Um Mundo Assombrado Pelos Demônios
2 Com a corda no pescoço
Notas iniciais
Depois que terminei com os curativos, dei uma olhada geral ao redor do meu quarto, que estava um caos. Havia esparadrapos e panos sujos de sangue por todo o chão, que eu realmente não me preocupei em jogar no lixo. Demorou muito tempo para que eu fizesse os curativos decentemente, não sou nenhum médico e não presto atenção nas aulas de saúde, mas não ficou tão ruim.
Desde que eu comecei a cuidar do jovem, ele ainda continuava inconsciente o que me deixava preocupado. Eu me aproximei lentamente do seu corpo e toquei o seu rosto pálido. Quase levei um susto quando senti o frio absurdo que estava a pele, o que será que a aula de saúde dizia sobre hipotermia? Bati na minha própria testa com a minha incrível capacidade de dormir acordado durante as aulas.
Eu não tinha outra alternativa, se eu não esquentasse aquele menino, ele iria morrer e com toda a confusão que está nesse país, eu não posso levá-lo ao hospital, vão denunciá-lo para as autoridades e eles o tirariam de mim. Sei que ainda não o conheço pessoalmente, mas eu não quero perdê-lo agora, sinto que o que eu fiz agora a pouco não valeria de nada. Eu comecei a tirar toda a minha roupa, ficando somente com as cuecas, meu corpo estava quente devido aos pesados casacos que eu vestia. Deitei ao lado do japonês e o abracei com cuidado, trazendo-o para o meu corpo quente, senti calafrios quando o quente e o frio se encostaram, mas nada alarmante, puxei o edredom para cobrir nossos corpos e rezei para isso dar certo.
Então só me resta esperar. Eu estiquei a mão para o bolso do meu casaco e puxei o relógio, vendo que horas são. Onze horas da noite, isso é preocupante, pois eu tenho aula amanhã cedo e tenho um problema de não conseguir acordar cedo se eu dormir tarde, é estranho, mas é algo meu. Não faço questão de ir à aula, mas eu já faltei oito vezes nessa temporada, Arthur não me permitiria faltar mais.
Estava quase fechando os olhos quando senti o corpo se remexer em meus braços. Virei os olhos para ele, quando vi os belos olhos castanhos se abrirem lentamente, ele lançou um olhar inocente para mim, porém assustado, logo em seguida caminhou o olhar para todo o meu quarto, como se procurasse alguma coisa. Quando finalmente a ficha caiu, ele se afastou absurdamente de mim, cobrindo seu corpo com o edredom, como uma menina nua. Isso foi muito fofo, eu digo.
–Calma, eu não vou machucar você. –Ele me olhou confuso e continuou se afastando. –Eu estou cuidando de você.
Ele continuou me olhando como se eu fosse louco, mas ao mesmo tempo nem abria a boca para responder. Foi só então que eu me lembrei que ele é japonês, pode não entender uma palavra do que eu digo, bom se for esse o caso, eu não sei o que fazer, pois eu não sei falar japonês, mas eu te digo uma coisa: eu vou aprender, eu faço o que for só para conversar com esse jovem.
–Você fala inglês? –Eu tive que perguntar, mas pareci um retardado falando lentamente para ele, entre pausas.
–Sim, eu falo. –Fiquei contente em ouvir sua voz pela primeira vez. Era uma voz rouca e empoeirada, parecendo que ele não fala há muito tempo, mas mesmo assim é agradável. –Mas tenho limitações.
–Qual o seu nome? –Abri o meu melhor sorriso, olhei para ele apoiando o cotovelo na cama e minha cabeça na mão.
–K-Kiku...
–Eu sou Alfred! –Respondi um pouco alto demais, mas logo me arrependi com medo do Arthur ter escutado. –Mas pode me chamar de seu herói, já que eu te salvei.
Eu ri com minha própria piada, mas ele não, em contrapartida um rubor leve tomou conta do seu rosto e ele desviou o olhar. Eu sou um idiota. Vou acabar assustando o garoto ainda mais, mas a culpa não é minha se eu não consigo conter o meu impulso de fazer gracinha. Ok... Talvez a culpa seja minha sim.
–Arigatou, Alfred-san. –Ele respondeu muito baixo, se eu não tivesse tão perto, eu não conseguiria ouvir, sinceramente.
–O quê? –Eu perguntei sem pudor, isso também não é uma coisa da qual eu me orgulho mesmo. Eu realmente não queria ofendê-lo com seu idioma de origem ou algo assim, eu só não tenho vergonha de perguntar o que não entendi.
–Hã... –Ele virou os olhos levemente para a diagonal, provavelmente pensava na tradução que esqueceu. –Obrigado, eu quis dizer, obrigado.
–Tudo bem, eu o ensinarei o inglês. Se você conversar comigo. –Ele não esboçou nenhum sorriso, mantinha um olhar distante e angustiado, fico me perguntando o que ele estaria pensando.
Ele virou o seu corpo de frente para a parede e de costas para mim, aproveitei para passar os dedos nos cabelos de ébano macio, não me entendam mal, não é romantismo, é que eu gosto de acariciar cabelos macios, ainda mais tão bem cuidados. Ficamos assim por bons cinco minutos até que ele começou a murmurar frases em japonês, que eu não entendi obviamente, outra parte também é que eu ouvi. Aproximei-me sorrateiramente do seu rosto para ouvi-lo mais atentamente, apenas para descobrir que ele estava com os olhos fechados e continuava murmurando, rápido demais para eu pegar a fonética das palavras.
De repente ele parou. Abriu os olhos lentamente e só então percebeu o quão perto nós estávamos. Afastou-se com o susto, mas permaneceu me olhando, nos olhos. Senti algo muito incomum quando mirei diretamente aquelas esferas marrons.
–Você não se lembra de mim? –Ele sussurrou tão baixo que se eu não estivesse tão perto, não ouviria. Sua pergunta fez meu coração falhar uma batia, então eu revirei a minha memória alguma coisa que eu tenha deixado passar.
–Nós nos conhecemos? –Respondi com outra pergunta, sorrindo nervosamente, eu ficaria muito envergonhado se ele afirmasse.
–Aparentemente não.
–Então por que perguntou se eu me lembro de você?
–Eu disse aparentemente.
–Então você se lembra de mim.
–Mas você não.
Eu não sabia mais o que responder e me assustei com isso, eu nunca havia ficado sem palavras antes. Então finalmente eu decidi não falar nada e apenas ficar olhando aqueles olhos cor de café que olhavam para mim tediosamente, procurei algum Déjà vu, porém eu não consegui. Eu realmente não me lembrava dele se realmente nos conhecemos como ele disse. Em minutos suas pálpebras foram ficando cada vez mais pesadas até que se fecharam por completo, entregando-o ao sono. Encostei então minha cabeça no travesseiro e fiquei olhando para o teto até que eu pegasse no sono.
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Acordei com algo insistentemente cutucando a minha nuca. Ainda estava meio grogue, pois eu não queria acordar, então eu enfiei minha cabeça dentro do travesseiro a fim de continuar dormindo tranquilamente.
–Senhor Alfred. –A voz suave de Kiku veio por cima, ele estava me chamando educadamente, mas eu não iria acordar, meu corpo sabe que ainda não é hora de acordar. –Senhor Alfred, por favor acorde. Já está na hora. –Eu suspirei derrotado ao saber que ele não pararia de me atazanar a não ser que eu cedesse.
–Hm... –Murmurei ainda meio grogue e tirei metade da minha cabeça para fora do travesseiro, olhando a causa da minha irritação. Kiku estava ajoelhado na cama ao meu lado e já tinha se vestido com as roupas enlameadas de ontem à noite. –Já tem a minha atenção, o que quer? –Eu não queria ser tão rude, mas, cara, não me acorde no meio do meu sono.
–Só achei que estivesse na hora de você acordar. –Ele encolheu os ombros e desviou o olhar, acho que se sentiu envergonhado de ter me acordado. Isso fez com que a culpa dentro de mim crescesse ainda mais, eu pediria desculpas se eu não estivesse com tanto sono.
–Quantas horas?
–Cinco horas da manhã.
–O quê?! Nada disso! Meu cérebro só começa a funcionar depois da sete, me acorde daqui à duas horas e eu penso no seu caso.
Virei-me de costas para ele e me cobri, não quero nem saber. Eu nunca acordei antes das sete, não tenho nem coordenação para realizar tal feito.
–Mas, senhor Alfred. Preciso falar com você imediatamente. –Essa última frase ele pronunciou com um pouco de dificuldade e uma pitada a mais de sotaque japonês, sinto que o diálogo está se tornando complicado para Kiku.
–Por que fica me chamando de senhor? Não precisa tanta formalidade para falar comigo. –Finalmente, eu desisti de dormir e sentei na cama, catando meus óculos no criado mundo e os colocando, só então a imagem de Kiku ficou nítida para mim.
–Eu fui criado parar respeitar meus superiores.
–Não sou seu superior.
–O senhor me salvou, então...
–Oh, oh! –Eu o interrompi antes que isso ficasse demais para a minha cabeça. –É muita coisa para cinco horas da manhã. Me diga, o que é tão urgente que não pode esperar nem duas horas?
–Eu só queria me despedir de você.
Ao dizer isso, ele passou por mim, acho que estava irritado com minhas grosserias, mas eu nunca vou saber, já que ele não esboça muitas emoções... Espere. Ele disse despedir? Parece que o sangue todo subiu a minha cabeça e eu finalmente acordei. Em um movimento desordenado eu tentei sair de dentro dos lençóis e quase caí da cama, apenas por me apoiar em um pé, quando consegui ficar em pé, agarrei o pulso de Kiku.
–Se despedir de quem, você não vai a lugar nenhum.
–Eu tenho que voltar, se... Alfred... –Pela primeira vez eu vi algum brilho nos olhos castanhos de Kiku, mas eram de tristeza e angústia.
–Voltar para onde, estão recolhendo os japoneses...
–Eu sei o que estão fazendo! –Pela primeira vez eu ouvi sua voz com clareza, grave e forte. Mas não durou muito tempo, pois logo ele abaixou o tom, não antes de soltar da minha mão nada delicadamente. –É tarde demais para voltar pra o meu país. O que me resta é aceitar o meu destino.
–Destino? O que você sabe de destino?! –Já eu não economizava a minha voz, só tentei falar baixo para que o Arthur não ouça. –Eu não te salvei da morte para que você tivesse uma ainda pior.
–Salvar? Eu não te pedi para me salvar. –Parece que a cada vez que aquele diálogo avança, mais a dificuldade de Kiku ao manter o inglês na voz, ele parava muitas vezes no meio da frase e pensava na palavra.
Sinceramente, eu estava farto daquele papo suicida dele. Era isso que os japoneses fizeram em Pearl Harbor. Suicidaram-se pelo seu país. Mas eu não vou deixar que Kiku sacrifique sua vida por uma causa tão sem nexo, eu sou o herói dele e vou cuidar dele. Exatamente com esse pensamento que eu peguei seus dois pulsos com força e o joguei sobre a minha, em seguida eu usei o peso do meu corpo para prendê-lo. Foi um completo sucesso, pois eu era, sem dúvidas, muito mais forte que ele.
Ele tentou lutar algumas vezes, em vão, mas logo cedeu.
–Mas é claro que eu te salvei porque quis. Porque eu não que você morra. –Quando eu disse a última frase, ele parou de lutar e olhou diretamente nos meus olhos.
–Os Americanos não gostam de mim. Eu não sou bem-vindo aqui. –Eu vi seus olhos encherem d’água, mas mesmo assim ele segurou as lágrimas até seus olhos ficarem vermelhos e inchados, mas mesmo assim ainda não derramou as gotas.
–Eu gosto, Kiku. Olha para mim.
Eu também estava quase chorando, mas devido a tensão do momento, depois de alguns minutos de silêncio, eu o soltei então nós dois caímos no tapete ao lado da cama. Foi só então que ele liberou toda as lágrimas que estavam presas. Tudo que eu fiz até agora foi para arrancar qualquer tipo de emoção do japonês, mas assim é demais.
Segurei em seu braço e o puxei para mim, em um abraço. Ele demorou um pouquinho para retribuir, mas finalmente percebeu que eu não iria largá-lo tão facilmente, então se aconchegou em meu peito e continuou chorando.
E novamente ele murmurou palavras em japonês que eu não ouvia, acho que ele está desabafando alguma coisa, mas o único apoio que eu poderia oferecer era o meu abraço de urso. Eu o apertei em meus braços fortemente, encostando o queixo nos cabelos negros e acariciei suas costas em círculos, como quando temos um bebê e precisamos fazê-lo arrotar, era mais ou menos assim, Kiku é muito fechado e precisa desabafar.
–Watashi no aniki... –Os murmúrios dele ficaram mais altos e eu pude ouvir o que ele dizia. Mas não significa que eu entendia. –Karera wa watashi no aniki kakatta. –Eu o segurei pelo ombro e o fiz me olhar.
–Kiku, por favor, tente falar minha língua. Eu não entendo uma palavra do que você está dizendo.
–Hu-Huh... –Ele parou de falar e começou a pensar. –Meu... Meu... –Ele fazia alguns gestos com a mão, mas eu não entendia. –Irmão! –Ele mexeu as mãos para cima e para baixo freneticamente. –Irmão...
–Irmão mais novo? –Ele meneou a cabeça freneticamente. –Irmão mais velho?
–Hai! –Gritou eufórico, mas logo se acalmou, ele ainda tremia levemente devido a terapia do abraço que fizemos agora a pouco. –Gomen... Watashi... –Kiku cortou a frase pela metade e deu um tapa bem estalado na própria cabeça. Eu segurei sua mão.
–Calma, calma, está tudo bem. –Eu acariciava sua mão docemente e dava um beijo doce em cada dedo machucado, isso pareceu acalmá-lo um pouco.
–Desculpa, eu... Não consigo falar inglês quando... –Ele começou a estalar os dedos, novamente freneticamente.
–Nervoso? Tudo bem, calma. Relaxa. –Eu passei a mão na sua testa que estava encharcada de suor com todo o nervosismo que ele estava passando.
Eu saí do meu quarto e fui até a cozinha, pois eu estava já ouvindo meu estômago reclamar de comida. Precisava deixar o Kiku se acalmar um pouco também. Sei que ele não vai fugir enquanto eu estiver no quarto, mas por via das dúvidas eu tranquei o quarto. É, cuidado nunca é demais.
Desci as escadas rapidamente e fui até a cozinha para encontrar com o meu primo bebendo seu chá da manhã com pão fresco. Ele lia o jornal do dia que o garoto sempre deixava cedinho na porta de casa. Eu me aproximei do bule de café quando ele notou a minha presença, inicialmente ele me olhou como se visse um fantasma.
–Você já está acordado, Alfred? Eu iria subir para te chamar agora mesmo. –Ele respondeu um pouco pasmo, não entendo, é tão estranho eu acordar cedo? Pensando bem, é sim.
–Eu acordei um pouco mais cedo hoje. –Abri o meu melhor sorriso, terminando de despejar o café no copo e me sentei em uma cadeira ao lado de Arthur, pegando a geleia de morango e passando no mão que eu iria comer.
–Isso é agradável. Pelo menos você está criando juízo. –Respondeu ele com o seu sotaque inglês costumeiro e seu típico sorriso cínico, o problema é que eu adorava esse sorriso.
Eu comia e conversava normalmente com Arthur, mas de vez enquanto olhava para cima, ansioso para poder voltar para o meu quarto e levar café da manhã para o Kiku, sinto triste em deixa-lo sozinho, ele parece tão frágil. Mesmo alguns minutos não me deixa em paz a figura dele chorando como uma criança perdida.
–Alfred, você está me ouvindo? –Meus devaneios foram cortados por Arthur que me olhava preocupado.
–A-Ah... Sim, sim, Arth. Eu... Eu ainda estou um pouco sonolento, afinal, não sou de ferro. –Eu arranjei essa desculpa em cima da hora e temi que ele não acreditasse, então dei um bocejo falso para provar.
–Claro. –Antes dele completar a frase, um som de buzina foi ouvido na porta da nossa casa. –Minha carona chegou, vou trabalhar, fique bem, Alfred. –Ele limpou os restos de migalha no seu terno perfeitamente alinhado e se levantou.
–Espera, Arth... –Eu o segurei quando estava prestes a sair da cozinha, ele se virou para mim. –Me empresta seu carro hoje para eu ir à escola?
–Claro, mas tome cuidado. –Ele sorriu e me beijou na bochecha, indo em direção ao carro da sua carona. Senti algo revirar em meu estômago.
Eu não gosto de mentir para o Arthur, ele é a única pessoa que eu tenho, me faz mal. Mas em contrapartida, eu não posso dizer a ele que o Kiku está escondido em meu quarto, depois da tragédia de Pearl Harbor, Arthur tem um ódio por japoneses e ele nunca entenderia. Sabe, eu estou com a corda no pescoço.
Arrumei todo o café da manhã para o Kiku em uma bandeja, incluindo uma caneca de café, cereais, um ovo que eu fritei e pão com geleia. Eu não sei qual é o café da manhã japonês, mas eu gostaria de saber para agradá-lo, porém por hoje ele teria que se contentar com o café da manhã americano. Segurei na bandeja bem firme pelos dois lados e subi as escadas, quando eu abri a porta para o meu quarto tive uma surpresa.
Kiku estava semideitado ao pé da cama, abraçando o edredom com doçura, ele respirava tranquilamente e em sua bochecha ainda haviam marcas de lágrimas.
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