Um Pedaço De Mim Sem Você
18 Para tudo tem uma 1ª vez
Notas iniciais
Estou congelando aqui e quase não sinto mais meus dedos, como que queria uma lareira agora kk
Luana Santos, Giovanna Simonario e Bellatrix me abandonaram :(
Enfim, boa leitura para vocês!
Saudade é um sentimento demasiado. Chega do nada e com mais violência que um touro. Não pede autorização. Simplesmente chega. Te tortura. Te corrói. Não existe remédio que cure ou anestesie. O sentimento tem vontade própria e é impossível retardá-lo. Saudade faz qualquer um chorar.
E nessas horas tudo que se pode fazer é aceitar.
Alyssa e Cindy não param de tagarelar sobre uma maldita festa que vão dar enquanto os pais estão fora. Quando se esta mal e o que mais quer é ficar sozinha você vira um imã para pessoas tagarelas.
Me sinto angustiada. Tenho vontade de gritar, berrar com o mundo que parece girar perfeitamente ao meu redor, mas nada dentro de mim parece funcionar direito. Sinto-me quebrada. A angústia aumenta. A voz das garotas agora é apenas um som de fundo para os pensamentos e sentimentos conflitantes que invade o meu ser.
Largo o lápis, levanto e saio rapidamente da sala sem pedir permissão. Sinto todos os olhares em mim. Sei que vou ficar encrencada depois, mas nem ligo para isso. As lágrimas já estão caindo, passo correndo pelos corredores vazios em direção ao banheiro. Esbarro em alguém, mas nem me dou ao trabalho de ver quem é, ou, ao menos, pedir desculpas. Finalmente chego ao banheiro. Tranco-me em uma das cabines e permito que as lágrimas caiam. Cada vez com mais freqüência. Os soluços chegam. Aumentam. Até que já podem ser ouvidos por qualquer um que passe na frente do banheiro. Meu corpo treme convulsivamente. Fico ali sentada enquanto a dor me dilacera. Depois de um tempo as lágrimas diminuem.
Abro a porta e paraliso ao ver a pessoa parada encostada na parede. Matthew. Finjo que não o vi e vou até a pia lavo meu rosto e minhas mãos. O garoto fica me observando, mas não fala nada. Encaro meu reflexo no espelho. Antes que eu possa me controlar às lagrimas voltam, descem descomedidas, sem permissão. Um lenço de papel se materializa na minha frente. O pego e sorrio entre lágrimas. Matthew me surpreende ao me puxar para um abraço. Não resisto, estou fraca demais para fazê-lo. O abraço foi forte fez eu me sentir segura, e uma onda de calma se instalou pelo meu corpo. Ele me soltou.
- Vem comigo.
Dawnson pegou a minha mão, mas hesitou quando seus olhos encontraram a cicatriz gelada e branca nos meus pulsos. Ele ergueu as sobrancelhas.
- O que foi isso? – Perguntou. Garoto curioso!
- Acidente de carro. – Menti. Essa é a desculpa que eu dava para todos que perguntavam, não foram muitos na verdade e todos acreditaram. Eu acho. Mas Dawnson não pareceu acreditar. Ele olhou nos meus olhos. Vi a dúvida passar em seu rosto, como se tivesse decidindo se acreditava ou não. Enfim, saiu me arrastando para fora do banheiro, pelos corredores.
- Hey, espera, para onde vamos? – Perguntei enquanto estava sendo arrastada.
- Para fora daqui. – Ele disse sem ao menos olhar para mim. – Esse lugar é depressivo. Precisamos de folga.
- Você sabia que tem dois seguranças gigantescos nos portões da escola?
- Qualquer um é gigante para você. – Ele riu. – É baixinha.
- Não sou não. Tenho o tamanho certo para minha idade.
- Se você diz. – Ele falou parando próximo aos portões que davam ao estacionamento. – Fale baixo ou eles vão te ouvir.
Como eu disse, havia dois seguranças em frente aos portões da escola. E sim, eles eram gigantescos.
- Nossa! Tem mesmo dois seguranças. – Matthew disse coçando a cabeça. – Uau! Eles são grandes.
- Foi o que eu disse. Seu cabeça oca! – Xinguei dando as costas, com sorte conseguiria ir para a próxima aula a tempo.
- Espera. – Ele puxou meu braço. — Já pulou muro alguma vez na vida?
- Claro que não.
- E onde estava nos últimos 16 anos de vida, que nunca pulou um muro?
- Dentro da escola. – Respondi com um toque de ironia.
- Putz’ que sem graça. – Ele disse me puxando pelo braço. — Precisamos dar um jeito nisso.
OHMY!!!! Esse idiota não esta achando que vou pular o muro da escola. Está? Não, não, não! Puxei meu braço com o máximo de força que consegui e nada.
- Dawnson me larga ou eu vou gritar.
- E ser pega fora das aulas? – Ele perguntou cínico. – Só vai poder sair daqui com seus pais e algumas semanas de detenção.
Ah Droga!
- Eu não posso pular o muro. Nunca fiz isso. – Falei exasperada, já imaginando o grande tombo que iria tomar. – Eu nunca nem cabulei.
- Tem uma primeira vez pra tudo, linda.
*~*~*
O cheiro de maresia era aconchegante, fazia com que me sentisse calma. Olhei as ondas do mar se quebrando lentamente, e o céu que estava em um tom cinza e triste. Combinando com os sentimentos que estavam dentro de mim.
- Aqui. Antidepressivos. – Dawnson sentou na areia ao meu lado, com um enorme pote de sorvete e duas colheres. – Isso me acalma, deve funcionar com você também.
- Amo sorvete. – Eu sorri. – Obrigada.
Peguei a colher e comemos em silêncio, observando as cores do céu mudarem.
- Então quer conversar? – Dawnson quebrou o silêncio.
Balancei a cabeça afirmativamente.
- É complicado. – Falei. — Eu só... Não consigo.
- Por que estava chorando? – Matthew agora me olhava paciente.
- É que ás vezes eu não consigo segurar. — Falei olhando para o mar. – Minha mãe morreu, há pouco mais de um ano.
- Sente muito a falta dela né? – Matthew olhou em meus olhos.
- Demais.
- Como aconteceu? – Sua voz era baixa.
- Eu tinha uma apresentação importante. Mamãe e eu fomos de táxi e papai ficou de nos encontrar lá. Mas ele não foi, teve uma reunião de última hora. Quando entrei no palco e não vi meu pai, eu travei, não consegui dançar. – Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. — Quando estávamos voltando mamãe me fez prometer não desistir dos meus sonhos, não desistir de dançar. Eu prometi... Prometi à ela.
Matthew me abraçou e eu me aconcheguei em seu peito, chorando.
- Um motorista bêbado bateu no táxi em que estávamos. Os médicos disseram que mamãe morreu na hora, pois a batida foi do lado em que ela estava no táxi. Eu tinha soltado o cinto de segurança, por isso quando o carro capotou fui jogada para fora. O táxi explodiu. Explodiu!
Nesse momento eu já chorava convulsivamente. As lembranças daquele dia me dominando. Depois daquele dia eu nunca mais fui a mesma. Uma parte de mim morreu.
Dawnson me afastou, passou os dedos no meu rosto enxugando minhas lágrimas e levantou meu queixo.
- Eu não sabia disso. – Matthew disse olhando nos meus olhos. – Eu sinto muito.
- Se eu tivesse dançado aquele dia, não estaríamos na rua no momento em que o carro desgovernado estava. – falei com a voz tremula e em seguida sussurrei. – Foi tudo culpa minha. Eu deveria ter morrido naquele dia. Meus irmãos ainda teriam uma mãe.
- E perderiam uma irmã maravilhosa. Eles sofreriam do mesmo jeito. Sua mãe também sofreria muito. Talvez até não suportasse. É muito mais difícil para uma mãe perder um filho do que o contrário. – Ele disse brincando com uma mecha do meu cabelo. – Mas agora é sua hora de ser forte, não por ela, por você. Agradeça que você teve uma mãe e que ela te amou todos os dias. Cuidou de você e jamais te abandonou. Não foi sua culpa, o que aconteceu. Às vezes as coisas simplesmente acontecem, porque têm que acontecer, não é culpa de ninguém. Você é forte, vai passar por isso. E não precisa passar sozinha. Eu estou aqui.
Matthew passou a mão em minha bochecha e levantou meu rosto me beijando com doçura. Nossas línguas se moviam lentamente, dançando em sincronia. O beijo foi diferente do primeiro, mais apaixonado. Ele se afastou e beijou minha testa. Me aninhei em seus braços encostando minha cabeça em seu peito.
Fiquei em silêncio, mas minha mente estava barulhenta, os pensamentos pareciam gritar. Tudo estava tão confuso.
Em certo ponto ele tinha razão. Mamãe sofreria muito se tivesse sido ao contrário. Mas isso não muda o fato de que sinto à falta dela. De que tudo que aconteceu foi minha culpa. Mas não posso mudar o passado, por mais que eu queira. Preciso viver o presente, mesmo que seja difícil.
Já estava escurecendo, a lua já ameaçava surgir. Provavelmente todos os prédios de New York estavam acesos a esse horário. A cidade era tão linda.
- Hey! Sabia que esse é o melhor horário de New York ? – Dawnson leu meus pensamentos. – A cidade fica maravilhosa.
- Ela fica perfeita!
- Vem. Vamos aproveitar isso. – O garoto disse levantando e puxando minha mão.
- Para onde?
- Você é muito curiosa! – Ele disse. – Vem, você vai gostar.
- Estou de uniforme. – Contestei. – E devo estar com uma cara horrível.
- Você está linda. Vem logo. – Dawnson disse.
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