Um Novo Caminho
42 Consequências
Notas iniciais
Ron nunca pensou que sentiria tanta dor que não poderia se mexer. Bellatrix tinha chegado com um elfo doméstico no dia anterior, pelo menos ele achava que fosse no dia anterior, e fez o pobrezinho tirar fotos enquanto o torturava, a maldita filha de uma cadela nem se incomodou em vesti-lo, ela riu loucamente quando o viu sangrando e nu, perguntou se tinha se divertido com a visita especial de Amicus, sussurando em seu ouvido que isso só tinha acontecido porque tinham feito o mesmo com seu precioso Rabastan. Ela tinha rido enquanto o cruciava, informando que enviaria fotos para todo o mundo bruxo saber que ele tinha sido a puta de um comensal da morte. Agora, jogado naquele chão frio e úmido, ele pedia a todas as divindades que isso fosse só outra forma de tortura, ele não ia aguentar se sua família tivesse visto as fotos, sangrando e nu, se retorcendo e gritando pela dor. Sentia gosto de sangue na boca e muita sede, pensava se sua família estaria sofrendo muito, amaldiçoou pela enésima vez ter devolvido o colar de Draco, lágrimas umedeceram seus olhos novamente, tinha que sair dali, mas a dor em seu corpo impossibilitava seus movimentos. Bellatrix tinha razão, ela tinha melhorado em seu uso de cruciatus, ela sabia exatamente quando parar para não fazê-lo enlouquecer, mas se divertiu horrores ao vê-lo perder o controle da própria bexiga numa de suas sessões. Já fazia horas que ele sentia a visão borrada, ele entrava e saía de períodos de insconsciência e se perguntava quanto tempo levaria para não acordar mais. Estava tão ocupado pensando no desespero que sentia, que mal registrou o cheiro de fumaça que permeou o ar, mas, com certeza notou o brilho forte frente a seus olhos. Ele não sabia o que era, mas, alguns instantes depois ele viu um furão totalmente branco frente a seu rosto, o bichinho parecia atordoado, e choramingava um pouco, a pelagem estava machada com sangue seco. Ele conhecia aquela forma, ele já tinha segurado esse animal em seus braços quando ele estava machucado e assustado. Devia estar alucinando, e se perguntou mentalmente se Draco acharia divertido que em meio a sua névoa de dor alucinasse com sua forma transformada em animal. Fechou os olhos, sentindo-se fraco de novo, o corpo amolecendo, num misto de enjoo e fome.
Draco entrou em pânico ao ver o ruivo revirar os olhos e desmaiar. Ele tinha chegado, mas sentia como se todos seus nervos se esticassem, a dor queimava por todo seu corpo, ainda não podia voltar a forma humana. Por isso se limitou a se aproximar do ruivo, sentindo um imenso alívio ao sentir uma respiração fraca em sua pelagem. Choramingou, esfregando o focinho no queixo dele, esperando para que seu corpo se normalizasse. Ele invocou suas sessões de treino sob a orientação de seu tio Sirius, fechou os olhos, controlou a respiração e os batimentos cardíacos, focando em limpar a mente. Meditar era muito bom para controlar a magia e aumentar a percepção das correntes de magia, em sua forma animaga, percebeu que o quarto do porão era fortemente guardado, a magia das proteções chegava a ser opressiva em seu pequeno corpo, não ouvia nada do lado de fora, então, deduziu que havia um feitiço de silêncio envolvido. Mais alguns minutos e foi capaz de voltar a sua forma humana, sentindo o coração disparar, já que temia alertar as proteções de sua tia, quando alguns minutos se passaram, ele deixou de ficar em posição defensiva frente ao ruivo, mas não guardou a varinha.
— Ron! — O loiro disse, baixinho, tirando sua capa rapidamente e envolvendo no corpo do amigo. — Ron, acorde, não quero usar feitiços, acorde, por favor.
O ruivo continuou insconsciente, e Draco o sentia muito quente, ele estava com febre, uma dos sintomas de infecção que Hermione tinha comentado,preocupado, ele lançou um enervate leve, sorrindo quando o viu abrir os olhos, porém, as belas orbes azuis estavam enovoadas, ele não parecia acreditar que o visse, mas sorriu.
— Gosto de sonhar com você. — Ron disse, fracamente.
— Não é um sonho, estou aqui. — Draco disse, desesperado, pegando os dois frascos de poção.
Ele fez Ron beber os liquídos com muita dificuldade, e ficou horrorizado quando depois de engasgar, o ruivo vomitou tudo.
— Oh, diabos! — Draco xingou, baixinho, precisava tirá-lo dali.
Seus nervos se crisparam quando a sensação de silêncio profundo foi cortada de repente, ele sabia que alguém iria entrar, e sabia que isso era uma vantagem. Sua mãe e seu pai o tinham treinado bem, se ia lutar com um deles tinha que atacar rápido e não deixar a mínima possibilidade de que revidassem. Sentia o ódio ferver em seu interior, algo que tinha sentido desde que soube do sumiço de Ron, uma raiva surda, que queimava em sua barriga e o fazia desejar ver sangue, se fosse o da sua tia, melhor ainda.
A porta se abriu parcialmente, e a pessoa mal tinha colocado um pé para dentro quando ele soltou uma maldição ensinada por sua mãe. Narcissa era muito mais descritiva e vingativa que seu pai, ela dizia que era o sangue Black deles. Ele sentiu uma satisfação eletrizante quando o corpo caiu com silêncio, ele sabia quem era: Amycus Carrow, o homem que Fenrir mal podia falar o nome sem rosnar, um maldito sádico estuprador. Draco chegou perto dele o virou com o pé, vendo os olhos arregalados, a boca gritando sem emitir som. Era um detalhe que ele gostava dessa maldição, ela paralisava a vítima totalmente, o corpo era inútil, os músculos não se moveriam nem para deixá-lo gemer enquanto sentia fortes dores castigando-o. Não era como cruciatus, mas era pior, na opinião de Draco, porque aumentava de intensidade e diminuía, voltando a funcionar quando seu corpo se acostumasse a falta de dor. O loiro sorria ao localizar e quebar a varinha do mago.
— Eu poderia te matar, mas prefiro deixar um pedaço para outros interessados. — Ele sussurrou. — Vai perder a língua e outras partes do corpo antes de chegar em Azkaban, posso te garantir.
Uma risada estridente o fez se virar para ver a tia. Ela sorria, batendo a varinha na bochecha. Ele não se imutou.
— Tia. — Ele soltou, com sarcasmo, ciente de que estava entre ela e Ron.
— Sobrinho. — Ela saudou. — Cyssa sempre gostou de lançar só um feitiço e largar o oponente sofrendo, vejo que é um traço hereditário.
Ela tinha dado dois passos em sua direção, quando o som de uma aparição os alertou, logo, ela tinha a varinha de Narcissa em seu pescoço, enquanto a irmã segurava seu braço, totalmente confiante a seu lado.
— Olá, Bella. — Sua mãe disse, de costas para ele.
— Oh, que rude, Cyssa. — Bella disse com um beicinho. — Eu não o toquei.
— Você iria? – Narcissa questionou.
— Não, sei como pode ser retorcida. — A morena disse, passando um dedo pela bochecha da irmã, mas com a ponta da varinha firmemente encostada na barriga da caçula. — Mas, vou machucar os dois muito brevemente, se não me deixar ir.
Narcissa abriu a boca para responder, mas foi interrompida por uma grande explosão que as desequilibrou. Draco não era idiota, não se meteria numa briga entre as duas, se sua tia não acabasse com ele, sua mãe se encarregaria do resto depois. Recuou até Ron, lançando um potente escudo sobre os dois, fazendo uma nota mental para aprender a aparatar o mais rápido possível.
Protegido, ele ouviu o som de lutas e os gritos de seu tio Sirius, mas a voz de sua mãe era mais clara ainda, já que estava por perto.
— Ela é filha de Andrômeda, não seja estúpida. — Ela ouviu sua mãe dizer, antes de soltar uma série de maldições que ele nunca tinha ouvido falar, e nas quais preferiu se concentrar do que nos gritos de Tonks.
Ele agradeceu mentalmente quando viu Bill Weasley entrar pela porta, pisando sobre o ainda paralisado Amycus, vindo em direção a eles.
— Para o hospital, agora! — Draco disse, agarrando a túnica dele com uma mão de ferro.
Ele nem tinha terminado de falar quando o jovem auror os aparatou para longe dali. Em St. Mungo, uma equipe de medimagos logo veio atender Ron, deixando-o sozinho, já que Bill tinha sumido num estalo no momento em que seu irmão foi levitado para a ala de atendimento. Draco, tremendo, deixou-se cair sentado junto a uma parede. Ele tinha conseguido, e tinha lágrimas nos olhos e uma sensação de irrealidade ao perceber isso.
X~x~X
Tom estava muito contente de que estava em St. Mungo e não num local mais reservado. Narcissa Black chegou junto com um destacamento de aurores, seu cabelo estava desfeito, tinha sangue em seu vestido e olhos mortíferos em sua direção. Ele realmente odiava mães irritadas, Lily Potter o tinha deixado escaldado.
— Tom, querido. — Ela sibilou, andando em sua direção.
Ele deu dois passos para trás, segurando sua varinha.
— Narcissa, você fica adorável após uma batalha. Finalmente mataram sua irmã?
— Não... mas, Rodolphus sim. — Ela disse.
Tom bufou, com incredulidade.
— Ela está presa pelo menos?
— Escapou, de novo. — Narcissa soltou, entredentes. — Sirius está ferido, dois dos aurores dele morreram, e um dos betas de Fenrir.
— Eu deveria ter ido. — Ele disse, mais preocupado com o fato de terem uma Bellatrix louca e sedenta de sangue livre do que com as mortes de quem não sabia nem o nome. — Bella está claramente acima das habilidades dos lacaios do Ministério.
Narcissa praticamente rosnou, mas mordeu a maldição que já iluminava a ponta de sua varinha quando notou que Percy olhava com atenção a essa troca de informações, sentado rigidamente num dos sofás da sala de espera.
— Oh, desculpe-me, Percy. Como está Ronald? – Ela perguntou, genuinamente preocupada.
— Não disseram nada ainda. — Ele disse, claramente nervoso. — Meu pai e a mamãe estão esperando lá dentro, mas eu e os gêmeos não podemos, para não tumultuar a ala de emergências. Eles foram para a loja, são muito inquietos para esperar aqui.
— Seu irmão com o cabelo longo e brinco está bem, tem algumas queimaduras e cortes, mas nada grave. — Ela disse, olhando em volta. — Onde está Draco?
— Lucius veio buscá-lo. — Tom disse, lembrando-se de como se sentiu aliviado quando o loiro apareceu para pegar seu filho, que estava meio catatônico esperando por notícias ao lado de Percy. — Talvez deva ir salvar seu herdeiro dele.
— E quem vai salvar você? — Ela perguntou, se aproximando. — Mandou meu filho direto para o fogo, seu maldito filho de uma cadela.
Tom levantou as mãos, tentando acalmá-la.
— Bem, ele ia fazer isso com ou sem a minha ajuda, preferia que eu tivesse deixado os gêmeos Weasley lançarem o feitiço? Além disso, se não fosse agora com a nossa ajuda teria sido na escola com aquela jovenzinha inteligente, mas inexperiente. Deu tudo certo, mas, peço desculpas por preocupá-la.
Percy ofegou quando um feitiço atingiu Tom, mas o homem rilhou os dentes e apesar de ter empalidecido não recuou.
— Desculpas aceitas. — Narcissa disse, virando-se para Percy. — Espero que Ronald fique bem logo, agora, vou matar meu filho com a ajuda do pai dele.
Percy não disse nada, mas por dentro, estava profundamente grato ao rapaz, ainda que desconfiasse que quando seu irmão estivesse melhor, seus sentimentos por ele mudariam, já tinha ouvido falar que terminaram, mas talvez fosse uma coisa de momento, os dois se gostavam, isso sempre foi óbvio.
— O que ela fez? Precisa que eu chame um medimago?
— O quê?! Não! – Tom disse, desesperado. – Mas, não poderei te tocar por um tempo.
— Por quê? – Percy perguntou, inocentemente, não vendo nada nas mãos do amante.
Tom bufou.
— Porque ela me deu de presente um feitiço que imita gonorréia mágica, e não adianta correr para os idiotas daqui porque é um fieitiço proibido criado na Espanha para maridos infiéis.
Percy o olhou com detenimento antes de dizer:
— Vou ter que pedir para ela me ensinar… nunca se sabe se vou precisar.
Tom o olhou com horror, teria pelo menos um mês de suplício até o feitiço desgastar, certamente não queroa repetir a dose se seu amante soubesse lançar isso a cada vez que estivesse irritado. Tomou toda sua compostura para não gemer ao sentir seus pobres testículos incharem, ele achava que merecia mais compaixão de Percy, já que tinha feito isso para salvar seu irmão, e o ruivo pareceu ler seus pensamentos.
— Estou agradecido por ter salvado o Ron e ser castigado por isso… quando isso passar, vou te fazer algo especial. – O ruivo ronronou em seu ouvido.
— Algo muito especial, não vou poder urinar em paz por um bom tempo. Maldita Narcissa, é uma cobra vingativa.
Percy riu, não eram todos os sonserinos assim?
X~x~X
Quando sua mãe chegou a mansão, Draco já estava cansado, física e mentalmente. Seu pai e Remus o tinham sentado e gritado por um tempo, até perceberem que não iam fazê-lo sequer parecer arrependido. A verdade era que ele estava furioso com os adultos, furioso por terem esperado, furioso por não terem dado Rabastan a sua tia no instante em que ela pediu, ele ainda sentia uma raiva impossível de disfarçar, e ele era bom escondendo os sentimentos quando precisava.
— No que estava pensando?! — Sua mãe perguntou, perigosamente calma.
— Que eu queria Ron de volta e ninguém estava agindo rápido o suficiente. — Draco respondeu, sem perder a compostura. — Que ele estava nas mãos daquela demente sofrendo sabe-se lá o quê, e que todo mundo estava sendo incompetente demais para fazer qualquer coisa a respeito, então, eu fiz.
— Você foi irresponsável e impulsivo! Poderia ter morrido na maldita transferência!
— Altamente improvável, Hermione fez a pesquisa e calculou os riscos. – Draco disse, omitindo a dor que sentiu, a sensação de ter seus músculos rasgados e a queimação insuportável na hora de ser reconfigurado no destino, que o deixou fora de combate por um tempo.
— Isso não é o suficiente! — Lucius e Narcissa gritaram ao mesmo tempo.
Remus resistiu ao impulso de tapar os ouvidos, já que sua audição sensível sofria com os agudos que os dois alcançavam. Deu um olhar duro ao adolescente loiro, que em vez de baixar os olhos o enfrentou com o queixo erguido.
— Sabem o que não é suficiente?! A rapidez com que trabalharam! Ele foi estuprado! Nós nunca chegamos ao fim e ele e foi estuprado! – Ele gritou, fazendo seus pais perceberem seu nível de estresse, já que nunca tinha reagido assim com eles. – Agora a primeira lembrança que ele tem disso é daquele asqueroso o ferindo! E ele ficou lá sangrando e com dor por dias! Ele aguentou isso sozinho porque ninguém estava fazendo nada!
Nenhum dos três esperava que o loiro explodisse em lágrimas murmurrando que era sua culpa, que não cuidou direito dele, que não merecia vê-lo novamente.
Desarmados, Lucius e Narcissa foram consolá-lo, e Remus se sentiu mal por não ter percebido como o sequestro de Ron estava afetando Draco tão profundamente. Deviam ter mantido vigilância sobre ele, mas nunca teria imaginado que Hermione o ajudaria em vez de pará-lo, menos ainda que deixariam Harry de fora para que ele não atrapalhasse os planos. Algo estava acontecendo entre seus filhos e ele não estava gostando desse distanciamento. Ficou chocado quando Draco rejeitou os pais e subiu as escadas correndo, gritando que queria ficar sozinho.
— Não era pra ele ficar culpado no final disso? — Narcissa perguntou, parecendo cansada.
— É bastante difícil deixar alguém culpado ou arrependido quando estão com tanta raiva. — Remus disse. — E, podemos gritar e sermonear tanto quanto queiramos, ele vai continuar convicto de que fez a coisa certa.
Lucius fez uma careta.
— Culpo sua influência gryffindor.
— Não sei o porquê. — O lobisomem disse, olhando para os dois sangue puro. — Se fosse Draco sequestrado, esperariam pacientemente pela resolução de outra pessoa? Vocês slytherins são piores que qualquer um, ele analisou todas as possibilidades e sobreviveu... agora, por que não vamos arrancar a pele de certo cachorro por ter ensinado ao nosso filho como se tornar um animago sem dizer a ninguém?
Remus os viu recuperar a animação. Finalmente tinham um alvo que poderiam triturar.
— Eu vou ficar e tentar conversar com Draco, ele me ama mais. — Disse, provocativo.
Lucius revirou os olhos.
— Só o acalme, por favor, e, lembre-se de avisar a diretora que Harry pode vir para casa.
— Sim, senhor.
X~x~X
Ron não sabia exatamente como tinha ido parar no hospital, mas já estava convencido que não era uma alucinação. Seus pais estavam lá quando ele acordou, fazia um tempo que não via sua mãe, então, se espantou em ver como ela estava pálida e como tinha perdido peso. Ela segurou as lágrimas ao vê-lo, dizendo que estavam muito felizes de tê-lo de volta, ele tinha certeza que ela fechou as mãos em punhos para evitar abraçá-lo. Depois da grande briga entre eles, quando teve sua transição, tinha deixado claro que ela não era bem-vinda para tocá-lo, seu pai, por outro lado o agarrou com cuidado, e chorou em seu pescoço, pedindo desculpas por tudo o que aconteceu.
— Não foi culpa sua. — Ele disse, estranhando a voz rouca. — Eu dormi muito tempo?
— Dois dias. — Arthur disse. — Eles tiveram que colocar as poções pela sua veia, e como estava com muita infecção, eles preferiram deixá-lo descansar.
— O medimago vai vir te explicar melhor. — Molly disse. — Ele disse que não nos contaria muito porque era sua decisão.
Ron assentiu.
— Eles foram presos? Acabou?
Molly fez uma cara tão assustadora que ele pensou que estivesse prestes a começar um de seus antigos discursos sobre Draco ou sobre portadores desviantes.
— Aquela cadela fugiu, mas, ficou praticamente sozinha. O marido dela morreu, Sirius Black o matou... e o rapaz Malfoy pegou o homem que te machucou. Ele está em Azkaban.
— Draco estava lá? — Ron perguntou, confuso.
— Sim, ele te salvou. — Arthur disse.
Ron ficou surpreso, não se lembrava de muita coisa de seu resgate, era tudo um borrão febril. Fechou os olhos, cansado.
— Vou dormir mais um pouco...
Sentiu mãos macias em seu cabelo, certamente sua mãe, mas não estava com força suficiente para dizer que não deveria tocá-lo.
X~x~X
Harry esperou o que ele considerou tempo suficiente para confrontar Draco. Já tinham se passado alguns dias, eles voltariam para a escola no dia seguinte, uma vez que o loiro surpreendentemente tinha escolhido não visitar Ron no hospital. Bateu na porta do loiro, que tinha passado a maior parte da semana sem sair muito dali, e recebeu um grunhido de resposta.
— Ei. — Harry disse, sabendo que não tinha o melhor dos momentos quando viu que o loiro estava sentado perto de sua varanda, admirando um colar nas mãos. Era o de dia dos namorados, o que Ron tinha devolvido e que ele pensava que ainda estava em seu quarto. — Hum, pediu a um dos elfos que pegasse de volta?
— Por quê? — Draco perguntou, cortante. — Queria guardar para atrapalhar mais um resgate ou algo assim?
Harry o olhou, indrédulo. Sabia que o loiro tinha ficado furioso com isso, nem o tinha olhado quando soube na sala da diretora que tinha sido ele o último a ver Ron, que estava com o colar que poderia resolver tudo em alguns minutos, mas ouvir Draco externando isso naquele tom era uma dor nova.
— Isso não é justo, ninguém imaginava o que ia acontecer. — Harry disse, segurando a língua para não dizer que se ele procurava alguém para culpar, seria ele mesmo, já que de algum jeito o namoro dos dois terminou no dia dos namorados, deixando o ruivo sem aceitar o presente. — Não fiz isso de propósito, só estava tentando ajudar.
Draco o olhou intensamente por um momento, antes de suspirar e desistir de falar alguma coisa. Harry o conhecia bem o bastante para saber que algo o incomodava profundamente.
— O que quer, Harry? – Perguntou, parecendo cansado.
— Por que não me deixou ajudar? — O moreno questionou. — Você e Hermione me deixaram totalmente de fora, por quê?
— Porque iria correndo contar para os pais e não confiaria em Riddle para lançar o feitiço.
— Claro que não! Isso foi loucura, o cara foi um Lorde escuro, e não teria nenhum problema em te sacrificar pelo irmão do amante. — Harry disse. – Mas, eu teria ajudado a ser mais seguro, pelo Ron.
— Está feito, por que falar sobre isso faria alguma diferença?
— Porque estou preocupado com você. — Harry disse, chegando perto do loiro, e ficando chocado quando Draco ostensivamente fugiu de sua mão. Ele não o deixou tocá-lo, o que era no mínimo estranho, ele nunca tinha feito isso. — O que foi? Draco...
— Só me deixe sozinho, por favor. — O loiro pediu. — Só saia daqui! Não quero falar com ninguém!
Harry percebeu que realmente tinha chateado o loiro e se retirou com o coração apertado. Ele estava se culpando por Ron, devia estar destroçado, já que era tão apaixonado pelo ruivo. O que ele poderia fazer para ajudar? Doía pensar que teria que ajudar a juntá-los de novo, mas obviamente, ficar separados estava destruindo Draco e isso ele não podia tolerar.
X~x~X
Hermione estava confusa, e ela odiava ficar nesse estado de espírito. Draco e Harry tinham voltado, mas, em plena segunda-feira eles tinham muitas aulas preocupantes que a impediram de conversar com os dois adequadamente. Na hora do almoço, pensou que teria sua chance, mas Draco desapareceu, e Harry a tinha respondido o melhor que pôde, mas ele não sabia muita coisa, já que não tinha ido ao resgate, coisa pela qual a acusou e os dois tiveram uma discussão de relação das que não tinham desde que namoravam. Lembrar-se que os dois namoraram, a fez franzir o cenho, parecia que tinha sido há séculos, ainda mais com o que aconteceu com Ron, estava a par das teorias do amigo de que Draco estava estranho e triste por ter terminado com Ron, e sabia que era realmente uma parte disso, mas, também estava consciente de que era culpa por gostar de Harry e achava que até ele ficar em paz com o que estava sentindo, as coisas ficariam ruins para todo mundo.
X~x~X
Percy forçou um sorriso ao entrar no quarto que agora era de Ron na mansão de Tom. Seu irmão estava morando com eles desde que saiu do hospital e teve uma crise de choro em seu antigo quarto, porque não aguentava as lembranças doces que tinha com Draco ali, enquanto sua mente o fazia trocar o loiro por Amycus. Tom tinha dito a Ron que mudasse a decoração para algo de seu gosto, que ficasse à vontade e que tudo seria providenciado de acordo com suas instruções, mas, o mais jovem dos meninos Weasley só tinha agradecido polidamente após dar de ombros, o quarto permanecida exatamente igual ao que Narcissa tinha decorado quando arrumou a mansão para Tom.
— Ei, irmãozinho. Como se sente?
— Esperando que todo mundo pare de me perguntar isso. — Ron respondeu, deitado na cama em posição fetal. Percy tinha calafrios de ver como seu irmãozinho só dormia nessa posição, mesmo dopado com poções. Era-lhe impossível dormir sem ajuda de narcóticos, os pesadelos roubavam-lhe os sonhos e a luz dos olhos.
— Eu sinto muito se isso te faz sentir pressionado. — Percy disse, sentando-se na cama e esticando a mão para tocar seu irmão, parando a alguns centímetros de sua cabeça. — Posso te tocar?
Ron tinha desenvolvido uma repulsa ao toque de outras pessoas, quando sua consciência voltou totalmente ele tinha ataques de pânico até se as enfermeiras o tocassem.
— Eu... não sei. — Ron disse, com a voz tão quebrada que Percy teve vontade de ver os responsáveis se retorcendo no próprio sangue por dias. — Podemos tentar.
Percy esticou a mão, tocando-o na bochecha e sentindo os tremores no corpo do caçula, ao mesmo tempo em que lágrimas quentes molharam sua pele. Ele afastou a mão, mas Ron o agarrou pelo pulso e puxou para mais perto, chorando de soluçar ao enterrar o nariz no pescoço do irmão. Percy esperou pacientemente que a crise se acalmasse, acariciando as costas do jovem e ficando aliviado quando ele parou de chorar.
— Você cheira diferente, eu gosto quando me toca, isso é diferente com os outros. Quando me tocam... os dedos frios, as unhas, faz tudo voltar. As coisas que ele dizia, o jeito que me tocava... às vezes fecho os olhos e posso sentir o hálito dele na nuca ou perto da minha boca. — Ron disse, baixinho, e Percy não sabia se agradecia o fato dele finalmente falar sobre o assunto, coisa que se recusou a fazer até com o psicomago. — Eu odeio me sentir assim, ele não deveria ter esse poder sobre mim, ele venceu. Eu posso me lembrar perfeitamente de cada vez.
Antes disso, Percy tinha tido a esperança tola de que ele só tivesse sido estuprado uma vez, para a vingança de Bellatrix, mas, como Tom tinha previsto, Amycus era como um faminto solto em um banquete.
— Ele não venceu, porque você está de volta em casa e ele vai apodrecer em Azkaban com dementadores por companhia. — Percy disse.
— O problema é que mal consigo dormir porque tenho medo de isso ser um sonho bom, e acordar naquele porão de novo. — Ron riu, mas era um som horrível para Percy, porque estava cheio de autoaversão. — Só posso dormir com poções, e mesmo asim minha magia quer me acordar, sabia? O medimago disse que minha magia está se rebelando para proteger meu corpo de influências externas. Pelo menos eu não engravidei, pode imaginar isso? Eles tem todos esses procedimentos para estupros, poções para evitar uma gravidez, contágio de doenças… até um feitiço que detecta o pai do bebê se ele existir para poderem retirar o mais rápido possível. Não sabia que faziam abortos no hospital.
Percy sabia, Ron só tinha deixado que ele e Molly ouvissem o diagnóstico e suas feridas, e ele já tinha conversado com o psicomago responsável, e ele tinha informado de todo esse aspecto. Ele e Molly tinham sentindo uma onda de alívio ao saber que o irmão não teria que passar por um procedimento tão traumático.
— Claro que faz. – Percy disse. – Em Hogwarts eles não falam muito disso porque na sociedade trouxa ainda é um tabu em algumas famílias, e para os nascido trouxa é um tema sensível, mas qualquer bruxa ou mago fértil porde interromper uma gravidez indesejada se quiser.
Ron assentiu, ainda se chocava como podiam ser idiotas sobre temas que eram só bom senso no mundo dos trouxas. Por que obrigar alguém a ter um filho que não queria? Foi retirado de seus devaneios pela voz de Percy.
— Ron... por que eu e a mamãe? — Percy perguntou, externando a dúvida que o assolava há dias.
Seu irmãozinho o olhou com clareza, pela primeira vez desde seu resgaste havia um brilho satisfeito em seus olhos.
— Porque papai não aguentaria, e você ficaria doido sem saber, conheço seu complexo de cuidar da gente, precisa saber para tentar consertar. E, faria seu namorado... Noivo? Tom, faria Tom descobrir. — Ele sorriu de lado. — E ela? Para fazê-la sofrer, porque ela pode ser muitas coisas, mas ela nos ama, eu queria que ela sofresse ao ouvir.
Percy arregalou os olhos, chocado.
— Mas... por quê?
— Pelo o que ela te fez. — Ron disse. — Agora eu posso perdoá-la, estamos quites.
Percy teria que perguntar a Tom se todos os slytherins eram assim, mas de um jeito torto, ficou aliviado ao ouvir que Ron agora poderia perdoar Molly. Ele mesmo já o tinha feito e trocava cartas com ela, todos na família já tinham voltado a manter contato com a matriarca de uma maneira ou outra, só faltava Ron dos filhos, e Arthur afirmava que nunca mais voltaria a ficar na mesma sala que ela a não ser numa emergência, mas isso era outra história.
— Tão serpente... por que não tenta descansar? Vou ficar aqui.
Ron assentiu e fechou os olhos, seus punhos se fecharam na camisa do irmão com força, Percy ficou feliz quando muito tempo depois o sentiu ficar mais relaxado.
X~x~X
A primavera não era a estação preferida de Severus, principalmente porque marcava o fim de uma de suas estaçãoes favoritas, o inverno. Andando pelos jardins da mansão Malfoy, no entanto, ele podia apreciar o início da floração e do nascimento de diversas plantas, que já planeja usar em algum experimento ou simplesmente para adicionar como tempero na comida dos elfos.
— Não deveria estar andando sozinho por ai. — A voz de Lucius admoestou.
Severus revirou os olhos.
— Não comece a agir como Sirius.
— Não me fale desse idiota. — O loiro pediu, chegando ao lado do amigo para enganchar o braço no dele. — Não estou sendo superprotetor, mas o chão está molhado da garoa dessa manhã, se escorregar por aqui e ninguém estiver por perto...
— Chamarei um elfo porque não sou burro, só estou no terceiro trimestre de gestação e parecendo uma baleia encalhada. — Severus disse.
— E ranzinza, como está ranzinza. — Lucius disse, com cara de riso. — Mais do que eu com um adolescente em plena crise.
Severus franziu o cenho.
— O que há com Harry?
Lucius sorriu com um esgar.
— Dessa vez é Draco. Ele não está bem desde que resgatou Ron.
— Só faz algumas semanas...
— Um mês. — Lucius disse, irritado. — Um mês e ele já largou o quadribol, está enlouquecendo os amigos com seu silêncio e está sumindo o tempo todo.
— Harry o segue com o mapa o tempo todo, você quer dizer. – Severus disse. – E não é bonito usar um filho para espionar o outro… onde ele vai afinal de contas?
— Ele fica na Sala Precisa por tempo demais. – Lucius disse. – E Harry está irritado e preocupado em partes iguais, acha que Draco se meteu em alguma coisa porque está muito estranho.
Severus parou de andar, tanto para poder olhar melhor para o amigo como para descansar um pouco.
— Harry está obcecado e Draco perdido, estão agindo como adolescentes, deixe-os resolverem isso sozinhos. – Severus disse. – E isso inclui não se meter e sair contando sobre suas intuições sobre os sentimentos que tem um pelo outro.
— Não é intuição, é uma conclusão óbvia feita através de análise de fatos e comportamentos.
Severus revirou os olhos.
— Seja como for, é uma escolha de Draco falar com Harry ou não, e não adianta querer apressar as coisas, o que tiver que ser, será.
Foi a vez de Lucius revirar os olhos.
— Odeio quando fica todo pragmático e sábio. A gravidez não te deixou divertido.
— Estou de mau humor porque você e Narcissa incapacitaram meu marido por tempo demais, estou com dor nas costas e ele não pode usar os braços ainda para me dar uma massagem.
Lucius ficou culpado. Sirius já tinha sido gravemente ferido na luta, mas ele e Narcissa esperaram sua liberação de St. Mungo duas semanas atrás para inutilizar seus braços temporariamente, garantindo que descansasse e tendo sua vingança por ele ser irresponsável com o filho deles.
— Oh, sinto muito. – Lucius disse. – Vamos, vamos te colocar na minha banheira para relaxar e depois te faço uma massagem para deixar os meninos comportados com as endorfinas que soltar. – O loiro completou, acariciando sua barriga.
— Quero que liberte o feitiço do Sirius. – Severus pediu, mas seguindo o amigo, desejando muito ser mimado.
Lucius riu.
— Para isso teria que pedir de um jeito muito especial…
As risadas de Lucius e os gritos de Severus chegaram na sala, onde Sirius estava sentado numa poltrona enquanto Remus levitava uma xícara de chá para que ele bebericasse.
— Seu marido está provocando o meu. – O Chefe dos Aurores disse.
— Se preocupe se ouvir gemidos em vez de gritos raivosos. – Remus disse, sorrindo.
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