Um Outro Caminho
1 Pequeno acidente, ou será destino?
Notas iniciais
“É exatamente isso, sou loucamente triste e, em algum lugar lá no fundo, tudo o que quero é voar.” — O céu está em todo Lugar.
–Ivy? — gritou Sophie, minha melhor amiga.
–Bom dia, Sophie! — indaguei sorrindo.
–Você viu? — perguntou-me ela animada.
–Vi o que?
Sophie revirou os olhos como se fosse óbvio o que estava falando.
–O final da novela. Eles ficaram juntos. Aquele casal fofo que não assumia o amor, sabe?
–Previsível... — murmurei.
–Francamente Ivy, você não acredita no amor?
–Claro que acredito. Acredito que ele é uma ilusão, uma praga que espreita nossas vidas em busca de pessoas fracas que possa manipular.
–Credo! Você faz o amor parecer uma coisa ruim.
–Mas ele é uma coisa ruim. Pare de acreditar em contos de fadas Sophie.
Odeio ter que ser tão fria quando as pessoas começam a falar de amor, mas a culpa não é minha, eu não escolhi ser abandonada pela minha mãe aos seis anos -ela foi embora deixando meu pai e eu sozinhos- e também não pedi que um garoto idiota partisse meu coração. A vida é assim, as vezes você nasce e ela te escolhe para ser o brinquedinho dela, você vê famílias e casais felizes, mas no fundo sabe que isso não é, e nunca vai ser, para você.
Sophie caminha ao meu lado, ainda em silêncio e com a cabeça baixa, sei que está magoada comigo pela forma que falei, ela ainda acredita no amor, mas ela não falara nada, ela nunca fala, ela sabe sobre minha mãe.
Caminhamos devagar, embora corremos o risco de nos atrasar para o primeiro dia de aula, nosso último ano. O vento faz com que os nossos cabelos dancem pelo ar, gosto disso, e meus pensamentos se perdem em meio à brisa, fico tão distraída que quando percebo já estou de joelhos no chão, e escuto um garoto se desculpando.
–Por favor me desculpe. E-eu tentei te avisar, mas você... está bem? — ele gagueja.
Escuto um som estranho, uma risada, que percebo vim de mim.
–Fora o cotovelo ralado, acho que estou bem sim. — murmuro, tentando esconder a irritação.
Ele sorri. Um sorriso torto, lindo.
–Consegue se levantar? — diz estendendo a mão para me ajudar.
Pego sua mão e me levanto, um pouco desequilibrada, mal consigo apoiar meu pé direito no chão. Ótimo.
–Parece que você torceu o tornozelo. Se apoia no meu ombro. — sussurra o garoto.
–Você tem que ir para casa. -Indaga Sophie, com uma careta.
–Tá maluca? Se eu faltar no primeiro dia de aula meu pai me mata.
–Não exagera... — começa Sophie.
–Não exagera? Você conhece ele. Além disso, eu não posso preocupa-lo, não mesmo. — retruco.
–Calma, você quer mesmo ir para escola? A culpa é minha. Você pode se apoiar em meu ombro até lá. Acha que consegue?
Balanço a cabeça positivamente e ele assenti. Olho para ele pela primeira vez, diretamente, ele tem cabelos e olhos pretos, comuns, mas de certa forma bonitos.
–Certo. Você pode levar para mim? — pergunta ele estendendo o Skate para Sophie.
Me apoiei nele até a escola, foi de certa forma desconfortável, ele era um pouco mais alto que eu, o que acabava deixando mais complicado.
–Qual a sua sala? — perguntou-me ele.
–Seis, sala seis.
–Legal. Está no terceiro ano, certo?! Parece que estamos na mesma sala. — ele disse sorrindo.
–É, só não vá colocar a cadeira em cima do meu pé também. — brinquei, embora não estivesse muito empolgada em ser colega de classe do garoto que havia me atropelado.
Ele riu, uma risada contagiante que pareceu me envolver com ternura.
–Relaxa, prometo que tomarei cuidado dessa vez.
Uma voz me alerta, dizendo que devo ficar longe dele, posso me apaixonar e o amor é arriscado, mas não posso evita-lo, embora a culpa por eu ter torcido o tornozelo seja dele, ele me ajudou a vim até aqui, seria grosseria minha manda-lo embora.
–Nunca te vi antes. — comentei enquanto entravamos na sala de aula.
–Acabei de me mudar. — explicou-me ele.
Era isso. Por isso ele ainda estava ali comigo. Ele não sabia sobre minha mãe, ele não sabia que ela havia ido embora sem motivo aparente, e por mais que isso pareça bobo ninguém se aproximava de mim desde então, as pessoas são assim, não são? Cruéis.
–Hum... legal!
–Não é?!
–Aonde está morando? Qual bairro? — perguntei, mais por educação do que curiosidade.
–Neste bairro mesmo, rua Vanderbilt.
–Sério? Parece que além de colegas de classe vamos ser vizinhos também. — indaguei
–Fico feliz. — exclamou ele sorrindo.
–Seu skate. — murmurou Sophie entrando na sala.
–Ah, obrigado. Vou guarda-lo, fica bem sem mim? — perguntou sorrindo.
–Claro, ninguém mais está tentando me matar. — brinquei.
Ele sorriu e saiu da sala. Me senti estranha sem ele ali, isso era um mal sinal e eu sabia.
–Vocês ficam bem juntos. — comentou Sophie, assim que ele saiu.
–Não seja boba, Sophie! Acabamos de nos conhecer e você sabe o que eu acho do amor.
–Tudo bem. — falou ela levantando as mãos em sinal de rendição -E então, já viu com que vai se sentar no primeiro semestre?
Olhei para lista na parede:
Carteira 6: Ivy Mitchell Carteira 7: Oween Harris
–Oween Harris... sabe quem é? — perguntei a Sophie com um mau pressentimento.
–Nem faço ideia. Adivinha quem vai ser minha dupla por seis meses inteiros? — ela me pergunta fazendo uma careta. -Lily... — ela responde revirando os olhos antes que eu tenha chance de dar um palpite, mas como eu pensava, Lily, a patricinha da escola, a rainha do mundo, ao menos é o que ela pensa.
–Que sorte! Prefiro um desconhecido... — resmungo.
–Ah é? Você pode se apaixonar por ele. — sophie brinca.
–Nem morta!
Nós duas caímos na gargalhada.
Por isso eu a amo, Sophie consegue me fazer rir, mesmo que eu tenho motivos o suficiente para chorar.
***
Sentei no meu lugar e coloquei os fones enquanto o professor não chegava. Então vi que o garoto que havia me atropelado tinha se sentado na carteira do tal Oween.
–Hey, você não pode se sentar aí. — falei.
–Posso sim.
Retirei o fone do meu ouvido esquerdo e fiquei olhando para ele com cara de quem não tá entendendo nada.
–Não pode não. Esse lugar é...
–Meu. Eu sou Oween Harris, prazer. — disse ele estendendo a mão direita para mim, com seu famoso e encantador sorriso torto no rosto.
–Ah, sim, você... me desculpe. — falei sem jeito — Sou Ivy Mitchell.
Oween sorriu outra vez.
–É, eu sei.
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