Notas iniciais
Ooi, leitores *-* Uma informação antes do capítulo: O comunismo era visto com maus olhos por toda a América, não somente a do Norte. A América Central reprimiu fortemente o comunismo em ditaduras militares, aqui no Brasil começou com o governo Vargas que exilava comunistas como o famoso Carlos Prestes que foi exilado para a Rússia, mas mais tarde retornou para o Brasil, embora tenha sido uma "caçada" implícita pelo presidente Getúlio, anos depois a mesma coisa iria acontecer descaradamente na ditadura militar. O governo dos Estados Unidos também reprimia comunistas, mas era por debaixo dos panos, para que ninguém questionasse o governo "perfeito" dos Estados Unidos, tudo estava ótimo e confortável, por isso não havia motivos para se preocupar. Só que lá também ocorreu uma forte repressão dos comunistas.

Sierra Nevada, Califórnia.

Um homem chinês andava de um lado para o outro dentro de sua cela minúscula. A única luz que entrava dentro daquele lugar era a janela minúscula e quadrada, localizada próximo ao teto. O homem olhou para cima, com seus cabelos castanhos oleosos caindo sobre os ombros e continuou a pensar, aflito, ele roía as unhas, sendo que elas já estavam fracas devido à má alimentação daquele lugar.

De repente sua visão é distorcida por uma luz incrivelmente forte da porta de sua cela se abrir, incomodado com a invasão repentina da luz, ele fecha os olhos e só os abre quando suas pupilas dilatadas voltarem ao normal. Não que o guarda tivesse a boa vontade de aguardar. O policial americano segurou no braço frágil do chinês com hostilidade e o arrastou pelos corredores da cadeia.

Enquanto atravessava o corredor do inferno, como era conhecido pelos guardas, Yao recebeu elogios obscenos dos demais presos, nada que ele já não tivesse acostumado, apesar de estar apenas uma semana naquele lugar. O guarda cruzou a esquina do corredor e andou mais um pouco até chegar a sala do interrogatório.

A sala não era melhor que sua cela em questão de conforto e iluminação. A única luz daquele lugar, no entanto, vinha de uma lâmpada enfraquecida no teto, que hora ou outra criava sombras devido aos insetos que voavam perto dela.

Yao foi colocado sentado na cadeira de ferro, com suas pernas algemadas aos pés da cadeira e seus pulsos algemados juntos, havia a sombra de um homem em um dos quatro cantos da sala, mas ele só se manifestou quando o guarda foi embora.

–Quarenta e oito horas em uma solitária o fizeram pensar, Wang? –Yao fez uma careta ao ouvir o sotaque sulista carregado do homem, enquanto este se aproximava da mesa de metal. –É a sua última chance de me contar onde está o japonês.

Yao escolheu permanecer calado, embora soubesse o que o aguardava por essa escolha. Desviou o olhar para a parede de mental e quis chorar. Nem ao menos sabia onde estava Kiku, se estava vivo ou seguro. Lutou contra a própria agonia no peito para se mostrar forte ali na frente daquele sargento.

–Diga-me, seu merda! –O sargento exaltou-se indo ao lado de Yao e chutou sua cadeira, fazendo-o cair no chão. Diante de tal ato de violência, os dois policiais do outro lado do espelho deveriam intervir, mas ficaram rindo da situação, sadismo era um comportamento muito comum entre os policiais, desde que seja por baixo dos panos. –Você está escondendo aquele espião. Saiba que uma hora ou outra vamos encontrá-lo, então será pior para você.

O sargento soltou os pulsos e calcanhares de Yao e o puxou pelos cabelos marrons, pressionando seu corpo desnutrido contra a parede de metal. A cabeça chocou-se tão fortemente que o chinês pensou que iria desmaiar. Antes que ele tivesse uma reação o próprio corpo do homem pressionou contra o seu. De repente o ar se tornou tão rarefeito.

–Aiyah! –Gritou o chinês quando recuperou o controle. –Ele não é um espião, aru! Deixe-o em paz.

–Se não fosse um espião não haveria motivos para ele fugir do governo americano. –A voz grossa do homem se acalmou consideravelmente, tornando-se um enjoativo ameno, ele passava os dedos entre os fios chocolate de Yao.

–Ele fugiu porque eu o mandei fugir! Ele é inocente, aru!

A seriedade no rosto branco do velho era mortal. Yao sabia que ele não estava de brincadeira e também estava com medo, mas foi ele quem ensinou a Kiku não ter medo. Então por que ele estava com medo? A carranca do sargento aos poucos foi moldando um sorriso, mas era perverso como se ele tivesse com uma imagem muito nojenta em mentes. O corpo do jovem chinês tremeu abaixo do policial.

Os dedos grossos enrugados penetraram os cabelos oleosos e o sargento os acariciou mantendo aquele sorriso nojento no rosto. Algumas vezes ele puxava os dedos, fazendo Yao gemer de dor, as lágrimas inundaram seus olhos, mas ele manteve seu olhar para o teto, fazendo de tudo para que elas não caíssem.

–Diga-me. –Insistiu o homem novamente com a boca tão próxima do rosto sujo do chinês, plantou até um beijo simples em sua bochecha. –Se você me contar onde ele está eu prometo ser gentil e... –Os olhos de Yao se arregalaram.

Com as forças que vinha economizando nos últimos tempos, ele deu uma forte joelhada na virilha do sargento, que o fez encolher de dor e dar um grito rouco. Yao sabia que havia assinado sua certidão de óbito ao fazer aquilo, mas não importa. O corpo frágil deslizou pela parede até sentar-se no chão. Quando finalmente os dois guardas quase arrombaram a porta, um deles foi acudir o sargento e o outro puxou os cabelos de Yao fortemente.

E mais uma vez sentiu sua cabeça contra um metal, mas dessa vez era a mesa no centro da sala. A pancada foi tão forte que sentiu o líquido familiar escorrer pela sua testa, primeiro em poucas quantidades, mas logo foi se tornando mais espesso, Yao sentia que estava próximo a perder a consciência.

Antes de desmaiar, porém, ele ainda pode ouvir a voz grossa do sargento.

–Levem-no para a Sibéria!

0o0

O treinador Benson me levou até o vestiário masculino, sempre com sua feição séria habitual. Pergunto-me se é sua incapacidade de formar emoções ou a notícia que é ruim. Entretanto, eu não poderia deixar de sentir um frio na barriga a cada passo que eu dava.

Quando eu cheguei lá, sentei-me em um dos bancos que havia perto dos armários.

–Jones. –Chamou ele novamente e eu comecei a ficar atento às suas palavras. –Lembra-se que mês passado você me pediu que enviasse sua ficha à força aérea.

Arregalei os olhos. Eu havia me esquecido completamente disso. Desde o ano passado eu quis me alistar no exército, mas antes teria que passar pelo treinamento de recrutas aqui mesmo em Seattle. Pedi que o meu treinador me examinasse e fizesse o relatório completo da minha capacidade física tais como levantamento de peso e velocidade. Vale ressaltar que eu nem conhecia o Kiku naquela época.

–Sim, me lembro. –Dei um sorriso amarelo para disfarçar meu espanto. Realmente pela expressão do meu treinador vem notícia ruim por ai. Ou não. A expressão dele era sempre a mesma, por isso eu ficava cada vez mais apreensivo.

–Você passou. –Disse simplesmente, nem ao menos um sorriso de orgulho, esse era o meu treinador. Não posso dizer que também sorri, porque naquela hora eu nem pensava em sorrisos. Depois que me deu a notícia, ele me explicou que eu teria que me apresentar à delegacia de Seattle a partir de amanhã, depois da escola. Eu quase chorei nessa parte.

Seria um treinamento intenso de recruta por dois meses para depois ser enviado ao estado do Texas para o treinamento profissional. Depois, serei obrigatoriamente mandado para a guerra. Se eu pudesse voltar no tempo nesse exato instante, nunca teria me alistado nessa merda, mas já foi, o que eu posso fazer? Ou melhor, o que eu farei? Quem vai cuidar do Kiku quando eu for para o Texas, com certeza não poderei levá-lo.

Ontem à noite fiz o meu teste com o Arthur, ele obviamente falhou, jamais aceitaria que eu cuidasse, ou pior, que ele cuidasse de um japonês. Visto sua enorme repulsa por essa raça. Coloquei as mãos para tampar o meu rosto que demonstrava desespero puro e fiquei lá durante o resto da aula.

Somente quando o sinal que indicava o final de mais um dia escolar que eu pude me levantar e sair correndo para o carro do Arthur. Nem me preocupei em passar no meu armário para pegar meus livros e cadernos, pois já tinha o feito antes de vir para o treino de futebol. Deixei minha mochila no banco de trás e segurei o volante firmemente, acho que por cinco minutos eu fiquei pensando no Kiku e no final dos cinco minutos eu bati a cabeça com força no volante, soltando uma buzina alta.

Quando eu criei coragem para ligar o motor eu ia dirigindo para a rodovia, foi quando eu tomei uma decisão. Procurei o retorno mais próximo e voltei em direção a minha casa. Chegando lá, pude perceber que a luz estava acessa, ou seja, o Arthur já estava em casa. Respirei fundo e entre lá normalmente.

–Cheguei! –Gritei, abrindo o meu melhor sorriso. Eu tinha esse “talento” em conservar o meu sorriso de herói, mesmo nas horas mais inconvenientes, isso já me salvou de tanta coisa.

Arthur fechou o livro que estava lendo, um dos vários que já não sei mais qual é, além dele ter uma velocidade incrível para devorar livros. Ele sequer notou que tinha algo de errado comigo, eu fui até ele.

–Arthur, eu só vim avisar que eu fui aceito na Força Aérea Americana.

–Jura?! –Arthur também sorriu, era rara as ocasiões que ele abria um sorriso tão grande. –Isso é maravilhoso, Alfred! –Ele correu até mim e me deu um grande abraço, não tive nenhum problema em retribuí-lo.

–Por isso eu vim aqui. –Já comecei a formular a mentira na minha cabeça. Só que dessa vez eu não estava com medo de enganar o Arthur. –Vou ter o treinamento de recruta, que vai começar hoje, portanto eu vou dormir fora.

O sorriso de Arthur se alargou, era um sorriso sincero misturado com o orgulho que sentia de mim.

–E você veio aqui só para me avisar?

–Não quero que fique preocupado comigo.

Em seguida ele me abraçou novamente, só que dessa vez não era um abraço de “parabéns”, tinha muito carinho nele. Ele apertou o meu torso o mais forte que conseguia, embora eu tivesse o abdômen duro pelo intenso treinamento. Eu passei meus braços ao redor das suas omoplatas e retribui o abraço novamente, como se me desculpasse por estar mentindo.

–Tudo bem, vai lá. –Disse por fim, se afastou do abraço e deu um leve tapa no meu tórax. –Eu estou tão orgulhoso de você. –Concluiu dando uma risada, há tanto tempo não vejo o Arthur tão feliz, assim como há muito tempo não me sinto tão triste.

Dei um beijo na sua bochecha e murmurei um boa noite. Ele certificou de me lembrar para fazer os deveres de casa e eu fiz alguma piada que nem eu achei graça. Geralmente eu teria rido como um louco, não importa o quão tosca tenha sido a brincadeira. Acho que foi o primeiro sinal óbvio que eu dei de que não estava tudo bem.

Antes que ele me questionasse do meu inusitado silêncio, eu saí de casa para o carro novamente, dessa vez eu comecei a dirigir para a fazenda do meu pai.

Tentei ao máximo prestar atenção na rodovia, que naquele dia estava muito movimentando, principalmente de caminhões, eu via pela janela a propaganda estampadas na lataria da carreta, coisas simples, mas minha intuição me dizia que não era tão simples. Eram carretas sujas demais para serem produtos de supermercado, alguma coisa estava errada. Enquanto eu pensava nisso, me deu um aperto muito grande no coração e eu só pensava em Kiku, queria desesperadamente vê-lo. Nunca pensei que sentiria tantas saudades de alguém assim. Era desesperador.

Com terríveis pensamentos invadindo a minha mente, permiti acelerar um pouco para chegar ao meu destino o quanto antes. Quando vi a cabana coberta de neve branca, eu me permiti dar um sorriso. Com dificuldade de empurrar a neve com os pneus, eu estacionei um pouco fora da garagem, mas eu não importo com detalhes, já que eu saí do carro antes mesmo dele ter parado por completo. Eu estava realmente animado.

Como sempre, tive que forçar um pouco a porta para conseguir abri-la. Passei pelo corredor, indo direto para o porão, porém ao passar pela porta da cozinha eu notei um vulto. Parei na escada quando percebi isso e voltei. Quando eu entrei na cozinha, vi que o Kiku estava lá, deitado com a cabeça sobre a mesa, tal como eu encontrei Arthur hoje de manhã, a diferença é que Kiku parecia bem mais pálido.

Calmamente, eu me aproximei do japonês, ele parece nem ter notado a minha presença, eu toquei ele pelo ombro descoberto, assustando o quanto estava frio. Com o meu toque, ele parece ter despertado e olhou para mim, seu globo ocular estava incrivelmente vermelho, quando seu corpo inteiro se levantou, caiu de seu colo uma garrafa de antibióticos, vazio.

–Kiku! –Eu comecei a suar frio, o desespero começava a tomar conta de mim aos poucos. –O eu você fez?! –Eu peguei a garrafa do chão, sacudindo-a na vã tentativa de estar errado. –Jesus, Maria e José!

O corpo do japonês caiu mole e eu o segurei para que não chocasse no chão e segurei suas pernas, levantando-o, conforme ele ia fechando os olhos lentamente eu o sacudia com força para mantê-lo acordado. Eu corri para um lugar mais fresco como meu antigo quarto no segundo andar e sentei no chão empoeirado, deixando Kiku entre as minhas pernas. Seu corpo estava mole e frio, como um cadáver, o que denunciava que ele estaria vivo era sua respiração que quase sumia.

Por que ele fez isso? Será que ele não vê que eu o quero vivo? Sinto como se já o conhecesse a muito tempo, pois meu coração está disparado com a possibilidade dele morrer. Eu passei o dia inteiro pensando nele.

–Kiku! –Eu o sacudi mais forte quando ele ameaçou fechar os olhos novamente. –Vamos, Kiku, você tem que reagir. Você tem que vomitar.

Nesse momento, tomado pelo desespero, eu enfiei o meu dedo dentro a boca de Kiku o mais fundo da garganta que eu pude. Senti seu corpo estremecer nos meus braços e ele começou a tossir, mas não saiu mais do que uma placa de saliva, isso não é o suficiente. Foi apenas quando ele começou engasgar que eu tirei o dedo.

–Por favor, Kiku, não faz isso comigo. –Eu senti meus olhos encherem d’água, eu também tremia, estava muito nervoso. –Você tem que vomitar. Anda!

Abri a boca dele novamente e enfiei o dedo, dessa vez ele vomitou um pouco, mas engasgou com o próprio suco gástrico. Empurrei mais um pouco e ele inclinou a cabeça pra frente, vomitando loucamente no chão de madeira, um pouco caiu na minha calça, mas eu não ligo.

Em meio ao suco gástrico estavam todas as pílulas que ele havia engolido, eram inúmeras e incontáveis de imediato. Quando ele se recuperava do ataque aos poucos, eu o abracei e o apertei contra o meu peito, como se impedisse ele de sair. Foi quando o inesperado aconteceu. Eu comecei a sentir as lágrimas quentes caindo pela minha face, algo que eu nunca permitiria fazer na frente de alguém, mas a angústia era tanta que eu não consegui segurar.

Eu afagava os cabelos de ébano do japonês, escondendo meu rosto entre os fios oleosos, enquanto chorava como um bebê, permiti até mesmo soluçar.

–Alfred... –A voz empoeirada de Kiku chamou pela primeira vez e ele levantou a cabeça para me olhar. Também não me importei se ele me veria chorando.

–Não fale comigo, seu babaca. –Por mais que eu o insultasse, eu ainda abracei o seu corpo com força, não queria que ele ao menos se mexesse.

Ele abriu a boca para murmurar um fraco “desculpa” como sempre fazia, mas eu o cortei antes mesmo que ele conseguisse falar.

–Não, não peça desculpas, Kiku. –Falei entre soluços. –O que eu faria com suas desculpas se você morresse? –Dei uma pequena pausa para fungar e aproveitei para limpar o rosto com a manga do meu casaco. –Eu não quero te perder. Você é importante para mim e eu nem sei dizer porquê. Só sei que não vou te deixar morrer.

Kiku permaneceu me olhando incrédulo, enquanto minha crise de choro parava aos poucos, ainda algumas gotas de lágrimas caíram no rosto do japonês, porque ele ainda continuava firme nos meus braços. O corpo dele ainda continuava frio e estava anormalmente pálido, mas eu penso que seja somente efeito dele ter acabado de vomitar um vidro inteiro de antibióticos.

–Eu não sabia disso, Alfred... –Sussurrou ele com a mesma voz empoeirada, como se não falasse há anos.

–Agora você sabe. –Eu o atalhei rapidamente e o segurei, indo um pouco mais para trás, para afastar do vômito no chão, ele me acompanhou, mesmo que muito fraco. –E eu quero saber por que você fez isso.

Kiku me olhou nos olhos, relutante se deveria me contar ou não. Depois de alguns minutos refletindo, ele finalmente falou:

–Meus pais eram comunistas. Eu não sabia disso até pouco tempo, já crescido. O que explica bastante coisa confusa da minha infância. Eu nasci aqui e vivi na América até os cinco anos, quando inexplicavelmente meus pais me disseram que teríamos que voltar para Hiroshima, que é a cidade natal deles. Meu pai disse que era problema de negócios, para eu não perguntar sobre aquilo. –Kiku começou a esfregar as mãos nervosamente uma na outra, lutando para continuar. –Aos oito anos, ele apareceu na minha casa; Yao. Ele é filho de um amigo do papai e disse que me levaria para a América, eu só não entendia por que os meus pais não foram, até hoje não sei o que houve com eles. Não tive mais contato e foi o Yao quem me criou. Yao fugiu dos campos de concentração japoneses, eu fugi para não ver os meus sendo pegos pelo governo. –Os olhos café já estavam marejados e ele fez outra pausa para que chorasse, eu levantei a mão limpei seus olhos com o dedo. Ele respirou fundo e continuou. –Eu ainda não entendo nada disso direito, Alfred. Só sei que ele está preso e era eu quem devia estar. Eu estou tão preocupado com ele.

Eu fiquei em silêncio por vários minutos, apenas refletindo aquela história na minha cabeça. Também não sei muito sobre esse negócio de comunismo, mas Arthur havia me explicado que havia uma forte repressão do governo americano a quem pregasse aquela política. Comunismo é uma palavra proibida aqui nos Estados Unidos. Arthur também me contou que dois colegas dele foram presos pelo FBI em greves comunistas. Sempre preferi manter-me distância desses assuntos políticos.

Quando eu estava no segundo ano, um professor de História que eu gostava muito pregava o comunismo dizendo que era a liberdade e a igualdade. Duas semanas depois, o diretor disse que ele havia pedido demissão e proibiu nós alunos de correr atrás de alguma explicação, fiquei triste na época, porque gostava muito dele.

–Você precisa ser forte, Kiku. –Depois de bastante pensar, eu finalmente disse algo sério. –Ele não te ajudou a fugir dos monstros para que você se matasse depois. Eu estou aqui, estou te protegendo, cara.

–Eu não... Não suportei. Estou muito preocupado. As saudades me mata.

Parece que naquele instante, uma luz acendeu dentro de mim. Se eu fosse para a Força Aérea, eu conseguiria informações sobre as prisões no país, talvez conseguiria resgatar o irmão do Kiku. Acho que foi a primeira vez que eu pensei no exército como algo que pode ajudar outros povos e não o americano, como o código diz. Para isso eu teria que ser um ótimo recruta e ir para o Texas, mas isso valeria a pena mais tarde, certo?

–Kiku, se eu te ajudasse a achar o seu irmão. Mas você teria de ter paciência.

–Alfred, o que quer dizer? –Kiku olhou para mim, incrédulo, limpava com os dedo o restante das lágrimas.

Eu pensei em dizer a ele sobre o exército e tudo mais, mas eu não tive coragem. Daqui há dois meses eu teria que deixa-lo e ainda nem pensei em como o deixaria no tempo que eu estiver fora.

–Eu tenho um plano, mas vai levar um tempo.

–Eu não sei o que dizer, sinceramente. –Ele desviou o olhar e mordeu o lábio inferior. –É perigoso, mexer dessa maneira com o governo.

–Você tem que confiar em mim.

Nesse momento eu cheguei perto dele e pude ver o close de sua boca. Ah, como eu queria beijá-lo. Era quase como um desejo incontrolável. Quase. Pensei realmente em beijá-lo, mas ainda não sei como ele reagiria, ele é tão tímido.

Com esse pensamento eu ri. A primeira vez que eu ri de verdade, aquele dia não foi nada agradável, é um alívio que esteja chegando ao fim.

–Só me prometa que nunca mais fará aquilo de novo. Nunca. –Dei bastante ênfase na outra palavra, olhava diretamente nos olhos castanhos dele.

–Tudo bem, Alfred. Eu prometo. –Ele abaixou a cabeça, envergonhado.

Deus, como ele é fofo!

E como eu quero beijá-lo.

Notas finais
Então, o que acharam do capítulo? Sugestões, críticas e opiniões, tudo é bem vindo!