Um Mundo Assombrado Pelos Demônios
8 Sob os fogos de artifício e Mitologia
Notas iniciais
Eu levei Kiku para fora depois de todo o desespero, sentia que ele precisava um pouco de ar livre para poder pensar. Como não queria que ninguém o visse, eu o levei à parte de trás da casa, os arbustos secos estavam completamente destruídos pela neve, então eu me sentei sobre ela sentindo o frio seco quase imediatamente por estar apenas com uma calça jeans, apesar de grossa. Kiku foi pior, porque ele usava só uma calça jeans e fina, até um pouco rasgada. O japonês tentou sentar ao meu lado, mas sua perna tremeu inteira quando sentiu o gelo, eu ri com a careta que ele fez, esse tipo de neve costuma queimar uma pele exposta.
Então tirei a minha jaqueta e a espalhei entre minhas pernas, em seguida eu agarrei a cintura de Kiku e o levantei, trazendo-o para sentar em cima da jaqueta. Seu corpo ficou quente com o ato e eu vi seu rosto tomar uma coloração avermelhada pela primeira vez aquele dia. Nenhum de nós falou nada, nem precisaria afinal, aquele momento estava perfeito. Minhas mãos estavam enlaçadas pressionando a barriga lisa e ele encostou a cabeça em meu peito. Não sabe o quanto eu me segurei para não beijá-lo ali mesmo.
Bom, o fato é que estava quase anoitecendo e eu não havia sequer começado o meu dever de casa, resolvi fazer agora do que com a pouca luz que há nessa casa. Estiquei o braço para pegar a mochila, que eu havia trago de dentro, e comecei a mexer nas coisas para pegar o meu livro de gramática. Digamos que minha mochila não é lá muito organizada... ou limpa.
Quando eu finalmente a achei, entre vários deveres de casa amassados e provas antigas, agora a luta era para encontrar um lápis. Foi bem mais difícil, mas eu consegui. Por isso eu recebo, merecidamente, o título de herói.
O corpo de Kiku ainda estava entres minhas pernas, por isso ele começou a ler o texto junto comigo, mesmo que em silêncio. Também me ajudou a responder algumas questões que eu não entendi e para um japonês ele era melhor em gramática do que eu. Mas de qualquer forma, fazer resumos de textos nunca foi o meu forte, o máximo que eu fazia é copiar partes do texto e sempre ganhei B- com isso, o que me leva a teoria de que o professor nunca lê os deveres de casa.
Arthur lê e devo dizer que ele fica muito assustador, principalmente quando está corrigindo prova. Ele pressiona a caneta vermelha no papel de tal modo que parece que vai rasgá-lo, depois desenha a letra da nota amassando a folha toda, praguejando com os pobres alunos. Nunca fui aluno do Arthur, porque ele dá aula da escola média, mas eu não gostaria de ser. Penso o que os pobrezinhos devem sofrer nas mãos daquele inglês louco.
Voltando ao meu dever de gramática, eu levei vinte minutos para fazê-lo, teria durado mais se não tivesse o meu maravilhoso Kiku para me ajudar toda hora, ele devia estudar na minha escola, assim eu sempre teria a quem colar durante as provas, seria a melhor coisa do mundo.
Depois que eu guardei o livro, ainda nem havia escurecido. O céu estava em um laranja brilhante, com algumas nuvens roxas e vermelho mais ao horizonte, o sol se pondo fazia reflexo na neve e a deixava um amarelo bonito. Encostei-me no arbusto e puxei a cabeça de Kiku para o meu peito e apenas fiquei acariciando seus cabelos negros, eu podia sentir sua barriga subir e descer em um movimento harmônico de respiração, quando a minha outra mão estava na altura de seu umbigo, não precisava de palavras. Aquilo estava tão perfeito. Era uma paz que poucos podem conquistar.
Então eu fechei os olhos e voltei a pensar no meu treinamento para o exército. Eu estava indo para combater a etnia da pessoa por quem eu estou apaixonado, isso é no mínimo um humor negro. Estou aqui protegendo um japonês, quando vou ter que matar mais sei lá quando até essa guerra acabar, se é que ela vai acabar. As notícias ruins não param de aparecer, mas se a Grande Guerra acabou, essa há de acabar um dia.
Depois de uns dois minutos eu reabri os olhos para olhar para o meu Kiku e o vi lendo o meu livro de gramática. Estava concentrado lendo um texto diferente daquele que foi o meu dever de casa. Eu não resisti e tive que falar:
–Chega de dever de casa por hoje, não? –Soltei um riso abafado, escondendo a minha boca em seus cabelos.
–Estou apenas treinando a minha gramática. –Disse sem ao menos tirar os olhos do livro de capa grossa. –Há muitas palavras que ainda me confundem.
–Você é bom em inglês. Até me ajudou com o meu trabalho.
–Só quis retribuir um favor. –Ele deu um sorriso típico curto, tinha um brilho de nostalgia em seus olhos castanhos.
–Eu já disse. –Abri um sorriso presunçoso. –Se quer me agradecer por ter te salvado, somente com um beijo –E fiz uma forma de biquinho com a boca, me aproximando dele.
–Ah! –Ele se afastou, em seu rosto formou um vermelho brilhante que ele lutou para esconder. –Para, Alfred! –Eu soltei uma risada calorosa com a forma que ele se encolhia, não querendo receber o meu beijo, eu o trouxe de volta para mim em um abraço. Deus, como eu adorava abraçá-lo. –De qualquer forma, eu não estava falando desse favor.
–Então qual?
Demorou uns minutos para ele responder, ele olhou nos meus olhos procurando que eu soubesse a resposta e se decepcionou quando viu que eu realmente não sabia.
–Deixa pra lá. –Ele deu um tapa fraco na minha coxa e permaneceu sua mão lá. –Quem sabe um dia você descobre.
Aquilo me deixou bastante curioso, mas eu não perguntei mais nada. Antes mesmo que eu o fizesse ele mudou de assunto e me contou alguns episódios de sua vida. Nós dois ficamos conversando a fiado até o céu ficar completamente escuro. Eu não vi o pôr-do-sol, pois estava muito ocupado prestando atenção nos mínimos detalhes do rosto perfeito de Kiku. Queria deixar gravado na minha mente para sempre aquela figura perfeita. Eu não sei como começou, mas estou completamente apaixonado por aquele japonês. Várias vezes enquanto ele falava eu pensava em calá-lo com um beijo, mas tinha medo de como ele iria reagir.
Dentro da minha mente, eu começava a moldar um plano para que eu pudesse conquistar o Kiku. Alguma chance de beijá-lo sem parecer um maníaco, Kiku é tão certinho que parece nunca ter dado o primeiro beijo, já que sempre fugia das minhas tentativas. Ele é tímido, mas eu gosto disso, por isso não posso simplesmente agarrá-lo. Tenho que pensar em um clima romântico.
–Ei, o Natal e o Ano Novo estão chegando, né? –Abri uma nova conversa, cortando-o. –No natal não tem nada demais, mas no Ano Novo todo ano há os fogos de artifício. –Seu rosto moldou uma face de melancolia, seus olhos se encheram d’água e seu lábio fez um beicinho.
–Eu sei. –Afirmou ele com uma voz carregada de dor. –Eu e o Yao sempre vemos os fogos do telhado da nossa casa.
E novamente eu o abracei para que ele chorasse em minha blusa. Estava tão triste. Aquilo partia o meu coração. Eu ficava balançando ele como um bebê até que ele se acalmou novamente e eu voltei a falar, embora com um tom muito baixo, ele só pôde ouvir porque seu rosto estava a centímetros do meu.
–Eu posso passar com você este ano, o que acha? –Usei o meu dedão para limpar as lágrimas remanescentes no canto dos olhos.
–Você tem uma família... Eu não posso...
–Eu posso passar o natal com o Arthur. Mas você e mim vamos ver os fogos.
–Oh, que bela gramática, hein. –Ele falou ironicamente, rindo do meu erro. –Você e eu vamos ver os fogos.
–Sério? –Eu alarguei o sorriso na minha boca, vendo que ele havia caído no truque da gramática. –Isso vai ser incrível. –Eu comecei a pular, comemorando a minha vitória.
–O-O quê?! Não, espera! –Ele corou furiosamente, dando conta do golpe. –Eu só estava corrigindo-o!
Não tem mais tempo para ele falar e o envolvi fortemente em seus braços, apertando-o em um abraço, virei meu corpo para o lado e caí na neve com ele ainda abraçado. Senti ele se debater em cima de mim, mas não me importei com isso, eu ria como se tivessem contado uma piada muito engraçada.
Na floresta a nossa frente o vento bateu graciosamente em um arbusto, causando um farfalhar de folhas, eu resolvi usar isso a meu favor, de novo.
–Ouviu isso? –Eu sentei-me de volta na neve, ainda abraçando Kiku que ficou estático, olhava-me preocupado. Eu fingia muito bem um olhar assustado. –É um coiote. –Senti o pequeno corpo tremer inteiro em meus braços.
–Tem coiotes por aqui? –A voz suave dele representava pavor agora, eu me segurei muito para não rir.
–Claro. E japoneses que não dão beijinhos estão o cardápio deles. –Eu finalmente me ataquei de rir e ele ficou me olhando incrédulo. Aproveitando seu estado de choque, eu o abracei novamente e beijei o seu rosto, enquanto suas mãos tentavam me empurrar.
–Idiota! –Ele praguejou contra mim e se levantou, irritado, caminhou de volta para a porta da frente da casa.
Eu me levantei correndo e peguei minhas coisas do chão, corri até ele abaixei até as suas pernas, envolvi meus braços nela e o levantei, colocando-o em cima de meu ombro. Ele começou a gritar e a se debater, a sorte é que não havia nenhum carro passando pela rodovia, senão eu seria tido como sequestrador.
Levei o japonês para dentro de casa e acendi a luz fraca que só tinha na cozinha, deixei-o no chão e fechei a porta, trancando-a. O cabelo perfeito negro dele estava todo desgrenhado e ele tinha em seu rosto um rubor notório e eu sabia que não era somente do sangue que subiu para o rosto. Eu me divertia com as pequenas reações que eu causava nele.
–Do que você está rindo? –Ele me encarou com as mãos na cintura. Acho que é a primeira vez que ele fica tão aberto comigo.
–Só estou te protegendo dos coiotes. –Eu comecei a rir novamente.
–Acho que eu tenho mais medo de você do que dos coiotes.
Foi então que nós dois começamos a rir juntos, ele não estava bravo de verdade e eu podia ver isso. Em meio aos risos eu senti minha barriga roncar, sim, não havia comido nada desde que eu peguei a rodovia, mas havia preparado dois sanduíches de manteiga de amendoim e geleia, dei um ao Kiku e o outro fui eu quem comi. Um só não satisfaria minha fome, mas eu não estava em posição de discutir. Visto que a partir de amanhã terei que comer a gororoba nojenta que eles servem aos recrutas.
–Está muito tarde, não acha que está na hora de ir? –Kiku perguntou.
–Eu vou dormir aqui hoje. –Dei um sorriso malicioso e Kiku corou novamente, desviando o olhar, eu ri com sua reação. –Mas não vou te agarrar, apenas quero ter certeza que nunca vai fazer uma loucura novamente.
Kiku se aproximou de mim e tocou a minha bochecha com sua mão macia e ficou acariciando aquele local por algum tempo, antes de aproximar mais o seu rosto até encostar a testa dele na minha, foi mais um dos momentos que eu me segurei para não beijá-lo. Mas a tensão era tão grande.
–Será que um dia você vai me perdoar? –Sua voz saiu como um sussurro, mas eu ouvi perfeitamente, havia dor em seu tom.
–Para eu fazer isso basta você mesmo se perdoar. –Segurei a sua mão firmemente e entrelacei nossos dedos, uma corrente elétrica sempre passa pelo meu corpo quando eu sinto sua pele. É algo tão raro, mas que eu sentia que já havia sentido antes.
0o0
A semana passou voando, porque a maioria do meu tempo foi ocupado. Na quarta-feira era natal e eu fui novamente obrigado a comer as beterrabas cozidas nojentas do Arthur. Só fiz isso para ganhar o meu presente, um rádio novo e que funcionava perfeitamente, a tarde inteira do natal eu passei ouvindo ele, não apenas notícias, mas também músicas de Louis Armstrong, eu não tirava Kiku da minha cabeça por nada, nem mesmo no campo de treinamento.
Deixe-me falar do campo de treinamento para recrutas. Então, você pensa que vão ter granadas explodindo para todo o canto e você é obrigado a dormir em um buraco. Mas não. Na verdade os superiores me passam uma dúzia de exercícios toscos como correr dez voltas na pista, flexões ou levantamento de peso, então vão para a base ouvir rádio. Grande coisa, já estava acostumado com isso nos meus treinos do time. Por falar no time, eu tive que sair, o horário do treino não batia, então tive que sair. Duvido que encontrem um Quarterback melhor do que eu.
No dia 26 não teve nada devido à forte nevasca que aconteceu durante a madrugada, amaldiçoei a mim mesmo por não ter dormido com Kiku na noite passada, pois não vou poder vê-lo tão cedo com as rodovias congeladas. Para distrair a minha cabeça eu fui na biblioteca do Arthur procurar algo para ler, não gosto muito de leitura, mas a preocupação com Kiku estava me matando.
Arthur estava sentado à sua escrivaninha de madeira corrigindo algumas provas. Eu comecei a passar os dedos nos livros da estante, procurando algum interessante.
–Que vergonha! –Praguejou Arthur abusando da caneta vermelha em sua mão. –Esses moleques não saberiam os ideais de Platão nem se esfregasse na bunda deles. –Pelo visto a maioria dos alunos dele tiraram nota abaixo da média.
Enquanto ele continuava xingando os jovens através dos papéis, eu voltei a me concentrar em achar um livro, mas foi realmente difícil, porque a maioria era de Filosofia, matéria que não me agrada muito para ser franco. Cansado de procurar, eu puxei um qualquer e me sentei na poltrona ao lado da lareira. Era um livro sobre Mitologia Grega.
Nunca estudei profundamente esse assunto, sei somente o básico. Então abri o livro e comecei a ler os mitos gregos.
Duas horas mais tarde, a tempestade já havia terminado, mas ainda faltava a neve derreter para que alguém ouse sair de casa. Arthur, que já acabou seu desabafo com as provas, foi até a cozinha fazer chá para ele e um chocolate quente para mim. Retornando ele me entregou a caneca e eu fechei o livro, tomando aos poucos, porque ainda estava muito quente.
Arthur esgueirou-se para ler o título do livro em meu colo e quando o viu, sentou-se na outra poltrona com sua costumeira postura ereta e pernas cruzadas.
–Não sabia que gostava de Mitologia Grega, Alfred. –Ele deu um pequeno sorriso, antes de levar sua xícara a boca, tomando um gole de seu chá.
–Eu não gostava, mas confesso que achei interessante as histórias.
–Também gosto de estudá-los. Embora eu prefira a Mitologia Celta.
–Tipo aqueles que tem duendes? –Eu olhei para ele como se ele fosse louco, mas logo desfiz a expressão quando recebi um olhar feroz vindo dele, tratei rapidamente de mudar de assunto. –Hoje de manhã os japoneses afundaram um navio-correio cheio de cartas vindo da Europa para cá. –Percebi que chamei a atenção dele quando ele parou de beber o chá para me olhar. –Acha que tinha uma carta do meu irmão lá?
–É claro que tinha, seu irmão nunca deixaria de escrevê-lo. Principalmente no natal.
–Eu sinto a falta dele. –Confessei segurando firmemente o livro nos meus dedos.
Arthur lançou-me um olhar de piedade enquanto despejava mais chá do bule para a xícara, ele encostou a mão fortemente no meu joelho, como se me desse força para continuar de cabeça erguida.
–Tudo bem. Ele vai ficar bem. Tem uma pessoa muito especial cuidando dele.
–Esperava uma carta dessa pessoa, não é? –Arthur corou levemente e desviou o olhar, mas não tinha mais como esconder toda a sua ansiedade do dia a dia.
–Eu ainda espero. –Ele deixou a xícara em seu colo e olhava para o seu reflexo no líquido verde. –Mas graças aos malditos japonese ela nunca chega. Ô raça.
Resolvi não dizer mais nada, apenas continuei tomando meu chocolate quente. Alguns minutos depois Arthur quebrou o gelo e me perguntou onde eu passaria o Ano Novo, já que eu havia dito a ele há alguns dias que eu iria passar fora. Não esperava esse tipo de pergunta do Arthur que quase não se intrometia na minha vida.
–É uma garota? –Ele perguntou, dando um sorriso.
–B-Bom...
–Qual o nome dela.
–...Mandy. –Foi o primeiro nome que me veio à cabeça por causa da chefe das cheerleaders do colégio, já sai com ela algumas vezes, mas ela é terrivelmente grudenta.
–Espero conhece-la algum dia. –O sorrido de Arthur se alargou.
Sorri por fora, mas internamente eu jurei que isso não podia acontecer tão cedo. Pelo menos não enquanto não chegar a carta do amante dele.
0o0
Então chegou terça-feira, 31. Eu estava muito nervoso e quando eu saí do banho já eram oito da noite. A roupa que eu iria usar já estava em cima da cama, que Arthur fez questão de lavar e passar, porque segundo ele, eu não poderia me vestir como mendigo para sair com uma garota. Bobagem, meninas adoram sair do mendigos, visto que elas nem deixam os rapazes do time tomarem banho depois do treino. Algo como odor natural masculino. É nojento.
Mas Kiku não era uma mera cheerleader buscando status. Parece que a cada dia, meu amor por ele cresce mais. Muitas vezes pensei em faltar à aula só para ter mais tempo com ele, mas depois penso que se eu começar a acumular faltas Arthur com certeza vai saber e pode ter certeza que as consequências não seriam boas.
Dei um beijo no Arthur e saí pela porta, até o carro, antes de dar a partida, eu coloquei o cigarro entre os meus lábios e o acendi, tragando uma primeira vez e soltando a fumaça com um suspiro de alívio. Logo então eu lembrei de todo o meu plano de beijar o Kiku hoje e arregalei os olhos. Não posso estar cheirando a cigarro quando for beijá-lo. Sem pensar duas vezes, eu joguei o fumo pela janela e comecei a dirigir, dizendo a mim mesmo que teria que segurar o vício apenas por hoje.
Demorei um pouco mais tempo do que eu levaria para chegar na fazenda, isso se deve ao grande número de carros que viajam, mas eu cheguei bem a tempo. Não haveria ceia essa noite, mas eu também não quero, só tem uma coisa que eu queria hoje. Kiku me viu chegando e abriu um sorriso doce, aqueles que ele sempre dá.
–Você está tão elegante. –Ele deu uma pequena risada.
Eu me aproximei e dei-lhe um beijo na testa. Levei-o para o segundo andar que tinha uma janela que dava para o telhado. Eu fui primeiro, sentindo a tela putrefata ranger na sola do meu sapato, eu sabia que devia ter toda cautela, pois aquele telhado já estava caindo aos pedaços.
–Alfred, tem certeza que é seguro? –Kiku perguntou receoso se devia vir ou não. –Parece que vai cair.
–Olha, se me aguenta, claro que vai aguentar. –Eu segurei nas duas pequenas mãos e o puxei levemente para ele tomar a iniciativa. –Vamos, se você cair, eu te seguro.
O japonês engoliu seco e subiu no telhado, mas ele tropeçou em uma telha quebrada e quase caiu, mas como eu havia prometido, eu o segurei. Sentamos no telhado e ficamos olhando para o céu estrelado, esperando os fogos de artifício. Um ou outro estourava de vez enquanto, mas eu só saberia que é ano novo quando o céu todo se iluminar.
–Eu fico pensando no meu irmão. –A voz de Kiku veio ao meu lado e à medida que a temperatura esfriava, ele se aproximava de mim. –Toda essa guerra. Parece que nunca acaba. –Ele olhou para mim tristemente.
Não evitei o impulso e abraçar seu ombro com o braço e o trouxe para o meu peito, onde ele se aninhou. Eu deitei sobre as telhas, sem me importar com o quão sujos estavam, eu nem prestava mais atenção no céu, somente olhava para os olhos preocupados de Kiku e mexia em seu cabelo de ébano.
–Kiku, você conhece a Mitologia Grega? –Eu perguntei penetrando os dedos em seu cabelo e penteando-os. Ele sorriu fracamente.
–Não tanto quanto eu gostaria.
–Então eu posso te contar uma história? –Ele assentiu com a cabeça, então eu o trouxe mais para perto de mim, com sua boca centímetros da minha, eu abraçava fortemente o seu corpo. –No começo dos tempos não haviam mulheres mortais, somente homens. Eles não envelheciam, não adoeciam, eram seres perfeitos, sem sofrimento, cansaço ou morte. Entretanto, eles eram submissos aos deuses. Mas um dia, Prometeu roubou o fogo divino dos deuses e o levou para os homens para que eles se protegessem das feras e se iluminarem. Isso irritou os deuses que pensaram em uma forma de punir os homens.
–Então eles criaram a primeira mulher mortal: Pandora. Cada deus deu algum dom a mulher: Atena deu-lhe a habilidade e fazeres femininos; Afrodite deu-lhe beleza e poder de sedução e Hermes deu-lhe o poder de mentir e trair. Pandora foi dada ao Epimeteu, que é irmão de Prometeu, e este, ignorando a advertência do irmão de não aceitar nada que vinham dos deuses, casou-se com Pandora.
–Foi dada a Pandora uma caixa, cujo ela estava proibida de abrir. Porém um dia uma voz que vinha da caixa choramingava implorando para a mulher o libertar. Pandora, como era muito bondosa e piedosa, abriu a caixa só um pouquinho, mas quando o fez, todos os males foram libertados: a doença; a morte; a guerra; o sofrimento; o ódio; o ciúme... Mas Pandora fechou a caixa tarde demais, todos os males desceram para a Terra e atacaram os homens.
–Porém, ainda restava um male dentro da caixa. O pior de todos. Aquele capaz de acabar com a esperança. Os homens sobrevivem a tudo porque ainda existe a esperança.
Seus olhos castanhos permaneceram em mim o tempo todo, ouvindo a história. Com a mão livre eu acariciei o seu rosto, limpando alguns fios de lágrima que desciam pela sua bochecha.
–Eu sei que você está preocupado com o seu irmão, mas você deve ter esperança. Uma hora ou outra isso vai acabar, eu tenho certeza. –Ele abriu a boca pra falar, mas eu o cortei rapidamente antes que dissesse. –Pode demorar ou pode ser amanhã mesmo, mas vai acabar. Portanto não perca a esperança, Kiku. Ela é a única que pode acompanhar o seu irmão nessa jornada. –Eu me aproximava cada vez mais dele e ele parecia não repelir minha aproximação. –Além do mais, eu estou aqui. Estarei sempre aqui.
Fechei a distância entre nossas bocas rapidamente, agarrando sua cintura para que ele não fugisse, mas para a minha surpresa, ele não fugiu. Ao contrário, suas mãos foram até meus cabelos e empurrou meu rosto para o seu. Durante o beijo, nós pudemos ouvir os sons dos fogos estourando no céu e eu imaginei que lindo o céu colorido enquanto eu estou aqui devorando a boca de Kiku.
Não foi um beijo selvagem, mas o suficiente para me deixar sem fôlego. Eu me afastei dele lentamente, olhando bem para o seu rosto. Ele também estava corado e ofegava, eu sorri. Era assim que eu gosto. Eu apertei sua cintura e voltei a beijá-lo, mas com uma ousadia diferente. Fiquei mordiscando seu lábio inferior até que ele abrisse e eu colocasse minha língua dentro da sua boca. Devido a inexperiência, Kiku tinha dificuldades em me acompanhar e a cada movimento ousado que eu fazia, arrancava suspiros do jovem em meus braços, ele é perfeito.
Foda-se a guerra; foda-se o tabu. Não ligo se aquilo é errado. Somos apenas dois jovens nos beijando sob os fogos de artifício na noite de Ano Novo.
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