mais tarde, quando voltou para São Paulo, Fabinho esnobou todo mundo, tratou com desprezo pessoas que o criaram por serem pobres. Ele não tratava bem nem o Bento e a Giane, as únicas pessoas que brincavam com ele na infância. No ponto de vista de Odila, quem fazia as coisas que Fabinho fazia, não valia grande coisa. Na opinião dela, Fabinho era mau-caráter, um ser absurdamente baixo, asqueroso, desprezível e não merecia pais maravilhosos como Plínio e Irene, muito menos herdar uma fortuna. Bento sim merecia, pois era um garoto de ouro. Fabinho teve bem mais chances que o Bento e não fez nada de positivo com a vida dele. Agora era a vez do Bento, e ela tinha certeza de que Bento saberia aproveitar a chance.
— Eu sou filho dela sim! — disse Fabinho, não conseguindo aceitar que houve um engano.
— Ah, não é, não! — disse Odila. — E olha, eu tô fazendo a maior torcida pro Bento ser o verdadeiro... O verdadeiro herdeiro do Plínio. E não é pela grana, não, viu, menino? Porque eu sei que ele vai usar muito melhor que você. Mas é... É o prazer que eu quero ter de te ver na sarjeta!
— A culpa é sua, sua desgraçada! — disse Fabinho, caído no chão, cheio de dor.
Odila não concordava. Ela não fez nada por mal. Jamais teve intenção de prejudicar ninguém. Não foi ela quem confundiu os bebês, e se a Zezé trocou as bolas, não fez por mal. Deixar uma criança no lar era melhor do que ter largado na rua.
Se ela não contou nada a ele sobre Irene, é porque Irene pediu para não contar. Além do mais, Odila queria poupá-la. Irene estava doente, tudo que ela não precisava era de um filho problemático que só lhe daria trabalho. Fabinho seria uma fonte de estresse, de angústia para Irene. E mesmo se tivesse contado, de nada adiantaria Fabinho procurar Irene, pois ela sumiu no mundo quando recebeu alta. Até pouco tempo atrás, ninguém sabia dela, nem Odila.
Odila reconhecia que talvez tenha sido um erro não contar para ele. Mas ela acreditava que não tinha culpa por ele ter se transformado em um lixo, virado um marginal, um canalha que não respeitava ninguém. Odila achava que em vez de se revoltar, brigar com o mundo, cometer uma série de crimes, Fabinho devia ser grato por tudo o que recebeu. Dar valor às coisas boas. Nem todo órfão tinha a mesma sorte que ele teve. Muitos órfãos não tinham nem a chance de ter uma família. Fabinho foi muito bem tratado no lar e foi adotado por uma família rica, recebeu amor e carinho, mas não dava valor. Ele não soube valorizar os pais maravilhosos que a vida havia dado. Odila tinha certeza de que a mãe adotiva de Fabinho era uma boa pessoa, o pai adotivo também devia ter sido. Gilson e Salma eram pessoas responsáveis, não iriam entregar uma criança a qualquer um. E nada justificava o mau caratismo de Fabinho.
— Não. — disse Odila, pegando a chave do quarto, que estava caída no chão. — A culpa não é minha, não. A culpa é tua. Tua, porque a vida te deu todas as chances, moleque. Você foi adotado, você foi amado, só que você não aprendeu nada! Nada! Você não tem um pingo de consideração por quem cuidou de você! Agora, você plantou? Vai colher o que merece. — apontou para ele. — Tá aí, ó, caído, duro, sozinho!
— Coisa de pobre! Parece frase daquele otário! — debochou Fabinho, rindo.
— Agora, imagina a colheita daquele otário! — disse Odila. — Tudo que você achou que ia pra você, vai pra ele. Pivete, o mundo gira. — fez um movimento giratório com a mão. — E se você não gira com ele, garoto, você cai. Do jeitinho que você caiu aí.
Odila abriu a porta do quarto e foi embora. Fabinho continuou ali, sozinho. Tudo o que Odila disse entrou por um ouvido e saiu por outro. Na opinião de Fabinho, era muito fácil ela dar sermão, lições de moral, vir com frases de autoajuda. Ela não estava na pele dele. Não sabia o que era crescer sem família. E ela também não podia falar nada. Odila se julgava uma pessoa de bem, o chamava de ingrato, de mau-caráter, o acusava de não ter consideração por quem cuidou dele. Mas ela o desprezava e o rejeitava, mesmo quando ela achava que ele era filho da Irene, mulher de quem ela dizia gostar, a quem ela chamava de amiga. Odila o odiava mesmo quando achava que ele era a criança que ela viu nascer.
No ponto de vista de Fabinho, se Odila podia odiar e rejeitar o garoto que viu crescer, por julgá-lo um mau-caráter, se ela o desprezava a ponto de esconder sua origem, então por que ele não podia rejeitar as pessoas que o criaram? Se o Plínio, que se achava tão ético, podia suborná-lo para que desaparecesse, mesmo quando achava que ele era filho, por que ele não podia desprezar o casal que o criou e toda a vizinhança? Ele era um calhorda, não era? Não era isso que diziam? Se pessoas que se julgavam boazinhas podiam desprezá-lo, esconder coisas dele, fazer chacota dele, oferecer dinheiro para ele sumir, ele também podia desprezá-las, havendo razões suficientes. E não faltavam motivos para desprezar aquela gentinha. Ainda mais se tratando de pessoas que só atrapalharam sua vida, e deixavam bem claro que não gostavam dele, apenas o suportavam.
Impressionante como as pessoas achavam que, por ele ter sido adotado, isso devia anular a dor deter sido abandonado naquele lugar horrível. Não anulava. O fato de ter sido adotado por uma família rica não o faria esquecer. Jamais. Dinheiro nenhum pagava o sofrimento dele.
Bem que ele tentou esquecer de tudo quando foi adotado. Durante anos, fez de conta que o passado não existia, que a vida dele havia começado quando ele foi adotado pela Margot e o marido. Mas não conseguiu. Ele tinha traumas, continuava sofrendo por causa desses traumas. E as pessoas ainda esperavam que ele fosse grato? Grato por estar doente? Ele não conseguia, nem queria ser grato por ter sido largado como se fosse um cachorro. Ele só foi parar naquele maldito lar porque foi abandonado. Só foi adotado porque foi abandonado. E o que mais que as pessoas queriam que ele agradecesse, o fato de terem omitido informações sobre sua origem esses anos todos? Todos naquele maldito lugar esconderam dele que Odila trouxe o filho da Irene ao lar do Gilson. Nunca contaram nada para ele a respeito de sua origem. E ainda esperavam gratidão? Bando de idiotas. Cuidaram dele, mas e daí? Ele não pediu para ninguém cuidar dele. Não foi escolha dele morar naquela casa. Ele nunca pediu nada nem obrigou ninguém a nada. Gilson e Salma só cuidaram dele e de outros órfãos para pagar uma promessa que Salma fizera à Nossa Senhora das Graças, para conseguir engravidar. Ela estava tendo dificuldade em engravidar, até vir o Érico. Por isso resolveram abrir um lar de adoção, que foi desativado há anos. Mas na opinião de Fabinho, de nada valia terem cuidado dele, se esconderam a verdade dele a vida inteira. A ajuda que ele queria, não deram. Ele seria eternamente grato se tivessem lhe dito a verdade desde o início, se tivessem-no ajudado a encontrar os pais. Mas não o fizeram. O que fizeram foi atrapalhar, omitir, esconder informações sobre sua origem. Por culpa daquela gentinha, ele cresceu longe da família biológica.
Na certa, as pessoas esperavam que ele fosse como o Bento e achasse tudo lindo, que a infância dele foi maravilhosa. Só que Fabinho não conseguia ver nada de bom em ter crescido órfão, longe da família, e não era otário como o Bento. Ele não tinha de aceitar as coisas ruins, as desgraças na vida dele. Ele não queria ter crescido naquele lar, não queria ter sofrido tudo o que sofreu, nem ter sido cuidado por aquelas pessoas, que agora ficam jogando as coisas na cara. Não era para ter sido assim. Ele não aceitava ter crescido órfão. Não aceitava seu passado, não aceitava sua história, quem ele foi. Era para ele ter tido uma infância comum, ter crescido na sua casa, com a sua família, com seus verdadeiros pais, e não em um orfanato. Não naquele lugar horrível, cheio de crianças que o excluíam e o chamavam de Fraldinha, zombando e rindo dele.
Para Fabinho, estava sendo ainda muito difícil de aceitar que a desgraçada da Zezé o tenha confundido com Bento. Não era possível que ele não fosse filho da Irene e do Plínio. Não era possível que tudo o que fez não serviu para nada. Nem rico ele iria ficar. Lembrou-se do que Amora disse naquela vez em que veio ao apartamento do Plínio: “Você vai ser rico, como você sempre quis, e eu vou abrir mão de tudo pra viver com o Bento na Casa Verde”. Agora, a desgraçada da Amora e o idiota do Bento iriam usufruir de tudo que ele achava que seria dele. Era óbvio que Amora faria de tudo para reatar com Bento, ainda mais agora que ele ficaria rico. Bento não era mais pobretão e ela poderia assumi-lo, apresentar para a mídia. Amora faria de tudo para reconstruir a carreira. Fabinho não suportava a ideia de Bento ficar com tudo que era para ser dele. Bento e Amora ganharam a batalha, não a guerra. Fabinho não deixaria que Bento e Amora o vencessem. Quebrou uma louça e chutou uma cadeira.
— Esse dinheiro é meu! — berrou.
Quebrou as vidraçarias, jogou outra cadeira. Atraídos pelo barulho, os seguranças entraram no quarto e agarraram-no, procurando contê-lo.
— Que isso, rapaz? Acabou a bagunça! Segura ele! — disse um dos seguranças. Os dois seguranças o seguravam pelos braços, cada um de um lado.
— Me solta! Tá maluco? — protestou Fabinho, tentando se soltar.
— Segura ele! — disse o segurança. Seguraram-no com mais firmeza.
— Tá maluco! Ai, ai, ai! — gritou Fabinho. — Você não sabe quem eu sou!
Fabinho acreditava que se fosse filho do Plínio, não seria tratado desta maneira. Foi sendo arrastado pelos seguranças. Um dos seguranças disse:
— Vambora!
— Me larga! — gritou Fabinho.
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