Notas iniciais
Um ano depois e aqui estou, esse capítulo ficou inacabado no meu computador por meses, eu não tinha certeza se deveria continuar essa história e escolhi me afastar, continuei acompanhando a série, mas sem escrever nada sobre. O que me fez voltar? Bom, depois de ver tantas fics boas aqui eu percebi que devia ir até onde conseguisse, e fui escrevendo aos poucos, até me sentir satisfeita com o resultado. Não sei quantas palavras esse capítulo tem, desativei o contador pra não ficar paranoica, são quase seis da manhã e essa foi a hora que eu tive a inspiração final. Peço mil desculpas pelo abandono, principalmente aos novos leitores que me pediram pra não parar, mas sou humana e tenho meus surtos. Pois bem, também não prometo nada, estou indo onde minha imaginação me levar. PS: Sim, eu sei o que houve com nosso querido Lee Thompson Young (Det. Frost) e fiquei abalada, e isso inclusive me motivou a mantê-lo na história, pelo menos até onde eu achar que devo. Se tiver muitos erros, desculpem, fiquei tanto tempo sem postar que quando terminei só quis copiar e colar de uma vez. haha Enjoy!

Entrei no meu apartamento após minha luta habitual com a fechadura, que dessa vez durou ainda mais por causa do meu humor.

Fechei a porta sem cerimônia e joguei as chaves no sofá, junto com meu casaco, me encostei na madeira fria e suspirei.

Droga!

Ouvi o barulho do sininho da coleira de Jo Friday e logo senti suas patas em minhas pernas, olhei para ela:

– Hey Jo, desculpe amiga, não esqueci do nosso passeio, só preciso de um tempo antes.

Ótimo, agora eu conversava com um cachorro.

Abaixei um pouco só para afagar sua orelha e fui em direção à cozinha.

Abri a geladeira, mas optei por um copo d’água ao invés de cerveja, já que precisava me manter sóbria para pensar sobre as últimas 24 horas.

Aquele dia tinha sido uma loucura, e em todos os sentidos. Pra onde quer que eu olhasse havia algo ou alguém pra impedir a investigação de ir em frente.

Documentos, senhas, restrições...

Claro que eu já tinha passado por isso antes, dias difíceis, daqueles que dá impressão de que tudo e todos estão contra você, mas parecia que esse conseguiu ir ainda mais longe.

O caso não começou fácil, mas também não pensei que fosse completar três dias e ainda estar tão complicado.

A dor de cabeça se tornou minha companheira durante as últimas horas, chata e persistente...

Olhei ao meu redor, e o que eu vinha tentando ignorar todo o trajeto pra casa voltou na minha cabeça como uma pancada...

Eu não deveria estar ali sozinha, e sim com Maura, mas do jeito que as coisas tinham caminhado, essa não era uma possibilidade.

Mas a culpa não foi só minha, ela também errou, ou não?

Encostada no balcão da cozinha, relembrei onde tudo começou:

– E então? – perguntei a Frost, que continuava mexendo no computador.

– Nada ainda.

– Esse treco não vai mais rápido não?

– Jane, eu estou fazendo o melhor que posso, mas tem muitos dados pra serem cruzados ainda, quando o sistema encontrar uma combinação, ele vai avisar.

– Tá, mas já tem mais de meia hora.

– Desculpe, mas eu não controlo a velocidade do computador.

– Eu sei, é que eu já to ficando maluca! Como pode alguém simplesmente ser inrastriável?

– O cara é bom.

– É, e eu não gosto disso.

Ele assentiu e voltou sua atenção para a tela.

Vi Korsak chegar com uma postura desanimada.

– Como foi?

– Pior impossível. Nunca vi um filho tão indiferente, ele realmente não se importa.

– Pois é, eu já passei da fase do choque. – coloquei o peso na perna esquerda – Mas ele disse algo de útil?

– Não, o mesmo de sempre, que a mãe não tinha inimigos, que nunca foi ameaçada por ninguém, enfim...

– É, parece que tudo o que temos é esse maldito nome que não aparece no sistema.

– Mas vai aparecer! – Frost disse, e eu me virei para olha-lo – Só tenha paciência.

– Ok Frost, caso você não saiba, é dela que está falando. – Korsak chegou perto e colocou a mão no meu ombro – Jane Rizzoli não conhece essa palavra.

Os dois sorriram, e eu me afastei fingindo estar insultada.

– Muito engraçado... Por quê você não vai pra sua mesa, e você não se concentra no que está fazendo, ao invés de ficarem me perturbando?

– Alguém está de mau humor hoje.

– Talvez, e se quiser que melhore, trate de achar esse nome logo.

Sentei na minha cadeira.

Mais alguns minutos se passaram e meu nervosismo só aumentou.

Me preparei para reclamar de novo, mas fui interrompida por um movimento rápido de Frost.

– Peguei!

Levantei e fui até ele.

– Conseguiu o nome?

– Sim, aqui. – apontou o nome na tela.

– Jason Carter. – pensei por um instante – Eu não me lembro desse nome em nada do que conseguimos até agora.

– Isso porque ele tem várias identidades falsas, o cara está por toda parte nesse caso. – ele puxou alguns arquivos – Como... Steven Sanders, Raymond Buller, Jeff Adams, e por aí vai...

– Todos ligados a vítima de algum jeito?

– É, em recibos e contratos, é difícil dizer se tiveram contato pessoalmente, mas que existe uma ligação, isso existe.

– Bom, é mais do que o suficiente, tem o endereço?

– Ele não tem residência fixa... – digitou algo no teclado – Eu estou checando o celular pra ver se tem GPS...

– E tem?

– Espera... – digitou mais um pouco – Sim, aqui! Deixa eu cruzar o sinal, e ele vai... – uma imagem com coordenadas apareceu na tela, mas eu não consegui entender direito – Ai caramba...

– O que? – sem resposta – O que foi, Frost?

Korsak levantou e se juntou a nós.

– O sinal vem daqui do prédio.

– Droga... – sem tempo para terminar minha frase, pois ele continuou.

– Do necrotério na verdade.

Maura!

Tive que pensar rápido.

– Certo, não queremos uma grande bagunça por aqui, portanto vamos só nós.

– Mas não sabemos o que vamos encontrar lá embaixo! – Korsak disse.

– Eu já imagino, e não me assusta nem um pouco.

Passei por eles e fui em direção aos elevadores, apertei o botão e esperei, vi os dois se aproximarem e assim que a porta abriu nós três entramos.

Frost pressionou o botão do necrotério e logo estávamos no andar desejado.

Saímos e tudo parecia tranquilo, até demais na verdade.

Andamos um pouco e vimos o laboratório vazio, o que não me surpreendeu, afinal, já era tarde.

Chegamos a porta do necrotério, girei a maçaneta, mas não consegui abrir.

– Está trancada. – avisei.

Peguei meu celular e disquei no número de Maura, pra logo ouvir o barulho vindo de dentro da sala.

Por quê diabos ela não levou o celular?

Mas espera, pra onde teria ido em primeiro lugar?

Quase como se pudesse ler meus pensamentos, Korsak falou:

– Não entre em pânico ainda Jane, ela deve ter esquecido.

– Eu preciso entrar lá! – falei ignorando sua tentativa de me acalmar.

– Todos precisamos. – virou para Frost – Vá procurar o zelador, ele deve ter a chave.

Frost assentiu e saiu às pressas.

Alguns minutos se passaram, mas pra mim pareceram horas, eu não podia mais ficar ali de braços cruzados.

– Ok, já chega.

– O que vai fazer? Arrombar?

– Sim, por quê?

– Essas portas são grossas Jane, você sabe que não vai conseguir nada além de alguns hematomas.

Droga, ele tinha razão.

– Então acho que vou tentar algo diferente. – tirei minha arma do coldre e apontei na direção da fechadura.

– Sério? – Korsak perguntou.

– É o único jeito, Frost não volta logo com essa maldita chave, e eu preciso saber o que está acontecendo lá dentro!

– Eu sei, também estou preocupado, mas isso pode causar uma confusão desnecessária.

– Eu não me importo. – apontei minha arma em direção a fechadura e me preparei para puxar o gatilho, até que senti a mão de Korsak no meu pulso, e olhei para ele.

– Você tem certeza?

– Claro, se for preciso eu pago o estrago. – voltei minha atenção para o que estava fazendo.

Mais alguns segundos e o tiro foi certeiro, logo me livrei do que me impedia de entrar, e passei pela porta com Korsak atrás de mim, me dando cobertura.

– Alguém aí? – silêncio – Maura? – olhei ao redor da sala, mas não a vi, então fui até seu escritório, que também estava vazio.

– Ela não está aqui. – Korsak disse.

– É, mas isso não melhora as coisas. – falei passando a mão pelo cabelo – Aquele cara ainda está por aí em algum lugar, só esperando o momento certo para...

– Oh não Detetive, Drª Isles não vai gostar do que você fez com a porta.

Apontei para o homem que surgiu de alguma sombra, Korsak fez o mesmo.

– Quem é você? – Korsak perguntou.

– Suponho que já desconfiem... – provocou com um sorrisinho.

– Ele é o nosso suspeito. – falei assim que tive certeza do rosto dele ser o mesmo que vi na tela do computador alguns minutos antes.

– Muito bem Det. Rizzoli, gosto de pessoas bem informadas. – deu um passo mais perto.

– Eu não faria isso se fosse você... – dei ênfase com a arma nas mãos.

– Você não vai atirar em mim. – disse, confiante.

– Por quê não?

– Porque se fizer isso nunca vai saber onde Drª Isles está.

– O que fez com ela? – perguntei.

– Nada ainda, mas tudo vai depender do que acontecer aqui. – vi com o canto do olho Korsak ajeitar melhor a arma nas mãos – Eu aconselharia a dizer ao seu parceiro pra abandonar a pose, nenhum de vocês vai encostar em mim, porque se eu morrer, levo sua amiga junto comigo.

Desgraçado!

Olhei para Korsak, e de volta para Jason.

– Onde ela está?

– Ah não será assim tão fácil, terão que fazer algumas coisas por mim primeiro.

– Você é louco ou o que? Acha que estamos sozinhos aqui? Esse prédio é lotado de policiais, esse seu showzinho não vai durar muito tempo. – falei.

– Tudo bem, eu posso dizer o que quero aqui, ou em um interrogatório, pra mim tanto faz.

– Seu... – comecei, mas Korsak me cortou.

– Chega, você está desarmado, então isso é ridículo, levante as mãos e...

– Melhor abaixar sua arma, Sargento. – Jason o interrompeu.

A confiança em seus olhos era o que mais me assustava, parte de mim queria simplesmente atirar nele e terminar com aquilo tudo, mas a outra parte sabia que se eu fizesse isso, colocaria a vida de Maura em risco.

Então, eu deveria...

– Faça o que ele diz. – falei num tom calmo.

– O que? – Korsak perguntou, chocado.

– Abaixe a arma.

– Jane...

– Abaixe a droga da arma! – olhei para ele, tentando transmitir em meus olhos o quanto precisava que fizesse o que eu pedia.

Ele me encarou por alguns instantes e então começar abaixou a arma lentamente, até colocá-la no chão.

– Muito bem, decisão sensata... Agora, chute-a pra cá.

Devagar, Korsak fez o que ele disse, e chutou a arma em sua direção, Jason abaixou sem tirar os olhos dos meus e a pegou.

Parecia que ele sabia o quanto havia me atingido, e não quebrava o contato visual.

– Bem, vejo que ainda não desistiu de sua arma. – disse, e só então eu percebi que realmente ainda estava em posição de ataque – É uma pena, pois agora também tenho uma. — Korsak fez menção de se aproximar para detê-lo. – Não Sargento, se meu dedo escorregar o estrago vai ser grande, e sua querida colega terminará como Rebecca terminou.

A vítima...

Ele ainda tinha o sangue frio de se referir a ela com os olhos brilhando de orgulho, e nenhum arrependimento.

– Então foi mesmo você? – perguntei, embora a resposta fosse óbvia.

– É, você pode dizer isso... Mas ela não teria morrido, se não quisesse bancar a corajosa e mudar de ideia na última hora.

– Fala dos recibos que ela assinou? – ele assentiu com um sorriso – Aposto que ela não sabia o que aqueles papéis significavam de verdade, e quando descobriu e quis pular fora, você a matou.

– Olha só, agora eu entendo como chegou a esse cargo tão jovem, é realmente boa no que faz.

– Eu deveria agradecer? – perguntei ironicamente.

– Não precisa, não duvido dos seus bons modos... Mas agora chega de conversinha, vamos ao que interessa, eu quero...

– Você não quer nada! E se quiser, saiba que não vai ter! – afirmei.

– Ah não, lá vamos nós de novo, tentando me enfrentar?

– E se estiver?

Jason semicerrou os olhos para mim.

– Você me fez largar a arma pra ver isso? – Korsak perguntou.

Eu ouvi muito bem, mas não podia dar atenção a ele naquele momento, tudo o que passava na minha cabeça, era que eu não podia simplesmente ceder as vontades daquele cara, sem nenhuma garantia de que Maura estava bem.

Já havia lidado com monstros como ele, que prometiam informações se conseguissem o que queriam, mas no final, quase sempre terminava do mesmo jeito, com o refém morto, e ao pensar em quem seria nesse caso, um calafrio me percorreu o corpo todo.

Eu não ia deixar que isso acontecesse com ela.

– Bom, nesse caso veremos quem atira mais rápido.

Korsak tentou se aproximar de novo.

– Pra trás. – alertei, ainda sem olhá-lo diretamente.

– Isso é loucura. – falou – Vamos ouvir o que ele tem pra dizer, e negociar Jane, como sempre fazemos.

– Você esqueceu que do jeito que fazemos muitas vezes não dá certo? – perguntei atenta a qualquer movimento de Jason – Eu não quero e não vou deixar espaço pra isso acontecer dessa vez.

– Não foi sua escolha mais inteligente detetive.

– É o que nós vamos ver.

Nos poucos segundos que se passaram eu nem mesmo sabia ao certo como aquilo ia acabar, mas fosse como fosse, eu ia fazer aquele cara falar, do meu jeito, eu ia descobrir onde Maura estava, e eu ia...

Mas e se não houvesse o depois?

Bom, eu confiava na minha mira e agilidade, só precisava de um pouco mais de concentração e logo tudo estaria resolvido, eu não o mataria, mas faria o máximo para tirar aquele maldito sorriso sínico de seu rosto.

Por um instante vi Korsak olhar algo por cima de meu ombro, algo que chamou sua atenção, mas não tive tempo para me preocupar com isso, pois logo um barulho alto de tiro foi ouvido.

Me assustei, não tinha puxado o gatilho, e não sentia nenhuma dor também, o que significava que Jason não havia me acertado, quando o olhei vi que realmente não podia, afinal, em vez de atirador, ele era o alvo, pois logo caiu com a perna sangrando.

De onde veio isso?

Vi Korsak se aproximar e o render, dando voz de prisão e citando seus direitos, ainda confusa, virei em direção a porta, para onde ainda estava de costas, o que não me permitiu ver a identidade do atirador.

Logo pensei em Frost, afinal, ele havia saído e demorado pra voltar, talvez tivesse arrumado reforço, mas não era ele, e de todos os rostos que eu esperava ver, aquele era o último, com certeza.

– Maura?

– Oi. – ela disse, um pouco ofegante.

Abaixei o olhar e vi a arma em sua mão direita, ela a segurava com tanta firmeza que eu me surpreendi.

– O que... – ouvi os gritos de dor de Jason, que Korsak levantava sem delicadeza, e depois mais alguns palavrões de irritação, por causa de sua perna e orgulho feridos.

Não tive tempo para terminar minha frase, pois logo Frost e vários outros policiais, juntos com Cavanaugh entraram sem cerimônia na sala, e Maura abriu passagem para eles.

Tudo foi tão rápido...

– Você está bem? – Frost me perguntou, ao ver que eu continuava calada.

– Sim.

Me olhou um pouco e logo foi ajudar Korsak e os outros detetives a levar Jason, mas voltou do batente da porta.

– Vamos precisar de vocês lá em cima... – eu não havia percebido que Maura e eu estávamos nos olhando por tanto tempo, e quebrei o contato para olhar para meu parceiro, que continuou – Tem certeza de que está bem?

– Ah... Tenho, e nós já vamos.

– Ok... – saiu.

Balancei minha cabeça, como se isso fosse colocar alguma ordem na bagunça que havia dentro dela.

– Foi... Você?

– Sim. – respondeu calmamente.

– Como?

– Bem, eu apontei e pressionei o gatilho.

Ela era tão literal!

– Sim, eu sei como se usa uma arma, só pensei que você não soubesse, ou que pelo menos ainda tivesse algumas duvidas.

– Jane...

– E onde você estava pra começar?

– Creio que devo dizer isso no meu depoimento, que você com certeza verá, assim eu não preciso falar a mesma coisa duas vezes.

– Você... Eu pensei que você... Ele disse... – droga, nem uma frase completa eu conseguia formar mais.

– O que? O que ele disse?

– Que tinha te levado.

– É do perfil de muitos assassinos criar situações e cenários que mexam com a mente das pessoas, colocando-as numa posição em que qualquer passo em falso, possa causar consequências a alguém que amem. – explicou, mas ao ver meu olhar confuso, simplificou – Ele mentiu pra conseguir o que queria.

– Eu não preciso de uma aula de psicologia Maura, eu preciso saber onde você se meteu, por que a porta estava trancada, por que não levou o celular, e claro, de onde diabos tirou essa arma? – elevei a voz.

Maura olhou para mim e depois para a arma em sua mão.

– Acredito que isso seja evidência, então...

– Você não me respondeu! – cruzei os braços.

Vi quando a expressão dela mudou.

– Está brava comigo? – eu responderia, mas ela não me deu tempo – Isso é curioso, já que eu salvei sua vida.

Espere...

– Você o que? – mudei o peso de perna – Ah por favor, eu sou uma policial treinada, acha mesmo que deixaria ele me matar?

– Eu não estou duvidando das suas habilidades, apenas não tive tempo para ponderar isso, eu cheguei e fiz o que tinha que fazer.

– Simples assim? – ela assentiu – Maura...

– Olhe, nós temos que subir agora, ainda há muito a ser resolvido, que tal falarmos sobre isso depois?

– Depende, você vai responder as minhas perguntas?

– Vou.

Pensei um pouco, realmente não fazia muito sentido continuar ali, logo que em breve a sala estaria lotada de gente, processando tudo o que aconteceu.

– Ok, vamos então.

Passou por mim e saiu, e eu ainda tomei um segundo para olhar a arma em sua mão.

Ah, ela tinha muito o que explicar...

Pegamos o elevador, e durante todo o trajeto o silêncio ficou entre nós.

Eu não gostava disso, mas não podia fazer nada enquanto não conversássemos direito.

Assim que chegamos no andar de homicídios, Frost nos recebeu, ele segurava um pequeno saco de provas.

– Vocês demoraram.

– Pois é. — falei sem animo.

– Certo... Ah, Drª Isles, eu preciso... – apontou para a arma.

– Oh, claro, eu havia esquecido. – colocou a arma no saco de provas.

– Se acostumou com a sensação? – provoquei, e ela me ignorou, melhor assim, uma discussão na frente de todos não seria muito legal.

– Ok, eu vou levar pra balística. – acho que ele percebeu o clima, e logo foi embora.

– Vamos, você tem que prestar depoimento. – segurei levemente no braço dela.

– É você quem vai fazer isso?

– Não, acho que vai ser o Korsak, por quê? Tem alguma coisa que eu não posso saber? – perguntei ficando de frente pra ela – Ou melhor, mais alguma coisa?

– Por favor, eu não quero brigar.

– Só... Venha comigo. — virei e comecei a andar, com ela me seguindo.

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Como eu tinha pensado, Korsak pegou o seu depoimento, e eu fiquei assistindo a tudo, como Maura explicou cada detalhe.

Disse que estava em sua sala assinando alguns papéis, quando ouviu alguém pedindo ajuda, na direção do banheiro, provavelmente foi Jason, que queria distraí-la para entrar no lugar. Assim que chegou onde a voz parecia ter saído, e entrou em um dos corredores, percebeu que não tinha ninguém lá e ao tentar sair, se deparou com a porta trancada.

Quando foi tentar usar o celular para pedir ajuda, notou que o tinha esquecido, para então ficar alguns minutos tentando destravar a porta, ao mesmo tempo em que pedia por ajuda. Provavelmente não a ouvimos pois as paredes eram grossas, ou algo assim.

Por fim, lembrou de um grampo em seu cabelo, e o usou parar abrir a fechadura, ao sair logo viu que algo estava errado e foi em busca de sua arma.

Sim, a arma era dela!

Fiquei totalmente surpresa com aquelas palavras, com ela contando que a escondia em um dos armários perto do laboratório e que algumas vezes até a colocava na bolsa, por motivos de defesa pessoal...

Defesa pessoal?

De onde saiu tudo isso?

Quando foi que ela sentiu necessidade de comprar uma arma pra se proteger, e do que? Ou talvez até, de quem?

Por que não falou comigo?

Tudo bem, não digo que precisamos contar absolutamente tudo, mas se você se sente ameaçada por algo ou alguém, e tem uma amiga, que recentemente virou sua namorada, e que é policial, o mínimo que deve fazer é conversar com ela, certo?

Oh Deus, eu já nem sabia mais...

O resto foi aquilo que eu já conhecia, ela ouviu vozes vindo de sua sala, e ao chegar viu Jason apontando a arma pra mim, sem pensar duas vezes aproveitou que ele estava muito concentrado em me olhar nos olhos e não notou sua chegada, dando assim a chance de que ela atirasse.

Acho que sabia que eu estava vendo tudo, pois olhava para o vidro sempre que podia, como se tentasse encontrar meus olhos através dele.

Abaixei a cabeça e esperei que Korsak terminasse com as perguntas.

Talvez eu estivesse exagerando e isso não fosse motivo suficiente para uma discussão, mas meu dia havia sido muito tenso, e descobrir esse lado dela desse jeito não ajudou em nada.

Era difícil imaginá-la com uma arma em mãos, andando pelos corredores do necrotério, com algum tipo de coragem que eu ainda não tinha visto.

Se estivesse de frente para a porta, poderia ter assistido tudo, só não sei se isso ajudaria, ou pioraria as coisas.

Nesse momento uma parte de mim quase gritou dentro da minha cabeça, que Maura deveria ser muito sexy em seu jaleco branco, salto alto e armada, talvez eu...

Não, se eu fosse por esse caminho sabia que ia deixar tudo de lado, e não estava disposta a fazer isso.

Podia ser bobagem, mas ainda sim ela me devia algumas respostas.

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Me perdi em meus pensamentos e só notei a presença dela ao meu lado, quando tocou o meu braço.

– Eu não te vi sair.

– É, você pareceu realmente distraída. – não respondi, apenas olhei para o chão – Jane...

– Você podia ter me acertado. – falei baixo.

– O que?

– Eu disse que você podia ter me acertado... Quando atirou. – repeti, virando para olhá-la melhor.

– Sim, mas isso não aconteceu.

– É, não mesmo... O que me faz pensar, por quê?

– Eu não entendi.

– Maura, até onde eu sabia, você nunca tinha disparado uma arma antes, aquela vez no meu apartamento alguns anos atrás, eu deixei que segurasse a minha porque... Bom, não importa, passou, a questão é que você não precisou atirar, mas hoje, eu não vi como foi, mas você não errou, não hesitou, e algo me diz que não foi por sorte.

– Bem, tenho que concordar com seu instinto dessa vez.

– Então...?

– Eu fiz aulas de tiro.

– Pra que?

– Por defesa pessoal, como disse lá dentro.

– Certo, mas por que isso? Tem alguém te ameaçando?

– Não.

– Está correndo algum tipo de perigo?

– Não que eu saiba.

– Então de onde surgiu isso? – antes que ela pudesse responder, continuei – Quer dizer, quando isso começou?

– Eu estive pensando em algumas coisas durante o ano passado, sabe, como moro sozinha, e mesmo com sua mãe logo ao lado e você passando boa parte do tempo lá também, claro que isso antes de nós duas, você sabe... – deu um meio sorriso, que eu não pude deixar de retribuir.

– Sim, continue.

– Então havia lido sobre os índices de criminalidade aumentando, e somando com o agravante de que meu trabalho envolva a lei, cheguei a conclusão de que era muito arriscado não ter ao que recorrer caso estivesse sozinha, e precisa de algum tipo de ajuda.

– Aí decidiu comprar uma arma?

– Não, primeiramente eu procurei por um bom lugar para ter as aulas, e consultei o professor, perguntando qual seria o tipo ideal para me proteger, algo que não chamasse muita atenção, mas que surtisse efeito.

– Ok, você disse que isso foi ano passado... Então está há quase um ano, andando com uma arma pra lá e pra cá, e não me disse nada?

– Se você prefere ver dessa maneira.

– E aí?

– O que?

– Como o que? Por que não me contou?

– Porque nunca houve necessidade.

– Você e essa coisa do “nunca houve necessidade”... Tem coisas que não precisam de necessidade, e a gente conta mesmo assim. – me olhou de um jeito curioso – É confuso, eu sei, mas você me entendeu.

– Jane, eu sei que você teve um dia difícil e que correu contra o tempo para encontrar esse homem, e é claro que o modo como tudo aconteceu não favoreceu em nada, entendo que seu humor esteja ruim e que queira descontar em mim...

– Acha que isso é sobre descontar? Meu humor está mesmo terrível, mas não é por isso que estamos aqui.

– E por que é então?

– Porque você mentiu!

– Não, não menti. – cruzei os braços, na forma de desafio e ela entendeu – Alguma vez durante esse último ano você me perguntou se eu possuía uma arma?

– Não.

– E se eu sabia atirar?

– Não, mas...

– Esse é o ponto! – me interrompeu – Como eu posso ter mentido diante de uma pergunta que você nunca fez?

– Se a sua intenção era me confundir, meus parabéns, você conseguiu.

– Eu não quero te confundir, não queria que tivéssemos essa discussão em primeiro lugar.

– Não estamos discutindo!

– Tem certeza? Olhe onde estamos, você ficou sobre a mira de um homem extremamente perigoso, e mesmo estando armada também, não pode excluir as chances de ter se ferido caso eu não tivesse chegado.

– O que você quer ouvir? “Muito obrigada por salvar minha vida?” Ok, tudo bem, muito obrigada por salvar minha vida.

– Eu não quero que me agradeça, faria tudo de novo se fosse preciso, mas desejo muito que não seja. Eu só... Estou cansada, o dia foi complicado para mim também, consegue entender isso?

– É claro, não estou dizendo que pra você foi fácil, eu só acho que devia ter falado comigo antes de decidir andar armada por aí.

– Quer que eu me desculpe por omitir um fato irrelevante?

– Irrelevante? Como pode ser irrelevante eu querer saber se minha amiga anda com uma arma dentro da bolsa?

Amiga...

Primeira vez que sinto essa palavra muito vaga pra definir o que éramos.

Mas deixei passar.

– Por que isso te incomoda tanto? Acha que eu atiraria em você ou algo do tipo?

– Não, claro que não.

– Então por que tudo isso? Por que fazer de algo assim uma discussão desse tamanho? Não podemos apenas esquecer isso por enquanto?

– Eu não sei.

– Jane...

– Olha, eu tenho algumas coisas pra fazer aqui ainda, mas você pode ir pra casa eu acho, descansar, sei lá.

– Você vai me encontrar mais tarde?

– Pode ser.

– Sabe como eu me sinto sobre respostas vagas.

– É, eu também achei que sabia que você não tinha uma arma, e olha só no que deu!

– Vai mesmo continuar? – não respondi, e me senti uma idiota por isso – Tudo bem, como quiser, eu vou estar em casa caso mude de ideia. – virou para sair, mas parou e voltou – É uma pena que nossa primeira briga como um casal tenha sido sobre algo tão bobo. – chegou na porta antes que eu pudesse responder, e saiu.

Bobo?

Como assim bobo?

Pra mim não era bobo, era muito grave!

Ok, provavelmente estava parecendo uma criança repetindo as palavras assim, mas não conseguia me controlar, eu estava tão frustrada.

Respirei fundo e saí rapidamente, encontrei Frost e Korsak conversando, cada um em sua mesa.

– E aí? Cadê o nosso visitante de hoje? – perguntei ao sentar na minha cadeira.

– Está no hospital, e pediu um advogado, mesmo sabendo que as chances de sair dessa são mínimas, afinal, ele confessou em alto e bom e som.

– E está sendo vigiado?

– Claro, não tem pra onde correr.

– Eu não sei, quase conseguiu burlar o sistema, e ainda nos pegou de surpresa.

– Deu sorte, e não vai acontecer de novo.

– É o que eu espero... – me estiquei um pouco pra aliviar a tensão – E o relatório? – Frost apontou para Korsak, que ergueu a papelada, já preenchida – Quando fizeram isso? – perguntei.

– Enquanto você e a Drª Isles conversavam.

Conversa... Aquilo estava longe de ser uma simples conversa, Maura estava certa, nós discutimos, e ao afirmar isso pra mim mesma, senti um nó na garganta.

Um som familiar de saltos interrompeu meus pensamentos, e eu a vi entrando com uma pasta na mão.

Parou ao lado da mesa de Korsak e a entregou a ele.

– Aqui Sargento, acredito que queira arquivar isso. São os relatórios finais que ligam Jason Carter a esse homicídio. – sorriu ligeiramente, como sempre fazia quando não estava bem, mas mantinha a educação.

– Certo, obrigado.

Olhou pra mim por um instante e foi como se todo o peso daquele dia redobrasse sobre os meus ombros, ao ver a expressão triste em seu rosto.

– Foi muito corajosa essa noite doutora! – Frost comentou animadamente.

Ela sorriu mais uma vez, agora com um leve rubor nas bochechas.

– Eu só fiz o que tinha que fazer, mas obrigada.

– Mesmo assim. – ele sorriu de volta.

Um pequeno silêncio tomou conta do lugar, e eu senti alguém me olhando firmemente, e não era Maura, e sim Korsak, mas por quê?

Parecia que ele esperava que eu dissesse alguma coisa...

– Bem, foi um dia e tanto... – ela disse dando alguns passos pra trás – Boa noite. – ouvi Frost e Korsak responderem ao fundo, olhou para eles e depois virou somente pra mim – Boa noite Jane.

Não esperou minha resposta e saiu, com aquele mesmo ar triste que mesmo negando, eu sabia que havia causado.

– Eu acho que você não vai ter uma boa noite. – Frost disse.

– Cala a boca. – joguei uma bolinha de papel nele, que se defendeu com uma pasta.

– Frost, por que não vai pegar um café pra nós? – Korsak perguntou.

– Por que eu?

– Porque eu ainda tenho que arquivar isso, e você está aí sentado sem fazer nada. – eu sorri triunfante e ele olhou pra mim – Nem tente, ela ficou frente a frente com um maluco hoje, isso a deixa na vantagem.

– Sim, sei... – levantou e foi em direção aos elevadores.

– Cuidado com o açúcar no meu! – gritei antes de perdê-lo de vista, apenas por provocação, virei e vi Korsak me olhando daquele jeito estranho de novo – O que é?

– Não me venha com essa, você sabe muito bem.

– Se soubesse pra que ia perguntar?

– Vamos Jane, sou eu.

– Sim, eu estou vendo...

Ele levantou e puxou uma cadeira pra perto de mim.

– Você e Drª Isles estão... – olhou sugestivamente e um clarão me atingiu.

Aquele dia no necrotério... Como eu pude esquecer?

Ele nos viu quase aos beijos e eu nunca tive a chance de explicar tudo como queria, primeiro porque nos desencontramos, e em seguida porque o rumo das investigações mantiveram minha mente tão ocupada, que eu não consegui pensar em mais nada.

Lembrei de Maura comentar novamente comigo sobre como estavam as coisas, se Korsak havia falado algo ou mudado seu comportamento em relação a mim, e bom, não pude deixar de sorrir ao lembrar que ela disse isso de madrugada, completamente nua e linda, na minha cama.

Foco!

Bem, eu não tinha notado nada diferente, ele continuava igual, sorrindo, falando sobre cães e comendo sempre que podia.

Mas eu não devia ter esquecido de conversar com ele, eu não podia ter deixado isso se tornar algo grande e se arrastar por três dias inteiros.

– Ah, bom... Nós... Eu queria ter falado com você antes, mas é que...

– Acalme-se, e me responda.

– Sim, nós estamos juntas.

– Desde quando?

– Quase duas semanas, mas por favor não me cubra de perguntas, não estou bem pra isso hoje.

– Eu não vou perguntar nada, e pra ser sincero, até acho que demorou.

– O que?

– Você sabe... As pessoas comentam.

– Eu sei?

– É, sobre vocês duas, sempre juntas, rindo...

Claro que eu já tinha ouvido falar desses rumores, mas não podia acreditar que havia realmente chegado a esse ponto.

– Espera, você não acha que... Maura e eu não começamos assim ok? Esses idiotas falam porque não tem nada melhor pra fazer!

– Eu sei disso, não estou dizendo que concordo com tudo que era dito, mas o princípio estava certo.

– Que princípio?

– Que era inegável o fato de que havia muito mais do que uma amizade entre vocês.

– Certo, e como chegou a essa conclusão? – sendo que eu demorei tanto tempo, e ainda tinha minhas duvidas, mas não disse essa última parte em voz alta, ninguém precisava saber.

– Eu sou um detetive afinal! – recostou na cadeira – E como tal, observo muito bem.

– Ok então Sherlock, o que quer que eu diga?

– Nada, apenas quero que saiba que eu estou do seu lado, independente de com quem você namore.

Foi bom ouvir isso, embora não dissesse muito, Korsak era importante pra mim, não só como meu parceiro, mas também como amigo.

Ele me viu nos momentos mais frágeis da minha vida, e todos envolviam Hoyt, então ter seu apoio significava muito mais do que eu deixava transparecer.

Como sempre, mal pude controlar, e levei a conversa para o lado humorado.

– Você consegue ser ainda mais meloso do que a minha mãe.

Ele riu.

– Já falou com ela então?

– Já, esse item posso riscar da minha lista.

– Certo... – levantou, mas como se tivesse esquecido algo, voltou – Ah, eu sei que o que aconteceu lá dentro hoje não foi uma simples conversa...

Me preparei para interromper e impedir que ele entrasse em um território perigoso, mas logo me vi tão cansada que não tive energia pra isso, e só perguntei:

– Como?

– A sua cara. – simples, porém certeiro – O que eu quero dizer é que posso ter me divorciado três vezes, e isso pode ser ruim, como também pode ter me dado alguma experiência...

– Korsak...

– Olhe, não vá com muita sede ao pote, tudo bem? – olhei intrigada – Maura é uma boa pessoa, não estrague isso Rizzoli. – sorriu antes de voltar para sua mesa.

Como em várias vezes naquele dia, mal tive tempo para pensar, como Frost voltou com três copos de café, deixou um na mesa de Korsak, entregou o meu e foi se sentar com o dele.

Fiquei por alguns instantes imóvel, segurando meu café.

Num ímpeto, levantei e peguei meu casaco.

– Eu já vou, vejo vocês amanhã?

– Claro. – Korsak respondeu.

– Ei, e o seu café? Sério que eu peguei pra nada? Você mal encostou nele! – Frost disse, apontando o dedo pra mim.

Revirei os olhos, dei boa noite e saí.

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Peguei a coleira de Jo, coloquei nela, e saí.

O vento estava frio, porém suportável, as ruas escuras, mas os carros não paravam de passar.

Pensei, pensei e pensei mais um pouco.

Analisei tudo, e por mais que ferisse meu orgulho admitir isso, concluí que no final acabei aumentando algo que poderia ter sido simples.

Ponderei tudo que havia compartilhado com Maura nos últimos anos, todos os momentos, tudo o que dissemos e vivemos, e especialmente as últimas semanas, e rapidamente cheguei a conclusão de que tudo isso valia muito mais do que um simples dia ruim, e uma briga sem fundamento.

Quer dizer, até tinha fundamento, mas não tão grave quanto eu fiz questão que fosse.

Droga, eu a usei como minha válvula de escape, como meu método pra extravasar depois daquele dia agitado, praticamente joguei tudo em cima dela, direta ou indiretamente, e o que ganhei com isso?

Bom, ela havia dito que estaria em casa caso eu mudasse de ideia, resolvi considerar isso e peguei meu celular, disquei seu número ainda sem saber ao certo o que falar, apenas com a vontade imensa de tentar resolver tudo.

Vários toques e nada, tentei mais uma vez e depois de esperar, a ligação foi pra caixa postal, e eu me recusei a deixar uma mensagem.

Engraçado, disse que estaria disposta a conversar, mas quando eu tento me ignora...

Natural se eu pensasse bem, mas não pude deixar de me irritar.

Meu orgulho falou mais alto e prometi que não tentaria mais, pelo menos não naquela noite, embora é claro, que a maior parte de mim estivesse implorando por uma reconciliação.

Voltei para casa, dei comida para Jo e fui tomar banho.

Senti como se a água me livrasse do peso emocional, não todo, já que a maioria girava em torno de uma certa médica legista, linda e loira, que a propósito estava me dando um gelo também, mas enfim, terminei e saí enrolada na toalha.

Logo que coloquei os pés no meu quarto, ouvi meu celular tocar na sala, e saí às pressas, desejando mentalmente que fosse Maura, e nesse ritmo, não olhei o identificador de chamadas e atendi.

– Hey. – disse com a voz suave.

– Se está tentando me seduzir, pode ir parando! – Frost falou num tom de riso do outro lado da linha.

Imediatamente me decepcionei, mas mantive a pose.

– O que foi?

– Nada demais, só espero que você já não esteja de pijama, pois Korsak e eu decidimos vir ao Dirty pra comemorar a sorte de ter dado tudo certo hoje... – mal sabia ele que pra mim nem tudo tinha terminado tão bem – Você vem?

– Ah, eu não sei, acho que não, estou cansada... – ouvi um barulho do outro lado, como se Frost resmungasse alguma coisa.

– Me dê isso logo! – Korsak reclamou, ouvi um chiado e logo imaginei os dois brigando pelo telefone – Ei Jane, sou eu, apenas venha ok? Se distraía um pouco.

– Eu...

– Não me faça ir aí te buscar.

Pensei um pouco, eu podia levar meu celular, e se ela tentasse me ligar, não seria em vão, bom, sim, acho que eu podia fazer isso.

– Está bem, eu estou indo. – ouvi risadas ao fundo e desliguei.

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Para uma noite sem nada de especial, até que o Dirty Robber estava lotado, gente rindo e bebendo por toda parte, quase todas as mesas ocupadas.

Me esforcei um pouco procurando Frost e Korsak entre as pessoas, e finalmente os encontrei, assim indo até eles.

– Aí está você! Já ia te ligar de novo! – falou Korsak, sorridente.

– Por que?

– Demorou, pensei que tivesse desistido.

– Eu disse que viria, então aqui estou. – sentei ao lado de Frost – O trânsito está uma loucura, não sei o que deu nessa cidade hoje.

– Então... Quer que eu peça uma cerveja? – Frost perguntou.

– Não, pode deixar. – levantei a mão e sinalizei para a garçonete, pedindo duas.

– Duas? De uma só vez?

– O que? Pelo menos não preciso chamar ela de novo. – tentei sorrir, mas acho que não deu certo.

– O que você tem? – Frost perguntou.

– Nada, por quê? – eu estava ali para me distrair, não queria mencionar os problemas.

– Sei lá, parece meio...

– Por favor, estamos aqui pra beber ou conversar? – Korsak o interrompeu, e eu o agradeci mentalmente por isso.

Frost sorriu e ergueu os braços.

– Ok!

Logo a garçonete chegou, entregou minhas cervejas e foi embora.

Os minutos foram passando, confesso que quando aceitei o convite, não esperava que pudesse resolver algo, mas até que dei algumas risadas, também, como seria possível não rir com a provocação entre aqueles dois?

Consegui aproveitar um momento em que Frost estava parado e olhei a hora em seu relógio, bem... Já havia passado uma hora, como pude não perceber?

Acho que a distração funcionou afinal, mesmo que no fundo da minha cabeça ainda me sentia incomodada pelo modo como estavam as coisas entre Maura e eu.

Pensei em ligar pra ela de novo, mas era tarde, provavelmente estaria vendo algum documentário na TV, onde eu poderia estar junto, me fingindo de interessada só pra agradá-la, porém estava claro que as chances disso acontecer naquela noite, eram poucas.

Isso me irritou, levantei.

– Onde vai? – Korsak perguntou.

– Pegar uma bebida.

– O que há de errado com a cerveja?

– Nada, só preciso de alguma coisa mais forte.

Virei e fui em direção ao bar, me sentei em um dos bancos, logo Mark, o bartender, parou em frente a mim e sorriu.

– O que manda Rizzoli?

– Ultimamente não estou mandando em nada. – sorri um pouco – O que você tem de mais forte aí?

– Ow, você não vai querer, acredite em mim.

– Que foi? Acha que eu não aguento? – semicerrei os olhos – Por ser uma garota? – provoquei.

– Eu não disse isso.

– Bem, vamos ver então.

– Tem certeza? – eu assenti, com segurança, e ele virou e foi preparar minha bebida.

Rapidamente estava de volta com um copo que tinha um líquido meio roxo dentro.

– Qual é o nome disso? – perguntei olhando melhor.

– Por que? Vai beber ou escrever sobre ele? – sorriu.

Pensei um pouco.

– Ok, não importa. – virei o copo na boca, e logo me arrependi, era realmente muito forte.

– Ei, ei! Devagar! – Mark alertou.

Soltei o copo, que ainda tinha metade do conteúdo intacto, respirei fundo.

– Caramba! Isso é...

– Forte? – assenti – Foi o que você pediu.

Pisquei algumas vezes...

Cara, aquele treco era mesmo poderoso.

– É, eu sei.

– Vai tomar o resto?

– Acho que vou voltar pra minha cerveja.

Ele sorriu e quando ia retirar o copo do balcão, uma voz rompeu ao nosso lado.

– O que? Não, não... Isso é muito valioso pra ser jogado fora.

Virei e vi uma mulher parada ao meu lado, alta, cabelo curto e escuro, e olhos castanhos, muito bonita pra falar a verdade.

Como ela chegou e eu não percebi?

– Não acha que já chega por hoje Sophia? – Mark perguntou, aparentemente se conheciam.

– Eu mal comecei meu amor. – piscou pra ele – Aposto que ela não se incomoda, certo? – virou pra mim.

– Ah... – eu não ia conseguir tomar aquilo de novo mesmo, então – Não, vai em frente! – sorri.

Deu um sorriso de provocação para Mark e pegou o copo, tomando tudo de uma só vez.

Bateu de volta no balcão e liberou o ar, fazendo barulho.

– Eu adoro esse negócio!

Só por aquilo já vi que ela estava bêbada, não muito, mas do tipo em que a língua fica solta, e bom, é aí que os problemas geralmente começam.

– Percebe-se. – falei, e ela me olhou.

– Me desculpe, eu chego do nada e tomo sua bebida, deve ser estranho pra você... – me olhou sugestivamente.

Oh, certo, meu nome, ela queria saber o meu nome!

– Jane.

– Eu sou Sophia. – sorriu e estendeu a mão, que eu apertei.

– Eu sei, ouvi quando o Mark disse.

– Certo... – se acomodou ao meu lado, em um dos bancos – Você está sozinha aqui, Jane?

Oh não, ela não estava...

– Na verdade eu estou com aqueles dois ali. – apontei para Frost e Korsak que continuavam conversando.

– Eu vejo... Mas me refiro a um namorado, você tem?

Sim, acho que ela estava...

– Não, e você?

– Eu? – ela riu – Não também, sabe... – passou a mão no cabelo – Já esbarrei nisso algumas vezes, mas nunca nada que valesse a pena, aí tomei uma decisão.

– É mesmo? E qual foi?

– Eu desisti! Bem, dos homens pelo menos.

Espere...

– E isso significa...?

– Acho que você sabe o que significa. – sorriu e se inclinou mais na minha direção, mostrando o decote.

Droga, ela estava mesmo fazendo o que achei.

Estava dando em cima de mim!

Me concentrei em um ponto qualquer no ambiente, qualquer coisa menos nela diretamente, ai meu Deus...

Pra ser sincera coisas assim já tinham acontecido antes, embora eu não tenha comentado, mas isso porque nunca me importei, apenas achei curioso.

Eu sempre soube que meu jeito e as minhas roupas passavam uma imagem masculina, na verdade durante toda a minha vida as pessoas adoravam jogar isso na minha cara, e fiquei boa em ignorar ou revidar com comentários ainda mais maldosos.

Em uma determinada época, foi difícil conviver com isso, mas aprendi a lidar, e quando entrei na homicídios tudo ficou pior, eu estava bem ciente dos comentários que rolavam pelos corredores, eles se tornaram tão usados que já nem me importava mais, se tornou parte do meu dia a dia.

Estranho admitir, mas é a verdade.

Se eu gostava do que era dito?

Claro que não, mas bom, já era bem crescida e precisei seguir em frente.

Enfim, quando alguma mulher me olhava ou falava algo, eu ria, dava uma desculpa e ia embora, sempre achando engraçado que essas coisas acontecessem comigo, mas nenhuma delas foi tão direta quanto Sophia havia sido, e nas outras vezes, eu também nunca tinha beijado e muito menos feito sexo com outra mulher, isso tudo era uma possibilidade distante, ou eu queria que fosse...

Não importa, a questão era que a situação era diferente, eu tinha mudado mais em um mês, do que em uma vida toda.

Ok, talvez não por fora, mas por dentro.

Minhas ideias eram outras, meus sentimentos então, nem se fala.

Parando pra analisar, quais eram as chances de uma mulher dar em cima de mim, em pleno Dirty Robber, quando tudo o que eu mais queria era resolver as coisas com Maura?

Sério!

Será que eu tinha me tornado um imã ou algo do tipo?

Sei lá, vai ver com alguma coisa colada nas minhas costas, escrito:

“Hey! Descobri que estou apaixonada pela minha melhor amiga, as coisas mudaram agora... Quer tentar a sorte?”

Sorri ao pensar nisso, e acho que Sophia levou pro outro lado, pois se aproximou ainda mais de mim.

– Então, o que você faz?

– O que?

– Sua profissão, qual é?

– Eu sou detetive... – ela sorriu – De homicídios. – completei.

– Uh, deve ser instigante!

– É, tem seus momentos... – já sabia o que ela queria, agora só precisava achar um jeito de desviar – E você, o que faz?

Mas esse?

Qual era o meu problema?

Assim parecia que eu queria puxar papo...

– Sou uma chef, do meu próprio restaurante inclusive.

Então o que fazia num bar cheio de policiais?

Ainda bem que não perguntei em voz alta, só pioraria tudo.

– Mas meu primo é policial, aí ele me chama pra vir aqui às vezes. – ok, estava explicado.

– Entendi, ah... – eu tinha que parar com aquilo.

– Você é italiana, acertei?

– É tão óbvio?

– Só pros bons observadores, e te olhando bem... – me mediu da cabeça aos pés, sem tirar o sorriso do rosto – Dá pra notar, sem dúvida.

– Bem, eu...

– Aposto que adora massas! Eu sei fazer algumas realmente ótimas, você devia experimentar. – me preparei pra responder, mas pelo que já tinha virado um hábito, ela me interrompeu – Porém, nada é melhor do que o meu café da manhã, falo sério, minhas panquecas são divinas.

– Sophia...

– Sei o que deve estar pensando, pareço muito convencida, mas é só o álcool falando, eu geralmente sou mais tímida.

– Eu não estou pensando nada.

Ai droga, e lá vem o sorriso malicioso outra vez.

– Mesmo? Porque eu estou.

Chega, eu não podia mais continuar com isso.

– Na verdade eu...

– Jane?

Ai caramba!

Eu conhecia muito bem aquela voz, mas o que ela estava fazendo ali?

Virei lentamente e vi Maura atrás de mim, mas perto o suficiente pra que eu pudesse sentir seu perfume.

– Maura? Há quanto tempo está aí?

– O suficiente.

Isso não era bom.

– Ah, bem...

– Não vai me apresentar? – Sophia perguntou.

– É Jane, você não vai apresentar sua amiga?

– Vou, claro... Maura, essa é a Sophia, e Sophia, essa é a Maura, minha... – fiz gestos entre as duas, Sophia estendeu a mão, e Maura educada como sempre, retribuiu o gesto e a cumprimentou, embora eu pudesse ver algo diferente nos olhos dela.

Ok, concentre-se Jane! Você deixou uma frase incompleta.

O que eu deveria dizer?

Ora, já tinha praticamente gritado outro dia que Maura era minha namorada, mas não sei, estávamos em outro lugar, talvez eu devesse...

– Amiga. – ela terminou por mim, e...

O que?

Amiga?

Semicerrei os olhos e ela me retribui com um sorriso inocente.

Certo, eu tinha que ir embora, não dava mais pra suportar aquilo, não depois do dia que eu tive.

– Bom, é melhor nós irmos.

– Pra onde?

– Sua casa. – levantei – Você sabe, fazer aquela coisa...

Implorei com os olhos pra que ela me ajudasse, mas ou ela realmente não entendeu minhas intenções, ou tinha se tornado ótima em provocar, não tive tempo pra escolher uma das duas opções.

– Que coisa?

Vamos Maura!

– Conversar, lembra? Disse que a gente podia conversar...

Não me senti bem em trazer isso a tona ali, mas não vi outro jeito.

Percebi quando o brilho nos olhos dela se apagou.

– Ah certo, isso. – olhou pra baixo.

– Pois é. – virei para Sophia – Foi ótimo te conhecer, mas tenho mesmo que ir agora.

– Tudo bem, eu entendo, e olha... – levou a mão até o bolso de trás da calça, de onde tirou um cartão branco – Eu sei que provavelmente não passei uma boa primeira impressão, mas enfim, me liga um dia desses, prometo estar sóbria e ser bem mais interessante. – estendeu o cartão pra mim.

Aceitei e sorri em troca.

– Você não...

– Acho que você vai querer acompanhar sua amiga. – olhou por cima do meu ombro.

Só então vi que Maura estava passando por entre as mesas e indo embora, parando rapidamente pra se despedir de Frost e Korsak.

– Sim, eu vou, tchau.

Não dei tempo pra que me respondesse e saí.

O vento soprava forte, acho que a madrugada iria ser fria.

– Maura!

Ela parou e virou.

– O que?

– Como o que? Por que saiu daquele jeito?

– Não sei, pensei que minha presença fosse irrelevante.

– Não faça isso, ok?

– Isso o que?

– Eu só não quero começar tudo de novo...

– Por isso mesmo vim até aqui, pra tentar resolver as coisas.

– Não seria mais fácil se tivesse atendido quando eu te liguei?

– Eu estava no banho, só depois vi as chamadas perdidas.

Bem, pelo menos isso estava explicado.

– Como sabia que eu estaria aqui?

– Korsak me ligou, disse que tinha te convencido a vir, o que me lembra que ele foi muito amável comigo, mesmo por telefone, em relação a nós duas, e bem, pediu pra que eu viesse.

– Eu não sei se quero matá-lo por se intrometer, ou se agradeço.

– A segunda opção é mais viável, porque uma vez que você cometesse um homicídio, sabe muito bem o que poderia...

– Eu estava brincando! Ok? Eu... – respirei fundo – Não sei, eu só não esperava te ver hoje, ou não assim, pelo menos.

– Eu percebi.

Sophia, certo, eu deveria explicar.

– Não é o que você pensa.

Ela olhou pra baixo e cruzou os braços, mesmo sem manter contato visual comigo, podia ver o quanto estava cansada, esse dia havia drenado suas forças também, e ainda assim ela conseguia estar bonita, naquele jeans escuro, blusa branca e sapatos de marca.

– Eu não quero brigar. – falou, em voz baixa.

– Eu também não, eu...

– Nós precisamos conversar Jane, mesmo depois do dia que tivemos, não podemos adiar mais, ok?

Olhou para mim.

– Você está certa.

– Pode ser na minha casa?

– A minha é mais perto.

– A minha é mais confortável.

Surpreendentemente não me ofendi, ao invés disso dei um sorriso torto.

– O que você tem em mente, Dr.ª Isles?

Por um momento era como se a tensão tivesse ido embora e ela retribuiu meu sorriso.

– Nada...

Cara, como eu queria que aquele “nada” significasse “tudo”...

Mas nós tínhamos que conversar primeiro.

– Se você diz.

– Vamos logo, cada uma no seu carro como fazemos sempre.

– Por que a pressa? – perguntei estranhando sua repentina mudança.

– Sua amiga pediu a conta e está se preparando pra sair, não queremos encontrá-la aqui fora.

Só então acompanhei seu olhar direcionado a janela do Dirty Robber e vi Sophia abraçando algumas pessoas e pegando suas coisas, caramba, Maura realmente não perdia uma.

Suponho que com “nós não queremos encontrá-la aqui fora” ela quis dizer “eu não quero”, mas essa parte guardei como alimento ao meu ego.

Pensando bem...

Ela nunca foi do tipo ciumenta, por que raios comigo seria diferente?

– Jane?

– Sim!

– Está pronta pra ir ou prefere esperar?

– Estou pronta Maura, sempre estive.

Não sei por que motivo resolvi filosofar, mas de qualquer jeito, eu podia brincar, fazer piadas ou o que quisesse, que isso não mudaria o clima estranho que pairava entre nós.

Eu sinceramente esperava que uma conversa pudesse resolver tudo, e ao mesmo tempo admirava a agonia mal disfarçada de Maura para ir embora.

Será que ela ficou com ciúmes?

Sorri ao imaginar.

Foco Jane, você já lidou com diversos lados dela, o com raiva, frustrada, magoada e até com medo, o que não traz boas lembranças aliás, mas uma Maura com ciúmes é novidade, como um campo minado, você não conhece o terreno, então pise com cuidado, e tenha sempre em mente que por mais que tente não errar, pode acabar acontecendo, e o menor passo em falso pode ser fatal.

Quem diria que namorar uma mulher daria tanto trabalho...

Me assustei com o barulho da buzina do carro de Maura, que ela usou para me alertar, certo, eu ia ajeitar as coisas, não era nada que eu não pudesse controlar.

Rumo ao desconhecido, mas sem ousar parar.

Ótimo, mais filosofia, isso não podia ser um bom sinal.

Notas finais
Sim, haverá a parte da Maura no próximo capítulo, pretendo mostrar como foi pra ela passar por tudo isso. Com calma e aos poucos, estou voltando pessoal :) Comentem à vontade, eu vou entender haha