Um Mundo Assombrado Pelos Demônios
3 Conhecendo um pouco mais
Notas iniciais
Outono, 1929
Era um dia com uma chuva muito forte e ventos que poderiam levar uma criança de cinco anos se ela não estivesse atenta. Devido a esse detalhe a professora do kindergarten em um dos cantos de Seattle não deixou as crianças saírem para esperar os pais na saída, elas teriam que ficar dentro da classe e os pais as buscariam. Para evitar tumulto e bagunça, a professora passou um trabalho de pintura de dedos.
–Ei! Você é novo aqui, não é? Como se chama?
O garoto japonês de apenas quatro anos de idade levantou a cabeça, assustado com a invasão repentina em sua mesinha solitária.
–K-Kiku...
Kiku se sentia um intruso no jardim de infância, ele era o único garotinho entre os demais “americanos” que se destacava pelo seu olhinho quase fechado, e também pela dificuldade em entender a professora.
Ainda estava em processo de aprendizagem do inglês, portanto só sabia coisas simples como “obrigado” ou “qual é o seu nome?”, qualquer coisa mais complicada que isso confundia a cabeça do menino.
–Oi, Kiku! Eu sou Alfred! Vamos ser amigos? –O americano um ano mais velho pulava animadamente e sentou-se ao lado do imigrante, mesmo sem quer convidado.
–A-Amigos? –Kiku repetiu a palavra, mas não conseguiu identifica-la em seu tradutor dentro da cabeça, ele guardou a fonética para quando chegar em casa perguntaria ao seu pai, que tem mais experiência.
–Oba! –Comemorou Alfred, batendo palmas, ele ainda não sabia do problema do mais jovem quanto ao inglês. –Vamos brincar nos blocos.
Alfred apertou os dedos ao redor do pulso de Kiku e o tirou da sua pintura, arrastando-o para outro canto da classe, onde estavam os blocos. Eles brincaram bastante, alguns fragmentos das palavras de Alfred, o japonês não compreendia, quando isso acontecia ele apenas sorria, pois tinha vergonha de não saber o idioma dele.
Depois do primeiro dia, a amizade entre ambos floresceu. O resto do ano, dia após dia, eles brincavam juntos, apenas os dois. Sempre que Alfred falava uma palavra que Kiku não sabia, ele a guardava e pedia a tradução para o seu pai depois da aula, até o final do ano, Kiku havia melhorado consideravelmente em inglês.
Alfred gostava da companhia de Kiku, embora o outro fosse mais calado, apesar de tudo ele gostava de ouvir a voz do japonês, talvez porque o pequeno sempre concordava em participar de seus planos mirabolantes. O que o deixava chateado é que Kiku sempre levava a culpa, que resultava em uma sessão de dolorosas palmatórias no corredor.
Eles aproveitaram cada segundo daquele ano.
Porém no próximo ano, Kiku não voltou.
0o0
Eu observava Kiku comer o café da manhã tranquilamente na minha cama. Ele ainda estava recatado, sempre que notava os meus olhares, se encolhia de vergonha e voltava a bebericar o café, fazendo uma careta a cada gole.
–Você não gosta de café? –Eu não resisti e perguntei, isso depois, claro, de rir da reação dele ao beber mais um gole, como sempre, outra careta.
–Não é isso, eu gosto. –Ele desviou o olhar, envergonhado, bebendo mais o café. –É que eu tenho um paladar sensível, e...
–Ei, não precisa explicar para mim. –Eu sorri docemente.
–Desculpe.
Nenhuma palavra mais foi dita, por algum motivo eu não conseguia tirar os olhos de Kiku, os olhos dele, porém, estava vidrados lá fora. Desviei o olhar por um minuto, apenas para conferir o que ele olhava com tanta concentração. Apenas vi a rua coberta de neve, uma visão comum em Seattle, principalmente em dezembro. Os carros estacionados na rua já foram pintados pelo branco fofo, tanto como as calçadas e jardins das outras casas, inclusive a minha.
Suspirei alto ao perceber o trabalho que eu teria para raspar toda a neve da minha garagem. Quando fica uma camada muito espessa é impossível, parece blocos de cimento, difícil acreditar que tem uma textura tão fofa. As árvores desfolhadas também faziam parte da paisagem de inverno.
–É sanduíche de manteiga de amendoim e geleia. –A voz suave do japonês me tirou a atenção que eu nem percebi que tinha adquirido, agora meus olhos se voltaram para ele que analisava o pão de forma nas mãos.
–Você não gosta? –Perguntei com cautela. Sim, eu perguntava sempre se ele gostava da comida, porque ele era tímido demais para confessar que não gostou, mas eu quero agradá-lo, só isso. E para isso eu preciso saber do que ele gosta.
–Faz tempo que eu não como um. –Ele olhava de quando em quando para o pão e mordia, mas nunca nos meus olhos, me pergunto o que tem de errado comigo, pois ele evitava sempre me olhar.
Quando ele terminou de comer, eu olhei para o meu relógio e vi que faltavam dez minutos para o início das aulas, mas eu não iria para a escola hoje. Levantei-me da cama e fui até o pequeno rádio que eu tinha deixado na minha escrivaninha de madeira velha. O rádio, na verdade, teria que ficar na sala de estar, mas Arthur odeia ouvir. Segundo ele, está cansado de más notícias, mas eu sempre quis ouvir, pois quero saber como está a situação na Europa, tenho meus motivos, embora não seja compaixão coletiva.
Eu o liguei e fiquei girando a manivela até achar uma estação com menos estática, cheguei em uma onde falava sobre o presidente Roosevelt.
“O presidente Roosevelt, respondeu a atmosfera do país e ordenou que os japoneses fossem detidos. Até mesmo aqueles nascidos e criados na América estão sendo enviados aos acampamentos de relocalização...”
Desliguei o rádio sem sequer deixar o âncora terminar de falar, eu dei uma breve olhada para Kiku que tinha um olhar melancólico em seu rosto. Como eu sou idiota, já devia ter imaginado que falariam disso, já que o único assunto do rádio é o episódio de Pearl Harbor.
Para ser sincero, sei o que acontecerá comigo se me pegarem escondendo um japonês, eu não sou burro. Não vou dizer também que amo fazer a coisa errada, cresci com um sentimento muito forte de patriotismo, pois meu pai servia ao exército, então eu aprendi a amar e respeitar as regras do meu país, esperando ano após ano agoniante apenas para chegar aos dezoito anos e me alistar ao exército. Mas ao mesmo tempo eu olho nos olhos cor de café de Kiku e sinto algo que eu não sei explicar, ele é tão inocente, vejo no brilho dos seus olhos que ele não teria coragem de machucar sequer uma mosca, a frase dita pelo presidente “todos os japoneses são suspeitos” acaba de se quebrar no momento que eu conheci Kiku.
Então, se me perguntarem, eu estou mesmo disposto a ajudá-lo. Não vou deixar que o FBI, nem qualquer outro órgão governamental toque em um fio de cabelo do Kiku, mas eu estava sozinho, com certeza Arthur não concordaria comigo, além de odiar japoneses, odiaria me ver arriscar, sendo que ainda sou uma criança aos seus olhos.
Eu não sou criança.
Em poucas semanas eu estaria completando dezoito anos. É uma idade decisiva para a maioria dos meus colegas e amigos, mas para mim não. Nunca me questionei sequer o que eu faria depois da escola, apenas tinha a certeza que me alistaria no exército, sem ao menos saber se eu realmente seria aceito, eu nunca tive um plano B.
–Kiku, venha comigo. –Eu o chamei com o tom diferente ainda por estar chateado dentro dos meus próprios pensamentos. Desci as escadas ouvindo os doces passos do japonês atrás de mim, mas eu estava sério.
Segurei a chave do carro com força entre os meus dedos, sabendo que essa seria minha última chance para pensar no que realmente eu estou fazendo. A partir do momento que eu sair por aquela porta, estarei entrando em um caminho sem saída. Olhei para Kiku, seus olhos ainda emanavam tristeza e preocupação.
Andei até ele lentamente e parei pouco centímetros do seu rosto, ele não recuou como normalmente fazia, ficou parado e levantou o rosto para olhar nos meus olhos. Era a primeira vez que eu fazia uma análise tão profunda, haviam mágoa e desespero, mas não medo.
–Você vai mesmo confiar em alguém que conheceu na noite passada? –Acho que essa foi a pergunta mais séria que eu já fiz na minha vida.
–Não é questão de confiar ou não, Alfred. –Ele tentou desviar o rosto, mas eu o segurei e o fiz olhar nos meus olhos para falar, isso dava angústia nele. –Eu não sou mais bem-vindo nesse país, onde quer que eu vá, me sentirei um intruso, eu não posso mais embora, porque as autoridades não vão deixar. –Ele se aproximou de mim, o aro de seus olhos inundando. –Não tenho ninguém para me amparar, se eu tiver você, terei um amigo, mas se não tiver, não mudará o meu destino, então quero me arriscar.
Eu o puxei para mim e o abracei, ele não retribuiu, mas também não se afastou. Apenas ficou parado, não emitia um único som, eu encostei o queixo dos seus cabelos ébano e continuei o abraçando por alguns minutos, eu finalmente desisti de esperar algum tipo de reação dele e o soltei.
–Venha, vou te levar a um lugar.
Ele me seguiu silenciosamente até o carro, era um modelo britânico cor prateado, é um dos melhores carros da atualidade. Eu entrei no banco do motorista e, como era um carro inglês, a direção fica do lado oposto, demorei a me acostumar com isso. Kiku sentou ao meu lado, ainda calado. Dei a partida no carro e comecei a dirigir pelas ruas asfaltadas de Seattle.
Foi inevitável passar por uma rua oriental, afinal, eu teria que me afastar ao máximo da minha escola, para não correr o risco de ninguém me ver. Estava um vazio mórbido como uma cidade fantasma, as lojas com escrita oriental pichadas com palavrões e desenhos obscenos que não me convém falar. Além do vidro das vitrines espalhados pela rua. Kiku não suportava ver aquilo, ele abaixou a cabeça, cerrou os olhos, desviou o olhar para qualquer coisa no carro para não olhar o que estava lá fora. Eu aceleirei para sair dali o mais rápido possível, embora a rua se estendesse por mais uns trinta metros.
Algumas lojas ainda ousavam a ficarem abertas, embora saibamos que é só questão de tempo até que o FBI aparecesse lá para despachar a família. Alguns japoneses endinheirados emigraram, mas foi só uma questão de tempo até que as autoridades cercassem os portos, tal como fazem com algum suspeito de crime. Todos os japoneses eram suspeitos.
Senti um alívio desesperador quando eu saí da cidade, na rodovia, queria muito ter passado em algum lugar e comprado alguma coisa para comer, pois eu estava com fome. Mas a última coisa que eu poderia fazer agora é me arriscar.
Eu dirigi por mais ou menos meia hora e estava cansado, eu nunca dirigi tanto dessa maneira. Às vezes eu dirigia para a escola quando eu estou muito atrasado por acordar tarde ou para ver alguma garota ao cinema, mas nunca peguei a estrada, é cansativo e seu braço parece que fica dormente.
–Me desculpe, Alfred... –Foi a primeira vez que eu ouvi a voz de Kiku durante todo o percurso. –Eu não sei dirigir, queria poder ajudá-lo.
–Não tem problema. –Eu sorri pra ele, mas logo voltei meu olhar para a estrada, ultrapassando um carro que estava na minha frente. As ultrapassagens na estrada são mais perigosas do que na cidade, isso me deixa nervoso. –Só fale comigo, está bem? Para me manter alerta.
–E do que gostaria de falar? –Ele pareceu animado em me ajudar.
–Me conta mais sobre a sua vida. –De repente todo o cansaço dissipou-se, eu estava curioso para saber mais do japonês no qual eu estou arriscando a vida.
–Minha vida? –Ele repetiu e eu confirmei. –Eu não sei, eu... Ainda não te conheço bem, fico desconfortável de falar da minha vida, me desculpe.
–Tudo bem, então eu começo. –Antes de falar eu ultrapassei um caminhão. –Meu nome completo é Alfred F. Jones, eu farei dezoito anos dia quinze de janeiro, e estou no terceiro ano do ensino médio. Sua vez.
–E-Eh? O-Ok... –Ele pensou um pouco no que iria falar e pigarreou. –Meu nome completo é Honda Kiku, no meu país é comum usar o sobrenome na frente do nome...
–O quê?! –Eu o cortei rapidamente, com uma expressão abismada. –Que estranho! Por que isso? Eles acham que todo cidadão japonês é soldado? –Ele riu, eu fiquei feliz em ouvir o seu riso pela primeira vez.
–Não é isso. Você reconhece uma pessoa pela sua família. O sobrenome representa a sua família e ao mesmo tempo o que ela representa para a sociedade.
–Mas e os sobrenomes iguais? Quero dizer, se começarem a me chamar só de Jones vão achar que eu sou parente de Gareth Jones¹.
Kiku riu novamente, um riso mais aberto e alto.
–Gareth Jones?
–É, foi um jornalista que o Arthur adorava ouvir no rádio, ele era lá das terras do Arthur, eu não sei o nome do lugar. Mas era chato, sua voz era monótona, eu sempre dormia, mas depois o Arthur me dava uma surra com palmatória.
Desta vez, da sua boca saiu uma gargalhada, alta e forte. Eu admirava a beleza de seu sorriso, não é nada se compara.
–Você já levou surra com palmatória? –Ele perguntou com um sorriso nos lábios pós-riso, acho que ele acha engraçado a minha desgraça.
–Nossa, já perdi até a conta. Da escola, do meu pai, do Arthur... Eu sempre fui muito custoso.
–É, eu já percebi. –E ele ria mais.
–E você?
–Não, eu sou um bom garoto. Mas eu levava umas surras no jardim da infância.
–Eu também! Foi a minha pior época, doía pra caramba.
Ele continuou a rir e conversamos fiado até que eu cheguei ao meu destino, era uma fazenda que pertencia ao meu pai, ficava a sul de Seattle, mais perto de uma vilazinha sem nome do que da própria Seattle, estava abandonada desde que começou a guerra. Era uma cabana que, embora esteja firme, a madeira estava putrefata e descascando, não era o lugar mais confortável da Terra, mas sei que ninguém procuraria aqui, já que o local está tido como abandonado, embora estivesse no meu nome.
Havia um porão também, com paredes de aço, meu pai construiu em 1920, nunca pensamos em fins como hoje, que é para proteger de bombardeiros, esse porão foi feito apenas para guardar mantimentos, manter o frescor do alimento, mas agora tenho outra finalidade para ele.
É, parece que a guerra só está começando.
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