Um Pedaço De Mim Sem Você
2 Me sinto perdida
Notas iniciais
Será que realmente vamos precisar usar todas essas contas que aprendemos na escola, futuramente? Olhei novamente para o relógio, 14h40min, a hora não passa nunca. O professor Jones continuava andando de um lado para o outro da sala de aula falando sobre a importância da matemática no mundo.
Quando o sinal, que indica o término das aulas do dia finalmente tocou sai do colégio em disparada sem me despedir de ninguém.
– Boa tarde srta. Parker. – Harris cumprimentou quando entrei no carro.
– Boa tarde Piter! – Respondi.
Pitter Harris é o meu motorista, papai o contratou há um ano, depois que eu me recusei a dirigir.
Ele me deixou na clinica. Minha fisioterapeuta disse que estou tendo um grande progresso e que em alguns meses poderei voltar a dançar normalmente. Não sinto mais dores, mas não vejo progresso algum, o acidente aconteceu há um ano e ainda estou proibida de fazer o que mais gosto. Dançar. Eu já posso fazer alguns passos, mas mesmo assim é muito limitado.
A dança é a única coisa que faz eu me sentir viva. Onde consigo expressar cada sentimento dentro de meu ser, sem limitações. É ser livre para ser você sem se importar com o que os outros acham, enfim, é ser livre. E não me sinto livre com tantas limitações nos meus passos. A magia da dança esta desfeita e sem previsão de volta.
Chego em casa me sentindo exausta, sozinha e triste, a casa parece vazia. Aproveito a deixa e subo rapidamente para o quarto, tomo banho, visto meu moletom favorito e deixo o cabelo solto e molhado. Jogo-me na cama. Apesar de viver em total conforto, ter uma riqueza extravagante e liberdade total para fazer o que bem entender, a dor toma conta de mim. Um sentimento horroroso — de falta, de culpa, de solidão, de perda, de tudo que é ruim. É impossível remate-la.
Ela se foi, e me deixou aqui, desamparada, sem chão, sem ar. Agora estou sem rumo, me sinto perdida. Sem saber o que fazer e como agir.
Dói saber que nunca mais ela vai me abraçar, dói não ouvir suas palavras de consolo, dói não sentir o seu cheiro. Dói nunca mais poder vê-la.
Teve momentos, desde que mamãe morreu que pensei em acabar com minha própria vida. Cortei meus pulsos diversas vezes até que...
A lembrança invade a minha mente.
O olhar desesperado de Luke ao entrar no quarto e me ver ensangüentada com uma lâmina na mão, a forma como ele me abraçou enquanto eu estava em prantos e me ajudou a fazer um curativo. Atitudes de adulto em um garotinho de nove anos.
Naquele dia prometi que jamais abandonaria meus irmãos. Seria forte por eles!
Ouço meu celular tocar insistentemente na mesa de cabeceira. O pego e desligo. Alguém bate na porta. Ignoro. Eu guardo a minha dor, para que as pessoas ao meu redor não fiquem tristes também. Mas tem horas que eu simplesmente não consigo guardar. Sufoca. Ficar sozinha pra mim é uma tortura.
A dor é forte demais. Feroz. Um ferimento que jamais vai se curar.
As lágrimas escorrem descomedidas, os soluços estão cada vez mais freqüentes e altos. Passo horas nesse estado até que a escuridão me domina.
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