Um Novo Mundo
6 A vida de Alexandre Magno Abrão
Ele se sentou ao meu lado, também abraçando as pernas. Olhei para ele. Seus olhos estavam vermelhos e a barba mal feita.
–Andou chorando também, Chorão?-Aquela foi a piada mais tapada que eu poderia inventar. Mas ainda assim, ele abriu um sorriso.
–Não. Isso é Flor de Lótus rosa.-Ele respondeu, me fazendo arregalar os olhos mais do que a Coruja empalhada do meu Chalé.-Annie contrabandeou algumas para mim antes do jantar. Paguei quarenta e cinco dracmas por três. Dá pra acreditar?-Eu sorri.
–Dá, dá sim.-Suspirei. Me arrepiei por causa do frio e passei as mãos nos meus braços, tentando aquecê-los. Chorão viu e, preocupado, tirou o casaco verde escuro da Adidas e o colocou em mim.-Obrigada. Não que eu queira que você vá, mas o que veio fazer até aqui?
–Como eu disse, preciso falar com você. Pode falar comigo agora?-Ele perguntou somente por educação, tive certeza.
–Claro.-Respondi, me virando para ele e sentindo um alívio por não ter que encostar mais na parede gelada.-Pode falar.
Ele fez uma pausa longa e, em seguida, suspirou. Ajeitou o boné aba reta em sua cabeça, olhando para o chão, e depois olhou diretamente em meus olhos. Ele parecia cansado.
–Preciso que me leve com você na missão.-Ele soltou, me pegando de surpresa.-Há uma coisa nessa missão que preciso recuperar.
–Chorão, eu realmente quero que você vá. De verdade. Mas você precisa ficar no Acampamento. Não sei quanto tempo vai demorar essa missão, nunca fui em nenhuma, é minha primeira vez. A Profecia é : "Nove meio-sangues a cura buscarão...". Significa que nove semideuses vão procurar a cura para o ataque do Mangtas.
–"Pela Herdeira da Sabedoria liderados serão"-Ele continuou por mim.-, significa que você vai liderar os outros oito campistas que escolher, já que não há outras filhas de Atena aqui no Acampamento.
Franzi a testa.
–Como sabe disso?-Perguntei.
–Na mesa do Chalé 6 só havia você de menina. A menos que um de seus irmãos...
–Não, nenhum deles.-Disse, evitando o que ele iria dizer em seguida.-Continuemos.
–"A perda de amigos irá vir"... O que foi?
Eu tinha me levantado e tinha os punhos cerrados.
–"E sangue inocente irá cair".-Completei, por entre os dentes e sentindo as lágrimas quentes pelo meu rosto.-Sabe como é se sentir responsável pela vida das pessoas que você mais ama?-Perguntei, me controlando e sentando no chão novamente.
–Sim, Gui, eu sei como é.-Ele respondeu, para a minha surpresa. Havia sido uma pergunta retórica.-Era sobre isso que queria conversar. Mas você não me deu oportunidade.-Encolheu os ombros. Me senti envergonhada.
–Me desculpe. Não havia sido minha intenção. Pode... Pode falar.
–Eu só queria conversar com alguém. E escolhi você.-Ele disse, levantando o olhar sob o boné. Abaixou a cabeça novamente. A brisa caía suavemente sobre o gramado e sobre nossas peles, dando a sensação de que estávamos em um verdadeiro paraíso. E sei que estávamos.
–Você é um meio-sangue?-perguntei, curiosa.
–Sim.-Ele apontou para o Chalé ao lado com o dedão, pintado de um vermelho gasto e desbotado, coberto por arame farpado e que possuía a cabeça de um javali empalhada bem em cima da porta de entrada, o que respondeu o que seria minha próxima pergunta.
–Você é filho de Ares?-Não tinha como acreditar.
–É, mas tenho muita bênção de Apolo. Na verdade, tenho mais bênção de Apolo que do meu pai.-Ele abriu um sorriso. Só agora havia percebido, que estávamos conversando somente em português.
–Chorão...-Eu disse, sonhadora. Ele se virou ao ouvir o nome.-De onde veio o apelido?-Podia jurar que seus olhos se encheram d'água ao ouvir essa minha pergunta.
–Dos meus amigos. Dos meus amigos, companheiros de skate.-Sorriu tristemente.-Teve uma vez em que resolvi ir até a pista de skate com eles. Ainda não sabia andar. A partir daquele dia, fiquei fascinado com as quatro rodinhas, mas não tinha coragem de subir em cima de um.-Fez uma pausa.-Houve um dia em que estava vendo eles andarem, cada um em cima do seu. Um deles passou por mim e, para zombar de mim, começou a dizer: "Não chora!"-Ele disse isso fazendo uma careta, que me fez rir.-, já que eu não sabia andar. E nisso o apelido pegou.–De repente, sua expressão era de quem revivia o momento.-Eu tive uma infância e uma adolescência muito difíceis, sabe?-Ele parou de falar e, por um momento, pensei se não devia entrar para o meu Chalé. Mas quando ia dizer qualquer coisa, ele continuou.-Minha mãe era doméstica. Ela fazia pasteis.-Sorriu.-Ares amava os pasteis dela.
–Espera.-Estava tentando não interromper, mas dessa vez não teve jeito.-Você conheceu seu pai?
–Sempre tive contato com ele. Ele me visitava de três em três, ou de cinco em cinco anos. Minha mãe não sabia, ela havia arrumado um namorado, que morava com a gente. Não gostava dele. Quando eu tinha doze anos, eles se separaram. Dois anos depois, minha mãe quase morreu. Aí, pra me distrair, comecei a andar de skate. Mas, retomando o assunto, minha mãe cozinhava para que eu fosse entregar para ela.-Ele parou novamente. Tirou o boné, revelando os lindos cabelos castanhos mel, e passou a mão por eles.-Eu vivia na rua. Era um moleque, quase não ia à escola... Parei de estudar na sétima série, quando a matéria já não me cabia mais.-Colocou de volta o boné.-Sempre tive problemas com a polícia. Pensam que eu uso drogas mortais. Mas nunca. Só ingiro Flor-de-Lótus rosa. Enfim. Pouco depois de fazer vinte e um anos, eu fui convidado a integrar uma banda. Me lembro da minha felicidade imensa, mal podia acreditar. Por volta de 2000, tive de falar que meu pai havia morrido. Afinal de contas, ninguém nunca tinha o visto. Tinha que fazer alguma coisa.-Ele suspirou e entrelaçou os dedos.-Conheci várias garotas. Mas apenas duas eu levei a sério. A primeira foi a Grazy. Ela era uma garota realmente linda, em todos os sentidos, mas há pouco tempo ela deu a louca, disse que eu estava usando muita cocaína. E então ela me chutou. Literalmente. Mas eu queria ter explicado para ela que era só Flor-de-Lótus, ainda que ela me achasse um louco. Confesso, que até há uns dois meses, eu ainda gostava dela. Até compus "Céu Azul" pra ela. Mas aí conheci a Lara. A garota que eu daria tudo pra continuar.
–E por que você não continua?-Eu disse, em meio a um bocejo.
–O primeiro motivo é porque ela sentia a minha falta. Quase não fico mais no meu apartamento, só no estúdio e ocupado com outras coisas. Não queria fazer ela sofrer. O segundo motivo... É que ela era o Mangtas que me atacou. Havia mudado de forma.
Eu tinha me esquecido desse detalhe. Esqueci do ataque, da missão, dos problemas. Havia afundado na vida de Chorão. Mas aí ele mencionou. E eu voltei à realidade, fazendo com que eu ficasse abatida novamente.
–É por isso que gostaria que você me levasse na missão.
–Chorão, eu...
–Já sei o que você vai dizer. Mas "Dizem que é impossível encontrar o amor sem perder a razão, mas pra quem tem pensamento forte o impossível é só questão de opinião. E disso os loucos sabem, só os loucos sabem".
–Espera... Você quer fazer um Mangtas se apaixonar por você?
–Se apaixonar, não. A paixão machuca. O amor cura. Sei que pode parecer loucura, mas acredito nisso.
Esfreguei os olhos, bocejando novamente. Não acreditava no que ouvia.
–É muita coisa pra mim pra um dia só. Veja. Eu acordei cedo, fui treinar escalada por toda a manhã. Depois, eu fui ler. Aí encontrei a Annie, Ada e o Bryan, e a gente combinou de treinar. Eles estavam atrasados. Do nada, a Annie e a Ada apareceram correndo pra mim, dizendo que você estava aqui no Acampamento. Depois, eu conheci o Louis, o Carlos, a Marry e o Pedro. Descobri que você foi atacado por um Mangtas. Chorei junto com a galera por causa disso. Quando parece que uma coisa boa aconteceu(a cura pro seu ataque), uma garota incrivelmente sexy começa a soltar fumaça verde por tudo que é canto. Descubro que vou ser responsável pela vida de oito campistas, e sei que muitos deles vão morrer!-A essa altura, eu já estava chorando novamente. A sensação de medo havia voltado e tomado conta de mim. Chorão chegou um pouco para o lado e me abraçou fraternamente. Então, ele disse uma coisa que realmente me surpreendeu. Uma coisa que eu precisava ouvir.
–Obrigado por me ouvir. Se você tem o sentimento de culpa porque vai perder amigos, fique feliz, porque resgatou minha felicidade.
Ao dizer isso, ele se levantou e desapareceu na escuridão. Ele tinha esquecido seu casaco verde da Adidas comigo. Enxuguei as lágrimas e empurrei a porta cuidadosamente, dessa vez deitando em minha cama e conseguindo dormir como qualquer outro semideus: tendo pesadelos.
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