Um Mundo Assombrado Pelos Demônios
4 Fumaça do beijo
Notas iniciais
Tratei de me certificar de que não havia ninguém nos observando. Sabe, quando você está fazendo algo que vai contra as regras, principalmente quando sua liberdade está em jogo, você fica paranoico. Eu sentia como se alguém me olhasse atrás das árvores escuras, embora eu saiba que era minha mente me pregando uma peça.
O lugar é isolado, coberto por floresta em ambos os lados, as únicas pessoas que passassem, talvez, são de carro. Tinha uma leve neblina cobrindo a rodovia, no céu havia densas nuvens, mais tarde nevaria, com certeza.
A casa não é lá grande coisa, lembro-me que quando eu era criança, meu pai me trazia constantemente para cá. Ele gostava daqui mais do que a cidade, algo como ar puro. Tinha apenas uma cozinha e um quarto, fora o porão que eu mencionei, a latrina ficava do lado de fora, em uma distância perigosa da casa. Janela, só havia no piso térreo, onde ficava a cozinha, no andar de cima e o porão eram desprovidos de luz natural, não sei se isso é bom ou ruim. Bom porque ninguém poderia ver um japonês através da janela.
De qualquer forma, o lugar estava abandonado, não vim aqui desde que meu pai foi mandando para a guerra.
Abri a porta para Kiku, antes olhei bem nos dois lados pela terceira vez. Apertei o pulso firmemente nos meus dedos e sai correndo para dentro da casinha, sem sequer me preocupar em fechar a porta do carro. Cheguei até a porta de madeira roída por cupins, tive que forçar um pouco e quando finalmente se abriu, veio um amontoado de poeira voando ao redor de nós.
Kiku deu um espirro.
–Saúde. –Eu respondi e ele fungou.
–Obrigado. –Ele abriu um pequeno sorriso vendo seu nariz ficar vermelho.
Logo no corredor do lado esquerdo, havia uma porta, ao abrir essa porta já não tive tanta dificuldade, embora ela estivesse um pouco enferrujada. Sinto que se eu forçasse um pouco mais era capaz da madeira desfazer em meus dedos. O lugar estava um breu total que eu não conseguia ver os degraus da escada, embora eu saiba que ela estava lá devido as minhas memórias.
Do lado de dentro ao lado da porta havia uma estande de madeira e sobre ela, um lampião cheio de querosene. Eu o segurei pelo cabo e risquei um fósforo que estava em meu bolso, o motivo de eu portar fósforos é um segredo que eu contarei mais tarde, acendi o lampião. Embora não estivesse confortavelmente iluminado, eu podia ver os degraus e segurei firme na mão de Kiku, guiando-o.
Como dois cegos, ele segurou nos meus ombros, enquanto eu descia. A madeira rangia dependendo do peso que nós aplicávamos e quando o barulho era muito alto, eu sentia a mão em meu casaco se apertar.
Eu pus os pés finalmente no chão, quando eu ouvi um baque e quando me virei, só pude sentir o peso de Kiku nos meus braços. Arregalei os olhos ao pensar que ele teria desmaiado ou algo assim, mas suspirei aliviado quando ouvi um som escapar de seus lábios. Eu o ajudei a ficar de pé novamente, mas ele gemeu de dor.
–Está tudo bem? –Eu perguntei rodeando sua cintura com os meus braços, deixei o lampião em um dos pregos soltos na parede.
–Eu tropecei. –Sua voz veio suave, foi quando eu percebi o quanto seu rosto estava perto do meu. Seus dedos finos apertaram ao redor das minhas omoplatas. –Acho que torci o pé. Me desculpe.
–Sabe, você deveria parar de pedir desculpas toda hora. –Eu respondi ajudando-o a andar pelo local escuro.
–É uma mania minha. Me desculpe.
–Viu? De novo. –Eu ri. Não podia ver o seu rosto, mas pelo modo que ele ficou calado, conclui que tinha um rubor nas maçãs do rosto, imaginar essa cena é tão bonito. Ele é realmente muito fofo quando está envergonhado.
Eu o arrastei até debaixo da escada onde havia um colchão, afastei algumas latas de tinta do caminho e balancei o colchão. Uma camada espessa de poeira tomou conta do ar e eu me afastar, tossindo. Os meus óculos protegeram as partículas de poeira de entrar nos meus olhos. Atrás de mim Kiku iniciou um acesso de espirros fortes e sem pausa.
–D-Desculpa! –Eu gritei olhando para o japonês, ouvindo os espirros cada vez mais fortes.
–T-Tudo bem. –Espirro. –Eu sou só um pouco –Espirro. –alérgico.
–Sinto muito, mas é o único colchão da casa. Não posso correr o risco de comprar outro e alguém desconfiar...
–É mais do que eu mereço. –Respondeu limpando o nariz que agora escorria depois de finalmente acabar a crise de espirros.
–Não devia se considerar tão inferior. –Eu segurei em sua mão e o puxei para sentar no colchão, fui até o local onde eu deixei o lampião e o peguei, voltando para o colchão e me sentando ao lado de Kiku.
Foi a primeira vez que eu vi o seu rosto, embora tão precariamente. Mas em minha mente eu consegui desenhar perfeitamente todos os detalhes daquele rosto tão perfeito. Quando eu o conheci, me lembro perfeitamente que não tinha nenhum brilho em seus olhos, mas agora isso mudou, os lábios finos e rachados ainda machucados por aquela noite e o nariz fino que agora estava vermelho com a alergia a toda aquela poeira.
De repente eu me lembrei de uma coisa, movi o lampião para a parede de tijolo, havia um buraco que eu e meu pai fizemos quando eu tinha dez anos, servia para guardar coisas, inclusive algo que faz parte do meu cotidiano. Mas o Arthur não sabia, nem podia saber. Senão ele me daria uma surra das boas.
De lá eu tirei alguns papéis brancos e um saquinho de fumo.
Sim, quando eu era pequeno, meu passatempo era enrolar cigarros com o meu pai no porão. E depois fumá-los, lógico. Por isso eu sempre carrego um fósforo comigo.
Não me entendam mal, não saio por ai fumando qualquer coisa que me ofereçam, é algo pessoal. Gosto de fumar apenas os cigarros que eu mesmo enrolo, ou o meu pai, porém o meu pai carregava mais no recheio e deixava o cigarro mais forte.
–O que é isso? –Kiku perguntou esticando o pescoço para olhar o que havia na minha mão.
–Que isso, japinha? –Eu respondi com um sorriso maroto. –Você é bem curioso, não?
A luz dourada do lampião iluminou o rosto do japonês que ficou da cor de um tomate, já não conseguia identificar o que era a luz artificial ou o que era vergonha de Kiku.
–E-Eu... eu... eu... –Ele ficou repetindo a mesma palavra por mais umas cinco vezes como um disco arranhado, procurando as demais palavras que lhe fugiam a garganta. Meu sorriso só se alargou ainda mais com a confusão dele.
–É fumo. –Eu aproximei o saquinho mais perto do seu rosto para que a iluminação deixasse-o ver.
Eu recortei o papel em quatro pedaços com a mão e deixei os outros pedaços de lado, segurando só um na palma da mão, com a outra eu peguei um pouco de fumo do saquinho e recheei em linha reta o papel de modo que não ficasse uma camada muito grossa e enrolei deixando algumas folhinhas de fumo transbordassem, usei a minha saliva para colar uma ponta de papel a outra.
Depois de outro papel, esse era diferente pois tinha uma textura mais esponjosa também a parte de trás do cigarro, e a esponja traria a essência do fumo, deliciosa e doce.
–Quer uma primeira vez? –Eu ofereci o cigarro recém-feito para o japonês que olhou para o objeto assustado.
–E-Eu n-nunca f-fiz isso a-antes. –Ele falava com uma enorme quantidade de gagueira, como se estivesse fazendo algo terrível. Sinceramente, se esconder das autoridades já é um crime bem maior do que fumar um simples cigarro feito à mão.
–Eu não estou te obrigando. –Tranquilizei-o, mas mesmo assim dois dedos finos seguraram o cigarro entre eles, ele ainda olhava para o bastão de fumo como se fosse alguma bomba ou algo assim.
–Tudo bem. –Foi sua palavra final, mas ele ainda tremulava.
Apenas dei de ombros e busquei no bolso da minha calça a caixa de fósforos que eu trouxe de casa, peguei um e risquei na parede até pegar fogo, então encostei na ponta do cigarro até ele acender um pequeno brilho amarelo surgiu e Kiku recuou assustado, mesmo ainda estando com o cigarro entre os dedos.
–E o que eu faço? –Perguntou, eu sempre ria com o jeito que ele parece uma criança que acaba de descobrir o mundo.
–Coloca entre os lábios e suga. –Tirei o cigarro de seus dedos e levei até sua boca, deixando-o lá preparado para ele. –Só não engole a fumaça, solte com a boca.
Ele assentiu e fez como eu lhe disse, mas na hora de soltar a fumaça ele não o fez, em vez disso a engoliu. Normal, todos fazem isso na primeira vez, realmente é difícil segurar a fumaça na boca até conseguir soprá-la.
–Droga! –Gritou o japonês deixando o fumo cair em seu colo, eu rapidamente o peguei antes que a chama se apagasse. –Meu pulmão. –Ele colocou a mão no peito e começou a tossir violentamente.
Levei o cigarro em minha própria boca tragando e soltando a fumaça como deveria ser. Kiku levantou a cabeça e eu pude ver seus olhos cor de café lacrimejando pela dor que provavelmente estava em seu peito.
–Isso queima! –Ele dizia as frases recortadas entre as tosses e limpar a garganta do gosto horrível do cigarro. Realmente, não é nada agradável engolir a fumaça, mas eu havia avisado a ele.
Eu continuei tragando o fumo sem o menor problema. Se quer saber, a sensação de queimação no pulmão nunca passa, no começo ela é uma dor incomoda e cruel. Mas o tempo passa, você se acostuma. E aquilo que parecia que ia te matar no começo se torna algo doce que você precisa sentir todos os dias. Sim, esse é o vício.
–Calma, bebê. –Eu debochei com um tom proposital de criança, tal como aquelas mães falam com seus bebês. –Eu vou trazer o leitinho morno parar passar o dodói. –E ainda fiz um beicinho para debochar ainda mais.
–Para com isso! –Ele gritou e se aproximou de mim, me empurrado, mas é claro que eu nem saí do lugar. –Eu sou sensível.
–É, crianças também são sensíveis, benzinho. –Dei um sorriso amarelo para ele, sabendo que eu estava tocando em um ponto fraco que ele tinha.
–Não sou criança. –Ele pulou do colchão, nervoso. –Sou quase um adulto.
–Claro. –Rolei os olhos. –Você não consegue tomar uma caneca de café ou simplesmente fumar um cigarro, tudo o que todo adulto normal faz.
–Então, se é isso que eu preciso fazer para ser adulto. –Meu sorriso se alargou tanto que eu senti dores na mandíbula, tudo estava caminhando direto para onde eu queria que chegasse. –Então me dá isso, eu posso fumar isso inteiro. –Ele pediu determinado.
Segurei o papel entre o dedo indicador e médio, lambendo os lábios, preparando o que eu estava querendo falar há algum tempo.
–Vamos fazer uma aposta.
–Aposta? –Ele repetiu o termo e eu confirmei, dando um último trago, o cigarro estava quase na metade e eu jogava as cinzas no mesmo buraco onde ficava o conteúdo. Depois deixei o cigarro novamente em suas delicadas mãos.
–É, se não conseguir fumar tudo, vai ter que me dar um beijo. –Conclui com um sorriso exibindo perversão.
–B-Beijo?
–Na boca.
–B-Boca?! –Ele arregalou os olhos, eu ri com o susto dele.
–Claro, gracinha. Beijinho no rosto é coisa de criança e se você não conseguir fumar tudo, terá que provar que é um adulto de outro jeito. Adultos beijam na boca.
Eu o senti ficar um pouco ansioso, novamente conclui que ele nunca beijou antes ou se sentia desconfortável por eu ser um homem. Dos dois, uma. Mas para mim isso não importava, eu queria arrancar um beijo daqueles lábios que parecem favos de mel.
–Ai! –Ele gritou quando sentiu um pouco de fumo queimado cair no seu dedo, deve ter colocado ele de volta na realidade. –Tudo bem. –Eu sorri vitorioso.
Ele colocou o cigarro de volta entre os lábios rosados e começou a sugar. Levou umas três ou quatro tragadas até que ele aprendesse a soltar a fumaça direito, algumas vezes ele ainda prendia um pouco de fumaça na boca e puxava mais um pouco. O que resultava em seu pulmão parcialmente queimado. A cada tragada, também, ele fazia uma careta fofa e engraçada. A querosene do lampião ia acabando aos poucos e pare economizar eu abaixei o fogo, mesmo contragosto, pois com o fogo abaixado eu não poderia ver as caretas de Kiku.
Eu levava em média de dez a quinze minutos para fumar completamente o cigarro, Kiku levou no mínimo uns quarenta. Isso porque ele sempre fazia intervalos para tossir ou fazer caretas, também murmurava algumas palavras em japonês, embora eu não soubesse do que se tratava, sinto que é algum tipo de insulto para mim.
Bom, levou tempo.
Mas ele conseguiu terminar o cigarro.
–Oh, eu consegui. –Sussurrou ele mais aliviado do que vitorioso. Ele ainda arfava um pouco, tossindo um pouco de fumaça. –Argh. –Ele segurou a garganta. –Minha boca está com gosto de fumaça. –Reclamou fazendo uma careta enojada.
–É, eu quero provar.
–Como você...
Ele nem teve tempo de completar a frase, pois eu praticamente pulei em cima dele, prendendo-o contra o colchão e segurei ambos os pulsos dele forçando-os também no colchão. Eu me aproximei perigosamente do seu rosto, plantando beijos pelo rosto, a testa e o queixo, mas ainda não a boca. Pois sempre que eu tentava, ele virava o rosto ou apertava os lábios para dentro.
–Ainda quero um beijo seu. –Eu fiz beicinho, tentando mais uma vez, mas ele virou o rosto para a direita e eu acabei beijando sua bochecha.
–Não! Você perdeu! –Ele tentava escapar das minhas garras, eu não apertava tão forte para deixar uma marca, mas mesmo assim ele não conseguiria escapar.
–Vamos, é só um beijo! –Eu ainda tentava argumentar, dando mais um beijo, mas ele abaixou a cabeça, me fazendo beijar o seu nariz.
–Alfred, não! –Ele tentou lutar pateticamente. –Me deixa ir! –Eu ria da forma que ele tentava forçar o pulso, porém sem sucesso.
Dessa vez fui eu quem desisti, embora eu não seja de me render e o soltei. Mas quem disse que eu me rendi? Eu ainda queria um beijo de Kiku e eu iria conseguir, pode ter certeza. Ele sentou novamente no colchão e tampou a boca com as duas mãos, me olhando como se eu fosse uma fera. E eu gargalhei, uma risada típica de vilões de filmes.
–Eu ainda vou ter um beijo seu, Honda.
Ele me olhava assustado, mas creio que não seja o assustado de pavor, mas um assustado de vergonha. Balançou a cabeça para os lados freneticamente.
Eu ria ainda mais alto quando senti meu estômago roncar. É, eu não sei quanto tempo eu estou nesse porão, já deve ter passado do horário escolar e eu posso colocar minha cara na cidade sem me preocupar se algum policial vá me pegar cabulando aula e me dar uma surra de cassetete, me entregar ao Arthur para ele me dar outra surra de palmatória.
–Bom, eu vou na cidade buscar alguma coisa para nós comermos.
Não esperei que ele me respondesse, ele não iria também. Estava ocupado morrendo de vergonha com a mão ainda na boca. Eu subi as escadas, dessa vez tive facilidade por lembrar da distância entre os degraus. Quando cheguei à superfície me encolhi levemente a repentina luz que penetrou os meus óculos.
O céu estava uma mistura insana de alaranjado, amarelo e vermelho. As nuvens pesadas estavam roxas e haviam diminuído de quantidade, embora ainda houvessem muitas. Quando botei o pé para fora da casinha, senti a neve macia e espessa no meu calçado, provando que minha previsão do tempo se tornara realidade.
Entrei no carro do Arthur e dei ré até chegar a rodovia, me certifiquei que não havia nenhum carro para passar e comecei a dirigir na pista que leva para a cidade. A rodovia estava deserta e o que me atrasava, porém, é a densa neblina que tinha devido à recente tempestade de neve.
Eu dirigi por uns vinte minutos até avistar uma lanchonete à beira da estrada. O nome não importa, porque eu estava faminto. Procurei alguma vaga no estacionamento e achei ao lado de dois conversíveis, respirei fundo, pois ainda tinha dificuldade em estacionar assim tão estreito. Mas eu consegui depois de uns três minutos.
Na lanchonete vendia hambúrgueres grelhados por quinze cents. Eu pedi dois para mim e um para o Kiku, junto com uma porção grande de batatas fritas e dois copos de Coca-Cola, me dava água na boca só se ouvir a gordura fritando as batatas fritas, eu estava com muita fome. Realmente, eu nunca fiquei tanto tempo sem comida. Quando o lanche chegou, eu segurei o pacote e levei para o carro onde deixei cuidadosamente sobre o banco do passageiro. Foram mais vinte minutos até chegar de volta a fazenda.
No momento que eu pus os pés na grama coberta de neve novamente, começou a nevar, fiquei um pouco preocupado com o clima à noite, principalmente porque o porão é naturalmente frio. Talvez há algumas mantas empoeiradas no quarto, mesmo assim eu fico preocupado. Caminhei de volta para dentro da casa e para o porão, novamente eu não precisei de lampião para enxergar, embora eu estranhasse a escuridão.
Quando cheguei ao canto onde estava o colchão eu percebi que o aumento da escuridão foi porque o lampião estava apagado.
–Kiku? –Eu chamei com meu coração apertando com o silêncio.
–A-Aqui... –Kiku respondeu e eu pude soltar um suspiro aliviado, eu me sentei ao lado dele no colchão, percebendo a diferença na sua voz.
–O que houve? A querosene acabou? –Eu perguntei com cautela e levei minha mão ao lampião, mas a mão dele segurou a minha me impedindo.
–Não faça isso. –Finalmente identifiquei que o estranho na sua voz era o fato dele estar chorando, só confirmei isso quando ele fungou. –Eu não quero que me veja –Soluçou. –...chorar.
–O que aconteceu? –Eu levantei a minha mão para acariciar seus cabelos, foi fácil identificá-los, pois eles brilhavam ainda mais no escuro.
Ele começou a chorar novamente, não respondendo a minha pergunta, apenas me deixou ainda mais preocupado, então eu passei os braços ao redor dos seus ombros magros e o trouxe até o meu corpo, onde o abracei docemente. Ele chorava na minha camisa como da primeira vez, mas dessa vez ele não sussurrava nada, apenas chorava e soluçava. Eu o mantive nos meus braços até que ele se acalmasse, então ele se afastou um pouco e olhou para o meu rosto, não conseguia ver com clareza, mas soube pelos pontos marrons-terra.
–Eu estava apenas sonhando acordado. –Disse simplesmente, fungou mais uma vez, mas não chorava mais.
–Com o que sonhava?
–Não sei se estou pronto para contar...
Permaneci em silêncio, normalmente eu insistiria como um louco até que a pessoa me contasse, mas algo me disse que era algo sério, portanto eu não queria deixa-lo mais triste do que estava.
Passando alguns minutos até que ele se acalmou completamente, nós comemos. Quero dizer, ele comeu metade de um hambúrguer só. Eu comi dois e a metade dele, eu não iria jogar comida fora e a porção de batata frita. Ele me disse que não tinha muito apetite, até insisti, mas ele ainda estava meio abalado, então deixei quieto.
Subi mais uma vez para a superfície apenas para ver que tudo já escureceu, mordi o lábio inferior sabendo que eu não devia ficar mais tempo ali, mas ao mesmo tempo eu não queria ir embora, ficar com o Kiku me deixa tão bem. Enquanto eu estiver fora só pensarei nele e se ele está bem.
Como eu supunha, havia algumas mantas no quarto, embora estejam cobertas por uma cama espessa de poeira, eu sacudi-as no ar para expulsar a poeira e voltei ao porão.
–Eu trouxe algumas mantas a mais para te esquentar, parece que essa noite o frio vai ser rigoroso. –Eu deduzi com seriedade, jogando as mantas em cima do japonês.
–Obrigado, Alfred... –Agradeceu. Eu não podia vê-lo, mas tenho certeza que um sorriso estava nos lábios dele.
–Você pode me agradecer com um beijo. –Conclui zombeteiro tirando totalmente minha carranca séria anterior.
–Não! –Eu ri.
–Um dia.
–Vá sonhando.
E eu ri mais um pouco.
–Até logo, Kiku.
–Até logo, Alfred.
E subi as escadas pela terceira vez. Sabe qual é a sensação de você se despedir de uma pessoa sem saber se vai vê-la outra vez? Eu não quero explicar, porque não tem palavras. Só que não é nada agradável. Os tempos estão mudando aos poucos, o céu cinza que dizem estar pairando sobre a Europa está chegando a América.
Levei mais de uma hora para chegar em Seattle, devido ao denso nevoeiro, tive que reduzir bastante a velocidade e ficar muito atento, teria que repetir essa rotina todos os dias agora, mas teria que incluir pelo menos a escola para não levantar suspeitas. Estacionei na minha garagem e entrei pela porta que dá a cozinha.
O que me esperava era o Arthur sentado à mesa. Com suas pernas cruzadas e a testa enrugada em uma mistura de fúria e preocupação. Eu sabia.
Que estava muito encrencado.
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