Notas iniciais
Se eu demorei? Sim, demais! Se vocês ficaram com raiva? Aposto que sim!
Mas tudo o que posso dizer é que passei por uma fase na qual precisava observar tudo de fora, enfim, o tão esperado capítulo está abaixo e andei lendo as reviews, me pareceu que vocês gostam de capítulo longos, então acho que compensei minha demora, pois esse é imenso.
Enjoy!

Um ambiente levemente escurecido, uma mesinha pequena de madeira com um abajur em cima e um despertador marcando 08:15 hrs.

Eu sabia onde estava, era o mesmo lugar para o qual tinha vindo tão animadamente na noite anterior.

Virei meu corpo a fim de entender o porquê de estar escuro apesar do horário e me deparei com as cortinas fechadas. Assim como a confirmação de estar mesmo onde acreditei: no apartamento de Jane, na cama dela e nos lençóis que agora possuíam o seu perfume misturado com o meu.

Esfreguei um pouco meus olhos e me ajeitei até estar sentada com as costas na cabeceira, estiquei meus braços para eliminar a tensão e removi a fina coberta do meu corpo, para poder levantar.

Andei até a janela e num ato só puxei as cortinas, que revelaram o dia ensolarado se formando em Boston.

Obviamente que meus olhos reagiram ao entrar em contato com a luz, pois estavam acostumados com a baixa claridade, então pisquei algumas vezes e o incomodo passou.

Fui até o banheiro e ao ficar de frente para o espelho reparei que estava usando uma camisa do Red Sox, o que me fez sorrir quase que instantaneamente. A peça era um tanto quanto larga, e seu corte indicava que se tratava de uma versão masculina.

E eu sorri mais uma vez.

Jane e sua fixação por roupas largas, sem se importar com o aspecto.

Como algo tão sem sentido pra mim, era capaz de ser tão encantador nela?

Passei a mão pelas letras em vermelho e liberei um suspiro.

Voltei para o quarto e percorri o local todo com os olhos, procurando pela minha bolsa, onde eu sabia que sempre levava uma escova de dentes. Logo encontrei o que procurava em cima da pequena estante em um canto na parede.

Abri o zíper, peguei o que precisava e voltei para o banheiro para finalizar minha higiene.

Assim que me considerei apresentável, guardei a escova de volta na bolsa e então ouvi um som vindo do corredor. Primeiro um ruído e depois a música em si.

Podia dizer que era algum tipo de rock, mas não conseguia identificar o cantor.

O volume estava dentro do aceitável, Jane não iria aumentar e correr o risco de perturbar o meu sono.

Isso significava que ainda pensava que eu estava dormindo, o que por sua vez me permitiria desfrutar do seu rosto surpreso ao me ver diante dela.

Então assim fui andando pelo corredor em direção à cozinha, a música foi se tornando mais próxima dos meus ouvidos e eu sorri ao me deparar com Jane se movimentando livremente pelo espaço, acompanhado o ritmo do som.

Ela não notou minha presença, o que me fez ter mais tempo para apreciar a imagem.

O corpo dela era tão simétrico, ela era totalmente proporcional. Cada centímetro combinava com o outro, cada músculo obtinha um ótimo resultado com sua estrutura e o resultado final era um tanto quanto afrodisíaco.

Eu podia observá-la sem pudor, eu podia prestar atenção sem o menor constrangimento, afinal, todas as barreiras já haviam sido rompidas.

Nossa primeira noite juntas superou todas as minhas expectativas, eu estava ciente de que seria a primeira experiência de Jane com uma mulher, mas ela soube exatamente o que fazer, e isso ainda prendia minha curiosidade.

E claro que se o começo foi bom, a noite passada tinha sido ainda melhor.

Cheguei no horários combinado, pedimos comida, escolhemos um filme, só que não conseguimos assistir mais do que 15 minutos, pois logo estávamos aos beijos no sofá.

Eu me sentia tão confortável e ainda assim tão excitada, eram múltiplas sensações reunidas da melhor forma possível.

O nível de atração foi subindo e ganhando velocidade e quando dei por mim já estávamos caminhando apressadamente em direção ao quarto, sem nem ao menos parar para desligar a televisão.

Roupas foram tiradas rapidamente e eu me surpreendi ao não me importar com a forma como elas foram descartadas. Apenas as jogava em algum canto e continuava o que estava fazendo.

Tudo se resumiu em pele com pele, calor com calor, beijos, algumas mordidas delicadas, mãos viajando por todas as partes de ambos os corpos, línguas ansiosas por contatos mais íntimos, lábios procurando por beijos em meio aos gemidos e sussurros, tremores e dedos agarrando firmemente nos lençóis na tentativa de manter algum controle.

Sorri e me permiti sair do “transe”, parei no limite que dava entrada para a sala e a cozinha e cruzei os braços.

Jane fez um movimento rápido enquanto segurava uma frigideira e ao virar, me viu.

Apertou o passo e foi até o som, para desligá-lo.

– Eu me lembro muito bem de ter mencionado que as vibrações acústicas do rock não são boas para o ambiente.

– Bom dia pra você também.

Me aproximei.

– O que está fazendo?

– Nosso café.

Uma frase simples, composta por duas palavras simples, mas com um significado extremamente complexo.

“Nosso café”.

Nosso, meu e dela.

– Certo, posso ajudar?

Observou o que estava fazendo e então virou para mim.

– Pode, ah... Você pode fazer o café enquanto eu termino isso.

– Mesmo? Não vai se incomodar pela minha demora? Como é que você chama...? “Café pornô”? – sorri.

Ela devolveu o sorriso.

– Não, até porque não tenho aquela máquina cheia de frescura que você tem na sua casa, aqui nós servimos o puro e simples café instantâneo.

– Oh não, eu não bebo instantâneo. – pensei um pouco – Tem algum tipo de chá?

– Olha bem pra mim... Tenho cara de quem toma chá?

– Eu não vejo como sua expressão facial pode esclarecer isso.

Então ela deu a volta no balcão até que nenhum objeto nos separava.

– Olha de novo então. – pediu ainda mais perto.

– Eu estou olhando.

– Ok, então acho que... – passou a mão em volta da minha cintura.

Eu podia sentir sua respiração no meu rosto.

– Você não bebe chá.

Ela sorriu.

– Não, não bebo, mas estou com sede de outra coisa agora.

Seus olhos encontraram os meus, estavam ainda mais escuros do que de costume.

Aquilo era desejo, eu sabia que era.

– E o que seria?

Oh, eu queria beijá-la, queria muito, mas antes de poder fazer o primeiro movimento, ela foi mais rápida e fechou a distância entre nós, nos envolvendo em um beijo que começou lento e suave, mas ganhou pressa e intensidade em poucos segundos.

Seu aperto em volta do meu corpo aumentou, mas era muito bom então nem se quisesse eu conseguiria reclamar.

Gemi contra o beijo e subi uma das mãos até o cabelo de Jane, onde entrelacei os dedos nos fios, ao mesmo tempo em que sentia a mão esquerda dela vaguear pelo meu corpo até chegar ao final da camisa, por onde enfiou a mão e tocou minha pele.

Quando logo o ar se tornou necessário, quebramos o beijo mas as mãos dela permaneceram no mesmo lugar.

Descansou a testa contra a minha e liberou um suspiro.

– Você está usando calcinha. – sussurrou com os lábios perto dos meus.

– Sim, eu estou.

Mudou até colocar o rosto encaixado no meu pescoço.

– Por quê? – choramingou respirando na minha pele e enterrando o nariz no meu cabelo.

– Porque acordei sem e quis colocar. – respondi sorrindo.

– Não se importou com isso ontem. – disse ao afastar o rosto e olhar para mim e para a camisa do Red Sox.

– Espere, eu mesma decidi usar isso? – perguntei.

– Não, eu escolhi.

– Por quê?

– Porque foi a primeira coisa que encontrei.

– Jane... – comecei.

– O que? Você estava com frio e sonolenta, eu tive que achar um jeito te de fazer parar de resmungar.

– Bem, isso explica porque não me lembro, meus sentidos estavam comprometidos pelo sono.

– É, acho que sim. – soltou as mãos que ainda envolviam meu corpo e se afastou com um sorriso nos lábios – Você é uma pessoa difícil de vestir Drª Isles. – brincou.

O modo como falava meu nome profissional com sua voz naturalmente roca era extremamente sexy e sensual. Sempre fazendo com que um arrepio me percorresse.

– Você me vestiu?

– Sim, eu percebi que você estava tremendo e quando perguntei qual era o problema você murmurou a palavra frio. – explicou.

Virou as costas e voltou à atenção para as panquecas que fazia.

– Certo... Não posso dizer que aprecio o corte, mas o tecido é confortável. – comentei enquanto passava a mão pela roupa – Só não entendo o porquê de ser uma peça masculina... – pensei por um momento – É de algum ex-namorado?

– O que? Não! É minha, eu comprei.

– E por que não escolheu a versão feminina?

– Porque o campeonato do Red Sox já tinha começado, eu estava sem tempo pra procurar melhor e queria ter uma camisa, então trouxe essa.

– Ok, como disse ela é confortável, e acredito ser devido ao excesso de espaço sobrando. – dei alguns passos pra trás – O que aliás é realmente significativo...

– Para! – exclamou e eu a olhei um pouco espantada – Eu estou com fome e quero terminar isso, só que não vou conseguir se você não parar.

– Sinto muito, não queria te irritar...

– Não estou irritada, é só que... – abaixou o olhar – Você está usando isso, e apesar de ficar enorme no seu corpo, ainda mostra uma boa quantidade de pele, então...

Na falta de um término para aquela frase foi que eu entendi, meu corpo estava chamando a atenção dela.

Isso ficou tão evidente quando ela falou, pois ao olhá-la bem pude notar alguns sinais.

– E isso é ruim?

– Não, é só... Distração.

– Ah... Tudo bem, vamos nos concentrar em outra coisa. – sorri e passei por ela para chegar até a geladeira – Do que é esse suco?

Se aproximou um pouco e olhou por cima do meu ombro, para a jarra que estava no interior da geladeira.

– Laranja eu acho.

– Você acha? – ela assentiu e eu peguei o suco – Como pode não saber o que tem na sua própria cozinha?

– Não sei, eu só não sei.

– Excelente resposta. – falei sorrindo.

– É o melhor que posso fazer, está muito cedo pra perguntas difíceis.

– Já passa das oito e isso não foi uma pergunta difícil. – peguei um copo e despejei o liquido dentro, para em seguida tomar um gole – Huuumm... É definitivamente de laranja.

– Está vendo? Pra que todo esse discurso se eu acertei afinal?

– Você é impossível!

– Sim, mas você gosta. – sorriu enquanto colocava as panquecas nos respectivos pratos.

Peguei um prato e me sentei na cadeira, levei a jarra de suco e Jane levou uma caneca de café.

– Instantâneo realmente não é uma boa escolha. – comentei ao cortar um pedaço da panqueca.

– Parece ótima pra mim.

– Só estou dizendo pelos seus compostos, não é muito saudável.

– Estou bem Maura, sério!

– Veremos daqui a alguns anos...

– Aí está! – apontou o dedo para mim, mas com um sorriso nos lábios – Eu sempre comentei dessa sua mania de diagnosticar as pessoas com quem saí mas nunca estive na posição delas, e agora que estou... Bem, eu entendo o desconforto.

– E eu deveria ficar com medo disso? – sorri.

– Talvez... – levou a caneca até a boca e bebeu.

Bom momento, boa conversa, era a hora da boa pergunta.

– Tem certeza de que nunca esteve com uma mulher antes?

Então de repente devolveu a caneca para a mesa rapidamente, fazendo com que um pouco do café derramasse, em seguida ouvi sua tosse.

– Sinto muito... – pegou meu copo e bebeu um pouco – O que? – perguntou ainda com a voz comprometida.

– Eu perguntei se você tem certeza de nunca ter estado com uma mulher... De uma forma sexual eu quero dizer...

– Ok, eu entendi! – levantou a mão me fazendo parar – Você adora fazer essas perguntas quando estou bebendo alguma coisa não é mesmo?

– Como assim?

– Me diz você, parece que gosta de me ver engasgar.

– Está fugindo do assunto.

Semicerrou os olhos e tentou demonstrar irritação, mas logo abriu um sorriso.

– Estou? – cruzou os braços – E como sabe?

– Anos de convivência. – expliquei – Agora, a minha resposta por favor.

Descruzou os braços e suspirou.

– Não, eu nunca estive com uma mulher antes.

– Tem certeza?

– Claro que eu tenho, se tivesse dormido com uma mulher alguma vez acho que me lembraria, certo?

– A menos que estivesse alcoolizada quando aconteceu...

– Não! Eu tenho certeza, nunca estive com uma mulher, antes... – mordeu o lábio inferior levemente, e eu conhecia aquele sinal, ela estava nervosa – Antes de você. Nem sóbria, nem bêbada.

– Certo, obrigada por esclarecer.

Voltei a atenção para a minha panqueca.

– O que causou essa dúvida? – Jane perguntou.

– Não era exatamente uma dúvida, eu só estava curiosa.

– E o que despertou sua curiosidade?

Na verdade a resposta para aquela pergunta não era tão simples, e eu sabia que se colocasse em palavras o que estava em minha cabeça, Jane poderia se assustar.

– Seus movimentos.

– Meus o que?

– Movimentos. – repeti.

– Você consegue melhor do que isso Maura.

– Sim, mas teria que entrar em detalhes.

– Tudo bem, eu não me importo, você faz isso desde que eu te conheço mesmo. – relaxou na cadeira.

– É, mas eu me refiro a detalhes íntimos.

Olhei sugestivamente.

– Ah... Bom, nesse caso... – sua postura ficou tensa.

– Eu posso falar se você quiser... – ofereci.

– Não precisa. – voltou a atenção para a panqueca no prato.

A mesma Jane de sempre, curiosa, sarcástica e impulsiva, mas que diante de algumas situações se sentia encantadoramente desconfortável.

O restante da refeição seguiu normalmente. Assim que terminamos cada uma pegou o que usou e depositou na pia.

Eu voltei para pegar a jarra de suco, e enquanto a colocava de volta na geladeira pude ouvir os barulhos dos pratos na pia, onde Jane tentava resolver as coisas.

– Você precisa de uma lava-louças. – falei ao parar ao lado dela.

– Eu tenho tudo sob controle. – respondeu ainda olhando para a tarefa em suas mãos.

– Eu sei, mas esse tipo de eletrodoméstico possui uma capacidade de limpeza realmente ótima, fornece muita praticidade e poupa tempo também.

– E você é o que? Garota propaganda agora? – sorriu.

– Jane... – eu quis ser firme, mas era impossível não retribuir ao sorriso.

Pegou um dos pratos e secou com um pano.

– Ok... Olha, eu não preciso disso, além do mais eu ia querer poupar tempo pra que? Eu vivo trabalhando, e quando não, estou com você.

Hora de provocar.

– Exatamente.

Parou o que estava fazendo, fechou a torneira e virou para finalmente me olhar, e eu correspondi para deixar claro a que eu me referia.

Nunca fui do tipo de fazer joguinhos nos relacionamentos, mas minha confiança em Jane ativou esse lado, afinal, éramos amigas antes de mais nada.

– Você só pensa nisso? – perguntou com uma mão em um lado da cintura.

– Se estiver se referindo ao sexo, não posso me responsabilizar. É involuntário uma vez que uma pequena área do meu cérebro associa o...

– Shhh... Porque não responde com um simples “Culpa sua”?

– Eu posso fazer isso! – afirmei e cheguei mais perto, encostando minha boca em seu ouvido – Culpa sua. – sussurrei.

Vi alguns fios no limite da nuca dela se arrepiarem e senti seu corpo enrijecer.

Eu sabia que ela ainda podia não estar totalmente à vontade com nossa nova situação, mas resolver isso seria fácil.

Tão logo suas mãos envolveram minha cintura e eu mudei o rosto para poder olhá-la, o que não durou muito tempo, já que em menos de dois segundos nossos lábios estavam conectados, minhas mãos respondendo e apertando o corpo dela contra o meu, até que sua língua pediu passagem, e eu rapidamente concedi.

Viramos até que minhas costas estivessem pressionadas contra o balcão. O beijo continuava intenso e Jane se empurrou contra mim, deslizando as mãos até a parte de trás das minhas coxas e me impulsionando para cima.

Separou nossos lábios e encostou os dela no meu pescoço, beijando, sugando e até mesmo mordendo levemente.

Eu estava prestes a aceitar as intenções dela de me colocar sobre o balcão, mas foi apenas abrir os olhos e ver a hora no relógio na parede da sala, que o “encanto” foi quebrado.

– Oh não! – reclamei contra o cabelo de Jane.

Ela parou e eu levantei a cabeça e a olhei.

– O que foi? Eu te machuquei? – perguntou olhando nervosamente para o meu corpo que estava maravilhosamente preso entre o dela e a madeira do balcão.

– Não! É que... Tenho que ir pra casa.

– Por quê?

– Porque eu me esqueci completamente da hora e de que encomendei um conjunto de livros e documentos históricos que chegam hoje. – olhei para o relógio – Daqui à uma hora pra ser mais exata.

– Ok, minha mãe pode cuidar disso pra você.

– Sua mãe?

– É, ela chegou hoje, lembra?

Oh Deus! Eu tinha esquecido completamente do retorno de Angela.

Ela estava de volta, e na minha casa de hóspedes.

Nós nos veríamos e teríamos que conversar devido a alteração no status do meu relacionamento com Jane.

– Claro, mas somente a minha assinatura será aceita.

– Tem certeza de que não está apenas fugindo de mim? – perguntou com uma feição séria.

– Claro que tenho! Jane eu adoraria ficar, mas realmente não posso.

– Está bem. – disse virando as costas.

Voltei rapidamente pelo corredor à procura das minhas roupas.

Antes mesmo de chegar ao quarto, vi minha calça no chão logo antes da porta.

Eu havia passado por ali e não tinha notado isso.

Quando foi que me tornei assim?

Rapidamente peguei a peça do chão e entrei no quarto, parei ao lado da cama e a vesti, assim que fechei o zíper retirei a camisa do Red Sox, a dobrei e coloquei sobre a cama.

Percorri o quarto com os olhos procurando pelo meu sutiã, mas não o encontrei.

Fiquei de joelhos e olhei em baixo da cama, onde a peça de renda preta estava.

Eu sorri ao perceber que não poderia me importar menos com minhas roupas, pois as lembranças de como haviam sido retiradas e o motivo, compensavam o descaso.

Peguei o sutiã, levantei e o coloquei.

Mas ainda faltava minha blusa, e ela eu realmente não estava conseguindo encontrar.

Saí do quarto.

– Você viu minha blusa? – perguntei para Jane assim que cheguei na sala.

Ela estava sentada no sofá e assistindo um programa esportivo, que não consegui identificar o nome.

Ao ouvir minha voz virou para mim e pude notar como sua expressão mudou ao me ver com o tronco descoberto.

Seus olhos percorreram meu corpo e pararam sobre meus seios.

– Ah... – olhou ao redor da sala até parar em um ponto no chão – Essa? – perguntou ao erguer minha blusa.

– Sim! – me aproximei e peguei a peça das mãos dela.

– Então... Você quer almoçar comigo? – ela perguntou.

Não pude deixar de me animar, já que ainda estava com medo de que minha pressa pudesse criar algum atrito entre nós.

Porém diante desse convite ficou claro que ela não queria brigar.

Terminei de vestir minha blusa.

– Claro. – respondi ainda alisando o tecido que estava levemente amassado.

– Na sua casa?

– Sim, seria perfeito.

– Ok. – levantou – Te vejo em... – olhou para o relógio – Duas horas.

Sorri.

– Certo, ah, deixa eu pegar minha bolsa.

Apertei o passo em direção ao quarto, peguei a bolsa e saí.

Jane estava parada um pouco antes da porta.

– Eu levo a comida. – avisou.

– Tudo bem.

Abriu a porta e eu passei, mas parei no limite entre o corredor e a entrada.

Nos olhamos por um breve momento e ela se aproximou e me deu um suave beijo, que eu logo tratei de aprofundar, enredando minhas mãos em seu cabelo.

O ar se tornou necessário e nos afastamos.

– Até depois. – ela disse.

– Até.

Com um sorriso nos lábios dei meia volta e saí.

O caminho para casa foi tranquilo, o trânsito não estava alarmante e cheguei em meu destino em menos de 15 minutos.

Coloquei o carro na garagem, e entrei em casa.

Tudo estava silencioso, nenhum sinal de Angela.

Eu ainda tinha tempo.

Subi para o meu quarto para tomar um banho.

Fiz tudo normalmente, tomei banho, troquei de roupa, sequei meu cabelo e em pouco menos de uma hora havia terminado.

No tempo de colocar meus brincos, a campainha tocou.

Desci e abri a porta para o entregador da minha encomenda, assinei o que era preciso e voltei pra dentro de casa.

Subi com as pastas e me sentei na cama, onde me perdi em meio as palavras contidas nos livros, que prenderam minha atenção com seus fatos e eventos.

Então ouvi um barulho vindo da parte de baixo, fechei o livro e me levantei da cama, para em seguida sair do quarto.

Com cautela cheguei ao piso de baixo e me dirigi até a origem dos ruídos.

Chegando a cozinha me deparei com Angela mexendo em alguns armários e mal tive tempo para pensar em uma reação, pois ela logo notou minha presença.

– Maura! Olá querida! Eu te assustei?

– Ah não, eu só ouvi uns barulhos e vim ver o que era.

– Claro, bom, eu estava procurando por um daqueles chás especiais que você recomenda tanto, mas acabei fazendo essa barulheira toda, me desculpe.

– Não tem problema. – sorri e me aproximei para abrir uma das gavetas e pegar o pacote com o chá – Aqui! – entreguei para ela.

– Por que não olhei aí antes? – pegou da minha mão – Obrigada.

– Você pode fazer aqui mesmo se quiser... – eu estava nervosa, muito nervosa – Aproveite e me conte sobre sua amiga, soube que estava doente mas melhorou.

Ela começou a pegar as coisas necessárias.

– Sim, eu a conheci há alguns anos, ela era amiga da esposa de um amigo do Frank, e bom... Tudo isso muito antes do nosso divórcio. Mas mantemos contato mesmo assim, então quando ela adoeceu, pediu para lhe fazer companhia.

– O que ela tinha exatamente?

– Pneumonia.

Ok, era hora de interagir. No fundo eu sabia que não era necessário sentir tanto receio diante de uma possível conversa mais profunda com Angela. Mas era impossível não ceder a meus instintos.

– Isso é grave! Ela tomou todos os remédios corretamente?

Desvie Maura! Respire fundo e desvie o assunto.

– Ela me garantiu que antes de eu chegar lá estava tomando tudo como o médico mandou, e enquanto estive lá eu cuidei para que mantivesse isso. E acho que funcionou, afinal, ela está novinha em folha!

– Fico feliz. – cheguei mais perto – Posso ajudar?

– Oh, não precisa.

– Eu insisto você pode se queimar...

– Maura, eu lido com a cozinha desde pequena, acho que consigo preparar um chá.

– Eu sei, mas...

Parei e desviei o olhar.

Era sempre assim. Quanto eu mais me empenhava para me sair bem em uma situação, mais desastrosa ela se tornava.

Vi Angela apagar o fogo e segurar meu braço.

– Vamos querida. – me puxou levemente em direção ao sofá.

Nos sentamos uma ao lado da outra.

– Certo, preciso que você faça duas coisas pra mim, tudo bem?

Assenti levemente, e ela continuou.

– Primeiro: respire normalmente, porque eu não mordo.

– Eu não...

– Só respire. – repetiu enquanto segurava minha mão.

Eu fiz o que ela pediu e respirei profundamente algumas vezes.

– Pronto, e em segundo: fale comigo.

– Angela... – eu resolvi tentar – A Jane disse que vocês conversaram e que aparentemente você está bem com a nossa nova situação, mas eu ainda não sei muito bem, ah... Como...

– Ok, você está prendendo a respiração de novo. – apertou minha mão, transmitindo apoio – Fique tranquila. E... Troque o “aparentemente” por “definitivamente”. – sorriu.

Pensei por um instante.

Se eu fizesse o que ela pediu, automaticamente o sentido da frase mudaria para um mais seguro e concreto.

Era isso o que ela queria?

– Você quer dizer...?

– Maura, lembra do que eu disse sobre você ser minha filha também? – eu assenti – Eu não menti.

– Sim, mas...

– Eu quero que você e Jane sejam felizes. Vocês são as minhas meninas, e saber que uma pode cuidar da outra dessa maneira, me tranquiliza.

– Então você não está com raiva?

– Oh Deus! Claro que não! Como eu poderia? – sorriu – Fiquei um pouco surpresa, mas raiva nunca nem sequer passou pela minha cabeça.

Me senti mais leve.

– Eu me sinto tão... Melhor.

– Não me diga que ficou com medo de mim também! Porque já basta a Jane com isso!

– Não era medo... – mas eu não podia mentir – Pelo menos não só ele, e não da forma que você pensa. Eu só não queria que isso afetasse as coisas...

– Entre nós? – completou por mim e eu assenti – Nada mudou, confie em mim.

– Obrigada.

– Eu é que é te agradeço!

– Pelo que?

– Por finalmente romper isso de eu ter que ficar insistindo pra que a Jane encontrasse alguém. Porque agora ela encontrou, e eu não precisei fazer nada, você esteve aqui esse tempo todo. – sorriu.

– Angela, eu... – mas não pude terminar, a emoção me dominou e as lágrimas embaçaram minha visão.

– Venha aqui. – me puxou para um abraço.

Era tão bom saber que tudo estava bem.

Era tão bom saber que ainda fazia parte dessa família.

Nosso abraço durou alguns segundos, e foi extremamente reconfortante, mas então a campainha tocou, e tivemos que nos separar.

Eu enxuguei as lágrimas que caíram pelo meu rosto e me levantei para abrir a porta.

Girei a maçaneta e vi Jane do outro lado, com algumas sacolas nas mãos e um sorriso no rosto.

O tempo havia passado e já era a hora do almoço...

Eu nem percebi.

– Hey! – ela disse após um curto silêncio.

– Oi. – sorri e abri passagem – Por quê não usou sua chave?

– Ah... Eu nem lembrei que tinha uma... – disse enquanto passava por mim.

Fechei a porta e vi Jane parada olhando a para a cozinha.

– O que está acontecendo aqui? – apontou para Angela que continuava se dedicando ao seu chá.

– Sua mãe e eu... Conversamos. – expliquei ao chegar perto dela.

– Certo, e... – virou para mim – Você estava chorando?

– Eu...

– Sim, mas de alegria! – Angela respondeu da cozinha.

– Eu não sei... O que você fez mãe?

– Nada Jane, ela foi ótima, e eu estou bem!

– Sim... – me olhou de cima a baixo com um meio sorriso nos lábios – Acho que está... Você sobreviveu ao furacão Angela, meus parabéns!

Eu sorri.

– Jane! – Angela alertou.

– Vamos à comida! – Jane levantou as sacolas e caminhou em direção à cozinha, onde as colocou no balcão.

– O que você trouxe? – perguntei.

– Um pouco de tudo na verdade...

– Ah isso pode significar muitas coisas, e conhecendo seu gosto pra comida eu diria que significa que aí dentro não tem nenhum alimento saudável... – Angela começou.

– E eu diria se você nada pra fazer em outro lugar mãe! – Jane interrompeu.

– Está me mandando embora?

– Acho que sim.

– Bom, a casa é da Maura, então ela decide. – virou para mim – Você quer que eu saia?

– Não.

Jane me olhou e assumiu uma expressão derrotada.

– Viu? – Angela provocou – Eu até ficaria, mas tenho que terminar de desfazer as malas e sei que querem privacidade. – desligou o fogo e levou o bule com ela – Depois eu trago de volta. Bom almoço! – saiu rapidamente.

– Por quê você faz isso? – perguntei.

– O que?

– Tratá-la assim.

– Eu não sei, ainda estou tentando me adaptar com o fato dela saber o que “privacidade” significa. – sorriu, mas ao ver minha expressão séria parou – Ok, esqueça isso. Podemos só... Almoçar?

– Claro que sim.

Ajudei a retirar os itens da sacola.

– Você tem um prato bem grande pra colocar tudo isso? Porque aí depois só escolhemos o que cada uma vai querer.

– Sim, eu tenho. – abri a porta de um dos armários superiores e avistei um prato com um bom tamanho, mas quando tentei alcançá-lo, não consegui – Jane? – chamei ainda de costas.

– Sim?

– Pode me ajudar a pegar? – virei para ela.

– Drª Isles não consegue fazer algo sozinha? Mas isso é um momento histórico! – brincou.

– Você vai ajudar ou não? – fingi irritação.

– Sim, eu vou. – se aproximou ainda sorrindo e parou ao meu lado – Por quê coloca essas coisas no alto se sabe que não vai alcançar? – perguntou enquanto pegava o prato.

– Porque não costumo usá-las com frequência.

– Claro, esqueci que a maioria é só pra enfeite. – colocou o prato sobre o balcão.

– Você não consegue parar não é?

Como resposta obtive um sorriso, e quando fui tentar passar por ela, virei o pé e me desequilibrei, mas logo os braços de Jane seguraram os meus e me impediram de cair no chão.

Então nossos rostos estavam muito próximos, e nossas respirações se misturavam.

– Você está bem? – perguntou.

– Sim, obrigada.

– Ainda não entendo porque usa esses saltos dentro de casa, uma hora vai levar um tombo feio e eu posso não estar aqui pra te segurar. – embora a escolha de palavras, seu tom desmentia qualquer irritação.

– Ninguém pode prever o futuro Jane. – falei olhando em seus olhos.

– Eu posso.

– Ah é mesmo? – ela assentiu – Como?

– Agora por exemplo.

– Eu não entendi... Você está dizendo que sabia que eu iria cair?

– Não, estou dizendo sabia que isso ia acontecer.

Delicadamente aproximou ainda mais o rosto do meu, e me deu um suave mas profundo beijo.

Durou pouco tempo, mas foi o suficiente para me fazer querer mais. E antes mesmo que eu pudesse tornar aquilo mais intenso, ela se afastou, mas continuou me segurando.

– Como você sabia? – perguntei ainda sob o efeito do beijo surpresa.

– Porque era o que eu queria fazer.

Mexi meus braços e ela me soltou, passei minhas mãos em volta da sua cintura.

– E tem mais alguma coisa que você queira fazer? – perguntei ao colar meu corpo ao dela.

– Maura...?

– Sim?

– Você está chegando muito perto.

– E eu não deveria?

– Não se quiser seguir com essa refeição.

Olhei para a comida sobre o balcão e depois para Jane de novo.

– Tudo bem, não estou com fome agora.

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Calor, muito calor.

Meu corpo estava suado e ainda se recuperando dos efeitos do orgasmo.

Estava deitada na minha cama com o lençol sobre mim, Jane ao meu lado na mesma posição e sua respiração tão ofegante quanto a minha.

Diversas pessoas que conheci já haviam me dito sobre a falta de alguma espécie de “filtro” na minha boca, o que no começo não entendi, mas depois percebi que se referia ao fato de que eu sempre falava tudo o que pensava. Embora tenha aprendido a controlar um pouco isso, naquele momento meus sentidos ainda estavam afetados, então antes mesmo de poder pensar melhor, a frase seguinte simplesmente saiu:

– Você é realmente muito boa nisso!

– Maura! – ela chamou fazendo com quem eu me virasse para olhá-la.

– O que? – eu sabia que havia sido direta, mas ainda não conseguia encarar como um problema.

– Caso ainda não tenha ficado claro, eu não sou um homem!

– Sim, eu posso perceber isso. – sorri – Só não entendi como pode ser relevante.

– Homens gostam de ouvir sobre seu desempenho, eu não preciso disso!

– Isso é um mito, esse desejo pode vir tanto de uma mulher quanto de um homem, depende da personalidade da pessoa em questão. – expliquei.

– Certo, mas eu me conheço, e sei que vou ficar bem sem ouvir seus elogios.

Apoiei o cotovelo no travesseiro e descansei meu queixo em minha mão, para sorrir e chegar mais perto.

– Então... Está supondo que eu te elogiaria todas as vezes? – ela assentiu com um sorriso provocante – Sem exceções?

– Nenhuma sequer!

Eu não pude controlar um suave riso.

– Vejo que confia muito em suas habilidades...

– Plenamente!

– Cuidado, confiança demais faz mal. – sorri.

– Tem algum estudo que diz isso?

Pensei por um instante...

Não, nenhum estudo disse algo parecido.

Então... Eu havia feito uma afirmação espontânea!

Aquilo definitivamente não era do meu feitio, e para minha total surpresa, eu não me assustei.

– Não, mas eu gosto de acreditar nessa teoria.

– Você? Defendendo algo que não tem provas? – afastou o rosto, sorrindo – Devo chamar um médico?

– Vejo que seu humor melhorou!

– Ele não estava ruim.

– De qualquer forma, isso só comprova o que eu já tinha te dito tantas vezes... Sexo é bom para o organismo, ele...

– Ok, pare! – disse colocando o dedo sobre meus lábios – Você está fazendo de novo.

– Fazendo o que?

– Falando sobre... – apontou entre nós – Isso!

– Sexo?

– É!

– Sinto muito? — não deveria soar como uma pergunta, mas eu não pude me ajudar, afinal, ainda não tinha entendido todo aquele desconforto.

– Não, não sente. – sorriu e se aproximou, até que nossos rostos estivessem a poucos centímetros de distância – E na verdade nem deve sentir, só... Me dê um tempo e eu me acostumo.

“Um tempo”?

O que ela quis dizer com isso?

Não... Ela não...

– Você quer parar com o que estamos fazendo?

Senti meu coração acelerar, temendo pela resposta.

Eu não sabia o que faria se ela dissesse que sim. Se ela confirmasse meus medos eu entraria em um território de dor ainda desconhecido.

– O que? Não! Não esse tipo de tempo Maura.

– Qual então?

– Só um pra que eu me acostume com essa sua boca sem freio em outros assuntos também.

Um alívio. Um grande alívio.

– Está bem, mas você está ciente de que muitas vezes eu posso simplesmente começar a falar e não notar seu desconforto, certo?

Eu tinha que deixá-la a par disso.

– Ah tudo bem, eu tenho um plano!

– Qual?

– Eu só descobri um jeito de te fazer ficar quieta.

– E como seria?

Não tive nem um segundo para pensar, pois logo os lábios dela estavam firmemente pressionados contra os meus e sua mão esquerda na minha cintura.

Não durou muito e não houve envolvimento mais profundo, porém deixou muito claro onde queria chegar.

– Assim! – afirmou ao se afastar um pouco.

Sorrisos...

Tudo o que eu vinha fazendo desde que Jane e eu começamos a explorar nossa relação, era sorrir.

Por qualquer motivo, por menor que fosse, eu sorria.

E bom, naquele momento não foi diferente.

– Você sabe que não vai poder me beijar sempre que quiser não é mesmo? Haverá determinadas situações em que esse tipo de contato não será permitido, dependendo de onde estivermos.

– Sim, eu sei, mas você não podia simplesmente aceitar minha ideia né? Tinha que quebrar a magia...

– Magia? Eu não entendo qual a relação conosco, uma vez que essa palavra se refere ao que os Magos chamavam de Grande...

Outra interrupção, mas dessa eu não podia reclamar, já que eram os lábios dela novamente em contato com os meus.

Sua língua pediu passagem, e eu alegremente concedi.

– Puxa... – me deu um selinho – Isso realmente... – me deu outro – Funciona!

Eu comentaria, mas não tive tempo já que logo ela rolou até estar posicionada em cima de mim.

Em meio aos nossos beijos e carícias, um som foi ouvido, uma espécie de ronco e então eu me dei conta que vinha de mim, seguido por uma sensação fria na minha barriga.

Jane parou e ergueu a cabeça até nossos olhos se encontrarem.

– Alguém está com fome. – ela disse.

– Eu aguento, continue! – puxei o corpo dela contra o meu, mas ela relutou.

– Não, você precisa recuperar suas forças.

– Eu não vou desmaiar de fome Jane, meu organismo pode esperar mais alguns minutos.

– Eu não duvido disso, mas também quero comer alguma coisa. – se levantou tentadoramente nua, abaixou para pegar sua calcinha e a vestiu – Já volto. – avisou logo após vestir a blusa também.

– Aonde você vai? – perguntei antes que ela saísse do quarto.

– Pegar a comida.

Sentei na cama.

– Oh não, eu não como na cama.

– Por quê não?

– Porque é totalmente inadequado. – respondi com naturalidade, afinal, era tão óbvio.

– De novo: por quê?

– Por inúmeras razões, tem certeza de que quer que eu cite todas?

– Esquece, só fique aí que eu não demoro. – virou as costas.

– Fazemos assim: eu vou com você e comemos na mesa. – sorri.

Ela parou e virou para mim.

– Não... É simples, encare como uma aventura!

– Mas eu não quero me aventurar agora...

– Será que eu vou ter que te trancar aqui pra garantir que não me siga?

Cruzei os braços.

– Você não faria isso.

Vamos, eu já fui mais esperta!

Era de Jane de quem eu estava falando, como ainda podia duvidar de algo vindo dela?

– Se eu fosse você não confiaria nisso. – pegou a chave que ficava no lado de dentro e balançou – Vê? É uma chave... – segurou na maçaneta e lentamente começou a fechar a porta – E se eu fechar a porta e colocar ela na fechadura pelo lado de fora, para em seguida girá-la... Bom, acho que você sabe o que acontece. – parou e deixou apenas uma fresta aberta, por onde eu podia ver seu rosto – Então, o que vai ser?

Eu não me renderia diante de qualquer outra pessoa, eu lutaria pelo direito de andar pela minha própria casa e comer onde eu quisesse, mas com ela eu só conseguia aceitar.

Quando foi que isso começou?

– Sim... – ela me olhou intrigada – Seja rápida. – sorri.

Me devolveu o sorriso e recolocou a chave na fechadura de dentro, em seguida liberou a porta e desapareceu no corredor.

Suspirei e levantei para chegar até a cadeira que ficava ao lado da minha cômoda, onde meu hobby estava precisamente dobrado.

O peguei e vesti, alisando-o para me livrar de qualquer ruga existente.

Fui até o banheiro e joguei um pouco água no rosto.

Voltei para a cama e me sentei, esperando por Jane.

Ela logo voltou com uma bandeja repleta de comida, dois copos, e uma jarra de suco, andando com certa cautela para equilibrar tudo.

– Tive que me esforçar pra conseguir pegar essa bandeja, além de estar no armário mais alto, ainda ficava escondida atrás de todas as outras coisas. – comentou ao colocar a bandeja sobre a cama.

– Não estava escondida, apenas guardada.

– Tá, mas por que tão alto?

– Como eu disse há certos itens que eu não uso com muita frequência, e essa bandeja é um deles.

Ela olhou melhor para o objeto.

– Pelo jeito eu arrisco dizer que você nunca usou ela.

– Eu só não costumo tomar café na cama. – olhei para o relógio na mesinha ao lado da cama – Ou almoçar, nesse caso.

Acertei minha posição para dar espaço a Jane para se sentar também, e foi o que ela cuidadosamente fez.

– É bom quebrar algumas tradições às vezes. – ela disse ao pegar garfo e faca.

– Eu não chamaria assim.

– Hábitos?

– Não... Nem há um nome, eu só não faço isso.

Sorriu e abaixou a cabeça para espetar uma batata.

– Não fazia. – murmurou, mas eu pude entender.

Nossa refeição se seguiu agradavelmente, Jane e eu conversamos sobre coisas cotidianas, até que um pedaço de carne mal preso ao garfo, caiu sobre meu hobby e o molho o manchou imediatamente.

Assim que me dei conta do estrago, devolvi o garfo ao prato e assumi uma postura de derrota.

– Isso tem acontecido em uma frequência realmente incomum.

Jane tentou segurar o riso, mas não conseguiu.

– Sua mão furada está ficando cada vez pior!

– Minhas mãos? – olhei para elas – Não entendo, elas parecem ótimas pra mim.

– É uma expressão Maura, só isso. – sorriu.

– Oh...

– Deixa eu pegar isso. – pegou um guardanapo e se inclinou para pegar o pedaço de carne que estava sobre minha perna direita, assim que o fez, amassou o papel e colocou no canto da bandeja.

– Eu gostava mesmo desse hobby!

– Você diz isso de todas as suas roupas... – eu argumentaria o porquê disso, mas ela continuou – E não é como se tivesse sido arruinado, é só lavar e vai ser como se nunca tivesse acontecido.

– Mesmo assim... – puxei o pedaço do tecido que estava manchado de vermelho.

– Se esfregar fica pior! – ela disse.

– Eu só estou analisando a extensão dos danos.

Puxei um pouco mais e olhei bem para o tamanho da mancha, demorou alguns segundos, mas então percebi que aquilo deixava um dos meus seios expostos.

Jane...

Olhei para ela, ainda sem soltar o hobby e encontrei seus olhos vidrados em mim, mais especificamente, na região descoberta.

Lambeu os lábios, ainda sem notar que eu a estava observando.

– Você gosta do que vê?

Sim, eu não pude me conter, e quando seus olhos encontraram os meus, automaticamente um sorriso se formou em meus lábios.

– Ah... Um pouco...

– Só um pouco? – ela assentiu com um sorriso – Tudo bem... – desci minhas mãos e desfiz o laço que mantinha o hobby fechado, para em seguida deslizá-lo um pouco pelos meus ombros, fazendo com que o outro seio se mostrasse também – E agora?

– Está melhorando... – sorriu e se aproximou, afastando a bandeja de comida, que naquele momento já havia sido completamente esquecida – Mas eu acho... – colocou as duas mãos em volta da minha cintura – Que se eu fizesse isso... – impulsionou levemente seu corpo contra o meu, meus olhos fixos nos dela e os dela nos meus, mas tudo ficou para trás conforme seu telefone tocou e ela fechou os olhos – Droga! – abriu-os e me olhou, como se pedisse algum consentimento, e eu assenti com a cabeça, pegou o celular do bolso da calça que estava no chão – Rizzoli. – passou a mão pelo cabelo enquanto ouvia a pessoa do outro lado da linha – Certo, onde? – semicerrou os olhos como se registrasse a informação – Ok, to indo pra aí! – desligou e se afastou levemente de mim – Era o Korsak.

– Um corpo? – perguntei, embora a resposta fosse óbvia.

– Sim, daqui a pouco vão te ligar também.

– Eu sei. – dito e feito, pois meu celular tocou, olhei pra ela e sorri rapidamente antes de me inclinar para pegá-lo – Drª Isles.

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Em menos de 10 minutos eu já estava pronta, optei por um vestido preto, na altura dos joelhos, sapatos da mesma cor e uma bolsa vermelha.

Prendi meu cabelo no alto da cabeça, proporcionando assim mais praticidade.

Assim que me considerei devidamente preparada e apresentável, notei que a bandeja de comida não estava mais sobre a cama, e tudo estava arrumado, obviamente que não do meu jeito, mas ainda assim pareceu adorável.

Na correria eu me lembrava de ter visto Jane tentando organizar tudo, mas não prestei muita atenção pois não queria me atrasar.

Peguei minha bolsa e saí do quarto, ao chegar na sala a encontrei encostada no balcão da cozinha, como de costume parei para checar se havia pego tudo o que precisava.

– Eu lavei tudo o que a gente usou. – informou.

– Mas não precisava. – falei ainda conferindo os itens na minha bolsa.

– Minhas mãos não vão cair se eu fizer alguma coisa Maura.

Fechei o zíper e olhei para ela, pronta para responder, mas a vi colocar a xícara de café nos lábios.

– Você ainda guarda café instantâneo no meu armário?

Ela parou e devolveu a xícara ao balcão.

– Como sabe que não é natural?

– Porque você não conseguiria se entender com a minha máquina de café em menos de 10 minutos.

Ela sorriu.

– Claro, aquela coisa tem mais botões que o controle remoto da minha TV!

– Isso não é verdade, porque eu... – mas parei ao olhá-la melhor e constatar que – Por quê ainda está vestida assim?

– Porque minhas roupas estão no carro.

– Não me diga que continua com essa mania de se trocar enquanto dirige.

– Tudo bem, eu não digo! – bebeu mais um gole e devolveu a xícara na pia.

– Isso é perigoso! O cérebro humano não pode se concentrar em duas coisas ao mesmo tempo, uma delas sempre acaba recebendo menos atenção, e nesse caso pode provocar um acidente.

– Vai com calma! Eu faço isso há anos, e estou inteira! Respira... – se aproximou – Está pronta? – confirmei com a cabeça – E sua tartaruga, já comeu?

– Você faz de propósito não é? — olhei sugestivamente e ela entendeu que eu me referia ao uso errado do nome na espécie de Bass, Jane sorriu em resposta – Os morangos estão à disposição dele.

– Ok, então vamos! – passou por mim e pegou arma e distintivo.

Ao chegarmos ao lado de fora o sol brilhava intensamente, mas uma leve brisa o acompanhava.

Vi Jane caminhar até seu carro, tirei o controle da garagem e apertei o botão de abrir, assim que a porta subiu eu entrei.

Parei ao lado da porta do motorista, mas ao colocar a mão para abri-la ouvi passos vindo na minha direção e virei rapidamente a tempo de ver Jane parar ao meu lado.

– O que foi?

– Eu esqueci uma coisa.

– E o que é?

– Isso.

Seu corpo pressionou o meu e suas duas mãos envolveram meu cabelo, com a surpresa cambaleei um pouco e encostei na lataria do veículo, dando assim mais condições para o beijo.

Nada muito íntimo nem invasivo, rápido, mas intenso.

E ela logo se afastou sorrindo.

– Vejo você daqui a pouco. – virou e saiu em passos rápidos.

Ainda era novo para mim ver esse lado dela, claro que muitas vezes havíamos conversado sobre encontros que tivemos, mas nunca pude ter uma dimensão exata de como ela agiria em um relacionamento.

Bem, se aquele fosse o jeito dela, eu não tinha do que reclamar.

Recuperei a compostura e entrei no carro, o liguei, saí da garagem e apertei o botão para fechar o portão. Assim que o vi fechado, olhei para a rua e vi que o carro dela não estava mais lá, só pude desejar que fosse realmente prudente a ponto de não se distrair na estrada ao trocar de roupa, e assim segui para a cena do crime.

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O resto do dia passou muito rapidamente, o caso tomando a maior parte dele.

Uma mulher de meia idade encontrada morta no banheiro da empresa em que trabalhava.

Pelas janelas eu já podia notar a escuridão formada lá fora, indicando que a noite havia chegado.

Estava terminando de checar alguns detalhes no corpo, e assim que terminei retirei as luvas de látex e os óculos protetores, lavei as mãos e me apoiei sobre uma das mesas de alumínio vazias, um leve toque, sem muito peso colocado, mas isso bastou para que um som fosse emitido, e uma das pernas da mesa cedesse.

Me afastei o mais rápido que pude e olhei para o estrago.

O nível na mesa estava comprometido, pendendo para um lado.

Olhei ao redor para ver se alguém poderia me ajudar a resolver aquilo, mas tudo estava vazio.

Resolvi eu mesma fazer algo.

Abaixei e comecei a analisar a perna da mesa, e só fui perceber que não estava sozinha quando uma voz rompeu atrás de mim.

– Perdi alguma coisa?

Jane e suas aparições silenciosas...

Levantei e virei para ela, alisando as rugas em meu traje profissional.

– Como é?

– O que estava fazendo? – perguntou apontando para a perna da mesa.

– Oh, tem algo errado com a mesa.

– Sim, eu posso ver isso, mas o que aconteceu?

– Bem, eu me apoiei levemente e então...

– Você quebrou? – me interrompeu.

– O que? Não, não quebrei! Como disse me apoiei levemente, e então ouvi um barulho e a mesa desnivelou.

Ela olhou para a mesa e depois para mim de novo, abriu um sorriso.

– Você quebrou! – cruzou os braços.

– Não, eu... – eu sabia que discutir não mudaria as coisas – Ok! Tenho que resolver isso de qualquer maneira.

Quando comecei a me abaixar para verificar melhor o que tinha acontecido, Jane segurou meu braço e me impediu, fazendo com que ficasse em pé.

– Deixa eu dar uma olhada.

– Não precisa fazer isso, não é seu trabalho.

– E nem seu.

– É, mas fui eu que... – parei ao notar o que ia dizer.

– Que quebrou? É, eu sei. – sorriu triunfante.

– Eu não disse isso.

– Tudo bem Maura, esse pode ser o nosso segredinho. – virou e se abaixou.

Desisti de argumentar, afinal, devido ao seu treinamento como detetive Jane sempre possuiu uma boa vantagem em nossas discussões, isso é claro enquanto ela mantinha o controle.

Alguns segundos se passaram, depois mais alguns e eu comecei a ficar nervosa.

– E então?

Parou e olhou pra mim.

– Então o que?

– Descobriu qual o problema da mesa?

– Ah, só uma peça solta.

– E tem concerto? Porque a qualquer momento pode chegar um novo corpo e eu preciso de todas as mesas disponíveis e...

– Ei, relaxa! Sem drama, dá pra arrumar!

– Mesmo? – ela assentiu – Certo, eu ajudo você. – abaixei também.

– Não tem medo de quebrar sua unha? – debochou.

– Haha, e não, até porque minhas unhas nem são tão grandes assim.

– Os arranhões nas minhas costas discordam disso. – murmurou de cabeça baixa.

Eu sorri.

– O que disse?

Eu tinha ouvido, mas não faria mal se repetisse...

– Nada.

Mas é claro que ela não faria isso.

Observei como pegou a peça solta do chão e procurou por onde ela pertencia.

– Deixe-me... – aproximei minha mão e segurei a perna da mesa na posição correta, para dar firmeza.

– Aqui, eu só preciso... – encaixou – Rosquear isso... – girou a peça algumas vezes – E pronto! – se afastou e levantou, eu fiz o mesmo e ambas olhamos para a mesa.

– Vamos ver... – coloquei a mão sob a superfície e depositei meu peso sobre ela – É, parece firme!

– Eu me pergunto como pode simplesmente soltar, quer dizer, alguém deveria controlar essas coisas, certo? Vai que tem um corpo aí, e acontece isso. – fez cara de nojo – Nossa, não seria uma cena bonita de se ver! – sorriu.

– Eu já vi coisas muito piores, acredite.

– Eu não duvido... – passou a mão pelo cabelo e eu acompanhei o movimento com os olhos, notando assim uma pequena mancha vermelha se formando na ponta do dedo indicador de sua mão esquerda.

Tomei a mão dela na minha.

– Você está com um pequeno corte na extremidade superior do seu dedo indicador.

– É só um arranhão, devo ter cortado na hora de rosquear a peça.

– Qualquer ferimento, por menor que seja deve ser mantido limpo Jane. Você não faz ideia do estrago que uma bactéria pode fazer em corte ainda menor do que esse.

– Eu imagino, mas vou ficar bem. – tirou a mão da minha.

– Eu não estou brincando. – fiz uma cara séria.

– Não vou sair daqui sem te deixar dar um jeito nisso né?

– Não mesmo.

– Ok. – suspirou.

– Lave suas mãos. – apontei para a pia.

Relutantemente ela foi até onde indiquei, enquanto eu entrava na minha sala.

Peguei um pequeno band-aid de dentro da primeira gaveta da minha mesa, e ao olhar para porta vi Jane encostada no batente.

– Então, tem alguma novidade sobre a vítima?

– Infelizmente não, tudo o que consegui passei pra você.

– Sim, Korsak e eu falamos com o filho dela, e ele não me pareceu muito afetado pela morte da mãe. – fixou o olhar em algum ponto no fim da sala – Como alguém pode não se importar com isso?

– Bem, depende do tipo de relação que mantinham. Muitos jovens se tornam instáveis e incapazes de demonstrar sentimentos como compaixão ou perda, devido à ausência de afeto durante seu crescimento.

– Você tem mesmo uma explicação pra tudo.

– Nem tudo na verdade, ainda há muito que desejo descobrir, mas no momento a única coisa que quero é que você coloque isso no seu dedo. – entreguei o band-aid para ela, que o pegou.

– Droga, eu me sinto com oito anos de novo, e minha mãe querendo colocar um curativo no meu joelho ralado.

A imagem de uma Jane criança surgiu na minha mente.

– E ela conseguia? – sorri.

– Não, porque eu saía correndo pra bater no Frankie por ter me machucado. – nós rimos enquanto ela colocava o band-aid – Feliz?

– Muito.

– Seu cabelo está... – apontou para minha cabeça, mas não prosseguiu.

Meu cabelo?

– O que? Está o que? – perguntei passando a mão por ele, tentando concertar o que estava errado, mesmo sem saber o que era.

– Com uma mecha solta.

– Eu esperava por isso de certa forma, já que não tive muito tempo pra prendê-lo adequadamente. – abri minha bolsa – Sempre deixo alguns grampos aqui para situações como essa. – encontrei um – Achei! – mas então meu problema foi para encontrar um espelho – Onde está? – vasculhei minhas coisas mais um pouco.

– O que?

– Meu espelho, preciso dele.

– Por quê você não solta o cabelo? Não seria mais fácil?

– Sim, porém eu não me sentiria confortável com isso.

– Por quê não?

– Porque entraria em desequilíbrio com o todo o resto da minha roupa. – era tão simples entender aquilo pra mim, mas pra ela não.

– Ah Deus! Quanta frescura! – revirou os olhos, mas sorriu com o canto dos lábios.

– Jane!

– Ok, esqueça o espelho. – se aproximou de mim e pegou o meu cabelo – Aqui está a causa do drama todo, agora prenda! – disse ainda segurando a mecha.

Tomei a mecha da mão dela e a coloquei no lugar certo, mesmo ainda em duvida de onde seria, devido a falta do espelho. Prendi o cabelo com o grampo.

– E então? Está certo? – perguntei.

– Melhor impossível na verdade.

– Eu não sei, me sinto estranha.

– Pura paranoia. – sorriu.

– Eu não sou paranoica, esse é um distúrbio grave Jane, saberia se o possuísse.

– É jeito de falar. – se aproximou de novo – Relaxa ok?

Eu sempre detestei casais que não conseguiam manter devida distância no seu local de trabalho, nunca entendi como alguém não podia simplesmente controlar seus instintos e saber separar as coisas.

Bom, naquele momento comecei a entender.

Jane estava tão perto, e tudo ao redor parecia começar a ficar deserto, ninguém estava nos vendo, eu sabia disso, mas mesmo assim parecia errado e ao mesmo tempo tão bom.

Começamos a fechar a distância entre nossos corpos, eu acreditei que a qualquer momento ela fosse parar e dizer que não era lugar para aquilo, mas isso não aconteceu.

Ela não disse nada, só continuou se aproximando.

Quando nossos lábios estavam prestes a se tocar, numa proximidade na qual eu conseguia sentir a respiração dela no meu rosto...

– Drª Isles, você viu a... – nos separamos rapidamente a tempo de ver Korsak parado no limiar da porta, com uma expressão um tanto quanto surpresa – Jane. – terminou.

Fale Maura! Rápido!

– Sargento Korsak... Ah, nós estávamos... – olhei para Jane, que olhou de volta para mim, esperando que eu terminasse minha frase, mas eu não sabia o que dizer, e antes de pensar melhor, Korsak foi mais rápido.

– Perdão, eu... – começou a andar para trás – Volto depois! – e saiu.

Alguns segundos de silêncio, até finalmente algo ser dito, mas não por mim.

– Vou falar com ele.

– É, você precisa.

– Eu sei. – deu um meio sorriso e saiu pela porta.

Respirei fundo.

Eu estava finalmente começando a entender que realmente não era possível controlar tudo, pois aquilo definitivamente não fazia parte dos meus planos.

Não era fácil que tudo mudasse sempre tão de repente, mas eu sabia que precisava me acostumar com isso.

Voltei minha atenção para minha mesa, guardei os itens de volta na minha bolsa e deixei tudo arrumado.

Fui até o toalete e conferi meu reflexo no espelho, ajeitando alguns fios que ficaram fora do lugar, e saí.

Ao chegar na minha sala vi meu tão procurado espelho em cima da mesa de centro, o que me deixou um pouco frustrada.

Por quê não o encontrei quando precisei?

Isso certamente teria evitado que Jane precisasse ficar tão perto de mim, e nada daquilo teria acontecido, evitando minha atual preocupação.

Espere, eu estava comentando sobre possibilidades?

Dizendo o que poderia acontecer caso devida coisa tivesse mudado?

Eu detestava fazer isso!

Ah, tudo estava uma bagunça!

Guardei o espelho de volta no lugar, e me sentei na cadeira, retomando a concentração no meu trabalho, para não pensar em outras coisas um tanto quanto alarmantes.

Olhei a hora no relógio do computador e constatei que já fazia quase uma hora desde que Jane havia saído, considerei ir vê-la, mas tão logo a vi entrando pela porta.

Me levantei de imediato.

– Como foi?

– Não consegui falar com ele. – sentou no sofá.

– Como assim não conseguiu?

– Não conseguindo ué!

– Ele evitou contato com você?

– Não! – ajeitou a postura – Nós só nos desencontramos eu acho, cheguei lá em cima e ele tinha acabado de sair pra pegar o café, e depois tivemos que conferir um suspeito.

Saí de trás da mesa e parei em frente a ela.

– E como agiu em torno de você?

– Eu não sei, não fico reparando nisso.

– Pois deveria, ajuda muito a entender o que está passando na mente dele a respeito do que viu.

– Nós não estávamos fazendo nada de demais Maura.

– Não, mas foi por pouco.

– Certo, só que agora já foi!

– Tem razão. – sentei ao lado dela – Mas vocês não chegaram a conversar sobre isso antes? Eu quero dizer, falou com Frankie e sua mãe...

– É, mas não com o Korsak, e não me pergunte o motivo, porque nem eu sei.

– Teve medo da reação dele?

– Não, quer dizer, não, não tive. – suspirou – Está tudo uma bagunça! – passou a mão pelo rosto.

Problemas, constrangimento, preocupação.

Eu nunca quis causar isso, e mesmo sabendo que não tinha feito nada de errado, boa parte de mim ainda se sentia culpada.

Pensei por um momento enquanto olhava para Jane ao meu lado.

Ela sempre conviveu com muitas pessoas ao redor, pessoas que a amavam e respeitavam.

Ela sempre fez questão de manter isso, e agora era como se tudo estivesse sendo colocado em risco de alguma forma.

– Bem, se você achar melhor nós podemos... – olhou para mim, esperando que eu continuasse, respirei fundo e me preparei – Sabe, parar um pouco até que tudo se resolva, ou até você se sentir mais confortável com isso.

Semicerrou os olhos e virou para me olhar melhor.

– O que?

– Também posso falar com o Sargento Korsak pra você, dizer que foi um mal entendido e...

– Ei, ei, ei! – me interrompeu – Nada disso! O que te deu?

– Nada, eu só... Eu não quero ser um problema Jane. – confessei.

– E não é! – meu argumento estava pronto, mas ela se apressou – Não estou brincando! Nem pense em dizer isso de novo ok?

– Então você não quer...?

– Que a gente pare? – não esperou a resposta – Claro que não! Isso foi só um... Acidente de percurso! Não era esperado mas aconteceu, e vai ficar tudo bem.

Relaxei um pouco minha postura.

– Quando foi que se tornou tão otimista?

– Eu não tenho ideia.

Nós rimos levemente.

– Mas enquanto ao...

– Eu vou dar um jeito nisso, até porque depois de tudo o que passei e o tanto de reações inesperadas que tive, duvido muito que venha a ter problema justo com o Korsak.

– Mas nós precisamos estar prontas caso isso aconteça.

– Eu sei, mas vou usar meu otimismo recém-descoberto e dizer que vai dar tudo certo.

– Ok, bom, já está tarde, você está de saída ou vai ficar mais um pouco?

– Não, eu estou indo, não há mais nada que eu possa fazer por hoje, não enquanto não receber o relatório da narcóticos.

– Entendi, vem comigo? – levantei e comecei a recolhei minhas coisas.

– Vou, mas nem pense que vai se livrar das minhas perguntas. – levantou também.

– Eu não pretendia, mas quais são elas?

– Essa história da gente se separar, achou mesmo que fosse se livrar de mim tão fácil? – cruzou os braços.

Eu ri.

– Ah claro, na verdade essa era minha intenção, mas você arruinou completamente meus planos. – desliguei o computador e fui até a porta, onde Jane já estava esperando por mim.

– Foi uma piada? Porque é bom que tenha sido. – sorriu.

– Sim Jane, foi uma piada.

– Ok, criei um monstro. – disse enquanto andávamos em direção ao elevador.

– Como? Eu não sou um...

Mas ela me interrompeu com a mão esquerda nas minhas costas, quase encostando no meu bumbum, e um arrepio me percorreu.

– É só outra expressão Maura. – a porta do elevador se abriu e nós entramos – Agora vamos logo porque eu pretendo cozinhar pra nós.

– Oh, eu gosto disso, só espero que o incidente com o molho não se repita.

– Não se preocupe, não é nada que envolva molho, suas roupas estão a salvo, mas se acontecer de você se sujar, quem sabe não podemos tomar banho juntas.

A porta fechou e meu corpo ficou quente.

Eu não esperava por aquilo, mas isso não significava que deveria rejeitar.

Notas finais
Perdoem os erros, eu estava com pressa e meu computador não está muito bom.
Podem falar da minha lentidão nas reviews, eu mereço :(
Até o próximo gente, e nesse eu espero esquentar um pouco as coisas...
Bjs *-*