Um Novo Caminho
16 O Adeus
Notas iniciais
Remus tinha certeza que ele odiava cerimônias de enterro, principalmente as tão tradicionais quanto a de Abraxas Malfoy. Logo que Sirius tinha batido na porta de seu quarto e murmurou a notícia, ele teve que lidar com seu amante agindo como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Lucius só tinha se levantado da cama e se vestido com uma túnica negra simples e elegante, ele chamou os elfos e os mandou estender lençóis negros nas janelas e cobrir os espelhos da casa. Sem sequer dar atenção as tentativas de Remus para conversar ou fazê-lo parar para assimilar a morte do pai, o novo chefe da família Malfoy se pôs a escrever a mão e replicar metodicamente avisos da morte de Abraxas e as chamadas para seu funeral. Ele só obteve atenção total do loiro em um único momento.
– Lucius, o que vamos fazer quando os meninos acordarem? – O lobisomem perguntou, calmamente. Os dois tinham perguntado sobre o avô desde que tinham chegado para a festa de casamento de Sirius e Severus.
– Vamos contar a verdade, o que mais? – Lucius respondeu, com pesar.
– Nunca fui a uma cerimônia de enterro puro sangue, os meninos tem que estar lá?
– Tradicionalmente sim, mas eu prefiro que não estejam… papai vai ser cremado numa cerimônia tradicional. Vai deixá-los muito assustados, mas talvez os deixemos vê-lo antes de o levarmos para a pira?
– Se eles quiserem ir, acho a ideia um pouco mórbida. – Remus disse, sentindo-se péssimo pelo que ia ter que fazer.
– É o certo, eles devem se despedir. – Lucius disse, voltando a tarefa de replicar as notificações da morte de seu pai.
Remus deu um suspiro e beijou os cabelos do companheiro.
– Eu vou verificar os meninos e saber se Severus está bem.
– Deixe isso para Black, ele é o marido e deve saber como cuidar de Severus. – Lucius disse, laconicamente.
– Isso quer dizer que você prefere que eu fique aqui? Você está especialmente difícil de interpretar. – Remus disse, suavemente.
– Você é meu, claro que te quero por perto.
Remus sorriu e se sentou na cadeira ao lado de Lucius, ele não precisava falar para consolar seu companheiro, apenas se assegurava de manter a mão acariciando a nuca tensa do loiro.
X~X~X
Severus tinha se acalmado depois de um tempo chorando. E Merlin, ele tinha odiado se lembrar de que o tinha feito nos braços de Sirius, ele tinha deixado o marido vê-lo em sua forma mais vulnerável e isso doía horrores. Tinha sido Sirius quem o tinha levado para seu quarto regular, não a suíte nupcial preparada pra eles, e esperado a seu lado o choro parar. Foi quando o animago disse que iria acordar Remus e Lucius para dar a notícia e que voltaria logo. Ele cumpriu sua palavra, e quando voltou encontrou Severus na mesma posição em que o tinha deixado, ainda com as vestes do casamento, sem querer assustá-lo, Sirius se aproximou cautelosamente e tirou o pente que prendia seu cabelo.
– Você conseguiria dormir um pouco? Vai amanhecer logo, e vai ter um longo dia pela frente. – Ele perguntou delicadamente, sem querer irritar o marido.
– Não posso dormir. – Severus respondeu, apesar de imensamente cansado.
– Um pouco de poção? – Sirius sugeriu, e quando viu a careta do marido, impediu-o de falar. – Pense nos meninos, eles vão acordar e vão ficar arrasados quando souberem, não vai querer lidar com eles irritado e exausto pela falta de sono certo?
Severus grunhiu em resposta, e apontou para seu armário de poções. Sirius foi até o local e não se surpreendeu ao sentir a magia negra guardando o local, sacou sua varinha e desativou os feitiços.
– Qual poção é? – Sirius perguntou.
– A que tem uma etiqueta escrita poção para dormir, caro marido. – Severus disse, venenosamente.
– Alguma outra surpresa desagradável pelo quarto? – Sirius perguntou.
– Não sei a que se refere. – Severus disse, observando, não sem alguma surpresa, como Sirius dissolvia a poção em água, diminuindo o efeito narcótico.
– Talvez ao fato de que eu teria perdido alguns dedos abrindo seu armário, devo me preocupar em você querer cortar outras partes de mim? – O animago perguntou.
– Talvez. – Severus respondeu, recebendo o copo e quase engasgando quando sentiu os dedos do auror em seus cabelos. – O que está fazendo?
– Tirando essa coisa bonita do seu cabelo, se eu não soubesse como eles se odeiam, diria que Lucius e Andrômeda conspiraram para combinar suas joias.
– A explicação fácil é que esmeraldas são verdes, uma das cores de slytherin. – Severus disse, terminando de beber a poção diluída. – Por favor, me diga que não comprou um monte de coisas espalhafatosas como presente de casamento.
Sirius riu ao ver a expressão desolada de Severus, que sacudia a mão onde seu anel de casamento brilhava, ligado a pulseira chamativa que completava a joia.
– Na verdade, eu comprei. Sabe como é esse ritual, faz de mim seu escravo pessoal pela eternidade e me obriga a te cobrir com presentes, tem sorte de que Andrômeda estava comigo, eu teria escolhido os rubis… mas no final, gostei como a prata e as esmeraldas ficaram em você. – Sirius disse, admirando a jóia na mão do marido. – Ela tem um anel e uma pulseira simbolizando nossa dupla amarração, por amor e magia estaremos unidos para sempre.
– Por que diabos escolheu esse feitiço de ligação? Ele é muito difícil de quebrar, eu nem sabia que Weasleu podia conjurá-lo. – Severus disse, mais sonolento e falador pela poção.
– Justamente por isso, não imaginou que eu deixaria você me largar tão rápido quanto voa um pomo, certo? E Arthur é um homem cheio de surpresas. E gosto desse feitiço porque ele quebra naturalmente se uma das partes é realmente infeliz e não sente mais amor pelo outro, e só desse modo.
– Posso fazer sua vida miserável, Black. Isso vai dar errado em dois tempos.
Sirius deu de ombros.
– Faça seu melhor, mas não se esqueça de que fui o filho rebelde de Walburga Black, vai precisar de muita criatividade para me fazer sair correndo.
Severus pensou em contestar o marido, e contar sobre seu objetivo de se transformar em uma nova e melhorada Walburga, mas acabou fechando os olhos e dormindo ao invés disso.
X~X~X
Harry e Draco tinham ritmos diferentes pela manhã. Enquanto Harry era preguiçoso e resmungão, enquanto Draco acordava mais cedo, e sempre queria sair do berço logo, por isso, quando abriu os olhinhos e viu Remus sentado na cadeira de balanço, sorriu, e ergueu os bracinhos de forma demandante. O lobisomem sequer hesitou em segurar o loirinho no colo, Draco, como a maior parte das crianças pequenas, soltou um bocejo e aconchegou seu rosto no ombro do lobisomem, praticamente cochilando de novo.
– Filhotinho mimado. – Remus murmurrou, indo se sentar na cadeira novamente, esperando Harry acordar e Draco terminar de despertar.
Quando Draco já estava suficientemente animado para pedir café da manhã, Harry já estava esfregando os olhinhos e se movendo na cama.
– Vamos lá, Harry, é hora de acordar. – Remus cantarolou para o pequeno, cutucando sua bochecha de leve.
Como esperado, o menino abriu um olho, fez um beicinho lindo e se virou no berço, pronto para cair no sono de novo, claro que ele não conseguia o que queria porque Draco era mais demandante que ele.
– Harry! – O loirinho chamou, fortemente. – Eu estou com fome, acoda agola.
Remus riu ao ver seu outro filhote se sentar na cama rapidamente, apesar de estar resmungando e com um beicinho. Ele tinha pena do que Draco poderia fazer com Harry quando crescesse, mas os Malfoy eram sempre assim.
– Vamos lá, temos que comer e depois vou levá-los para conversar com Lucius, ok? – Ele perguntou, se inclinando e pegando Harry com seu braço livre.
– Onde está o papai? – Draco perguntou.
– Ele está um pouco ocupado, mas já vai vê-lo. – Remus queria que não fosse assim.
X~X~X
Lucius estava em seu escritório, pensando uma e outra vez como diria aos meninos que o avô tinha morrido. Isso ia arrebentar seu coração, ele estava enxugando uma lágrima traidora que escorreu por seu rosto quando ouviu sua lareira se acender.
– Lucius? – A voz feminina o pegou de surpresa.
– Narcissa. – Ele disse, surpreso. – Onde você está?
– Na antiga casa dos meus pais, recebi sua coruja e usei uma chave-de-portal. Você está bem? E Draco?
– Ele não sabe ainda. – O loiro explicou, se ajoelhando. – Remus vai alimentá-los antes de que eu quebre seus corações.
– Sinto muito, quer que eu esteja ai? – Ela perguntou. – Ou seu lobo vai querer rasgar minha garganta?
– Provavelmente ele vai, mas pode vir se quiser ver o Draco.
– Eu prefiro fazê-lo mais tarde, vou só desfazer as malas e estarei ai para organizar tudo, não vai precisar se preocupar com nada, eu prometo. – Ela disse, convicta. – Boa-sorte, amor.
– Obrigado.
Mal ele tinha se levantado e dois torvelinhos passaram pela porta, e ele logo era agarrado pelas pernas por seus dois meninos bonitos.
– Meus meninos, vocês vieram rápido. – Ele disse, pegando cada um em um braço, e indo sentar-se no sofá.
– Estávamos com saudade, não gostamos de festas de adulto, vocês nunca nos dão atenção. – Draco reclamou, cruzando os bracinhos.
– É verdade. – Harry concordou, imitando o amiguinho.
– Eu sinto muito meninos. – Lucius disse, deixando seu nariz passear pelos cabelos macios de Draco.
– Você tem tem sapos de chocolate? – Draco perguntou. – Vovô sempre nos dá doces quando faz coisas bobas de adulto.
– Sim, sapos de chocolate! E vovô Abraxas já está melhor da gripe? – Harry perguntou.
Lucius sentiu seu queixo tremer e olhou para Remus com os olhos rasos d’água.
– Não filhote, ele não está. – Remus disse, olhando para Lucius, que respirou fundo.
– Meninos, o vovô estava muito doente. – Lucius disse.
– Ele teve que ir para o hospital? – Draco perguntou, alarmado, ele sabia que não era bom ir para o hospital.
– Não, o medimago veio até o quarto dele e tentou várias poções e feitiços, mas o vovô não melhorou, meus meninos. Ele morreu. – Lucius disse, optando por ser direto.
Primeiramente, os dois meninos pareciam chocados, logo, Draco ficou confuso e Harry começou a chorar.
– Como assim, ele morreu? – Draco perguntou confuso. – Por que Harry está chorando?
Remus se adiantou e pegou Harry em seu colo, tentando acalmar o menino, e ao mesmo tempo explicar o que tinha acontecido para Draco, já que Lucius estava se focando em não chorar na frente dos meninos.
– Você se lembra de quando eu disse que não era o pai de Harry, e mostrei a foto de Lily e James Potter?
Draco assentiu, franzindo o cenho, não gostando nem um pouco do que começava a entender.
– Seu avô morreu como os pais de Harry, eles estão no céu agora. – Remus disse.
Draco arregalou os olhos e começou a chorar instantaneamente.
– Não! Não é verdade! Vocês estão sendo malvados! Vou contar ao vovô. – O menino loiro gritou, pulando do colo do pai e correndo porta afora.
Remus fez um gesto para ir atrás dele, mas Lucius só negou com a cabeça.
– Ele foi para o quarto do meu pai, ele é meu filho, ele precisa ver. – Lucius disse, saindo atrás de Draco, e sendo seguido por Remus. – Quer me dar o Harry?
Os dois sabiam que o moreninho tinha uma fraqueza pelos loiros Malfoy. Lucius tinha mais possibilidades de acalmar o pequeno, por isso Remus entregou o corpinho tenso para seu companheiro.
– Vamos lá Harry, não chore. – Lucius pediu, acariciando as costas do menino, e sussurrando palavras em francês todo o caminho até o quarto de Abraxas.
Quando chegaram ao quarto, Draco estava ao lado da cama, segurando a mão do avô.
– Ele não acoda. – O menino disse, com o rosto banhado em lágrimas. – Faça ele acoda, papai, por favor! Eu prometo que vou ser bonzinho.
Remus sentiu seu coração sangrar e nem podia imaginar como Lucius se sentia.
– Ele não pode acordar, meu querido. Ele está em paz agora, e ele não gosta que você chore. – O lobisomem disse, ajoelhando-se ao lado do menino.
Draco mal podia parar de soluçar, mas deixou Remus pegá-lo no colo e levá-lo para fora do quarto. Harry não ousou tirar o rosto do pescoço de Lucius.
– Quer dizer thau ao vovô? – Lucius perguntou suavemente.
O aperto dos bracinhos a seu redor ficou mais forte e o menino ficou tão tenso que Lucius achou melhor tirá-lo dali rapidamente. Esse dia ia ser o inferno.
X~X~X
Quando Severus e Sirius desceram para o salão, encontraram ninguém menos do que Narcissa Black olhando para um pergaminho flutuando a sua frente e dando várias ordens para alguns elfos.
– Bom-dia. – Ela disse, distraidamente.
– O que diabos você está fazendo aqui? – Severus perguntou, praticamente esbravejando.
– Eu vim em missão de paz, Lucius não tem que lidar com todos os detalhes de um funeral e o lobisomem está ocupado consolando-o, o que é melhor fazer direito ou vou ter um tapete na próxima lua cheia. – Ela disse, taxativamente.
– Você o odiava! Não tem o direito de…
Sirius ficou a frente do marido quando Narcisa virou-se para os dois com os olhos flamejando.
– Eu o odiava? Sim, ele sempre me desaprovou e deixou isso muito claro, coisa que não me rendia bons momentos em casa e eu sempre o detestei por isso. – Ela disse, dando de ombros. – Eu odiava meu pai também, mas nem por isso deixei de dar-lhe um funeral decente, e não pense por um segundo que eu estou aqui por Abraxas, eu estou por Lucius, ele não precisa de você gritando como um descontrolado, controle-se.
Severus reconheceu a verdade nas palavras da mulher, e saiu da sala com um esvoaçar de sua túnica negra.
– Tem ideia de que está casado com um vespeiro humano, certo? – Ela perguntou ao primo que não via há anos.
– Não o aborreça Narcissa, isso é muito difícil pra ele. – Sirius disse, ele sempre tinha tido uma preferência pela prima mais brincalhona e festeira.
– Eu não quero aborrecê-lo, só não o quero gritando comigo. Podemos nos ignorar o dia todo se ele quiser. – Ela disse, dando de ombros. – Por favor, avise-o de que a pira vai ser acendida no pôr-do-sol, as pessoas vão começar a chegar em duas horas, portanto tenho muito o que fazer, vá arrumar algo útil para se ocupar você também.
– Sim, mamãe. – Ele disse, burlando-se da prima.
– Tenha cuidado Sirius, sempre posso encarnar tia Burga e te dar umas palmadas.
Ele fez uma careta ao imaginar a cena e tratou de ir atrás de seu marido. Narcissa contou isso como uma vitória, ouviu mais passos vindos da escada e quando se virou, esperando encontrar Lucius, deu de cara com o lobisomem.
– Oh, é você. Draco está bem? – Ela perguntou, como se ele não estivesse tenso como uma vara.
– Como diabos ele poderia estar bem? – Remus perguntou, de forma hostil, o que fez Narcissa revirar os olhos. – Essa é uma pergunta muito imbecil, mas não surpreendente vindo de uma mãe tão relapsa quanto você.
– Sério? Vai ter essa postura de macho alfa defendendo território justo hoje? – Ela perguntou, azeda. – Eu não quero Lucius de volta, ele é meu amigo, estou aqui porque não quero que ele se preocupe com coisas idiotas como que talheres os elfos devem usar hoje, ou onde devem colocar as mesas com comida, mas se quiser que eu vá embora, tudo bem.
Remus sentiu-se mesquinho e infantil, e corou quando se deu conta de seu comportamento muito primitivo.
– Me desculpe, às vezes, é mais forte do que eu.
– É um dos muitos males de ser um lobisomem. – Ela disse. – E não se esqueça de que você pode cuidar do meu filho, melhor do que eu jamais faria , como Merlin sabe, não nasci para lidar com crianças o tempo todo, mas se tentar envenenar meu menino contra mim, vamos ter problemas.
Remus lutou bravamente contra o instinto que o fazia pensar em chutar a harpia para fora da mansão, afinal, ele era um ser humano perfeitamente racional por mais que ela pensasse o contrário.
– Eu não vou fazer isso. Trégua? – Ele perguntou, estendo a mão.
– Trégua. – Ela concordou, mas sem se dignar a corresponder ao gesto amigável.
– Mère! – A voz rouca de Draco a fez se virar novamente para as escadas.
– Ma petit. – Ela respondeu em francês também, abrindo os braços para receber o filho. – Não chore, meu dragão, seu avô não gostava de te ver chorar.
– Mas ele não vai voltar. – O menino choramingou.
– Mas vai ter seu quadro para conversar, e ele vai sempre velar por você. – Ela garantiu.
– O quadro? Ele vai ter um quadro? – Draco perguntou, mais calmo.
– Sim, mas você só pode vê-lo daqui alguns dias. – Lucius completou, agradecendo mentalmente a ex-mulher por ter se lembrado desse fato.
– Sim, vai ficar tudo bem, dragão. – Narcissa disse, sentindo-se mais leve por ter ajudado. – Agora, por que não ajuda seu amiguinho Harry a se acalmar? Não queremos que ele fique doente, não é? – Ela incitou o filho, ela não gostava especialmente de Potter, nem tinha um instinto materno aflorado, mas qualquer um com um pingo de humanidade se compadeceria do menino grudado em Lucius.
Os olhos do loirinho se arregalaram e ele foi se sentar ao lado do pai para tentar fazer Harry parar de chorar, o menino não tinha desgrudado de Lucius depois de saírem do quarto de Abraxas.
– Pobre garotos. – Remus lamentou.
– Podia ser pior, eles podiam não ter vocês. – Ela concedeu, afinal, Lucius e o lobo cuidavam primorosamente de seu filho e do garoto Potter, negar era tolice, e Narcissa Malfoy nunca foi uma mulher tola.
Remus ficou de boca aberta vendo a loira sair da sala rumo aos jardins.
X~X~X
Lucius tinha que admitir a si mesmo que mal podia esperar para chegar ao fim da cerimônia. Ele e Severus, como os filhos de Abraxas, receberam todos os que vieram prestar as últimas homenagens ao patriarca da família, e o pior é que eles nem tinham chegado perto do final.
– Você está bem? – Severus perguntou, discretamente.
– Não, temo que não vou estar por um tempo. – O loiro respondeu sinceramente. – E tenho que aguentar isso sem Remus por perto.
Severus assentiu, entendendo perfeitamente o amigo. Remus estava pairando por perto, claro, sua presença e a de Sirius perfeitamente perceptíveis entre o mar de puro-sangue tradicionais que conversavam pelos salões e jardins após apresentarem suas condolências para Lucius e Severus.
– O sol vai se pôr em duas horas, depois disso as coisas podem se passar mais rápido. – Severus disse.
– Queimar um morto nunca é assim tão simples. – Lucius disse, amargamente, mas logo se arrependeu. – Desculpe Sev, estou sendo um idiota.
– Estou acostumado com isso, você sempre foi. – O moreno respondeu, com um sorriso amigável e um aperto discreto na mão do amigo, que claramente foi visto por Sirius, que rosnou ao lado de Remus.
– Acho que seu cão está rosnando para mim. – Lucius disse, um pouco divertido, mantendo a mão de Severus na sua, só para ver Sirius mostrar os dentes, ameaçador.
Severus sacudiu a mão onde seu anel de união estava, tirando importância do assunto.
– Ignore-o, depois vou colocá-lo de castigo. – Falou, sabendo perfeitamente que Remus iria ouvi-lo, e Sirius também, já que o animago mantinha certas vantagens de sua forma de cachorro quando estava no meio de uma multidão, Severus achava essa paranoia levemente charmosa, mas nunca diria isso em voz alta.
– Sim, bata nele e o mande dormir lá fora. – Lucius disse, esquecendo pela primeira vez no dia sobre a tristeza da morte de seu pai.
Severus certamente faria isso, se Lucius sorrisse como agora. Seu amigo tinha passado o dia com uma máscara de frieza e contrição que tinha feito seu estômago dar nós. Ele e Abraxas sempre tinham temido que o loiro se tornasse um cínico arrogante sem o pai por perto para dar-lhe algumas sacudidas, mas o breve sorriso do loiro acabou por acalmar o pocionista, e ele sabia que devia a postura mais relaxada do loiro ao lobisomem, só Merlin sabia o que seria de Lucius se ainda estivesse casado com Narcissa, provavelmente iria se tornar um daqueles ricos ociosos e fúteis.
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– Mère? – Draco chamou.
– Sim? – Narcissa respondeu, indo até a cama onde os dois meninos tinham passado a tarde, deprimidos e olhando velhos álbuns, cheios de fotos de Abraxas.
– O que vão fazer com o vovô? – Ele perguntou. – Ele vai ficar na cripta?
Narcissa sabia que o menino detestava o lugar, uma vez ele tinha escapado dos elfos e se perdido nos túmulos, quando ela o achou o pequeno estava assustado e um pouco traumatizado.
– Parte dele. Alguém já te contou sobre o ritual dos mortos? – Ela perguntou, achando que era um momento apropriado.
– Não. – O menino disse, meio desconfiado.
Narcissa sorriu, o filho fazia bem em não confiar de todo nem mesmo nela. Ela sentou-se na cama e bateu no colo, coisa que fez o loirinho sorrir, afinal, ela não era dada a afagos. O menino Potter ficou olhando-a com aqueles olhos verdes absurdamente bonitos e tristes, quem poderia resistir ao pirralho? Ela devia manter distância se quisesse se juntar ao Lorde quando ele retornasse.
– Venha aqui Potter, também deve ouvir. – Ela disse, firmemente, e ele obedeceu, apesar de muito receoso.
Com os dois meninos perto, Draco aconchegado em seu colo e Potter segurando a mãozinha de seu filho, ela procurou um jeito de explicar as tradições puro-sangue, lembrando-se com desgosto do método de seu pai, que era dar-lhe bofetadas sempre que ela questionava algo ou se assustava e chorava.
– Então, quando os magos morriam muitos, muitos anos atrás eles eram colocados naquelas caixas que você viu na cripta e deixados lá, para serem visitados pelos seus filhos, netos e assim por diante, mas depois de um tempo, as famílias puro-sangue perceberam que isso dava a seus inimigos um poder muito forte, pode pensar em algum, dragão?
O menino balançou a cabeça negativamente, muito atento as palavras da mãe.
– Se um mago quiser se vingar da nossa família ele poderia usar o corpo de um familiar nosso, esse tipo de magia se chama necromancia, e é muito perigosa e poderosa. Para evitar que nossos mortos sejam tirados de seu descanso, porque deve sempre se lembrar de que seu avô está descansando e em paz agora, nós o queimamos.
Os dois meninos abriram os olhos, igualmente horrorizados.
– Não se assustem, não é uma coisa má. Quando queimamos nossos mortos, estamos purificando seu espírito, evitando que eles se apeguem as suas recordações terrenas e façam uma passagem tranquila para a outra vida. E as cinzas não podem ser usadas para os rituais de invocação. – A menos que se tratasse de um mago extremamente poderoso e disposto a usar magia negra pesada, mas os meninos não precisavam saber disso. – Isso os protege.
– Vão queimar o vovô? – Draco perguntou.
Ela olhou pela janela e viu que o sol já começava a se pôr.
– Devem começar agora, seu pai e seu padrinho vão andar até a pira, uma cama de madeira e penas de pavão que os elfos fizeram para o seu avô e vão juntos acender o fogo. A luz do fogo vai ajudar seu vovô a encontrar seu caminho.
Draco assentiu, assimilando as novas informações, e o pequeno Potter falou pela primeira vez:
– Posso ver? Quero dar thau. – Harry disse, com a voz tremendo. – Quero dar thau ao vovô.
Ela assentiu, um pouco preocupada, Lucius tinha deixado claro que não queria os meninos numa cerimônia fúnebre, tendo se mostrado muito protetor do menino Potter, mas ela pensava que devia deixar o garoto se despedir, ele nunca teria essa oportunidade de novo.
– Eu te levo se quiser, mas se ficar com medo deve me dizer, não tente ser corajoso. – Ela disse, imaginando que os genes leoninos do rapaz o fariam ser assim tão tolo.
– Eu digo, prometo. – Ele garantiu.
– Você quer ir também? – Ela perguntou ao filho.
– Se Harry vai, eu vou. – Draco disse, decidido.
E foi assim que ela andou para o jardim, ladeada pelos meninos, que seguravam sua mão. Eles chegaram a tempo de ouvir o canto triste da acólita, que acompanhava os passos de Lucius e Severus pela escada que os levava a pira. Lucius se inclinou e tirou o anel de brasão do dedo do pai, colocando-o em seu próprio e exibindo para os espectadores, depois, beijou o rosto inerte de Abraxas, dizendo algo tão baixo que nem Severus foi capaz de ouvir. Quando os dois sacaram suas varinhas e iniciaram o fogo mágico que se ergueu em chamas avermelhadas, tais como o céu em crepúsculo, ela sentiu Draco apertando seus dedos com mais força, e sentiu pena de seu filho, o avô realmente o amava e faria falta.
Lucius lançou-lhe um olhar gelado quando desceu da plataforma e a viu ali, mas ela deu de ombros, explicaria mais tarde. Ele aceitou a situação se postou atrás dela, com uma mão em seu ombro, enquanto esperavam o fogo terminar. Narcissa podia ver o lobisomem rilhando os dentes ao lado de Sirius, que distraído acariciava o braço de Severus, que também a olhava carrancudo e sombrio. Em vez de espezinhar o lobo, optou por um gesto de mão apaziguador, Lucius merecia paz naquele momento. A mesma paz que sentiram quando o fogo foi se extinguindo, uma brisa suave e uma corrente de magia percorreu a multidão, demorando-se especialmente nos dois meninos e em Lucius e Severus. Abraxas Malfoy realmente tinha partido.
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