Notas iniciais
Estou tão feliz pela segunda recomendação da fanfic *-* Muito obrigada

Levei mais de um mês, pelo que pude contar, para conseguir ficar de pé e dar o primeiro passo desde a queda do avião. Não foi algo extraordinário, já que não consegui dar um passo sem sentir que minhas costelas poderiam desabar a qualquer momento, mas pelo menos serviu para me dar um alívio mórbido de que eu não havia perdido os movimentos das minhas pernas. Era frustrante ao mesmo tempo, porque eu odiava servir de peso morto, exatamente o que eu estava sendo para o Yao.

Mais algumas semanas e eu já pude me locomover livremente, claro que com algumas restrições por causa das intensas dores que eu sentia, mas já conseguia lidar com elas. Por muito tempo, eu sentia minhas costelas serem esmagadas enquanto tentava dormir e todo esse me processo me tornou um pouco mais imune a dor.

Devo dizer que a sensação de poder sair daquela cama e sair de casa era mais incrível do que eu imaginava. Nem acredito que foi só depois de tanto tempo que pude ver que estávamos ao pé de uma montanha e também poder sentir de perto o frio de inverno. Vendo a paisagem pacificada da floresta, mal dava para acreditar que estávamos em guerra, por um momento eu até me esqueci desse fato. Porém meus pesadelos nunca me deixavam esquecer.

Sempre era a mesma coisa; eu ouvia em minha cabeça sons de explosão, os mesmos que eu ouvia quando uma cidade próxima a minha antiga base era bombardeada, em seguida todos que eu conhecia estavam mortos, menos eu. Acho que essa era a parte mais assustadora, como eu posso ser o único a sobreviver quando todos que conheço estão mortos? Isso só podia ser deus brincando de sadomasoquismo comigo.

— Se ficar muito tempo nesse vento gelado, você vai congelar, aru. — Ouvi uma voz masculina vindo atrás de mim e olhei pelo canto do meu ombro apenas para ver Yao se aproximando, sentando-se ao meu lado. — O que está pensando?

— No de sempre. — Respondi com um suspiro pesado. — A guerra está me enlouquecendo, mesmo estando tão longe dela... Parece que esse inferno não acabará nunca. Desde pequeno sempre me perguntei porque meu pai era sempre tão atormentado, agora mais do que nunca eu entendo ele.

— Seu pai lutou na guerra, aru? — Perguntou Yao surpreso. Eu respondi com um aceno de cabeça.

— Durante a Primeira Guerra. — Completei. — Foi dele que eu tirei o sonho de me tornar um soldado da aeronáutica americana, também minha paixão por aviões. Hoje isso virou um pesadelo.

Yao não falou mais nada, porém permaneceu ao meu lado como se também pensasse na mesma coisa que eu. Também sei que ele não queria estar aqui, queria poder estar com o seu irmão, entretanto, as circunstâncias o amarram aqui.

— O que aconteceu com você, Yao? — Perguntei olhando para ele. Yao pareceu hesitar um pouco, respirando fundo e com um olhar distante.

— Eu não me lembro de quando me tornei um prisioneiro de guerra, mas assim me tornei na América. Eles me levaram de lá para um lugar extremamente gelado. Sabe esse frio? Não é nada comparado do que tinha lá. — Respondia com uma voz de extremo pesar, como se lembrar daquilo estaria fazendo muito mal a ele. — Era impossível trabalhar em condições assim, mas foi exatamente o que me obrigaram a fazer. Todos os dias procurando carvão em uma mina escura e ainda mais gelada. Quase o tempo inteiro havia desabamentos e risco de avalanches, pois estávamos no meio da montanha, isso sem falar dos animais carnívoros que ficavam nos espreitando. Nunca passei por nada parecido, todos os dias parecia ser o meu último.

Eu ficava olhando para o chinês completamente espantado, pois nunca imaginei que haveria um lugar assim, era desumano o seu relato.

— Como escapou de lá? E como veio parar aqui? — Perguntava ainda com um aspecto de choque puro. Ele deu uma risada seca assim que viu as minhas condições.

— Uma vez eu não estava me aguentando de cansaço e nem vi quando desmaiei. Aparentemente acharam que eu estava morto, pois quando acordei estava em uma vala com diversos outros cadáveres ao meu redor. Foi horrível, tive que fazer um esforço enorme para não gritar ou vomitar em respeito àqueles mortos. — Suspirou tristemente, eu pude sentir a bile na minha garganta ao tentar imaginar essa cena. — Eu andei até não poder mais e cheguei aqui por pura sorte. Nem sei direito onde estou.

Também não fazia ideia de onde caí, sei que estava indo para a costa chinesa, mas posso facilmente ter passado a fronteira com a Mongólia, estar quase na Rússia, posso estar até em uma ilha completamente desconhecida pelo homem. Bom, eu não vejo tribos por perto e nem populações, fica difícil deduzir onde estamos. Só sei que aqui o inverno é bastante rigoroso e seco. Venta muito forte, mas não neva, o que é o pior.

— Por que você foi levado a esse lugar? — Perguntei ainda tentando montar o quebra-cabeça da mente doentia dos meus governantes.

— Eu vivia pacificamente na América com o meu irmão, ele é japonês, sabe? Quando essa guerra contra o Japão estourou, foi horrível, sobretudo nas periferias. Eu via diversos asiáticos usando um bottom escrito: eu sou chinês, apenas para não serem confundidos e pegos. — Contava ele mantendo um tom triste na voz, mas eu estava achando essa história cada vez mais curiosa.

— Por que você foi pego se apenas os japoneses eram considerados perigosos?

— Eu estava tentando proteger o meu irmãozinho, eu fui pego, mas pelo menos consegui o fazer fugir, desde então estou naquele lugar e não tenho mais nenhuma notícia dele. — Ele parecia estar mais confortável comigo que antes e eu apenas continuei escutando-o. — Não havia apenas japoneses lá, coreanos, chineses, alemães e italianos. Todos considerados inimigos do Estado. Eles quiseram nos mandar para a Rússia para que pudessem nos exilar de vez.

Arregalei os olhos com um lampejo de esclarecimento que acendeu em minha mente. Por um momento, cheguei a pensar que Kiku possa realmente estar em um lugar assim. Arthur nunca me disse para onde o levou, mas pode ser para as autoridades conhecendo-o como eu conheço. Se bem que naquela noite, não era mais o Arthur que eu conheço e não ficaria surpreso se ele tivesse o matado. Senti meu coração apertar forte com aquele pensamento e balancei a cabeça para tirar essas coisas horríveis.

Essa podia ser a minha única esperança.

— Você disse que todos os prisioneiros são levados para lá? — Perguntei cada vez mais esperançoso.

— Não todos, apenas homens jovens e saudáveis. Por quê? — Questionou Yao, provavelmente desconfiando do meu tom que estava cada vez mais empolgado.

— Eu preciso achar uma pessoa e acho que ela pode estar lá. — Contei animado. — Não deve ser longe daqui, uma vez que você conseguiu caminhar de lá até aqui. — Yao me olhou com uma sobrancelha arqueada em descrença, tentando assimilar dentro de sua cabeça algum sentido a tudo que estou dizendo aqui.

— Isso é loucura, você quer fazer um resgate, aru? — Concluiu com um tom de surpresa enorme, olhando para os lados de tanta aflição. — Com o que vamos nos proteger? Com nossas peles? Eles têm um tanque de guerra, aru! — Praticamente começou a berrar essas coisas, mas eu não sabia por que tinha uma enorme vontade de rir do tanto que ele ficou apavorado com a minha ideia.

Mas ele tinha razão. Provavelmente nem entraremos na fortaleza estando tão desprotegidos como estamos, por isso eu precisava de um plano. Encostei a minha mão na testa em busca de alguma grande ideia que podia me tirar daquela incógnita quando acabei me lembrando de algo, embora eu ainda não tivesse certo se iria funcionar.

— Onde está o meu avião? — Perguntei apressado já me levantando, por ter feito isso rapidamente, senti uma dor lacerante nas minhas costelas recém cicatrizadas, mas tentei ignorar isso, apenas segurando aquele local.

— Hein? — Perguntou ainda chocado.

— Em que direção você me resgatou? — Repeti a pergunta dessa vez um pouco mais impaciente.

— Por ali, aru. — Apontou para uma direção, embora estivesse ainda um pouco atordoado. — Por quê? — Questionou desconfiado.

Eu não tive tempo de responder sua pergunta, pois já estava andando na direção que ele me indicou, ignorando todos os avisos do meu corpo parar encostar um pouco. Eu ainda não estava cem por cento, mas ao menos conseguia me movimentar sem ajuda, o que era um grande feito, a partir de agora era apenas treinamento para voltar ao meu estado perfeito.

Não estando muito longe, pude ouvir o som dos sapatos de pano do Yao correndo atrás de mim e, em seguida, ele mesmo me segurou forte, me impedindo de continuar andando.

— Pra onde pensa que está indo, aru? Você ainda não está apto para sair andando pela floresta dessa maneira. — Alertou com seu jeito aflito ainda, embora me desse vontade de rir novamente por perceber que ele estava a beira de um ataque de nervos.

— Eu já te disse: tenho que ir até o meu avião.

Yao olhou para mim e depois olhou para a direção onde estava a cabana, por fim deu um suspiro alto e cansado.

— Ao menos me deixe ir contigo, aru. Como vou ficar tranquilo te deixando explorar essa floresta sozinho? — Pediu com um tom ainda hesitante.

Não podia negar aquele pedido, afinal, sou teimoso, mas nem tanto. Eu sei que ainda não estou pronto para fazer esforço e carregar peso, que é uma das coisas que farei de tudo der certo no meu plano.

Yao foi quem me guiou o caminho inteiro e quanto mais eu andava, mais eu ficava me perguntando como ele conseguiu me arrastar tão longe. Aparentemente, ele não era tão fraco quanto seu físico sugere que seja ou talvez eu quem esteja sentindo muita dor e o caminho parecia dolorosamente longo. Isso porque o tempo todo eu parava e me encostava em uma árvore qualquer para recuperar o fôlego, eu estava mesmo péssimo ainda.

O pior de tudo era aquele frio terrível, as árvores eram pinheiros altíssimos e suas cascas eram geladas, eu nunca vi algo assim antes. Todo aquele clima seco ficava ainda mais difícil de respirar pelo fato de estarmos no meio de uma montanha.

— Vamos voltar, aru. Você está péssimo. — Sugeriu Yao pela quarta vez, mas eu engoli tudo aquilo que me fazia mal e me forcei a continuar, segurando fortemente o meu tronco como se isso fosse me fazer ficar de pé.

— Eu estou bem, não é a primeira vez que eu fico gravemente ferido. — Respondi teimosamente apenas para ver que o Yao rolou os olhos quando eu falei isso, voltando a me guiar.

Não sei por quanto tempo eu andei, mas deu para ter uma boa noção de distância quando nem mesmo conseguia ver o caminho que eu normalmente conhecia. Lá estava o meu avião inteiramente quebrado e amassado, esmagando algumas árvores quebradas ao meio no processo. Pelo modo que ele rasgava a árvore ao meio na vertical dava para perceber que inicialmente ele estava em cima dela e foi caindo gradativamente pela flora não aguentar o seu peso.

Eu me aproximei calmamente do meu avião, com cuidado para não tropeçar em nenhum galho ou raiz traiçoeira e comecei a acariciar a carcaça do meu pássaro, esfregando levemente meus dedos onde estava o nome dele.

— Me desculpe, amigão. — Disse com uma voz um pouco emocionada como se falasse com um cadáver de um amigo morto. — Eu não cuidei direito de você.

E suspirando tristemente que eu me esgueirei para dentro dele, sentindo ferir meu braço no processo por conta de um ferro pontiagudo e lá dentro a situação não estava melhor quanto no exterior. Todo tipo de vidro que poderia existir estava quebrado em pedaços e andar descalço por ali podia ser perigoso. Havia combustível seco no piso e só de pensar que aquilo poderia ter explodido comigo dentro na menor faísca fazia todo meu corpo estremecer. Os bancos onde antigamente meus colegas ficavam esperando para o desembarque estavam soltos e rasgados, com as espumas saindo. Vendo toda aquela destruição me deixa ainda mais surpreso por eu ter sobrevivido e sem esperança quanto achar algo inteiro ali.

Porém, eu fui andando até os fundos do avião com calma, sentindo meu coração acelerar toda vez que eu fazia um movimento em falso e a carcaça balançava, então abri um compartimento secreto que ficava em todo avião para caso de emergência. Lá dentro havia uma caixa enorme que estava em boas condições apesar de estar cheia de arranhões. Com a força que me restava, eu puxei a caixa, sentindo um estalo na minha coluna e todos os meus ossos pareceram ser de gelatina por alguns segundos, me fazendo berrar de dor e cair no chão.

Yao veio ao meu socorro e puxou a caixa antes que ela caísse em cima de mim e me esmagasse ainda mais, em seguida ajoelhou-se ao meu lado.

— Você está bem, aru? — Perguntou me analisando. — Espero que dias de tratamento com ervas não tenha sido em vão. O que deu em você para levantar uma caixa com tanto peso?

— Minha esperança. — Respondi simplesmente me levantando e ignorando meu corpo reclamando da dor.

Voltei para um compartimento e peguei um pé de cabra, indo até a caixa e a ajeitei na apertura da tampa da caixa para forçá-la.

— Espera! — Gritou Yao, mas era tarde demais quando usei minha força para levantar a tampa e desprendi todos os seus pregos, gritando de dor novamente quando ela me atingiu bem nos braços e no abdômen, como uma corrente elétrica, me ajoelhei no chão tentando me tornar firme.

Meu corpo estava chegando ao seu limite, porém eu continuava o forçando cada vez mais porque eu sabia que era necessário. Eu tinha uma chance de resgatar o Kiku de uma vez por todas, não posso desperdiçar isso. Ao mesmo tempo em que um lado do meu cérebro questiona se tudo isso é realmente prudente, eu ao menos sei que ele está vivo, tampouco que está na Rússia, mas eu não tinha mais nada a perder.

— Isso são... — Yao parou a frase no meio em um tom de choque e olhei pra ele para saber o que havia acontecido. — ...Armas?! — Praticamente gritou dando um pulo para trás fazendo a carcaça do avião oscilar tanto que achei que iria sair rolando com a gente dentro.

— São riffles de emergência. Para caso alguma falhar ou algo assim. — Respondi sua possível dúvida me aproximando da caixa para verificar quais armas estavam danificadas. Logo de cara já peguei um revolver que estava com os parafusos quebrados e ela estava se soltando, por isso a joguei de lado.

— Por que precisamos delas? — Perguntou Yao ainda em choque.

— Se eu vou invadir uma prisão de segurança máxima, eu acho que esse é um começo. — Respondi de um modo um pouco sarcástico, pegando um riffle e testei como estava a mira dele, concluindo que ele estava inteiro e deixei dentro da caixa.

— E-Espera. Você realmente vai fazer isso, aru? — Questionou incrédulo. — Isso é suicídio!

Ignorei isso prontamente porque eu claramente já sabia que ia ser uma missão suicida, mas como eu mesmo já disse, não tenho absolutamente nada a perder. Se for para morrer nessa guerra, que seja tentando salvar o homem que eu amo e apenas isso. Não quero mais servir ao país e mais porra nenhuma, apenas quero salvar o Kiku.

— Não sei como os homens puderam criar um instrumento tão cruel quanto esse. — Lamentou Yao dessa vez em um tom triste olhando para as armas. — O que essas coisas fazem senão matar? Absolutamente nada. Não haverá paz enquanto houver armas.

Eu parei de verificar arma por arma para olhar o chinês que agora estava com um semblante preocupado e olhava para mim com pesar. Suspirei fundo e me levantei, indo até ele, abraçando-o forte, quase como um agradecimento por tudo que ele fez por mim, mas nessas semanas que pude estar com Yao, pudemos criar um laço muito forte, ele era uma pessoa bondosa em níveis que nunca pude conhecer em ninguém.

— Eu só não quero que você morra. — Desabafou escondendo o rosto no meu ombro e me apertou mais contra si. — Chega de pessoas que gosto morrendo nessa guerra miserável.

— Me desculpe, Yao. A possibilidade de encontrar uma pessoa que amo muito subiu a minha cabeça, mas... — Atalhei por um momento engolindo a onda de tristeza que me atingiu. — Não tenho base nenhuma para comprovar se ele está mesmo lá, só que estou tão desesperado que não sei o que fazer. Tiraram-no de mim da forma mais cruel possível, como alguém arrancando sua carne com a mão, desde então sinto que sou tão vazio.

— Quem é essa pessoa? — Perguntou o chinês com um tom de compaixão.

Por um segundo hesitei em contar que eu o amava como um namorado e principalmente que era um garoto. O medo crescia dentro de mim de uma reação parecida com a do Arthur, não quero me sentir humilhado como antes, não quero ter esfregado na minha cara que amor entre homens não é normal.

— É um japonês que conheci lá na América, nós tivemos uma relação... próxima demais. — Falei hesitando muito nessa parte, mas percebi que o Yao não se abalou, mas acho que entendeu o que eu quis dizer. — Meu irmão descobriu sobre isso e tirou ele de mim. Eu não sei onde o levou, mas se tem um lugar bastante provável pode ser onde você esteve. Eu não consigo parar de pensar sobre isso, eu sinto tanto a falta dele...

Assim que terminei de contar, senti os braços de Yao me apertarem mais forte e eu também acabei apertando o abraço em reflexo.

— O nome dele era Kiku. Ele foi a pessoa mais incrível que eu já conheci. — Contei achando que era mais para mim mesmo do que para qualquer um, mas senti o Yao vacilar em meus braços.

— Você disse... — Atalhou a frase ao meio em sinal de choque. — Você disse Kiku?! — Perguntou atordoado se afastando um pouco de mim.

Estranhei aquilo em um primeiro momento, pois seu comportamento mudou da água para o vinho. Ele estava extremamente aflito e parecia com dificuldades para respirar, mesmo assim acabei assentindo com a cabeça.

— Oh, meu Deus. — Proclamou tampando a boca com as duas mãos. — Oh, meu Deus. — Repetiu passando os dedos pela sua testa em seguida seus cabelos. Ele estava desorientado, seus olhos marejados e suas pernas cambalearam até que ele caiu de joelhos no chão. Eu me aproximei dele preocupado com algo ter acontecido. — Cabelos pretos, olhos bem castanhos, pontas espetadas? — Perguntou em um tom desesperado citando características do Kiku e já havia percebido que ele o conhecia, apenas não consegui identificar se isso era exatamente bom ou ruim.

—Sim... —Confirmei em tom baixo por ainda está desnorteado.

Quase que no mesmo instante que eu terminei a palavra, Yao começou a chorar compulsivamente, colocando suas mãos em frente os olhos e pude perceber que ele chorava pelos seus soluços fortes e seu corpo tremendo. Eu nunca o vi daquele jeito, ele parecia ser uma pessoa tão calma, parece ter desmoronado agora, mas me lembrou eu mesmo algumas vezes que sinto vontade de desabar. Como um pouco antes de partir para aquela missão.

— Ele está vivo... Ele está vivo... — Repetia sem parar balançando seu corpo para frente e para trás em movimentos que me lembravam uma criança. — Oh, meu Deus, ele está vivo... — Repetiu mais uma vez tirando as mãos dos olhos e abraçando seus braços.

As lágrimas escorriam pela sua face até cair sonoramente no chão e não parecia que ele iria acabar tão cedo. Eu mal sabia como reagir, porque não tinha ideia do que estava acontecendo e também sentia que devia dar algum espaço para o Yao.

Porém, me pegando totalmente de surpresa, Yao se levantou e veio até mim segurando em meus dois braços, olhando-me completamente desesperado. Seu olhar era tão intenso que me deu vontade de desviá-los, mas não o fiz por respeito.

— Você disse que ele está vivo, não é? Como ele está vivo? O que aconteceu com ele? — Me questionou completamente desconexo e começou a balançar o meu corpo.

— Eu lhe conto tudo, mas primeiro me diga o que houve com você.

— Ele é meu irmão. — Contou desabando em lágrimas novamente, me fazendo arregalar os olhos. — Kiku é o meu querido irmãozinho. Eu pensei que ele havia morrido, mas ele está vivo. Você cuidou dele, não? Conte-me tudo. — Pressionou-me mais uma vez.

— Eu te conto, está bem? Mas antes vamos sair daqui.

Antes de sair do avião, porém, eu fui até a cabine do piloto, pois havia algo importante lá. Quando abri o porta-luvas, lá estava a carta do Arthur. Ela estava em bom estado, apenas suja e um pouco úmida, mas em bom estado. Ignorei-a completamente quando peguei meus óculos que estavam ali e suspirei irritado quando vi que a lente estava quebrada.

— Que ótimo. — Bufei deixando-o ali mesmo, já não tinha mais utilidade e voltei até o Yao.

Tentei pegar a caixa com as armas boas que sobraram, mas antes que eu pudesse fazer isso, o próprio chinês pegou das minhas mãos e o levantou, deixando-o em seu ombro direito. Fiquei impressionado como alguém tão magro poder ter uma força daquelas.

— Ao menos me deixe fazer isso, você não pode carregar peso. — Pediu ainda um pouco atordoado. Eu também estava um pouco abalado depois do que aconteceu, por isso aceitei sem questionar, saindo do avião com ele.

O caminho de volta não pareceu tão longo quanto a ida, talvez por eu estar me sentindo melhor das dores, mas o frio ficava mais intenso conforme o sol ia se escondendo sob as montanhas. Quando chegamos ao nosso pequeno refúgio, eu me sentei com Yao no lugar que costumávamos sentar do lado de fora e contei toda a minha história com o Kiku.

Diversas vezes eu acabava chorando quando me lembrava da noite horrível que eu me perdi, Yao também chorou bastante e nos confortamos, era incrível a sintonia que tínhamos em tão pouco tempo. Senti um peso enorme me deixando ao contar todos os detalhes para o Yao, também fiquei feliz em ver que ele ficou chocado com a violência do Arthur, pelo menos agora eu sabia que não estava sozinho no mundo.

— E você acha que o Kiku foi levado para essa prisão? — Perguntou Yao usando um lenço para limpar suas lágrimas.

— Eu realmente não sei, pode ser uma ideia idiota, mas há uma remota possibilidade. Eu gostaria de tentar. — Expliquei determinado.

— Não vai ser fácil voltar com vida. — Lamentou-se Yao. — Mas eu quero ir com você.

Notas finais
O que acharam? ^-^ Comentários e críticas são sempre bem-vindas