Um amor improvável
35 Barraco no laboratório
Fabinho acabou sendo preso novamente. Da delegacia, ligaram para Plínio, e ligaram para Margot também. Fabinho ficou horas esperando que alguém se mexesse para tirá-lo de lá, porém, até onde sabia, ninguém fez nada. O rapaz continuava perturbado. Ele não suportaria passar a noite naquela cela imunda. Não queria isso, de jeito nenhum. Porém, uma hora, o carcereiro o tirou da cela e o arrastou.
— Me solta, seu animal! Me solta! — gritava Fabinho.
— Tu tá com sorte que a moça tá aí, cara! — disse o carcereiro.
— Quem? Minha mãe? Cadê? — perguntou Fabinho.
Sabia que a mãe adotiva estava em São Paulo, pois ela deixou vários recados no celular informando onde estava e querendo notícias dele. Porém, ao entrar na sala do delegado, deu de cara com Amora.
— Não. Eu não sou a sua mãe, mas eu acho que eu sou praticamente a sua irmã, ou não sou? — disse Amora.
Fabinho não gostou nada de vê-la ali. O que aquela imbecil queria?
— Ai, Fabinho, como é que você está? Eu fiquei preocupada. — disse Amora, aproximando-se, mas recuou ao ver que ele a olhava com ódio. — Eu só vim te ajudar.
Aquela Amora boazinha, santinha do pau oco, não o enganava. Ela estava fingindo, porque o delegado estava ali. Se era a Amora que ele conhecia, com certeza veio tripudiar. Ele não queria papo com ela. Aquele não tinha sido um bom dia, e não estava com humor para aturar aquela víbora. Ele não suportava nem mesmo olhar para ela. Ela lhe despertava lembranças indesejáveis. Definitivamente, ela não o interessava mais e na primeira oportunidade, Fabinho iria acabar com ela.
— O quê que você está fazendo aqui, sua idiota? — disse Fabinho.
— Ô playboy, olha seus modos! — disse o delegado. — Você não tá na sua casa não, hein? — atendeu ao telefone. — Fala, Pereira. — saiu da sala.
— Tadinho. Cortaram as suas asinhas, foi? — provocou Amora.
Agora sim, Amora deixou cair a máscara.
— Essa é a Amora que eu conheço. Veio tripudiar, né? — perguntou Fabinho.
— Imagina! Eu vim, porque eu fiquei com pena. — disse Amora, irônica. — A vida é engraçada, né? Você estava crente que tinha um papaizinho milionário...
— Escuta aqui! — disse Fabinho, aproximando-se, furioso, surtado. Ele já era maluco, não suportava vê-la e ela resolveu botar o dedo na ferida.
— Mas quem vai entrar na maior grana é o Bento! — disse Amora. — E a gente vai usufruir de tudo que você achou que ia ser seu. Mas não fica chateado, não. Pode deixar que eu me comprometo a mandar uma cestinha básica pra você.
Ao ver Amora tocar no seu ponto fraco, Fabinho não conseguiu se controlar. Era demais para ele. Depois de tudo o que passou, ainda tinha de ouvir aquilo. Ele queria que Amora sumisse da frente dele.
— Obrigado! Obrigado! Obrigado! — disse Fabinho, apertando-lhe o pescoço.
— Ai! Socorro! — gritou Amora.
— Vou te matar, sua desgraçada! — gritou Fabinho.
— Me solta, socorro! — gritava Amora.
Atraídos pela gritaria, o delegado e o carcereiro correram para a sala.
— Segura! Segura! — disse o delegado.
O carcereiro correu em direção aos dois e separou Fabinho de Amora.
— Vou te matar! Vagabunda! — gritou Fabinho.
O carcereiro o arrastou.
— Vagabunda! — xingou Fabinho.
Amora estava satisfeita. Conseguiu o que queria, se vingar. E era só o começo. Ela estava disposta a fazer de tudo para se defender, para destruir Fabinho, acabar com ele, impedi-lo de cruzar seu caminho. Ele aprontou muito com ela, acabou com sua carreira. Agora, chegou a vez dela de dar o troco. Fabinho tinha de ficar preso, somente assim ele deixaria ela e Bento em paz. Somente assim ela ficaria livre dele. Fabinho era uma pedra no seu sapato, e ela não o deixaria atrapalhar sua vida, seus planos.
Ela estava no apartamento de Plínio quando ficou sabendo que Fabinho foi preso. Deixou Bento em casa, e foi até a delegacia provocar Fabinho. Ela sabia como ele reagiria. Ele estava surtado. Prova disso era que ameaçou jogar Odila do alto de um prédio de 21 andares, e em seguida destruiu o quarto do hotel. Odila apareceu no apartamento de Plínio, transtornada, e contou tudo o que aconteceu entre ela e Fabinho. Fabinho seria capaz de agredir uma pessoa à menor provocação. Além do mais, Fabinho era muito previsível, seria muito fácil detoná-lo. Bastava tocar no ponto fraco dele.
Agora Amora conseguiu garantir que Fabinho ficasse preso por um bom tempo. Se ela não armasse para ele, ele seria solto, responderia em liberdade, como das outras vezes. Até porque Fabinho sempre se safava. Ele contaria com a ajuda de Irene e da mãe adotiva dele para livrá-lo de encrenca. Irene e Margot iriam fazer o possível e o impossível para tirá-lo da cadeia. Plínio já deixou claro que não moveria uma palha para soltar Fabinho, ainda mais depois do que o rapaz fez com Odila. No que dependesse de Plínio, Fabinho ficaria preso pelo menos até sair o resultado do exame. Ele e Bento haviam marcado exame de DNA. Mas Irene e Margot não desistiriam. Além do mais, o crime de dano ao patrimônio não dava uma pena pesada e a chance de Fabinho responder em liberdade era enorme. Nenhum dos crimes que Fabinho cometeu até então dava penas pesadas, com exceção talvez do que ele fez com Odila, que ainda não prestou queixa, até onde Amora sabia.
Agora Fabinho responderia por tentativa de homicídio, um crime grave, e houve flagrante. Não teria como Fabinho negar, pois o delegado viu, o carcereiro também. Amora acreditava que desta vez Fabinho se ferrou de vez. Além do mais, claro que o delegado iria preferir acreditar nela, que era uma celebridade, que convive com pessoas importantes, do que no marginal do Fabinho. Seria muito difícil para Fabinho conseguir se safar dessa. Amora acreditava que a gravidade do crime seria suficiente para manter Fabinho preso. Ela achava que desta vez nenhum juiz daria liberdade provisória a ele, que tentou esganá-la na frente do delegado. Agora, Fabinho não incomodaria mais ninguém. Era carta fora do baralho.
Fabinho ficou desesperado. O que ele acabou de fazer? Não conseguiu se controlar e quase matou Amora na frente do delegado. Agora sim, estava ferrado. Antes havia a possibilidade de ele ser solto em breve. Ninguém fica preso por muito tempo por ter causado danos ao patrimônio. Ele não era réu primário, mas não havia acusações de crimes hediondos contra ele. As chances de ser solto eram enormes. Porém, agora tudo piorou com a acusação de tentativa de homicídio. Foi pego em flagrante. Fabinho acreditava que nenhum juiz concederia a liberdade provisória a ele. Ficaria preso até o dia do julgamento. Fabinho percebeu que foi uma armação de Amora. Ela sabia que ele estava perturbado, fora de si e foi provocá-lo. Ela sabia qual seria a reação dele. Fez isso para mantê-lo preso, com certeza, para se vingar ou talvez para tirá-lo de circulação. Ela devia estar aprontando alguma e na certa achou que ele atrapalharia os planos dela.
No corredor, encontrou a mãe adotiva.
— Mãe! Mãe, me solta daqui, por favor! — implorou. — Mãe, me tira daqui!
— Vambora, vambora! — dizia o carcereiro, arrastando-o.
— Mãe, mãe! — implorava Fabinho.
— Fabinho, o quê que aconteceu? — perguntou Margot, desesperada.
O carcereiro o arrastou até a cela. Fabinho ficou furioso. O pessoal que trabalha na polícia sempre o tratava como lixo. Duvidava de que o tratariam dessa maneira se ele fosse filho de pai rico.
— Tá muito louco! Você não sabe quem eu sou! — reclamou Fabinho.
O carcereiro abriu a porta da área onde ficavam as celas. Arrastou-o.
— Tá me chamando, cara? — disse o carcereiro.
— Para! — disse Fabinho.
— Vambora! Vambora! Vambora! — disse o carcereiro, arrastando-o. — Vai chorar pra sua mamãe, pô! — abriu a cela. — Aí, a tua suíte, pô!
Fabinho entrou e o carcereiro trancou a cela.
— Chorão! — disse o carcereiro, antes de ir embora.
O rapaz passou a noite na prisão. Só foi liberado no dia seguinte porque Margot pediu ajuda a Irene, que pediu a Malu para falar com o juiz, tio do Plínio. Tio Clóvis era uma pessoa difícil, mas gostava de Malu, quem sabe atenderia a um pedido dela. Até porque Plínio se recusou a ajudar quando Irene pediu, e somente um juiz com muita influência soltaria Fabinho.
Malu atendeu ao pedido de Irene, pois morria de pena dela e de Margot, apesar de não simpatizar com Fabinho. Malu duvidava da bondade de Amora, que dissera ter ido à delegacia para ajudar Fabinho. Amora jamais seria solidária com Fabinho. Ela foi cutucar onça com vara curta. Amora tinha ódio de Fabinho. Para Malu estava na cara que Amora foi à delegacia para tripudiar em cima do Fabinho, e fez ele ser acusado de tentativa de homicídio para se vingar dele. Amora se valeu do fato de Fabinho estar fora de si para armar contra ele. Malu conhecia bem Amora. Amora era mestre em manipular o ponto fraco das pessoas. E era óbvio que Amora chamou a imprensa para se fazer de coitada. No ponto de vista de Malu, Fabinho era um canalha, mas ela não quis deixar Amora armar para cima dos outros, posar de vítima e ainda se dar bem com isso. Fabinho podia não prestar, mas Malu era contra injustiças. Assim que saiu o habeas corpus, Fabinho foi solto. A mãe adotiva havia até contratado um advogado. Ao sair da delegacia, acompanhado do advogado, Fabinho encontrou os repórteres de plantão. Ele e o advogado estavam descendo as escadas, quando Sueli Pedrosa se aproximou com o microfone.
— Fabinho? Fabinho, você tá arrependido dos seus crimes? Por quê que você tentou matar a Amora? — perguntou Sueli. — Como é que você se sente, agora que o Brasil todo sabe que você é um facínora?
Agora o Brasil inteiro estava sabendo que o exame de DNA deu negativo e que Fabinho não era filho do Plínio. Bárbara fez questão de aparecer na festa que ele organizou e contou para a mídia. E era claro que a bruxa deu um jeito de limpar a própria imagem, dizendo que além de difamar ela e a filha, ele estava por trás de todos os tropeços dela. Bárbara disse que ele pagou pessoas próximas a ela para drogá-la e enlouquecê-la. A vadia da Bárbara roubou a festa e ainda o humilhou publicamente, contando inclusive todos os seus crimes para a imprensa. Ela era uma baita de uma oportunista. O país inteiro agora sabia que ele era um bandido. Até a Mel devia estar sabendo à essa altura. Afinal, ela estava na festa. Fabinho ficou envergonhado. Em vez de ser conhecido como filho do Plínio, ele ficou conhecido como o bandido que tentou dar o golpe na família Campana.
E pelo visto, a víbora da Amora já chamou a Sueli Pedrosa e se fez de vítima. Fabinho sabia que aquela conversa da Amora de deixar a vida de celebridade era da boca para fora. Agora ele tinha certeza. Amora sempre dava um jeito de continuar aparecendo. E já estava armando para se casar com Bento e botar a mão na grana do Plínio. Ela estava era de olho na grana. Ela já não era tão rica quanto antes. Perdeu todos os trabalhos e consequentemente, muito dinheiro, ao pagar as multas de rescisão dos contratos. Afinal, a imagem dela estava arruinada. Os clientes não quiseram mais associar seus produtos à imagem de Amora. No ponto de vista dos clientes, o que Amora fez foi grave. Amora havia prejudicado a reputação das marcas. Como não cumpriu determinadas cláusulas dos contratos, que diziam respeito à imagem, Amora teve de pagar multa.
Devia ter sobrado alguma quantia em dinheiro, mas com certeza, para Amora era pouco. Sempre queria mais. Mesmo porque ela tinha o costume de gastar uma verdadeira fortuna em sapatos de grife para preencher o vazio e esquecer dos problemas. Mesmo que tivesse sobrado um milhão de reais, era uma ninharia para ela. Ela queria continuar gastando dinheiro em sapatos, roupas e não se sabia mais o que, tudo o que havia de mais caro, e certamente ela iria querer comprar a mansão mais cara na área mais nobre. Ela queria levar vida de rainha. Era preciso muito dinheiro para sustentar o estilo de vida a que ela estava habituada. Plínio tinha muito dinheiro, mais do que ela jamais teve. E ela com certeza tentaria retomar a carreira. Mas Fabinho achava que Bárbara e Amora haviam ganhado apenas uma batalha, não a guerra. Ele ainda iria conseguir se levantar, e não teria pena delas.
Fabinho não respondeu nada para Sueli. Ele não devia satisfações para aqueles repórteres idiotas. Não estava nem aí para o que o país inteiro achava dele. À essa altura, ele não se importava com mais nada. Foi para o carro junto com o advogado, enquanto Sueli Pedrosa dizia:
— E é isso que os criminosos conseguem da justiça neste país: a liberdade.
O advogado levou Fabinho até seu escritório. Lá estava Margot:
— Fabinho, meu filho! Como é que você está? — perguntou Margot.
Margot aproximou-se, abraçou o filho e lhe deu um beijo no rosto.
— A situação do seu filho não é das melhores, dona Margot. — disse o advogado, sentando-se à mesa e largando a pasta. — Além das acusações anteriores, o seu filho agora recebeu uma de danos ao patrimônio e outra de tentativa de homicídio.
— Mas o senhor deve saber como ajudá-lo, não é?
— Eu sei ajudar quem quer ser ajudado, e parece que não é o caso, não é? — disse o advogado. Afinal, o rapaz não parava de aprontar, cometia um crime atrás do outro. Se ao menos ele procurasse ter um bom comportamento, isso poderia ajudar nos processos.
Fabinho ficou furioso. Era só o que faltava, o advogado lhe dar sermão.
— Você é pago pra quê? — perguntou Fabinho, irritado. — Pra dar lição de moral ou pra livrar a minha cara? Porque se é pra dar lição de moral, pode parar agora, já.
— Meu filho, não fala assim com... — disse Margot.
— Não sou seu filho, não! — disse Fabinho, interrompendo. — Você tinha que ter se mexido antes! Se eu fiquei a noite inteira naquela cadeia imunda, foi por tua culpa! Você não sabe o horror que é ficar numa cadeia!
Margot pensou que era impressionante o quanto o filho era egoísta. Sempre esperava que tudo saísse do jeito que ele queria, na hora que ele queria. Não tinha mesmo noção das coisas. Ela fez de tudo para tirá-lo da cadeia. Falou com Irene, e Irene pediu a Malu para falar com o tal juiz tio do Plínio. Agora, ela, Margot, iria vender a casa em Ribeirão Bonito para pagar o advogado. Teria que se mudar para uma casa alugada. O filho não era nem capaz de agradecer todos os seus esforços e ainda a culpava.
— E você tem ideia do horror que a minha vida virou por sua causa? — disse Margot. — As noites que eu não durmo, a minha saúde, a culpa que eu tive que assumir no teu lugar. Agora, até a minha casa eu vou ter que vender pra pagar advogado pra você!
Fabinho pensou em como a mãe era dramática. Se era para ela ficar reclamando, se ela o via como um poço de problemas, alguém que só causava dessabores, por que diabos ela o adotou? Por que não desistiu da adoção quando teve a chance? Será que ela estava pagando alguma promessa, ou era para posar de santa? Era desse jeito que ela dizia gostar dele? Assim ficava parecendo que ela o adotou para posar de mártir.
— Peça desculpas a sua mãe! — pediu o advogado.
— Não é a minha mãe. — disse Fabinho.
— Ela é a única que você tem! — disse o advogado. — Nós temos uma batalha pela frente. Ou você se comporta, ou eu caio fora! Peça desculpas pra ela, peça.
Fabinho resolveu atender ao pedido do advogado. Margot podia não ser sua mãe de verdade, mas pensando bem, sem ela, ele estaria em uma situação ainda pior, pois não tinha grana nenhuma para pagar advogado. E pelo visto ele tinha de andar na linha, pois o advogado ameaçou deixar o caso.
— Desculpa, mãe. — disse o rapaz, abraçando-a. — Desculpa.
Saindo do escritório do advogado, Margot levou Fabinho até o apartamento de Verônica. Fabinho não queria ficar lá. Sabia que Verônica não concordaria, e Maurício não iria querer vê-lo nem pintado. Mas a mãe insistiu. Margot bateu na porta, e quem atendeu foi Santa. Santa disse:
— Margot do céu, o quê que aconteceu que você não atendeu o celular?
Margot foi entrando no apartamento e arrastando o filho.
— Eu fui buscar o meu filho. — disse Margot. — Será que dá pra ele ficar aqui comigo até...
— O quê que esse canalha está fazendo nessa casa? — disse Maurício, que entrou na sala e ficou furioso ao ver Fabinho ali. — Como é que é, cara? Você vai sair ou eu vou ter que te colocar à força?
Para Maurício, Fabinho era um canalha. Ele não suportaria ficar sob o mesmo teto que Fabinho. Ele tinha um profundo desprezo por Fabinho, e na opinião dele, gente ordinária tinha mais era que se ferrar.
— Não. — disse Verônica, aproximando-se. Não queria que o filho usasse de violência. — Você não vai usar as mesmas armas que ele, não, Maurício. — ficou ao lado de Maurício. Dirigiu-se à Margot. — Dona Margot, eu sinto muito. Mas o seu filho não é bem-vindo nesta casa.
Verônica não gostava de Fabinho. Na opinião dela, Fabinho era um mau-caráter que havia prejudicado muita gente, incluindo Maurício. Fabinho difamou Maurício. Maurício estava sofrendo ainda com tanta calúnia. O país inteiro achava que Amora traiu Maurício com vários homens. Era constrangedor para ele. Verônica não gostou de ver o filho humilhado.
— Se esse canalha não sair daqui agora, mãe, eu vou enfiar... — disse Maurício, possesso.
Fabinho sabia como atingir Maurício em seu ponto mais sensível.
— O que você vai fazer? — provocou Fabinho. — Hein, bunda-mole? Nem a Amora você segurou.
Maurício partiu para cima dele, porém, Verônica o segurou:
— Não, não! Peraí! Peraí, Maurício, não! — gritou Verônica.
Margot também se colocou entre Maurício e Fabinho, para evitar que brigassem. Segurou o filho.
— Pode me largar. Olha que bonitinho, debaixo da asinha da mãe! Bundão! — Fabinho provocou.
— Para! — gritou Verônica.
Fabinho foi embora. Margot ficou morrendo de vergonha.
— Desculpa. Eu não sabia que ele ia reagir assim. Desculpa! — disse Margot, antes de ir atrás do filho.
— Ah, eu vou atrás dela. — disse Santa, indo atrás de Margot.
Santa conseguiu alcançar Margot e lhe deu algum dinheiro, para ajudar. Margot levou Fabinho até um bar, pediu uma média e um pão na chapa, e trouxe até a mesa para o filho.
— Come, vai! — disse Margot, sentando-se à mesa em frente ao rapaz. — Você está sem nada na barriga desde ontem.
Fabinho olhou para o pão com desagrado.
— Nojo isso aqui, hein! A Santa não tinha dinheiro, não?
— Tinha pouco! Você volta comigo pra Ribeirão? — perguntou Margot.
Bem que Fabinho gostaria de dar o fora, sair de São Paulo. Ele não queria mais olhar nas fuças de um monte de gente, e não tinha mais nada o que fazer em São Paulo. Mas não podia sair da cidade.
— Claro que não, né? Vou ter que responder processo aqui agora.
— Se você está pensando assim é porque está começando a criar juízo, né? — disse Margot. — Mas, eu vou ter que voltar! Pelo mesmo problema.
— Depois do que a Bárbara falou, é capaz de a justiça até reabrir o teu processo, né? — disse Fabinho.
— Fica tranquilo! — disse Margot. — Eu assumi essa culpa, eu não vou voltar atrás. E você, meu filho, onde é que você vai morar?
— Eu me viro! Eu já fiquei sempre sozinho! Não vai ser um problema isso agora. — disse Fabinho.
Margot não gostava de ouvir o filho falar desta maneira, como se fosse sozinho no mundo. Ela sempre esteve ao lado dele.
Fabinho viu que a mãe ficou triste.
— Foi mal. Você pega as minhas coisas pra mim no Plínio?
— Pode deixar! Agora come, vai! — disse Margot.
Fabinho deu uma mordida no pão. Mais tarde, ele e Margot foram até o apartamento de Plínio. Apenas Margot entrou, para falar com Irene, que arrumou todas as coisas de Fabinho e levou-as para fora. Fabinho ficou distante. Ele não queria falar com Irene, não queria nem olhá-la. Para ele, estava tudo acabado e ele voltou a ser órfão de pai e mãe.
— Está aqui, Margot. — disse Irene, entregando uma mochila.
— Obrigada, Irene! — disse Margot.
— Imagina! — disse Irene.
— Eu tenho uma coisa pra te devolver. — disse Margot, mostrando o anel que era de Fabinho. — Pra você entregar a quem de direito!
Margot achou que devia devolver o anel ao verdadeiro dono.
— Esse anel não estava com o Fabinho? — perguntou Irene.
— Estava, mas eu tomei de volta antes que ele vendesse por uns trocados. — disse Margot. Ela acreditava que o filho não dava nenhuma importância ao anel.
Irene pegou o anel da mão de Margot, que disse:
— E se você for mesmo a mãe do Bento, esse anel deveria ficar com ele!
— Obrigada, dona Margot! — disse Irene, abraçando-a. — Muito obrigada!
Fabinho, que estava de costas, sentado em banco, do outro lado da rua, levantou-se, virou-se, atravessou a rua e andou até Irene e Margot. Como estava de costas, não viu Margot entregar o anel a Irene. Assim que o rapaz se aproximou, Irene retirou um envelope de dentro de sua bolsa.
— Fabinho, eu queria que você ficasse com isso. — disse Irene, entregando-lhe o envelope. — São todas as minhas economias. Não é muito, mas é tudo que eu tenho!
O rapaz tirou o dinheiro do envelope e contou.
— Tem o quê, aqui? 500 reais? Tá bom, obrigado! Dá pra ficar dois dias em algum pulgueiro!
— Eu queria que você soubesse... — disse Irene.
Fabinho não quis nem ouvir. Não tinha a menor paciência. Irene não se importava com ele, só queria se fazer de boazinha, de caridosa, de santa na frente da Margot. Foi por isso que Irene ajudou Margot a tirá-lo da prisão, para se fazer de boazinha. Não que gostasse dele.
Na frente dos outros, Irene se fazia de santa. Só que ela não o enganava. Ela o odiava, ainda mais depois que descobriu que ele era um canalha, um bandido. Ela já não gostava dele, e passou a desprezá-lo ainda mais quando ficou sabendo de todas as suas armações, e ela não queria um filho mau-caráter. E ela não o perdoava por tê-la entregado para Sueli Pedrosa. Prova disso era que Irene não tentou se aproximar dele durante o período em que ele ficou no apartamento de Plínio e ela ficou na casa da Malu. Não de verdade. Ela apareceu uma única vez no apartamento de Plínio e não insistiu em procurá-lo, falar com ele. Estava na cara que ela não gostava da companhia dele, senão o teria procurado mais vezes.
Para Fabinho, Irene nunca conversou com ele, nem ligava para saber como ele estava. Por isso ele não ia nem visitá-la na casa da Malu. Para que visitar uma pessoa que o odiava? No ponto de vista de Fabinho, Irene nunca gostou dele, nem antes, nem depois de ele ter sido desmascarado. Agora Irene vinha com essa? Oque ela pretendia dizer, que não iria desampará-lo? Para Fabinho, era conversa fiada. Plínio pelo menos deixou bem claro que o desprezava. Já Irene se fazia de boazinha. Ele não entendia como ela ainda queria ajudá-lo, dar dinheiro, se ela achava que ele tinha tentado dar um golpe no Plínio. Culpa não podia ser. Ela não era mãe dele. Não foi ela que o abandonou. Só podia ser uma idiota, ou uma sonsa. Ele tendia a acreditar na segunda hipótese. Ela o ajudava para se fazer de boazinha. Ele queria mesmo era que Irene esquecesse que ele existia. Ele não queria saber de pessoas fingidas. Irene que ficasse bem longe dele.
— Olha, você não precisa fazer ceninha nenhuma! — disse Fabinho. — Pra mim, você e o Plínio morreram! Eu voltei a ser órfão de pai e mãe.
No ponto de vista de Fabinho, Plínio e Irene já faziam parte do passado. Não existiam mais. Não eram os pais dele. Eles podiam ser os pais do Bento. Fabinho não queria saber dos pais do Bento. Eles que fossem procurar o filhinho queridinho deles. Fabinho não queria mais qualquer proximidade com Plínio e Irene. Até porque nunca gostaram dele. Nem quando achavam que ele era filho. Plínio antipatizou com ele desde o início, nunca permitiu que ele se aproximasse, e ainda o subornou para que ele sumisse da vida de todo mundo. E foi só o exame de DNA dar negativo, para Plínio chutá-lo como se fosse um cão sarnento. Até um soco na cara dele, Plínio deu. Irene era uma sonsa. Pensando bem, era melhor não tê-los como pais mesmo. Fabinho decidiu apagá-los de sua vida. Queria era esquecer que algum dia conheceu Irene e Plínio. De qualquer forma, não importava mais. Plínio e Irene o descartaram, por que ele não os descartaria? Era por isso que ele sempre evitava se apegar a alguém. Havia sempre o risco de ser rejeitado, abandonado de novo. E ele estava cansado de lidar com rejeição e abandono. Nunca mais iria gostar de ninguém, e não deixaria que ninguém se aproximasse para não ser ferido de novo. Agora ele estava se fechando para o afeto de maneira definitiva.
Ele acreditava que seu destino era ser rejeitado. Ele foi rejeitado desde quando veio ao mundo. Ele não devia correr atrás de amor, porque não era digno. Ele devia ter aprendido a lição quando uma certa garota o rejeitou e humilhou há quinze anos atrás. Devia ter aprendido quando a mãe biológica, fosse quem ela fosse, o descartou. Amor verdadeiro não existia, ou era algo que estava reservado apenas para pessoas como Bento. Se o mundo inteiro o rejeitava, certamente era porque ele não tinha valor.
As palavras do rapaz foram como uma facada no coração de Irene. Ela não era mãe dele. Mas mesmo assim, será que ela nunca significou nada para ele? Fabinho agora descartava a ela e ao Plínio com uma facilidade! Aliás, nunca, em nenhum momento Fabinho tratou a ela e ao Plínio com afeto. Nunca se quer dirigiu a palavra a eles. Se recusava a sair com eles, até brigou com eles. Durante o breve período em que ela esteve hospedada na mansão de Malu, Fabinho não foi visitá-la. Só apareceu lá para visitar Amora. Nem ligava para saber como ela estava. Por isso ela foi visitá-lo apenas uma vez e não insistiu. Não se sentia bem perto dele, além do mais, era evidente que ele não queria saber dela, que se aproximou dela por interesse na fortuna de Plínio. Além do mais, na época, ela estava brigada com Plínio e Plínio não queria vê-la. E Irene não gostou de ver Fabinho tratar Plínio tão mal. Plínio até foi generoso, esteve disposto a adiantar a fortuna, e Fabinho não foi nem capaz de agradecer. Fabinho nem olhava na cara do Plínio, tratava-o com frieza. O rapaz parecia só conseguir sentir raiva de todo mundo. Irene não entendia a razão disso.
— Não fala assim, Fabinho! Não... — disse Margot. Será que o filho não percebia que estava magoando Irene? Precisava ser tão rude? Na opinião de Margot, Fabinho não devia dizer barbaridades para Irene.
Irene estava triste. Não entendia por que o rapaz estava sendo tão ríspido com ela, por que estava tratando-a tão mal. Fabinho podia não ser seu filho, mas nem por isso ela deixava de sentir carinho por ele. Seus sentimentos não iriam mudar da noite para o dia só por causa de um exame. Mas pelo visto, o garoto não tinha nem nunca teve nenhum sentimento por ela. Só estava mesmo interessado no dinheiro do Plínio.
— Mas é isso! — disse o rapaz. — Você trouxe a mala, você trouxe esse dinheiro. Obrigado! Agora, tchau!
— Tudo bem, eu tenho que ir mesmo. — disse Irene. — Se vocês precisarem de alguma coisa, é só me procurar.
Margot e Fabinho observaram Irene ir embora.
— Sonsa! Vai tarde já, ô sonsa! — gritou Fabinho.
Irene virou-se, e deu para ver que estava arrasada. Margot não estava gostando nada da maneira que Fabinho estava tratando Irene. Irene era uma boa pessoa, e tem sido sempre gentil com ela e com o filho. Mas Fabinho não foi capaz nem de ser grato pela ajuda que Irene estava dando. Irene deu tudo o que tinha, mas para ele não era o suficiente. O rapaz só agredia todo mundo, até mesmo as pessoas que lhe queriam bem.
— Você não aprende, meu filho! Você não aprende mesmo, não é?
Fabinho nem respondeu. Ele não estava a fim de discutir com a mãe. Ela não entendia que Irene não merecia um pingo de consideração.
— Eu vou pegar as minhas coisas na casa da Santa. — disse Margot. — Você fica com mais esse dinheiro! — retirou uma nota de 50 da carteira e entregou para ele.
— Isso aqui? — disse Fabinho, estendendo a nota. — Você acha que isso aqui dá pra alguma coisa? — enfiou a nota no bolso. — Tudo bem, já sei o que eu vou fazer também!
Ele resolveu procurar pelo anel. Já que o anel não servia para mais nada, nem para encontrar seus pais, pelo menos poderia vender. Além disso, assim não teria mais lembrança alguma de Plínio e Irene. Não que-ria mais nem lembrar que eles existiam. Dessa maneira, sofreria menos.
— Mas o quê que você está procurando? — perguntou Margot.
O rapaz abriu a mala e procurou pelo anel, porém, não estava encontrando.
— O quê que você está procurando? — insistiu Margot.
— Cadê o meu anel? — perguntou Fabinho.
— Você quer dizer o anel da Irene? — perguntou Margot.
— É!
— Eu devolvi pra ela. — disse Margot.
— Você fez o quê? — perguntou Fabinho, furioso.
— Devolvi! — disse Margot.
Fabinho não podia acreditar que a mãe fez uma coisa dessas. Margot devolveu o anel para a Irene, e ela certamente daria de presente ao Bento. Impressionante, estava perdendo tudo para aquele idiota. Primeiro perdeu os pais, a herança, agora perderá o anel, que sempre foi dele.
— Você está maluca? Você pegou uma coisa que é minha e devolveu pra ela? — gritou Fabinho, furioso.
— Uma coisa que você ia vender! É só por isso que você está bravo! — disse Margot. — Não é pelo valor afetivo!
Ao contrário do que a mãe pensava, o anel era importante para ele sim. Ganhou o anel aos dezoito anos de idade, e sempre guardou achando que o anel um dia ia ajudá-lo a encontrar sua família e ter de volta a vida que merecia, a vida que teria sido dele se não tivesse sido largado naquele “buraco”. Até pouco tempo atrás, Fabinho acreditava que era o anel de sua mãe biológica. Ele podia ter vendido o anel há anos atrás, quando a família adotiva perdeu a fortuna. Mas ele não o fez.
Para Fabinho, não importava o que a mãe pensava. Pensasse o que quisesse. Ela não tinha o direito de dar uma coisa que era dele, ainda mais sem consultá-lo. O anel não pertencia a ela.
— E daí? — esbravejou Fabinho. — Não interessa de quem é o DNA daqueles dois lá, não interessa! Isso é meu! Esse anel é meu. E não vai ficar com o Bento! Você está maluca? — acenou. — Táxi!
— Ô, meu filho! Onde é que você vai? Meu filho! — disse Margot.
— Eu vou me despedir da doce família Campana! — disse Fabinho.
O rapaz entrou no táxi e partiu, deixando Margot desesperada. Com certeza, o filho faria uma besteira. Ele estava fora de si. Ela não imaginou que o filho iria reagir desta maneira.
Fabinho foi direto para o laboratório. Ficou sabendo, pela mãe adotiva, que Bento iria fazer o exame de DNA no mesmo laboratório onde ele, Fabinho, fez o exame. Com certeza Irene e Plínio foram ao laboratório. Por isso foi até lá. Irene teria de lhe devolver o anel. Foi até a recepção.
— Tudo pronto. Podemos ir? — Fabinho ouviu Socorro perguntar.
— Primeiro, vocês vão devolver o que é meu. — disse Fabinho.
Para Bento estava na cara que Fabinho veio arrumar confusão.
— Fabinho, sai fora daqui, que eu já não tô... — disse Bento, querendo partir para cima de Fabinho, porém, Irene o segurou.
— Espera, peraí, Bento... — disse Irene.
Para Fabinho, aquele não era o Bento. Bento não existia. Era florzinha. Bento que não se metesse com ele, parasse de bancar o justiceiro, que ele não estava para brincadeira. O assunto era entre ele e Irene.
— Calma aí, calma aí, calma aí, calma aí, florzinha, calma aí! O papo ainda não chegou no bosque. — disse Fabinho, apontando para Irene. — Meu papo é com esta aqui. Me dá o anel que você pegou! — acenou para Irene. — Esta aqui é tua bolsa? Cadê o meu anel? — pegou a bolsa que estava sobre o balcão, abriu-a e chacoalhou-a, deixando as coisas caírem no chão. Nem olhou direito para as tralhas que deixou cair da bolsa. Mas não viu anel nenhum.
— Cadê o meu anel? Fala onde é que está o meu anel?
— Essa bolsa é minha! — disse Socorro, nervosíssima. Entre as coisas dela, estava o cartão com o nome do Bento.
Fabinho ia juntar as coisas que estavam espalhadas no chão, quando Amora apareceu bem na hora, gritando:
— Não! Não! Não! Não! Você não estava preso, seu monstro? O quê que você está fazendo aqui? — Amora empurrou-o, nervosíssima.
Amora tratou logo de distraí-lo. Ela empurrou as coisas da Socorro com o pé, para que Fabinho não mexesse.
Socorro aproximou-se, empurrou as coisas com o pé, depois ajoelhou-se e começou a juntá-las. Ela não podia deixar ninguém ver o cartão.
Amora veio até o laboratório, para garantir que tudo saísse como o planejado. Nada podia dar errado. Ela morria de medo de Socorro se atrapalhar mais uma vez. Não esperava que Fabinho aparecesse ali.
Do ponto de vista de Fabinho, Amora era mesmo uma dissimulada. Ela sabia que ele havia saído da prisão.
— Está louca, garota? Eu consegui o habeas corpus! — disse Fabinho.
— Como habeas corpus? Você foi pego em flagrante! — disse Amora.
Para Fabinho, estava na cara que ela armou porque queria que ele continuasse preso, tirá-lo de circulação.
— Mas e daí? O juiz deu habeas corpus. — disse Fabinho.
Enquanto Amora e Fabinho discutiam, Socorro tratou de guardar rapidamente suas coisas dentro da bolsa.
— E também, nada vai acontecer comigo, não, porque eu vou provar que você foi lá naquela delegacia pra me provocar! — disse Fabinho.
— Como assim? Eu fui pra te ajudar, seu ingrato! — disse Amora. Todos tinham de acreditar na sua bondade, por isso fazia cena.
— Mentirosa! Mentira sua! Você foi pra falar que ia casar com o Bento. E que iam viver felizes para sempre com o dinheiro que ia ser meu! — gritou Fabinho.
Para Bento, Fabinho estava inventando isso só para se safar. Não fazia o menor sentido. Amora mudou. Ela decidiu mudar de vida, deixar aquele mundo vazio das celebridades, e levar uma vida simples, longe dos holo-fotes, de toda aquela ostentação e futilidade. E ela não era interesseira. Não teria por que dar um golpe em Plínio, uma vez que ela tinha uma boa quantia em dinheiro investida. No ponto de vista de Bento, Fabinho só podia estar louco. Amora seria incapaz de ir na prisão para provocá-lo. Amora não seria louca de cutucar onça com vara curta, de colocar a própria vida em risco. Ela foi para ajudar.
— E eu ia dizer uma idiotice dessas na frente do delegado? — perguntou Amora.
— Não! Você esperou ele atender o telefone. Sua falsa! — disse Fabinho.
— Aaaaaah! — disse Amora.
— E agora sai daqui, Fábio, senão eu chamo a polícia. — disse Plínio.
— Não vou sair, porque eu quero o meu anel! — disse Fabinho, aproximando-se de Irene. — Me dá o meu anel! Me dá o meu anel!
— Calma Fabinho! — disse Amora, segurando Bento, para evitar que ele partisse para cima de Fabinho.
— Não! Não! Desculpa, mas eu não vou te dar o anel porque ele não tem nenhum valor sentimental pra você, você vai vender por... — disse Irene.
— Não interessa! Não interessa! Não interessa! Me dá o meu anel! Eu pago o que... — esbravejou Fabinho.
— Pega isso e some! — disse Plínio, entregando um cheque para Fabinho. No ponto de vista de Plínio, era óbvio que Fabinho pretendia vender o anel. Se Fabinho queria dinheiro, ele daria. Mas deixasse o anel com a Irene.
— Você está de brincadeira? Você está de brincadeira comigo? — disse Fabinho, furioso, jogando o cheque no chão sem nem olhar. — Você acha que eu quero esmola, Plínio? Pro inferno, vocês!
Ele queria o anel de volta, não o dinheiro. Para ele, o anel tinha signi-ficado, era bem mais valioso que todo dinheiro do mundo.
Fabinho saiu do laboratório. Foi direto para rodoviária, onde a mãe adotiva o esperava. Havia deixado suas coisas com a mãe e foi buscar.
— Meu filho, ainda bem! Achei que você não vinha mais! — disse Margot.
— Eu só vim pegar as minhas coisas. — disse Fabinho, pendurando a mochila nas costas e pegando a mala.
Fabinho não queria olhar na cara da mãe. Sabia que Margot cedo ou tarde iria se voltar contra ele. No ponto de vista dele, Margot nunca o amou. Não de verdade. É claro que ela iria defender os interesses do Bento. Ela gostava do Bento, não dele. Bento havia sido a primeira opção dela. Ele podia apostar que a mãe olhava para ele e se lamentava todos os dias por não ter adotado Bento. Ela só não adotou Bento porque ele não queria ser adotado. E Margot também, pelo visto, ficou amiguinha da Irene, se aliou a Plínio. Fabinho estava revoltado com a mãe adotiva, não queria vê-la nem pintada de ouro. Não era a primeira vez que ela o traía. Ela já o traiu quando se juntou com Maurício e Amora para desmoralizá-lo.
— A Irene me ligou. Eu soube que você foi atrás dela...
Margot ficou sabendo que o filho causou a maior confusão no labo-ratório. Fabinho não tomava jeito mesmo. Não tinha um pingo de juízo.
— E ela te falou também que não devolveu o meu anel? — disse Fabinho. — Eu nunca vou te perdoar por ter dado uma coisa minha! Nunca!
Margot acreditava ter feito a coisa certa ao devolver o anel ao verda-deiro dono. Fabinho não podia ficar com o que não pertencia a ele.
— Eu não dei, eu devolvi pro dono. — disse Margot. — E você não tem o direito de falar assim comigo! Eu estou vendendo a minha casa pra pagar teu advogado!
Margot achava que merecia alguma consideração. Mas pelo visto, o filho não levava em conta nada do que ela fazia. O fato de ela estar ven-dendo a casa, que era o maior bem que ela possuía, para pagar o advo-gado, de nada valia para Fabinho. Não significava nada para ele. Margot ficou magoada.
Fabinho estava furiosíssimo. A mãe dava uma coisa que era dele, e queria que ele reagisse como? Enchendo-a de beijos? Nem pensar! E ainda jogava na cara dele que estava vendendo a casa para pagar advogado. Ele não pediu para ela vender a casa. Se era para a mãe ficar jogando isso na cara dele, era melhor mesmo mofar na cadeia. Além do mais, ela não estava fazendo isso por gostar dele, e sim porque achava que devia. Ela não estava nem aí para ele. Ela queria era bancar a boazinha, a santa. Ela morria de vergonha de dizer para as amigas que o filhinho estava preso. Nunca que Margot iria amar sinceramente um filho que a botou na cadeia. Era tudo fingimento. Só que ela podia enganar os trouxas, não a ele.
— Eu não estou nem aí, você faz o que você quiser. Pra ficar livre de você, até prisão está valendo! — disse Fabinho, antes de ir embora.
— Filho, espera! Onde é que você vai ficar? Filho... — disse Margot.
O rapaz não deu ouvidos. Não era da conta dela onde ele iria ficar. Ela não era mais a mãe dele. Aliás, nunca foi.
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