Fabinho aproveitou a hora do intervalo na agência para ir até a Toca do Saci. Ele precisava falar com Malu, fazê-la se afastar de Bento. Fabinho decidiu dizer a ela que Bento estava querendo dar um golpe nela. No raciocínio dele, Malu só se afastaria de Bento estando convencida de que Bento não prestava. Ele estava cansado de ver Bento rondando sua família. Ele não gostava de ver Bento para cima e para baixo com sua irmã, aparecendo na mídia direto ao lado dela. No ponto de vista de Fabinho, Bento estava novamente disputando com ele. Vendo a amizade e a admiração que Malu tinha por Bento, Fabinho sentia ciúme. Fabinho ansiava pelo reconhecimento familiar e pelo carinho de uma irmã que nunca teve. Fabinho sentia que Bento estava roubando o lugar que, por direito, deveria ser dele no coração da família Campana e de Malu. Ele acreditava que não conseguiria conquistar o amor da família com Bento por perto.

Ao chegar na Toca do Saci, Fabinho viu um garoto atravessar a rua sem olhar. Ao tentar desviar a moto, para não atropelar o garoto, perdeu o controle e caiu. Não conseguiu parar a tempo, e acabou atropelando o garoto sem querer. Malu correu até o garotinho, que estava caído no chão:

— Você está bem?

Fabinho tirou o capacete e não conseguiu se levantar do chão. Sentia uma dor enorme no ombro e na cabeça. Gemeu. Estava tonto também.

Malu foi dar uma olhada nele. Depois, Malu foi falar com a criança atropelada:

— Onde você mora? Você não tem um número pra me dar, do seu pai e da sua mãe? Onde que bateu? A moto bateu onde? Na sua perna? — o garoto quis se levantar, mas Malu o impediu. — Não, não, não se mexe! Deita! Deita! Você vai se machucar mais! Espera a ambulância. Relaxa. Relaxa. Isso.

Fabinho continuou deitado no chão, e agora estava cercado por um grupo de pessoas. Até que viu uma mulher abrir caminho entre as pessoas e se aproximar dele.

— Calma! Calma, calma! Não se mexe. — disse a mulher.

Fabinho não podia acreditar. Aquela mulher era Irene, sua mãe?

— Você está bem? — disse Irene.

Ela foi até ali, na Toca do Saci, porque Malu ligou para ela mais cedo, pedindo para ela vir fazer uma apresentação para as crianças. Irene imaginou que alguém devia ter entregue o cartão dela para Malu. Ao chegar ao local, viu que havia acontecido um acidente e resolveu ajudar.

Irene viu que o garoto parecia estar em choque. Passou as mãos no rosto do rapaz, procurando acalmá-lo:

— Calma. Já chamaram o resgate. Calma. — Irene dirigiu-se às pessoas ao redor. — E aí, gente? Cadê o socorro?

Fabinho estava emocionado. Finalmente encontrou sua mãe. Depois de uma vida inteira querendo saber quem era sua mãe, finalmente iria conhecê-la.

— Mãe? — murmurou, porém Irene não ouviu.

Irene agitava os braços, procurando afastar as pessoas.

— Abre, abre aqui, gente! Sai de perto!

— Mãe! — murmurou Fabinho.

Irene olhou para ele, sem entender o que ele dizia.

— O quê que foi? Você falou comigo?

Fabinho estendeu o braço e procurou tocar o rosto dela com o dedo. Ele queria ter certeza de que não estava sonhando, ou que não se tratava de ilusão de ótica. Irene pegou em sua mão e fez um carinho, enquanto dizia:

— Calma. Calma. Fique calmo. Está tudo bem. Está tudo bem. Fica calmo. Fica calmo.

Fabinho acabou sendo levado para o hospital. Permaneceu horas desacordado. Assim que acordou, a enfermeira veio ver como ele estava. Ele ficou sabendo que bateu a cabeça e havia também sofrido um deslocamento no ombro. Estava usando uma tipoia. Malu foi vê-lo. A enfermeira havia avisado que Fabinho tinha acabado de acordar.

— E aí, como é que você tá? — perguntou Malu.

— Você tá aqui por minha causa, Malu? — perguntou Fabinho.

Fabinho se perguntou se Malu havia se preocupado com ele, se ela se importava com o bem-estar dele. Ele se perguntava se ainda teria chances de conquistar o carinho de Malu. Malu era sua irmã, afinal. Ele esperava conquistar o afeto dela também. Ele queria ser amado e aceito pela família. Na família Campana, ele não carregaria o estigma da orfandade. Ele seria o filho legítimo, não o adotado, o filho do coração, tampouco seria a segunda opção, como acontecia na família adotiva, que primeiro quis adotar o Bento. Ele até gostava de Margot, à sua maneira. Contudo, ele nunca aceitou a condição de órfão e de adotado, e não se sentia um Queiroz legítimo. Ele só fizera de tudo para ser adotado por não ter outra alternativa na época. Fabinho quis ir embora do lar de adoção e deixar para trás a vida de privações e humilhações. Mas o que ele sempre quis realmente era encontrar a família biológica, saber sua origem. Finalmente ele teria um lugar de pertencimento, com direito à família biológica e a herança. Fabinho acreditava que, ele sendo filho do Plínio, um homem respeitado e milionário, as pessoas gostariam mais dele e o tratariam melhor.

Até mesmo o pessoal da Casa Verde teria mais respeito por ele.

— Eu vi o acidente. — disse Malu.

Fabinho ficou preocupado. Esperava que ela não chamasse a polícia. Ele não queria mais problemas com a justiça, até porque fizera o possível para evitar o acidente. Já bastavam os problemas que já tinha.

— Você chamou a polícia? Não foi minha culpa, você viu. Aquele moleque entrou na frente da moto.

— Não, que isso! Eu vi, eu tava lá! — disse Malu. — O pessoal da emergência também achou que não era caso de polícia. Ah, eu guardei a tua moto na Toca do Saci.

— Que bom. — disse Fabinho. — Eu achei que a minha moto tivesse no depósito da polícia.

Ele morria de medo de que descobrissem que era uma moto roubada. Além do mais, ele não devia nem estar dirigindo. Sua carteira foi apreendida.

Malu não entendia por que Fabinho tinha tanta preocupação com a polícia.

— Nossa, você tem alguma coisa com a polícia?

— Não, só não queria arranjar mais problema pra mim, né? — disse Fabinho. — Por causa de um moleque imbecil que não sabe atravessar a rua.

Malu ficou chocada com a forma como Fabinho se referiu à criança:

— Como é que você tem coragem de chamar um garoto indefeso de idiota?

Fabinho pensou que Malu era mesmo muito certinha, muito politicamente correta e dramática. No ponto de vista dele, um garoto que atravessa a rua sem olhar só podia mesmo ser imbecil e não deixaria de ser apenas por ser uma criança. Afinal, foi por causa do garoto que ele, Fabinho, estava agora na cama de um hospital.

— Malu, se eu tô aqui, a culpa é dele. Ainda vou ter que gastar um dinheiro com a minha moto.

— Ué, tua família é rica, isso não é problema. — disse Malu.

— Não gosto de encher o saco da velha. — disse Fabinho.

Ele estava torcendo para que Malu não quisesse chamar sua mãe adotiva. Não queria que a mãe viesse para São Paulo, de jeito nenhum. Senão, descobririam tudo. Saberiam que ele e a mãe eram pobres e que a mãe havia assumido a culpa por um crime que ele cometeu. Se a mãe desse com a língua nos dentes, botaria tudo a perder. Ele não havia dado o telefone nem o endereço da mãe a ninguém. Nem havia razão para isso.

— Eu quase liguei pra tua mãe. — disse Malu. — Só que não tinha o telefone. Mas pensando bem, melhor assim, né? Pra que deixar tua mãe aflita lá no interior, se nada de grave aconteceu? Exceto, você se referir a ela como velha, né? Nossa, Fabinho, que grosseria! — ia andando em direção à porta, porém voltou. — Ah, uma coisa. O que você tava indo fazer na hora do acidente? Me procurar na Toca do Saci?

Fabinho não respondeu. Em outro momento falaria com Malu, pediria a ela para se afastar de Bento. Lembrou-se da hora em que se acidentou, quando Irene o socorreu. Fabinho se questionou se seria mesmo Irene Fiori. Será que ele não havia sonhado? O que será que ela estava fazendo naqueles lados da Toca do Saci? Ele precisava encontrar a mãe, conversar com ela, saber o que exatamente havia acontecido, por que ela se separou de seu pai e sumiu por tanto tempo. Se o sumiço dela foi mesmo por alguma armação da Bárbara. Fabinho queria saber se Irene era mesmo sua mãe. Então resolveu perguntar para Malu se ela conhecia Irene:

— Malu, aquela mulher que me socorreu, quem é ela?

— Rita. — disse Malu. — Ela veio com você e com o menino pro hospital.

Fabinho chegou à conclusão de que sua mãe biológica tinha mudado o nome. Certamente, fazia de tudo para não ser reconhecida. Até usar pseudônimo, usava. Fabinho se questionava por que ela se escondia, fugia de Plínio. Ele tinha certeza de que Plínio não era um homem violento, abusivo. Plínio ainda amava Irene, mesmo depois de tanto tempo. Do contrário não teria guardado a fotografia que havia tirado com ela. Fabinho se perguntava por que então ela fugia. Por que ela tinha tanto medo? Terá sido apenas por ter flagrado Plínio com a Bárbara, ou havia alguma coisa a mais aí? Fabinho concluiu que Irene só podia ter flagrado Plínio com Bárbara. No raciocínio de Fabinho, se Bárbara havia dado um jeito de Verônica flagrá-la com Natan, na certa fizera coisa parecida para separar seus pais. Por que a mãe o deixou naquele lar? Fabinho sentia que precisava falar com a mãe, saber de toda a história. Fabinho disse:

— Ela tá aí ainda? Você pode chamar ela? Eu queria agradecer.

— O menino, você não quer saber como é que tá? — perguntou Malu.

Na opinião de Malu, Fabinho devia se preocupar com o bem-estar do garoto que ele havia atropelado, ainda que sem intenção. Era o que ela faria no lugar dele. Malu achava impressionante como Fabinho só pensava em si próprio, o que apenas confirmava a impressão negativa que tinha dele. Ela não gostava de Fabinho, nem um pouco, e o considerava egoísta, interesseiro e sem escrúpulos. Ele vivia querendo ficar perto de gente rica e famosa, bajulava a mãe dela e perseguia Bento. Malu soube que Fabinho havia destruído a estufa de Bento, inventado uma série de mentiras e feito intrigas contra ele. Fabinho chegou a aparecer no apartamento de Plínio falando absurdos contra Bento. Isso a revoltava, pois ela gostava muito de Bento e confiava no julgamento dele, que conhecia Fabinho desde criança. Bento havia comentado com ela que Fabinho esnobava o pessoal da Casa Verde, não fazendo questão de visitá-los e aparecendo no bairro apenas uma vez. Para ela, o fato de Fabinho não ter consideração por Gilson e Salma, que o criaram e acolheram, e tratar com desprezo todas as pessoas que o viram crescer, era uma prova de que ele não tinha caráter. Na opinião dela, Fabinho, além de invejoso e ingrato, era um oportunista.

Bento dizia que Fabinho nunca foi flor que se cheire, que sempre o viu como um rival, apesar das tentativas de Bento de ter uma relação amigável com Fabinho quando eram crianças. Desde a infância Fabinho implicava, azucrinava, agredia e inventava mentiras contra Bento. Fabinho vivia disputando com Bento e tentava separá-lo de Amora. Na opinião de Malu, isso era coisa de gente maldosa. Além disso, Malu sentia que havia algo errado com Fabinho, que ele tinha uma energia estranha.

Na verdade, Malu nem precisou de alertas de Bento para perceber que Fabinho tinha caráter duvidoso. Ela havia reconhecido nele os mesmos traços de oportunismo e falsidade que ela via diariamente na mãe e em sua irmã Amora, o que a fez antipatizar com Fabinho de imediato. Por ter sempre vivido em um ambiente de aparências, cercada por manipulação, falsidade e oportunismo, Malu tinha uma visão mais clara da falha de caráter das pessoas, incluindo as de sua própria família. Justamente por lidar com pessoas interesseiras e sem escrúpulos como a mãe e a irmã, que eram extremamente focadas em status e aparências, Malu era menos ingênua e mais desconfiada do que Bento.

Por ter vivido a vida toda na comunidade da Casa Verde, um ambiente mais acolhedor, onde convivia com amigos leais como Giane, a família de Gilson e outros vizinhos que, em sua maioria, eram pessoas trabalhadoras e de bom caráter, Bento tinha tendência em ver mais o lado bom das pessoas. Bento tinha uma ingenuidade quase infantil e demorava a perceber a malícia e a falsidade das pessoas. Malu gostava de Bento e sentia uma forte necessidade de protegê-lo de pessoas como Amora e Fabinho. Ela via Bento como alguém puro e ingênuo para o mundo cínico e superficial em que vivia. Malu até incentivou Bento a lutar por Amora, apesar de achar que ele merecia coisa melhor, pois sabia que Bento gostava dela. Mas estava sempre atenta para impedir que Amora o magoasse, o fizesse sofrer e para que Fabinho não fizesse algum mal a ele.

Malu se perguntava o que Fabinho queria com ela, se ele pretendia falar mal do Bento ou fazer alguma intriga. O fato de Fabinho nem se preocupar com o estado da criança atropelada só intensificava a visão negativa que tinha dele.

— Ele deve tá melhor do que eu, né? — perguntou Fabinho.

Malu ficou chocada ao ver que Fabinho realmente não se importava com a criança.

Do ponto de vista de Fabinho, ele não teria por que se preocupar com o garoto. A criança não devia ter se machucado muito. A moto quase nem encostou no menino. Quem estava em pior estado era ele. Além do mais, ele estava interessado na Irene, não no garoto.

— Você chama essa Rita pra mim, por favor? — Fabinho pediu. Malu resolveu ir atrás de Rita, ver se a encontrava no hospital. — Obrigado. — disse Fabinho.

— Nada. — disse Malu, antes de sair do quarto.

— Será que é ela? — murmurou Fabinho.

Malu estranhou o fato de Fabinho estar tão interessado em Rita. Aliás, Malu achava que conhecia Rita, ela não lhe era estranha. Tinha a sensação de que já tê-la visto antes. Porém, ela não estava conseguindo se lembrar de onde conhecia Rita. Procurou Rita por todo o hospital, porém, não a encontrou. Até perguntou para a enfermeira se tinha visto Rita, mas a enfermeira não a viu mais. Ela tinha ido embora sem se despedir. Fabinho ficou sabendo que Malu não encontrara a tal Rita, então pedira um cartão da mulher. Agora teria o número do telefone da mãe. Poderia entrar em contato. Ficou olhando o cartão de sua mãe, que Malu deixara com ele.

— Rita! — murmurou Fabinho.

Fabinho ficou sabendo que a mãe era artista de rua. Rita, ou Irene, fazia estátua viva, teatro, e também era contadora de histórias. Ela não tinha emprego fixo, vivia de bicos. Com certeza, a mãe não ganhava muito. Mal podia sustentar a si própria. Fabinho achava que era urgente encontrar a mãe, para que ela lhe contasse toda a história. Assim, poderiam procurar o Plínio. Fabinho não suportava a ideia de sua mãe estar passando por dificuldades, enquanto a megera da Bárbara estava lá, no bem-bom, usufruindo do dinheiro do pai dele.

No dia seguinte, Fabinho ligou para Malu para avisar que teve alta.

— Uhum, tá. Tá bom. — disse Malu. — Ó, me avisa a hora que você for passar na Toca do Saci pra pegar a moto, tá? Valeu. Tchau, tchau.

Em seguida, Fabinho assinou a alta. O que ele tinha não era grave para permanecer tanto tempo no hospital. Resolveu ligar para Rita, ou melhor dizendo, Irene. Mas tinha de inventar alguma desculpa. Não dava para se apresentar como filho dela pelo celular. Ele precisava encontrá-la pessoalmente. Pegou o cartão, olhou o número e ligou para o celular dela.

— Alô? — disse Irene.

— Oi, por favor, eu gostaria de falar com a Rita. — disse Fabinho.

— É ela. Quem está falando? — perguntou Irene.

— Rita, meu nome é Ivan. — disse Fabinho. — Eu tenho uma sobrinha que vai fazer aniversário. Eu queria contratar os seus serviços. Você é contadora de histórias, né?

— É. Eu também faço marionetes e mímica. — disse Irene. — Mas qual a idade da sua sobrinha?

— A idade? É... Oito anos. A Fabíola tem 8 aninhos. — disse Fabinho.

— Fabíola. — disse Irene.

— Rita, eu queria conversar com você pessoalmente. — disse Fabinho. — Eu estou com umas ideias. Será que você pode conversar hoje?

— Não, não, não. Hoje eu não posso, não. — disse Irene. — Eu estou muito ocupada. Hoje, eu não posso.

— E amanhã, pode ser? — perguntou Fabinho.

— Amanhã? — disse Irene. — Tá bom, tá bom. Eu ligo pra você, pra combinar o horário.

— É que, na verdade, eu... — disse Fabinho. — Tá, tudo bem. Eu espero então, você me ligar.

Fabinho tinha pressa em encontrar a mãe. Esperou a vida toda por isso, e não era apenas porque não aguentava mais viver na pobreza. Ele ansiava por construir uma relação de muito amor com sua mãe biológica.

— Tá bom. Até amanhã. Obrigada. — disse Irene.

— Até amanhã. — Fabinho despediu-se.

Fabinho foi à agência. Claro que havia avisado Natan sobre o acidente que sofreu. Quando chegou, viu Maurício andar rapidamente em direção à saída. Maurício nunca mais apareceu na agência, desde que descobriu que Natan havia traído Verônica com a Bárbara. Pelo que Fabinho sabia, Mau-rício brigou feio com o pai, até cortou as relações com ele. O que Maurício tinha vindo fazer ali? Ele havia voltado a trabalhar com o pai?

— Grande Maurício! — cumprimentou Fabinho. — Voltou?

Maurício nem deu atenção para Fabinho. Estava bufando de raiva. Fabinho não entendeu nada e se perguntou o que tinha acontecido. Ele se questionou se Maurício havia tido outra briga com Natan.

Maurício estava revoltado com o pai. Ele acabou de descobrir que Bárbara havia armado para separar seu pai de sua mãe. Bárbara armou com a secretária de Verônica, Mari. A secretária passou no apartamento de Verônica para entregar uma pasta, tirou a carteira de Verônica, com todos os documentos, da bolsa dela e escondeu no sofá. Bárbara atraiu Natan para o apartamento. Santa não estava, havia viajado para Ribeirão Bonito. Verônica, que ia viajar para Porto Seguro a trabalho, teve de voltar para casa para buscar a carteira, e flagrou Bárbara e Natan na cama. A secretária confessou tudo para Verônica. Ela ajudou Bárbara, pois Bárbara prometeu conseguir para ela um teste numa novela. Mas não cumpriu a promessa. Verônica demitiu a funcionária, pois não tinha mais confiança nela. Ao saber de tudo, Maurício decidiu contar para o pai. Contudo, Natan resolveu não se separar de Bárbara, pois ela prometeu ajudá-lo na carreira de cineasta, até conseguiu patrocinador para o filme.

— O que deu nele? — perguntou Fabinho, para o que estavam ali presentes.

— Sei lá. — disse Júlia. — E você, o que fez aí, nesse braço?

— Eu sofri um acidente, comentei com o Natan. — disse Fabinho. — Ele não avisou, não? Não falou nada?

— Ele tem mais o que fazer e nós também, né, cara? — disse Edu.

Para Fabinho, estava na cara que o pessoal ali da agência não estava nem aí para ele. Também, ninguém ali era amigo de ninguém. Era cada um por si. Um tentava sempre puxar o tapete de outro. E para sobreviver naquele covil, ele achava que tinha de se comportar igual a todos ali.

— Eu tô vendo. — disse Fabinho. — Tô achando essa agência tão vazia.

Fabinho sabia que faltavam Érico e Sílvia.

— Ah, é. — disse Júlia. — Porque o Érico foi demitido, a Sílvia pediu demissão em solidariedade, o Natan precisa fechar um slogan. Resumindo: tá aquele climinha delícia de sempre, né?

— O Érico foi demitido, é? — disse Fabinho, fazendo o sonso. — Que doideira. Um cara tão bacana, né?

— O pior você não sabe. — disse Edu. — Descobriu que é corno um dia antes de se casar, né? Conta pra ele, Mel. Você conta melhor que eu.

Fabinho viu que havia uma nova estagiária na agência. Ele teve a impressão de já a ter visto antes, mas não se lembrava de onde.

— É verdade. — disse Mel.

O celular de Fabinho começou a tocar. Fabinho disse:

— Só um minutinho, querida.

Ele atendeu ao celular. Esperava que fosse sua mãe ligando.

— Alô, Rita? — disse Fabinho.

Era propaganda. Fabinho ficou furioso.

— Não quero telefone, não, meu amigo. Obrigado. Não, não. Não quero, não. Obrigado.

Fabinho desligou o celular.

— Que chato que não era Rita, né? — disse Mel, rindo.

— Será que foi por causa dessa Rita que ele não caiu de moto? — perguntou Edu.

Fabinho não tinha paciência com Edu e suas insinuações maldosas.

— Me erra, maluco! Tá louco? — disse Fabinho, furioso.

— Olha só! O estagiário cheio de marra! — disse Edu. — É o quê? Tá achando que vai ficar no lugar do Érico, né? Faz o seguinte: aproveita o braço bom, pega lá o layout que eu mandei imprimir. Vai lá.

Fabinho nem se mexeu do lugar. Ele mal podia esperar pelo dia em que não precisaria mais se submeter às ordens do babaca do Edu.

— Vai lá. — disse Edu.

Fabinho não teve outra saída, a não ser fazer o que Edu mandou. Horas depois, ele foi até uma das salas do andar de cima da agência, onde Natan se encontrava. Natan o chamou. Ao entrar na sala, Edu e Júlia passaram por ele, a caminho da saída. Não estavam nada animados. Certamente, levaram bronca do chefe.

— E aí, Edu? Julia! — cumprimentou Fabinho.

Eles saíram sem dizer uma palavra.

— E aí, Fabinho, como é que está esse braço?

— Tudo sob controle. — disse Fabinho. — Eu sou duro na queda.

— Ótimo! — disse Natan, levantando-se da mesa. — É de gente assim que eu preciso! Escuta, eu vou te preparar pra você assumir o lugar do Érico.

— No planejamento? — perguntou Fabinho.

— Não. — disse Natan. — Ele que inventou esse nome. O trabalho do Érico era atender os clientes. E atendimento não é nenhum bicho de sete cabeças! Eu vou confiar em você, hein, garoto? Não me decepcione.

Fabinho ficou satisfeito. Natan parecia estar reconhecendo e sendo grato por tudo o que havia feito por ele. Fabinho sabia que Natan ia acabar colocando alguém no lugar do Érico, e que esse alguém seria ele. Afinal, Natan estava comendo na sua mão. Fabinho pensou que seu pai ficaria impressionado quando soubesse que havia sido promovido.

— Caramba, Natan! Eu não sei nem como agradecer. — disse Fabinho.

— Sabe, sim. — disse Natan. — Com competência e lealdade.

Fabinho sorriu e disse:

— Mais leal do que eu, você não vai encontrar.