Um Musical para Recordar
1 Prólogo
Notas iniciais
Faltava pouco mais de três meses para o ano letivo acabar. Pouco mais de três meses para que as crianças que mudaram sua vida fossem embora para sempre.
Parado sozinho no meio do auditório, Mrs. Shue relembrava tudo o que passara com aqueles jovens que tanto aprendera a amar. Desde o primeiro ensaio desastroso até o primeiro lugar nas Nacionais daquele ano. A sensação de que um ciclo estava para se fechar o angustiava naquele momento.
Claro que estava feliz por seus alunos, por tê-los visto crescer e amadurecer e estarem prontos para seguir em frente. Mas ele, William Shuester, ainda não estava pronto para seguir em frente e dizer adeus.
No fundo, sentia que faltava alguma coisa. Que estava deixando algo passar, uma ponta solta. Sem coragem de deixar o palco e suas lembranças naquele momento, Shue pegou seu computador e sentou ali mesmo, no chão. Navegando na rede, sem procurar nada em particular, realmente sem querer, descobriu o que faltava. Um sorriso iluminou seu rosto e idéias começaram a ferver em sua mente.
Em êxtase e sem paciência para esperar até o dia seguinte mandou uma mensagem de texto para todos do Glee Club:
“Reunião urgente do Glee. Meu apartamento, às 18h. Não falte. Mrs. Shue.”
Com animo renovado, fechou seu computador e saiu correndo. Eram quatro da tarde e ainda tinha uma coisa a ser feita antes de ir para casa.
- Tenho que encontrar a Sue! – pensou em voz alta.
- x –
Às seis horas em ponto estavam todos sentados na sala de estar do apartamento de Mrs. Shue. Menos o professor, que encontrava-se em seu quarto acabando de gravar alguns DVDs.
- Mrs. Shue quer que a gente volte mais tarde? – Finn gritou da sala.
- Não, tudo bem – Shue gritou de volta, em resposta – Só preciso de mais um instante. Vá até a cozinha, por favor, e pegue alguns refrigerantes. Já me junto á vocês.
Finn e Rachel fizeram o que o professor pediu e foram a cozinha pegar as bebidas. Enquanto o quarterback juntava as latas, a garota pegava copos descartáveis no armário.
- O que será de tão urgente que ele tem pra falar com a gente? – Finn perguntou quebrando o silencio.
- Não faço idéia. Vim o caminho todo pensando, mas... – a diva respondeu.
Finn apenas lhe lançou aquele sorriso de dúvida tão típico dele. Sorriso que já não causava arrepios em Rachel. E o olhar bondoso que o rapaz recebeu da menina também não foi capaz de causar calor em Finn. Não mais como antes.
Já se passará dois meses desde que ambos tinham percebido que o que sentiam um pelo outro era apenas carinho. Não paixão, muito menos amor. Eram amigos. Ótimos amigos, por sinal.
Voltaram para a sala e entregaram a bebida aos demais. Mais dez minutos passaram até que o professor se juntasse a eles.
- Até que enfim, Mrs. Shue. Já estava me corroendo de curiosidade aqui. – Mercedes comentou assim que o viu, sorrindo.
- Desculpem pessoal. É que estou tão animado... – o sorriso não saia de seu rosto.
- Professor, o senhor bebeu ou ingeriu alguma coisa? – Puck tirou onda, notando o quanto Shue estava elétrico.
- Não, Puck. Nadinha. Mas escutem... Eu tive uma idéia incrível...
- Envolve músicas muito, muito velhas? – Santana perguntou ácida, mas se divertindo com a situação.
- Mais ou menos. Escutem...
- Lá vamos nós outra vez com Journey... – Kurt comentou rolando os olhos, causando comoção.
- Querem, por favor, me ouvir – Shue por fim gritou, calando todos – Sim, as músicas são um pouco ‘velhas’... Mas vocês vão adorar isso – abanou um calhamaço que tinha nas mãos em frente aos alunos e começou a distribuí-los.
A primeira a receber foi Rachel. Ao ver o que tinha nas mãos sorriu.
- Fala sério! Jura, Mrs. Shue? – a diva estava radiante.
Quando respondeu, Shue tinha certeza de que todos já sabiam do que se tratava.
- Sim, Rachel. Falo sério. E então, o que me dizem?
- Incrível! – Tina e Mercedes responderam juntas.
- Por que agora, professor? – Artie questionou animado.
Shue olhou para o rosto de cada um naquela sala. Todos pareciam estar gostando da idéia.
- Bom, daqui a três meses vocês se formam. Acreditem ou não, só me dei conta de que isso tudo – apontou para cada um – vai acabar, hoje. Estava sozinho no auditório, e as lembranças começaram a vir. Foi tão incrível trabalhar com vocês, pessoal. Vocês me ensinaram tanta coisa. Nunca vou esquecer as coisas maravilhosas que fizemos e conquistamos juntos – o professor teve que parar um instante para respirar e segurar o choro – Esse último ano tem sido o melhor: Blaine veio para o WMH – todos olharam para o garoto e sorriram – Nós ganhamos as Nacionais.
As quatorze pessoas na sala estavam emocionadas. Cada lembrança mencionada pelo professor lhes trazia imagens perfeitas à mente. E de repente dar-se conta de que em breve tudo acabaria os deixou apreensivos. E o único capaz de verbalizar o sentimento coletivo foi Sam.
- Dá medo saber que está no fim – falou se encolhendo um pouco na poltrona.
- Por pior que o ensino médio seja... Não ter certeza do que vai vir quando acabar é ainda mais assustador – Quinn completou.
- Por isso quero fazer isso com vocês. – enfatizou – Acredito que seja um ótimo jeito de por fim nesse ciclo. – Shue sorriu – Fazendo juntos, deixando todo o resto pra trás. Uma última ótima lembrança do ensino médio. O que me dizem, topam?
- Sim! – foi a resposta geral.
Risos se seguiram. Certo alivio tomou conta do professor. Seria o final perfeito. Estariam todos juntos uma última vez. E para sempre.
- Então é oficial. O WMH tem sua versão do aclamado musical da Broadway: RENT. – Puck clamou com pinta de narrador, erguendo seu copo para um brinde.
Quando a agitação inicial passou, Shue pediu a atenção deles novamente. Ainda tinha coisas a serem resolvidas e analisadas.
- Pessoal é o seguinte: vamos ter muito trabalho pela frente. Sei que as provas finais vão deixá-los bastante atarefados e não quero que percam o foco. Então, faremos os ensaios nas reuniões do Glee e quando tiverem tempo livre. Vamos resolvendo isso com o passar do tempo...
Folheando os papeis que tinha em mãos, Rachel levantou o braço pedindo permissão para falar.
- Rachel.
- Mrs. Shue, como vamos dividir os papéis? – a pergunta martelava na cabeça de todos.
Shue sabia que a pergunta da diva não era capciosa. Rachel não era mais a garota arrogante atrás de todos os solos, que ele tinha conhecido. Em três anos, a menina amadurecera muito, assim como seu talento. E o mais importante: aprenderá a se divertir quando estava no clube.
- Ótima pergunta, Rachel. – apontou para a menina, sorrindo – Estive pensando... Acho que seria bem interessante se fizéssemos a escolha na sorte.
- Como assim? – Mike questionou.
- Sorteio. O musical surgiu na minha frente, como se o destino estivesse conspirando – respondeu um pouco sonhador – Então, deixemos o destino agir. O que me dizem?
Sem querer, ou talvez por hábito, ao invés de responder, todos olharam para Rachel. Ela era a líder do Glee Club, afinal, e certas coisas não mudariam. Um pouco envergonhada com os olhares, a garota respirou fundo, abriu seu sorriso de 1000 wats e respondeu:
- Deixemos o destino agir, então. – e riu.
Foi aquela risada que cutucou o coração de certa pessoa ali presente. Naquele instante, o destino começou a trabalhar, mesmo sem ninguém ter realmente notado.
- Obrigado, Rachel – Shue agradeceu. – Já volto.
Shue foi até o quarto e voltou, com quatorze CDs nas mãos. Entregou um para cada aluno. Enquanto entregava, foi explicando.
- Dever de casa: gravei nesses DVDs uma das tantas apresentações de Rent. Quero que assistam hoje à noite. Prestem atenção nos personagens, nas músicas, em tudo. Se tiverem tempo, leiam o roteiro que entreguei também. – parou na frente de todos – Amanhã na hora da nossa reunião faremos o sorteio dos personagens.
- E não tem volta. – Rachel tomou a palavra – Independente do que sair, é assim que vai ser. Certo Mrs. Shue? – sorriu.
- Certo, Rachel. – Shue lhe devolveu o sorriso. – Por hoje, então, é só pessoal. Nos vemos amanhã. Boa noite, e boa sessão de cinema.
Em pouco tempo, todos tinha se despedido do professor e ido embora. Ao fechar a porta atrás de si, Shue não se conteve e chorou. De alegria, emoção, expectativa. Todas as emoções á flor da pele.
- É isso: faremos RENT!
E foi para a cama, ter sua última boa noite de sono até o dia da apresentação.
Fale com o autor