Notas iniciais
Bom, acho que esse capítulo não ficou muito bom, mas está aceitável para uma breve introdução, não? Eu espero que vocês gostem *-*

Eu andava chutando a neve branca das minhas botas, enquanto a outra mão balançava a sacola cheia de mantimentos que eu acabei de comprar. Havia ovos aqui dentro, mas sinceramente eu não me importava, mas eu devia, afinal se os ovos se quebrassem, Arthur ficaria uma hora me dando um sermão de que comida não deve ser desperdiçada, normalmente eu durmo durante a palestra, mas evitar é sempre bom.

A noite estava muito bonita na verdade, haviam algumas nuvens que derramavam a neve pura e branca, uma temperatura aconchegante, pelo menos dentro dos meus casacos, não vou mentir, não gosto muito de frio, não tem nada de bom para fazer, só o clichê como bonecos de neve ou guerra de bola de neve, de primeira é até legal, mas passam alguns dias com a mesma rotina e eu fico entediado. Claro que eu prefiro o verão! Tem sempre um lugar para ir a noite ou de dia e é isso que eu gosto.

Peguei o relógio de corrente que Arthur me deu no meu aniversário, eu não gostava dele, porque era muito formal, mas isso não importa, eram oito da noite e eu ainda estava a quatro quadras da minha casa, já estou até ouvido o sermão do Arthur dizendo que eu me atrasei, que poderia ter acontecido algo horrível. Ele é muito superprotetor, pelo que eu entendi, os japoneses bombardearam o Hawaii, portanto os Estados Unidos entrou na Segunda Guerra Mundial, desde então todos da cidade estão com medo dos japoneses. Não apenas a cidade, como parte do país estão exigindo uma medida do governo para evitar algum desastre como ocorreu em Pearl Harbor.

Um grito rouco ecoou pelo ar tirando-me dos meus devaneios e fez o meu sangue congelar. Eu parei de andar por um instante e olhei ao redor, pronto para bater no primeiro idiota que tentar me roubar, modéstia parte, eu sou capitão do time de futebol da minha escola. Eu procurei pelos cantos de onde vinha os ruídos e eles me levaram até um beco escuro que eu não teria notado que estava ali se não fosse pelos barulhos.

No fundo do beco havia uma pessoa caída no chão, o sangue pingava do seu corpo para a neve branca e já tinha uma massa espessa de sangue, mostrando o quanto a pessoa estava ferida, devido aos três rapazes que chutavam sem parar o corpo frágil, eu não pude distinguir se era um homem ou mulher. Mas aquilo não importava agora, a figura estava caída e indefesa, enquanto os três covardes o chutavam e tacavam pedras, zombando cruelmente daquele ser.

Naquele instante eu senti a cólera subir pelo meu sangue, aquilo era cruel e nojento, eu não aceito que alguém trate uma pessoa tão frágil daquela forma. Eu deixei as compras em um canto e cerrei os punhos com força, caminhando até aquela gangue monstruosa, agarrei o colarinho de um dos homens, provavelmente o mais forte deles e puxei com força, tirando-o de cima da pessoa, uma vez que ele estava frente a frente a mim, eu lhe dei um soco muito forte, que com certeza arrancaria um dente daquele babaca.

-O que diabo você está fazendo?! –Eu gritei cuspindo toda a raiva que estava sentindo naquele momento. A pessoa que estava espancada no chão se levantou com bastante dificuldade e eu tive um momento de vacilo para olhar para ele.

Era um menino não muito mais velho que eu, os cabelos negros de ébano se destacavam com pequenas manchas de sangue oriundas de ferimentos no couro cabeludo, pude perceber pelos seus olhos que ele era japonês, o que me fez compreender a ação daqueles três rapazes. Eu disse compreender, não quer dizer que eu aceito. A perseguição dos japoneses se tornou mais constante, principalmente depois de Pearl Harbor e algumas pessoas acham que podem descontar em pessoas inocentes.

Estava ocupado demais verificando a gravidade dos ferimentos do japonês para perceber o flash do punho do homem que veio direto no meu rosto, tudo que eu vi foi um borrão insano antes de desequilibrar e cair sobre o corpo frágil atrás de mim. Ouvi o japonês gemer de dor quando eu caí e me levantei rapidamente, segurando em seus ombros machucados e o levantei também, mas ele estava muito fraco para levantar, então só ficou de joelhos.

-Para que tanta violência? –Eu continuei gritando em plenos pulmões e nem perceber que o jovem se encolheu com o grito, segurando os ouvidos que também sangravam. –Ele é inocente.

-Ele é japonês. –O rapaz limpava o sangue seco no canto da boca que eu provoquei, ele olhava com desdém para mim. –Nenhum japonês é inocente!

Ele formou outro punho para me socar novamente, mas dessa vez eu estava preparado, eu segurei sua mão no ato, me deu um choque de dor por poucos segundos, mas nada que afrouxasse a minha dor. Ainda segurando sua mão fechada, eu arrastei o meu pé para os joelhos do homem que caiu no asfalto frio, totalmente indefeso, eu me joguei em cima dele e comecei a socar seu rosto com uma raiva que nunca senti na minha vida.

Apenas parei de socá-lo para segurar pelo colarinho e puxei sua cabeça para cima, em seguida o empurrei novamente para o asfalto, ouvindo o grande som do crânio batendo no asfalto, ele gemeu de dor. Eu repeti aquilo até ver que no chão havia manchas de sangue. Os outros dois rapazes tentavam me puxar, mas não conseguiram, eu acho que iria matar um homem hoje.

Depois de um tempo eu finalmente acordei para a realidade, não sei, tive um choque de consciência. Eu saí de cima do cara e me levantei, empurrando os outros homens que me puxavam, segurei no pulso do japonês e saí correndo o mais rápido que eu pude. Eu estava morrendo de calor com a adrenalina, mas ainda me permitia ficar com frio pelo vento gelado que batia no meu rosto violentamente, eu corria puxando o garoto sem nem olhar para trás, queria chegar em casa o mais rápido possível.

De repente senti um peso anormal no meu braço direito e ao virar o rosto, vi que o garoto havia desmaiado. Eu segurei seu corpo perto do meu, ele estava terrivelmente gelado, encostei meu rosto bem perto do dele, para sentir sua respiração que estava muito fraca, seu corpo gelado tremia, se arrepiando com o vento que vinha a oeste, ele era tão bonito. Eu não posso deixá-lo morrer agora. Segurei debaixo dos seus joelhos e o ergui em meus braços, ele era incrivelmente leve, por quantas dificuldades esse garoto já passou?

Eu terminei de chegar em casa, mas não podia entrar pela porta da frente, se Arthur visse esse japonês nos meus braços, iria fazer um monte de perguntas que eu não estou com vontade de responder. Meu quarto é no segundo andar, eu caminhei para os fundos e olhei para cima, procurando um jeito de subir estando com um adolescente desmaiado nos meus braços. Depois de pensar muito, eu descobri que realmente não tem jeito, eu vou entrar pela cozinha e rezar para o Arthur não me perceber.

Foi o que eu fiz, eu abri a porta da cozinha, tentando fazer o menor ruído possível, mas parece que quanto mais você quer fazer silêncio, mais barulho você faz. Arrastar aquela porta parecia uma sirene de ambulância, mas até agora, nenhum sinal do meu irmão britânico. Subi as escadas lentamente e fui até o meu quarto, deixando o jovem na minha cama, agradeci mentalmente por meu plano ser um sucesso, é o primeiro deles que dá certo.

-Alfred... –Falei cedo demais. A voz nasal de Arthur soou pelo corredor e eu tratei de ir até a sala de estar, apenas para evitar que ele entrasse no meu quarto e visse o meu hóspede. –Você chegou tarde. –Quando eu o vi, ele estava sentado em uma poltrona, lendo um livro, como sempre, em cima da mesinha de centro havia uma xícara em cima do pires, cheio de chá.

-Tive alguns problemas. –Foi o máximo que eu consegui dizer sem me entregar, encostei-me a porta, esperando que ele largasse o livro e olhasse para mim. Foi o que ele fez, me olhou de cima a baixo.

-E cadê as compras? –Arregalei os olhos. Com toda a confusão, eu esqueci completamente das compras, as deixei no beco. Fechei os olhos e pensei na melhor desculpa para aquele fracasso.

-Eu fui roubado. –Respondi simplesmente, foi a primeira coisa que me passou pela cabeça.

Os olhos verdes de Arthur se arregalaram e ele se levantou, correndo até mim e apalpou os meus braços e pescoço, em busca de algum ferimento.

-Temos que ir até a polícia! –Arthur se manifestou após me revistar por inteiro, acho que ele ficou aliviado em perceber que o relógio de corrente não foi roubado.

-Não é preciso. –Eu ri nervosamente, procurando algum jeito de sustentar a minha mentira. –Eu dei um jeito neles... –Desviei o olhar e abri um sorriso maroto ao lembrar da surra que eu dei naquele mauricinho.

-Você bateu nos ladrões. –Arthur levantou uma sobrancelha em descrença, ele cruzou os braços e ficou me olhando, geralmente ele fazia aquela pose quando não acreditava nas minhas mentiras. Eu abaixei o olhar e percebi que ainda havia sangue na minha mão, não sei de quem, mas pode servir.

-Veja, a prova. –Eu estendi minhas mãos para Arthur, que quando ficou a quantidade abundante de sangue escuro nas minhas mãos passou a acreditar em mim, a palma da minha mão estava praticamente banhado em vermelho.

-Tudo bem, Alfred, mas mesmo assim... –Eu rolei os olhos ao perceber que ele ia começar algum discurso, porém eu não estava com vontade de ouvir. Eu precisava subir para cuidar do jovem quase morto na minha cama.

-Olha, Arthur, se é pelos mantimentos, eu juro que amanhã no primeiro raio de sol vou ao mercado e compro. –Atalhei-o antes mesmo de iniciar o sermão, ele desfez aquela pose de desdém e olhou para mim, seus olhos de esmeralda brilhavam em piedade.

-Não é pelos mantimentos, Alfred... –O brilho intensificou, eu acho que eram lágrimas, eu fiz uma careta, pois não gostava de ver o Arthur chorar. –São tempos difíceis, eu... Eu não quero perder você. –Vi que ele fez um esforço para sua voz não sair alterada, que não deu muito sucesso.

Eu me aproximei do meu primo e envolvi meus braços ao redor dele, no melhor abraço que eu pude. Arthur é a única família que eu tenho, por isso eu também tenho muito medo de perdê-lo. Eu fiquei nessa posição por pelo menos cinco minutos, sentindo que o meu colete ficou levemente molhado, eu era o único a quem ele se permitia mostrar toda a fragilidade, porque eu sei bem o que ele passou por causa dessa guerra.

-Eu vou ficar bem, Arthur, eu prometo. –Afastei-me dele só um pouco, apenas para beijar-lhe a testa, em seguida, ele mesmo soltou o abraço e me deu um sorriso triste.

-Eu sei que sim. –Ele limpou as lágrimas remanescentes no canto dos olhos e pegou seu livro na mesinha de centro, ajeitando-o na prateleira com os outros livros. –Eu tenho que trabalhar amanhã, por isso já vou dormir. Vão vá se deitar tarde. –Deu um tapinha nas minhas costas e agarrou o pires com a xícara, subindo as escadas para o seu quarto.

Esperei até que ele ficasse fora de vista e corri para a cozinha, procurando na dispensa o kit de primeiros socorros, agarrei a pequena maleta e subi para o meu quarto, fazendo silêncio. Fechei bem a porta e por via das dúvidas, a tranquei, direcionando meu olhar em seguida para o jovem na minha cama.

Ele ainda estava desmaiado, mas o que me assustou foi a mancha escarlate na colcha, segurei o corpo frágil em meus braços, era incrível como parecia que ele ia se desfazer se eu não o segurasse com cuidado e retirei seu casaco, em seguida seu colete e a camisa que estava por baixo. Sem todas essas peças eu percebi bem seu peito subir e descer em um ritmo tranquilo e isso me deixou menos preocupado.

Então eu olhei para o rosto dele, parecia que ele estava dormindo, mesmo com o sangue que escorria pela sua testa eu ainda me permitia ver o quanto ele é bonito. Tinha uma feição angelical e segura, eu tenho muita vontade de proteger ele. Sei que fiz a coisa certa naquele beco.

-Não se preocupe. –Eu sussurrei apenas para mim e para ele. –Eu vou cuidar de você. –Ainda com o corpo no meu braço esquerdo, estiquei o direito para pegar os esparadrapos.

Notas finais
Então, eu aceito comentários, opiniões, sugestões ou críticas. Não se acanhem, eu gosto de saber a opinião dos outros ^^