Um amor improvável
36 Cachorro vira-lata
A primeira coisa que Fabinho resolveu fazer foi ir atrás da Mel na Class Mídia. Quem sabe ela o ajudaria. Afinal, tiveram bons momentos juntos. Fabinho sabia que ela devia estar furiosa por ter sido enganada. Mas ainda assim, Fabinho achava que conseguiria convencê-la a ajudá-lo. Mel era fácil de se manipular. Era só ele se fazer de coitado, assim ela teria pena e o ajudaria. Contudo, Mel o recebeu com quatro pedras na mão:
— Você?! O que você tá fazendo aqui, seu filho da...
— Mel, a gente tá junto, não tá? Eu preciso da sua ajuda. — disse Fabinho.
Mel riu, irônica.
— Mas é muita cara de pau, mesmo, né? Você tem noção? Passa pela sua cabeça o que eu tô passando por sua causa? — disse Mel.
Ela achava que iria se casar com o herdeiro do Plínio Campana, um dos melhores partidos da cidade. Gabava-se de ser a eleita do filho de um cineasta famoso. Contou para a mídia que Fabinho era noivo dela. Mas ficou sabendo que Fabinho não era filho do Plínio, e ela acabou ficando conhecida na mídia como a garota que foi iludida por um golpista, um estelionatário. Mel passou a maior vergonha e ainda teve de arcar com todos os custos da festa. Ela não queria ver Fabinho nem pintado de ouro. Fabinho que se virasse, porque ela é que não se uniria a um zé ninguém.
— Sim, e eu tudo o que eu passei? Mel, eu achei que estava com a mão na minha herança e aos 46 do segundo tempo, eu me estrepei. — disse Fabinho. — Eu tô muito mal, Mel. Eu preciso de você.
— Ai, de mim? Ou do dinheiro do meu pai? — disse Mel, irônica.
— Eu tô sem lugar pra ficar, mesmo. — disse Fabinho.
— Ah...
— É. E eu só tenho você, agora. — disse Fabinho. — Mostra que você é do bem e que você me ama de verdade. — acariciou o rosto dela. — Me ajuda?
Fabinho pediu para Mel pagar seu hotel. Afinal, ele não tinha dinheiro suficiente para pagar um hotel minimamente decente, por um período prolongado. O pouco dinheiro que tinha só daria para se hospedar por alguns dias em um muquifo. De qualquer maneira, o que ele tinha não dava para quase nada e nem iria durar muito.
— Eu, pagar seu hotel? Não, você tá de saca... — disse Mel, rindo, nervosa. — Não, não é possível! Você tem noção que eu acabei de morrer em 15 mil reais por causa da sua festinha?
— Tudo bem, Mel, mas não precisa ser hotel de luxo, não. E fala com seu pai, você leva ele no papo fácil. — disse Fabinho. — Mel, por favor! A gente tá junto ou não tá?
— Claro que não! — disse Mel, furiosa. — Você ferra com a minha vida e agora você quer que eu te banque, é isso?
— Não, eu só quero que você me ajude. Eu preciso de uma força pra me levantar. — disse Fabinho, colocando as mãos no rosto dela.
— Acho ótimo! Super apoio! — disse Mel, irônica. — Faz assim, então: quando você receber outra herança, ou for adotado por outro fazendeiro desses trilionários e tal, você me liga. A gente volta a conversar, tá?
— Então, você não gostava de mim? Você estava interessada no meu dinheiro? — perguntou Fabinho.
Não que Fabinho morresse de amores pela Mel, mas também não gostou nada de saber que a garota estava com ele apenas por interesse. Além do mais, doía ser chutado mais uma vez, e no momento em que mais precisava de ajuda. Era duro saber que ela não se importava com ele, nem um pouco. Quando ele era filho do Plínio, ela o tratava bem, o bajulava. Agora que ela descobriu que ele era pobre, passou a tratá-lo como lixo.
— Que dinheiro? Você nunca teve nada. Pé-rapado! — disse Mel. — Pé-rapado e mentiroso. Mentiroso, porque mentiu dizendo que seus pais adotivos eram ricos...
— Se eu falasse que era pobre, você ia ficar comigo? — perguntou Fabinho, agarrando-a pelos braços.
— Me solta, senão eu berro! — disse Mel.
— Patricinha imbecil! — xingou Fabinho.
— Bandidinho burro! — xingou Mel, empurrando-o. — E otário, né? Muito otário, pra querer esganar a Amora na frente do delegado, né, amor?
Fabinho perdeu as estribeiras e pegou no pescoço dela, sem apertar.
— O que é? Vai me beijar ou vai me enforcar? — disse Mel.
— Não, não vou fazer nenhum dos dois. — disse Fabinho. — Porque eu não vou gastar o meu suor com pouca coisa. Porque a Amora, pelo menos, é um troféu de Fórmula 1. — soltou-a. — Você é brinde, sabe, de tiro ao alvo, de parquinho de diversão. — fez um gesto, representando um brinde.
— Então, tá perdendo seu tempo comigo por quê? — disse Mel, e riu. — Ah! Esqueci! Você não é aquele que estava em promoção, só que, aí, perdeu a validade, tal...
— Não, não, eu sou o que vai ficar rico, e vai... — disse Fabinho.
— No dia que você ficar rico, eu crio asas! — interrompeu Mel. — Eu saio voando por aí! Vou sair voando em cima de você! Agora, desencosta, que pobreza pega.
Mel se afastou.
— Burrice também, sua gorda! Burra! — xingou Fabinho.
Mel não era gorda. Muito pelo contrário. Mesmo assim, ele a xingou de gorda, pois sabia que não podia haver insulto pior para uma mulher. Ainda mais se tratando de uma patricinha fútil e mimada.
Fabinho não sabia mais o que fazer. Saiu da Class Mídia e foi andando pelas ruas, carregando as malas. Ele precisava arranjar um lugar para ficar. Mas primeiro iria parar para comer. Foi a uma lanchonete. A televisão esta-va ligada, e Amora estava dando uma entrevista.
— Vocês não vão me perguntar isso, né? Como que eu assimilo as tendências, sendo uma it-girl. Eu acho que tem um pouco das duas coisas, né? Da minha própria personalidade...
Depois de comer, Fabinho resolveu dar um jeito de fazer Amora confessar que armou para ele na delegacia. Ele precisava provar que não teve intenção de tentar matar Amora, jamais faria isso na frente do delegado. Não planejou, não premeditou nada. Apenas reagiu à provocação. Foi uma atitude impulsiva, impensada. Ele não era nenhum idiota. Fez isso porque estava surtado, fora de si e Amora foi na delegacia provocá-lo. Amora sabia que ele era maluco e sabia exatamente como ele reagiria. Ela usou o velho truque de usar seu ponto fraco para manipulá-lo.
Ele faria Amora confessar e gravaria tudo. Daria um jeito de entrar na casa dela. Tinha conhecimento das táticas para invadir uma propriedade. Conhecia bem a casa, sabia da rotina de Amora e dos demais que moravam na mansão. Seria fácil entrar na casa. Havia muitas árvores no local, por onde ele podia subir e, além do mais, sabia que a casa não tinha muita segurança. Nem cachorros havia. Iria se aproveitar de um descuido, de um momento de distração dos moradores. Sabia como passar despercebido. Havia uma árvore alta que dava direto para a varanda do quarto de Amora. Entraria pela porta dos fundos do quarto de Amora, que dava para a varanda. A porta estaria destrancada. Ele entraria com cuidado, e esperaria por ela. Resolveu comprar um gravador, e foi até um vendedor ambulante.
— Fala, meu camarada! — disse o vendedor.
— Você tem gravador digital? — perguntou Fabinho.
— Pô, chegou no lugar certo, parceiro. — disse o vendedor, entregando um gravador. — É esse?
Era um gravador pequeno, que dava para enfiar no bolso da calça.
— Perfeito. Eu vou levar. — disse Fabinho.
Quando Amora chegou, horas depois, encontrou Fabinho no quarto dela, deitado na cama. Ela surpreendeu-se. O que ele veio fazer ali?
— Oi, Amorinha. Eu vim retribuir a sua visitinha e te dar parabéns. — disse Fabinho, batendo palmas. — Muito bom, cocotinha. Conseguiu.
— Fabinho, eu não sei o que você tá fazendo no meu quarto. — disse Amora. — Mas some daqui antes que eu chame a polícia.
— Arrebentou, né, Amora? Você percebeu que eu devia estar na maior pressão e foi na delegacia me provocar. Genial! — disse Fabinho, sentando-se na cama. — Mas vem cá, você não acha que tanta vontade assim de me prejudicar, não pode ser amor?
— Só nos seus sonhos. — disse Amora. — Fabinho, você é tão burro e previsível, que foi muito fácil de te detonar. Difícil foi conter a minha alegria de ver você se ferrando. Mas eu acho que valeu o esforço.
Fabinho riu.
— Bom, agora que você já me ferrou e que todo mundo deu as costas pra mim, você deve estar satisfeita, né? — disse o rapaz.
— Satisfeita ficaria se você estivesse mofando numa cela superlotada. Mas, fica tranquilo, você ainda vai chegar lá. — disse Amora.
Ela queria Fabinho bem longe dela e do Bento. Amora queria que Fabinho sumisse, por bem ou por mal, e não era apenas porque não suportava olhar para ele. Não era apenas por ele ser uma pessoa do passado dela, que a fazia lembrar da infância descalça. Ela faria de tudo para ele se arrepender de ter nascido. No ponto de vista dela, ele mexeu com a pessoa errada e ela estava disposta a usar de todas as armas que conhecia para se defender. Amora nunca simpatizou com Fabinho, porque ele perseguia Bento desde criança, agredia-o. Fabinho não fazia outra coisa que não azucrinar ela e o Bento. Desde a infância, Fabinho tentava separá-los, porque morria de inveja do amor deles. Com o tempo a antipatia que ela sentia se transformou em um desprezo profundo por Fabinho, ainda mais depois de tudo o que ele aprontou para prejudicá-la. Fabinho não descansou até conseguir destruir a imagem dela. Ela não o deixaria atrapalhar sua vida. Fabinho que não se metesse com ela novamente.
Fabinho não conseguia entender qual o interesse de Amora em mantê-lo preso. Por que ela queria tanto tirá-lo de circulação? Por que tanta vontade de destruí-lo? Ele a caluniou, a fez perder trabalhos e dinheiro, mas ela já não se vingou? Ainda não se deu por satisfeita? Ele não estava mais em condições de fazer nada contra ela. Até porque ele estava na pior, não tinha nem dinheiro, e todos haviam virado as costas para ele.
— Você sabe que eu prefiro essa versão da Amora? — disse Fabinho, levantando-se. — É mais de verdade. Aquela Madre Teresa, eu não gosto, não.
— Não? — perguntou Amora.
— Não. — disse Fabinho. — Vem cá, algum idiota acreditou que você foi na delegacia pra me ajudar?
O delegado acreditou em Amora, porque ela se fez de vítima, disse que tinha vindo para ajudar e que Fabinho a atacou do nada. Ela também se fez de boazinha, até defendeu Fabinho, dizendo que ele não havia tido a intenção de agredi-la, que estava fora de si e que precisava de tratamento psiquiátrico urgente. Mesmo assim, o delegado não soltou Fabinho. O homem ficou chocado como que viu, disse que nunca tinha visto nada parecido em doze anos de profissão. Somente a Margot não caiu na conversa dela, até mandou ela ficar longe de Fabinho.
Mas Amora ficou ofendida por causa do Bento. Bento acreditou nela. Ele acreditou porque a amava, e porque era pessoa de boa-fé, bondoso, gentil. Ele tinha fé na humanidade. Bento não via maldade nenhuma nela. Pelo contrário, só via o melhor lado dela. Bento a amava pelo o que ela era, e não por ser rica e famosa. Na opinião de Amora, o canalha do Fabinho devia lavar a boca antes de chamar Bento de idiota. Bento era a melhor pessoa que ela conhecia. Ele era seu grande amor, seu porto seguro, e ela se sentia uma pessoa melhor perto dele. Perto dele, ela podia deixar de ser um personagem midiático para ser ela mesma. Ele foi a primeira figura masculina a cuidar dela, protegê-la. Por isso ela fez tudo o que fez, para mantê-lo ao seu lado. Ela não suportaria perdê-lo. Na visão dela, Fabinho nunca chegaria aos pés de Bento.
— O único idiota aqui é você. — disse Amora. — Todo se achando, fazendo essa pose aí, mas precisando de ajuda da mamãezinha pra se livrar de encrenca, né?
— Ah, porque você, no meu lugar, faria o quê? — perguntou Fabinho.
— Ué, como todo órfão, você tem o álibi perfeito pra ser sempre compreendido e perdoado. Uma infância difícil. Se você fosse esperto, você ia usar isso ao invés de agressividade, ao invés de arrogância. — disse Amora. — Mas, agora você está aí, né? Que nem um cachorro vira-lata, tadinho. Chutado por todo mundo.
Fazia tempo que Fabinho sacou que o negócio da Amora era fazer drama, fazer o papel de uma garota meiga, sofredora e traumatizada que viveu boa parte da infância na rua. Era assim que ela enganava os otários, especialmente o Bento e o Maurício, que caíam aos pés dela. Claro, o sofrimento dela era verdadeiro, porque ela realmente foi abandonada ao relento pela irmã mais velha. Mas ela se valia disso para manipular as pessoas, fazê-las ficar com dó. Ela aprontava e sempre usava como desculpa o fato de ter vivido na rua. Ela sabia que as pessoas em geral a viam como vítima das circunstâncias, como vítima do mundo da fama e da influência nefasta de Bárbara Ellen, e se valia disso. Já ele, era agressivo, descontava a raiva em todo mundo. Esta era a diferença entre eles. Ele até tentou comover as pessoas em alguns momentos com seu drama de ter crescido órfão, mas não colou. Ele era sempre o invejoso, o marginal e a Amora a menina doce do lar de adoção que se corrompeu pelo mundo midiático.
— É. Entendi. — disse Fabinho, rindo. — Então, o seu negócio é manipular as pessoas e se fazer de coitadinha?
— Eu aprendi a lição cedo. — disse Amora. — Mas, pra você, já não vai mais dar. Não. Porque pobre, quando pisa fora da linha, sempre se ferra. E você já era, Fabinho. É uma pena. Mas, quem deu o último empurrãozinho pra você cair no abismo, fui eu, com muito orgulho.
Fabinho deixou Amora se estender mais sobre o assunto. Depois achou que havia gravado mais do que o suficiente.
— Bom, então, você venceu, né? — disse Fabinho. — É isso. É difícil de admitir, mas é isso. Parabéns!
— Eu sempre venço. — disse Amora. — Mas você ainda não disse o que você está fazendo aqui.
— É que eu estou duro e eu estou precisando de um dinheiro. — disse Fabinho. — Será que você pode me ajudar? Eu sei que remorso não é a sua praia, mas...
— Claro. — disse Amora, colocando a mão no ombro dele. — Eu te ajudo. Peraí. — foi pegar a carteira. Ela logo imaginou que Fabinho devia estar usando um gravador. Só podia ser este o motivo para ele ter vindo ali. Ele queria fazê-la confessar a armação e se livrar do processo.
— Sério? — disse Fabinho, surpreso.
— Ué, claro. — disse Amora, de costas para ele, abrindo a carteira. — Confesso que agora até eu... Amora!
Amora tirou várias notas da carteira.
— Isso tá bom? — perguntou a garota, virando-se e mostrando o dinheiro.
— Tá ótimo. — disse Fabinho.
Amora deu uma joelhada nas partes íntimas dele. Fabinho gritou e caiu no chão.
— Tá bom assim, imbecil? Seu imbecil! Cadê? — perguntou Amora, procurando, e retirou o gravador do bolso da calça dele. — Ah, queridinho, o que é isso?
A garota ligou o gravador e ouviu sua voz: “Ah, como todo órfão, você tem o álibi perfeito pra ser sempre compreendido e perdoado. Uma infância difícil.”
— Tsc, tsc. Vai, Amora! Confessa tudo que você fez! Idiota! — disse Amora. — Só faltou você pedir pra eu falar mais perto do gravador.
— Cala a boca! — disse Fabinho, caído no chão.
Amora deu um chute nele, e ele gemeu.
— Nem um motivo decente pra vir até aqui, você conseguiu inventar, né, seu mixo? — disse Amora. — Você é muito baixo! Você é muito ruim nesse jogo, sabia?
— Me devolve! Me devolve o gravador! — disse Fabinho, partindo para cima dela, tentando tomar o gravador.
— Não devolvo! — disse Amora.
— Me devolve o gravador! — disse Fabinho.
Atraído pela confusão, Serjão, ou a Mulher Pau de Jacu, um travesti, entrou no quarto. Ele estava no corredor quando ouviu a discussão. Fazia pouco tempo que estava trabalhando para Bárbara. Era um dos ex-maridos de Bárbara.
— O quê que está acontecendo aqui, hein? — perguntou Serjão.
Fabinho continuava tentando tomar o gravador de Amora, e os dois se engalfinhavam em cima da cama dela.
— Me solta! Serjão, me ajuda! — gritou Amora.
— Vem cá! — disse Serjão, puxando Fabinho pela jaqueta e empurrando-o, fazendo-o cair no chão.
— Quebra esse gravador pra mim, por favor! — pediu Amora, jogando o gravador no chão.
— Não, não, não! — disse Fabinho.
Serjão pisou no gravador, esmagando-o.
— Agora, chama a polícia, diz que esse cara invadiu o meu quarto. — disse Amora. — Isso.
— Perdeu, playboy! Vem cá! Vem cá! — disse Serjão, agarrando Fabinho e levantando-o do chão.
— Vou acabar com você! — disse Fabinho, apontando para Amora, e Serjão começou a arrastá-lo.
Amora disse:
— É? Entra na fila, quando eu for distribuir o seu pão dos pobres, tá?
— Que tal a gente dar um furo de reportagem pra Mônica, hein? Ela vai adorar. Vambora! — disse Serjão, referindo-se à repórter da revista Vida em Família. Bárbara estava dando mais uma entrevista.
Serjão foi arrastando-o, e Fabinho gritou:
— Vou acabar com você, Amora!
Fabinho foi arrastado por Serjão pelo corredor, e passaram pelo quarto de Bárbara, que estava com a porta trancada. Serjão parou.
— Peraí. Tá precisando de alguma coisa, Bárbara? — perguntou Serjão.
Bárbara estava resolvendo um assunto com Tina e Bolívar.
— Não! — gritou Bárbara.
Fabinho conseguiu se soltar, tirando a mão de Serjão da sua nuca, soltando o braço que Serjão segurava e saiu correndo.
— Ah, vem cá! — gritou Serjão, correndo atrás dele.
Na sala estavam os outros filhos adotivos da Bárbara, a jornalista e o fotógrafo. Luz, Kevin e Dorothy surpreenderam-se ao verem Fabinho descer correndo as escadas, como um foguete, e em seguida Serjão descer as escadas com cuidado, pois estava usando salto.
— Gente, o que tá acontecendo lá em cima? — perguntou Luz.
Fabinho corria para a porta, enquanto Serjão gritava, atrás dele:
— Pega ladrão! Pega ladrão!
Chegando nos últimos degraus, Serjão desequilibrou-se e caiu sentado. Luz, Kevin e Dorothy foram ajudá-lo.
— Você tá bem? — perguntou Luz.
— Ai, merci. Merci. — disse Serjão, enquanto o ajudavam a se levantar. — Mas vocês não podiam ter deixado o Fabinho fugir!
Fabinho conseguiu escapar. Estava chateado, pois o plano não deu certo. E ele tinha certeza de que Amora iria se fazer de vítima, dizer para
todo mundo, principalmente para a jornalista que estava na casa da Bárbara, que ele havia tentado matá-la.
Fabinho passou a noite na rua. Acabou o que restou do dinheiro, que já não era muito. Por isso, de manhã, ele resolveu pedir ajuda a Gilson e Salma. Ele sabia que havia aprontado com o pessoal da Casa Verde. Ele brigou com todo mundo e ameaçou jogar Odila de um prédio de 21 andares. Mas ainda assim Fabinho achava que Gilson e Salma não teriam coragem de deixá-lo na rua, pois gostavam de fazer caridade, bancar os bons samaritanos. Se tinham realmente bom coração, não o deixariam à míngua. Esta era a chance de eles provarem que são bondosos. Ele ainda se sentia mal naquele lugar. Não suportava olhar para aquelas pessoas e preferia não ter de ir lá pedir ajuda para Salma e Gilson. Mas não havia saída. Ele não tinha para onde ir.
— Eu entendi direito? — perguntou Gilson, quando o rapaz chegou à sua casa e pediu para que o abrigassem. — Você está pedindo pra ficar aqui?
— Eu não tenho pra onde ir. — disse Fabinho. — E eu também não tenho dinheiro pra comer. Aí, eu lembrei dessa casa, que eu vivi tanto tempo, onde eu fui criado.
Como Gilson e Salma o acusavam de ingratidão, Fabinho disse exatamente o que acreditava que eles gostariam de ouvir, assim eles o deixariam ficar. Salma e Gilson julgavam ter feito um bem ao dar a ele teto, comida e educação, e Fabinho tinha certeza de que iriam adorar ouvi-lo dizer que estava arrependido e que reconhecia tudo o que fizeram por ele.
Salma achou impressionante. Quando interessava, Fabinho lembrava que aquela era a casa onde ele foi criado. O rapaz não se lembrou disso quando ameaçou comprar a rua e destruir tudo, demolir tudo. Fabinho ainda tinha a cara de pau de aparecer ali depois de tudo o que aprontou.
— E que você queria derrubar pra construir um prédio. — disse Salma.
Ela estava magoada com a ingratidão de Fabinho. Ela e Gilson haviam criado Fabinho desde recém-nascido até ele ser adotado, e era assim que Fabinho retribuía, com desprezo e arrogância, ameaçando expulsá-los dali, deixá-los debaixo da ponte. Salma não entendia como Fabinho podia ter tanto ódio, como ele podia renegar o passado, esquecer de onde veio, desmerecer tudo o que ela, Gilson e toda a vizinhança fizeram por ele. Ela não conseguia compreender como alguém podia não ter gratidão por ter sido bem cuidado. Se Fabinho estava vivo, era graças aos cuidados dela e de Gilson. Para ela, era uma pena Fabinho não seguir o exemplo do Bento, que retribuiu tudo o que fizeram por ele com amor e carinho.
— Tia Salma, pode deixar que a vida está me ensinando a lição direitinho. — disse Fabinho. — Eu posso sentar?
— Senta. — disse Gilson.
— Eu só preciso ficar aqui um tempo... — disse Fabinho, sentando-se no sofá. — Pra decidir o que fazer da minha vida. Eu não tenho mais ninguém a quem pedir ajuda, só vocês.
Gilson olhou para Salma, que abanou a cabeça. Há pouco tempo, descobriram que o filho do Wilson, irmão de Gilson, com a falecida Lívia, namorada de Wilson na juventude, sobreviveu. Ao contrário do que pensavam, o filho do Wilson não havia morrido ao nascer e havia sido entregue nas mãos do Silvério pela avó materna da criança, Glória. Se o bebê que foi entregue nas mãos do Silvério na rodoviária não era o Bento, só podia ser o Fabinho. Fabinho era filho do Wilson. Mas Salma não achava conveniente contar ao garoto quem eram os pais dele. Se Fabinho soubesse que era filho do Wilson Rabelo, dono do Kim Park, iria aprontar. Wilson podia não ser tão rico quanto Plínio, mas se tratando de Fabinho, dinheiro era dinheiro. Gilson e Salma ficaram chocados com as insanidades que Fabinho fez quando achava que herdaria parte da fortuna de Plínio. Claro que estavam preocupados pelo fato de Fabinho ter namorado a Mel, filha do Wilson. Mel e Fabinho eram irmãos, namoraram sem saber disso e certamente foram para a cama. Até porque Mel não era menina recatada. Mas o mal já estava feito e Fabinho nem estava mais com a Mel. Gilson achava que o irmão não daria um tostão para Fabinho, mas Salma achava que ainda assim Fabinho aprontaria loucuras, não descansaria enquanto não conseguisse arrancar dinheiro de Wilson. Salma não queria contar nada para o garoto, a menos que fosse caso de vida ou morte. No ponto de vista dela, o rapaz tinha o direito de saber sua origem, mas não tinha o direito de usar a informação contra o mundo.
Porém, Gilson também estava preocupado com o irmão. Ele achava que, por mais que Fabinho fosse um mau-caráter, Wilson tinha o direito de saber que o filho dele com a Lívia estava vivo. Ao mesmo tempo, não sabia como contar a Wilson que o filho dele não prestava, ou que o garoto namorou a própria irmã. Gilson queria poupar Wilson de mais sofrimento, de mais dessabores. Fabinho só traria problemas para Wilson, e para todo mundo. Wilson já tinha o canalha do Tito como filho, além da Mel, que não passava de uma patricinha fútil, deslumbrada, leviana e sem escrúpulos, que fazia de tudo para se tornar uma celebridade, a qualquer preço. Entre os filhos de Wilson, só se salvava o Vinny, que era um garoto doce, gentil, bom caráter. Wilson não merecia o desgosto de ter um filho como Fabinho. Salma achava que ele devia pensar bem antes de tomar qualquer atitude. Afinal, não seria bom se Fabinho ficasse rico. Ele prejudicaria a todos.
Gilson disse para Fabinho:
— E se eu te dissesse que eu sei quem são os seus pais?
Fabinho ficou animado. Sempre quis saber quem eram seus pais. Para Fabinho, seria melhor ainda se os pais fossem ricos. Assim, teriam como bancá-lo e ele não teria que correr atrás de trabalho. Ele poderia voltar a ter vida boa. Ele não seria mais um zé ninguém. Seria um herdeiro rico, teria respeito e admiração. Fabinho levantou-se do sofá.
— Como assim? Quem são meus pais? Eles têm dinheiro? Eles são ricos? Fala. — disse Fabinho, animado.
— Por quê? Faria diferença se eles fossem pobres? — perguntou Gilson.
Para Fabinho, era pergunta besta. Claro que para ele faria diferença. Ele procuraria os pais de qualquer maneira, ricos ou pobres, porque para ele era importante ter identidade, saber quem era e de onde vinha. Mas para ele seria melhor que os pais fossem ricos. Assim, ele não teria que batalhar para ganhar dinheiro. Além do mais, Fabinho sentia que os pais dele eram especiais. Não seriam pessoas comuns.
— Claro que faria diferença! Ué, é óbvio! — disse Fabinho. — Mas eles não são pobres, eu tenho certeza! Eu sinto que meu pai deve ser um cara montado na grana!
— Montado em coisa nenhuma. — disse Salma. — O Gilson só queria saber se seu negócio é encontrar os seus pais ou ficar rico. — olhou para Gilson. — E acho que você já tem a resposta.
Na verdade, eram as duas coisas: Fabinho queria encontrar os pais e ficar rico. E é claro que ele queria dinheiro fácil, sem precisar batalhar. Porém, Gilson e Salma achavam que Fabinho queria apenas dinheiro e poder. Ele parecia mais interessado em ser herdeiro rico do que em encontrar uma família.
Gilson decidiu não contar nada para Fabinho, nem para Wilson. Era melhor não mexer nesta história, pelo menos por enquanto. Claro que Gilson sabia que ele e Salma não podiam esconder de Wilson para sempre. Algum dia Wilson teria de saber que o filho dele e da Lívia sobreviveu. Mas Gilson e Salma achavam que ainda não era a hora de contar. Pelo visto, haveria ainda um longo caminho pela frente, até se sentirem seguros para contar tudo para Wilson.
— Não entendi. Não entendi. — disse Fabinho, furioso. — Não basta o que eu passei na rua, vocês tão querendo tirar onda comigo? O quê que é?
— Mas parece que você não aprendeu nada, né, Fabinho? — disse Salma.
No ponto de vista de Salma, Fabinho não tinha jeito mesmo. Não tinha mais salvação. Durante anos ela alimentou a esperança de que ele mudasse, até porque ela acreditava na bondade intrínseca das pessoas, mas estava cada vez mais difícil de acreditar que Fabinho iria tomar jeito. Ele vivia aprontando, não se emendava. Na opinião dela, Fabinho era uma das pessoas mais difíceis que já haviam passado pelo lar. Ele era indiferente, desiludido, revoltado com a vida, ressentido, cínico, insolente, debochado, agressivo, invejoso. Fabinho não aceitava a vida que tinha e não reconhecia nada do que fizeram por ele.
Desde a época em que morava no lar, Fabinho era um revoltado por ter sido abandonado por uma família rica (a mãe havia deixado um anel caro com ele, então a conclusão óbvia era que a família tinha dinheiro). Fabinho não olhava para o que tinha, e vivia frustrado, não aceitava a orfandade, viver na pobreza, por acreditar que seu destino era ser rico. Ele vivia em um lar acolhedor, amoroso, com pessoas que cuidavam bem dele, mas isso não importava para ele. Enquanto Bento não ligava se a família biológica tinha dinheiro ou não, e considerava ela e Gilson como seus verdadeiros pais. Bento aceitava a realidade, Fabinho nunca aceitou. Vivia sonhando com o dia em que a mãe biológica o buscaria, ou com o dia em que seria adotado por uma família rica. Não que o sonho de encontrar a família biológica ou ser adotado fosse um problema em si. O problema era Fabinho não valorizar o que tinha e só olhar para o que faltava. Fabinho foi adotado, foi criado com amor e carinho e não soube dar valor. Na opinião de Salma, não era para Fabinho ficar alimentando revolta e amargura, porque a vida havia dado todas as chances para ele. Era para ele ter sido grato por ter sido bem cuidado no lar, por ter sido adotado, por ter uma mãe maravilhosa, mas ele só sabia desprezar a mãe por ter ficado pobre.
Desde criança, Fabinho era problemático. Por mais que ela e Gilson fizessem, de nada adiantava. Nem conselhos, nem broncas, nem nada. Ela e Gilson tentaram ensinar ao garoto bons princípios e valores, estabelecer limites, mas tudo o que tentavam ensinar entrava por um ouvido e saía pelo outro. Fabinho nunca os escutava, não os obedecia. Era um garoto difícil. Parecia se ressentir de algo que eles fizeram, ou deixaram de fazer. Ela e Gilson tentaram dar carinho a ele, mas Fabinho se fechava e os olhava com desconfiança, parecia ter medo de confiar, de se entregar.
Na opinião de Salma, ela e Gilson fizeram tudo o que podiam por Fabinho, cuidaram bem dele, ofereceram teto, comida, educação. Se ela e Gilson erraram, foi tentando acertar. Não foi por maldade. A intenção deles foi acolher todas as crianças que foram trazidas ao lar. Porém, Fabinho se comportava como se o mundo inteiro devesse alguma coisa para ele. O garoto aprontava e de nada adiantava chamar a atenção dele. Fabinho reclamava que eles só sabiam criticá-lo. Vivia dizendo que ela e Gilson não mandavam nele, que não eram os pais dele, que fossem mandar no Érico, que era o verdadeiro filho deles. O garoto também dizia para ela e Gilson não encherem o saco dele e tomarem conta do Bento, que era o favorito deles. Fabinho nunca foi carinhoso com ela, nem com Gilson. Ao contrário, ele era distante, fechado. Definitivamente, no ponto de vista de Salma, Fabinho não tinha o carisma e a afetividade do Bento. Bento sempre foi um encanto, uma joia de garoto, só dava alegria. Era completamente diferente do Fabinho, que só dava problemas.
Salma esperava que Fabinho melhorasse depois de ser adotado. Afinal, a família adotiva tinha uma excelente condição financeira e muito amor para dar. Margot e o marido eram pessoas boas. Na opinião de Salma, ela e Gilson não eram irresponsáveis, não entregariam uma criança para qualquer um. Salma tinha certeza de que nada faltou ao garoto, nem afeto, nem atenção. Ele era filho único, certamente era tratado como príncipe. No raciocínio de Salma, a vida havia tirado a família biológica de Fabinho, mas em compensação, ela havia dado pais adotivos maravilhosos e ele havia ficado rico. Salma alimentou por anos uma esperança de que os pais adotivos de Fabinho iriam conseguir o que ela e Gilson não conseguiram: colocar algum juízo na cabeça do garoto, amolecer o coração dele, se é que ele tinha coração. Ela esperava que Fabinho aprendesse alguma coisa com os pais adotivos. Valores como gratidão, por exemplo. Salma achava que os pais adotivos iriam ensinar a Fabinho que ele devia mandar notícias a ela e Gilson de vez em quando. Seria o mínimo. Mas pelo visto, mesmo a vida dando tantas chances, Fabinho não aprendeu nada. Mesmo tendo uma mãe maravilhosa como Margot, Fabinho não melhorou.
— Sim, mas e daí? Vocês vão ficar fazendo esse joguinho idiota? Quê que é isso? Vocês não sabem muito bem com o que é que eu me importo? — disse Fabinho. — Eu preciso de ajuda. Só preciso levantar, mais nada.
Salma achava difícil o rapaz ficar ali, depois de tudo o que aprontou. A vizinhança estava com muita raiva dele. Ninguém queria vê-lo nem pintado. Mas Fabinho não pensou que podia precisar da ajuda das pessoas que destratou.
— Você se queimou com quem podia te ajudar! — disse Salma. — Agora reza, porque só um milagre pra alguém te dar outra chance!
— O que eu posso fazer por você, é te oferecer um emprego. — disse Gilson.
Apesar de Fabinho ser um mau-caráter, um marginal, ainda assim, Gilson estava disposto a ajudar, nem que fosse por desencargo de consciência. Ele não se sentiria bem negando ajuda quando o rapaz mais precisava. Gilson não queria se sentir responsável se algo ruim acontecer com o garoto, como acabar na sarjeta, por exemplo. Fabinho aprontou para caramba, brigou com todo mundo, quase matou Odila e agora ninguém queria saber dele. E quem entra na criminalidade muitas vezes se dá mal. Mas apesar de tudo o que o Fabinho fez, Gilson não desejava o mal a ele. Não queria que Fabinho tivesse um destino triste. Bem ou mal, se tratava de um garoto que ele criou, que viu crescer. Além do mais, era seu sobrinho, filho do Wilson. Mas o rapaz teria de aceitar a ajuda.
Fabinho não aceitaria um emprego qualquer que pagasse pouco.
— Um emprego? Um emprego o quê? Guardando carro no Cantaí? — disse Fabinho. — Tio Gilson, na boa, eu não sei se você sabe, mas eu sou um cara talentoso, informado, muito do preparado. O Natan Vasquez, você sabe quem é, o Natan Vasquez chegou a me oferecer sociedade.
— Ah, é? — disse Gilson. — É. — disse Fabinho.
— Então, vai pedir ajuda a ele. — disse Gilson.
— Eu vou fazer isso amanhã. — disse Fabinho. — Tem algum lugar que eu possa tomar um banho?
— O banheiro e as toalhas estão no lugar de sempre. — disse Salma.
Fabinho juntou suas coisas e foi saindo da sala.
— Obrigado. — disse o rapaz.
O rapaz tomou um banho e ao sair do banheiro, viu Odila na sala, discutindo com Gilson e Salma.
— Mas Odila, quê que você queria que a gente fizesse? Botasse o Fabinho pra fora? — perguntou Gilson.
— Não, Gilson, chamasse a polícia. — disse Odila. — Ou vocês esqueceram que ele tentou me matar?
Fabinho achava que Odila era mesmo uma idiota. Ele nem chegou a tentar matá-la. Tudo o que ele fez foi ameaçá-la para arrancar informações dela, e nem cumpriu a ameaça. Ela podia até achar que ele iria matá-la, mas a verdade é que ele não o fez. Se ele a atacou, é porque estava fora de si e ela o provocou, debochou dele.
— Mais ou menos, hein? Não é isso, não. — disse Fabinho, entrando na sala, vestindo a jaqueta. — Eu só fui lá pedir pra você contar minha história. Afinal, a tua irresponsabilidade acabou com a minha vida, né?
Para Odila, o problema foi que Fabinho usou de meio cruel e sórdido para obrigá-la a dar informações sobre sua origem. Durante anos, ela não falou uma palavra para ninguém sobre a história do filho da Irene. Irene havia pedido para ela não falar para ninguém. Além do mais, o tempo só mostrou que ela não estava de todo errada ao esconder de Fabinho a origem dele. Havia boas razões para isso. Mas o que Fabinho fez foi abominável, desumano e injustificável.
No ponto de vista de Fabinho, se Odila não tivesse deixado o filho da Irene no lar do Gilson, a vida dele não teria virado um lixo. Se virou, era por culpa dela. Ela não tinha nada que ter deixado o bebê com a tal da Zezé. Isso só complicou as coisas.
— Ela não é responsável por você ter se tornado um marginal. — disse Salma.
No ponto de vista de Fabinho, Odila era sim responsável por todas as desgraças de sua vida. Ela era a responsável por ele ter crescido longe dos pais. Ela sempre soube quem era a mãe dele, e nunca disse nada. Ninguém abriu a boca para contar a ele quem era a pessoa que o deixou no lar, ou quem eram seus pais. Se tivessem contado, sua vida teria sido muito diferente. Teria ido atrás dos pais. Não teria ficado anos no lar, sendo alvo de chacota das outras crianças, sendo rejeitado, sofrendo todo tipo de humilhação e vendo todo mundo puxar saco do Bento. Ele não teria sido adotado por uma família rica que faliu. Talvez nem tivesse caído na marginalidade. Ele agora sabia que os bebês foram trocados. Mas se Odila não tivesse deixado o bebê da Irene com a tal da Zezé, nada disso teria acontecido. Porque aí a idiota da enfermeira não teria confundido os bebês. Ele não teria ido atrás de uma história, de uma família que não era dele. Teria ido atrás de sua família verdadeira. Ele não estaria naquela situação. Tudo isso aconteceu porque ele caiu nas mãos de pessoas irresponsáveis como Salma, Gilson e Odila. De qualquer forma, não era para ele ter crescido no lar. Não era para ele ter sofrido tudo o que sofreu. Era para ele estar com seus pais. Para Fabinho, não apenas Odila, como todos ali eram culpados, e nada nem ninguém o convenceria do contrário. Se ele tinha traumas, a culpa era deles. Mas tinha mais raiva de Odila. Ela era ainda pior que Salma e Gilson. Odila sabia quem era sua mãe, ou melhor, quem ela achava que era sua mãe e não falou nada.
— Ô bonitinho, eu acho que você devia me agradecer de joelhos eu não ter ido à polícia e ter denunciado você por tentativa de homicídio. — disse Odila.
Odila estava morrendo de vontade de denunciar o rapaz. Apesar de achar que não adiantaria nada. Fabinho já estava com vários processos nas costas, já foi para a cadeia mais de uma vez, mas logo foi solto. Brasil era o país da impunidade. Ela ficou sabendo que ele tentou esganar Amora na frente do delegado, e foi solto no dia seguinte. Conseguiu habeas corpus. Não existia justiça no país mesmo. Além do mais, ela jamais teria dinheiro para pagar um bom advogado que conseguisse condená-lo à pena máxima. E mesmo assim, ainda que ele ficasse preso, bastaria ter um bom comportamento para ganhar progressão de pena. Ainda que Fabinho fosse condenado a vinte, trinta anos, não ficaria preso todo esse tempo.
— Fabinho, que história é essa dessa confusão que a Socorro me falou que você arrumou lá, no laboratório? — perguntou Salma.
— Não foi nada. Eu só fui pegar o meu anel. — disse Fabinho.
— Anel que é do filho da Irene, não é seu. — disse Odila.
Fabinho não suportou. Já estava sendo difícil para ele estar naquele ambiente, com aquelas pessoas. Não suportava olhar para elas. Sentia-se mal. Agora, Odila tocou no seu ponto fraco, colocou o dedo na ferida.
— Cala a boca! Cala a boca! — gritou Fabinho, descontrolado.
— Ei! Psiu! — disse Gilson, levantando-se do sofá. — Com quem você pensa que você tá falando? Na minha casa, as pessoas respeitam umas às outras.
— Esquece, viu, Gilson? — disse Odila. — Respeito é uma coisa que esse cara nem conhece. Aliás, se ele ficar aqui, eu vou denunciar.
Odila achou que pelo menos teria o gostinho de vê-lo longe dali. No ponto de vista dela, ela tinha todo o direito de não querer conviver com ele. Tinha ódio do garoto, por tê-la ameaçado de morte. Ela não duvidava que ele teria cumprido a ameaça. Sabia que ele não tinha para onde ir, nem tinha dinheiro. Do contrário, não botaria os pés na Casa Verde. Só mesmo estando na pior para ele pisar na Casa Verde, lugar que ele desprezava. Mesmo se Salma e Gilson dessem dinheiro a ele, o rapaz gastaria tudo no mesmo dia. De qualquer maneira, o garoto que se virasse. Ela não estava nem aí. O que ela queria era ver o ordinário se ferrar.
Gilson e Salma viram que não seria possível manter o rapaz ali. A vizinhança estava muito revoltada com ele. Além do mais, Fabinho só iria arrumar problemas. Ele não respeitava nada, nem ninguém. Prova disso era a maneira que ele tratou Odila. Ainda se o rapaz se esforçasse para melhorar, tomar jeito, mas ele continuava o mesmo garoto sem caráter de sempre. Ele não estava arrependido de todo o mal que fez, só lamentava estar na pior, ter sido pego. Salma e Gilson decidiram que era melhor que ele fosse para outro lugar. Salma resolveu dar algum dinheiro ao rapaz, o suficiente para que ele pudesse passar alguns dias em um hotel. Ele que se virasse.
— Pra você se virar. — disse Salma, entregando o dinheiro ao rapaz.
— Você tá me botando pra fora, tia Salma? — disse Fabinho, pegando o dinheiro.
Fabinho não podia acreditar. Estava sendo chutado, mais uma vez, como se fosse um vira-lata. Ele não era qualquer um. Não era um estranho. Salma o viu crescer. Como ela podia negar ajuda quando ele mais precisava? Pelo visto, ela não era tão boazinha assim, como achava que era. Aliás, ele sempre soube que Salma não era nenhuma santa. Ela estava era de má vontade. Salma achava que era só dar dinheiro e tudo estaria resolvido. Como se aquela miséria fosse durar. Não duraria nem um mês. O que ela queria era se ver livre dele. Todo mundo sempre virava as costas para ele. Ninguém estava nem aí para ele.
— Se você tivesse arrependido... — disse Salma, triste. — Se você tivesse, pelo menos um pouco arrependido dos erros que cometeu...
Salma lamentava não ter podido fazer mais pelo garoto. Mas Fabinho não aceitou o emprego que Gilson ofereceu, e ela sabia que aquela quantia que ela estava dando não duraria muito, só alguns dias em um hotel. Ainda mais nas mãos de Fabinho. Mas era tudo o que ela tinha para dar. Ela e Gilson não nadavam em dinheiro, não tinha como ficarem pagando diária de hotel, nem mesmo em um hotel dos mais simples. Iria pesar no orçamento deles, e não era obrigação deles sustentar o garoto. E Fabinho não podia ficar ali, não depois do que fez com Odila. Não depois de ameaçar todo mundo, gritar que mandaria todos para debaixo da ponte.
— Vocês queriam que eu fizesse o quê? Que eu me ajoelhasse? Que eu pedisse perdão? Eu já pedi desculpas várias vezes. — disse Fabinho. — E 500 reais? Você acha que isso aqui funciona pra quê? Você acha que serve 500 reais aí na rua?
— Ei, que gritaria é essa? — disse Érico, que acabou de entrar e ouviu Fabinho gritar com sua mãe. — O que você tá fazendo aqui, Fabinho?
— Ele já tá de saída, Érico. — disse Salma, e dirigiu-se a Fabinho. — Pega suas coisas e vai.
— Eu não acredito que vocês tão me botando pra fora. — disse Fabinho.
— Eu não acredito que depois de tudo que você aprontou, você ainda tem a cara de pau de se fazer de coitado. — disse Salma.
— E eu não sou? Eu não fui chutado a vida inteira, que nem um cachorro?
— Vem cá, você ouviu a minha mãe. — disse Érico, sem paciência. — Pega as suas tralhas e se manda, vai!
— Vocês são muito bonzinhos, né? — disse Fabinho, irônico. — Só que vocês todos bonzinhos que brigaram comigo antes, agora tão adorando pisar em mim! Claro, né? Porque assim vocês se sentem muito melhores do que eu! Hipócritas! Se fossem do bem mesmo, agora iam estar me recebendo de braços abertos! Tudo bem. — juntou as malas. — O mundo gira. — fez um gesto giratório com a mão, e foi embora, sem perceber que Salma ficou triste, morrendo de pena.
Assim que Fabinho saiu, Salma sentou-se.
— Ai, meu Deus! O que será da vida desse rapaz? — disse Salma, abanando a cabeça, chorando. — Filho, eu tenho muita pena dele, viu?
Salma tinha pena porque Fabinho podia ter sido um ser humano melhor, ter feito tanta coisa boa com a vida dele. Ele teve todas as chances de ter se tornado uma pessoa de bem, pois foi adotado por uma família boa. Mas era um garoto infeliz e só trazia tristeza e desgosto para as pessoas à volta dele. E se ele continuasse assim, o que seria da vida dele?
— Mãe, pena de quê? Ele teve muito mais chance do que o Bento e olha o que o Fabinho fez com a vida dele, mãe. — disse Érico.
Ao ver a mãe triste, Érico abraçou-a:
— Ei... Não fica assim, não.
Érico, por sua vez, não tinha pena. Fabinho vivia se fazendo de coitado, sempre repetia a mesma ladainha que ninguém gostava dele e que era chutado como um cachorro por todo mundo, mas a verdade era que ele não tinha motivo algum para ficar fazendo drama. Fabinho teve muito mais chances na vida que o Bento: foi adotado por uma família rica do interior, estudou em escola cara, teve atenção, amor e carinho dos pais adotivos, foi tratado como príncipe por ser o único filho, mas não fez nada de positivo com isso. Fabinho podia ter sido um publicitário bem-sucedido. Podia inclusive ter melhorado como ser humano, virado gente, mas não. Continuava o mesmo calhorda de sempre, revoltado com a vida. Muita gente não gostava dele por ser mau-caráter, um ser desprezível e se ele estava sendo chutado, era por ter destratado todo mundo. Ao contrário do Bento, que viveu a vida toda no lar do Gilson, não teve pais ricos nem as mesmas chances que Fabinho, e ainda assim se tornou uma pessoa do bem, honesta, humilde e trabalhadora, que dava valor ao que tinha, era grato por tudo o que fizeram por ele e era gentil com todo mundo. Se Bento, que não foi adotado, era grato, Fabinho devia ser mais grato ainda.
Fabinho achou melhor dar o fora. Pensando bem, era melhor mesmo ir para longe daquela casa. Não suportava olhar nas fuças daquelas pessoas. Ele passou as horas seguintes na rua. Gastou boa parte do dinheiro, e sobrou muito pouco. Não era o suficiente para dormirem um hotel. À noite, acabou dormindo nas escadarias de uma praça da Casa Verde. Acordou quando ouviu uma voz.
— Ô gente, dá uma olhada nisso aqui! — gritou Giane.
Abriu os olhos quando sentiu a garota chutar a perna dele. Era só o que faltava. Ele não suportava olhar para ela, nem para ninguém dali.
— Ei! Palhaço! O que você tá fazendo aqui, hein? — perguntou Giane.
— Calma aí, maluco. Deixa eu dormir, na boa. — disse Fabinho.
No ponto de vista de Fabinho, a rua era pública.
— Quer dormir, vai debaixo da ponte. — disse Giane. — Porque a Casa Verde não é lixão pra urubu pousar, não.
À essa altura, Odila, Silvério e Nestor já haviam chegado. Estavam todos com muita raiva de Fabinho, e não queriam vê-lo nem pintado.
— Você escutou? Ninguém da rua quer você aqui. Vaza! — disse Odila.
— Meu Deus! Olha só, presta atenção, baranga... — disse Fabinho, levantando-se, disposto a dizer umas poucas e boas para aquela idiota. Recusava-se até a dizer o nome dela.
Giane colocou-se na frente de Odila:
— Olha só, eu, se fosse você, não bancava o valentão aqui, não.
Ela não deixaria Fabinho atacar Odila novamente.
— Vocês estão achando que eu tô por baixo, né? — disse Fabinho, furioso. — Mas quando eu levantar, eu não vou ter pena de ninguém, sabia?
— Nem eu vou ter pena de dar uma bifa no meio da tua cara se você não sair daqui agora, escutou? — disse Odila, erguendo a mão para ele.
— Presta atenção, hein? — disse Fabinho. — Porque o mundo gira e eu vou acabar com vocês. Hoje eu tô assim, mas amanhã eu vou levantar! Gentalha!
Ele ainda iria se vingar de todos. Iria fazê-los se arrepender de terem nascido, de terem cruzado o caminho dele. Tinha ódio daquela gente.
— Vaza, palhaço! Some daqui! — disse Giane, enquanto ele juntava as coisas dele. Sentia-se humilhado. Nem na rua deixavam ele ficar.
— Urubu! — xingou Odila, vendo-o ir embora.
— Palhaço! — xingou Giane.
Fabinho foi embora sem olhar para trás.
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