Um Novo Futuro
30 O encontro com o soldado
Notas iniciais
POV JENNIE~
Mais algumas hora se passaram desde que partimos. Joe continuava em frente ao volante, seus olhos claros estavam completamente concentrados à estrada a sua frente. Hayley permanecia em silêncio, parecia estar perdida em pensamentos...Eu entendo como ela está, a cada dia estamos mais próximos do Refúgio, da nossa salvação...O problema é que nem sabemos se esse lugar existe mesmo. E, se existir, será seguro? Só vamos saber disso quando chegarmos lá.
Um misto de sentimentos passava por mim. Ansiedade, medo, alívio, nervosismo... Não sabíamos o que nos aguardava e isso era frustrante.
– Joe, acho melhor procurarmos algum lugar para passar a noite, você já dirigiu tempo demais. — Diz Hayley. — As coisas podem ficar perigosas a noite.
– Concordo com a Hayley, Joe. — digo. — Com certeza tem alguma cidade aqui perto, de qualquer maneira vamos chegar amanhã no Refúgio.
– Tudo bem. — diz Joe depois de dar um suspiro, provavelmente estava cansado de dirigir por tantas horas seguidas.
Não demorou para encontrarmos uma pequena cidade para passarmos a noite. Estava aparentemente deserta. Depois do apocalipse a paisagem dessas pequenas cidades assumiram um tom melancólico e horripilante. As ruas desertas, escuras, sombrias chegavam a dar arrepios. Nenhuma única voz era ouvida, nem mesmo os gemidos dos mortos que perambulavam por ali. Silêncio. Era tudo que havia naquela cidade.
– Acho que podemos ficar aqui essa noite, só preciso verificar a área e encontrar um lugar seguro. — Disse Joe, desligando o carro.
Segurei minha faca firmemente, Hayley fez o mesmo. Joe saiu do carro e abriu a porta do banco de trás, a procura de seu facão.
Saí do carro e imediatamente senti uma brisa gélida atingir meu rosto, me provocando arrepios...Tremi. Não gostei desse lugar. Mesmo antes do apocalipse essa cidade parecia ser uma daquelas cidades que foram distanciadas de tudo e de todos...Completamente esquecida.
– Jennie...Um zumbi à alguns metros atrás de você. — Hayley me avisou antes de eu escutar passos lentos e pesado em minha direção. Dou meia volta e vou até a criatura grotesca que, com a minha aproximação, soltou um gemido e esticou os braços, tentando inutilmente me alcançar. O zumbi tropeça quando chega perto de mim, eu aproveito esse deslize e cravo minha faca em sua cabeça que se abaixou ligeiramente ao tropeçar.
A criatura caiu no chão e não se moveu mais.
– Encontrei um pequeno prédio a alguns metros daqui, o térreo está vazio, acho que podemos passar a noite lá. O que acham? — diz Joe.
– Por mim, tudo bem. — respondo. Hayley acena com a cabeça positivamente.
– Ok. Então vamos!
O prédio não podia ser considerado alto, Joe estava certo quando se referiu à ele como "um pequeno prédio". Tinha apenas três andares contando com o térreo. Era feio e mal cuidado, o apocalipse só serviu para piorar a imagem do prédio que já era maltratada. A porta estava velha, parecia tão frágil que com um simples empurrão poderia cair.
Por um instante, achei que quando Joe colocou a mão na maçaneta e empurrou, a porta fosse cair. Estava enganada. A porta fez barulho, mas não caiu como eu imaginei. Por dentro do prédio, por incrível que pareça as coisas não estavam tão ruins quanto estavam lá fora. A mobília rústica estava completamente empoeirada. Aquele cômodo parecia ser uma recepção, não demorou pra mim imaginar que aquilo era um tipo de Hotel ou Pousada, embora eu não gastasse meu dinheiro em um lugar como aquele. Havia dois bancos que pareciam sofás, provavelmente era uma sala de espera ou sala de estar. Tinham uma coloração vinho que parecia ganhar alguns tons de marrom devido a quantidade de poeira do local. Havia também um quadro na parede, passei a mão pelo vidro, querendo enxergar a imagem por trás da poeira.
Era um retrato.
No retrato havia uma mulher. Era bonita, parecia ter uns 25 anos, talvez menos. Tinha longos cabelos ruivos, com cachos grossos e pesados. O sol batia em seus cabelos dando um brilho alaranjado. Seu nariz era fino, igual ao seus lábios. Seus olhos eram de um verde que chegavam a dar inveja. Na pele clara havia algumas sarnas que davam um ar infantil a jovem.
Ela sorria. Um sorriso que não parecia ser nem um pouco forçado, era verdadeiro. Um sorriso sem preocupações, sem medos. Tive inveja do sorriso dela. Como eu queria sorrir daquela maneira, sem preocupação, sem medo...Infelizmente, nossa situação não era favorável. Olhei para a foto mais uma vez. Será que essa garota teve a mesma sorte que eu e sobreviveu? Ou já havia virado um zumbi? Provavelmente a segunda opção.
Desviei o olhar para o sofá, Hayleu tirava a poeira de um deles, revelando o belo tom de vinho do tecido. Joe estava no andar de cima, provavelmente procurando algum zumbi que pudesse nos atacar.
– Jennie, Fica com esse, eu vou ficar de vigia hoje. — diz Hayley.
– Tem certeza, Hayley? Não quer que eu fique?
– Não, tudo bem. Não estou cansada. Essa dúvida acabou com meu sono.
– Dúvida?
– Sim. Você sabe... Se o Refúgio existe ou não...
– Ah! É... Eu também tenho pensado nisso. Mas, querendo ou não, o Refúgio é a nossa última esperança.
– Você está certa. Precisamos acreditar que esse lugar exista. Bom, acho melhor preparar a arma pra vigiar hoje. Boa noite Jennie.
– Boa noite, Hayley. — respondo, Jogando minha mochila no chão e deitando no sofá até me render completamente à exaustão.
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POV MARCUS~
Todos ainda estavam meio perplexos com a declaração do capitão. Será possível que no Refúgio exista mesmo um traidor, e principalmente um traidor que está na liderança? Mas, que motivos ele teria para mandar armas para os Rebeldes? Isso não fazia nenhum sentido.
As coisas estão ficando cada vez mais complicadas, se continuarem assim, é bem provável que uma guerra entre o Refúgio e os Rebeldes comecem, e, se isso acontecer o Refúgio não teria muitas chances e mesmo se ganhássemos seria com sérias baixas. E não podemos correr o risco de perder mais pessoas, principalmente soldados.
O Refúgio é um abrigo, não um quartel. Havias mais civis, a maioria dos soldados havia morrido em missão. Nosso armamento não era dos mais potentes, só o básico para proteger a população. Todos os armamentos pesados e força militar estão a serviço do Santuário, onde se encontram o presidente e o resto da força política. Balancei a cabeça e voltei a me concentrar na missão: Encontrar sobreviventes. Ultimamente não temos obtido sucesso. Poucas pessoas estão aparecendo. Passamos horas e horas na estrada e tudo que vemos são cidades abandonadas e mortos andando por aí. Alguns acham que vir atrás de sobreviventes é pura perda de tempo, eu não concordo. A cada sobrevivente que encontramos é um sinal de que a humanidade não cairia aos pés desses mortos de merda que chamam de zumbis.
Já fazia umas 5 horas que estávamos procurando por alguém e o resultado era sempre o mesmo. Nada. Ninguém. Só zumbis. Nada mais. Nossa equipe fora dividida em duas para aumentar a área de busca, meu time ficou encarregado de explorar três cidades a leste, enquanto a outra equipe explorava outras três cidades a oeste do Refúgio.
Já havíamos verificado a primeira cidade e nesse momento havíamos acabado de chegar a segunda. A paisagem estava como eu já esperava: deserta. Ainda tínhamos outra cidade pela frente. Levamos duas horas para explorar a cidade e o resultado foi como sempre, frustrante.
– Sinceramente, isso é perda de tempo. – diz Paul, um dos integrantes da equipe, que era composta de 5 pessoas.– Não tinha nada na primeira cidade e nem nessa. Melhor nem irmos a próxima.
–E se tiver alguém lá? – perguntei.
–Você disse isso dá outra vez e não tinha nada.
–Precisamos continuar procurando.
Ele estava prestes a responder quando Michael, o líder da equipe o interrompeu:
–Marcus, está certo. Temos que procurar por sobrevivente nessas três cidades e vamos cumprir a ordem que nos foi dada. Vamos logo, já está anoitecendo.
Todos acataram suas ordens em silêncio.
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Duas horas. Esse foi o tempo que levou para chegarmos à terceira e última cidade antes de voltarmos ao Refúgio. A essa altura já havia anoitecido completamente, isso só complicava as coisas, mas pelo menos dava uma ideia de onde os sobreviventes (Se é que há algum) possam estar. Provavelmente eles estariam em alguma casa ou hotel para poderem passar a noite. Esses são os lugares mais prováveis.
– Chegamos. – anunciou Brad, outro membro do nosso time. Em um movimento rápido pegamos nossa armas e saímos do carro. Essa cidade parecia ser ainda mais abandonada do que as outras, isso não é bom. Nada bom.
– Tudo bem, agora que já estamos aqui, vamos nos separar e procurar no lugares mais prováveis em que eles possam estar... Vocês sabem, casas, prédio, hotéis...Lugares para passar a noite. De qualquer forma, não podemos ficar muito tempo aqui. Partimos amanhã assim que o sol nascer. Aqui será nosso ponto de encontro, não se atrasem ou vão ficar para trás. – Diz Michael, com sua habitual seriedade.
Todos concordamos e iniciamos a terceira e última busca por sobreviventes. Eu segui na direção norte da cidade, próximo à entrada. Estava escuro, se eu não tivesse passado por um treinamento rigoroso na base militar teria dificuldades em manter meus sentido aguçados. O principal perigo nessas missões de busca não são zumbis e sim pessoas, nunca sabemos que tipo de pessoas são esses sobreviventes por isso me mantive preparado, já com minha arma em mão e posição de alerta. Primeiro passei por um prédio de uns quatro ou cinco andares, revistei todos os andares, um por um. E o resultado foi o mesmo. Também não havia pistas de que haviam passado sobreviventes por aqui. Decidi procurar em outro lugar. Andei mais alguns metros e virei uma esquina, a escuridão não ajudava em nada. Continuei andando e ao longe, avistei algo que me chamou atenção.
Um carro. Eu já tinha visto outros carro na cidade, mas todos estavam quebrados ou abandonados, aquele parecia estar em perfeito estado. Senti-me orgulhoso de mim mesmo por conseguir enxergar tão bem o carro no meio de todo breu. Observei mais atentamente, ele parecia estar estacionado na frente de uma construção antiga. Parecia um prédio, mais eu não consegui distinguir o tamanho dele. Estava escuro demais. Tentei olhar janela adentro mas não consegui enxergar nada além do escuro.
Droga! Será que algum sobrevivente ainda estava por aqui, naquele prédio velho talvez...
Fiquei ansioso e andei devagar até a porta que parecia ser tão velha quanto o prédio. Parei em frente ela, por um instante pensei em bater, mas só estaria anunciando a minha chegada. E se houvesse sobreviventes nesse prédio? Eles seriam perigosos?
Só há um jeito de saber. Respirei fundo mais uma vez, com cuidado para não fazer muito ruído, eles poderiam pensar que eu sou um zumbi e atirar em mim. Eu estou usando colete à prova de balas, mas não estou nem um pouco afim de levar um tiro. Retirei minha mão da arma e levei até a maçaneta, sem fazer nenhum barulho. Girei bem lentamente a maçaneta, rezei por um segundo para que a porta não fizesse nenhum rangido que despertasse medo nas pessoas que poderiam estar ali. Parei para pensar por um segundo.
E se houvessem sobreviventes? Eu deveria dizer que sou do Refúgio e estou ali para levá-los? Eles acreditariam em mim, ou simplesmente atirariam? Eram muitas questões, mas não tinha respostas para nenhuma delas.
“Ah! Que se dane o que eles vão pensar! Talvez nem tenha ninguém nesse prédio velho!” pensei. E com toda coragem e determinação que tinha empurrei a porta, que pareceu reprovar minha ação e soltou um barulho agudo e irritante. Dei um passo à frente, ainda amaldiçoando à porta pelo barulho. Arregalei os olhos com o que vi.
Perplexo.
Era assim que eu me sentia. Uma garota apontava uma arma pra mim. Mesmo no escuro era possível ver perfeitamente seu rosto. Seus cabelos eram castanhos e longos. Os olhos de um azul imensurável. Ela me olhava surpresa e ao mesmo tempo assustada, mas parecia que não hesitaria em atirar em mim na primeira oportunidade.
– Quem é você!? O que quer aqui!?
Eu estava prestes a responder quando outras duas pessoas se juntaram a ela. Um cara do meu tamanho, loiro, e olhos igualmente claros. E ao seu lado outra garota, essa parecia ser mais baixa que os outros dois. Ela se parecia um pouco com o homem, também era loira e tinha olhos verdes, apesar de seu olhar assustado, era bem bonita.
– Quem é ele? – ela perguntou.
– Meu nome é Marcus Knight. Sou um soldado do Refúgio. Vim em busca de sobreviventes.
Perplexo.
Dessa vez, quem estava eram eles.
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