Um amor improvável

17 Slogan da Cosy Bed


No dia seguinte, Natan chamou Fabinho em sua sala. Natan estava de saída, e estava já pegando a bolsa:

— É o seguinte: eu tenho uma reunião agora pra tentar fechar o slogan da Cosy Bed e é você quem vai representar a Class Mídia no almoço do Artur Bicalho, tudo bem?

— Claro, Natan. — disse Fabinho, feliz. — Que honra! Bacana. Legal.

Fabinho procurava sempre mostrar-se eficiente, embora comparecer a um evento em defesa do meio ambiente não fosse seu passatempo predileto. Só de imaginar ficar horas ouvindo discursos, morria de tédio. Para Natan, Fabinho pareceu um pouco animado demais.

— Ah, ah! Não se anima não, que esse tipo de evento é um porre! — disse Natan. — Mas é bom ter alguém da agência lá, senão vão dizer que a gente não está nem aí pra Serra da Cantareira. — enfiou o celular na jaqueta.

Fabinho riu.

— Não que a gente esteja. — disse Natan.

Fabinho gargalhou. Natan também.

— Mas é bom todo mundo pensar que estamos. — disse Natan. — Motorista da agência te leva, que você não vai dirigir com esse braço.

— Tá. Obrigado, Natan! — disse Fabinho.

— Até mais! — disse Natan, saindo da sala.

— Um abraço. — disse Fabinho.

Fabinho resolveu tentar ligar para Irene. Ele havia esperado a mãe ligar como prometido, porém, ela não ligou. Ele pegou o celular, digitou o número dela e esperou. Porém, o celular tocava e nada de Irene atender.

— Atende, mãe!

O celular acabou caindo na caixa de mensagens: “Oi, aqui é a Rita. Por favor, deixe seu recado depois do sinal”. Fabinho resolveu deixar recado:

— Oi, Rita. Aqui é o... Aqui é o Ivan, tio da Fabíola. Eu queria muito que você fizesse essa festa. Você pode me ligar? Eu aguardo. Tchau.

Acabou indo ao almoço do Artur Bicalho. O lugar estava cheio de gente. Toda a imprensa estava lá. Fabinho acabou encontrando Amora, que estava apresentando o Luxury. Ele não perderia uma oportunidade de falar com ela. Aproximou-se dela por trás e beijou seu ombro. Amora revirou aos olhos ao vê-lo. Até ali aquele oportunista vinha importuná-la.

— Aff! — resmungou. Fabinho agora andava sempre atrás dela. Ela não suportava mais. Amora não entendia por que ele havia cismado com ela. Era por inveja do Bento, ou era interesse em ser famoso? Ou as duas coisas? Bem que ela gostaria que Fabinho esquecesse que ela existia. Ela se perguntou o que Fabinho fazia ali. Até onde ela sabia, Fabinho estava longe de se preocupar com a Serra da Cantareira.

— Amora, Amorinha, meu amor! — disse Fabinho, irônico. — Tava com saudade de mim?

— Nossa, realmente, esse evento tá baixo nível, mesmo. — disse Amora. — O que você tá fazendo aqui, hein?

— Eu vim representando a Class Mídia. — disse Fabinho.

Amora suspirou.

— Aliás, onde eu acabo de ser promovido.

— É? — perguntou Amora, sem se impressionar, bebendo um gole do seu champanhe. Ela bem podia imaginar as tramoias de Fabinho para conseguir a promoção. Afinal, ele a usara para posar de herói e fazer média com Natan. Fabinho costumava jogar sujo para conseguir o que queria.

— É. — disse Fabinho.

À distância, Fabinho viu Bento e Malu. O que Bento fazia ali com sua irmã? Até ali Bento vinha assombrá-lo? Ele não tinha um minuto de sossego. Além disso, ele cansou de falar para Bento ficar longe de sua família.

— Vem cá, esse babaca não desgruda mais da Malu, agora?

Amora percebeu que Fabinho também não gostava da aproximação do Bento com a Malu. Certamente, Fabinho devia estar se mordendo de inveja, pois Bento conseguira conquistar a admiração de pessoas importantes como Plínio e Malu. Fabinho sempre teve inveja de Bento, desde criança. Agora que Bento estava entrando para um mundo do qual ele queria fazer parte, e de maneira honesta, sem falsidade e oportunismo, a inveja de Fabinho se intensificou.

Para Amora, era evidente que Bento se aproximou de Malu e Plínio de maneira natural, sem se impressionar pela fama ou pelo dinheiro deles, e que Bento não estava ali apenas para aparecer, ele realmente tinha vindo defender a Serra da Cantareira. A princípio, Amora criticou Bento por usar Malu como passaporte para entrar no mundo da fama. Afinal, Bento a criticava por aparecer o tempo todo na mídia, e ele havia se tornado exatamente aquilo que ele próprio tanto criticava: uma subcelebridade, que ganhou fama apenas por ser um possível genro do Plínio Campana. Mas Bento explicou que havia entrado no mundo dos famosos para criticar a fama vazia, para mostrar que o culto à celebridade era uma coisa absurda. Agora Amora estava vendo que Bento estava usando a fama para lutar pelo o que ele acreditava. Ao contrário de Fabinho, que estava ali apenas para representar a Class Mídia.

No ponto de vista de Amora, Bento era um homem íntegro, honesto, transparente e fiel aos seus princípios, uma pessoa rara de se encontrar no meio midiático, onde as pessoas buscavam fama, dinheiro e status a qualquer custo, não se importando em derrubar os adversários. Por isso Amora o admirava imensamente. Bento não se deslumbrava com a fama nem pretendia se manter na mídia. Ele não era falso como muita gente do meio midiático. Ela o via como exemplo e sentia que ao lado dele, ela poderia ser uma pessoa melhor. Bento não havia se deixado corromper, nem absorvido os piores valores do mundo das celebridades: estrelismo, falsidade, manipulações. Bento não tinha pose de celebridade. Para Amora, Bento era o único amor verdadeiro que ela teve na vida. Bento era o que ela gostaria de ser e não conseguia: alguém autêntico, generoso e em paz consigo mesmo. Para ela, Bento era uma pessoa especial. Se Bento a amava, ela não era tão ruim, nem tão fútil como as pessoas diziam.

Por isso Amora não gostava nada de ver a invejosa da Malu com Bento, e não lhe agradava o fato de os dois agora terem assumido namoro. Amora acreditava que Bento só havia assumido o namoro com a Malu para provocá-la. Era dela que Bento gostava, não de Malu. Só que Bento estava magoado com ela. Bento não entendia que ela não podia largar tudo: o noivo, a fama, o luxo, o glamour, a carreira de modelo e apresentadora do dia para a noite, para ficar com ele. Ela amava o trabalho dela, gostava da vida que levava, valorizava tudo o que havia conquistado. Bento também não entendia as regras do meio midiático.

Ela queria romper com Maurício, até porque não era apaixonada por ele. Ela tinha carinho por Maurício, mais nada. Embora sentisse alguma afeição por Maurício, Amora se relacionava com ele mais por interesse do que por qualquer outra razão. Bárbara incentivara o romance desde o início, pois queria o Maurício para genro. O relacionamento era uma jogada de marketing e garantia de sobrevivência financeira. O namoro era, antes de tudo, um contrato social. Bárbara queria as fotos nas colunas sociais e a validação do meio midiático. Maurício era a pessoa ideal para aparecer na mídia ao lado de Amora. Bárbara achava que Amora tinha de se casar com uma pessoa que estivesse à altura dela, e na opinião de Bárbara, Bento jamais estaria, porque era de nível inferior.

Mas Amora e Maurício nunca foram um casal apaixonado. Pelo menos, da parte dela, não havia paixão. Amora até havia tentado se convencer de que amava Maurício. Ela gostava do carinho e da segurança que ele oferecia, e havia comprado a ideia da mãe de que Maurício era o partido ideal. A relação deles era leve. No entanto, no fundo, Amora sabia que seu coração pertencia a Bento. Amora não sabia o que fazer. Seria tão mais fácil se ela gostasse de Maurício de verdade! Ela não teria de abrir mão de nada. Não correria o risco de arruinar sua imagem de it-girl perfeita, de perder trabalhos, de desapontar seus fãs, seu público.

Amora sabia que Maurício gostava dela, e por isso ela pensava em uma maneira de sair da relação sem magoá-lo. Era Bento que ela amava. Sempre amou Bento, desde menina. Mas o problema era que a mídia iria massacrá-la. Seria um escândalo se ela rompesse o noivado com Maurício, tão perto do casamento, para ficar com um florista pobre. Um escândalo não seria bom para sua imagem. Não seria assim tão simples. Ela amava Bento, mas não queria perder tudo. Ela não queria abrir mão de tudo o que tinha conquistado. No ponto de vista de Amora, isso não seria justo. Era muito fácil para Bento cobrar, exigir, sendo que ele não precisaria abrir mão de nada. Ele só teria a ganhar estando ao lado dela, mas se ela ficasse com ele, corria o risco de perder trabalhos. Bento não fazia ideia do que significava ser uma celebridade, e tinha dificuldade em compreender que a carreira também era importante para ela. A vida dela não era só amá-lo.

Bento desprezava o mundo das celebridades. Ele achava que era um mundo podre, um meio perverso, do qual ela deveria se livrar. Amora até entendia as críticas que Bento fazia ao meio midiático, e ele até tinha alguma razão, só que ele era muito radical. A fama tinha um lado bom. Ela gostava de ser amada e admirada pelo país inteiro. Era bom ser valorizada e reconhecida, ainda mais para ela, que viveu na rua e era tratada feito lixo (nem todo mundo tratava bem os pedintes, mesmo sendo uma criança). Muitas garotas a tinham como fonte de inspiração, até porque ela usava looks ousados e chiques. Amora detestava o fato de Bento desmerecer o tempo todo seu trabalho. Além do mais, Bento iria querer que ela se mudasse para a Casa Verde e aceitasse o que ele tinha para oferecer, que era bem menos do que ela estava acostumada.

Amora não queria morar na Casa Verde. Ela não nasceu para ser pobre, além do mais, tinha horror àquele lugar, que a lembrava o tempo inteiro que ela foi uma menina de rua e descalça. Para ela, abrir mão de tudo o que conquistou seria o mesmo que voltar para sua infância, e ela não queria. As lembranças da infância a aterrorizavam. Ah, se houvesse um jeito de ficar com Bento sem abrir mão do luxo, do glamour e da fama! Para Amora, o problema era que ela e Bento viviam em mundos diferentes e queriam coisas diferentes. Pelo visto, o amor que os unia não estava sendo suficiente para que se acertassem e ficassem juntos.

Agora Malu resolveu desafiá-la. Na opinião de Amora, Malu estava fazendo de tudo para irritá-la. Até assumiu namoro com Bento. Para Malu era mais fácil. A mídia não iria massacrá-la, porque ela era solteira, podia namorar quem quisesse. O público de Malu era outro. Malu era metida a idealista, cuidava de crianças carentes, defendia a natureza e diversas causas sociais. Ela passava o tempo defendendo os fracos e oprimidos.

Malu não ligava para sobrenome, posição social, fama, nada. Nem fazia questão de aparecer o tempo todo na mídia. Ninguém estranharia o namoro de Malu Campana com um florista pobre, até porque ela estaria agindo de acordo com o discurso dela, com o que se esperava dela. Todos sabiam que Bento e Malu defendiam os mesmos ideais, eram parceiros, trabalhavam juntos nos projetos. Além do mais, Malu nunca ligou para a opinião pública e era discreta, nunca falou muito de sua vida pessoal para a mídia. Malu nunca permitiu que a imprensa explorasse sua vida íntima. Além do mais, Malu era dona de uma ONG, não uma subcelebridade.

Mesmo que criticassem Malu por namorar alguém como Bento, isso não faria diferença na vida dela. Malu não era estrela de comerciais de artigos de luxo, nem apresentava um programa sobre o estilo de vida dos ricos e famosos. Malu não perderia nada ficando com Bento. Ela tinha a Toca do Saci e tinha um pai podre de rico para bancá-la, ao contrário de Amora.

Todos iriam estranhar se Amora Campana resolvesse namorar alguém como Bento. Amora era a maior it-girl do país, uma das maiores influências no mundo da moda, e fazia campanhas para vender produtos caríssimos, aos quais os pobres não tinham acesso. Ela entrevistava pessoas ricas e influentes no programa. Muita gente achava que ela e Bento não tinham nada a ver, que Bento não estava à altura dela. Ela seria duramente criticada, massacrada pela mídia, pelos fãs. A relação dela com Bento seria um prato cheio para Lara derrubá-la do programa, e os grandes empresários, pertencentes às classes mais privilegiadas, donos de grandes marcas não iriam mais querer Amora Campana como representante de seus produtos. Afinal, ela estaria namorando um pobretão. Ninguém da elite iria querer ser entrevistado por ela. Ela perderia trabalhos. Se ela perdesse tudo, ninguém iria bancá-la. Bárbara vivia da mesada da Malu. O patrimônio de Plínio era bem maior que o de Bárbara.

Contudo, para Amora, ver Bento ao lado de Malu era uma verdadeira tortura, e ela ainda tinha de fingir que estava tudo bem, que não estava acontecendo nada para ser a apresentadora perfeita. Afinal, ela tinha de ser profissional e focar em seu trabalho. Não podia dar chilique.

Peixinho aproximou-se.

— Pois é, eles estão namorando, amigo. — disse Peixinho, diretor do Luxury, que estava substituindo Vitinho Barata. Ouviu parte da conversa entre Amora e Fabinho. — Aliás, não só estão namorando, como acabaram de assumir isso aqui no nosso programa. — dirigiu-se a Amora. — Amora, a Bluma tá esperando a gente. Vamos lá? Vamos.

Amora afastou-se, foi andando na frente. Ela tinha de trabalhar, não tinha tempo a perder com Fabinho. Peixinho disse:

— Com licença. — e afastou-se também.

Fabinho tomou um gole do champanhe, fervendo de raiva por dentro. Então Bento resolveu namorar sua irmã. O sujeito não brincava em serviço mesmo. Fabinho podia apostar que Bento só estava usando Malu para provocar Amora. Não era o santinho que todo mundo achava que era. Fabinho sentia que precisava dar um jeito de afastar Bento de sua família. Ele ficou observando, a uma certa distância, Plínio, Malu e Bento. Os três conversavam, animados, sem perceberem a presença de Fabinho.

Fabinho não gostou nada de ver que Bento havia conquistado o afeto e a admiração de seu pai e sua irmã. Bento parecia estar ocupando no coração de Plínio um lugar que era para ser dele. Para o desgosto de Fabinho, Bento conseguiu encantar sua irmã também. Na opinião de Fabinho, Bento era um sonso e ele não entendia como Plínio e Malu não viam isso. Aquele jeitinho de bom moço, muito simpático, muito gentil, alegrinho, não o enganava. Além do mais, ele não entendia como Plínio e Malu podiam admirar tanto um reles florista. Fabinho resolveu se aproximar. Bento, Malu e Plínio estavam rindo. Fabinho se aproximou, rindo também, irônico:

— Engraçado, né?

Foi Fabinho se aproximar para o clima ficar tenso. Os sorrisos nos rostos de Bento, Malu e Plínio desapareceram na hora. Malu pensou que ela, o pai e Bento estavam tão bem, se divertindo, mas bastou Fabinho chegar perto para estragar tudo. O que ele pretendia, falar mal do Bento? Fabinho notou que não se sentiam confortáveis na presença dele. Pelo visto, preferiam a companhia de Bento. No entanto, Fabinho acreditava que não seria assim para sempre, que Plínio e Malu gostariam dele quando soubessem quem ele era. Ele afastaria Bento. Malu disse:

— Fabinho, tua moto tá na Toca do Saci.

— Eu não posso dirigir ainda, tô com o ombro imobilizado. — disse Fabinho, colocando a mão esquerda sobre o ombro direito.

— A Malu me contou do seu acidente. — disse Plínio. — Agora, eu só não entendi uma coisa: o que você foi fazer àquela hora na Vila Guilherme?

— Eu tava indo falar com a Malu, na Toca do Saci. — disse Fabinho. — Eu ia abrir os olhos dela sobre o Bento. — bebeu um gole do champanhe.

Bento e Malu ficaram espantados com a atitude de Fabinho. Malu não conseguia entender por que Fabinho agia daquela maneira. Por que Fabinho se incomodava tanto com a amizade, a proximidade dela e do Bento? Ela não entendia nem aceitava a implicância de Fabinho com Bento. Ela não sabia a razão pela qual Fabinho tentava minar a relação de Bento com as pessoas. Malu concluiu que só podia ser por inveja, porque Bento não dava motivos para alguém ter tanta raiva dele. Ela se questionava se Fabinho não se dava conta de que a inveja que ele sentia só o prejudicava, fazendo dele um sujeito desagradável e mau-caráter, que ninguém queria por perto. Quanto mais Fabinho tentava prejudicar o Bento, jogando as pessoas contra ele, mais ele acabava afastando as pessoas de si mesmo.

Bento não entendia qual era o problema de Fabinho com ele. Fabinho o perseguia desde a infância, vivia agredindo-o e tentando colocar as pessoas contra ele. Fabinho vivia fazendo intriga, ou tentando diminuí-lo, querendo provar para o mundo que ele não era santo, nem tão legal. Como se houvesse necessidade disso. Bento não se considerava uma pessoa tão incrível assim. Ele não via nada de especial em si mesmo, e se enxergava como uma pessoa comum. No ponto de vista de Bento, ele não era melhor nem pior do que ninguém. Ele tinha consciência de que tinha um monte de defeitos, como qualquer ser humano. Só tentava ser honesto e correto, como Salma e Gilson haviam ensinado. Ele procurava tratar bem as pessoas, respeitá-las, mais nada. Bento só queria ser feliz, levar uma vida digna e fazer as pessoas à sua volta felizes. Ele não entendia o que Fabinho tinha na cabeça. O tempo passava e Fabinho ainda queria provar para o mundo que ele não era grande coisa. Para Bento, Fabinho não mudou nada, porque já andou tentando fazer a caveira dele para Plínio e Malu.

Quando ele e Fabinho eram crianças, Bento relevava, pois acreditava que por trás do comportamento de Fabinho, estava o desejo de chamar a atenção, ainda que de maneira negativa. Ele tentava ser compreensivo, tentava se aproximar de Fabinho e ter uma relação amigável com ele. Mas agora Bento estava vendo que de nada adiantou tratar Fabinho bem. Sua bondade, sua paciência e tolerância não serviram para nada. Fabinho continuava importunando-o. Infelizmente, era desta maneira que Fabinho retribuía sua generosidade, sua tolerância e tentativa de se aproximar.

— Por favor, Fábio, a hora e o local não são apropriados. — disse Plínio. Ele se perguntou se o rapaz não cansava de armar intriga.

— Plínio, o Bento não presta. — insistiu Fabinho. — O Bento não vale nada.

Bento ficou furioso. Achou que Fabinho estava passando dos limites. Ele não era de resolver as coisas através da violência. Sempre procurava dialogar. No entanto, ele via que não adiantava conversar, argumentar com Fabinho. Bento estava disposto a usar a força física para se defender, se necessário. Se havia uma coisa que ele não suportava, era injustiça, fosse contra si próprio ou qualquer outra pessoa. Fabinho insistia em tentar jogar as pessoas contra ele, e isso era inaceitável para Bento.

— Escuta aqui, moleque, eu tô me segurando pra não enfiar a mão nessa tua cara! Porque eu não vou bater num cara com o braço imobilizado por uma tipoia. E se você...

Fabinho não estava suportando ficar perto do Bento, nem ouvir a voz dele. Sentia-se mal. Fabinho sentia que precisava afastar Bento dele.

— Cala a boca! — gritou Fabinho, irritado e ao mesmo tempo em pânico. — Seu oportunista!

Plínio se viu obrigado a apartar a briga. Ele não quis saber de confusão, por isso resolveu dizer ao encrenqueiro:

— Sai daqui, garoto, agora! — disse Plínio, e Fabinho afastou-se.

Fabinho ficou horas no evento. Ficou observando Bento e Malu. Eles não desgrudavam um do outro. Fabinho ainda não desistiu de tentar afastá-los. Bento e Malu estavam conversando, quando Fabinho se aproximou por trás.

— Tem que se afastar desse cara, hein, Malu? — disse Fabinho. — Vai ser melhor pra você.

— Qual que é o teu problema comigo, hein, moleque? — perguntou Bento.

Ele não aceitava a marcação de Fabinho, a raiva que Fabinho tinha dele. O que ele tinha feito para merecer isso? Era impressionante, Fabinho vivia azucrinando-o, parecia que não podia vê-lo feliz. Ele tinha certeza de que nunca fizera mal algum ao Fabinho, e não entendia a razão de tanto ódio. Há anos ele desistira de tentar entender. Tentara ficar amigo de Fabinho na infância, procurara tratá-lo bem, mas de nada adiantara. O negócio era manter distância de Fabinho e se defender sempre que preciso.

Fabinho não diria a verdadeira razão para querer Bento longe. Não queria que ninguém soubesse de seu problema, que ele era maluco. Além do mais, não gostava de Bento, não o engolia e não queria ele perto de sua irmã, nem de seu pai. No que dependesse dele, Bento não teria lugar na sua vida, no seu mundo, nem mesmo na sua família. No ponto de vista de Fabinho, Bento ficava disputando com ele pelo amor de sua família, e ele estava cansado desta situação. Bento estava sempre no caminho dele, impedindo-o de receber um mínimo de aceitação e afeto.

— Eu sei que você tá dando um golpe. Só isso. — disse Fabinho, bebendo um gole de seu champanhe.

— Que golpe? Do que você tá falando? — perguntou Bento.

— Bento, deixe esse cara pra lá. Vem. — disse Malu, puxando-o.

— Você ainda vai ter que se explicar comigo, viu? — disse Bento, apontando o dedo para Fabinho.

Fabinho jamais iria explicar nada. Em seu ponto de vista, ele não devia satisfações para aquele otário. Além do mais, se ele era doido, isso era problema dele e ninguém tinha nada com isso.

Plínio resolveu se aproximar do rapaz. Ele não conseguia entender por que Fabinho implicava com Bento, por que tentava afastar Bento dele e de Malu. A filha já havia dito que Fabinho tinha inveja do Bento. Mas Plínio suspeitava que havia alguma coisa a mais. Fabinho parecia ter obsessão por sua família.

— Qual a razão dessa sua implicância com o Bento, posso saber?

Fabinho não podia dizer a Plínio que se sentia mal só de olhar para o Bento, por lembrá-lo de um passado doloroso. Não conseguia nem mesmo falar sobre isso. E se ele dissesse que não suportava o Bento por achá-lo um sonso, Plínio teria certeza de que ele se mordia de inveja.

Mas a verdade era que Fabinho tinha mesmo inveja de Bento, por conseguir tão facilmente o que para ele era difícil: o amor e aceitação das pessoas. Todo mundo à volta dele elogiava o Bento. Todos diziam o quanto Bento era incrível, iluminado, especial. Ao exaltar essas qualidades, as pessoas justificavam seu afeto e admiração por Bento, o que irritava Fabinho. Fabinho estava cansado de ver as pessoas colocarem Bento em um pedestal. Toda vez que elogiavam o Bento, ele sentia-se menor. Ele sentia que as pessoas se uniam para diminui-lo e exaltar o Bento.

Fabinho se sentia ofendido, agredido, como se as pessoas jogassem na cara dele o tempo todo o quanto ele não valia nada, e que jamais chegaria aos pés da grande pessoa que o Bento era. Fabinho sentia que não tinha chance alguma de conquistar o afeto de sua família com Bento por perto.

As pessoas sempre preferiam Bento a ele. Bento conquistava facilmente as pessoas com seu carisma e afetividade, e Fabinho se sentia em desvantagem porque não era carismático nem a pessoa mais meiga e gentil do planeta. Desde quando ele era pequeno, ele era rejeitado logo de cara por ser mais fechado, menos carinhoso. As pessoas o achavam antipático, esquisito ou arrogante, preferindo a companhia do carismático e solar Bento. Isso fazia Fabinho se sentir ferido, injustiçado, incapaz de competir com a popularidade de Bento. Por isso ele tentava desmoralizar o rival.

— Plínio, não é implicância. — disse Fabinho. — Eu só tô querendo abrir os olhos de vocês.

— Para com essa história de abrir meus olhos. — disse Plínio. — E por que toda essa obsessão comigo, com a minha família, se a gente mal te conhece, garoto?

Fabinho achava que ainda não era a hora de dizer a Plínio que era filho dele. Ele precisava primeiro se encontrar com Irene, falar com ela.

— Mas eu conheço Bento e sei muito bem do que ele é capaz.

— E do que ele é capaz? — disse Plínio. — De se intrometer na vida das pessoas, como você? Que do nada, ficou amigo da Bárbara e forçou uma aproximação comigo e com a Malu?

Plínio já havia conversado com Emília e com Malu a respeito de Fabinho, e tudo o que haviam lhe contado só confirmava a péssima impressão que tinha do rapaz. Ele concluiu que se Fabinho estava se aproximando de sua família, era porque tinha algum interesse. Mas ele não sabia qual era o interesse do rapaz. Talvez o garoto quisesse ficar famoso às custas de sua família. Para Plínio, Fabinho era uma figura muito estranha e suspeita.

Fabinho percebeu que Plínio não gostava nada de sua aproximação com a Bárbara. Mas ele precisou se fazer de amigo da Bárbara, ganhar a confiança dela. Era a única maneira de tentar descobrir o que exatamente ela fizera para separar seus pais. Ele não sabia, só podia fazer suposições. Fabinho acreditava que Plínio entenderia tudo quando soubesse quem ele era. Ele tinha certeza que conseguiria fazer Plínio gostar dele. Ele só precisava afastar Bento, que continuava sendo a pedra em seu sapato.

— Plínio, o que não falta é razão pra eu me aproximar de vocês.

— Então faça isso de maneira mais clara. — disse Plínio. — Porque a julgar pela sua atitude, eu só posso ficar com o pé atrás. — olhou para a cicatriz na mão do rapaz. — O vândalo que invadiu a estufa do Bento foi ferido por um ancinho. Estas marcas aí na sua mão...

Plínio achou que as marcas na mão de Fabinho podiam ter sido causadas por um ancinho. Ou por qualquer outro objeto, era difícil dizer.

Fabinho chegou à conclusão de que Bento andou mesmo fazendo sua caveira para Plínio e para Malu. Mesmo não tendo provas, com certeza Bento andou espalhando que ele destruiu a estufa e que foi Giane quem feriu sua mão com o ancinho. Ele precisava tirar Bento do seu caminho.

— Plínio, o que você tá dizendo? Você tá insinuando que eu sou o bandido dessa história? — perguntou Fabinho.

Era isso que causava uma imensa raiva em Fabinho: por que ele sempre tinha de ser o bandido, o vilão, e Bento o coitadinho? As pessoas sempre tomavam partido de Bento. Fabinho se ressentia ao ver que até seu próprio pai tinha resolvido defender Bento e ficar contra ele.

— Não estou insinuando nada. Estou dizendo que essa marca na sua mão... — disse Plínio, porém, Fabinho o interrompeu.

— Plínio, logo, logo você vai entender por quê que eu me preocupo tanto com a tua família. — disse Fabinho. — E você pode ter certeza que vai se arrepender de me julgar e me acusar desta forma.

Fabinho afastou-se, e Plínio ficou sem entender nada.

No dia seguinte, Fabinho foi trabalhar na agência, como sempre. Natan convocou a todos para uma reunião. Ele andava preocupado. Natan perguntou:

— Como nós perdemos a inscrição para o prêmio Profissionais do Ano?

— Eu te falei que a assistente da Sílvia era fraca. — disse Edu.

Desde a demissão da Sílvia e do Érico, a agência ia de mal a pior. Não podia ser diferente, pois Natan era tão vaidoso, que contratava péssimos profissionais, para poder brilhar sozinho. Mesmo ele não tendo o menor talento. Eram o Érico e a Sílvia que seguravam as pontas na agência.

— E por quê que vocês não me avisaram? — perguntou Natan. — Por quê que não fizeram nada?

— Natan, eu tentei, mas essa não é a minha função. — disse Cléo.

De fato, Cléo ali era apenas uma estagiária. Natan riu:

— Aliás, nem a função de vocês, vocês estão conseguindo fazer, né? Cadê o slogan da Cosy Bed?

— Eu mandei várias propostas pro seu e-mail, Natan. — disse Júlia.

— Só lixo! — disse Natan. — Os melhores slogans foram da Cléo. Será que até essa estagiária é melhor do que vocês?

— Ué, então traz o Érico de volta. — disse Edu. — Porque de conceito, pelo menos, ele era bom.

— É. Aí, a Sílvia pede pra voltar... — disse Júlia.

— Eu não vou trazer ninguém de volta! — interrompeu Natan, furioso. — Vocês todos, fora daqui! Cambada de incompetentes, sabotadores! Todo mundo na rua! Todo mundo na rua! Todo mundo na rua!

— Até eu, Natan? — perguntou Karol, preocupada.

— Natan, eu não, né? — perguntou Cléo.

— Gente, calma! — disse Fabinho. — A gente dá um gás pra resolver isso aí. Calma.

— Fora daqui! Fora! — gritou Natan, batendo na mesa. — Fora, fora, fora!

Como Natan havia dispensado toda a equipe, Fabinho foi para o hotel. Tentou ligar novamente para Irene. Ela não atendia. Fabinho já não sabia mais o que fazer. Ele não conseguia entrar em contato com a mãe, nem tinha o endereço dela. Fabinho não conseguia entender por que ela não atendia, nem retornava às suas ligações. Mas não iria desistir.

— Droga! E agora? — disse Fabinho, ao desligar o celular. — Malu.

Resolveu ligar para Malu. Quem sabe Malu soubesse de Irene, ou Rita, como ela agora se chamava. Ele inventaria uma desculpa qualquer para Malu lhe dar a informação. Digitou o número do celular de Malu e esperou. Malu atendeu:

— Se você me ligou pra falar do Bento...

Desta vez, Fabinho não queria falar do Bento. Só queria saber da Rita.

— Quê que tem a Rita? — perguntou Malu.

— Malu, então, eu tô querendo ligar pra ela pra agradecer a força que ela me deu no acidente, mas eu perdi o cartão dela. Vocês têm se falado?

— A gente acabou de combinar dela vir aqui amanhã. Anota o número.

— Tá. — disse Fabinho. Anotou no celular o número que Malu falou. — Tá bom, Malu. Obrigado.

Fabinho resolveu ir na Toca do Saci no dia seguinte, encontrar a mãe.

— É, mamãe. Você não quer me atender, mas agora eu já sei onde te encontrar. — murmurou. Finalmente iria ficar frente a frente com a mãe.