Um Reino de Monstros Vol. 3

15 Capítulo 3: Mais lenha na fornalha - Parte 4


Z usava o fole para aumentar as chamas da fornalha, o metal não podia resfriar. Rosicler malhava a barra de ferro com afinco.

Puxa se ela continuar assim poderá até se tornar uma armeira de mão cheia!

Letícia adentrou na oficina com o jantar. Devido ao desgaste no trabalho da forja, o grupo resolveu que o melhor prato deveria ser da dupla de artesões.

— Boa noite, senhor Z, trouxe o almoço de vocês!

E desenrolando a marmita, havia uma ave de rapina cozinhada ao molho-pardo.

— Isso não é galinha, né, fia?

— Não, na verdade Rosicler, bem... tivemos que improvisar.

— Não me diga que vocês mataram uma fênix-azul? Ela tava no programa de proteção a animais em extinção.

— Ah não, não, imagina...

— Relaxa, milico, ele tá te zoando, o seu Z aqui é gente boa.

Gente boa uma ova, meu coração quase saiu bela boca. Eu nunca ia viver em paz provocando um ecocídio...

— E como foi o progresso de Tell, senhorita Letícia?

— Unh, nós não tivemos nenhum.

A ladina engasgou com um pedaço da ave. Se aprendendo com a alquimista ele não estava se desenvolvendo, ou ela era uma péssima professora, ou ele era um aluno ruim.

— Como é que aquele mano num consegue fazer uma magia, cêle disse que estudou tanto?

— Não acho que o problema seja a quantidade de horas estudadas, mas o horário em que a cabeça dele fica vazia. É só imaginar que ele foi criado por pai e mãe, e de um dia pro outro ele perde ambos, depois acompanhou o avô numa vida nômade, até perdê-lo também. Seu coração está sobrecarregado de sentimentos, além do mais, ele é só uma criança de doze anos e já sofreu todas as pressões da vida adulta...

Estando o artesão distraído, a gatuna apontou o garfo para a alfonsina e disse-lhe:

— Quando tu falou do Tell ai agora, o teu olho chegou a brilhar, nega.

— O q-quê, quê? N-não seja ridícula, eu já tenho dezoito e ele é só um menino. Que absurdo Rosicler...

E se sentindo constrangida, a alquimista saiu da oficina pisando firme no chão.

— Que é que ela tem, hein?

— Vai saber, ela é só uma galega azeda...

A dupla terminou o seu jantar e voltou ao trabalho, dessa vez, o velhote malharia o aço e a garota estaria à frente da fornalha.

***

Tell estava deitado no beliche de cima. Através de muito dengo ele tinha conseguido a cama, o mascarado estava tão cheio de seus pedidos que cedeu, desde que o jovem ficasse calado no seu momento de oração.

— Saragat? Saragat, já tá dormindo, Saragat?

— O que é? Se urinou na cama foi?

— Não, eu...

— Fala logo!

O conjurador estava uma pilha de nervos, após orar ele só queria dormir.

— Bem, eu estava treinando hoje, eu, eu não consegui realizar a alquimia. Não sei o que está acontecendo...

— Você sempre foi meio burrinho mesmo, gente como você só pega no tranco.

Index, que servia como o seu travesseiro, saiu de debaixo do mago-espadachim e apontou seu dedo roliço na cara do encapuzado e defendeu o garoto.

— O Tell não é burro, não. Além do mais, lá em Alfonsim, ele salvou a tua vida. Você deveria ser mais agradecido...

Bong, a cajadada acertou o guardião que ricocheteou nas paredes até chegar novamente no colo do usuário do Monstronomicom.

Ele se pôs de cabeça para baixo, o servo de Nalab estava deitado de bruços na cama.

— Saragat? Hahaha.

— Você não vai me deixar dormir mesmo, não é, sua peste?

— Me desculpe, eu só quero conversar.

— Conversar sobre o quê?

O jovem desceu do beliche, ele vestia um short e uma camisa de manga branca.

Saragat sentou-se na sua cama e esperou para ouvir as queixas do seu interlocutor.

— A professora Letícia disse que eu não consigo efetuar a transmutação porque os meus sentimentos estão confusos...

O garoto ergueu a sobrancelha, o mascarado remoeu o que o outro lhe dissera. Saragat levantou a mão e depois a abaixou.

O neto de Taala ficou frustrado, embora um conjurador fosse um clérigo como qualquer outro, ele não era bom em dar conselhos.

— Tell, eu não sou bom nessas coisas...

— Eu que o diga!

— Cale a boca, Index!

— Calei.

O garoto passou a rir. Aqueles dois nunca concordariam em nada.

— A magia em si não resulta apenas da interpretação teórica e prática de conhecimentos, Tell de Lisliboux, ela também advém da vontade, da imaginação e dos sentimentos. Muitas pessoas não conseguem praticar magia pela incapacidade de uso da energia mágica como muitos já teorizaram, mas sim porque são indolentes, infecundos e insensíveis, está entendendo?

Conhecendo o seu líder, ele fez um gesto de cabeça indicando que tinha entendido, embora não tivesse captado nada do que o outro dizia. Ele continuou a sua explanação:

— A magia, além da energia mágica para ser efetuada, precisa de uma dose de sentimento, outra de imaginação e certa quantidade de vontade. Dosando esses ingredientes, você se tornará o maior mago de todos os tempos...

— Isso é a receita de um bolo ou um estudo de magia?

— Index, eu tento ser legal com você, mas parece que você não quer me ver feliz.

— Tell, me segura!

— Vem, Index, deixa esse encapuzado feioso sozinho.

Os dois saíram em disparada pela porta, o mascarado fez menção de correr atrás deles, mas desistiu. Agora ele poderia ter uma boa noite de sono.